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José Paulo Divino

Serra fina que seria em 4 dias, quase abortou, e se transformou em 3 dias aos 63 anos de idade

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    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.
    • Por BetoPira
      Caros,
      Semana passada estava em Piracicaba, sem minha mulher nem meus filhos, que tinham saído de férias, quando olhei pra minha cargueira e resolvi fazer a travessia da Serra Fina na Mantiqueira. Já namorava essa travessia faz vários anos, mas nunca tinha calhado de dar certo fazer. Bom, em dois dias reuni o material de navegação necessário, chequei o equipo, passei no supermercado e pé na estrada. Já sabia que o verão não é a época recomendada pra essa trilha, por causa das tempestades que assolam toda Mantiqueira e que são ainda mais violentas acima dos 2.500 m de altitude. A previsão do tempo era de trovoadas esparsas o que achei de bom tamanho pra um janeiro...
      Pra fazer a travessia estudei as planilhas do S. Beck e do G. Cavallari (publicadas), levei a indispensável carta 1:50.000 de Passa Quatro, bússola e, como estava sozinho e queria me garantir, levei ainda um GPS com WP e Tracks carregados. Desnecessário dizer que equipo completo é obrigatório em função das viradas de tempo, então é bom estar preparado pra chuva e frio. Fiz em 4 dias, mas vi que mais leve dá pra fazer em 2, encurtando o tempo entre as fontes de água. É só uma questão de balancear os objetivos de cada um.
      1º dia
      Entrei no carro e rumei direto pra Toca do Lobo, que tem acesso 5 km depois da divisa SP-MG de quem vem da Dutra em direção a Passa Quatro (MG). São uns 15 km de subida que como estava seco o carrinho agüentou bem, mas recomendo deixar o carro na cidade e arrumar transporte traçado pra subir a serra. Cheguei na Toca por volta da uma da tarde, enchi os cantis (3,5L) que deveriam durar até o meio do dia seguinte e peguei a trilha rumo ao Capim Amarelo. Nenhum problema de navegação. O rumo é claro e a trilha bem marcada nesse trecho. Depois de umas 5 horas e meia eum graaaaaande desnível vencido já chegava no cume, fazia a janta e caía num sono bom.
      2º dia
      Amanheceu com o tempo fechado, visibilidade reduzida e na descida do Capim Amarelo já percebi que o verão tinha feito sua parte e a trilha já estava mais fechada, exigindo atenção , carta e bússola na mão pra não sair do rumo. Mesmo assim me desviei e também em função de distração minha não percebi que o GPS tinha se descalibrado... bom, problema detectado, problema resolvido, trilha reencontrada. Pra temperar veio um pouco de chuva, mas, sem grandes transtornos já chegava depois de umas 5 horas na fonte d’água. Almoço farto, muita água pra dentro e encarei a subida da Pedra da Mina por mais uma hora... chegando lá em cima, recompensa merecida, vista magnífica do vale do Ruah com o maciço de Itatiaia ao fundo. Isso durou umas 2 horas até o tempo começar rapidamente a fechar e a preparar um espetáculo de tempestade!!! Foi água pra ninguém colocar defeito!!! Por precaução não tinha armado a barraquinha no cume, mas num lugar mais protegido e não tive problemas de ser carregado pelo vento e jogado lá embaixo.
      3º dia
      Choveu a noite toda e tinha decidido pegar a trilha de descida do Paiolinho e interromper a travessia na metade. Afinal, pai de filhos pequenos tem que se cuidar... Mas... amanheceu com o tempo bom e não teve jeito, fui puxado em direção ao vale do Ruah coberto por capim elefante com rumo marcado pra atingir o Cupim de Boi e depois o Pico dos Três Estados. O que que é esse vale do RUAH!!! Coisa mais linda, parece uma savana africana, só faltam os leões e as girafas. O capim estava exuberante e... fechado. Mas a navegação não teve complicações, mais uma vez a desatenção junto com o crescimento da vegetação faziam perder a trilha facilmente e logo me via num emaranhado de capim dificílimo de transpor. Essa é uma tônica na Serra Fina: os rumos são claros, mas fora da trilha a passagem é muito complicada. Parabéns pra quem abriu essa travessia!!! Bom, depois de um bom banho no vale e reabastecer os cantis, cheguei rápido no Cupim de Boi e logo até o Pico dos Três. Lá pelas 4 da tarde vi o tempo fechar novamente e pensei que seria prudente acampar uma hora mais pra frente num ponto mais protegido conhecido como abrigo dos bandeirantes. Fiquei por lá mesmo. E o tempo fechou mesmo. E caiu água novamente!!! ê vidão!
      4º dia
      Aproveitei a noite pra coletar água e me esbaldar com o precioso líquido, amanheceu tempo fechado com um tímido nascer do sol, mas mesmo assim deu pra curtir o visual com toda a Serra Fina ao fundo e a vista perfeita de Itatiaia à frente. Era meu aniversário o que deu um tempero bom pro início da manhã. O último dia tem uma descida complicadinha logo de cara, mas a direção é certa, o Alto dos Ivos, e não tem como se perder. Em 2 horas chegava lá, e logo iniciava a descida final no meio da Mata, passando pelo espetáculo do bosque das bromélias, chegando na Fazenda e logo nas amenidades da civilização. Uma carona fácil até Itamonte (sorte???) e de lá, peguei ônibus de saída pra Passa Quatro (sorte???). Em Passa Quatro contactei o famoso Cipriano (35) 3371-1660 com sua Toyota e fui resgatar meu carrinho debaixo de muita chuva e muita paz de espírito.
    • Por Marcos R. S.
      “Salve Galera Mochileira”
       
      Demorou mais tah aew..rsrsrsrs
       
       
      Relato da Travessia da “Serra Fina” Realizada de 30 de Julho à 02 de agosto de 2009.
       
      Faz mais de um ano quando ouvi falar pela 1ª vez dessa travessia, para ser mais exato foi em junho de 2008 quando meu amigo Manoel, vulgo Mané, me ligou eu estava trampo, ele disse: “Vamos para Serra Fina, entra aew na Net e vê as fotos que você vai ficar loko pra ir também”. Pois bem, fui dar uma olhada pra ter uma noção de onde era e saber por que tanta euforia da parte dele. Realmente achei o lugar lindo e procurei saber mais como era a tal travessia, onde ficava e como era o esquema pra ir até lá. Depois de ter mais informações e ler a respeito aki mesmo neste fórum e em outros blogs internet a fora, resolvemos que além de ter um preparo físico também precisaríamos adquirir alguns equipamentos, resolvemos que em Julho de 2009 nós iríamos. Ao decorrer deste tempo convidamos vários amigos e conhecidos para ir conosco, chegou ter até umas 8 pessoas, mas no final acabou indo só eu o o Mané mesmo.
       
      Como não iríamos com alguém que já tivesse ido, lemos muito a respeito e levamos um aparelho de GPS com a trilha gravada nele. Equipamentos comprados e depois de treinar umas caminhadas aqui em nossa cidade (Campos do Jordão-SP) combinamos com o nosso amigo Gilberto para nos levasse até Passa Quatro-MG, cidade onde que se tem acesso da Travessia tradicional que se inicia na Fazenda Toca do Lobo, queríamos fazer do dia 30/07 até o dia 02/08. A previsão do tempo era de Chuva no fim do dia 30/07, ficamos um pouco apreensivos por que sabíamos que a travessia seria muito perigosa com chuva, mas como estávamos meio pilhados fomos já com o pensamento que se chovesse nós abortaríamos a travessia. Já com a mochila é um caso a parte, não tem jeito, tem de carregar comida para 4 dias, além dos agasalhos e água ela fica pesada mesmo, mas depois de um tempo com ela nas costas ela acaba virando uma extensão do corpo.
       
      Bom, chegamos em Passa Quatro eram 18:00h. do dia 29/07, passamos em um Posto de Combustível logo na entrada da cidade para comprar álcool para as espiriteiras, e passamos no centro da cidade para comer algo, logo depois seguimos para a tal “Toca do Lobo”. Como fazia uns dois dias que não chovia por lá a rua no começo estava até que boa, mas em umas partes estava muito ruim o Gilberto com o seu Celta estava se sentindo um piloto de Rally,rsrsrs, ele nos levou até onde tinha jeito para ser mais exato onde tem a placa que indica que ali que começa a Travessia. O Gilberto nos deixou ali e caminhamos até a Toca do Lobo, bom ali não tem erro depois da Fazenda, que leva o nome, há uma placa com um mapa da Travesia com todos os lugares de acampamento e uns dizeres com algumas normas de conduta, seguindo mais a frente a uma bifurcação, pegue a esquerda que desce, creio que não deu nem 1 km, já estávamos na “Toca do Lobo”, e descobrimos porque se chama assim, isso pensou certo tem uma caverna no fim da estrada que é a tal toca. Armamos acampamento na parte que as pessoas usam como estacionamento e viram seus carros. Não fez muito frio a temperatura ficou na casa dos 10º C. Passada noite comemos algo para ter forças para começar a nossa jornada,levantamos acampamento e seguimos em frente.
       
      1º Dia
       
      A trilha se inicia atravessando o rio em frente a caverna, um caminho de pedras que represa a água, não tem erro, atravessou depois é subir pela trilha até (como diria o Mané) a “cacunda” do morro. Saímos eram por volta das 07:40h. nos carregamos de muita água e subimos. Uma vez lá cima do morro, seguimos para a esquerda e oficialmente começamos a travessia da “Serra Fina”. Logo depois após passar pela 1ª área de acampamento vimos que tinha uma pequena queda d’água a esquerda, que seria um bom lugar para pegar água para os primeiros dois dias, deu uma hora de caminhada no máximo, mas seria melhor ter economizado as pernas até esse ponto por que iríamos precisar. A trilha em si até que bem demarcada em sua maioria, mas nossa maior orientação sem desmerecer o nosso GPS, foi os “Tótens” de pedra que outros aventureiros fizeram para demarcar a trilha, seguindo eles não tem como errar. Já no 1º dia já encaramos os maiores adversários da travessia, os Bambus e o Capim de Anta, e não adianta xinga-los (acredite você vai querer excomungá-los) por que serão companhia até o fim da travessia. Chegamos no “Capim Amarelo” era umas 14:30h. mais ou menos, e decidimos avançar e acampar na próxima área de Camping para ganhar tempo no próximo dia de caminhada. A noite teve uma temperatura amena, e ventava um pouco. Mas a previsão do tempo acertou e choveu de madrugada, não foi muito, mas nos deixou apreensivos em ter de cancelar. Mas graças a Deus parou de chover e amanheceu sem chuva e nem sinal de nuvens.
       
      2º dia
       
      Acordamos as 06:00h. junto com o Sol, as barracas estavam bem molhadas devido a chuva. Comemos algo e então percebemos que não tínhamos muita água, e tínhamos que racionar até chegarmos até o próximo ponto de água. Saindo do acampamento nos atrasamos um pouco por causa do maldito Capim de Anta, acreditem é muito fácil perder tem de tomar muito cuidado, pois entre eles por não tem trilha definida, marque um ponto adiante levante a cabeça e siga em frente. No mais a caminhada seguiu tranqüila,lindas paisagens um sobe e desce nos morros,sem contar as “escalaminhadas”. Logo avistamos a “Pedra da Mina” encoberta pela neblina nosso próximo objetivo, mas antes paramos no Rio Vermelho, e enfim almoçamos e descansamos bem para atingir o ponto máximo da travessia. Logo depois seguimos os tótens até a parte do rio que tem de atravessa-lo, já no começo da subia escutamos vozes olhamos para trás havia um grupo de aventureiros mais ou menos uma hora de distancia de nós, berramos e acenamos para eles e continuamos a subir. A trilha não é difícil, mais é bem ingrime, paramos umas duas vezes para tirar umas fotos e recuperar o ar. E enfim o topo!!! Lá no alto se tem a noção exata o que é estar nas alturas, nosso GPS estava marcando 2.800 metros de altitude (pelo IBGE 2.797 metros ) mas tudo bem. A neblina estava meio densa e ventava muito mas de vez em quando ela se dissipava e dava para ver bastante coisa. Rapidamente armamos o acampamento lá em cima mesmo, até então achamos uma boa idéia, e não iríamos perder a chance de acampar naquela altitude né. O Mane ficou travando bem a barraca porque ventava muito e ele estava com medo dela sair voando a noite, eu fui preparar algo quente para gente comer e beber, nisso apareceram os aventureiros que estavam logo atrás de nós, era um grupo de 6 homens, conversamos um pouco eles estavam com um guia, conversei com ele e tiramos algumas dúvidas, o pior que nem perguntei o nomes deles e nem de onde eram, eles desceram e foram acampar numa área que fica um pouco abaixo do topo. Logo escureceu e o frio aumentou, entramos na barraca e esperamos o sono vir porque não se via nada lá fora por causa da neblina e o vento estava demais. E foi assim a noite toda, aquela ventania nem dormimos direito. E enfim amanheceu!!!!
      3º Dia
       
      O nascer sol simplesmente o mais belo da travessia, eram 06:00h. estava fazendo 3ºC mas por causa do vento forte, a sensação térmica estava abaixo de zero, mesmo com luvas os dedos doíam demais. Levantamos acampamento e descemos seguindo os tótens em direção ao vale do Ruah, que fica a esquerda de quem desce, com uma ventania que quase nos derrubava. Ao final da descida avistamos um mar de Capim de Anta, e percebemos que até chegar ao rio verde o caminho não seria fácil. Neste local era muito fácil perder a direção sem falar nos buracos imensos, era muito úmido atolei o pé varias vezes, tem de tomar muito cuidado. Após atravessar este “mar”, chegamos até o rio, que por sinal era muito bonito também, tinha até uns poços para quem gosta de água gelada, nós não encaramos era cedo demais e tava muito frio. Seguimos o rio até chegar perto onde os morros que formam o vale ficam muito altos, formando um tipo de “Canyon”, o caminho segue pela direita, nos carregamos de água pois seria o ultimo ponto de água da travessia. Chegando ao topo do próximo morro para mos para comer algo e descansar um pouco, sempre apreciando a vista. Do lado do Vale do Paraíba avistava-se um paredão de pedra muito alto. Seguindo o caminho, após a refeição, avistamos outro pico a direita pensávamos que era o Pico dos Três Estados, mas estávamos enganados a trilha segue pela esquerda, uma descida muito em pé, sabe-se que nesta travessia se descer demais depois terá que subir a mesma quantidade um pouco a frente. A subida foi fogo, a vegetação não dá trégua atrapalha mesmo sem contar a umidade e o cansaço. Chegamos ao cume do Pico dos Três Estados, um lugar legal pra se acampar, paramos comemos apreciamos a vista e como não era muito tarde, decidimos acampar em uma área de Camping a frente para ganhar tempo no dia seguinte. Como em todo cume a muito Capim de Anta, quase perdemos a direção de novo, mas o esquema é não deixar o capim ficar mais alto que você marcar um ponto a frente e tentar ir o mais reto possível. Achamos o caminho e em seguida um bom lugar para levantar acampamento. Esse dia dormimos cedo 19:00h. já estávamos hibernando rsrs.
       
      4º Dia
       
      Como de praxe acordamos bem cedo, comemos e levantamos o acampamento para a ultima etapa da Travessia, mas nem por isso é a mais fácil. A subida do Pico dos Ivos também é osso de subir, como todas as subidas dos picos principais. Mas depois é praticamente morro abaixo aja joelho, e daí é uma mistura de bambu com Capim, às vezes juntos só para dificultar. A trilha acaba em uma rua de terra que em um momento se divide, é so pegar a esquerda e não tem erro, um pouco a frente tem um mina dágua a direita da estradinha, tem de ficar atento se não passa direto, mas logo a frente terá varios pontos de água não tem de se preocupar com água. A frente já chegando a Fazenda começa uma estrada, é só segui-la até o asfalto, na BR-354. Li em alguns relatos que no fim da trilha tinha uma pousada com restaurante, bom não vimos nada disso, creio que fechou sei lá. Chegando ao asfalto pensamos, “Ué acabou”!!! mas tínhamos que chegar em Itamonte-MG onde nosso amigo Gilberto iria nos pegar, mais ou menos uns 13 Km do ponto onde estávamos. Há uma linha de ônibus que liga Resende-RJ até São Lourenço-MG que passa por lá, mas não sabíamos o horários do bendito. O jeito foi seguir a pé em direção a Itamonte, achar alguém para pedir informação e ir pedindo carona. Uns 02 km a frente tinha uma casa a beira da estrada, perguntamos a um rapaz que brincava com uma criança se havia outra condução para nos levar, tipo Van, pau de arara, kombi, caminhão, etc, e se também tinha algum comércio a beira da estrada . Ele nos disse que não havia nenhum tipo de condução, era a pé ou de carona e que tambem nãot inha nenhum comercio, como restaurante ou bar ao longo da rodovia até Itamonte. Daí pronto pensamos “dançamos” bater a pézaum na beira daquela rodovia. Bom, como desgraça pouca é bobagem seguimos caminhando pela rodovia, o incrível que a maioria dos veículos estavam seguindo em direção contrária, nem tinha como pedir carona, demorava pelo menos uns 15 minutos até passar um carro na mesma direção que a nossa, e gente com o dedão levantado, mais nada. Depois de uns 3 km chegamos a uma pequena vila, e perguntamos a um morador sobre o ônibus, ele nos disse que passava pelo menos umas 4 vezes no dia essa linha que liga as duas cidades, a gente não botou muita fé mas fazer o que, nos disse também para esperar o ônibus no ponto que ficava a uns 100 metros dali. Agradecemos e seguimos para o tal ponto, que na verdade era um caule de arvore a beira da rodovia. Foi ai que nossa sorte virou, vinha uma Van Ducato , e pedimos carona quando vimos as luzes de freio se acenderem saímos em disparada. O motorista estava só na Van e perguntei quanto ele cobrava par nos levar, ele disse “Né nada não!!!” Fomos logo nos acomodando e agradecendo ao “Sr.Gilson”, e contando a ele o porque estávamos ali na rodovia, também era porque ficamos 04 dias sem ver a cara de mais ninguém diferente. Nos deixou em Itamonte agradecemos acho que umas 20 vezes pelo menos, e seguimos a Praça da principal onde era o ponto de encontro. Chegando lá fomos comer e tomar algo porque a essa hora a fome tava braba era 13:30h.mais ou menos, o Gilberto chegou guardamos as mochilas no carro e seguimos para casa.
       
       
      Fotos:
       
      http://www.serrafinaeuvou.blogspot.com
       

       
       
      Abraços
       
      Marcos
    • Por Ploc-afta
      Segue abaixo um relato de horas de tensao durante 3 dias na Travessia da Serra Fina !
      Uma história verdadeira envolvendo: barracas dizimadas , horas de uma marcha frenética pela via de escape, vendavais apocalipticos, montanhistas feridos, barrinhas de cereais e agencias de turismo mercenárias..... -
       
       
      Sim essa história (nao estória) realmente nos ocorreu nesse feriadao de 3 a 6 de junho. Foram momentos de tensao a partir do instante em que tivemos que pensar em escapar dali e nao mais continuar com o plano original de fazer essa incrivel travessia.
       
      Espero que esse relato possa conter detalhes interessantes que ajudem alguem a se programar para essa travessia. Sem duvida voltaremos lá....
       
       
      Prólogo
       
      Há muitos anos eu pessoalmente venho planejado fazer essa super travessia considerada, senao a mais dificil do Brasil, como uma das mais dificeis e belas. Uma combinacao muito tentadora.
       
      Mas outras viagens surgiram, outras coisas vieram e ela ficou para trás.... bem... nao até dois meses atrás.....
       
      Eu pessoalmente, como que em respeito dessa super travessia, planejava fazer antes, outras tambem consideradas dificeis, como uma preparacao digamos assim . Planejava na verdade fazer a Travessia Petro-Tere, subir o Agulhas Negras e quem sabe o Vale do Paty antes dessa.
       
      Mas um grupo de amigos se empolgou com a ideia, ainda mais de fazer sem guia (algo que mesmo diante de tudo o que passamos nao me arrependo nem um pouco pois ao contrario da Travessia Petro-Tere onde pelos relatos parece ser imprescindivel um guia experiente, devido aos totens errados que ha pela trilha, vimos que seria possivel sim fazermos a Serra Fina por conta própria).
       
      Esse desafio a mais foi o suficiente para me convencer.
       
      E como nao é toda hora que se encontra pessoas dispostas a encarar algo assim tao trash, nao pensei duas vezes e já confirmei minha ida.
       
      Em pouco tempo tinhamos uns 6 ou 7 pre-interessados na empreitada. Suas experiencias variavam do Trekking Salkantay a ascencao ao Huayna Potosi e de Pico Marins a uma ida a pé na padaria...
       
      Nao é necessario dizer que os que se encaixavam no ultimo desistiram logo que leram os primeiros relatos...
       
      No final eramos apenas 4, mas 4 pessoas que se pode confiar, que nao desistiriam facil. Eramos o Rudi, o Breno, FranCisco e eu.
       
      Infelizmente o Rudi acabou detonando seu ombro em consequencia da pratica de um esporte extremamente radical ( futebol com os amigos ) e acabou ficando de fora. Talvez tenha sido melhor pra ele.
       
      Em todo caso comecamos os preparativos.
      O Breno estrearia sua super mega powerful Manaslu Discovery Light em grande estilo. No meu caso eu ia de
      Kailash Smart II ( uma disparidade vergonhosa). Ao contrario do que alguem que conheca essa barraca possa pensar, tenho sim amor a vida..... esse seria um teste extremo para essa Kailash... e sim ela voltou comigo mas falarei sobre isso mais abaixo...
       
      Comecamos a treinar forte para essa jornada.. com enfase em especial a fortalecer pernas, joelho e costas... pesquisamos alimentos leves e com muito carboidrato... estudamos relatos, planilhas, mapas... foi uma operacao de guerra. A cada dia a empolgacao era maior..
       
      Com semanas de antecedencia buscavamos a previsao do tempo. Se o tempo estivesse ruim cancelariamos tudo.
      Mas faltando uma semana para a viagem, ao ver o horario do onibus das 23:00 para a cidade de Passa-Quatro (onde é a base para a travessia) estava tudo lotado
       
      Desespero total e nao tivemos duvida, compramos a passagem para o busao das 23:30 uma semana antes.
       
      Acontece que ja na segunda feira, da semana da viagem, a previsao indicava sol com muitas nuvens e chuva no sábado. Mas nesse instante estavamos tao vidrados na ideia da Travessia que nem pensamos em cancelar.. embora devessemos ter feito exatamente isso.
       
      Lembro que o Francisco perguntou: e se chover cara? Me limitei a responder ironicamente: ai a gente vai se molhar...
      Bem esse foi um belo erro, e nao achei mais engracado quando realmente estavamos debaixo da chuva e de ventos assustadores na Pedra da Mina.
       
      Ate esse ponto aprendemos 1 licao: jamais voltarei a Serra Fina se a previsao nao for de sol absoluto.
      Durante a travessia conhecemos um grupo que ja havia abortado a mesma 4 vezes!!! (essa era a quinta !) E tirando uma ocasiao em que abortaram por desistencia de alguem, as outras vezes foi porque o tempo estava muito ruim.... Bem nessa primeira vez ja aprendi a licao: pesquisar a previsao do tempo!
       
      Mas deixarei de enrolar....
       
      A viagem
       
      Quarta-feira 02/06 22:30 Rodoviaria do Tiete.
       
      3 malucos com mochilas gigantes chamam a atencao das pessoas a sua volta.
      Minutos mais tarde embarcam para Itanhandu no busao das 23:30
       
      A chegada foi de madrugada, onde um camarada estava esperando para nos receber...
      Dormimos ainda uma hora e tomamos aquele cafezim com quej tipicamente minero.
       
      Primeiro dia
       
      Quinta-feira 03/06 08:00 Itanhandú MG
       
      Ao sairmos de carro em direcao a Fazenda Toca do Lobo ja notamos que o céu estava encoberto. Esperavamos mesmo que la de cima tudo se abrisse e tivessemos as vistas incriveis que vimos na internet. Infelizmente isso nao ocorreu... longe disso.
       
      O nosso camarada nao sabia bem o caminho e entramos um pouco depois. Tivemos que perguntar a alguns moradores..
      Ao perguntar a uma mulher se a toca do Lobo era perto ela nao pode conter seu espanto e largou um:
      _ Nossinhôra !!!!
       
      Bom, deu pra ver que: ou era longe ( um tirinho de espingarda) ou era um caminho miseravel...
       
      Foi os dois na verdade!
       
      O Fiat Uno sofreu pra chegar até proximo a toca do Lobo e a estrada estava tao ruim que seguimos por cerca de 1km a pé.
       
      No meio do caminho 2 combes, uma van e carros passaram por nós voltando, ja nos indicando que a trilha ia estar cheia.
      Um deles parou e disse que devia ter umas 70 pessoas na trilha... mas blz, ja que estamos aqui vamos nessa!!!
       
      O caminho estava muito lamascento devido as chuvas de dias anteriores.
       
      Paramos debaixo da placa da Serra Fina, alongamos e seguimos adiante. Uns 15 ou 20 minutos depois chegamos no lado de uma caverna (deve ser a toca do tal Lobo) e atravessamos um rio.
       
      Eu tinha lido que mais para a frente tinha outro ponto de agua, mas resolvemos abastecer os 4 litros cada um ali mesmo. Isso foi bom pois nao achei o outro ponto de agua mesmo.
       
      O dia se mostrava muito umido, e fazia frio. Para ficar melhor ja comecei com o pé direito..... dentro da água! Maravilha, nem comecei a trilha e ja tava com o pé molhado....
       
      Entao comecamos a subir, a subir... a subir.... alias no primeiro dia é só subida mesmo.
       
      Ja encontramos transito na trilha... inclusive um casal que voltava porque a bota da mina tinha estourado.
       
      E o céu completamente nublado, nao se via absolutamente nada. Ja fiquei decepcionado com isso mas tinha esperanca de que o tempo melhorasse...
       
       
      Nesse ponto nao estava tao frio e ainda andavamos de camiseta dry-fit. Carregados ao maximo nao demoramos muito para comecar a suar em bicas....
       
      A trilha é mesmo muito puxada, faz juz a sua fama....
       
      Eu tinha impresso um mapinha, nada topografico, somente um indicando os pontos de água e o tamanho dos acampamentos.
       
      Mapinha sem vergonha, os tempos indicados nao podiam ser feitos nem se a pessoa estivesse carragando somente uma sacolinha de supermercado! Que dirá mochilas com 15 ou 16kg nas costas! E olha que andamos muito bem, passando diversos grupos e nem parando o suficiente.
       
      O Breno puxava um ritmo bem forte e tivemos que falar varias vezes pra pegar leve...a ideia era curtir o visual.
       
      Mas o pior é que nas partes onde se poderia ver toda uma crista até o Capim Amarelo e o vale ao redor (a foto classica) nao dava para ver nada alem de 20 metros, tanta era a neblina...
       
      Após umas 4 horas de caminhada a minha mochila Crampon 60 da T&R ja tava encomodando meus ombros... nao é suficientemente acolchoada para tanto peso e por tanto tempo. Ta na hora de comprar outra mesmo....ela é guerreira mas vou ter que aposenta-la...
       
      Mal paravamos para comer alguma coisa e o tempo ia passando, ja estava me arrependendo de ter comecado a caminhada de fato as 09:00hrs. Isso era bem tarde.
       
      Depois de uma subida muito forte chegamos finalmente ao Capim Amarelo. Eu so pensava e jogar a mochila no chao e acampar logo pra desmaiar na barraca.
       
      Bem, parece que essa tinha sido a ideia das cerca de 20 ou 25 pessoas que ja estavam acampados ali em cima...
       
      Nao cabia mais nada, nao dava pra fazer nem um bivak de tao aglomerado que estava aquilo ali.... segunda licao aprendida:
       
      Nao fazer a Serra Fina em feriados se puder evitar...!
       
      Tivemos que criar coragem e seguir adiante. Mas com a neblina quem disse que conseguiamos avistar o caminho, em geral feito no 2o dia, que teriamos que enfrentar ali mesmo?
       
      Nao dava pra ver nem todo o capim amarelo, menos ainda morro abaixo....muito perigoso se estivessemos sozinhos....
       
      Foi bom ter tanta gente naquele capim pois saimos atras de um gps...
      vimos a rota e tentamos achar.... impossivel... depois de cerca de meia hora de um lado ao outro finalmente conseguimos...
      Nesse instante ja estavamos ficando gelados pois a temperatura descia abruptamente. O horario ja estava avancando, eram 15:30 e tinhamos mais de uma hora ate o proximo ponto do meu mapinha, o Maracana, que tambem ja deveria estar lotado!!
       
      Finalmente conseguimos achar o caminho, embaixo de uma barraca! Valeu, acampar em cima do caminho com toda aquela neblina foi realmente bem legal.....
       
      Quando iamos comecar a descer a neblina apertou... outros montanhistas que ja conheciam muito a regiao estavam descendo tambem.
       
      Colamos atras deles... a vontade de chegar logo no acampamento tinha retirado do cerebro a sede, a fome e o cansaco.
       
      Eles desceram como raios e nao tivemos duvida, voamos atras deles. Ficar perdidos ali, no meio dos bambuzais de noite, sem uma barraca seria terrivel. O frio ja comecava a apertar e ja estavamos tremendo.
       
      Um detalhe importante: ao descer o capim amarelo nao deixe nada fora da mochila... os milhares de bambus se enroscam em tudo.
       
      Meu isolante termico ficou destrocado do lado de fora.
       
      Estavamos tao desesperados para nao perder o caminho que nao mantinhamos a distancia recomendada uns dos outros.. entao acabamos levando muitas bambuzadas no meio da cara e em outras partes mais doloridas do corpo pois quando alguem se agarrava neles para descer e depois soltava criava o efeito chicotada
       
      A descida é cheia e zig-zags e somado ao piso cheio de lama e a inclinacao forte, fazia tudo mais dificil, facil seria despencar dali para baixo e sair rolando ate o final do vale.
       
      Ao chegar no fundo do vale, tem ainda uma subida forte em meio as pedras bem expostas.. o vento ja gastigava e as pedras estavam bem molhadas pelo orvalho que estava pelo ar.
       
      A umidade era de 120% naquele momento. A hora indicava 16:30, apenas mais uma hora de claridade, pela frente.
       
      A seriedade era evidente em nossas faces.
       
      Depois de uma subida bem exposta nas rochas, passamos por um terreno plano coberto de capim de anta, de uns dois metros de altura.
       
      Vi que dava pra acampar por ali e nao tivemos duvidas, largamos nossas mochilas ali mesmo. A outra galera continuou no caminho ao Maracana.
       
      O local pareceu bem protegido do vento.
       
      Em meia hora arrumamos as barracas e comemos o melhor miojao do mundo (a fome ta apertando mesmo).
       
      A noite veio rapido e a temperatura chegou a 2o C durante a noite. Mas a umidade era tanta que doia os ossos.
       
      Durante a noite um grupo inteiro passou por nós, pois nao tinham conseguido acampar no Capim amarelo...
       
      Segundo dia
       
      Sexta-feira 04/06 Entre o capim amarelo e o Maracana 7:00hrs
       
      De manha vimos que o tempo seria ainda pior que o dia anterior...
       
      Se nos dias que a previsao dizia : sol com nuvens ja tinha sido feio imaginamos no outro dia, sabado, quando a previsao era de chuva !!!
       
      A cerracao estava bem baixa e nao era possivel ver mais que uns 20 metros a frente.
       
      Tivemos que tomar uma decisao: iriamos abortar a Travessia se o tempo nao ajudasse durante esse dia. Estava bem frustante ter que caminhar numa trilha pesada e sem ver nada ao redor....
      O visual encima de uma montanha compensa o esforco e da o animo pra continuar... mas do jeito que estava, sem ver nada.. nao fazia mais sentido...
       
      Mas tinhamos esperanca de que o tempo melhorasse....
       
      A navegacao nessa Travessia teria sido bem facil se o tempo estivesse limpo, mas nao tinhamos nem ideia de que rumo seguir sem poder ver mais que 20 metros a frente. Tivemos que descobrir ao passo que andavamos...
       
      Tentamos achar a trilha para o Maracana e rumo a Pedra da Mina, mas acabamos no meio de uma descida muito ingreme, com lama e muito lisa... se o caminho estivesse errado, como subiriamos....
       
      O bom senso nos mandava esperar algum grupo descer o capim amarelo para seguirmos juntos.....
       
      Logo apareceram alguns e fomos atras...
       
      Essa parte é tomada do capim de anta, teria sido bom usar roupas de manga comprida, oculos e luvas... pois eles sao cerrilhados e cortam pra valer...
       
      Saimos desse trecho cheio de cortes nos bracos e maos, ate a boca eu cortei nesse capim lascado...
       
      Sem contar que sao tao abundantes que nao da pra ver onde esta pisando e como estava tudo liso os tombos eram espetaculares...
       
      Alguem tinha falado que o primeiro dia era o pior, mas sinceramente esse segundo dia nao ficou devendo nada em questao de dificuldade...
       
      Foi um sobe e desce sem fim, com trechos de um verdadeira escalaminhada.... 6 horas disso. Se o tempo estivesse bom, deveria ter sido otimo...mas nao abriu nem um minuto... estava mesmo terrivel.....
       
      Depois de quase seis horas desde o camping um pouco abaixo do capim amarelo, finalmente chegamos na Pedra da Mina..
       
      Foi um sobe e desce lascado, com uma parede monstra e um desnivel absurdo antes do fim do dia.
       
      Obviamente ja tinha mais de 20 pessoas acampadas na Pedra da Mina e outros chegando, haviamos ultrapassado alguns grupos
       
      Os melhores lugares ja estavam ocupados, atras de grandes pedras ou muros de pedras menores...
       
      Resolvemos montar logo as barracas porque o vento estava bem forte. Ja era 16:40 e a temperatura estava em 4oC
       
      Como a minha barraca é a Smart II da Kailash, resolvi montar ela atras da Manaslu do meu camarada, assim teria um muro pra me proteger e nao sair voando. Os caras ficaram em dois na Manaslu e eu sozinho na Smart com as mochilas...
       
      O vento e o frio estavam demais, mas ainda conseguimos ver um pouco do Agulhas negras e todo o vale abaixo. Nem havia sinal de que iria chover no outro dia... por uns instantes ficamos confiantes..
       
      Mas durante aquela noite, ja as 20:00 o tempo comecou a mudar... ventos absurdos chutavam minha barraca. E davam umas bicudas com gosto.... E como eles vinham de todos os lados, atingiam a minha barraquinha em cheio..
       
      Essa Smart II, caso alguem nao conheca, nao tem varetas para montagem. Ela é fixa com os dois bastoes de caminhada para servir de colunas e amarrada com os espeques no chao...
       
      Passei horas sem conseguir dormir, a cada paulada do vento eu pensava que ira ser a ultima... devido ao terreno apertado nao tinha conseguido prender todas as cordinhas da barraca.... se um dos espeques se soltassem o sobreteto ira parar la no Rio de Janeiro, uma grande pipa amarela....
       
      A chuva comecou pra valer... parecia que estavam jogando agua com um balde na barraca... o sobreteto enconstava em partes internas da barraca jogando agua pra todo lado... a agua nao escorria, era jogada na minha cara..
       
      Nao deu pra pregar o olho, dormi fracoes de 15 minutos das 20:00 as 5:00 da manha....
       
      Todo mundo se perguntava o que ira fazer..
       
      Terceiro dia
       
      Sábado 05/06 Pedra da Mina 05:00hrs
       
       
      As 5 da matina acordei os camaradas na Manaslu que tambem nao tinham conseguido dormir direito. Pulei pra barraca deles pra ver o que fariamos...
      Quanta diferenca... ......passei do olho do furacao pra uma torre forte.... eita Manaslu estavel. ... dava pra ficar naquele vento, do fim do mundo, o dia todo desse jeito....
       
      O pessoal nem acreditou que eu ainda estivesse vivo depois de um noite dessas na minha barraquinha...
       
      Um parenteses aqui a respeito da Manaslu. É mesmo uma senhora barraca, mas poderia ter mais espaco interno e um avance maior.... cabe so duas pessoas sem mais nada dentro.... e o preco é um pouco alto mesmo com essa limitacoes.... Ta certo que nao tem nada melhor no Brasil, mas o preco poderia ser um pouco menor..... ai seria mais justo.
       
      Mas é muito boa realmente... dava pra se sentir seguro dentro...
       
      Naquele instante a tendencia era sair logo daquele raio de lugar pois estava cada vez pior...impossivel pensar em continuar...seria uma insanidade total...
      Tivemos uma leve ideia de como é alguem preso dentro da barraca esperando uma nevasca passar..
       
      A cada meia hora eu colocava a cabeca pra fora pra ver se tinha alguem saindo naquele tempo... das 5:00 as 9:00 ficamos nessa. Mas estava tudo na mesma.
       
      De repente, mesmo com o vento destruindo uma barraca ali perto (incrivelmente nao era a minha!!!) parece que todo mundo comecou a levantar acampamento e descer...
       
      Foi uma corrida frenetica para desmontar tudo debaixo da maior chuva e vento... o Breno dizia nao sentir mais os dedos das maos, nossos pes completamente encharcados...
       
      Na minha barraca estava tudo boiando, tinha virado uma piscina...as mochilas pesavam duas vezes mais pois tudo estava encharcado de agua.
       
      Mesmo assim voltarei algum dia com a Smart II pra Serra Fina, num tempo melhor e armando todos os espeques... se sobreviveu ao Twister, creio que com tempo bom vai se comportar direitinho. ..
       
      Comecamos a descer... alias toda a montanha comecou a descer naquele instante...nem sabia que tinha tanta gente por ali naquele dia, deveria haver umas 30 pessoas descendo juntas... inclusive quem tinha acampado la embaixo antes da Pedra da Mina e teve que subir tudo pra entao descer...
       
      Quem ja usou a via de escape, sabe que pra descer é uma pirambeira só.
       
      Pedras nuas, grandes rochas lisas, uma area perigosamente exposta, uma inclinacao forte... tudo o que se quer evitar num dia de muita chuva e ventos..
       
      Pra ter uma ideia, ao levantar o pé pra colocar na proxima pedra segura, o vento era tao forte que o pé ia parar em outro lugar... parecia que o vento estava nos sacaneando pra matar todo mundo... o negocio estava feio..
      Nao dava pra ficar de pé o vento nos jogava a toda hora...
       
      A mochila pesava mais do que no primeiro dia, quando estava carregada ao maximo e servia de paraquedas, o vento empurava com forca para o abismo....
       
      No nosso lado, umas 15 pessoas da agencia de turismos desciam coladas... um perigo.. se um caisse, seria uma tragedia na certa...
       
      Finalmente antigimos uma parte mais baixa, nos separamos do restante do pessoal e comecamos uma marcha fortissima pra sair dali... ja nao pensavamos em mais nada, em comer, em beber,,, queriamos sair da montanha....
       
      O nome via de escape da uma ideia de algo rapido, bem pratico, tipo: pensar em desistir e ja estar fora.... mas o caminho é muito penoso.
       
      4 horas depois enfim chegamos na parte mais baixa, onde o caminho na mata era naquele dia tambem o escoadouro de agua... andamos mais de duas horas na lama e com os pes dentro da agua....
       
      As quedas ficavam mais frequentes e com o peso da mochila era bem perigoso quebrar o pé, por algumas vezes torci o tornozelo e creio que se eu nao estivesse de bota de trekking tinha quebrado ..
       
      Quase na fazenda Serra fina, no fim da via de escape, um cara que ia pela agencia, quebrou o tornozelo... ai foi cada um da agencia por si.... os guias correram atras do resgate a cavalo, outro ficou com o cara na mata... a galera continuou sozinha...
       
      Depois de um trecho muito pesado e num ritmo insano, onde alguns simplesmente se jogavam no chao de exaustao, chegamos na fazenda Serra Fina..
       
      Foi um alivio ter escapado e poder tirar a mochila que estava destruindo meu ombro...
       
      Os caras da agencia tinham ficado ao relento, sem ninguem para os resgatar, pois nao dav pra chegar com o carro até ali...
      Cada um teve que se virar pra sair dali... tivemos que descer uns 3 km ate o Paiozinho pra ver se conseguiamos um transporte...
      e isso porque quem foi pela agencia pagou, pasmem! 1.200 reais cada!!! um preco de mercenarios...
       
      Pagar 1.200 reais pra se lascar desse jeito? A gente tinha se lascado de graca mesmo nao precisamos pagar pra isso....
       
      depois de alguma horas tentando achar alguem que ainda estivesse com alguma combe por ali, ja que os outros tinham descido para a cidade, encontramos o seu Edinho...
       
      um cara super gente boa com um caminhaozinho toyota.... e o cara so cobrou 10 pilas cada um para nos levar... estavamos em uns 10 na traseira...
       
      Descer naquela lama ate o asfalto (18km) era impossivel em nosso estado....e ele ainda rebocou um Citroen Xsara que nao me perguntem como... tinha sequer conseguido chegar ate ali......
       
      Chegamos em Passa Quatro e pegamos logo um busao ate Itanhandu onde estavamos alojados....
       
      Foi uma aventura... sem duvida... mas toda experiencia vale a pena...
       
      Teremos que voltar la no ano que vem pra concluir a travessia....
       
      A Serra Fina é realmente muito pesada....nao vi nada igual... mas é possivel...vale o esforco..
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