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A aventura mais longa, cansativa e perigosa da minha vida

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Um dia você acorda e decide fazer uma trilha em um vulcão ativo, o que você não sabe é que essa vai ser a aventura mais longa, mais exaustiva, mais difícil e mais perigosa da sua vida.

Se você tem problemas nos joelhos, nos tornozelos ou não quer sujar sua roupa é melhor não continuar lendo...

 

 

Dados gerais da trilha

*Localização: Vulcão Concepcion (sul da Nicarágua)

*Percurso total:  13km [ida e volta]

*Duração subida: 5h00

*Duração descida: 5h00

*Ponto mais baixo: 150m

*Ponto mais alto: 1500m

*Nível de esforço físico: Máximo

*Nível de dificuldade de orientação: Alto

*Nível de beleza da paisagem: Mínimo

 

Entendendo a aventura:

Ometepe é uma pequena ilha no sul da Nicarágua que abriga dois vulcões (um ativo), florestas tropicais e muita natureza... enfim um prato cheio para quem gosta de aventura.

Desde o momento que eu entrei naquele barco e avistei o vulcão longe no horizonte eu sabia: “Não posso sair dessa ilha sem subir lá”, durante toda a viagem eu só pensava o quanto o dia estava lindo e como a o vulcão tornava aquela paisagem perfeita, era com certeza o vulcão mais lindo que eu já tinha visto na minha vida.

Tão logo me acomodei no povoado comecei a buscar as informações necessárias para a trilha (tanto localmente quanto pela internet). As informações não eram muito agradáveis, todos eram muito enfáticos sobre a necessidade de um guia, as agências e guias autônomos não ofereciam nenhum benefício adicional (água, comida ou transporte) e cobravam a partir de 25 dólares pelo serviço.

Gostaria de abrir um parêntese neste relato para deixar claro que eu respeito muito o trabalho dos guias, seja em turismo de aventura ou em passeios mais tranquilos. E as minhas decisões a seguir não tem nada a ver com a experiência ou a qualidade do trabalho destes profissionais.

Mesmo para grupos maiores o valor não melhorava, todos os guias da ilha cobravam este valor por pessoa inviabilizando qualquer tipo de barganha.

Pode parecer pouco, mas para a realidade da Nicarágua 25 dólares é bastante dinheiro. Para fazer uma comparação eu gasto aqui por dia: 5 dólares hospedagem, 2 dólares uma refeição (arroz, feijão, frango, batata frita, salada e suco) e mais 1 dólar para água e um lanche... total 10 dólares por dia.

Não é possível que todo mundo pague isso! Vou procurar uma galera e ir por conta própria!”

Eis que eu me deparo com um conflito cultural desagradável:

A maior parte dos turistas na américa do sul são europeus (vocês não têm ideia de como eu fico indignado de nossa gente preferir ir a Europa do que explorar as maravilhas que temos aqui, mas isso é um desabafo para outro texto). E se alguém diz a um europeu que ele PRECISA pagar algo, ele não questiona nem pechincha, paga e segue a vida. Sendo assim eu não achei ninguém disposto a seguir a aventura comigo, pois o argumento dos guias era bem objetivo:

Você não pode escalar o vulcão sem guia, é ilegal”

Pão duro convicto e determinado a não pagar por uma “companhia de caminhada” mais do que eu pago por todo o resto, comprei comida e água e me preparei para partir sozinho no dia seguinte.

A companhia inesperada

 O primeiro ônibus público em direção ao vulcão saí as 5h da manhã e o segundo apenas as 8h, sendo assim dormir um pouco mais não é uma opção, considerando que a trilha tem previsão de duração de 10 horas e começar às 8h poderia resultar em ainda estar no vulcão após escurecer, incorrendo em mais perigo desnecessariamente.

As 4h30 me sentei naquela parada de ônibus e junto comigo vieram todos os cachorros da ilha. Eu ainda não entendi o que aconteceu, eu não fiz barulho nem brinquei com eles, mas enquanto caminhava na rua todos os cachorros resolveram acordar e me seguir, alguns brincando entre si e outros brincando comigo.

Quando o ônibus chegou, sem pedir licença ou sequer pagar a passagem um dos cachorros decidiu entrar comigo. Apesar do meu espanto o motorista reagiu normalmente, falou que este cachorro está acostumado a subir a montanha e podia até ser meu guia.

A trilha

O ônibus me deixou bem na entrada da trilha e apesar de ainda estar escuro não foi difícil encontrá-la. A trilha começa em uma fazenda e mesmo com pouquíssima sinalização o primeiro km é bem tranquilo, praticamente plano e sem nenhum desafio.

Depois desse aquecimento a trilha entra em área de floresta, o dia já está clareando, macacos gritam de todos os lados e de vez em quando meu cachorro guia corre atrás deles, mas sempre regressa ao seu posto de trabalho.

A partir deste ponto a trilha vai se tornando mais difícil, o caminho enlameado e escorregadio em alguns momentos preciso me apoiar nas árvores para não cair. O ganho de altitude é cada vez mais intenso e as pausas para descansar mais frequentes.

Duas horas depois de começada a trilha chegamos a um abrigo improvisado, ali estamos a 900m de altitude, aproveito o local para fazer um lanche e recuperar as energias... divido minha água com Gabriel, o agora batizado guia canino, e seguimos para a segunda metade da trilha.

A escalada

20 minutos após a cabana a floresta acaba, estamos em um campo totalmente aberto composto por rochas vulcânicas, areia e vegetação rasteira. Na cidade os guias falam que 50% das pessoas chegam até aqui e decidem voltar; e não é difícil entender o porquê: o vento é frio, forte e as rajadas súbitas quase me derrubam algumas vezes, a trilha se torna inexistente é preciso caminhar sobre as rochas com muito cuidado para não escorregar ou causar uma avalanche. Esse é o ponto que separa os meninos dos homens, ou melhor os homens dos malucos.

Gabriel não se mostra intimidado, e num sentimento de: “se ele consegue eu também consigo”, decido seguir em frente.

Deste ponto em diante o mapa que tenho comigo, um bom senso de orientação e Gabriel foram fundamentais para seguir o caminho. Não existe qualquer indicação da trilha a cada passo é preciso analisar qual o passo seguinte. E por falar em passos neste momento estou andando semelhante a um gorila, utilizando os pés e as mão para consegui um pouco de apoio e não escorregar. Não resta dúvida do porquê todos são tão incisivos ao dizer que esta é uma trilha perigosa.

Seguimos devagar, eu sempre preocupado com ele e com como seria o caminho de volta, e ele com aquela cara inocente de quem diz “vamos lerdo, você consegue!”.  

Não tenho mais noção nenhuma de a que altura estamos ou quão pior pode ficar, mas pelo meu mapa pareço estar mais perto que longe e me agarro neste pensamento para conseguir seguir em frente.

Por duas vezes me perco da trilha original e sou forçado a voltar um pouco para reencontra-la, na segunda vez eu estive prestes a desistir, mas a falha de comunicação entre mim e meu guia fez com que ele seguisse em frente e eu tive que ir atrás para não abandona-lo.

Duas horas e meia depois de iniciada esta fase da trilha, percebo que o chão está ficando quente (como uso as mãos para me apoiar é fácil perceber a diferença), o cheiro de enxofre fica mais forte e tudo indica que estamos chegando ao final. Neste ponto cansaço, dor, frio, medo e ansiedade se transformam em determinação e ganho um impulso final para conseguir terminar.

Quando finalmente chegamos ao topo do vulcão começa a chover, o vento é frio e o enxofre sufocante, precisamos descansar rápido porque é perigoso passar muito tempo ali.

A volta

A primeira parte do retorno é a mais difícil e eu estou o tempo todo agachado deslizando devagar. Neste ponto encontro dois outros grupos subindo, todos ficam muito surpresos em eu estar caminhando sem guia e mais ainda de ter um cachorro comigo, mas um dos guias o reconhece e conversamos um pouco.

Levei cerca de 3 horas para chegar até o abrigo no final da floresta, mas mesmo sabendo que ainda teria mais 2 horas de caminhada até o ponto de ônibus me senti aliviado porque o caminho final era menos perigoso e sem riscos de me perder.

Fotos

Esta é a parte mais irônica da aventura. Em geral após caminhar horas ou fazer travessias difíceis somos recompensados com paisagens de tirar o folego, onde os mochileiros se orgulham de tirar fotos e mostrar para os amigos. O vulcão Concepcion não te permite isso.

Não importa em que época do ano você vai, ou quão ensolarado está o dia. Existe algum fenômeno climático que eu desconheço (se alguém souber por favor me explique) que torna o topo do vulcão sempre encoberto por nuvens. Estive durante uma semana na ilha e houve dias que as únicas nuvens no céu estavam ao redor do vulcão parecia que havia um imã ali.

Como consequência direta disto nenhuma das minhas fotos ficou boa. Esta é definitivamente uma aventura pela satisfação pessoal de superar meus limites e saber que sou capaz do que propriamente para admirar a natureza.

 

[as fotos e videos originais do dia voce pode ver no post oficial da aventura http://www.tomatechines.com.br/2018/01/a-aventura-mais-cansativa-longa-e-perigosa-da-minha-vida/]

 

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Um dia você acorda e decide fazer uma trilha em um vulcão ativo, o que você não sabe é que essa vai ser a aventura mais longa, mais exaustiva, mais difícil e mais perigosa da sua vida.
Se você tem problemas nos joelhos, nos tornozelos ou não quer sujar sua roupa é melhor não continuar lendo...
 
 

Dados gerais da trilha

*Localização: Vulcão Concepcion (sul da Nicarágua)
*Percurso total:  13km [ida e volta]
*Duração subida: 5h00
*Duração descida: 5h00
*Ponto mais baixo: 150m
*Ponto mais alto: 1500m
*Nível de esforço físico: Máximo
*Nível de dificuldade de orientação: Alto
*Nível de beleza da paisagem: Mínimo
 

Entendendo a aventura:

Ometepe é uma pequena ilha no sul da Nicarágua que abriga dois vulcões (um ativo), florestas tropicais e muita natureza... enfim um prato cheio para quem gosta de aventura.
Desde o momento que eu entrei naquele barco e avistei o vulcão longe no horizonte eu sabia: “Não posso sair dessa ilha sem subir lá”, durante toda a viagem eu só pensava o quanto o dia estava lindo e como a o vulcão tornava aquela paisagem perfeita, era com certeza o vulcão mais lindo que eu já tinha visto na minha vida.
Tão logo me acomodei no povoado comecei a buscar as informações necessárias para a trilha (tanto localmente quanto pela internet). As informações não eram muito agradáveis, todos eram muito enfáticos sobre a necessidade de um guia, as agências e guias autônomos não ofereciam nenhum benefício adicional (água, comida ou transporte) e cobravam a partir de 25 dólares pelo serviço.
Gostaria de abrir um parêntese neste relato para deixar claro que eu respeito muito o trabalho dos guias, seja em turismo de aventura ou em passeios mais tranquilos. E as minhas decisões a seguir não tem nada a ver com a experiência ou a qualidade do trabalho destes profissionais.
Mesmo para grupos maiores o valor não melhorava, todos os guias da ilha cobravam este valor por pessoa inviabilizando qualquer tipo de barganha.
Pode parecer pouco, mas para a realidade da Nicarágua 25 dólares é bastante dinheiro. Para fazer uma comparação eu gasto aqui por dia: 5 dólares hospedagem, 2 dólares uma refeição (arroz, feijão, frango, batata frita, salada e suco) e mais 1 dólar para água e um lanche... total 10 dólares por dia.
Não é possível que todo mundo pague isso! Vou procurar uma galera e ir por conta própria!”
Eis que eu me deparo com um conflito cultural desagradável:
A maior parte dos turistas na américa do sul são europeus (vocês não têm ideia de como eu fico indignado de nossa gente preferir ir a Europa do que explorar as maravilhas que temos aqui, mas isso é um desabafo para outro texto). E se alguém diz a um europeu que ele PRECISA pagar algo, ele não questiona nem pechincha, paga e segue a vida. Sendo assim eu não achei ninguém disposto a seguir a aventura comigo, pois o argumento dos guias era bem objetivo:
Você não pode escalar o vulcão sem guia, é ilegal”
Pão duro convicto e determinado a não pagar por uma “companhia de caminhada” mais do que eu pago por todo o resto, comprei comida e água e me preparei para partir sozinho no dia seguinte.

A companhia inesperada

 O primeiro ônibus público em direção ao vulcão saí as 5h da manhã e o segundo apenas as 8h, sendo assim dormir um pouco mais não é uma opção, considerando que a trilha tem previsão de duração de 10 horas e começar às 8h poderia resultar em ainda estar no vulcão após escurecer, incorrendo em mais perigo desnecessariamente.
As 4h30 me sentei naquela parada de ônibus e junto comigo vieram todos os cachorros da ilha. Eu ainda não entendi o que aconteceu, eu não fiz barulho nem brinquei com eles, mas enquanto caminhava na rua todos os cachorros resolveram acordar e me seguir, alguns brincando entre si e outros brincando comigo.
Quando o ônibus chegou, sem pedir licença ou sequer pagar a passagem um dos cachorros decidiu entrar comigo. Apesar do meu espanto o motorista reagiu normalmente, falou que este cachorro está acostumado a subir a montanha e podia até ser meu guia.

A trilha

O ônibus me deixou bem na entrada da trilha e apesar de ainda estar escuro não foi difícil encontrá-la. A trilha começa em uma fazenda e mesmo com pouquíssima sinalização o primeiro km é bem tranquilo, praticamente plano e sem nenhum desafio.
Depois desse aquecimento a trilha entra em área de floresta, o dia já está clareando, macacos gritam de todos os lados e de vez em quando meu cachorro guia corre atrás deles, mas sempre regressa ao seu posto de trabalho.
A partir deste ponto a trilha vai se tornando mais difícil, o caminho enlameado e escorregadio em alguns momentos preciso me apoiar nas árvores para não cair. O ganho de altitude é cada vez mais intenso e as pausas para descansar mais frequentes.
Duas horas depois de começada a trilha chegamos a um abrigo improvisado, ali estamos a 900m de altitude, aproveito o local para fazer um lanche e recuperar as energias... divido minha água com Gabriel, o agora batizado guia canino, e seguimos para a segunda metade da trilha.

A escalada

20 minutos após a cabana a floresta acaba, estamos em um campo totalmente aberto composto por rochas vulcânicas, areia e vegetação rasteira. Na cidade os guias falam que 50% das pessoas chegam até aqui e decidem voltar; e não é difícil entender o porquê: o vento é frio, forte e as rajadas súbitas quase me derrubam algumas vezes, a trilha se torna inexistente é preciso caminhar sobre as rochas com muito cuidado para não escorregar ou causar uma avalanche. Esse é o ponto que separa os meninos dos homens, ou melhor os homens dos malucos.
Gabriel não se mostra intimidado, e num sentimento de: “se ele consegue eu também consigo”, decido seguir em frente.
Deste ponto em diante o mapa que tenho comigo, um bom senso de orientação e Gabriel foram fundamentais para seguir o caminho. Não existe qualquer indicação da trilha a cada passo é preciso analisar qual o passo seguinte. E por falar em passos neste momento estou andando semelhante a um gorila, utilizando os pés e as mão para consegui um pouco de apoio e não escorregar. Não resta dúvida do porquê todos são tão incisivos ao dizer que esta é uma trilha perigosa.
Seguimos devagar, eu sempre preocupado com ele e com como seria o caminho de volta, e ele com aquela cara inocente de quem diz “vamos lerdo, você consegue!”.  
Não tenho mais noção nenhuma de a que altura estamos ou quão pior pode ficar, mas pelo meu mapa pareço estar mais perto que longe e me agarro neste pensamento para conseguir seguir em frente.
Por duas vezes me perco da trilha original e sou forçado a voltar um pouco para reencontra-la, na segunda vez eu estive prestes a desistir, mas a falha de comunicação entre mim e meu guia fez com que ele seguisse em frente e eu tive que ir atrás para não abandona-lo.
Duas horas e meia depois de iniciada esta fase da trilha, percebo que o chão está ficando quente (como uso as mãos para me apoiar é fácil perceber a diferença), o cheiro de enxofre fica mais forte e tudo indica que estamos chegando ao final. Neste ponto cansaço, dor, frio, medo e ansiedade se transformam em determinação e ganho um impulso final para conseguir terminar.
Quando finalmente chegamos ao topo do vulcão começa a chover, o vento é frio e o enxofre sufocante, precisamos descansar rápido porque é perigoso passar muito tempo ali.

A volta

A primeira parte do retorno é a mais difícil e eu estou o tempo todo agachado deslizando devagar. Neste ponto encontro dois outros grupos subindo, todos ficam muito surpresos em eu estar caminhando sem guia e mais ainda de ter um cachorro comigo, mas um dos guias o reconhece e conversamos um pouco.
Levei cerca de 3 horas para chegar até o abrigo no final da floresta, mas mesmo sabendo que ainda teria mais 2 horas de caminhada até o ponto de ônibus me senti aliviado porque o caminho final era menos perigoso e sem riscos de me perder.

Fotos

Esta é a parte mais irônica da aventura. Em geral após caminhar horas ou fazer travessias difíceis somos recompensados com paisagens de tirar o folego, onde os mochileiros se orgulham de tirar fotos e mostrar para os amigos. O vulcão Concepcion não te permite isso.
Não importa em que época do ano você vai, ou quão ensolarado está o dia. Existe algum fenômeno climático que eu desconheço (se alguém souber por favor me explique) que torna o topo do vulcão sempre encoberto por nuvens. Estive durante uma semana na ilha e houve dias que as únicas nuvens no céu estavam ao redor do vulcão parecia que havia um imã ali.
Como consequência direta disto nenhuma das minhas fotos ficou boa. Esta é definitivamente uma aventura pela satisfação pessoal de superar meus limites e saber que sou capaz do que propriamente para admirar a natureza.
 
[as fotos e videos originais do dia voce pode ver no post oficial da aventura http://www.tomatechines.com.br/2018/01/a-aventura-mais-cansativa-longa-e-perigosa-da-minha-vida/]
 


E o teu fiel Escudeiro Gabriel???

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      Onde dormir:
      Casa Liz, era um hostel limpinho, simpático, barato, com quarto particular. Tem um terraço com umas hamacas que dão belas sestas.

      Vale a pena?
      É uma cidade nostálgica, onde é evidente a destruição dos terramotos de 1931 e 1972, porque muita coisa não foi reconstruída. Não é das cidades mais seguras onde estivemos, sendo recomendado não abrir os vidros dos táxis, mas não temos razão de queixa, tomando todas as medidas necessárias.
       
      365 dias no mundo estiveram 3 dias em Manágua, de 2 a 4 de julho de 2017
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      Preços: médio
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      Estadia Recomendada: 2 dias

       
    • Por Mari Moraes
      ...ou as 5 coisas mais estúpidas que eu fiz em 5 dias na Nicaragua.
      porque dica do que fazer todo mundo dá. tudo é lindo nas fotos, nos textão. quero ver compartilhar as cagadas. só vou relembrar porque eu me prometo e tá escrito: NUNCA mais fazer umas cagadas dessas. 

      (((até a proxima viagem)))   1. Naufragar de Kayak 

      i love the smell of vai dar ruim in the morning. na minha última manhã em granada acordei cedo com siricutico e fui pro centro da cidade procurar um passeio pra ser o gran finale da estadia. já não bastava ter nadado em cratera de vulcão e cheirado enxofre do outro cuspindo lava, não. tinha que ter mais emoção, isso, tinha que ter mais aventura.

      tinha mesmo é que ter ficado quieta no meu canto mas...

       
      cheguei no centrinho e tava tudo fechado, a cidade só acorda 8h30. povo esperto esse povo da nicaragua, temos muito a aprender com eles. 

        tudo aquilo que o sol toca, simba, é menos trouxa que você e só acorda as 8h30 da manhã bom, não vou esperar 1h sentada aqui no banco da praça né? volto pro hostel e arrumo as coisas, afinal, tenho que pegar um ônibus meio dia pra outra cidade. o universo sempre se comunica comigo.

      e eu devo falar aramaico.

      aproveitei o tempo ocioso pra conversar com a familia e tirar fotos da cidade vazia. tava tão vazia que rolou até um pau de selfie sem walk of shame.

      fechei um passeio de kayak pelas isletas e, como eu não sabia que ia andar de kayak quando acordei, tava com a minha sandalia que ocupa + espaço na mala, aquelas de gladiador romano. vocês  acharem cafona é problema de vocês. na nicaragua faz  sucesso.



      o motorista se ofereceu pra passar no meu hostel pra trocar. mas eu não queria fazer as outras 4 pessoas me esperarem. fora que minha malinha é organizada com o método tetris, se abrir tem que chamar esquadrão anti bomba pq pula roupa pelo quarto inteiro. então recusei. já que ia ficar dentro do kayak, não tinha pq me preocupar com sapato. 

      (((nessa hora consigo mentalizar o universo, lá de longe, acenando negativamente em um facepalm)))

      o briefing antes de sairmos pro mar incluiu uma pergunta importantíssima de um alemão:
      "pq colete salva vidas? algum kayak já virou?"
      a resposta ficou marcada pra sempre em mim
        "apenas procedimento padrão de segurança pra não sermos multados. olha, posso te garantir, fizemos cerca de 600 tours e nunca aconteceu nada"     tinhamos duas opções de kayak: duplo e individual. obviamente os 4 pegaram os duplos e eu sobrei ¯\_(ツ)_/¯   o kayak individual é bem mais punk que o duplo, ele é pesado e ruim de jogo, além de ser todo fechado. enquanto o duplo é aberto e de plastico (olha eu tentando dar desculpinha pra tentar justificar a cena rrrrrrridicula que vai se passar comigo alguns paragrafos abaixo)   kayak nutella. duplo. molezinha. pra americano no spring break kayak raiz. individual. senhor com 35 anos de experiencia em alpinismo e sobrevivente de ataque de tubarão em moçambique além disso, começávamos o percurso na areia e pra chegar nas isletas, precisava passar a rebentação. isso ninguém te avisa antes de pegar seus dolares suadinhos.    estava ventando. bastante. isso quer dizer que as ondas tavam boas. não pra nós,claramente. mas tinha gente surfando no lago. eu podia ter desistido nessa hora. mas não. a certeza que ia dar ruim eu já tinha, agora eu ia atrás da humilação REAL.    e fui. o programa que acontece todos os dias nos mais de 600 tours é mais ou menos o seguinte:   9h - chegada na marina e briefing  9h15 - todo mundo com o kayak na areia rumo as isletas 9h50 - chegada as isletas 10h40 - visita ao forte 11h - retorno pra marina 11h30 - fim  
      e agora uma imagem aérea de onde eu estava as 10:00

          eu não conseguia, de jeito nenhum, quebrar as ondas e tava sendo jogada pras pedras. a cada estourada, entrava mais água no kayak (lembra que era fechadão? pois é). eu já tava com os braços e as pernas doloridas e o sol tava ardendo. tinha esquecido capa a prova dágua e meu celular tava em um ziplock de pão, agarrado no meu colete sendo submerso.    olhei pro céu. alguém devia tá rindo de mim.   lembrei dos mais de 3 mil kayaks que já tinham passado por ali e nunca tinham afundado, enquanto ia sentindo o meu ficando cada vez mais pesado, no nivel da água.tava a poucos minutos de virar estatística, podia sentir. eu ia mudar o curso da resposta pra pergunta do colete.   parece triste, mas o pessoal do meu grupo que já tava no rio calmo, ria com respeito de mim e tentava gritar alguma coisa pra me ajudar. o guia, um nicaraguense de 19 anos, só falava frases de motivação tipo treinador de crossfit. as ondas vinham rasgando pra cima de mim.    até que eu vi ela, e ela me viu. a onda veio e eu nem tentei lutar.   o kayak virou, e eu, em câmera lenta com as duas perninhas arreganhadas pra cima, tentando segurar o celular com a boca tomei um caldo épico.
      se tivesse trilha sonora, seria a nona de beethoven (6:46 do video, mais precisamente), mas como não tinha, foi um grunhido sem graça e um "fuck i think i sank".    o guia explodiu de rir.   boiei até chegar o resgate. 

      me trouxeram um novo kayak.

      um de criança.

      se fosse poesia terminaria 

      com a foto do inicio do post

      como não é,

      termina com uma queimadura de sol

      de primeiro grau 

      nas canelas com a silhueta

      da danada da sandalia

      de gladiador    que eu não quis trocar

      amaldiçoados sejam os romanos.   2. Descer um vulcão a 75km/h... e quase morrer por isso 
        Na lista das coisas que eu deixei nesse país, além de um pedaço do meu coração e da dignidade pós naufrágio de kayak, está um estão alguns tecos da minha perna e, surpreendentemente, nada além disso.   A CNN colocou a descida do Cerro Negro na lista das 50 Coisas Mais Desafiadoras Que Você Pode Fazer Viajando. Está em segundo lugar, atrás apenas de pilotar um avião caça. 

      Só pra entender, muito atrás, lá em oitavo lugar está pular de paraquedas no Everest.Achei bonito pra por no currículo.   Fui.

         
      Depois de sobreviver a um rola que a minha cabeça quicou 7 vezes a 75km/h, olhando pro céu com medo de me mexer, ter fraturado alguma coisa (provavelmente tudo) e na tentativa de levantar, simplesmente me desmontar, decidi ficar afundadinha ali nas cinzas do vulcão por algum tempo agradecendo por estar viva.    Será que eu tava viva mesmo???   
      Dos meus últimos momentos, lembrava de ter descido sem afobação, ganhando velocidade aos poucos até que sim, drummond, porra, tinha um caralho de uma pedra no meio do caminho. Que fez meu board voar.

      Interrompendo meu devaneio, surgiu uma cabeça entre o meu rosto e o sol: era o médico da cruz vermelha querendo falar comigo. Com aquela cara coberta de guerrilheiro, definitivamente não era São Pedro. Já que não tava no céu, resolvi levantar. O homem ficou assustado, como se tivesse vendo defunto ressuscitando. Queria saber se eu queria ajuda, falei que não uuuu ariana forte independente e logo me arrependi.   
      Vi meu board a uns 5m ladeira acima e lembrei da regra suprema que o guia tinha frisado: "não importa o que aconteça, seu board é sua responsabilidade". No topo do vulcão é tranquilo andar, mas ali no meio a parada fica sinistra, a cada passo, a perna afunda até o joelho de pedra e cinza QUENTE. Num sol de 35º com um macacão de sarja de manga comprida do pescoço até o pé. tá feito o cozido de Mari al Bafo.    no tutorial de make de hoje vamo ensinar a nunca arrastar a cara em cinza de vulcão
      Nessas horas lembrei da minha mãe falando pra eu não me meter em roubada que o seguro saúde não cobria. PQP mãe, eu sei que você avisou. Pra não dar o braço a torcer, apesar da vontade de ligar pra mamai e chorar, me prometi que só ia contar a história depois de ter ido embora de Leon.    
      Quando cheguei no pé do vulcão tava geral incrédulo me cumprimentando, querendo saber se eu tava bem. Eu falava que sim, fingindo costume de aventureira, mas por dentro tava toda estrupiada.

        vocês tem apenas uma tentativa pra localizar o irlandês marrento
      Tinha um irlandês marrentinho que tava enchendo o saco desde o início do krl do tour que seria o mais rápido. O tempo dele tinha sido 72 km/h. Eu tava tão zureta que nem perguntei o meu. Na verdade, eu sentia que nem tinha ido tão rápido assim. Me falaram que fizeram um bolão porque acharam que eu tinha sido mais rápida. Hm, interessante...

      Perguntei. O cara com o velocímetro "You?" com o zoião e um sorrisão no rosto "Look - apontou pro tempo - 75, mas rapida"

       

      Senti aquele orgulho alheio. Só que era eu mesma. Krl como assim, tudo isso?
      E o pessoal que tava em volta ainda adicionou que os 75km foram graças a esse rola que me impediu de acelerar mais, porque ia passar de 80km/h tranquilo. imagina a merda que ia dar. #semfreio #quasesemfreio #cabeçaABS

          agora, papo sério: adrenalina é muito maneiro. me amarro, mas ser inconsequente não é legal. nós não somos intocáveis. não acontece só com os outros. 
        E se serviu de alguma coisa essa história? Além de ter virado lenda na cidade por um dia e bio do tinder (é de cair o c da bunda o tanto de homem que prefere uma boa história no lugar de umas boas fotos) eu que antes não tinha medo de nada, comecei a ser mais consciente dos piriiigos que a gente se mete sem pensar duas vezes, o "só se vive uma vez". Agora até pra pular trampolim fico calculando onde que minha cabeça pode bater e dar ruim. Traumatico, não recomendo.
        cheia de bolha do remo do dia anterior, imagina como não ficou inflamadinho cheio de cinzas 😇   Apesar de tudo, a frase que encerra o artigo da CNN sobre o Cerro Negro consegue me levar de volta praquela boleia do caminhão na estrada rumo a Leon, a 5 mil km de casa, na selva, bebendo cerveja, cantando a todo pulmão as musicas do rádio com 30 estranhos que já tinham virado meus melhores amigos.

      sangrando, toda suja de terra e cinzas, eu só tinha a agradecer.   "On the ride back to Leon I give silent thanks to the inspired people of the world: the ones whose minds run off on all manner of daring tangents, like the flanks of Cerro Negro. The ones who admire not just the aesthetics of the wilds, but the possibilities too. And most of all the ones who stare up at active volcanoes and think: "I wonder if I could ride my fridge down that?"       e dá pra reclamar? 3. Fazer happy hour de rum...  ...e conhecer a famigerada invalidez.
      na sexta, cheguei no hostel depois do vulcão e fui pesquisar sintomas de traumatismo craniano. Tinha que ir pra outra cidade no dia seguinte - san juan del sur - mais ""rústica"" fodida ainda, mas enjoada e com dor de cabeça, boa coisa essa viagem não ia dar.
      achei um artigo médico que descrevia o seguinte:     Se a resposta for "sim" para alguma dessa questões, é necessário levar a vítima da batida ao pronto-atendimento.   a minha era positiva pras perguntas 2 e 3. a 4 já veio de nascença. o pessoal tava preocupado, mas a real é que eu tinha duas opções:    - passar a noite num hospital duvidoso na nicaragua e muito provavelmente voltar pra casa com diagnostico de virose.   - aproveitar o happy hour e encher a a cara de cachaça pra esquecer a dor de cabeça.   quantas doses de rum o corpo humano consegue aguentar? multiplica por 2.    resumindo, ia rolar uma festa na praia las peñitas que foi cancelada, o gerente ficou maluco e resolveu compensar em león mesmo. 2 copos de rum com coca pelo preço de um. 

      as vezes três copos, dependendo do humor do bar.   (recomendações: fique o mais longe possivel de drinks que contenham as letras R U M, especialmente se do lado você encontrar essa formula matemática 2 X 1)    
      como você tem que pegar todos os copos de uma vez, pra socializar pra não esquentar, muita gente te oferece o segundo. acabei ganhando alguns da carmelita*, minha amiga de quarto, outros muitos dos irlandeses malucos, algum por sobreviver ao capote, outro on the bar........... qualquer motivo era motivo.   mas, se ainda faltava alguma desculpa: TOMA. lá pra algumas muitas da noite começou a final de rugby entre lions (da irlanda) e all blacks.    É A FINAL DA COPA DO MUNDO ENTRE BRASIL E ARGENTINA.
      o hostel foi abaixo. eram cerca de 40 irlandeses. muitos litros de cerveja e rum foram misturados nesse intervalo de tempo e você não precisa ser professor de química pra saber que essa mistura heterogênea é mais danosa pro fígado e pra cabeça que ingerir ácido.

      não sei quem ganhou, mas lembro que nas comemorações, tinha uma menina pelada dançando em cima do balcão do bar. 

      nada mais fazia sentido. 

      resolvi deitar pra dormir. tava muito difícil sair da cadeira do balcão. era daquelas altas, sabe? nesse momento da noite, olhando pra baixo, parecia que eu tava a uns 2 metros do chão.  

      blackout.

        evidências da noite anterior no rolo da câmera acordei 2 da tarde no dia seguinte, hora que o pessoal que foi descer o cerro negro no sábado tava voltando e fazendo festa. mal imaginam o que vai acontecer daqui umas horas. brace yourselves kids.       tradição depois do vulcão é tomar um shot de pimenta. acordei no sábado com uma situação parecida com essa. pelo menos eu tava sem dor de cabeça, o que não fazia sentido nenhum. olhei pro lado e vi a carmelita na outra cama em estado de putrefação também. depois que eu fui dormir, ela emendou uma balada. evidências da noite anterior no instagram
      lembrando dos arrependimentos acontecimentos da noite com a carmelita, ela me fez reviver meus últimos momentos acordada da madrugada de sexta pra sábado.começava comigo tentando sair da cadeira.

      na primeira tentativa de levantar, o juan* um anjo que deus o abençoe e o tenha por me aguentar perguntou se eu precisava de ajuda. respondi queclaramente pfvr mim ajude não, conseguia me virar sozinha. 

      na segunda, o gerente do hostel, o pablo*, pediu pro juan me acompanhar, porque eu já não sabia o que tava falando. pablo já tinha tomado pelo menos uns 20 copos de rum e tava se achando com moral.
        pablito ensinando irlandês beber na terceira eu decidi que ia, era meu momento, ia provar que tava certa caminhando sobriamente pra ir pro quarto. já tinha até ensaiado a cara de turn down for what. 

      apoiei as duas palmas da mão nos cantos redondos do banco e fiz pressão pra dar equilíbrio pra tomar o impulso e sair. 

      a pressão foi tanta que acabei fazendo peso na parte da frente do banco. se eu tivesse numa sala de primeira série, tinham gritado madeeeeeira. 
       

      caí que nem bosta, de cara no chão. segurando os lados do banquinho com força. apaguei. a pancada deve ter sido exatamente do lado contrário da batida do vulcão pra equilibrar os chakras da cabeça. por isso que eu tava sem dor.

      pablo, juan e carmelita me ajudaram a ir pro quarto. ainda bem que eu não vou ver ninguém nunca mais.

      volta pra 2 da tarde de sábado porque eu e carmelita estamos famintas e precisamos procurar comida. 

      primeira pessoa que encontro saindo do quarto, sentado lendo: juaniiito. 
      "e aí bela adormecida, pensei que ia pra san juan hoje"

        EU TINHA ESQUECIDO DO KRL DA VIAGEM    trajeto que eu tinha que fazer perguntei se eu ainda conseguia pegar um chicken bus a tempo.

      "esquece, 6h de até lá e vai ter que fazer baldeação sozinha a noite" 

      bugou tudo. não sei direito o que aconteceu mas começamos a caminhar sem rumo pra achar comida e, por inércia, entramos na principal atração turística da cidade: A Catedral de Leon. 

      eu tava sem celular. saí só com a roupa do corpo. tava num estado parecia que tinha tomado chá de fita cassete. triste, vendo scar matar mufasa num looping eterno.

        escorando em qualquer canto e pensando q q to fazendo com a minha vida na volta, experimentei a sensação de falência múltipla em vida: corpo, mente e bolso em estado irrecuperável. deitei no sofá e encarei o teto por tanto tempo, mas não vi passar. sabe quando a gente se irrita porque quer descansar e a cabeça não para de pensar? nesse momento eu não. eu só existia. eu o teto e mais nada.

       
      agora sei como vivem as amebas. a diferença é dentro do protoplasma delas você consegue encontrar o núcleo, dentro de mim, o cérebro tava boiando no rum.

        morri mas passo bem mal                 a pessoa que tá de ressaca, descalça, sem pentear o cabelo há 10 dias não quer guerra com ninguém
       * o nomes na história foram trocados pra preservar a integridade e dignidade de todos os envolvidos kkk menos a minha
        4. Chegar em San Juan no domingo direto pro Sunday Funday...

      ...e quase perder a festa.

      por causa da lástima do item anterior, resolvi que ia pra san juan no domingo no shuttle do hostel - pra não ter nenhum problema com chicken bus e chegar a tempo. 

        chicken bus são esses ônibus iradíssimos com tecnologia de primeira classe que garante que cinco corpos ocupem o mesmo lugar. sempre custam alguns centavos de dolar, e pelo que oferecem, posso te garantir que ainda tá caro minha ideia inicial era ficar no pachamama em san juan, onde começa o sunday funday ou no naked tiger, onde termina, mas obviamente eles tavam esgotados.

      os amigo do bigfoot, hostel que eu tava em leon, ficaram tudo compadecido com a minha situação e ligaram pro casa de olas, que é do lado do naked tiger, onde eles tinham ficado por duas semanas e acharam 10 x melhor. 

      pelo menos lugar pra dormir e como chegar eu tinha agora.

      atualização: é mesmo 10 x melhor.

       
      tinha só um porém: o shuttle estava programado pra chegar as 3:30 em sjds.exatamente o mesmo horário que sai o ultimo carro pro sunday funday. já que o shuttle deixa na porta do hostel, é fazível né?

      antes de entrar no shuttle, o motorista pergunta a cidade e o hostel de destino de cada um. finalmente podia descansar antes do furacão em san juan. 

      a viagem foi tranquila, fui vegetando. ressaca de 2 dias, já teve? já ouviu falar? paramos em todos esses lugares que fala aí no mapa  de cima e eu não lembro de nada. só lembro do motorista encostando no meio da estrada e 
        "NAKED TIGER, CASA DE OLAS"
      olhei pros lados, só mato. o motorista deve ter se confundido. continuei deitada fingindo que não era comigo. ele abriu a porta da van. "você! chegou! tem mala?"

        antes de achar que é tranquilo, lembre-se jove, olhe o tamaninho do ponto brancoque podia ser meu carro, pra comparação. depois entenda que o google maps da nicaragua tá em 2d ainda, essa estradinha que liga onde eu tava e o lugar que eu tinha que tá sobe uns 458 mil metros acima do mar. é um morrão, que no estado que eu tava, parecia o kilimanjaro
      pois é... tá vendo aquele asterisco ali embaixo de san juan del sur no roteiro do shuttle?"AT ANY HOSTEL*" 

      eu era o asterisco. o motorista me explicou que como esses dois hostels estão fora de san juan e em cima de uma montanha com uma estradinha de terra, a van não passava. aquele era o lugar mais perto que ele conseguiria me deixar.

       
      já que não tinha alternativa, catei minha mochila e comecei a peregrinação morro acima. no pasa nada. literalmente nada passa nessa estrada. Deus me proteja.

      dava pra ouvir os grilinhos na mata. espero eu que sejam os grilos. depois de uns 10 min começo a ouvir um barulho de carro vindo. gelo. o barulho vai se aproximando e ficando muito mais alto. o carro para do meu lado. 

      uma caminhonete com dois caras no banco da frente me oferece carona.  já vi filmes de terror o suficiente pra saber onde isso ia acabar. recuso, fico em pânico e eles arrancam. um alívio. continuo subindo.

      nem sei quanto tempo se passa, e em alguns momentos da subida eu começo a duvidar que to no caminho certo. quando eu chego no meu limite do cansaço com a mochila nas costas, vejo o naked tiger. 

      ALELUIA.
        procurando imagens da estradinha de terra pra escrever esse monte de bobagem, achei essa recomendação no site oficial do naked tiger. DO NOT WALK UP THE ROAD. kkkkk -rindo de nervoso cheguei finalmente no casa. estava estranhamente silencioso e só tinham três pessoas em volta da piscina. três hippies chapados. com cara de quem vai te dar um golpinho.

      a menina levanta e pergunta se eu quero fazer check in. ela explica que é voluntária no hostel. acho suspeito. falo que sim e que to atrasada pro sunday funday. ela muda de expressão na hora e começa a dizer pra eu deixar meu passaporte, meus cartões e minha mochila com ela e CORRER pro naked tiger porque eu não tenho mais tempo.

      eu entro num estado de pânico e não sei se devo confiar todas as minhas coisas nessa mina chapada. começo a tatear meus cartões e coloco na minha doleira pra levar comigo. ela se irrita a cada coisa que eu tento pegar e fica repetindo pra eu deixar com ela que ela vai cuidar. 
        "YOU WONT NEED IT, GO".   a tentação de não ir pro sunday funday e ficar no casa é grande apesar das suspeitas, deixei meu passaporte válido com ela, mas levei meu antigo comigo e todo meu dinheiro.

      fui pro naked tiger pagar o ticket. um dos donos do sunday funday tava lá, já travado. e aposto bastante que não tinha nem bebido ainda.

      ele falou que eu tinha muita sorte porque todos os carros já tinham saído, mas um voltou pra buscar uns israelenses e tava só me esperando agora.

      saí da recepção e vi a caminhonete que tinha passado por mim na estrada, com os dois caras no banco da frete. e os israelenses na caçamba. 

      andei meia hora com peso nas costas a toa. agora eu precisava dos caras que poucos minutos antes me apavoraram sem intenção na estrada. eles só queriam ajudar. olhei pro céu. ri de nervoso. eles acabaram de salvar meu dia.

      irônica a vida.     5. Ficar sem dinheiro... 

      ...e quase não conseguir voltar pra casa.

      precisei de um dia inteiro pra me recuperar do sunday funday. 

        piscina do casa: dependendo do ângulo parece que você tá num barco em alto mar. não é exatamente o que o homem de ressaca procura, então fiquei nesse ângulo seguro aqui até que no casa, não é muito difícil a missão de caminhar de volta pro seu estado humano. o dono do lugar, um australiano que vive na nicaragua há uns 7 anos, parece o pai de todos. fred acorda cedo tomando umas pra ficar rindo da cara dos marmanjo jogado pelos cantos. conversa com todo mundo. todo mundo quer falar com ele. o cara tem muita história. e de quebra coleciona histórias de outros que passaram por lá. 

      alguns highlander acordam 7 da manhã pra beber na piscina. na verdade, não sei nem se dormem.     fui conferir minhas finanças na doleira. um susto. só sobraram 20  dolares e o hostel não aceita cartão. preciso ir pra cidade sacar dinheiro e comer.   casa de olas, segunda, 7am. esse sujeito na piscina é um dos que passaram super bonder na mão e grudaram na latinha de cerveja. enquanto to me arrumando, alguém gira a roleta e ganha um drink. o fred avisa que vai fazer almoço pra todo mundo por conta da casa. SERIA UM SONHO???????   o café da manhã eu já tinha garantido, agora o almoço. Deus realmente abençoa os mochileiros depois de me entupir de comida, lá pras 3 da tarde desci pra cidade. parecia outra. o furacão insano de lotado do dia anterior, agora era uma silenciosa vila de pescador. ainda tem um ou outro gringo bêbado nas sarjetas. fico pensando no mal que o sunday funday causa pra quem mora lá.  todo domingo a mesma história.    vejo as lojinhas na rua e penso que talvez, no fim, seja bom. talvez eu esteja me enganando pra justificar.   tem 3 caixas eletrônicos na cidade. vou que nem barata tonta de um pro outro. tão sem dinheiro. chamo um policial que tá sentado numa cadeira de plástico cochilando perto do banco. ele explica que é normal, as pessoas sacam muito dinheiro no domingo e geralmente segunda as máquinas ficam sem.   memes brasileiro: maior produto de exportação. enzo já chegou na nicaragua me fodi. meu voo pro brasil é as 14h do dia seguinte saindo de managua e não apresento nenhuma condição de pegar chicken bus pra lá.    alguns lugares oferecem shuttle por $25 pro aeroporto mas nenhum aceita cartão. fico desnorteada entrando de vendinha em vendinha perguntando, até que eu acho um surfshop de um francês, que cobra 10% pra passar cartão.   a shuttle sai as 9:30 de san juan e a previsão de chegada é 13:00 no aeroporto internacional de managua. com a graça de Deus espero que dê tempo. não tenho outra opção.   surfshop do francês amor que aceita cartão volto pro casa cabisbaixa e conto pro fred sobre os caixas eletrônicos. faltam $10 em dinheiro pra eu conseguir pagar minhas diárias. digo que posso transferir na hora via paypal, com juros.    história do casa: and a lot of times a lot of guidance 😂   ele não quer. diz que eu sou a primeira brasileira que passa no casa e que eu era uma "menina boa" - vulgo não corri pelada em volta da piscina no dia anterior com as australianas - e me pede um favor em troca dos 10 dólares: que eu volte pra lá outra vez e traga mais amigos do brasil pra "pagar minha dívida".    quando eu cheguei não entendi o social media free zone depois das 5:30. depois que vi o bicho pegando quando o sol baixa, fiz um ATA quase choro. agora que já passei por tanto nervoso pra conseguir o bendito do shuttle,não quero mais ir embora.    outra regra que esqueceram de escrever nesse quadro é não se apegar. tem gente que vai passar 2 dias no casa, como eu, e fica dois meses.    mas a maior regra de todas: não depender do krl do capitalismo eletrônico nas segundas. marx tava certo: ele vai te decepcionar.   ----   é isso pessoal. se você tiver um pouquinho de noção que seja, não faça essas coisas todas aí quando chegar na nicaragua.
      se fizer, escreve uns post bem grandão pra gente dar risada de você...

      ...antes de ir pra lá e querer repetir mais uma vez as mesmas cagadas.
    • Por Andre-CAP
      Lugar tão lindo que merece um tópico só pra ele.
      Tenho diversas informações sobre a Ilha. Vou postando aos poucos, porque o tempo está corrido pra mim.
      Mas de antemão eu aviso. Quem for para a Nicarágua, deve visitar Ometepe. Você jamais irá esquecer.
    • Por Nath Crepaldi
      é necessario visto para ir a Nicarágua? Se for, onde eu faço isso?


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