Postado Fevereiro 8, 2007 19 anos Membros Rio de Janeiro Sem Dinheiro Edmilson Vieira Amigos. O sonho europeu acabou. Sai da Argentina e quem aproveitou, aproveitou, quem não aproveitou, deixou pra trás. Cheguei num Rio de Janeiro num calor daqueles. Quando fui ao caixa eletrônico do aeroporto, a memória não deu ordem pra sacar. Fiz duas tentativas e o resultado bárbaro da máquina se resumia à palavra, "inválida". O que vocês queriam? Com guerra no Iraque, Big Brother na TV, e um mês fora do Brasil sem usar o cartão, esqueci das três letras que precisava colocar depois da senha. Gostaram da insensatez? Contava apenas com o dinheiro do hotel e do microônibus, para o centro da cidade maravilhosa, exatamente isso! Como a credibilidade dos bancos para os seus clientes só vai até a segunda tentativa, parei. Já pensaram nas conseqüências de estar numa cidade grande e desconhecida, sem dinheiro? Só tinha uma saída: procurar um médico pra receitar um estimulante cerebral. O bicho vai pegar! Mesmo nessa situação devastadora, tomei o micro e fui ao hotel. No caminho, passando pela Avenida Presidente Vargas, não encontrei o médico, e sim, medicamentos sambísticos. Era ensaio de duas escolas de samba no sambódromo. Fui com a bagagem ao hotel na Praça Tiradentes e armou-se conflito com o funcionário pra que ele recebesse somente no outro dia. Calma, calma, mantenha a calma, ele não vai aceitar. Pegou o dinheiro com o maior prazer. Só me restavam dois reais. Falei com o motorista de um ônibus ali na praça e consegui carona até o sambódromo (domingo à noite, 28 de janeiro de 2007). Naquele ensaio tinha a fome como samba-enredo e drama pessoal. Não que seja pró- samba, mas queria experimentar um pouco do que a Globo mostra como extraordinário. Sobre a cerimônia de ensaio das escolas posso dizer que também tem música de ambulância e de bombeiro pra socorrer as vítimas que não agüentam o calor. Numa determinada hora, os seguranças abrem os portões e parte do público que está na rua tem autonomia pra se sentir dono da festa. Do lado que a bateria da escola fica estacionada, tem placas indicando o lugar da comissão julgadora. Ao terminar o primeiro desfile, passaram quatro ônibus com cartazes na frente informando o nome da ala e do responsável. Os camarotes ficam fechados e só existe uma categoria, a geral. A multidão eufórica flutuando na arquibancada e as pessoas do meu lado conversando sobre escolas rivais. Cada integrante é uma estrela e sua alegria colabora pra levantar o ânimo da torcida. Fiquei tentando entender o que significava aquele evento, próprio do hemisfério sul. Se a festa é feita na maioria pelo povo pobre, como diz a TV, porque naquele momento, todos tinham dinheiro pra voltar pra casa, pra comer um cachorro quente, e eu não? Só dois reais pra sonhar. Arrastei do bolso o valor e comprei um refrigerante, minha porção de veneno pra enganar a fome e matar a sede. Lá pela uma da madrugada, defini a estratégia de volta ao hotel: seguir a multidão que ia a pé. Na solidão do quarto estava proibido de pensar em comida pra não destruir os últimos hemisférios do cérebro. Também não podia ficar maluco tentando lembrar letra de conta de banco. De manhã ao acordar, abriu-se uma trilha e veio nesta ligação, cada uma das três letras esperadas. Na própria praça tem uma agência da Caixa Econômica Federal. Os dedos digitaram sem precisar de luta. Foi a proporção exata que estava faltando. Vou te levar prum restaurante! A mais importante volta ao mundo da alimentação: suco, café, almoço e sobremesa. "Avisa lá, avisa lá, avisa lá êô, avisa lá que eu vou" comparar com as comidas argentinas. E esse foi o início de uma nova era do sobrevivente da senha digital. Edmilson Vieira é artista plástico e cronista. dnv01@uol.com.br Editado Junho 5, 2008 17 anos por Visitante
Postado Fevereiro 13, 2007 19 anos Membros hsusauhaus massa seu perrengue digital... mas, tomara que não precise, da proxima vez arruma tres limões e treina malabares... é qse um profissão por aqui
Postado Fevereiro 13, 2007 19 anos Autor Membros Ôi Gabriel. É, espero que não aconteça mais, nunca mais. Se acontecer vou vender churrasquinho de gato.
Postado Outubro 24, 2010 15 anos Membros Caraca!!! Adorei o seu relato...essa sim posso dizer que foi uma legitima aventura. Eu morei na Argentina por 6 meses e sei muito bem como é essa coisa da comparação da comida....(que para mim a nossa é melhor, cheguei a sonhar que tinham aberto um restaurante brasileiro onde era o infernal palacio de las papas - meu pesadelo..da calle lavalle...)... Adorei sua coragem de andar toda a presidente vargas de ape com o povo em pleno carnaval...na epoca que voltei para o rio era carnaval, meu primeiro aqui (sou gaucha) e te digo...entrei em panico com a multidao... adorei, adorei!!!!!!!!!!
Postado Dezembro 15, 2010 15 anos Membros Camarada, Toda vez que vier ao Rio de Janeiro, olhe pra cima e agradeça a Deus, no Corcovado, por você está vivo. Parabéns pela crônica! Editado Dezembro 26, 2010 15 anos por Visitante
Postado Dezembro 16, 2010 15 anos Membros caramba, ainda bem que deu certo em menos de 24 horas, eu já fiquei 24 horas sem comer e é péssímo =/
Postado Janeiro 31, 2011 15 anos Autor Membros caramba, ainda bem que deu certo em menos de 24 horas, eu já fiquei 24 horas sem comer e é péssímo =/ Olá, Bruna, obrigado pelo contato.
Postado Janeiro 31, 2011 15 anos Autor Membros Camarada, Toda vez que vier ao Rio de Janeiro, olhe pra cima e agradeça a Deus, no Corcovado, por você está vivo. Parabéns pela crônica! Oi Vladimir, pois é, os bancos e suas senhas. abraço Edmilson Vieira
Rio de Janeiro Sem Dinheiro
Edmilson Vieira
Amigos. O sonho europeu acabou. Sai da Argentina e quem aproveitou,
aproveitou, quem não aproveitou, deixou pra trás. Cheguei num Rio de
Janeiro num calor daqueles. Quando fui ao caixa eletrônico do aeroporto,
a memória não deu ordem pra sacar. Fiz duas tentativas e o resultado
bárbaro da máquina se resumia à palavra, "inválida". O que vocês
queriam? Com guerra no Iraque, Big Brother na TV, e um mês fora do
Brasil sem usar o cartão, esqueci das três letras que precisava colocar
depois da senha.
Gostaram da insensatez?
Contava apenas com o dinheiro do hotel e do microônibus, para o centro
da cidade maravilhosa, exatamente isso! Como a credibilidade dos
bancos para os seus clientes só vai até a segunda tentativa, parei. Já
pensaram nas conseqüências de estar numa cidade grande e
desconhecida, sem dinheiro? Só tinha uma saída: procurar um médico
pra receitar um estimulante cerebral.
O bicho vai pegar!
Mesmo nessa situação devastadora, tomei o micro e fui ao hotel. No
caminho, passando pela Avenida Presidente Vargas, não encontrei o
médico, e sim, medicamentos sambísticos. Era ensaio de duas escolas de
samba no sambódromo. Fui com a bagagem ao hotel na Praça Tiradentes
e armou-se conflito com o funcionário pra que ele recebesse somente no
outro dia. Calma, calma, mantenha a calma, ele não vai aceitar. Pegou o
dinheiro com o maior prazer. Só me restavam dois reais. Falei com o motorista
de um ônibus ali na praça e consegui carona até o
sambódromo (domingo à noite, 28 de janeiro de 2007). Naquele ensaio
tinha a fome como samba-enredo e drama pessoal. Não que seja pró-
samba, mas queria experimentar um pouco do que a Globo mostra como
extraordinário.
Sobre a cerimônia de ensaio das escolas posso dizer que também tem
música de ambulância e de bombeiro pra socorrer as vítimas que não
agüentam o calor. Numa determinada hora, os seguranças abrem os
portões e parte do público que está na rua tem autonomia pra se sentir
dono da festa. Do lado que a bateria da escola fica estacionada, tem
placas indicando o lugar da comissão julgadora. Ao terminar o primeiro
desfile, passaram quatro ônibus com cartazes na frente informando o
nome da ala e do responsável. Os camarotes ficam fechados e só existe
uma categoria, a geral. A multidão eufórica flutuando na arquibancada e
as pessoas do meu lado conversando sobre escolas rivais. Cada
integrante é uma estrela e sua alegria colabora pra levantar o ânimo da
torcida. Fiquei tentando entender o que significava aquele evento, próprio
do hemisfério sul. Se a festa é feita na maioria pelo povo pobre,
como diz a TV, porque naquele momento, todos tinham dinheiro pra
voltar pra casa, pra comer um cachorro quente, e eu não? Só dois reais
pra sonhar. Arrastei do bolso o valor e comprei um refrigerante, minha
porção de veneno pra enganar a fome e matar a sede.
Lá pela uma da madrugada, defini a estratégia de volta ao hotel: seguir a
multidão que ia a pé.
Na solidão do quarto estava proibido de pensar em comida pra não
destruir os últimos hemisférios do cérebro. Também não podia ficar
maluco tentando lembrar letra de conta de banco. De manhã ao acordar,
abriu-se uma trilha e veio nesta ligação, cada uma das três letras
esperadas. Na própria praça tem uma agência da Caixa Econômica
Federal. Os dedos digitaram sem precisar de luta. Foi a proporção exata
que estava faltando.
Vou te levar prum restaurante! A mais importante volta ao mundo da
alimentação: suco, café, almoço e sobremesa. "Avisa lá, avisa lá,
avisa lá êô, avisa lá que eu vou" comparar com as comidas argentinas.
E esse foi o início de uma nova era do sobrevivente da senha digital.
Edmilson Vieira é artista plástico e cronista. dnv01@uol.com.br
Editado por Visitante