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Olá viajante!

Bora viajar?

De Araucária a Argentina, Bolívia e Peru voltando pelo Acre 2024/25

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1º dia - 21/12/24 - Araucária a Maringá a Bernardo de Irigoyen – 890 km.

Primeiros quilômetros de uma longa travessia

Toda grande viagem tem um instante quase silencioso em que ela realmente começa. Não é quando os mapas são planejados nem quando as malas ficam prontas. É naquele momento em que a porta de casa se fecha ainda de madrugada e a estrada escura aparece diante dos faróis. Foi exatamente assim que começou mais uma aventura rumo ao Peru e à Bolívia.

Meu primeiro companheiro de viagem, o Gerson, veio dormir na minha casa na véspera. Acordamos cedo, tomamos um café rápido e às 5h15 já estávamos na estrada. Seguimos pela estrada de Araucária a Campo Largo e depois pegamos a BR-277. Em São Luiz do Purunã entramos na BR-376, avançando rumo a Maringá enquanto o dia lentamente clareava o céu do Paraná.

Em Maringá encontramos os outros integrantes da expedição: Jocaz e Cíntia. Bagagens acomodadas, carro carregado e tripulação finalmente reunida, seguimos em direção a Dionísio Cerqueira/Barracão para cruzar a fronteira argentina e entrar em Bernardo de Irigoyen.

Aquela velha sensação de deixar o Brasil sempre me agrada. A mudança das placas, do idioma, dos postos de combustível e até do jeito das cidades traz a impressão de que a viagem ganha uma nova atmosfera quase imediatamente.

Em Bernardo de Irigoyen fizemos câmbio de reais para pesos argentinos, cotados a 190 pesos por real. Depois seguimos para o Hotel Don Geraldo que, assim como da última vez em que estive ali, estava praticamente vazio. Pegamos um quarto e saímos para comer umas empanadas antes de voltar para descansar.

Pagamos 10 mil pesos por pessoa em um quarto quádruplo, algo em torno de 53 reais, um começo bastante econômico para uma viagem que ainda prometia milhares de quilômetros pela frente.

A Duster também começou a expedição se comportando muito bem. O consumo no etanol me surpreendeu: fez 9 km/l quando viajávamos apenas eu e o Gerson e caiu muito pouco depois que os quatro ocupantes e toda a bagagem embarcaram, ficando em 8,7 km/l. Um bom sinal para quem ainda tinha pela frente desertos, montanhas e altiplanos inteiros para atravessar.

Editado por Marcelo Manente

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  • 1 mês depois...
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16º dia – 06/01/25 – Ayacucho às Águas Turquesas de Milpu a Chumbes – 285 km

Estradas impossíveis e piscinas de água esmeralda

Acordamos em Ayacucho, arrumamos as malas e fui buscar a Duster no estacionamento. Depois saímos para procurar algum lugar onde pudéssemos tomar café antes de pegar estrada.

Andamos umas três ou quatro quadras até encontrar um pequeno botequinho bastante simples. Pedimos café e eu resolvi comer um pão com ovo.

Quando o café chegou… meu Deus.

Foi provavelmente o pior “chafé” que já tomei na vida. Extremamente aguado. Parecia que tinham usado apenas uma colherzinha de sobremesa de pó para fazer uma chaleira inteira.

Pagamos aquela tristeza líquida com enorme desgosto e seguimos viagem imediatamente.

Apesar da quilometragem não ser tão grande, sabíamos que o dia seria demorado. Nas estradas da cordilheira peruana a distância quase nunca importa. O que realmente define o tempo são as curvas.

Nosso objetivo era conhecer as famosas Águas Turquesas de Milpu, próximas ao pequeno povoado de Circamarca.

Seguimos inicialmente pela Ruta 3S até entrar na Ruta 32A. A estrada era relativamente normal até a cidade de Chanquil. Depois disso passou praticamente a ser pista única em muitos trechos, onde mal cabia um carro, com alguns poucos pontos de escape para cruzamento.

A estradinha seguia atravessando pequenas vilas andinas como Incaracay, Molebamba, Cangalo e tantas outras espalhadas pelas montanhas.

Já perto do meio-dia entramos em Huancapi para almoçar antes de seguir para Milpu.

E tivemos sorte.

Na praça central da cidade acontecia uma celebração cultural pelo Dia de Reis. Havia músicos tocando instrumentos típicos — incluindo uma espécie de harpa carregada pelas ruas — enquanto grupos dançavam em procissão pela cidade.

O Dia de Reis é uma celebração muito tradicional em diversas regiões do Peru, principalmente nas pequenas cidades andinas. Além do caráter religioso ligado à visita dos três reis magos ao menino Jesus, a data também mistura elementos culturais e folclóricos locais. É comum haver procissões, danças típicas, músicos caminhando pelas ruas e grupos fantasiados participando das festividades. Em muitos povoados a praça central se transforma em um espaço de encontro comunitário, mantendo vivas tradições transmitidas há gerações pelos povos andinos.

A harpa andina é um instrumento bastante característico da música tradicional do Peru e da Bolívia. Diferente da harpa clássica europeia, ela costuma ter um som mais agudo e vibrante, sendo usada em festas populares, procissões e celebrações religiosas. Em muitas regiões serranas os músicos caminham tocando a harpa pelas ruas acompanhados de violinos, flautas e tambores, criando uma sonoridade muito própria da cultura andina.

Foi muito interessante observar aquela manifestação popular tão espontânea e tradicional.

Encontramos um restaurante simples na praça e almoçamos por ali antes de retornar alguns quilômetros para pegar a estrada de acesso a Milpu.

E que estrada.

Eram apenas 38 quilômetros, mas percorridos por uma estradinha de terra estreita, cheia de precipícios, paredões e curvas, exatamente como tantas outras do interior peruano.

Chegamos finalmente à atração e havia apenas dois ou três carros estacionados.

Mas eu já sabia que não estávamos na época ideal para conhecer Milpu. O melhor período vai de maio a setembro, durante a estação seca, quando as águas assumem um tom turquesa muito intenso.

Mesmo assim o lugar estava lindíssimo.

Pagamos a entrada — algo entre 10 e 20 soles, se não me engano — e seguimos caminhando cerca de um quilômetro pela borda do cânion onde corre o rio Milpu.

Naquela época do ano a água estava em um tom esmeralda impressionante, extremamente transparente.

O rio forma diversas piscinas naturais conectadas por pequenas cascatas sobre rochas calcárias. Como existem criadouros de trutas na região, era possível ver vários peixes nadando naquela água cristalina.

Descemos algumas escadarias até a beira do rio e tiramos muitas fotos. Depois seguimos até o ponto onde a água literalmente brota da base de uma enorme rocha da montanha.

Ficamos cerca de 45 minutos admirando aquele lugar quase surreal antes de retornar ao carro.

Nosso plano original era seguir até Abancay naquele mesmo dia.

Só que novamente as estradas andinas trataram de destruir nosso cronograma.

As curvas eram intermináveis, os desníveis absurdos e a velocidade média baixíssima. Em determinado momento, já perto da cidade de Cangalo, encontramos outro evento cultural bastante curioso.

Havia uma pequena banda tocando pelas ruas enquanto diversas pessoas fantasiadas desfilavam e dançavam. Algumas roupas lembravam personagens folclóricos, outras pareciam fantasias carnavalescas improvisadas. Tinha até alguém vestido de gorila.

A cena parecia uma mistura de procissão, festa popular e carnaval andino.

Seguimos viagem subindo novamente até quase 4.500 metros de altitude antes de descer para algo próximo dos 3 mil metros.

Já no final do dia chegamos à pequena cidade de Chumbes.

Encontramos uma pousada simples onde tivemos que dividir o grupo em dois quartos separados.

Depois saímos para jantar e retornamos mais tarde para dormir.

Mais um dia em que os Andes haviam nos mostrado que, por ali, viajar nunca é apenas deslocamento.

Editado por Marcelo Manente

  • 4 semanas depois...
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17º dia – 07/01/25 – Chumbes a Cusco – 480 km

Buracos, calor no motor e o alívio de chegar a Cusco

O dia seria praticamente inteiro de deslocamento.

Acordamos cedo em Chumbes porque ainda teríamos pela frente uma longa pernada de quase 480 quilômetros até Cusco. Arrumamos as malas, colocamos tudo no carro e sinceramente nem lembro mais se chegamos a parar para tomar café da manhã ou se simplesmente pegamos estrada direto.

Saímos por volta das oito da manhã e passamos o restante do dia enfrentando o clássico cenário das estradas andinas peruanas: sobe e desce intermináveis, curvas sem fim e médias baixíssimas de velocidade.

É impressionante como no Peru a quilometragem engana completamente. Quatrocentos quilômetros ali parecem oitocentos em qualquer outro lugar.

Quando chegamos próximo de Abancay começou um dos trechos mais estressantes de toda a viagem.

Logo na entrada da cidade a estrada parecia destruída. Buracos enormes, crateras, remendos e trechos em péssimo estado obrigavam a andar praticamente em primeira marcha, às vezes a cinco ou dez quilômetros por hora.

E, para piorar, Abancay é praticamente uma cidade vertical.

Da entrada até a saída existe um enorme ganho de altitude, algo próximo de 1.500 metros. Ou seja: além do trânsito pesado e dos buracos, ainda enfrentamos uma interminável subida urbana.

Em determinado momento fiquei preso atrás de um caminhão gigantesco subindo lentamente aquela montanha de asfalto quebrado.

A sensação era de que nunca conseguiríamos sair dali.

A Duster começou a sofrer bastante naquele trecho. O motor esquentava muito por causa das subidas e do trânsito lento. Em alguns momentos a temperatura passou dos 100 graus, o que obviamente aumentou bastante minha preocupação.

Levamos mais de uma hora apenas para atravessar a cidade.

Já perto de Cusco resolvi rotear a internet do celular para que o pessoal pudesse procurar hospedagem enquanto eu seguia dirigindo.

Encontraram um hotel com preço bom e começamos a seguir até lá.

Foi então que perguntei algo essencial:

— Vocês verificaram se tinha estacionamento?

A resposta foi um belo e preocupante “não”.

E isso em Cusco é um problema enorme.

Encontrar hotel com garagem na cidade é difícil e estacionar na rua consegue ser pior ainda.

Seguimos apreensivos até o local indicado no GPS. Quando chegamos tive uma daquelas pequenas sortes de viajante que parecem cair do céu na hora certa.

O hotel possuía apenas quatro vagas bem na frente.

Três estavam ocupadas.

E a quarta estava livre exatamente naquele momento.

Com o carro já rateando um pouco e sofrendo com o calor do motor, aquilo foi praticamente um presente dos deuses andinos.

Nos hospedamos então no Bear Packer Hostel, um lugar simples, bem localizado, com bom café da manhã e funcionários extremamente atenciosos.

Não lembro exatamente quanto pagamos, mas recordo que foi um excelente custo-benefício para os padrões de Cusco.

À noite ainda saímos para jantar e dar uma pequena caminhada pela cidade antes de voltar para dormir.

Depois de tantos dias de estrada, chegar novamente a Cusco sempre traz aquela sensação estranha de reencontro com um lugar que já começa a parecer familiar.

Editado por Marcelo Manente

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18º dia – 08/01/25 – Cusco – 10 km

Planos diferentes nos Andes

O quarto que pegamos no hostel tinha dois beliches. Não era exatamente o cenário ideal para dormir bem, principalmente no meu caso. Como costumo levantar uma ou duas vezes durante a madrugada, ficar na cama de cima era meio inconveniente. Mas o Gerson ainda ia mais vezes ao banheiro do que eu durante a noite, então sobrou para mim o beliche superior. Kkkkk

Apesar disso, o quarto era bom e o café da manhã do hostel surpreendeu positivamente.

Depois de comer saímos para caminhar pelo centro de Cusco. Passamos em casas de câmbio, olhamos lojas e fomos almoçar no Mercado de San Pedro, um dos lugares mais tradicionais da cidade.

Ali, como quase sempre no Peru, a comida era enorme e barata. Por cerca de 15 reais serviram um prato gigantesco.

Durante aquele dia começamos também a organizar os planos para os próximos passeios.

O Gerson, a Cíntia e o Jocaz queriam muito conhecer Machu Picchu. Mas pretendiam fazer da maneira mais econômica possível: viajar de van até Santa Teresa, depois seguir até a Hidrelétrica e então caminhar cerca de dez quilômetros ao lado da linha do trem até Águas Calientes.

Eu já conhecia Machu Picchu desde 2018 e, sinceramente, não estava muito animado para repetir todo aquele esforço físico novamente. Além disso, eles ainda pretendiam subir a montanha Huayna Picchu, algo extremamente cansativo.

E eu tinha outro objetivo em mente: queria muito conhecer a Montanha Colorida.

Por experiência própria imaginei que, se eu encarasse toda a maratona de Machu Picchu antes, provavelmente não teria condições físicas de subir a Rainbow Mountain depois.

E no fim das contas eu estava certo.

Dias depois o pessoal voltou completamente destruído da aventura em Machu Picchu. O Jocaz inclusive acabou alugando um cavalo para fazer parte da subida da Montanha Colorida porque já estava muito cansado.

Como eu já tinha contato da minha viagem anterior ao Peru, combinei previamente com uma senhora chamada Marlene a compra dos ingressos para eles subirem Huayna Picchu no dia 10.

Naquele dia ela foi até o hostel para acertar os detalhes. O pessoal fez os pagamentos, recebeu os tickets de entrada e também combinou os horários da van que os levaria até Santa Teresa no dia seguinte.

O plano deles era sair no dia 9, fazer a caminhada até Águas Calientes, dormir lá e no dia 10 visitar Machu Picchu antes de retornar para Cusco.

Depois de resolver toda essa parte burocrática passamos o restante do dia apenas curtindo Cusco sem pressa.

Batemos bastante perna pelas ruas da cidade, observamos lojas, igrejas, construções históricas e o movimento constante de turistas do mundo inteiro.

À noite saímos para jantar e depois voltamos ao hostel para descansar.

A partir dali a viagem começaria a se dividir em aventuras diferentes para cada um de nós.

Editado por Marcelo Manente

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19º e 20º dias – 09 e 10/01/25 – Cusco – 10 km

Dois dias sozinho em Cusco

Meus companheiros de viagem saíram ainda de madrugada no dia 9 para pegar a van que os levaria até a Hidrelétrica, próxima de Santa Teresa, iniciando assim a aventura rumo a Machu Picchu.

Depois me contaram que a viagem já começou em clima de sobrevivência. Segundo eles, os motoristas peruanos conseguem transformar qualquer estrada de montanha em uma experiência radical. E eu acredito plenamente nisso.

Pela primeira vez na viagem fiquei dois dias completamente sozinho.

Aproveitei esse tempo para cuidar de algumas coisas da Duster, comprar aditivo para a gasolina — porque desde aquele combustível duvidoso comprado na Bolívia o carro vinha funcionando meio estranho — e também simplesmente caminhar bastante por Cusco.

Sem compromisso e sem correria, consegui conhecer melhor o centro histórico da cidade.

Passei horas andando pelas ruas estreitas de pedra, observando lojas, igrejas, mercados, restaurantes e o movimento incessante de turistas do mundo inteiro.

E foi justamente nesses dois dias mais tranquilos que percebi um pequeno arrependimento da viagem.

Eu deveria ter feito algum passeio bate-volta a partir de Cusco.

As Salineras de Maras, por exemplo, ficaram na lista das coisas que acabei deixando passar.

Enquanto isso eu mantinha contato com o restante do grupo durante a aventura em Machu Picchu. Mesmo cansados da viagem de van, das caminhadas e da maratona física até Águas Calientes, eles aceitaram seguir comigo para a Montanha Colorida no dia 11.

Mal sabiam eles o que os aguardava.

E sinceramente… nem eu imaginava que seria tão pesado.

O retorno deles para Cusco no dia 10 acabou virando outro pequeno caos andino.

Houve muita chuva na região de Santa Teresa e a estrada foi interditada por causa de um derrumbe — como os peruanos chamam os desmoronamentos de terra e pedras bastante comuns nas montanhas.

Resultado: eles ficaram presos durante horas esperando a liberação da estrada.

Acabaram chegando de volta ao hostel somente por volta da uma da madrugada do dia 11.

O detalhe é que nossa saída para a Montanha Colorida estava marcada para as 4h30 da manhã.

Ou seja: depois de toda a aventura em Machu Picchu, eles ainda dormiriam pouco mais de duas horas antes de enfrentar um dos passeios mais cansativos de toda a viagem.

 

Editado por Marcelo Manente

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21º dia – 11/01/25 – Cusco à Montanha Colorida e retorno a Cusco – 220 km

Os quilômetros mais difíceis da viagem

Acordamos de madrugada parecendo zumbis.

Depois de praticamente não dormirem nada por causa da volta de Machu Picchu, o Gerson, a Cíntia e o Jocaz ainda tiveram coragem de encarar a Montanha Colorida.

Nos arrumamos rapidamente e ficamos esperando a van na esquina do hostel. Ela apareceu logo depois e embarcamos ainda meio sonolentos.

Como é comum nesses passeios no Peru, a van passou um bom tempo rodando por Cusco para buscar passageiros em diversos hotéis e hospedagens até finalmente lotar e seguir viagem.

O trajeto era longo.

Seguimos por pequenas cidades que voltaríamos a cruzar no dia seguinte quando iniciássemos a saída do Peru. Já perto de Cusipata entramos à esquerda e começamos a subir por estradas de terra estreitas e sinuosas.

Antes de avançarmos muito paramos para tomar café da manhã no restaurante Terraza Andina.

E que café.

Praticamente um café colonial peruano, com enorme variedade de comidas, pães, frutas e pratos quentes. Uma bela surpresa no meio das montanhas.

Depois seguimos subindo.

A cada curva os visuais ficavam mais impressionantes: montanhas nevadas, vales verdes, rios, cascatas e rebanhos espalhados pelas encostas. Era uma paisagem tão grandiosa que parecia impossível absorver tudo ao mesmo tempo.

Chegamos finalmente ao estacionamento, situado a cerca de 4.650 metros de altitude.

Só isso já seria mais alto do que muita montanha famosa pelo mundo.

Ali cada pessoa recebeu um bastão de madeira para ajudar na caminhada. Eu ainda levava comigo um bastão que havia trazido do Brasil.

A trilha parecia curta no papel: apenas 3,5 quilômetros para subir e mais 3,5 para descer.

Mas foram provavelmente os quilômetros mais difíceis de toda a minha vida.

Nós quatro começamos a caminhada juntos, mas logo o Jocaz e a Cíntia foram abrindo distância.

Na verdade eu também quis ficar um pouco longe do Jocaz porque ele estava subindo ouvindo reggae brasileiro em uma caixinha JBL. Até estava em volume baixo, mas sinceramente eu não queria música nenhuma naquele momento. A paisagem já era suficiente.

Eu ainda tinha comigo um último spray de oxigênio, que havia me ajudado bastante na Isla del Sol.

E precisei dele.

Apesar da trilha ser muito menor do que a da ilha boliviana, o esforço ali era infinitamente maior por causa da altitude absurda.

Usei praticamente o spray inteiro apenas na subida.

Nos últimos duzentos metros comecei a achar sinceramente que não conseguiria chegar.

Diversas vezes tive a sensação de que iria desmaiar.

Eu parava, respirava algumas vezes o oxigênio do spray e então conseguia avançar mais vinte pequenos passos de cada vez.

Passos de criança.

Lentos, curtos e sofridos.

Mas continuei.

Com muito esforço finalmente cheguei ao topo. Os outros já estavam lá em cima.

Quando vi aquela paisagem simplesmente berrei.

A Montanha Colorida, também conhecida como Vinicunca ou Rainbow Mountain, é uma das paisagens mais impressionantes dos Andes peruanos. Localizada a mais de 5 mil metros de altitude, ela ganhou fama pelas faixas naturais de cores que cobrem suas encostas, formadas ao longo de milhões de anos pela concentração de diferentes minerais no solo. Tons avermelhados, amarelados, esverdeados e alaranjados criam um visual quase surreal, principalmente quando contrastam com o céu azul intenso e as montanhas nevadas ao redor. Apesar da curta distância da trilha, a altitude extrema transforma a subida em um enorme desafio físico, exigindo esforço, paciência e muito fôlego dos visitantes.

Ficamos um bom tempo tirando fotos e admirando o lugar.

E vale registrar que, depois de cerca de um terço da subida, o Jocaz acabou desistindo de continuar a pé e alugou um cavalo para terminar o trajeto. Kkkkk

Mas como diz o ditado: depois da subida sempre vem a descida.

E pra baixo todo santo ajuda.

Na volta encontrei novamente o Gerson e a Cíntia e descemos juntos em um ritmo bem melhor, fazendo apenas algumas pequenas paradas.

Mesmo assim acabamos sendo um dos últimos grupos a retornar para a van.

No caminho de volta ainda paramos novamente no Terraza Andina para almoçar. O almoço também funcionava no esquema self-service, com enorme variedade de comida.

Deu tranquilamente para encher o buchão. Kkkkk

Retornamos a Cusco por volta das quatro da tarde.

Ficamos descansando no hostel até umas sete da noite e depois saímos para sacar dinheiro e jantar.

E como parecia que os pequenos perrengues nunca davam trégua, naquela noite o caixa eletrônico resolveu engolir o cartão do Gerson.

E não devolveu mais.

A partir dali tive que ajudá-lo pagando parte das despesas até retornarmos ao Brasil para depois acertarmos as contas.

Depois do jantar voltamos ao hostel para arrumar as malas.

No dia seguinte partiríamos cedo novamente.

E os Andes ainda guardavam algumas surpresas para nós.

Editado por Marcelo Manente

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22º dia – 12/01/25 – Cusco a Puerto Maldonado – 480 km

Dos Andes à Amazônia peruana

Depois de tantos dias cruzando montanhas, desertos e altiplanos, começávamos a nos aproximar lentamente da reta final da viagem pelo Peru. Arrumamos as malas, tomamos café da manhã e colocamos tudo dentro da Duster. Aquele seria praticamente nosso penúltimo dia no país e também o último grande deslocamento que ainda prometia paisagens realmente marcantes pelo caminho.

Saímos de Cusco ainda pela manhã e, como sempre, enfrentar o trânsito da cidade foi um pequeno teste de paciência.

Dirigir por Cusco e arredores em horário de pico é uma experiência intensa. Buzinas constantes, fechadas, ultrapassagens forçadas e motoristas fazendo manobras que parecem desafiar qualquer lógica. Mesmo quando se ganha a rodovia ainda aparecem alguns malucos ultrapassando em curvas cegas nas montanhas. Chegamos em Urco e entramos na rodovia Interoceânica.

A Rodovia Interoceânica foi um dos maiores projetos viários da América do Sul nas últimas décadas, ligando o Brasil aos portos do Oceano Pacífico no Peru através da Amazônia e da Cordilheira dos Andes. A obra começou nos anos 2000 e exigiu enormes desafios de engenharia para vencer regiões de selva densa, áreas alagadas, montanhas acima de 4 mil metros e terrenos sujeitos a deslizamentos. Além de facilitar o comércio entre os dois países, a estrada transformou profundamente a vida de diversas cidades isoladas do interior peruano, embora também tenha gerado debates sobre impactos ambientais, desmatamento e mudanças sociais na Amazônia.

Quando passamos por Urcos a estrada começou a subir sem parar. E subir. E subir mais um pouco.

Até finalmente alcançarmos a abra Pirhuayani, a cerca de 4.725 metros de altitude.

O visual lá em cima estava espetacular.

Em diversos pontos ao redor ainda havia neve acumulada da noite anterior cobrindo parte das montanhas e das margens da estrada. O contraste entre o céu azul intenso e as áreas brancas de neve criava uma paisagem impressionante.

Depois da abra começou uma descida gigantesca.

Aos poucos deixamos para trás o clima seco e frio dos Andes e começamos a entrar na Amazônia peruana. A transformação da paisagem é muito rápida e muito bonita de acompanhar.

As montanhas vão ficando mais verdes, o ar mais úmido e surgem rios, cachoeiras e mata fechada por todos os lados da estrada.

Foi um daqueles dias em que a própria estrada já era a atração principal.

Ao longo do caminho passamos por inúmeras pequenas cidades e vilarejos. E em praticamente todos eles havia uma invasão de tuk-tuks circulando em todas as direções possíveis.

Em vários momentos a velocidade caía para dez ou vinte quilômetros por hora porque simplesmente parecia impossível atravessar aquele caos organizado.

Seguimos viagem durante praticamente o dia inteiro e chegamos a Puerto Maldonado já ao anoitecer.

Rodamos um pouco pela cidade procurando hospedagem até finalmente encontrar um hotel com preço razoável.

Depois saímos para jantar e voltamos cedo para dormir.

A partir dali a viagem começaria lentamente a entrar naquela fase melancólica do retorno, quando os dias passam a ser mais de deslocamento do que de descobertas.

Editado por Marcelo Manente

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21º e 22º dia – 13 e 14/01/25 – Puerto Maldonado a Rio Branco-AC / Rio Branco a Ariquemes – 465 km + 710 km

De volta ao Brasil depois de milhares de quilômetros andinos

Naquela manhã existia uma sensação estranha dentro do carro. Depois de tantos dias cruzando desertos, altiplanos, vulcões, montanhas nevadas e cidades andinas, finalmente estávamos prestes a deixar o Peru e retornar ao Brasil. A aventura ainda não tinha acabado, mas dava para sentir claramente que a viagem começava a entrar em sua fase final. E, junto com o cansaço acumulado, já começava a surgir também aquela nostalgia antecipada típica dos últimos dias na estrada.

Último dia no Peru.

Acordamos, colocamos as malas no carro e saímos em busca de um café da manhã. Encontramos um lugar simples e barato próximo da Plaza Mayor de Puerto Maldonado e ali fizemos nossa última refeição em solo peruano.

Depois disso pegamos estrada.

A partir daquele trecho a mudança de paisagem era enorme em relação aos Andes. A rodovia seguia praticamente plana, sem grandes variações de altitude, cortando áreas de floresta amazônica e longos trechos de vegetação úmida.

Seguimos rodando até chegar à pequena cidade de Iñapari, na fronteira com Assis Brasil.

Ali fizemos os trâmites de saída do Peru e também a baixa da Duster sem muita demora. Aproveitamos ainda para trocar as últimas notas de soles que sobravam no bolso.

Depois atravessamos a ponte sobre o rio Acre e finalmente voltamos ao Brasil depois de tantos dias fora.

E é engraçado como certas coisas simples imediatamente despertam uma sensação de conforto.

Assim que entramos em Assis Brasil fomos direto procurar comida brasileira. Já estávamos com saudade daquele tradicional self-service cheio de arroz, feijão, carne, salada e fritura. Achamos um bom restaurante e lá comemos sem nenhuma cerimônia. 🤣

Depois seguimos viagem.

Só que ali cometi outro pequeno erro clássico de estrada: não abasteci em Assis Brasil porque achei que daria tranquilamente para chegar até Brasileia.

Foi no vapor. Literalmente.

A gasolina ficou perigosamente perto do fim antes de conseguirmos abastecer novamente.

Depois disso encaramos longos trechos da BR já em território brasileiro. E a estrada estava complicada.

Muito buraco. Mas muito mesmo.

Era preciso desviar o tempo todo, praticamente em zigue-zague. Fiquei imaginando como deve ser enfrentar aquela rodovia durante a noite e ainda sob chuva. Em alguns pontos parece algo simplesmente impraticável.

Chegamos a Rio Branco já anoitecendo e resolvemos ficar no primeiro hotel razoável que encontramos, mesmo ele sendo mais caro do que os padrões da viagem até então.

Ficamos no Hotel Campanharo.

Algo próximo de 100 reais por pessoa, mas o hotel era realmente muito bom.

Saímos para jantar e depois voltamos cedo para descansar.

22º dia 14/01/25 - Rio Branco a Ariquemes - 710 km

No dia seguinte acordamos e tivemos talvez um dos melhores cafés da manhã da viagem em território brasileiro.

Muita variedade de bolos, salgados, frutas e comidas típicas daquele estilo de hotel de estrada brasileiro que sempre parece acolhedor depois de tantos dias fora.

Depois foi basicamente só estrada. Estrada e floresta.

Seguimos cruzando os imensos confins verdes da Amazônia pela BR-364.

Na hora do almoço paramos em uma pequena budega à beira de um rio cujo nome infelizmente não lembro mais. Ali resolvi experimentar um PF com pirarucu frito.

Gostei bastante.

Imagino que um ensopado daquele peixe deva ser excelente também.

Já no final da tarde chegamos a Ariquemes.

Acabamos nos hospedando no Hotel Rondon, um hotelzinho bem simples — talvez simples até demais. Depois me arrependi um pouco da escolha, mesmo ele sendo barato.

Após nos instalarmos saímos para jantar em algum lugar próximo e depois retornamos ao hotel.

A viagem já entrava claramente naquele ritmo melancólico dos últimos dias, quando a estrada deixa de ser descoberta e passa lentamente a virar despedida.

 

Editado por Marcelo Manente

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Aguardando o final e vendo que em 10 anos que andei por ai,o Acre nao desenvolveu nada.Nao quiseram conhecer Puerto Maldonado?

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