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Arapongas... a pé!


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http://jorgebeer.multiply.com/photos/album/253/Arapongas

 

A (QUASE) RECONQUISTA DO ARAPONGAS

O Arapongas é a montanha mais ocidental da cordilheira do Ibitiraquire (PR). De difícil acesso e isolado no centro da floresta, não bastasse sua longa picada de aproximação ser repleta de obstáculos, existem ainda 3 paredões verticais consecutivos separando a base do cume. Por conta destas adversidades sua conquista foi tardia e se resume a apenas meia dúzia de aventureiros, sendo a última datada de década atrás. Logicamente q não titubiei em aceitar convite em integrar mais uma expedição p/ nova tentativa de cume deste pico 100% selvagem. Entretanto, a montanha disse ao q veio. Uma série de percalços e imprevistos (inclusive um acidente de transito logo no inicio) apenas deu um leve gostinho do perrengue q é “estar” no Arapongas, uma montanha q teima em fazer jus à sua fama de inexpugnável. E q provavelmente mantenha por um bom tempo o atual número de conquistas reduzido aos dedos de uma mão só.

 

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Foi td mto rápido naqueles três segundos q seguiram o primeiro impacto. Qdo dei por mim reparei q, em torpes e trepidantes solavancos às escuras, mergulhávamos numa ribanceira atropelando td pela frente. Após passar por cima de uma placa q trincou totalmente vidro dianteiro, assistir em primeira pessoa o carro engolir capim pelo capô e atropelar uma pequena árvore, finalmente aterrizamos nos acolhedoras braços de um fofo matagal. E então veio o silêncio. Olhei pra Débora perguntando se tava td bem, q por sua vez acenou com a cabeça positivamente. Ainda tenso e adrenado (mais até q a própria motorista!) e removendo as minúsculas lascas de vidro q pinicavam espalhadas sobre minhas pernas, não foi difícil adivinhar o motivo de estar ali naquele momento, num ângulo de quase 45 graus em meio àquela espessa vegetação tangenciando a BR-116, às 3 da madrugada. E quase à beira de um abismo, como depois constatamos. Bastou apenas uma piscadela de sono no volante e passar batido numa curva.

Lentamente consegui abrir a porta do passageiro, cujo peso afundou no mato do lado de fora. Tirei o bendito cinto (q não fosse ele teria beijado o para-brisa) e saltei fora do veiculo. Minha perna perdeu-se no capinzal urticante até a altura da coxa buscando apoio seguro, mas assim q conseguiu dei a volta no carro tropegamente, tateando o caminho percorrido. Só depois q caiu a ficha q deveria ter escapulido pelo outro lado, sob risco do veiculo tombar sobre este q vos escreve, dada a forte declividade em q se encontrava. Nesse meio termo iluminei com o celular o matagal logo adiante do carro e simplesmente não enxerguei fundo algum, apenas pra agradecer até hj o fato da pequena “arvinha” atropelada ter segurado as ferragens sob o Clio evitando coisa pior.

 

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“ E agora?”, falei pra Débora, “Fazemos o quê?”. Estávamos imersos num bréu só, iluminado parcialmente pelo disco prateado de uma linda lua cheia, no meio do nada e lugar nenhum. Nos ocorreu primeiramente saber onde estávamos p/ então acionar o seguro, e pra isso tínhamos q andar pelo asfalto nalguma direção em busca de algum emplacamento, já q vestígio luminoso de civilização ali era algo remoto. Pegamos nossos pertences de valor, uma blusa p/ frio e decidimos tocar pra esquerda, sentido Sampa, sem saber q estávamos mais próximos de Curitiba do q imaginávamos. Logo de cara vimos q o carro pousara afortunadamente na única “ilha” plana e gramada do acostamento, já q a encosta q acolhia a estrada era em sua maior parte um precipício quase vertical.

Começamos então a andar tranquilamente pelo estreito acostamento do asfalto, observando tanto o mato amassado ao nosso lado denunciando a trajetória do Clio da Débora como prestando atenção pros esporádicos caminhões q passavam a milhão, no sentido contrário. Entretanto, nossa caminhada durou pouco pq mal passamos da maledita curva vimos q a estrada seguia interminável pra se perder no meio a elevadas montanhas, a nordeste, sem indicio de civilidade algum. O único q nos deu uma vaga idéia de localização foi uma placa azulada com a inscrição km 9, ou seja, sinal q já estávamos em território paranaense.

Enqto retornávamos ao veiculo com a mesma cautela da ida e a Débora acionava o seguro pelo celular, vimos uma ambulância passar a td vapor no sentido contrário, a qual tentamos acenar. Mas não havia necessidade, pois a mesma apenas buscava o retorno apropriado pra vir ao nosso encalço. Noutras, alguma boa alma motorizada havia presenciado nossa “escapulida” do asfalto e imediatamente acionado resgate. Menos mal. Assim q encostaram do nosso lado nos metralharam de perguntas sobre nossa atual condição e nos fizeram assinar um termo de q não precisávamos de avaliação médica no PS, o q era verdade já q o susto havia sido maior q qq seqüela física. Além disso, nos informaram q estávamos nos cafundós de Campina Gde do Sul, a apenas 70km de Curitiba.

 

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O q se seguiu depois foi aquela canseira de sempre, em plena fria madrugada duma véspera de feriado; após a chegada do guincho foi aquela trabalheira pra retirar o veiculo do matagal no qual teimava em continuar descansando. Mas uma vez removido e colocado em cima do possante veiculo q o rebocaria até o posto policial mais próximo é q tivemos a real noção dos estragos. Vidro, lateral, para-choque, pneus, etc.. td detonado! Respiramos novamente aliviados por nada de grave ter ocorrido conosco. “É, minhas sete vidas agora expiraram mesmo!”, pensei. Embarcamos então na boléia do guincho e lá fomos nos, realizar a tediosa (porém necessária) burocracia chamada de “boletim de ocorrência”.

Eram quase 5 da manhã e o sol já espiava pelas colinas a leste qdo chegamos no Posto Taquari, da Policia Federal, um pouco antes do último pedágio q nos separava da capital paranaense. Até ali eu já dava nossa promissora trip já por encerrada, sem condições de prosseguir. No entanto, foi a Débora q me animou a dar continuidade à dita cuja, pois ainda havia essa possibilidade. “Vai nessa, Jorgito! Faço questão!”, disse ela, td animada com a maior naturalidade do mundo, como se nada tivesse acontecido. “Eu assumo o BO de agora em diante! Sem estresse!”, emendou. Ainda dividido nessa real possibilidade, liguei pro Julio Fiori avisando do ocorrido e q era pra vir me buscar ali, pois era bem próximo do pto de encontro originalmente proposto, no Portal da Graciosa.

Assim q o veterano montanhista e editor do altamontanha.com chegou ele ainda tentou convencer minha amiga a dar continuidade á trip proposta, deixando o reboque do veiculo pro final da pernada. Mas a determinada guria optou mesmo em retornar naquela mesma manhã pra “Terra da Garoa” com seu novo “souvenir” à tiracolo, mais preocupada em saber onde iria estacioná-lo do q a burocracia q teria pela frente com a concessionária do seguro. E, claro, torcendo pra q o laudo final fosse perda total. Nos despedimos da Débora e assim pudemos dar continuidade à trip em questão, após td este infeliz e inesperado incidente na Régis Bittencourt.

 

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As 7hrs, enfim, fomos de encontro com o pessoal q já nos aguardava ansiosamente no entroncamento da PR-410, vulgo Estrada da Graciosa, com aquela estradinha de terra q dá acesso à chamada “Casa de Pedra”. Lá estavam os sempre fieis escudeiros do Fiori, Elcio, Moisés e Jurandir, acompanhados da numerosa galera do “Nas Nuvens Montanhismo”: Alisson, Xande, Magrão, Juliano, Vinicius (editor do www.amontanha.com.br) e o Natan, q além de chefe-diretor da trupe acumula tb o cargo de presidente da Fepam. Pra completar a trupe, representando o “sexo frágil” da empreitada estava a animada veterana Rossan Weiss.

Após deixar os respectivos veículos aos cuidados do proprietário da Casa Garber, começamos oficialmente a pernada descendo sem pressa pela centenária Graciosa, iluminada pelos primeiros raios daquela bela e promissora manhã. A medida q caminhamos sinuosamente estrada abaixo, podemos observar nosso objeto do desejo, elevando-se altivamente a nordeste, passando desapercebido em meio a gigantes: numa larga silhueta recortada por vários cumes separando o horizonte do firmamento, surge o Arapongas mais nítido e escuro em primeiro plano, logo adiante da monstruosa massa granítica do Ciririca, este marcado por suas inconfundíveis “orelhinhas”.

Passada a placa q sinaliza os limites de Quatro Barras e Morretes, e logo depois o bucólico mirante do Recanto Engº Lacerda, meia hora após iniciada a jornada, enfim, mergulhamos no frescor da floresta após topar com o marco de pedra, no km22. A descida suave por trilha bem batida q se segue parece não ter fim, até o momento em q começamos a ouvir ouvir os murmúrios do Mãe Catira correndo no fundo do vale, q acompanhamos a distância. A picada é bem batida mas isso não nos isentou de alguns perdidos, principalmente em virtude da abundância de vegetação tombada no caminho. Mas felizmente a boa experiência do Elcio e do Fiori da região sanam td e qq rumo equivocado q por ventura venha a ser tomado. Estes dois, inclusive, integraram a última expedição de sucesso ao Arapongas. Depois disso não se teve noticia de mais ninguém no topo do pico, sendo q a última tentativa de alcançá-lo resultou no resgate de um escalador q despencou de um de seus últimos paredões.

 

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Percorrendo acidentadas encostas, ora em declividade descendente ora em nível, cruzar dois pequenos afluentes saltando de pedra em pedra, a pernada passa a acompanhar o rio principal, q rumoreja logo abaixo. Mas descendo uma suave crista nossa atenção se volta pra estranhos urros e potentes grunhidos bastante próximos ecoando por td vale, q nos deixam ressabiados qto a real possibilidade de topar com perigosos porcos-do-mato (aqui chamados de “catetos”), embora ali tb seja território da pintada. Mas por sorte um trio desgarrado do grupo foi conferir a origem dos ruídos pra chegar a conclusão q era um bando de enormes bugios demarcando território.

Qdo finalmente a vereda nos leva às margens do maravilhoso Mãe Catira, cujas águas reluzem ao sol matinal, inúmeras pedras aflorando a superfície denunciam a escassez de chuvas a meses. São apenas 9hrs e é ali, acomodados nessas mesmas pedras, q temos nossa primeira parada de descanso e lanche. Mas o relax é breve pq nuvens de mosquitos – moscas e pernilongos - teimam em nos enxotar do lugar e não há repelente q dê conta do recado, fazendo com q a forma mais eficaz de evitar os maleditos sanguessugas dali seja se mantendo em movimento.

Novamente nos colocamos em marcha no meio da floresta, q por sua vez filtra os raios de forma belíssima ao permitir q alguns perfurem desordenadamente o emaranhado verde de sua copa. A rigor, a pernada sempre acompanha o rio principal pela acidentada encosta esquerda, mas a medida q se avança as dificuldades de orientação se tornam mais palpáveis pela abundancia de bifurcações q surgem, boa parte gerada por palmiteiros. E não bastasse os maleditos extratores ilegais abrirem novas picadas numa floresta onde td paisagem parece igual, os desgraçados ainda fazem questão de remover as antigas fitas plásticas deixadas em explorações anteriores. Por conta disso q durante td percurso fomos deixando marcações definitivas q nos auxiliassem futuramente nos trechos mais confusos, incluindo na volta.

 

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Após cruzar um belo bosque aos sobes e desces, contornar mais mata caída numa crista e tocar por uma confusa picada se fiando apenas por antigas marcações, desembocamos novamente as margens do borbulhante Mãe Catira, as 10:20hrs. A partir daqui tínhamos a opção de simplesmente de subir pelo Mãe Catira e tocar depois pelo afluente q dá na base do Arapongas; ou buscar uma suposta trilha (de palmiteiro?) pela encosta esquerda q vencia este trecho rio acima rasgando a mata p/ desembocar logo aos pés do Arapongas, num piscar de olhos. Logicamente q o pessoal optou pela emoção da segunda opção.

E la fomos nos, acompanhando paralelamente o Mãe Catira através de uma trilha q palmilhava a alta e íngreme encosta, mas q logo depois desapareceu, engolida pela mata. Nos separamos varias ocasiões atrás da bendita continuidade da picada, as vezes com sucesso. Outras não. Mas qdo percebemos q o tempo dispendido nas buscas fazia nosso avanço não render quase nada, ao invés de simplesmente ir pelo rio decidimos apenas azimutar numa direção (NE) e simplesmente rasgar mato por cristas e encostas pronunciadas. Claro q inicialmente o avanço foi no facão, mas depois pelas mesmas razões de lentidão o lance terminou sendo mais no peito mesmo, mais ágil!

É qdo começamos a subir num aclive acentuado por meio de pedras desmoronadas q nos deparamos com um enorme e úmido paredão q não deixa dúvidas de nossa localização: estávamos ao sopé da gde aresta geológica q se estende no sentido oeste-leste e q, numa falha similar a um cânion, espreme o Mãe Catira no chamado Dique Diabásio pro regato despencar na Cachu da Santa. Sendo assim, o jeito foi escalar até a cumeada desta elevada dobra de serra p/ passar pro outro lado. E tome escalaminhada nervosa onde qq coisa servia de apoio, desde capim, cipó, árvores ou até mesmo o próprio chão escorregadio - cuja composição era um misto de terra e varias camadas de folhas mortas - q se esfarelava ao menos contato, e onde a passagem de alguém sempre deixava menos agarras pra quem viesse atrás. Em tempo, este trecho é feito unicamente na base da navegação visual e bom senso, uma vez q a bússola endoidece e não serve pra nada dadas as gdes reservas de magnetita depositadas na linha q acompanha o Dique.

 

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Uma vez na cota dos 900m do topo e uma rápida pausa de descanso, o avanço prossegue retardado pelas moitas de bambus e principalmente cordas de espinhos (a tal unha-de-gato), q se seguram em qq saliência da mochila, obrigando novamente ao facão entrar em ação abrindo um túnel em meio aquele espesso e intrincado taquaral. Pequenas frestas entre o matagal permitem vislumbre tanto da magnífica sucessão de muralhas q separam os vales superiores do cume do Arapongas, a nordeste, como das serras q antecedem a baia de Paranaguá, a sudeste. A descida da face oposta é feita no mesmo esquema anterior, ou seja, na base da desescalaminhada vertical, porém desta vez c/ a cautela redobrada em saber onde se posicionava o pé de apoio; o chão coberto de folhas e galhos mortos escondia fendas e bocas enormes a espera de vitimas incautas. Mas assim q o terreno suaviza neste setor da montanha, q se mostra mais alegre e bem iluminado em contraste com a lúgubre piramba anterior, nosso corpo ganha novo fôlego q nos revigora pra andar mais ágil e rápido, o q nos distancia uns dos outros mas nada q uma simples orientação por voz não resolvesse.

As 12:50hrs finalmente desembocamos num pequeno córrego q identificamos como o afluente na base do Arapongas, e após uma breve pausa pra devorar nosso segundo lanche, decidimos acompanhar rio abaixo em busca de lugar decente de pernoite. E assim fomos ora desescalaminhando as pedras do regato ora transpondo os obstáculos de sua margem até alcançar, a exatas 14:30hrs, um bucólico bosque junto a água q permitia um acampamento base perfeito q comportasse td mundo de forma confortável. Particularmente estava exausto devido ao cansaço e sono acumulado, lembrado q mal dormira naquela madrugada, e a noticia q ali seria nosso pit-stop definitivo veio em boa hora.

 

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Na verdade, nosso plano original era ataque ao cume ainda naquela tarde, mas em virtude dos atrasos daquela manhã deixamos a montanha pro dia sgte, pra desespero do Elcio, q esbrabejava q se o cume não fosse feito naquele dia não seria feito depois já q conhecia as condições da serra e, principalmente, os supostos “exploradores”. Resoluto e determinado como ele só, deu continuidade à pernada tendo com cia o único maluco q conseguiu convencer a acompanhá-lo, o Jurandir. Eu bem q fiquei tentado a ir junto, mas conhecendo bem os meus limites e sabendo q o Élcio é daqueles q anda inipterruptamente noite adentro, saberia q decerto daria alguma zica comigo devido ao esgotamento em q naquele instante me encontrava. Precisava uma noite somente me recompor totalmente, e a promessa do Fiori em levantar cedo na manha sgte pra tentar cume me era mais sensata e agradável.

Nos despedimos então do Elcio e Jurandir desejando-lhes boa sorte em seu bivake junto ao cume, enqto montávamos nosso próprio acampamento q consistiu basicamente em bivakes e redes. O único e exíguo espaço plano q acomodava barraca foi utilizado pela Rossan e pelo Jurandir, q deixou seu cafofo montado pro Moisés. A animada e divertida galera do “Nas Nuvens” imediatamente empolierou suas trocentas redes num emaranhado de galhos e troncos no q pareceu ser um “varal humano”, enqto eu posicionei a minha à distancia, já quase caindo de sono nela não fossem os insistentes e petulantes mosquitos onipresentes.

 

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O resto da tarde ficamos a toa ali, descansando, comendo e jogando conversa fora enqto a luz difusa das 16hrs clareava o topo das arvores e mantinha nosso acampamento numa agradável penumbra. Foi ai q começou a rolar uma cachacinha deliciosa da Cananéia, uma cataia legitima, entre a galera q relaxou os músculos ate não poder mais. Se eu já tava cansado a sucessão de etílicos q rolou interminavelmente depois fez o resto do serviço, nocauteando meu corpo antes mesmo da escuridão tomar conta da floresta. Dito e feito, me aninhei na minha rede e dali não arredei pé ate o dia sgte, morrendo para o mundo. Nem mesmo o aroma de um delicioso arroz carreteiro, strogonoffe e carne seca sendo preparado coletivamente durante a janta me demoveu do meu casulo inexpugnável, dependurado por duas arvores ornadas de belos exemplares de pequenas e coloridas bromélias.

O noite transcorreu relativamente sem nenhum percalço. Nem mesmo os grossos pingos da chuva q surpreendeu o vale na calada da madru foram suficientes pra perturbar meu sono, embora tenha me obrigado a sair do meu bem-bom pra colocar uma lona de plástico sobre a rede. Apenas o zunido tão constante como irritante dos pernilongos na orelha as vezes me forçava a mudar de posição, mas ainda assim não escapei ileso de ostentar vários galos e picadas no rosto na manhã sgte.

 

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O despertar do novo dia nos surpreendeu com um manto opaco e úmido engolindo a copa das árvores, as 6:30hrs. O dia insinuava-se idêntico ao anterior e era apenas questão de tempo das brumas da serra serem vencidas pelo sol, q logo mais colocaria a mostra um céu de poucas nuvens. O Fiori fervia a água do café enqto os demais ainda se espreguiçavam ta dura tentativa de levantar pro derradeiro ataque. E o pessoal do “Nas Nuvens”? Nem sinal deles, forte indicio q não teríamos a cia deles pelas próximas horas. Resumindo, apenas eu, Fiori, Moisés e Rossan estávamos realmente empenhados em levar a cabo o objetivo proposto.

Após o desjejum começamos nossa empreitada estabelecendo tempo-limite pra td, cronometrando o horário de ida pra buscar estar de volta no acampamento antes das 16hrs, isto se td corresse bem. Ou seja, em tese estaríamos as 13hrs no cume. Assim teriamos duas hrs de luz remanescente pra descer o rio até a trilha, e dali seguiriamos rumo a Graciosa. Como andar pelo rio a noite era algo tão perigoso qto fora de cogitação, decidimos tentar o ataque ao cume levando em conta este tempo apertado, ou seja, se demorássemos além da conta subiríamos apenas até onde desse, e dali retornaríamos. Além disso iríamos sem nada, apenas munidos de uma única mochila (a minha) carregando 2,5L de água e algum lanche. Pronto, resolvido.

 

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Nos despedimos do pessoal do “Nas Nuvens”, q sequer ensaiavam sair de suas redes tão cedo, e pusemos finalmente pé-no-mato as 8hrs seguindo os rastros deixados pelo Elcio e Jurandir. Inicialmente subimos a suave encosta q acolhia o bosque do nosso pernoite, atravessando um enorme bambuzal q estalava diante nossa passagem forçada. Subindo em curtos ziguezagues e observando atentamente o mato amassado ou qq vestígio de passagem da dupla, fomos avançando em velocidade razoável, tanto q não tardou pra nossos rostos se encharcarem de suor, embora nossas roupas já estivessem molhadas em virtude do excesso de umidade retido na vegetação.

Ganhamos um primeiro ombro serrano q se tornou rapidamente uma crista pronunciada, com mato vertendo por ambos lados. Mas td q é bom dura pouco pq logo a montanha verticalizou no primeiro paredão rochoso forrado por uma camada de musgo seco, q por sua vez subia além da copa das árvores. Fiori e Moisés foram na dianteira buscando pelo entorno a melhor maneira de subi-lo em segurança, desde q houvesse vestígios de passagem do Elcio. A Rossan vinha logo atrás, atenta a cada pisada da dupla veterana, e eu vinha fechando a trilha, com a função de carregar a mochila do grupo.

E assim fomos ganhando altitude inicialmente através de uma canaleta rochosa pra depois escalar cautelosamente o paredão, q se alternava em rocha, terra e mato. Qq coisa servia de agarra, até capim de consistência duvidosa. E assim vencemos o paredão aos poucos, evitando as pirambas impossíveis de subir diretamente ou as gretas e buracos profundos espalhados por td trajeto, alguns descobertos e outros nem tanto. Raizes aéreas abraçando enormes rochas tb serviam oportunamente ao nosso propósito e assim, lentamente, íamos transpondo a parede ate vazar a cobertura de arvores e ganhar uma área de mata fechada no topo deste primeiro degrau.

 

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Quiçaça ressequida e contorcida, pequenas arvores obstruído o caminho e um chão forrado de bromélias tão cortantes qto espinhentas era o q nos recebia naquele primeiro patamar, onde não vimos nenhum sinal da passagem dos meninos. E tome mais facão no caminho! Por entre as frestas da mata temos uma vista do cume do Arapongas, bastante desalentadora: uma enorme parede de rocha se eleva logo adiante, crescendo pra esquerda depois de um trecho arborizado.

Pois bem, cruzávamos esse trecho de vegetação arbórea espessa abrindo caminho qdo ouvimos gritos, q logo identificamos como sendo do Elcio e Jurandir. Retornamos o chamado e não deu nem 10min reencontramos a dupla aventureira, td detonada, q nos contou uma estória q sepultou de vez nossa ousada pretensão de cume ainda naquele dia. Eram 10:30hrs qdo contaram q passaram sufoco durante a escalada dos paredões sgtes, pois a noite os surpreendeu durante o trajeto. A partir dali seguiram à base de headlamps se fiando basicamente dos cinco sentidos e, principalmente, de mta sorte, onde em mais de uma ocasião quase foram engolidos por fendas escondidas na escuridão. Souberam q estavam no cume qdo não havia mais nada pra subir, depois das 20hrs, onde se moçaram como puderam. Naquela manhã despertaram envoltos em brumas sem nenhuma referencia e foram rasgando mato a piquem, na descida, onde tiveram q refazer o trajeto em mais de uma ocasião, qdo julgavam estar perdidos. E isso só não ocorreu ao ouvirem nossa aproximação, q lhes deu a direção correta p/ tocar! Mas o pior de td era q não tinham aberto nenhuma picada nem deixado marcações pra gente (conforme combinado), fosse na ida como na volta, o q nos daria mínima possibilidade de cume naquele tempo exíguo. Resumindo, eles haviam levado 5hrs pra subir e 3hrs pra descer, tempo q não dispúnhamos se levássemos em conta nosso cronograma, q previa ás 18hrs sair do rio! Não tínhamos dia extra. E pelas nossas contas, nos ainda não estávamos nem na metade do caminho! Ou seja, sem chance!

 

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Foi uma decisão difícil abortar nossa pretensão de cume ali, quase tocando com os dedos o dito cujo, mas fazer o quê, né? Aquela maravilhosa paisagem de td Serra do Ibitiraquire vista do seu extremos sul, do alto dos 1319m infelizmente teria de esperar. Eu, particularmente, não sabia se ria ou chorava: estava dividido entre a frustração de trip inconclusa, mas ao mesmo tempo contente por ter me livrado de um perrengue junto dos bravos “piás” q certamente não teria dado conta. Bem, e quem era eu pra contrariar a sensata decisão do Fiori e Moises, mto mais experientes na região do q eu, de deixar a reconquista do Arapongas pruma próxima ocasião? Assim, optei por me confortar em tirar lições da situação a chorar pitanga do q “poderia ter sido e não foi”. De qq forma, a trip ainda não havia terminado, o q nos dava tempo de curtir os belos remansos e cachus do Mãe Catira na volta, sem pressa alguma.

Retornamos ao acampamento na metade do tempo da ida, as 11hrs, onde encontramos o pessoal do “Nas Nuvens” pronto pra partir. Já estava decidido q voltaríamos pelo rio e não pela varação de mato do dia anterior. E assim, dando as costas pras encostas do Arapongas começamos a descer aquele pequeno afluente do Mãe Catira aos poucos, pisando c/ cautela a sucessão de pedras cobertas de limo e lisas feito sabão. Lamentei não ter trazido minha Salomon apropriada pra rocha molhada, e lá estava eu calçando uma Snake de terreno seco, cuja sola derrapava feito sabão ao menor contato com pedra úmida, em especial as mais claras. Por conta disso fiquei pra trás do grupo, tateando duas vezes o terreno antes de avançar. Contudo, no decorrer da pernada fui ganhando + confiança ao saber qual era a pedra mais aderente de pisar despreocupadamente e as q deveria redobrar cuidado, buscando um apoio avulso antes de pisá-la. Claro q essa preocupação não me livrou de alguns tombos, por sorte não mto graves.

 

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Ao meio-dia o tal afluente juntou-se a outro vindo pela esquerda, pra então correr emparedado por entre altos paredões cortados a prumo. Peralá, aquele setor de cânion me era bem familiar! Ao divisar o outro tributário do Mãe Catira reparei q já havia descido por ali no trecho final da saudosa travessia “Ciri-Graciosa”, na cia do Fiori e do Mamute!! Estávamos no Dique Diabásio, um majestuoso paredão de pedras a pique, cujas muralhas abruptas verticalizadas eram continuação daquela dobra serrana percorrida o dia anterior! Espremidos pelo desfiladeiro, logo desembocamos na cabeceira da Cachu da Santa, onde o Mãe Catira despeja seu véu dágua de uma altura de mais de 30m verticais sobre uma rocha totalmente preta. Claro q nos presenteamos ali com um breve pit-stop pra descanso naquele mirante privilegiado, com vista limpa do Morro Sete iluminado pelo sol daquele inicio de tarde, emoldurado por um cenário inteiramente verde.

A descida da cachoeira se dá pela encosta esquerda, sem gde dificuldade e com vários apoios a disposição, e logo nos vemos ao sopé da grandiosa queda, as 12:30hrs. Daqui em diante a pernada é pelo rio, tranqüila e desimpedida, alternando as margens planas de seu pedregoso leito conforme melhor convém e evitando o entulho depositado no caminho. A caminhada nos delicia com a visão de bucólicos recantos e pocinhos represados pelo simpático rio, repleto de surpresas a cada curva. Mas após passar por um belo poço - onde o Moisés não deixa por menos e mergulha de cabeça - nossa parada se dá logo a seguir, as 13:30hrs, numa enorme piscina q apelidei de “Poção do Mãe Catira”. Pausa pra banho e descanso merecidos, enqto o fogareiro ronrona nosso suculento banquete naquele horário: generosas rodelas de calabresa e provolone mesclados com alho picado.

 

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Com o vigor renovado pelo refrescante descanso, retomamos a pernada pelo rio p/ finalmente abandona-lo num pto marcado tanto por fitas amarelas como por um enorme totem de pedras, pouco depois das 14hrs. Dando as costas ao Mãe Catira e mergulhando novamente numa trilha em meio a mata fechada, segue-se a longa e interminável subida do vale q parece não ter fim. O cansaço já começa a pegar novamente e nos distancia uns dos outros. Mas aqui não há mto segredo pq basta se manter na vereda principal e atentar a sinalização de fitas. No caminho, minha mente busca divagar bem alem dali mas logo volto á realidade ao me deparar c/ pequenas frutinhas no chão (maracujá-do-mato?) num ambiente repleto do odor de carbureto, q me remete imediatamente ao Petar. E o suor escorrendo farto pelo rosto.

Com os joelhos já começando a reclamar, finalmente emergimos na Graciosa as 16:20hrs, logo atrás do marco de pedra, onde desabamos a beira da centenária estrada, exaustos. Um denso nevoeiro capaz de ser cortado a faca nos recebe, tomando conta da paisagem. Devagar e quase parando no asfalto, o trecho restante é feito quase q em câmera lenta, ate q finalmente estacionamos no Recanto Engº Lacerda, as 17hrs, enqto os motoristas vão atrás dos veiculos. No mirante local nada se vê a não ser brumas opacas e espessas, q não tardam em trazer uma fina garoa a tiracolo q apenas cunharam de razão nossa decisão de ter retornado a tempo, ainda com tempo bom. Um delicioso pastel é devorado no quiosque com vontade atipica, assim como copos de cana-de-açucar e, no meu caso, uma bendita e salgada lata de cerveja, são bebericados com gosto impar! Mudamos as vestes por outras mais apropriadas ao mesmo tempo em q avalio os estragos na pele sob a forma de queimaduras, cortes e machucados. Era, enfim, mais um dia na serra chegando ao final.

 

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No caminho pra Curitiba relembrei do incidente na Regis Bittencourt, do cara resgatado de helicóptero década atrás e do nosso ataque mal-sucedido ao pico naquela manhã. Deduzi q realmente não era pra ser mesmo. Errar uma vez, beleza; duas vezes seria burrice! Em termos simples, cheguei à conclusão q minhas atitudes aventureiras – em tds sentidos - eram intrinsecamente perigosas. Mas ao invés de lamentar o leite derramado, decidi aprender com essas péssimas lições. E a me conformar com elas. Devemos ouvir os sinais q a vida e a experiência nos dá. Foi uma decisão difícil, claro, porém de longe a mais sensata. Apesar de quase termos conseguido, o topo daquela montanha selvagem terá de aguardar outra oportunidade. Afinal, mesmo sendo uma pernada pauleira perfeitamente viável num fds pra montanhistas calejados como eu, é preciso saber q qdo a montanha dá seus sinais, ela deve ser respeitada. Ainda mais qdo se trata de uma montanha como o Arapongas, um pico selvagem e esquecido no meio da exuberante Serra do Mar.

 

 

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Editado por Visitante
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A cada vez que eu leio um relato do Jorge me dá até vergonha!

 

Eu, que clamo por todos os lados que adoro uma montanha, e, ainda sou de Curitiba, ao lado dessa maravilhosa serra do Ibitiraquire, nada mais conheço além de uma ou outra trilha pelas quais já passei diversas vezes.

 

Parabéns, Jorge! Tanto pelo relato, como pela coragem e, mais ainda, pela sensibilidade e respeito à natureza!

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  • 4 semanas depois...
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Olá Jorge!

 

 

Quando vi as fotos do Clio detonado antes mesmo do início da trip já fiquei imaginando qual seria o teu astral para seguir com o programa. Esse tipo de coisa sempre nos abala...

O Monte Arapongas é um 'perrengaço' dos bons. Pena que não foi dessa vez, mesmo com um 'grupo de elite' como este em que vocês foram. Como disse você, as montanhas nos dão sinais e é preciso respeitá-los. Melhor deixar a conquista para um outro dia do que virar estatística. Rsrs.

 

Tenho certeza de que nua próxima vocês conseguirão.

 

Abraço!

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