Este post tem por objetivo ajudar as pessoas que desejam ir ao Jalapão sem carro e sem agência. Aqueles que buscam informações sobre isso na internet pelo menos por enquanto, assim como eu, devem estar com dificuldades de encontrar informações sobre como fazer isso. De início quero deixar claro: eu não recomendo que você faça isso e as chances de você se frustrar são enormes.
Caso você seja teimoso e faça isso mesmo assim, segue aqui o relato de como eu fiz. Espero que ajude de alguma forma.
Fiquem à vontade para perguntar neste tópico e, assim que eu puder, irei respondendo.
Antes, uma breve introdução:
Meu nome é Caue e estou, com meu amigo Bruno, fazendo um mochilão pelo Brasil / América do Sul por um período programado de 2 anos. Iniciamos nosso mochilão em São Thomé das Letras no dia 29 de Janeiro de 2024.
Criamos um projeto chamado "O Guia do Mochileiro" (sim, a nossa referência vem dos livros do Douglas Adams) com o objetivo de produzir um documentário para o YouTube e compartilhar a nossa aventura.
O primeiro episódio com a nossa partida de São Thomé das Letras ainda está sendo produzido, mas você pode encontrar já alguns conteúdos de Shorts no nosso canal ou bastante conteúdo sendo produzido no Instagram (Stories quase diários). Os links seguem abaixo:
- https://www.youtube.com/@GuiaDoMochileiro
- https://www.instagram.com/oguia.mochileiro
O Jalapão é bruto. Essa é uma frase que se vê estampada em vários lugares e se escuta o tempo todo por lá, vindo da boca dos que lá moram, por um excelente motivo: o Jalapão é realmente bruto.
Entretanto, antes de começar a descrever a "bruteza" e as belezas do Jalapão, permita-me voltar uns dias antes da viagem e lhe dar o contexto. Como mencionado acima, estamos fazendo um mochilão. Estávamos fazendo um voluntariado em Palmas pela Worldpackers. Já tínhamos ouvido falar por cima sobre o Jalapão, mas ao chegar neste canto do país a opinião era unânime: Se pudéssemos, tínhamos que visitar o lugar, pois era único no mundo. Mochileiros que somos, decidimos que já que estávamos por aqui, deveríamos explorar o lugar. Foi aí que começaram os desafios dessa viagem.
A opinião de todos era também unânime sobre outro ponto: você PRECISA de um 4x4 para se locomover por lá. Ir com um carro 4x2 é loucura e isso foi confirmado quando encontramos alguns loucos atolados no caminho. A possibilidade de se alugar um carro não nos parecia viável: as agências no geral não permitem que você vá ao Jalapão com o carro alugado (vocês entenderão o porquê) e mesmo que permitissem, nós somos mochileiros e mochileiro não tem dinheiro para alugar um 4x4. A outra possibilidade seria comprar um pacote de viagem com uma agência que opera por lá, mas não se esqueça, somos mochileiros duros e isso estava completamente fora do orçamento.
Bom, uma terceira possibilidade seria ir sem 4x4 mesmo e chegando lá "a gente vê no que dá". Decidimos ir com a terceira e única possível opção.
Lembra que comentei sobre os desafios? Eles só cresciam com essas decisões estúpidascorajosas que tivemos. Afinal de contas, no máximo, era só voltar, não é mesmo?
Em primeiro lugar, precisávamos de um lugar para ficar no esquema de voluntariado. Afinal, mochileiros quebrados. Buscamos na internet hospedagens em São Félix e Mateiros e enviamos mensagens para essas hospedagens, já que não haviam lugares disponíveis na plataforma Worldpackers.
Conseguimos voluntariado em um camping na cidade de Mateiros. O camping se chama "Cobra de Cabelo" e é excelente, eu mega recomendo para quem estiver indo ao Jalapão. A Cassiana, dona do camping, nos recebeu super bem e o lugar é mega estruturado para quem está acostumado com camping, além de ter um excelente contato com a natureza no meio da cidade.
Tínhamos então uma data para chegar e um local para ficar, mas ninguém sabia muito bem nos dizer COMO chegar lá sem ser por meios próprios (uma 4x4). Procura daqui, conversa dali e conseguimos o whatsapp de um ônibus (por aqui é chamado de van) que sai de Palmas e vai até Mateiros, todas as terças e sextas, saindo da plataforma 05 da Rodoviária de Palmas às 8h da manhã. Ele é chamado de "Transmateiros" e custa na data de hoje R$ 230,00 (para ir até Mateiros, o trecho mais longo, se for descer antes é mais barato).
Então, às 8h da manhã da terça feira (04/06/2024) estávamos nós na plataforma 05 da Rodoviária de Palmas, com nossas mochilas. Durante nossa espera na plataforma, uma mulher com um olhar meio perdido e ares mais de mendiga do que de hippie, se aproximou da gente e perguntou se estávamos esperando o ônibus a van para Mateiros. Confirmamos e ela perguntou, com ares meio aéreos, se podia esperar o ônibus na plataforma conosco. Ao dissermos que sim, ela pediu que olhássemos suas malas, extremamente puídas, para que ela pudesse "buscar o gato".
Neste momento eu, surpreso, disse ao Bruno: "Tomara que ela esteja falando do namorado dela". Não estava.
Viajar no Transmateiros é uma experiência única. De cor verde oliva e com a inscrição "Transmateiros" na lateral já bastante desgastados, o ônibus carrega os locais (e mochileiros malucos) de Palmas ao Jalapão. Parecendo um ônibus com retirantes, os viajantes de todos os tipos carregam consigo malas, bolsas, encomendas, sacolas, comidas e tudo que se imaginar. Inclusive gatos (animal). Pensamos que a viagem duraria cerca de 6h, como me mostrava o Google Maps. Ledo engano.
Por 13 horas seguidas, o “Transmateiros” desbravou as estradas arenosas e desertas do Jalapão. A partir de Lagoa do Tocantins, as estradas são feitas de pedras e areia (muito mais areia do que pedras) típicas do Cerrado nessa região, que cortam mata nativa por quilômetros sem sinal de civilização. Os únicos sinais de humanos por perto são alguns poucos carros na estrada e pouquíssimas casas de barro e palha, separadas por quilômetros a fio, com pessoas humildes em seu interior, que oferecem café e outros poucos itens aos viajantes, somente pagos por meio de dinheiro físico, o que claro, não tínhamos.
Ao chegarmos em Mateiros, cerca de 9h da noite, bastante cansados pela viagem interminável, nos dirigimos ao camping e saímos para comer na cidade. Decidimos por uma pizza, já que todo o resto estava fechado.
Os próximos dias foram bastante entediantes.
A cidade de Mateiros é uma pequena cidade no meio do absoluto nada. Como descrito anteriormente, é ligada por intermináveis estradas de difícil acesso, o que me fez pensar durante o trajeto e após a chegada que seria um excelente cenário para uma ficção de terror. A cidade é tranquila, com bem poucos comércios focados em atender os turistas. Durante o dia, quase nenhum deles está aberto, já que neste horário a maioria dos turistas estão fora da cidade e visitando os pontos turísticos e fervedouros da região. Durante a noite, os poucos restaurantes disponíveis às vezes abrem, porém de forma inconstante já que a maioria dos hotéis tem seus próprios restaurantes para atender internamente os turistas cansados do roteiro do dia.
Como bons mochileiros, compramos nossos alimentos nos poucos mercadinhos disponíveis na cidade e preparamos nosso alimento no camping.
Se você se lembra bem, chegamos na noite da mesma terça feira que saímos de Palmas. Nos dias seguintes nos limitamos a conhecer a pequena cidade, ir ao 2o festival de gastronomia que estava acontecendo na cidade e que contava com cerca de 6 barracas, trabalhar no camping quando tínhamos tarefas e ver os jogos de futebol dos times locais, como Blackout x Carrapato e Veteranos x Câmara Municipal.
Confirmou-se o que nos advertiam: Não havia como se locomover para os pontos turísticos sem uma 4x4. Neste ponto, já estávamos frustrados e arrependidos de termos ido (gastado o dinheiro com a passagem) ao Jalapão.
No Domingo, decidimos que no dia seguinte tentaríamos pegar uma carona até o ponto turístico mais próximo da cidade, o Fervedouro Buriti, cerca de 20km da cidade. Para voltar? com sorte outra carona ou c'est la vie. Neste ponto, andar 20km em uma estrada de areia deserta à noite não parecia tão má ideia quanto ter gasto esse dinheiro e ter aguentado 13h de viagem sem conhecer nada. Então voltaríamos para Palmas na madrugada de quarta-feira com o Transmateiros, que faz a viagem inversa às quartas e domingos, pelo mesmo preço, às 4h da manhã.
Na Segunda, levantamos cedo, preparamos e tomamos nosso café da manhã e seguimos para a saída da cidade. O primeiro carro despontou cerca de 5 segundos após chegarmos, uma caminhonete 4x4 da agência Jalapão Savana Ecotour, que para nossa surpresa, encostou. Dentro da caminhonete estavam apenas o Furtunato e a Antônia, o guia da viagem e a cliente dele, respectivamente, que seriam nossa salvação nessa viagem. Furtunato pediu permissão à Antônia, que autorizou nossa carona. Entramos no carro e começamos a conversar, explicando sobre o porquê de estarmos pedindo carona ali, naquele belíssimo fim de mundo. Explicamos sobre o nosso mochilão, nosso projeto e que estávamos tentando ir em pelo menos um dos pontos turísticos do Jalapão antes de voltarmos.
Por uma questão de sorte nossa e compaixão dos mesmos, eles decidiram que poderíamos acompanhá-los nos pontos turísticos que eles fossem e que poderíamos voltar à Palmas com eles na próxima quarta-feira. Nos próximos dias, iríamos acompanhar a Antônia em seu roteiro tendo o Furtunato de guia e assim poderíamos conhecer os pontos turísticos do Jalapão, pagando apenas a entrada nos lugares e nossa alimentação. E assim foi.
Tivemos a oportunidade de conhecer os seguintes pontos em Mateiros: - Fervedouro do Ceiça
- Fervedouro Rio Sono
- Fervedouro Macaúbas
- Cachoeira da Formiga
- Comunidade Quilombola Mumbuca
Fervedouros são fortes nascentes de água cristalina, rodeados por bananeiras e mata nativa, que fazem o visitante boiar. Alguns podem chegar a mais de 70 metros de profundidade, mas a força e consistência da água impedem que se afunde nelas. A areia branca do fundo com a luz do Sol, dão uma tonalidade de azul turquesa para as águas, repletas de peixes por sua pureza. A taxa de entrada dos fervedouros é cerca de R$ 25,00, em média e cachoeiras R$ 50,00, podendo-se ficar cerca de 20 minutos em cada um, pois há um limite no número de pessoas que podem ter acesso ao mesmo tempo. A beleza é estonteante, de tirar o fôlego, e a sensação de quase massagem que se sente ao entrar em um fervedouro é indescritível. Somente indo lá para se ter essa experiência. A natureza que compõe o cenário dos trajetos no Jalapão são belíssimos, com mata nativa do Cerrado margeando tudo por uma imensidão que parece não ter fim. A beleza do Cerrado virgem vai até onde a vista alcança, com algumas poucas e belas montanhas rochosas com formatos únicos compondo o cenário pitoresco.
No dia seguinte, nos encontramos às 8h da manhã no mesmo ponto que conseguimos nossa carona inicial e partimos para São Felix, outra pequena cidade da região do Jalapão, que tem seus próprios pontos turísticos e fervedouros. Tivemos a oportunidade de conhecer:
- Fervedouro Buritizinho (tem o formato de um coração)
- Fervedouro Buriti
- Fervedouro Jatobá
- Cachoeira do Prata
- Fervedouro Bela Vista
Montamos acampamento (na verdade, as redes) na área de camping do Fervedouro Bela Vista, tendo em vista (perdoe o trocadilho) que partiríamos na manhã do dia seguinte para Palmas. O preço do camping ficou, por volta da data deste post, R$ 95,00 por pessoa com café da manhã incluso. A hospedagem conta com um fervedouro na propriedade que pode ser usado pelos hóspedes durante à noite sem limite de tempo, apenas de pessoas utilizando o lugar ao mesmo tempo.
Na manhã do dia seguinte, na quarta-feira, voltamos para Palmas para seguir com nosso projeto/mochilão para o próximo destino.
Bom, este foi o meu relato. Gostaria de agradecer imensamente o Furtunato e Antônia por nos adotar nessa viagem e recomendo fortemente a agência do Furtunato. Ele é um guia extremamente divertido e carismático, com muito conhecimento sobre o local e com um grande coração, nos dando esse presente nessa viagem que quase foi uma frustração, devido a teimosia desse mochileiro que vos escreve em tentar conhecer o lugar por meios próprios (e sem carro).
Minha conclusão é: Vá ao Jalapão com uma agência. Não tente ir sozinho porque as chances de se frustrar e não conseguir sair da cidade são enormes. Caso você seja tão teimoso quanto nós, que este relato te ajude de alguma maneira.
Você encontra fotos da viagem no Highlights “Jalapão - TO” no instagram do nosso projeto e alguns posts no perfil.
Se este post ajudar alguém, talvez eu faça outros relatos sobre outras aventuras do nosso mochilão.
Editado por O Guia do Mochileiro Correção de locais mencionados
Este post tem por objetivo ajudar as pessoas que desejam ir ao Jalapão sem carro e sem agência. Aqueles que buscam informações sobre isso na internet
pelo menos por enquanto, assim como eu, devem estar com dificuldades de encontrar informações sobre como fazer isso. De início quero deixar claro: eu não recomendo que você faça isso e as chances de você se frustrar são enormes.Caso você seja teimoso e faça isso mesmo assim, segue aqui o relato de como eu fiz. Espero que ajude de alguma forma.
Fiquem à vontade para perguntar neste tópico e, assim que eu puder, irei respondendo.
Antes, uma breve introdução:
Meu nome é Caue e estou, com meu amigo Bruno, fazendo um mochilão pelo Brasil / América do Sul por um período programado de 2 anos. Iniciamos nosso mochilão em São Thomé das Letras no dia 29 de Janeiro de 2024.
Criamos um projeto chamado "O Guia do Mochileiro" (sim, a nossa referência vem dos livros do Douglas Adams) com o objetivo de produzir um documentário para o YouTube e compartilhar a nossa aventura.
O primeiro episódio com a nossa partida de São Thomé das Letras ainda está sendo produzido, mas você pode encontrar já alguns conteúdos de Shorts no nosso canal ou bastante conteúdo sendo produzido no Instagram (Stories quase diários). Os links seguem abaixo:
- https://www.youtube.com/@GuiaDoMochileiro
- https://www.instagram.com/oguia.mochileiro
Caso alguém aí decida assinar a Worldpackers e achar que o relato ajudou, eu não acharia ruim se usasse nosso link de afiliados, nos ajudaria bastante:
https://www.worldpackers.com/pt-BR/promo/GUIADOMOCHILEIRO?utm_campaign=GUIADOMOCHILEIRO&utm_medium=referral&utm_source=affiliate
Agora vamos ao que interessa:
O Jalapão é bruto. Essa é uma frase que se vê estampada em vários lugares e se escuta o tempo todo por lá, vindo da boca dos que lá moram, por um excelente motivo: o Jalapão é realmente bruto.
Entretanto, antes de começar a descrever a "bruteza" e as belezas do Jalapão, permita-me voltar uns dias antes da viagem e lhe dar o contexto. Como mencionado acima, estamos fazendo um mochilão. Estávamos fazendo um voluntariado em Palmas pela Worldpackers. Já tínhamos ouvido falar por cima sobre o Jalapão, mas ao chegar neste canto do país a opinião era unânime: Se pudéssemos, tínhamos que visitar o lugar, pois era único no mundo. Mochileiros que somos, decidimos que já que estávamos por aqui, deveríamos explorar o lugar. Foi aí que começaram os desafios dessa viagem.
A opinião de todos era também unânime sobre outro ponto: você PRECISA de um 4x4 para se locomover por lá. Ir com um carro 4x2 é loucura e isso foi confirmado quando encontramos alguns
loucosatolados no caminho. A possibilidade de se alugar um carro não nos parecia viável: as agências no geral não permitem que você vá ao Jalapão com o carro alugado (vocês entenderão o porquê) e mesmo que permitissem, nós somos mochileiros e mochileiro não tem dinheiro para alugar um 4x4. A outra possibilidade seria comprar um pacote de viagem com uma agência que opera por lá, mas não se esqueça, somos mochileiros duros e isso estava completamente fora do orçamento.Bom, uma terceira possibilidade seria ir sem 4x4 mesmo e chegando lá "a gente vê no que dá". Decidimos ir com a terceira
e única possívelopção.Lembra que comentei sobre os desafios? Eles só cresciam com essas decisões
estúpidascorajosas que tivemos. Afinal de contas, no máximo, era só voltar, não é mesmo?Em primeiro lugar, precisávamos de um lugar para ficar no esquema de voluntariado. Afinal, mochileiros quebrados. Buscamos na internet hospedagens em São Félix e Mateiros e enviamos mensagens para essas hospedagens, já que não haviam lugares disponíveis na plataforma Worldpackers.
Conseguimos voluntariado em um camping na cidade de Mateiros. O camping se chama "Cobra de Cabelo" e é excelente, eu mega recomendo para quem estiver indo ao Jalapão. A Cassiana, dona do camping, nos recebeu super bem e o lugar é mega estruturado para quem está acostumado com camping, além de ter um excelente contato com a natureza no meio da cidade.
Tínhamos então uma data para chegar e um local para ficar, mas ninguém sabia muito bem nos dizer COMO chegar lá sem ser por meios próprios (uma 4x4). Procura daqui, conversa dali e conseguimos o whatsapp de um ônibus (por aqui é chamado de van) que sai de Palmas e vai até Mateiros, todas as terças e sextas, saindo da plataforma 05 da Rodoviária de Palmas às 8h da manhã. Ele é chamado de "Transmateiros" e custa na data de hoje R$ 230,00 (para ir até Mateiros, o trecho mais longo, se for descer antes é mais barato).
Então, às 8h da manhã da terça feira (04/06/2024) estávamos nós na plataforma 05 da Rodoviária de Palmas, com nossas mochilas. Durante nossa espera na plataforma, uma mulher com um olhar meio perdido e ares mais de mendiga do que de hippie, se aproximou da gente e perguntou se estávamos esperando
o ônibusa van para Mateiros. Confirmamos e ela perguntou, com ares meio aéreos, se podia esperar o ônibus na plataforma conosco. Ao dissermos que sim, ela pediu que olhássemos suas malas, extremamente puídas, para que ela pudesse "buscar o gato".Neste momento eu, surpreso, disse ao Bruno: "Tomara que ela esteja falando do namorado dela". Não estava.
Viajar no Transmateiros é uma experiência única. De cor verde oliva e com a inscrição "Transmateiros" na lateral já bastante desgastados, o ônibus carrega os locais (e mochileiros malucos) de Palmas ao Jalapão. Parecendo um ônibus com retirantes, os viajantes de todos os tipos carregam consigo malas, bolsas, encomendas, sacolas, comidas e tudo que se imaginar. Inclusive gatos (animal). Pensamos que a viagem duraria cerca de 6h, como me mostrava o Google Maps. Ledo engano.
Por 13 horas seguidas, o “Transmateiros” desbravou as estradas arenosas e desertas do Jalapão. A partir de Lagoa do Tocantins, as estradas são feitas de pedras e areia (muito mais areia do que pedras) típicas do Cerrado nessa região, que cortam mata nativa por quilômetros sem sinal de civilização. Os únicos sinais de humanos por perto são alguns poucos carros na estrada e pouquíssimas casas de barro e palha, separadas por quilômetros a fio, com pessoas humildes em seu interior, que oferecem café e outros poucos itens aos viajantes, somente pagos por meio de dinheiro físico, o que claro, não tínhamos.
Ao chegarmos em Mateiros, cerca de 9h da noite, bastante cansados pela viagem interminável, nos dirigimos ao camping e saímos para comer na cidade. Decidimos por uma pizza, já que todo o resto estava fechado.
Os próximos dias foram bastante entediantes.
A cidade de Mateiros é uma pequena cidade no meio do absoluto nada. Como descrito anteriormente, é ligada por intermináveis estradas de difícil acesso, o que me fez pensar durante o trajeto
e após a chegadaque seria um excelente cenário para uma ficção de terror. A cidade é tranquila, com bem poucos comércios focados em atender os turistas. Durante o dia, quase nenhum deles está aberto, já que neste horário a maioria dos turistas estão fora da cidade e visitando os pontos turísticos e fervedouros da região. Durante a noite, os poucos restaurantes disponíveisàs vezesabrem, porém de forma inconstante já que a maioria dos hotéis tem seus próprios restaurantes para atender internamente os turistas cansados do roteiro do dia.Como bons mochileiros, compramos nossos alimentos nos poucos mercadinhos disponíveis na cidade e preparamos nosso alimento no camping.
Se você se lembra bem, chegamos na noite da mesma terça feira que saímos de Palmas. Nos dias seguintes nos limitamos a conhecer a pequena cidade, ir ao 2o festival de gastronomia que estava acontecendo na cidade e que contava com cerca de 6 barracas, trabalhar no camping quando tínhamos tarefas e ver os jogos de futebol dos times locais, como Blackout x Carrapato e Veteranos x Câmara Municipal.
Confirmou-se o que nos advertiam: Não havia como se locomover para os pontos turísticos sem uma 4x4. Neste ponto, já estávamos frustrados e arrependidos de termos ido
(gastado o dinheiro com a passagem)ao Jalapão.No Domingo, decidimos que no dia seguinte tentaríamos pegar uma carona até o ponto turístico mais próximo da cidade, o Fervedouro Buriti, cerca de 20km da cidade. Para voltar? com sorte outra carona ou c'est la vie. Neste ponto, andar 20km em uma estrada de areia deserta à noite não parecia tão má ideia quanto ter gasto esse dinheiro e ter aguentado 13h de viagem sem conhecer nada. Então voltaríamos para Palmas na madrugada de quarta-feira com o Transmateiros, que faz a viagem inversa às quartas e domingos, pelo mesmo preço, às 4h da manhã.
Na Segunda, levantamos cedo, preparamos e tomamos nosso café da manhã e seguimos para a saída da cidade. O primeiro carro despontou cerca de 5 segundos após chegarmos, uma caminhonete 4x4 da agência Jalapão Savana Ecotour, que para nossa surpresa, encostou. Dentro da caminhonete estavam apenas o Furtunato e a Antônia, o guia da viagem e a cliente dele, respectivamente, que seriam nossa salvação nessa viagem. Furtunato pediu permissão à Antônia, que autorizou nossa carona. Entramos no carro e começamos a conversar, explicando sobre o porquê de estarmos pedindo carona ali, naquele belíssimo fim de mundo. Explicamos sobre o nosso mochilão, nosso projeto e que estávamos tentando ir em pelo menos um dos pontos turísticos do Jalapão antes de voltarmos.
Por uma questão de sorte nossa e compaixão dos mesmos, eles decidiram que poderíamos acompanhá-los nos pontos turísticos que eles fossem e que poderíamos voltar à Palmas com eles na próxima quarta-feira. Nos próximos dias, iríamos acompanhar a Antônia em seu roteiro tendo o Furtunato de guia e assim poderíamos conhecer os pontos turísticos do Jalapão, pagando apenas a entrada nos lugares e nossa alimentação. E assim foi.
Tivemos a oportunidade de conhecer os seguintes pontos em Mateiros:
- Fervedouro do Ceiça
- Fervedouro Rio Sono
- Fervedouro Macaúbas
- Cachoeira da Formiga
- Comunidade Quilombola Mumbuca
Fervedouros são fortes nascentes de água cristalina, rodeados por bananeiras e mata nativa, que fazem o visitante boiar. Alguns podem chegar a mais de 70 metros de profundidade, mas a força e consistência da água impedem que se afunde nelas. A areia branca do fundo com a luz do Sol, dão uma tonalidade de azul turquesa para as águas, repletas de peixes por sua pureza. A taxa de entrada dos fervedouros é cerca de R$ 25,00, em média e cachoeiras R$ 50,00, podendo-se ficar cerca de 20 minutos em cada um, pois há um limite no número de pessoas que podem ter acesso ao mesmo tempo. A beleza é estonteante, de tirar o fôlego, e a sensação de quase massagem que se sente ao entrar em um fervedouro é indescritível. Somente indo lá para se ter essa experiência. A natureza que compõe o cenário dos trajetos no Jalapão são belíssimos, com mata nativa do Cerrado margeando tudo por uma imensidão que parece não ter fim. A beleza do Cerrado virgem vai até onde a vista alcança, com algumas poucas e belas montanhas rochosas com formatos únicos compondo o cenário pitoresco.
No dia seguinte, nos encontramos às 8h da manhã no mesmo ponto que conseguimos nossa carona inicial e partimos para São Felix, outra pequena cidade da região do Jalapão, que tem seus próprios pontos turísticos e fervedouros. Tivemos a oportunidade de conhecer:
- Fervedouro Buritizinho (tem o formato de um coração)
- Fervedouro Buriti
- Fervedouro Jatobá
- Cachoeira do Prata
- Fervedouro Bela Vista
Montamos acampamento (
na verdade, as redes) na área de camping do Fervedouro Bela Vista, tendo em vista (perdoe o trocadilho) que partiríamos na manhã do dia seguinte para Palmas. O preço do camping ficou, por volta da data deste post, R$ 95,00 por pessoa com café da manhã incluso. A hospedagem conta com um fervedouro na propriedade que pode ser usado pelos hóspedes durante à noite sem limite de tempo, apenas de pessoas utilizando o lugar ao mesmo tempo.Na manhã do dia seguinte, na quarta-feira, voltamos para Palmas para seguir com nosso projeto/mochilão para o próximo destino.
Bom, este foi o meu relato. Gostaria de agradecer imensamente o Furtunato e Antônia por nos adotar nessa viagem e recomendo fortemente a agência do Furtunato. Ele é um guia extremamente divertido e carismático, com muito conhecimento sobre o local e com um grande coração, nos dando esse presente nessa viagem que quase foi uma frustração, devido a teimosia desse mochileiro que vos escreve em tentar conhecer o lugar por meios próprios (e sem carro).
Minha conclusão é: Vá ao Jalapão com uma agência. Não tente ir sozinho porque as chances de se frustrar e não conseguir sair da cidade são enormes. Caso você seja tão teimoso quanto nós, que este relato te ajude de alguma maneira.
Você encontra fotos da viagem no Highlights “Jalapão - TO” no instagram do nosso projeto e alguns posts no perfil.
Se este post ajudar alguém, talvez eu faça outros relatos sobre outras aventuras do nosso mochilão.
Editado por O Guia do Mochileiro
Correção de locais mencionados