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Nepal 2005


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  • Membros de Honra

Ôpa, Vinícius!

 

Valeu pelo retorno. É bom saber que alguém está apreciando nosso trabalho e couro deixado nas trilhas do Nepal. Mal posso esperar para ver seu trabalho terminado. Cetrza que será show de bola.

 

Agora, outro dia:

 

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09bchomoanamcheentradaparqueev.jpg

Nossa triunfante entrada no Parque Nacional Sagarmatha.

 

Dia 09

 

A noite em Chomoa foi boa e tivemos a oportunidade de entrar em contato com uma das ocorrências mais típicas do Nepal: os grupos organizados. No caminho de Jiri, nos encontramos com um grupo, mas eram apenas amigos que contrataram um guia. UM guia. Eram pessoas legais e eram máquinas de caminhar. Eles estavam a dias à nossa frente e quando chegamos a Pangboche, vila ainda há muitos dias de Lukla, voltamos a cruzar com dois membros desse grupo, VOLTANDO do trek.

 

Voltando ao assunto, os grupos organizados são... estranhos. E peço desculpas em antecipação se disser algo que vá ofender alguém adepto desse... estilo de trek. Sei que esse tipo de assunto é bastante sensível. Contratar guias, carregadores, pechinchar nas pensões, ir em grupos, independente ou por que cargas d?água você resolveu ir ao Nepal se tão perto de você, no seu próprio país, há centenas de belos lugares para visitar e caminhar. Tudo são questões pessoais que devem ser adotadas ou recusadas de acordo com o estilo de cada um. Não creio que caiba a qualquer um emitir julgamentos nesse campo, se não há prejuízo para terceiros ou para o meio ambiente. Então o que direi é minha opinião pessoal, óbvio. Só serve prá mim e mais ninguém.

 

Entendo a contratação de agências para organizar suas aventuras, ainda mais se ela envolver tópicos para os quais não estamos preparados ou não podemos tratar de alguma forma. Pessoalmente acho que isso retira um tanto da realização pessoal, da satisfação de ultrapassar obstáculos. Enfim, o que não consegui superar foi ver esses chamados grupos organizados, que são as pessoas que pagam às agências de turismo lhe arranjarem TUDO para o trek, se comportando nos alojamentos como se estivessem a fazer algo muito selvagem num lugar muito selvagem, numa clara atuação de que são trekkers fazendo uma expedição extrema. Chega a ser cômico assistir à esses espetáculos, de tal forma que não chego a perceber se eles estão tentando se convencer que estão realizando uma gigantesca aventura ou se estão se exibindo para quem estiver assistindo, isto é, nós.

 

O grupo que encontramos na pensão de Chomoa devia estar um tanto desapontado pela magra audiência que tinham no seu alojamento. Apenas Marcéu e eu, ambos aguardando famintos que a janta chegasse. Mas eles armaram o circo de qualquer forma, então tivemos de ouvir pelas próximas duas horas o quanto eles eram ?extremos? (para citar suas palavras), a grande e selvagem aventura que tinham vivido nas últimas duas semanas ao irem ao EBC E Kala Pattar (por favor, reparem com cuidado no ?E?, pois eles tiveram muito cuidado em enfatizá-lo, talvez na esperança que algum dia alguém, tipo eu, pudesse espalhar esse impressionante feito mais tarde, o que procuro fazer, devotamente, agora), o espantoso total de quilômetros eles subiram e desceram desde Lukla, colhidos e gravados fielmente por um dos membros que possuía uma enorme máquina no pulso para esse propósito e sim, por favor, nós aceitamos um pouco mais de chá e biscoitos, servidos por uns quatro rapazes locais que os serviam, enquanto o resto da armada que os servia estava lá fora, armando-lhes as tendas e preparando-lhes o jantar.

 

Ora bem, esse tipo de grupo são apanhados no aeroporto de Kathmandu e não tem de se preocupar com nada. São postos num hotel previamente arranjado. São postos num avião para Lukla. São apanhados lá e postos numa pensão já arranjada. Suas coisas são carregados por outros e seguem os passos dos guias sem darem dois passos sem os mesmos. Durante todo trek, onde ficarão, onde irão, o que verão e comerão, tudo está pré-determinado. Suas tendas são armadas por outros. Suas refeições são cuidadas por outros, inclusive o pedi-las e servi-las. Quero dizer, o que raios essas pessoas fazem?

 

Deixando Chomoa e seus bravos hóspedes aventureiros para trás escovando seus dentes numa baciazinha de água morna, uma para cada, dispostas num murozinho, com toalhinhas e sabonete ao lado, tudo preparado pelos seus serviçais, seguimos para a próxima vila, Monjo. O Sol estava nascendo algures por essa hora e tínhamos subido uma não tão simpática bom-dia-encosta, por isso achei que seria uma boa desculpa de parar para descansar se eu fizesse de conta que estava interessado em fotografar a montanha em frente, a qual não saiu grande coisa, pois como eu disse o Sol estava ainda para sair de trás de alguma montanha e o fotógrafo, eu, não é grande coisa.

 

Em Monjo vimos alguns trekkers a acordar e sair dos alojamentos. Achei que estavam a sair, pois nos saudaram com um ?namastê?, mas não tive tempo de parar para conversar e saber, pois estava muito ocupado tentando desesperadamente ficar perto de Marcéu, de maneira a entrarmos juntos no parque (o Parque Nacional Sagarmatha, claro). Tal empreitada exigia-me apreciável montante de energia e realizei com horror que eu teria o resto dia consideravelmente fud*** mais tarde por causa disso. Grandes gastos de energia pela manhã = arrastar-se pelas encostas pela tarde, por falta de forças.

 

Com tais felizes pensamentos em mente, chegamos à entrada do parque. Marcéu, mais uma vez provando que consegue falar inglês quando quer, indagou sobre se já tinha passado muitas pessoas até agora. Éramos os primeiros a entrar. Não sei porque isso era importante, mas eu não me senti menos cansado ou minha mochila menos pesada, então classifiquei essa informação como inútil.

 

Fui apresentar minha entrada, um certificado de pagamento de permissão para fazer trekking no parque. Tinha na memória os bilhetes de ônibus errados que nos foram vendidos e tinha medo do mesmo ocorrer com as entradas agora, comprometendo seriamente nosso futuro suplemento de biscoitos de coco e diminuindo de forma efetiva tanto a freqüência quanto a quantidade de nossos atos consumistas. Felizmente estava tudo em ordem, portanto teria de achar outra coisa para ocupar minha mente pessimista pelo resto do dia.

 

Tinha esperanças que Marcéu fosse perder algum tempo cuidando de sua entrada, de forma que eu pudesse recuperar o fôlego e fazer alguma coisa ?irmanica?, tipo encher sua mochila de pedras e barras de ferro, de modo a ter alguma chance de chegar primeiro em Namche. Mas acontece que Marcéu estava mesmo determinado em ser um trekker sério e nem sequer tirou a mochila para apresentar os papéis e eu fui deixado como prêmio de consolação o velho truque de pegar a câmera para tirar fotos do momento, ao invés de perpetrar qualquer ação maquiavélica. Nela estou fazendo um positivo sinal de vitória, embora positivismo não condissesse com as dores nas costas, e assim consegui tapar o rosto de Marcéu. Um ?acidente?, claro... Fora isso a foto ficou meio desfocada e escura, o que veio a requerer um tratamento intensivo de ACDSee, que também não resultou muito bem, já que também sou daltônico.

 

Achei que após cruzar os mágicos portais do parque, nós seríamos instantaneamente transportados para Namche. Não que não foi legal andar pelo vale e cruzar todas aquelas pontes suspensas, escutando o rugido do rio e tudo mais. Foi legal, mas não foi legal. Legal porque era plano e tinha aquelas coisas todas. Não foi legal porque era muito curto. Muito antes de poder aproveitar bem essa pausa, dei de frente com uma ponte esquecida pelo tempo, a qual quase examinei detalhadamente em busca de algum aparelho anti-gravitacional que me explicasse racionalmente o fato visivelmente impossível dela se agüentar ali pendurada. Não tendo achado nada, apenas tinha de confiar na ausência de corpos esparramados no fundo do vale como prova de que a ponte não iria se desmanchar no momento que eu pisasse nela. Então a passei. Já tinha cruzado pontes de madeira antes, mas não suspensas e certamente não com aquela altura toda.

 

Após cruzar a ponte magicamente suspensa, há uma pequena escadaria feita inteiramente e nada além de mer** de yak. Rezam as lendas e mitos locais que há pedra e cimento por baixo daquele monte de excrementos bovinos, mas acho que se trata de uma fábula criada pelos locais com o propósito expresso de nos acalmar ou rirem às nossas custas. O fato é que há apenas e unicamente bos** naquela escadaria. Sorte minha que era uma manhã fria (sorte nada, todas as manhãs são frias por lá) e por isso os dejetos estavam meio congelados, e meio fedidos também, o que me poupou de afundar-me neles até a cintura. Mas por estarem geladas, as fezes estavam também muito escorregadias, e escorregando lá vou eu por dois ou três degraus até conseguir parar, estabilizar, me levantar e olhar em volta para ver se alguém tinha testemunhado minha vergonhosa queda e escorregada no esterco. Naquela hora da manhã, notei que minha vergonha foi assistida por zero pessoas, o que impediu que os danos sofridos pelo meu ego fossem piores que os anteriores.

 

Feliz por meu breve e lúdico entretenimento no estrume não ter sido visto por ninguém, continuei meu caminho, desconhecendo que estava exibindo uma longa e larga faixa de esterco na minha mochila, como um sinal claro de não só onde estive, como o que estive fazendo onde estive. Não que tinha a ilusão de não cair durante todo o trek, mas sempre achei que tal se daria sobre algum monte, por cima de poeira e pedras, de forma a poder mostrar mais tarde as gloriosas impressões de um trekking sério, que levaria com honra e orgulho pelos alojamentos do Nepal para a inveja de muitos trekkers inexperientes que não possuiriam essas marcas distintivas do que é um aventureiro experiente e vivido. Mas no momento estava com a mochila coberta de mer**, o que não creio ter feito nunca parte dos meus planos originais nem serviria para os propósitos acima numerados.

 

Nada disso teve qualquer significância nem eu teria presença de espírito para me preocupar com isso, porque após o caso da mochila de cáca veio a cruel Subida de Namche, que mereceu logo de cara uma entrada gloriosa na minha lista pessoal de infernos na Terra, logo a seguir Deurali, Sete e Tengboche. Não que isso levaria um dia inteiro para ser feita, como Deurali ou Sete (Sete leva dois dias), mas especialmente por causa das incessantes decepções que encontrei pelo caminho ao cruzar com outros trekkers que teimavam em me repetir que ?Namche estava perto?, tornando ?perto? um conceito de distância bastante vago, quase sem significado na presente situação. ?Perto? tanto podia ser ?15 minutos? como ser ?18 horas?.

 

Meu humor estava bastante em baixo quando, lá pelas 9 horas, cansei de ser ultrapassado por carregadores levando cargas muito maiores e mais pesadas que a minha. Não há montanhas para ver nem nada que pudesse usar como uma justa desculpa para minha honra e poder parar sem me sentir um fracote, no claro intuito de fotografar algo e não de estar morto de cansado e ter de descansar. Não senhor, eu não estava nada cansado, com o suor a me cobrir o rosto e entrando pelos olhos, enquanto limpava o nariz ranhoso com as costas das luvas ou assoava o que tinha de assoar para o chão. Há muitos zigues-zagues e a cada 5 minutos olho para cima na esperança de ver o topo e fim daquele flagelo. Muitas vezes antevia um aberto numa curva e pensava se tratar do tão desejado topo e fim dos meus problemas. Mas a cada vez era decepcionado, pois quando atingia a tal curva, outro topo surgia do nada, transferindo o fim para outra curva e postergando a chegada até Namche mais e mais. Fico imaginando o quão duro não será essa subida para quem começou de Lukla, após ter voado para lá de Kathmandu e ter chegado ao Nepal uns dois dias depois.

 

Foi por essa altura que Marcéu me ligou, dizendo que havia chegado à Namche, que era uma vila muito massa e começaria a olhar por pensão assim que descansasse um pouco. Portanto mais uma vez não tive a menor chance de acompanhá-lo e chegaria lá muito depois dele. Programei minha mente para agüentar mais umas duas horas de subida e me coloquei amargurado.

 

Foi com tão alto astral que surpreendentemente cheguei à primeiras casas. Pensei ser Namche, mas eram apenas alguns alojamentos pouco antes de Namche. Desta vez o ?pouco? era pouco mesmo, de verdade verdadeira, para variar.

 

Foi então que cheguei à uma bifurcação, para direita estava uma escadaria, bem feita e bem acentuada. Para esquerda, estava a trilha, bem plana e sedutora. Perguntei à um nepales que estava por ali qual rota tinha de seguir para Namche. Ele aponta para a trilha plana e cômoda, para meu grande alívio. Mas pensei que ainda estava longe de Namche. Não estava. Após umas curvas pelas encostas do monte, cheguei à Namche, só que a trilha plana me levou para a baixa Namche, que era no lado oposto onde Marcéu estava e me fazendo ter de subir até a parte alta da vila e depois cruza-la até onde Marcéu estava. Mais valia ter ido pela escadaria. Da forma como foi exigiu considerável extra esforço e algumas confusões pelo rádio antes que nosso feliz re-encontro fosse possível, de forma a termos oportunidade de brigar outra vez sobre os resultados da procura de alojamento e comida. Namche tem muitas pensões com muita variedade na qualidade e preço. Tanto que estávamos muito cansados para procurar em todas antes de escolher alguma. Marcéu pesquisou numas 6. Numa delas o dono pediu 50 doletas por um quarto com duas camas! Uma pena para a defendida política de fixação de preços que dizem estar em vigor por lá.

 

Eventualmente Marcéu achou um bom alojamento, com modestos quartos de 100 Rúpias, bem de frente para a rua principal da vila. Nessa pensão declarei dia de descanso oficial de participação obrigatória para o membro Hendrik de nossa pequena expedição e decidi gastar o resto do dia ali mesmo, deitado na cama, me levantando apenas para comer, ir ao banheiro e mandar e-mails. Fiz um ataque brutal às minhas reservas de queijo de yak.

 

Mais tarde, lá pelas 14h, começamos a ouvir o conhecido mantra ?Om Mani Padme Hum? que recebia os trekkers que estavam a chegar em Namche. Pela nossa janela podia ver as pessoas a chegarem na vila, olhando hipnotizadas tudo em volta, com rostos exaustos, mas felizes. Depois de várias horas de dura caminhada, Namche pode ser um lugar bem mágico de se chegar. O mantra adiciona bastante para esse sentimento. Pessoalmente senti ter realizado uma importante etapa na realização de um sonho à longo tempo sonhado. A vila também dá um gostinho do que nos espera pela frente e que tal é possível e não sonho.

 

Com um grande prato de arroz misto frito no bucho, mais uma significante quantidade de biscoitos, passas e queijo, bem como litros de chá de limão, fui dormir realmente feliz e em paz com o mundo.

 

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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  • Membros de Honra

E AI HENDRIK????

achei q vc tinha desistido de escrever!!!!!!!!!

 

ta muito massa esse relato. vc tem um senso de humor fora do comum!!!!!!!

 

eu e minha esposa estamos planejando ir em 2007

 

ainda nao sabemos se vamos desde de jiri ou vamos voar ate lukla, porque o nepal vai fazer parte de um mochilao pela asia de uns 5 a 6 meses...entao nao sabemos em q condiçoes vamos chegar no nepal...

 

queremos fazer todo o trajeto, mas não sei...

 

estamos ansiosos pelo proximo capitulo!!!!!!!!!!!

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  • Membros de Honra

Oi, Doug! Valeu pelo incentivo!

 

Olha, eu achei o trek de Jiri até Lukla bem legal, porque solitário. Claro que digo isso agora, depois de feito, porque na hora só conseguia achar que era uma dureza. Há muitas aldeias no caminho, algumas bem legais. Os preços são muito baixos, tirando a infame "doação" que os maoístas cobram. O serviço nos alojamento é muito bom e a comida, idem. Fora isso tem a razão principal de termos iniciado de Jiri: aclimatizar. Teve também a viagem de 10 horas no teto do busão velho.

 

Apesar da exaustão e cansaço que senti de Lukla em diante, creio que não era nada comparado com o que sentia 90% dos trekkers que iniciaram em Lukla.

 

Agora... se você vão passar por lá depois de já terem andado um bocado pela Ásia, então me parece que estarão mais bem preparados, tornando Jiri dispensável. É só aclimatizar direitinho e não vão ter problemas. Se puderem tirar uns dias extras para treks secundários nesses dias de aclimatização, melhor.

 

Quanto ao que levar... olha... levei 25kg de coisas muito necessárias que se tornaram muito inúteis. Levamos muita comida, fogareiro, barraca, cranpos e roupas que agora eu teria deixado em casa.Vi gente fazendo o trek de forma independente e apenas com uma mochila escolar nas costas!

 

Quebra-vento é indispensável, com certeza absoluta. Tem lugares que venta feito doido e um vento frio que corta. Uma boa isolação é mais que necessária. Umas meias de trekking para clima frio também é mais que bom. Gastei uma nota nas minhas (20 doletas por par e comprei uns 12 pares prá duas pessoas) mas não me arrependi em nada. Fora isso comprei umas meias de lã que vendem por lá. Óculos escuros também é bom. Um lenço para filtrar a poeira de alguns trechos é indispensável. Boas botas já amaciadas (gastei 500 Doletas em dois pares de botas Lowa Karat e valeram cada centavo). Boas luvas é bom também, para o vento não gelar sua mão. Umas calças bem fortes para as regiões mais altas, onde o desgaste delas serã maior e onde você vai andar muito por pedras e algum gelo. Podem ser compradas em Kathmandu, Jiri, Lukla ou Mamche. Bastões são indispensáveis. Se vocês forem brancos, um bom protetor solar. Uns fleeces para aquecer .

 

Dos remédios, só usamos Paracetanol, Diamox e muito remédio prá giárdia. Tudo pode ser comprado em Kathmandu à preço de banana. É só chegar com o LP na mão, abrir onde listam os remédios e comprar. Umas pastilhas ou algo contra a tosse é aconselhável.

 

MUITA ÁGUA! todo alojamento vende garrafinhas de água, mas acho muita poluição. Levei clorina e fui tratando minha água. Andava sempre com 4 litros nas costas, mas era meio exagerado. Acho que se andar com 1L tratato e 1L em tratamento, é suficiente.

 

Máquina fotográfica e muita bateria, pilha e filme. Mantenha a bateria perto do corpo, prá não descarregar. Eu dormia com as minhas dentro do saco.

 

Lanterna é bom, muito bom. Nem todo alojamento tem iluminação e algumas vezes pode se ver à noite na trilha, tipo se quiser assistir o pôr-do-Sol do Kala Pattar ou Gokyo ri.

 

Mapas e guias servem pra informar, mas não prá achar a trilha. A trilha é muito fácil de se ver.

 

Um bom saco-de-dormir tipo múmia. Abaixo de Lukla, um -20º vai ser quente. Em Gorak Shep, eu passava frio com um -20. Tinha gente que levava dois sacos. Tinha gente que levava só um, de -5. Nem todo alojamento tem cobertores.

 

Fivelas extras prá mochila. Se algo arrebenta acima de Namche, não tem onde compra-las.

 

Tornozeleiras e joelheiras, bem como gel para contusões. Nunca se sabe.

 

[]'s

 

Hendrik

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  • Membros de Honra

10xnamchemarceutopocolinapan9g.jpg

Em nossa caminhada de aclimatização sobre os montes que rodeiam Namche. Marcéu aprecia a paisagem.

 

Dia 10

 

Hoje foi um dia curto, então irei preecher o relato como meu costumeiro non sense.

 

Hoje foi o primeiro (dia, não non sense) que me senti realmente estar de férias. Desta vez não foi apenas o acordar mais tarde, mas também o não me ter de carregar como um yak e sair por aí andando para cima e para baixo feito um amaldiçoado Sísifo que quando chega lá em cima tem de descer até lá em baixo para então ter de subir ate lá em cima e repetir tudo de novo, empurrando uma enorme pedra. O queijo de yak, os biscoitinhos de côco, o arroz frito misto e mais uma ou dez coisinhas que nos indulgimos a devorar em quantidades bastante generosas, bem como umas boas e gordas horas extras na cama, tudo isso começa a fazer efeito. Tanto na moral quanto nas visitas mais freqüentes que faço ao tradicional banheiro nepalês. Para quem não sabe, banheiro nepalês é um chão com um buraco nele. Nos mais luxuosos há um pote de água ou um cesto de palha ao lado para jogarmos por cima do serviço feito. Até no moderno e novo aeroporto de Adu Dhabi eu vi desses banheiros.

 

Me sentia tão bem, tão bem-humorado que até queria fazer uma caminhada em volta de Namche. Só por diversão. Por diversão! Andar por diversão! Talvez fosse o efeito do queijo de yak que tinha descoberto bem guardado no fundo da minha mochila e que apresentava algumas manchas de cores estranhas e outra... coisa... branca... que cobria o quejo. Mas comi-o do mesmo jeito.

 

Ou talvez fosse o ar rarefeito a mexer com a cuca. Ou quem sabe foi o ter vivido num inferno nos últimos 10 dias que finalmente me fez perder qualquer resto de juízo que porventura ainda tivesse.

 

Não sei. Só sei que no meu segundo dia em Namche me senti sinceramente com disposição de fazer uma caminhada de aclimatização, como faria qualquer trekker normal. Um trekker... nossa, estava a começar a me sentir como um trekker... engraçado como isso soa ao ser dito em voz alta. Como? Não soa engraçado? Soa patético? Estranho? Dramalhão? Não importa. Era bom estar ali, a fazer algo que tinha sonhado por ano e meio e sobre o que muitas pessoas com quem falei antes não podiam entender os motivos de querer fazer isso. Estando em Namche me deu as respostas.

 

Creio que foi nesse ambiente cor-de-rosa que tive mais uma briga com Marcéu. Não me recordo bem se foi aqui, mas se não foi, foi por uma razão tão besta quanto esta. Mas na altura parecia tão ultimamente importante que da resolução da crise devia depender o destino do Universo conhecido. Talvez fosse sobre as regras do truco que jogávamos que ele ia me ensinando à medida que as situações se apresentavam, mas que eu não concordava porque aparentavam ter como único propósito inutilizar meus] três e me fazer perder. Ou talvez era sobre o pedido do almoço, que muitas vezes envolvia o Marcéu querendo saber quais vegetais entravam no prato, o que me fazia RELEMBRA-LO que eu não sabia os nomes dos vegetais em inglês, o que o fazia dizer seu idiossincrático ?ôxe? porque era espantoso pedir comida sem querer saber o que vem nela como vegetais, seguido de uma firme afirmação dele de que eu sabia sim senhor os nomes dos vegetais em inglês, o que, após umas três ou quatro voltas nisso, eu ficava puto e o mandava barbear yaks.

 

Coisas desse tipo.

 

Foi nos pícaros desse sombrio mal-humor que partimos para nossa jornada zen em torno de Namche, cada um para seu lado depois que passamos a parte da trilha que subia pelas encostas ao redor de Namche. O humor estava ruim, mas nenhum dos dois estava afim de ir pro outro lado de Namche e de lá subir pelas suas encostas.

 

Para quem não sabe, Namche é uma vila construída em forma de ferradura, com a parte interna mais baixa que a externa, no meio de umas encostas que a rodeia. De suas extremidades externas saem diversas trilhas subindo essas encostas até seu topo. Andar ao redor desse topo proporciona grandes vistas tanto da vila como de montanhas ao redor dela.

 

A trilha que escolhemos para subir levaria à Thami, vila à umas 3 ou 4 horas dali, mas quando chegamos ao topo da encosta entramos à direita, onde havia uma espécie de cemitério de pedras. Mas acho que é só uma pedreira mesmo. Parecia tão triste, sombria e... destruída. Era perfeita para combinar com nosso humor, tanto que ficamos por ali algum tempo explorando. Cada um na sua, claro.

 

Acabei me perdendo entre pequenos currais. Saia de um e entrava em outro. Nada de trilha. Digo serem currais porque havia bastante esterco pelo chão ou a secar nas pedras em volta (são usados como combustível nos aquecedores). Mas não vi quase yak ali. Barbudo e malcheiroso como estava, temi ser confundido com um e posto a carregar as imensas bagagens dos grupos organizados. Procurei sair logo dali.

 

Enfim achei uma pequena trilha que levava para uma chorten, construção que parece uma pequena gompa. Marcéu já estava bem perto de lá. Como ele acha os caminhos tão facilmente? Ao lado de lá estavam uns postes com muitas bandeiras de oração entre eles.

 

Como tinha várias horas pela frente, parei muitas vezes para ficar vendo a paisagem ou tirar fotos. Via uma pedra e ia logo subir nela. Estava me divertindo e o humor estava se tornando leve outra vez. Quando cheguei no chorten, Marcéu estava nas bandeiras. Quando cheguei às bandeiras, ele estava numa espécie de pista de aterragem que há numa parte plana do topo da encosta. Alguns grandes helicópteros pousam e saem dali. Não me parecia grande coisa, então não fui lá. Marcéu estava ao lado de um soldadinho e mais à frente, ao longe, vinha uma fila indiana de trekkers exaustos a subir a encosta. Estavam mesmo cansados, não faço idéia por que razão. Eu estava muito bem, então não vejo motivo para ninguém estar fatigado. Vai ver não estavam ao meu nível. Fiquei a olha-los com superioridade e a andar um pouco pelo caminho que estavam usando, só para mostrar como se faz, até um hotel no topo de outra encosta que há depois da pista onde Marcéu estava. Dois dias mais tarde pagaria bem caro por essa atitude. Numa clara exibição de o quanto minhas habilidades ?trekkeiras? eram superiores, tomei os caminhos mais íngremes. Acabei chegando bem atrás deles, bufando por todos os poros. Tenho de fazer alguma coisa para matar esse CABA-MACHO-TREKKER, senão ele que vai acabar me matando.

 

Passando o hotel, seguindo a trilha por uns 50 metros, esqueci completamente o cansaço e mau-humor das brigas da manhã. Ali mesmo, à nossa frente, tivemos a vista mais linda e espetacular até então: montanhas, muitas montanhas! Altas montanhas até onde a vista pode alcançar rodeando por 180º à nossa volta. Mas não eram montanhas qualquer. Lá estava o tão sonhado Evereste e a belíssima Ama Dablam.

 

Cara, eu não fazia a menor idéia que era possível de ver aquilo tudo dali, pouco acima de Namche. Achava que ainda teria de andar muitos dias até poder ver belezuras daquelas. Era uma surpresa, uma mais que agradável e grande surpresa. Estava boquiaberto e sem reação. Olhei para Marcéu e ele parecia estar tanto em transe quanto eu. Sorrimos um pro outro. Só as montanhas do EBC para nos fazer ficar em paz outra vez.

 

Câmeras para fora e dá-lhe click-click-click. Então andamos um pouco para fora da trilha e nos sentamos ali, hipnotizados diante do espetáculo que se passava à nossa frente. Era como se o tempo tivesse entrado em modo geológico e não mais o contássemos como humanos. Minutos, horas, dias, meses e anos não faziam mais sentido. Só milhares de anos possuíam qualquer significado. Estava a olhar para o resultado de milhares de anos de trabalho da Natureza, um lugar tão majestoso e alto, mas que já esteve nos fundos dos oceanos. Não me sentia mais gente, mas sim uma pedra, parte do ambiente, parte da evolução do mundo. Senti um pouco de inveja de ser animal e não mineral e parte daquilo tudo. É tão perene e ao mesmo tempo tão vivo, tão grande e complexo, mas ao mesmo tempo simples e natural que achei um absurdo ridículo e mesquinho todas as vicissitudes da história humana. Comparados com aquilo não somos nada mais que bactérias efêmeras que por acaso estão por aqui nesse momento, momento esse que para àquelas montanhas é menos que um segundo em suas existências.

 

Infelizmente o estômago me traz de volta à realidade humana que partilho, relembrado-me o que sou. Hora do almoço. Hora de voltar. Uma pena, pois o tempo estava mais claro agora.

 

Na volta propus ao Marcéu pegarmos aquele caminho em nossa ida à vila de Tengboche, dali uns três dias. O Everest View Hotel é visível de onde estamos, o que indica ser aquela a trilha correta e é bem legal de passar por ali. Ele diz que preferiria outro caminho, já que já conhecíamos aquele. Teimei na minha proposta e ele acedeu. Ganhei então esse embate de vontades e mais tarde iria me arrepender amargamente de ter ganhado.

 

Mas agora estávamos felizes, muito felizes. Felizes e famintos. Fomos logo para o alojamento e comemos nosso tradicional e pessoal Evereste de comida e depois fomos passear pelo mercadinho de Namche. Depois fomos para nosso quarto esperar confortavelmente a chegada dos primeiros trekkers vindo de Lukla ou Phakding. Então fizemos preparações para nossa ida à Thami, amanhã. Jantamos e fomos dormir bem cedo.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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À caminho de Thami, trek de aclimatização. Foto de Marcéu.

 

Dia 11

 

Hoje é dia de ir para Thami, um dos pré-determinados treks secundários de aclimatização. Apesar de estar gostando da vida boa em Namche, só comer e dormir, acho que tenho o dever de dar um pouco de respeito aos incontáveis dias do último ano e meio que passei sonhando acordado sobre todos os pequenos detalhes das caminhadas que faria uma vez que estivesse aqui, no Nepal, pelos quais fiz quase nada até agora. De Jiri até Lukla não tive presença de mente ou condição física para sequer pensar em treks secundários, embora tenha planejado uns dois ou três para essa etapa. Dessa forma, ir para Thami é tipo uma tentativa de fazer as pazes com minha própria consciência.

 

Deixamos Namche pela mesma trilha que usamos no dia anterior para atingir o alto de suas encostas. Levávamos carga leve e eu tinha apenas minha mochila pequena. Muito bom caminhar com pouco peso! Só saco-de-dormir, alguma roupa extra, artigos de higiene, câmeras, lanche e água. A diferença entre 25 kg e 5 kg é GRANDE. Senti que podia voar pela trilha.

 

O LP diz que o trecho Namche-Thami é uma caminhada de 3 ou 4 horas, então suponho que levarei umas 4 ou 5 horas para faze-lo. A trilha é muito agradável, ou seja, bastante plana e sombreada, principalmente na primeira parte dela, logo ao sair de Namche. Como de costume, Marcéu disparou na frente e em breve sumiria de vista, mas não me preocupei. Tinha resolvido em levar a caminhada bem traquilamente, tomando o tempo que quisesse, sem se preocupar com destinos. Queria mesmo era aproveitar a jornada. Pelo menos uma vez nesse trek eu iria por alguma atenção no que estava fazendo, e não nas dores das costas, nos ombros, nas pernas ou na rapidez de Marcéu e minha lentidão.

 

A trilha não é muito larga e quando cruzo com os yaks tenho de desviar e esperar até que passem. São tangidos em fila indiana por tibetanos, que mostram possuir uma mira incrível. Eles andam normalmente atrás da fila de yaks, filas de 10 ou mais, e quando um dos yaks para, os que estão atrás param também. O mesmo ocorre caso tome um caminho errrado: os outros vão atrás. Então aí entra a mira do tibetano. Ele atira lá de trás um pedregulho que passa assobiando até atingir o lombo do pobre yak parado ou desgarrado.

 

Foi numa dessas ocasiões que fiquei com a impresãso de ser um pouco assustador para os yak, porque muitos deles paravam quando chegavam perto de mim e ficavam ali me olhando com aqueles olhos grandes e humidos. Pelo menos é o que eu espero que seja medo e não tesão que lhes passasse por aquelas cabeças peludas.

 

Essa parte agradável da trilha chega ao fim e dali em diante a trilha se torna mais nepalesa outra vez, com seus sobe e desce constumeiros. Nada tão duro como antes, mas suficiente para me fazer suar e ficar sem ar. Parece que esse trek secundário não é muito concorrido, então também foi agradável andar por aquela trilha vazia. Gostava de estar só e isso tornou essa ida à Thami bastante aprazível.

 

Dei com Marcéu em Thamo, que pensei ser Thami, ficando bastante feliz por ter alcançado o objetivo em muito menos tempo que dito no LP. Achei estar em forma e tudo. Devia ter andado só umas duas horas e já estava em Thami!

 

Mas não, não estávamos em Thami. Estávamos em Thamo e Thami ainda está bem longe. Thamo fica a meio caminho, só isso. Ainda faltavam muito sobe e desce até Thami, e então fique bastante infeliz. Para afogar as mágoas, fomos tomar o café-da-manhã num alojamento qualquer. Bastante caro, por sinal.

 

Lá havia um grupo de trekkers voltando não sei de onde. Um dos membros parece ter sintomas de AMS e tem mal aspecto. Estão a descer, então ele diz estar cada vez melhor, mas tem uma tosse feia, seca, forte e constante. Parece que não aclimatizaram bem na ida para Namche. Parece que mais uma vez nossa caminhada desde Jiri estava dando seus frutos e tirando o episódio no Lanjura la, não estávamos com problemas de aclimatização.

 

O café-da-manhã ali foi bem caro e com porções européias: pouco. Isso é uma verdadeira desilusão para gente com apetite de leão, tipo Marcéu e eu. Bom, a vida é assim. Parece que nossos amigos sherpas estão aprendendo depressa sobre a cultura ocidental no que toca a restaurantes: pague muito, coma pouco.

 

Com barrigas infelizes, voltamos ao caminho. À medida que avançamos, mais e mais montanhas aparecem ou crescem. Apesar do tempo nublado, o vale de Thami parece ser um local bem espetacular. Infelizmente a regra da ?Subida Final? nos apanha outra vez e em breve veríamos a trilha que leva até Thami, do OUTRO lado do vale. Isso traduz-se em termos de descer as encostas onde estávamos, cruzar uma ponte próxima ao rio e então subir as encostas do outro lado.

 

Dito e feito! A grande descida chega, bem legal, já agora. Então chega a ponte, pequena e normal, de ferro e não-suspensa, cruzando o rio mesmo ao lado de uma garganta aberta nas rochas pela força das água, que passavam por ali, à poucos metros de nós com impressionante força, velocidade e barulho. Pouco depois dessa belezura, chega a subida. Nada tão penosa quanto à de Namche, Lukla ou Bupsa. Não chega aos pés de Deurali ou Sete, mas suficiente para me fazer bufar e suar como um cavalo durante todo tempo que durou subi-la. Marcéu há muito estava lá na frente.

 

Quando enfim cheguei destroçado em Thami, para minha surpresa não muito depois de Marcéu, achei fantástico o quão bonita a vila era. Thami não se parecia em nada com as vilas que encontramos até agora. Por estar num vale, as casas eram bem separadas, com currais para os yaks em toda volta. Os muros eram feitos de filas únicas de pedra, de forma que eram bem finos. A vista geral é muito bonita e tudo isso emoldurado por um magnificente conjunto de montanhas por trás.

 

Mas romantismos à parte, primeiras coisas primeiro. É tempo de achar acomodação e pechinchar. Sorte nossa não sabermos o quão essa atividade, tão normal para brasileiros, era considerada anti-ética pelos nossos confrades trekkers de outras nacionalidades mais abastadas, então pudemos ir perguntando pelas pensões sem vergonha alguma sobre preços de quarto, comida e banho. Na primeira pensão o cara pediu 250 Rúpias pelo quarto e 200 pelo banho. Não havia quartos mais baratos. Certo que o alojamento era bem feito, mas nós precisamos apenas de cama e dhal, não luxo, então eu sabia que isso iria variar muito de alojamento para alojamento. Os mais modestos tendem a ser mais baratos. Foi então que num alojamento modesto no final da vila encontramos nosso quarto de 100 Rúpias. A vista era modesta, mas não planejávamos ver as montanhas do quarto, portanto isso não faria diferença.

 

Ainda faltavam mais de três horas até o almoço, então decidimos fazer uma caminhada até o sopé de uma montanha, lugar que tínhamos visto quando estávamos andando pela vila. Deixamos o pedido e hora que queríamos para o almoço e fomos embora.

 

O referido sopé parecia estar perto da vila e ficava por trás dela, para o lado esquerdo do vale. Um pequeno, mas forte, riacho corria pelo seu centro. Sem ver nenhuma trilha, atravessamos os currais como pudemos e começamos a subir o vale. O mais fácil era seguir pela margem do riacho. Mas o sopé ficava do outro lado da margem, e não estava sendo fácil achar um lugar onde poderíamos cruzar. Depois de andar por cerca de 1 hora, Marcéu arrisca cruza-lo e consegue. Para mim onde ele cruzou parecia fora do meu alcance, então deixei para fazer isso mais adiante, certo que haveria lugares mais fáceis para cruzar se procurasse bem.

 

Mais adiante continuo sem ter cruzado o rio e já me encontrava em frente à parte do sopé que tínhamos em mente para ir. Dei um toque ao Marcéu, que me respondeu estar ?quase lá? e querendo saber onde eu estava. Disse-lhe que ainda não havia cruzado o rio, mas que já-já iria cruza-lo mais adiante, onde parece haver um bom lugar para faze-lo e estaria rapidinho com ele.

 

Outra hora passa e nada de lugar bom para atravessar o rio. Olhando para o sopé, até parecia que não tinha saído do canto. O rio estava mais e mais forte, apesar de mais estreito. Estava exausto, suando aos potes e faminto. Despi a camisa e, com a toalha, tomei um banho de gato nas gélidas águas, comi um pacote de biscoito e tomei muita água. Então descansei um pouco, tomando banho de Sol. A camisa estava encharcada de suor, então não a vesti de volta. Usando o casaco sem camisa, olhei em minha volta e desisti. Estava cada vez mais difícil continuar. O rio era mais e mais forte e não havia caminho que pudesse seguir, tendo de atravessar por entre arbustos espinhosos. Já estava todo arranhado e ficaria ainda mais na volta, então não quis adicionar mais extra arbustos para a caminhada.

 

Liguei pro Marcéu e disse que estava voltando. Ele disse o memsmo que antes, que estava ?quase lá?, mas também estava cansado, faminto, suado e um tanto com medo, pois o terreno lá parecia bem traiçoeiro para se andar, com tudo coberto de gelo, que cobria pedras e as fendas entre elas. Ele chegou ao ponto onde a água saia por entre as pedras, como numa fonte. Concordei que não era muito inteligente para mim cruzar o rio onde eu estava ou ele continuar a caminhar naquele tipo de terreno, então voltamos os dois.

 

O início da volta dele era mais fácil que o meu. Ele encontrou uma pequena trilha, enquanto eu tinha de passar aqueles malditos arbustos cheios de espinhos outra vez. Depois de 1 hora e de ter deixado metade do couro para trás, cheguei ao ponto onde começavam os pastos dos yaks, mas marcéu passou seu ponto de cruzar o rio e estava agora como eu estava, atrás de um lugar para faze-lo. Andamos juntos rio abaixo, ele numa margem e eu noutra, até depois da vila, onde havia uma pequena ponte.

 

Nossa pequena aventura não foi bem o que esperávamos e mais arriscada que parecia vista da vila, mas a vida é assim mesmo. O que importava agora era comer bastante e nos lavarmos da sujeira e suor acumulados. Banho quente era muito caro aqui, então voltamos ao riacho e tomamos banho de gato. Depois voltamos ao alojamento e perguntamos pela comida. Não estava pronta ainda. Tudo bem, fomos jogar Truco enquanto esperamos, no qual sou péssimo e só faço perder. Marcéu então vai escrever em seu diário e eu fico ali, sentado com a cabeça encostada na parede, feito zumbi. Depois chegam as crianças do dono da pensão, cheias de brinquedos que um casal inglês lhes ofereceu. Do lado de fora, um alemão botou uma mesa no terraço, uma garrafa de whisky em cima, um termo com chá, canecas, charuto, cinzeiro, aperitivos e um nepalês sentado ao lado tocando flauta. Ao redor, outros nepaleses faziam companhia. Achei aquilo cômico, como se o cara estivesse num barzinho na Europa (num café, como dizem por lá). Chamei Marcéu para dar uma olhada no surrealismo da cena.

 

Tudo isso se pasou em hora e meia, finda a qual fui perguntar da comida que nunca mais saia, só para descobrir que a mulher tinha esquecido! Estavam tão ocupados atendendo seus ricos clientes europeus que nos esqueceram! Inacreditável... mas pelo menos se sentiram mal por causa disso e nos compensaram com porções generosas quando finalmente a comida ficou pronta.

 

Amanhã vamos ao tão falado mosteiro budista de Thami e voltamos para Namche. Mas por agora almoçamos e ficamos por ali esperando dar a hora do jantar. É, comer era com a gente mesmo.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Obrigado pelas palavras de incentivo, "suíço"!

 

Já deve ser a quinta vez que escuto a sugestão de escrever um livro sobre essa viagem... quem sabe, não é? acho que dos relatos que estou escrevndo dá prá tirar um rascunho e melhora-lo. Algo a se pensar.

 

[]'s

 

Hendrik

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  • 2 semanas depois...
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12dthaminamchethamotengevaleno.jpg

Voltando do mosteiro que há em Thami, têm-se uma ótima visão do vale que segue até o passe Namgpa, fronteira com o Tibete. A vila abaixo é a Thami Teng.

 

Dia 12

 

Quando acordei, me dei conta que o trek fracassado de ontem ainda estava me perturbando. Parte de mim queria voltar lá e fazer o que eu, por estupidez, não fiz. Tudo por conta de um riachinho de 2 metros de largura, apesar de frio e forte. Foi meio frustrante não ter alcançado o sopé daquela montanha enorme por causa de um pouco de água gelada. Marcéu que queria ir mesmo, chegando a sugerir que voltássemos lá e tentássemos de novo. Mas após ter posto um bocado de comida no bucho e um pouco de bom senso na cabeça, achei melhor esquecer algo que não nos custaria menos que 4 horas, quando a ida de volta à Namche era hoje mesmo. Então convenci Marcéu a não irmos e só visitar o mosteiro budista que tem lá, o mais antigo da região pelo que ouvi dizer, e seguir prá Namche logo em seguida. A subida para o mosteiro e, depois, as subidas e descidas para Namche, me parecem mais que suficiente para atingir os níveis mais altos em meu ?tolerômetro? que controla meu estado de exaustão quando confrontado com essas particularidades recorrentes da trilhas no EBC. Adicionar mais cansaço hoje me parece beirar ao masoquismo, então deixa o sopé quieto que ele está muito bem onde se encontra.

 

Mas se ao menos tivesse conseguido cruzar o rio ontem... bom, quem sabe da próxima vez, quando e se houver uma próxima vez.

 

Tudo pronto e tudo pago, saímos da pensão. Não me canso de saborear a afável leveza da minha mochilinha de 22l. Andar daquele jeito até dá gosto.

 

Quando saímos, perguntei aos locais se era possível subir ao mosteiro sem ter de voltar até o início da vila para poder pegar a trilha. Como nossa pensão fica no fim da vila, queria ver se dali memso dava prá pegar a trilha prá cima. Disseram que sim, que era só ir até o sopé do morro e subir de lá. Dava até prá ver trilhas pequenas saindo dali.

 

Seguindo pelo caminho apontado, cruzamos algumas casas e quintais, chegando ao início da subida. Realmente partindo dali, diversas trilhas menores subiam o morro até se encontrarem com a trilha principal. Infelizmente havia uma cerca entre nós e essas trilhas menores. Tivemos de andar paralelos à essa cerca até onde ela acabava, para podermos pegar a trilha. Esse ponto se revelou à entrada da vila, justamente o que queria ter poupado desde o início.

 

Mas tudo bem. O tempo está bom, a mochila está leve e a paisagem é ótima. Até gostaria de dizer que, após chegar à trilha, a subi feliz da vida até a crista do morro, que leva ao mosteiro, mas eu NUNCA me senti feliz, em toda viagem, enquanto subia, tirando que fossem as escadas da pensão eté o quarto, que é sinônimo de fim do dia, que implica em muita comida e cama. Mas subir ladeira? Não... por mais romântico que os guias e livros digam que é caminhar no Nepal, suor escorrendo pros olhos, camisa empapada de suor, falta de ar, pernas e ombros doendo, mal cheiro do banho não tomado ou mal tomado, vento frio cortando a cara... nada disso me cheira a romantismo, tirando que eu fosse masoquista. Já no dia anterior tinha visto uma fila indiana de gente subido aquela ladeira bem devagarinho e estava nutrindo um sofrimento antecipado de quando fosse minha vez. Bom, agora era minha vez.

 

Fazer trek no Nepal é ter coloridos momentos de felicidade entremeados por longos momentos cinzas de mesmices. Acho que é por isso que tanto guia fala da importância do fator psicológico.

 

Então, depois do aborrecido subir, a crista se revelou valer aquilo e muito mais. Abaixo para o sul, tem uma bela visão de Thami e seu vale, com suas montanhas. Ao norte, tem o vale que vai para o passe que faz fronteira com o Tibete, vasto e com muitas montanhas também. Gokyo pode ser alcançado seguindo parte desse vale também. Pela frente, o caminho para o mosteiro, mais ou menos plano. Preferia ficar por ali, mas o ?bichinho do guia? me pegou e peguei estrada para o mosteiro, tal qual um bom comportado turista faria. A trilha plana e curta, cheia de gompas, chortens e pedras de oração, fizeram desses escassos minutos uma boa lembrança, no fim de tudo. O surreal que ocorreu foi que, ao passar por um muro de oração, do outro lado um tibetano para e fica a nos olhar. Parei e olhei para ele. Como grande parte dos tibetanos, ele levava sua bagagem num saco que levava aos ombros. Então ele pegou o saco e começa remexê-lo. Saírá um colar artesanal dali? Uma arma? Um coelho? Não... ele tira uma latinha de Coca-Cola de lá e pergunta se não queremos compra-la, baratinha.

 

Cara, a visão daquela latinha naquele lugar nas mãos de um tibetano me pareceu mais surreal que qualquer quadro de Dali. Só me faltava chegar ao mosteiro e descobrir que na verdade era um Mc Donalds. Quase sem voz, tamanho foi o choque, que quase não consigo articular a recusa.

 

Fugindo do homem da Coca-Cola, chegamos ao mosteiro. Ainda é cedo, então não há muita gente de pé nem turistas por ali, o que é melhor para mim. Andamos um pouco em volta e subimos ao templo, que ainda estava fechado. Algumas pessoas estão trabalhando na construção de uma casa nova, mas não são monges. Tudo é muito pacífico e tals, mas depressa me cansei daquilo. A crista era bem melhor, então sugeri ao Marcéu que nos fossemos. Ele concordou, mas queria pegar outro caminho. Ele não gosta muito de voltar pelos mesmos caminhos que vem, então queria ir em frente e ver se alguma trilha contornava o mosteiro e descia. Estiquei o pescoço sobre uma murada e não vi nada. Acho que temos de voltar por onde viemos. Mas ele insiste, desce umas escada e damos de cara com um monte de banheiro nepalês, buracos cheios de mer**. Quase que lhe digo que aquele era o caminho dele, mas não precisava pegar briga sete dias por semana.

 

De volta à crista, achei o vale que vai até o Tibete tão atraente que quase desço até ele, só para estar lá. Só que isso significaria subir na volta, ter mais uma canseira extra, então não fui. Me contentei a andar pela crista e tirar fotos. Andamos por toda extensão da crista, até onde essa começa a se desfazer para cair no rio. Não era muito seguro, mas era bem bonito.

 

Quando saímos de lá, vimos estar nas traseiras de Thami, onde há muitos curais de yaks. Depressa pegamos a trilha de volta à Namche. Claro que isso quer dizer descer até o rio e depois subir outra vez pelas encostas opostas, mas fui tranqüilo, devagar e tudo correu sem nada de mais. Marcéu voou na frente, como sempre. Como sempre, yaks e carregadores passam pelo caminho. No fim, um trek de aclimatização bastante agradável, algo altamente recomendável para se fazer antes de ir para Tengboche, que seria o oposto disso, embora eu não soubesse de tal na altura.

 

Quando cheguei à pensão, Marcéu estava lá, na porta, o que não é estranho. Mas me pareceu que ele estava me esperando, vigiando a trilha para ver quando eu chegava. Ele faz um sinal qualquer, que eu espero não ter sido com o dedo do meio. Não entendi nada do porque de tanta comoção, até conseguir decifrar o sinal: tinha as chaves do quarto no bolso.

 

Com aquele tesouro salvo no meu casaco, diminuí ainda mais o passo. Marcéu não achou tudo tão engraçado, mas eu achei, então se eu achei, que importa?

 

Chegamos bem a tempo do almoço em Namche, que foi em quantidade bastante generosa, como sempre, seguido de compras na ?rua? do comércio de Namche, uns e-mails e organização das coisas para amanhã. Tudo pronto, ficamos pela janela, a comer passas, queijo, biscoitos e a ver os turistas chegarem, com suas caras vermelhas e felizes. Um bom jantar e café-da-manhã já anotado e o dia estava fechado. Quero levantar cedo amanhã e começar a trilha antes do Sol ficar forte demais. A cama me recebe de braços abertos antes mesmo de estar escuro.

 

Alguns japoneses estão no refeitório falando bem alto. Voltaram agora do EBC, pelos vistos.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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