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Olá viajante!

Bora viajar?

Nepal 2005

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Os protagonistas do trek durante a viagem de busão até Jiri. 10 horas sacolejando e tirando fino de precipícios, sendo que 8 delas viajando no teto. Marcéu é o que tirou a foto e cortou metade da própria cara.

 

Dias 00

 

O trek foi ótimo, ótimo MESMO. Nós andamos por 31 dias, de Jiri até o Campo Base do Evereste e com uma esticada até o vale do Gokyo. Tudo com picos extras e treks secundários que não estavam no programa inicial.

 

Kathmandu é uma cidade única e como tal tem um jeito único de ser. Thamel, bairro comercial de Kathmandu onde há a maior concentração de turistas, é sujo, confuso, poluído, com ruas estreitas lotadas de carros, riquixás, pessoas, bicicletas e motos. E é barulhento, já que todos lá dirigem com a buzina. Adoramos Thamel!

 

Os acordos nas compras de material que faltava para o trek começaram bem. É muito fácil barganhar em Thamel, mas é mais fácil ainda perder horas e horas do precioso tempo de suas preciosas férias conversando com os vendedores que, uma vez demonstrado seu interesse em algo, não mais o querem largar. Nas ruas também é mais certo que a morte você ser abordado por agentes de viagem ou algum dos seus capangas, ou se ver na vexante situação de ignorar os pequenos traficantes que o seguem perguntando "você fuma?" ou "mariuana, haxixe?". "Qual seu preço?" e "seu preço é meu preço" são frases comuns e que vai ouvir nas lojas e ruas. A menos que faça como alguns dos turistas que vimos e simplesmente pague pelo que lhe pedirem, o que considero tremenda burrice, mas enfim, a grana é deles.

 

Isso tudo serviu para que eu, após dois dias em Thamel, ficasse desesperado para iniciar o trek.

 

Então finalmente partimos num ônibus cujos bilhetes que nos tinham sido vendidos por preços exorbitantes estavam caducos e tivemos que comprar outros, por preços pouco menos exorbitantes. Ônibus nepalês é muito pequeno e nossas cabeças quase tocavam no teto. Pralém disso estava lotado e mais gente subia no caminho. O motorista nos disse que iríamos no teto, mas só depois que passássemos algumas barreiras do Exército, o que levou cerca de duas horas, horas essas em que passamos em pé e torcidos sem poder mexer nada nem ter onde nos encostar.

 

Ao se afastar um pouco de Kathmandu, duas horas depois de ter partido, o motorista pára a velha condução, e bota velha nisso, e diz que podemos ir pro teto, o que soou como música aos meus ouvidos e bálsamo às minhas pernas e costas entravadas. Enquanto subíamos ao teto, 80% do ônibus se meteu na mata pra tirar água do joelho. Parecia um bosque de cabeças. Praticamente não havia arbusto sem uma cabeça por cima dele.

 

Embora um pouco ventoso, viajar no teto foi fantástico e de lá tivemos nossa primeira, digo, segunda vista das montanhas (a primeira foi do avião). Era só uma, mas parecia um monstro se elevando do horizonte.

 

Passamos várias barreiras do Exército no caminho, mas essas não se preocupavam com gente no teto.

 

O ônibus segue zique-zaqueando morro acima e abaixo por cerca de 10 horas. Como a estrada é estreita, os finos são inevitáveis, sempre manejados com muita buzina, assobios, gritos e batidas na lataria dos ônibus. Numa das vezes nosso motorista arrancou o retrovisor de outro ônibus que estava "estacionado", porém ele nem parou e seguiu em frente. Acho que ele não queria perder o bom embalo que o ônibus tinha pegado. Aliás, ele não gostava muito de dar lugar aos outros ônibus que vinham em sentido contrário e cada vez que era mesmo necessário que um recuasse pro outro passar, uma pequena batalha de buzinas acontecia até que um dos dois desistisse. Para nosso orgulho o nosso ônibus estava equipado com um belo conjunto de sonoras buzinas e logo éramos campeões de "abre alas que eu quero passar".

 

Numa das subidas, uma de muitas e longas, um pneu furou e lá ficamos quase uma hora até ser trocado, operação que envolveu a gerência, observação e aconselhamento de muitos e o trabalho de poucos.

 

Já de noitinha chegamos em Jiri, após passar por uma última barreira de soldados, que anotaram nossos nomes. Em algumas outras barreiras todos tinham de descer e seguir em fila indiana até o controle e os turistas, nós, ficávamos no ônibus. Dessa vez tivemos de descer também, mas nos mandaram furar a fila e ir pra frente.

 

Após nos inscrevermos, fique de papo com um soldado lá, que recomendou alojamento e deu uns conselhos sobre os maoístas. Prometi que ia ter cuidado e agradeci a ajuda. Não falamos de política. Não acho saudável falar de assuntos polêmicos com alguém segurando uma metralhadora.

 

No ônibus, um dos donos de alojamento subiu conosco e nos pescou pra ficar em seu alojamento, o que, depois de saber sobre comida (repeteco no dhal?) e banho (incluído no preço?), aceitamos. Lá encontramos mais alguns trekkers. Um deles estava voltando e o resto, inclusive nós, estavam indo. O que estava voltando disse que não queria estar em nossa pele, o que não diminuiu nosso entusiasmo, mas foi um primeiro contato com as durezas que nos esperavam. O cara, Paul, tinha cara de exausto mesmo.

 

Banhos tomados e de barrigas cheias, fomos pra cama, ou melhor, pros sacos, ansiosos pela chegada do dia de amanhã, primeiro dia de um longo trek.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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E AI HENDRIK????

achei q vc tinha desistido de escrever!!!!!!!!!

 

ta muito massa esse relato. vc tem um senso de humor fora do comum!!!!!!!

 

eu e minha esposa estamos planejando ir em 2007

 

ainda nao sabemos se vamos desde de jiri ou vamos voar ate lukla, porque o nepal vai fazer parte de um mochilao pela asia de uns 5 a 6 meses...entao nao sabemos em q condiçoes vamos chegar no nepal...

 

queremos fazer todo o trajeto, mas não sei...

 

estamos ansiosos pelo proximo capitulo!!!!!!!!!!!

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ah, voce disse q levou 25 kg de tralhas, né

 

o q vc acha q é indispensavel levar e o q vc levou q nao teve utilidade????

 

valeu

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Oi, Doug! Valeu pelo incentivo!

 

Olha, eu achei o trek de Jiri até Lukla bem legal, porque solitário. Claro que digo isso agora, depois de feito, porque na hora só conseguia achar que era uma dureza. Há muitas aldeias no caminho, algumas bem legais. Os preços são muito baixos, tirando a infame "doação" que os maoístas cobram. O serviço nos alojamento é muito bom e a comida, idem. Fora isso tem a razão principal de termos iniciado de Jiri: aclimatizar. Teve também a viagem de 10 horas no teto do busão velho.

 

Apesar da exaustão e cansaço que senti de Lukla em diante, creio que não era nada comparado com o que sentia 90% dos trekkers que iniciaram em Lukla.

 

Agora... se você vão passar por lá depois de já terem andado um bocado pela Ásia, então me parece que estarão mais bem preparados, tornando Jiri dispensável. É só aclimatizar direitinho e não vão ter problemas. Se puderem tirar uns dias extras para treks secundários nesses dias de aclimatização, melhor.

 

Quanto ao que levar... olha... levei 25kg de coisas muito necessárias que se tornaram muito inúteis. Levamos muita comida, fogareiro, barraca, cranpos e roupas que agora eu teria deixado em casa.Vi gente fazendo o trek de forma independente e apenas com uma mochila escolar nas costas!

 

Quebra-vento é indispensável, com certeza absoluta. Tem lugares que venta feito doido e um vento frio que corta. Uma boa isolação é mais que necessária. Umas meias de trekking para clima frio também é mais que bom. Gastei uma nota nas minhas (20 doletas por par e comprei uns 12 pares prá duas pessoas) mas não me arrependi em nada. Fora isso comprei umas meias de lã que vendem por lá. Óculos escuros também é bom. Um lenço para filtrar a poeira de alguns trechos é indispensável. Boas botas já amaciadas (gastei 500 Doletas em dois pares de botas Lowa Karat e valeram cada centavo). Boas luvas é bom também, para o vento não gelar sua mão. Umas calças bem fortes para as regiões mais altas, onde o desgaste delas serã maior e onde você vai andar muito por pedras e algum gelo. Podem ser compradas em Kathmandu, Jiri, Lukla ou Mamche. Bastões são indispensáveis. Se vocês forem brancos, um bom protetor solar. Uns fleeces para aquecer .

 

Dos remédios, só usamos Paracetanol, Diamox e muito remédio prá giárdia. Tudo pode ser comprado em Kathmandu à preço de banana. É só chegar com o LP na mão, abrir onde listam os remédios e comprar. Umas pastilhas ou algo contra a tosse é aconselhável.

 

MUITA ÁGUA! todo alojamento vende garrafinhas de água, mas acho muita poluição. Levei clorina e fui tratando minha água. Andava sempre com 4 litros nas costas, mas era meio exagerado. Acho que se andar com 1L tratato e 1L em tratamento, é suficiente.

 

Máquina fotográfica e muita bateria, pilha e filme. Mantenha a bateria perto do corpo, prá não descarregar. Eu dormia com as minhas dentro do saco.

 

Lanterna é bom, muito bom. Nem todo alojamento tem iluminação e algumas vezes pode se ver à noite na trilha, tipo se quiser assistir o pôr-do-Sol do Kala Pattar ou Gokyo ri.

 

Mapas e guias servem pra informar, mas não prá achar a trilha. A trilha é muito fácil de se ver.

 

Um bom saco-de-dormir tipo múmia. Abaixo de Lukla, um -20º vai ser quente. Em Gorak Shep, eu passava frio com um -20. Tinha gente que levava dois sacos. Tinha gente que levava só um, de -5. Nem todo alojamento tem cobertores.

 

Fivelas extras prá mochila. Se algo arrebenta acima de Namche, não tem onde compra-las.

 

Tornozeleiras e joelheiras, bem como gel para contusões. Nunca se sabe.

 

[]'s

 

Hendrik

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10xnamchemarceutopocolinapan9g.jpg

Em nossa caminhada de aclimatização sobre os montes que rodeiam Namche. Marcéu aprecia a paisagem.

 

Dia 10

 

Hoje foi um dia curto, então irei preecher o relato como meu costumeiro non sense.

 

Hoje foi o primeiro (dia, não non sense) que me senti realmente estar de férias. Desta vez não foi apenas o acordar mais tarde, mas também o não me ter de carregar como um yak e sair por aí andando para cima e para baixo feito um amaldiçoado Sísifo que quando chega lá em cima tem de descer até lá em baixo para então ter de subir ate lá em cima e repetir tudo de novo, empurrando uma enorme pedra. O queijo de yak, os biscoitinhos de côco, o arroz frito misto e mais uma ou dez coisinhas que nos indulgimos a devorar em quantidades bastante generosas, bem como umas boas e gordas horas extras na cama, tudo isso começa a fazer efeito. Tanto na moral quanto nas visitas mais freqüentes que faço ao tradicional banheiro nepalês. Para quem não sabe, banheiro nepalês é um chão com um buraco nele. Nos mais luxuosos há um pote de água ou um cesto de palha ao lado para jogarmos por cima do serviço feito. Até no moderno e novo aeroporto de Adu Dhabi eu vi desses banheiros.

 

Me sentia tão bem, tão bem-humorado que até queria fazer uma caminhada em volta de Namche. Só por diversão. Por diversão! Andar por diversão! Talvez fosse o efeito do queijo de yak que tinha descoberto bem guardado no fundo da minha mochila e que apresentava algumas manchas de cores estranhas e outra... coisa... branca... que cobria o quejo. Mas comi-o do mesmo jeito.

 

Ou talvez fosse o ar rarefeito a mexer com a cuca. Ou quem sabe foi o ter vivido num inferno nos últimos 10 dias que finalmente me fez perder qualquer resto de juízo que porventura ainda tivesse.

 

Não sei. Só sei que no meu segundo dia em Namche me senti sinceramente com disposição de fazer uma caminhada de aclimatização, como faria qualquer trekker normal. Um trekker... nossa, estava a começar a me sentir como um trekker... engraçado como isso soa ao ser dito em voz alta. Como? Não soa engraçado? Soa patético? Estranho? Dramalhão? Não importa. Era bom estar ali, a fazer algo que tinha sonhado por ano e meio e sobre o que muitas pessoas com quem falei antes não podiam entender os motivos de querer fazer isso. Estando em Namche me deu as respostas.

 

Creio que foi nesse ambiente cor-de-rosa que tive mais uma briga com Marcéu. Não me recordo bem se foi aqui, mas se não foi, foi por uma razão tão besta quanto esta. Mas na altura parecia tão ultimamente importante que da resolução da crise devia depender o destino do Universo conhecido. Talvez fosse sobre as regras do truco que jogávamos que ele ia me ensinando à medida que as situações se apresentavam, mas que eu não concordava porque aparentavam ter como único propósito inutilizar meus] três e me fazer perder. Ou talvez era sobre o pedido do almoço, que muitas vezes envolvia o Marcéu querendo saber quais vegetais entravam no prato, o que me fazia RELEMBRA-LO que eu não sabia os nomes dos vegetais em inglês, o que o fazia dizer seu idiossincrático ?ôxe? porque era espantoso pedir comida sem querer saber o que vem nela como vegetais, seguido de uma firme afirmação dele de que eu sabia sim senhor os nomes dos vegetais em inglês, o que, após umas três ou quatro voltas nisso, eu ficava puto e o mandava barbear yaks.

 

Coisas desse tipo.

 

Foi nos pícaros desse sombrio mal-humor que partimos para nossa jornada zen em torno de Namche, cada um para seu lado depois que passamos a parte da trilha que subia pelas encostas ao redor de Namche. O humor estava ruim, mas nenhum dos dois estava afim de ir pro outro lado de Namche e de lá subir pelas suas encostas.

 

Para quem não sabe, Namche é uma vila construída em forma de ferradura, com a parte interna mais baixa que a externa, no meio de umas encostas que a rodeia. De suas extremidades externas saem diversas trilhas subindo essas encostas até seu topo. Andar ao redor desse topo proporciona grandes vistas tanto da vila como de montanhas ao redor dela.

 

A trilha que escolhemos para subir levaria à Thami, vila à umas 3 ou 4 horas dali, mas quando chegamos ao topo da encosta entramos à direita, onde havia uma espécie de cemitério de pedras. Mas acho que é só uma pedreira mesmo. Parecia tão triste, sombria e... destruída. Era perfeita para combinar com nosso humor, tanto que ficamos por ali algum tempo explorando. Cada um na sua, claro.

 

Acabei me perdendo entre pequenos currais. Saia de um e entrava em outro. Nada de trilha. Digo serem currais porque havia bastante esterco pelo chão ou a secar nas pedras em volta (são usados como combustível nos aquecedores). Mas não vi quase yak ali. Barbudo e malcheiroso como estava, temi ser confundido com um e posto a carregar as imensas bagagens dos grupos organizados. Procurei sair logo dali.

 

Enfim achei uma pequena trilha que levava para uma chorten, construção que parece uma pequena gompa. Marcéu já estava bem perto de lá. Como ele acha os caminhos tão facilmente? Ao lado de lá estavam uns postes com muitas bandeiras de oração entre eles.

 

Como tinha várias horas pela frente, parei muitas vezes para ficar vendo a paisagem ou tirar fotos. Via uma pedra e ia logo subir nela. Estava me divertindo e o humor estava se tornando leve outra vez. Quando cheguei no chorten, Marcéu estava nas bandeiras. Quando cheguei às bandeiras, ele estava numa espécie de pista de aterragem que há numa parte plana do topo da encosta. Alguns grandes helicópteros pousam e saem dali. Não me parecia grande coisa, então não fui lá. Marcéu estava ao lado de um soldadinho e mais à frente, ao longe, vinha uma fila indiana de trekkers exaustos a subir a encosta. Estavam mesmo cansados, não faço idéia por que razão. Eu estava muito bem, então não vejo motivo para ninguém estar fatigado. Vai ver não estavam ao meu nível. Fiquei a olha-los com superioridade e a andar um pouco pelo caminho que estavam usando, só para mostrar como se faz, até um hotel no topo de outra encosta que há depois da pista onde Marcéu estava. Dois dias mais tarde pagaria bem caro por essa atitude. Numa clara exibição de o quanto minhas habilidades ?trekkeiras? eram superiores, tomei os caminhos mais íngremes. Acabei chegando bem atrás deles, bufando por todos os poros. Tenho de fazer alguma coisa para matar esse CABA-MACHO-TREKKER, senão ele que vai acabar me matando.

 

Passando o hotel, seguindo a trilha por uns 50 metros, esqueci completamente o cansaço e mau-humor das brigas da manhã. Ali mesmo, à nossa frente, tivemos a vista mais linda e espetacular até então: montanhas, muitas montanhas! Altas montanhas até onde a vista pode alcançar rodeando por 180º à nossa volta. Mas não eram montanhas qualquer. Lá estava o tão sonhado Evereste e a belíssima Ama Dablam.

 

Cara, eu não fazia a menor idéia que era possível de ver aquilo tudo dali, pouco acima de Namche. Achava que ainda teria de andar muitos dias até poder ver belezuras daquelas. Era uma surpresa, uma mais que agradável e grande surpresa. Estava boquiaberto e sem reação. Olhei para Marcéu e ele parecia estar tanto em transe quanto eu. Sorrimos um pro outro. Só as montanhas do EBC para nos fazer ficar em paz outra vez.

 

Câmeras para fora e dá-lhe click-click-click. Então andamos um pouco para fora da trilha e nos sentamos ali, hipnotizados diante do espetáculo que se passava à nossa frente. Era como se o tempo tivesse entrado em modo geológico e não mais o contássemos como humanos. Minutos, horas, dias, meses e anos não faziam mais sentido. Só milhares de anos possuíam qualquer significado. Estava a olhar para o resultado de milhares de anos de trabalho da Natureza, um lugar tão majestoso e alto, mas que já esteve nos fundos dos oceanos. Não me sentia mais gente, mas sim uma pedra, parte do ambiente, parte da evolução do mundo. Senti um pouco de inveja de ser animal e não mineral e parte daquilo tudo. É tão perene e ao mesmo tempo tão vivo, tão grande e complexo, mas ao mesmo tempo simples e natural que achei um absurdo ridículo e mesquinho todas as vicissitudes da história humana. Comparados com aquilo não somos nada mais que bactérias efêmeras que por acaso estão por aqui nesse momento, momento esse que para àquelas montanhas é menos que um segundo em suas existências.

 

Infelizmente o estômago me traz de volta à realidade humana que partilho, relembrado-me o que sou. Hora do almoço. Hora de voltar. Uma pena, pois o tempo estava mais claro agora.

 

Na volta propus ao Marcéu pegarmos aquele caminho em nossa ida à vila de Tengboche, dali uns três dias. O Everest View Hotel é visível de onde estamos, o que indica ser aquela a trilha correta e é bem legal de passar por ali. Ele diz que preferiria outro caminho, já que já conhecíamos aquele. Teimei na minha proposta e ele acedeu. Ganhei então esse embate de vontades e mais tarde iria me arrepender amargamente de ter ganhado.

 

Mas agora estávamos felizes, muito felizes. Felizes e famintos. Fomos logo para o alojamento e comemos nosso tradicional e pessoal Evereste de comida e depois fomos passear pelo mercadinho de Namche. Depois fomos para nosso quarto esperar confortavelmente a chegada dos primeiros trekkers vindo de Lukla ou Phakding. Então fizemos preparações para nossa ida à Thami, amanhã. Jantamos e fomos dormir bem cedo.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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11cnamchethamipicos21nz.jpg

À caminho de Thami, trek de aclimatização. Foto de Marcéu.

 

Dia 11

 

Hoje é dia de ir para Thami, um dos pré-determinados treks secundários de aclimatização. Apesar de estar gostando da vida boa em Namche, só comer e dormir, acho que tenho o dever de dar um pouco de respeito aos incontáveis dias do último ano e meio que passei sonhando acordado sobre todos os pequenos detalhes das caminhadas que faria uma vez que estivesse aqui, no Nepal, pelos quais fiz quase nada até agora. De Jiri até Lukla não tive presença de mente ou condição física para sequer pensar em treks secundários, embora tenha planejado uns dois ou três para essa etapa. Dessa forma, ir para Thami é tipo uma tentativa de fazer as pazes com minha própria consciência.

 

Deixamos Namche pela mesma trilha que usamos no dia anterior para atingir o alto de suas encostas. Levávamos carga leve e eu tinha apenas minha mochila pequena. Muito bom caminhar com pouco peso! Só saco-de-dormir, alguma roupa extra, artigos de higiene, câmeras, lanche e água. A diferença entre 25 kg e 5 kg é GRANDE. Senti que podia voar pela trilha.

 

O LP diz que o trecho Namche-Thami é uma caminhada de 3 ou 4 horas, então suponho que levarei umas 4 ou 5 horas para faze-lo. A trilha é muito agradável, ou seja, bastante plana e sombreada, principalmente na primeira parte dela, logo ao sair de Namche. Como de costume, Marcéu disparou na frente e em breve sumiria de vista, mas não me preocupei. Tinha resolvido em levar a caminhada bem traquilamente, tomando o tempo que quisesse, sem se preocupar com destinos. Queria mesmo era aproveitar a jornada. Pelo menos uma vez nesse trek eu iria por alguma atenção no que estava fazendo, e não nas dores das costas, nos ombros, nas pernas ou na rapidez de Marcéu e minha lentidão.

 

A trilha não é muito larga e quando cruzo com os yaks tenho de desviar e esperar até que passem. São tangidos em fila indiana por tibetanos, que mostram possuir uma mira incrível. Eles andam normalmente atrás da fila de yaks, filas de 10 ou mais, e quando um dos yaks para, os que estão atrás param também. O mesmo ocorre caso tome um caminho errrado: os outros vão atrás. Então aí entra a mira do tibetano. Ele atira lá de trás um pedregulho que passa assobiando até atingir o lombo do pobre yak parado ou desgarrado.

 

Foi numa dessas ocasiões que fiquei com a impresãso de ser um pouco assustador para os yak, porque muitos deles paravam quando chegavam perto de mim e ficavam ali me olhando com aqueles olhos grandes e humidos. Pelo menos é o que eu espero que seja medo e não tesão que lhes passasse por aquelas cabeças peludas.

 

Essa parte agradável da trilha chega ao fim e dali em diante a trilha se torna mais nepalesa outra vez, com seus sobe e desce constumeiros. Nada tão duro como antes, mas suficiente para me fazer suar e ficar sem ar. Parece que esse trek secundário não é muito concorrido, então também foi agradável andar por aquela trilha vazia. Gostava de estar só e isso tornou essa ida à Thami bastante aprazível.

 

Dei com Marcéu em Thamo, que pensei ser Thami, ficando bastante feliz por ter alcançado o objetivo em muito menos tempo que dito no LP. Achei estar em forma e tudo. Devia ter andado só umas duas horas e já estava em Thami!

 

Mas não, não estávamos em Thami. Estávamos em Thamo e Thami ainda está bem longe. Thamo fica a meio caminho, só isso. Ainda faltavam muito sobe e desce até Thami, e então fique bastante infeliz. Para afogar as mágoas, fomos tomar o café-da-manhã num alojamento qualquer. Bastante caro, por sinal.

 

Lá havia um grupo de trekkers voltando não sei de onde. Um dos membros parece ter sintomas de AMS e tem mal aspecto. Estão a descer, então ele diz estar cada vez melhor, mas tem uma tosse feia, seca, forte e constante. Parece que não aclimatizaram bem na ida para Namche. Parece que mais uma vez nossa caminhada desde Jiri estava dando seus frutos e tirando o episódio no Lanjura la, não estávamos com problemas de aclimatização.

 

O café-da-manhã ali foi bem caro e com porções européias: pouco. Isso é uma verdadeira desilusão para gente com apetite de leão, tipo Marcéu e eu. Bom, a vida é assim. Parece que nossos amigos sherpas estão aprendendo depressa sobre a cultura ocidental no que toca a restaurantes: pague muito, coma pouco.

 

Com barrigas infelizes, voltamos ao caminho. À medida que avançamos, mais e mais montanhas aparecem ou crescem. Apesar do tempo nublado, o vale de Thami parece ser um local bem espetacular. Infelizmente a regra da ?Subida Final? nos apanha outra vez e em breve veríamos a trilha que leva até Thami, do OUTRO lado do vale. Isso traduz-se em termos de descer as encostas onde estávamos, cruzar uma ponte próxima ao rio e então subir as encostas do outro lado.

 

Dito e feito! A grande descida chega, bem legal, já agora. Então chega a ponte, pequena e normal, de ferro e não-suspensa, cruzando o rio mesmo ao lado de uma garganta aberta nas rochas pela força das água, que passavam por ali, à poucos metros de nós com impressionante força, velocidade e barulho. Pouco depois dessa belezura, chega a subida. Nada tão penosa quanto à de Namche, Lukla ou Bupsa. Não chega aos pés de Deurali ou Sete, mas suficiente para me fazer bufar e suar como um cavalo durante todo tempo que durou subi-la. Marcéu há muito estava lá na frente.

 

Quando enfim cheguei destroçado em Thami, para minha surpresa não muito depois de Marcéu, achei fantástico o quão bonita a vila era. Thami não se parecia em nada com as vilas que encontramos até agora. Por estar num vale, as casas eram bem separadas, com currais para os yaks em toda volta. Os muros eram feitos de filas únicas de pedra, de forma que eram bem finos. A vista geral é muito bonita e tudo isso emoldurado por um magnificente conjunto de montanhas por trás.

 

Mas romantismos à parte, primeiras coisas primeiro. É tempo de achar acomodação e pechinchar. Sorte nossa não sabermos o quão essa atividade, tão normal para brasileiros, era considerada anti-ética pelos nossos confrades trekkers de outras nacionalidades mais abastadas, então pudemos ir perguntando pelas pensões sem vergonha alguma sobre preços de quarto, comida e banho. Na primeira pensão o cara pediu 250 Rúpias pelo quarto e 200 pelo banho. Não havia quartos mais baratos. Certo que o alojamento era bem feito, mas nós precisamos apenas de cama e dhal, não luxo, então eu sabia que isso iria variar muito de alojamento para alojamento. Os mais modestos tendem a ser mais baratos. Foi então que num alojamento modesto no final da vila encontramos nosso quarto de 100 Rúpias. A vista era modesta, mas não planejávamos ver as montanhas do quarto, portanto isso não faria diferença.

 

Ainda faltavam mais de três horas até o almoço, então decidimos fazer uma caminhada até o sopé de uma montanha, lugar que tínhamos visto quando estávamos andando pela vila. Deixamos o pedido e hora que queríamos para o almoço e fomos embora.

 

O referido sopé parecia estar perto da vila e ficava por trás dela, para o lado esquerdo do vale. Um pequeno, mas forte, riacho corria pelo seu centro. Sem ver nenhuma trilha, atravessamos os currais como pudemos e começamos a subir o vale. O mais fácil era seguir pela margem do riacho. Mas o sopé ficava do outro lado da margem, e não estava sendo fácil achar um lugar onde poderíamos cruzar. Depois de andar por cerca de 1 hora, Marcéu arrisca cruza-lo e consegue. Para mim onde ele cruzou parecia fora do meu alcance, então deixei para fazer isso mais adiante, certo que haveria lugares mais fáceis para cruzar se procurasse bem.

 

Mais adiante continuo sem ter cruzado o rio e já me encontrava em frente à parte do sopé que tínhamos em mente para ir. Dei um toque ao Marcéu, que me respondeu estar ?quase lá? e querendo saber onde eu estava. Disse-lhe que ainda não havia cruzado o rio, mas que já-já iria cruza-lo mais adiante, onde parece haver um bom lugar para faze-lo e estaria rapidinho com ele.

 

Outra hora passa e nada de lugar bom para atravessar o rio. Olhando para o sopé, até parecia que não tinha saído do canto. O rio estava mais e mais forte, apesar de mais estreito. Estava exausto, suando aos potes e faminto. Despi a camisa e, com a toalha, tomei um banho de gato nas gélidas águas, comi um pacote de biscoito e tomei muita água. Então descansei um pouco, tomando banho de Sol. A camisa estava encharcada de suor, então não a vesti de volta. Usando o casaco sem camisa, olhei em minha volta e desisti. Estava cada vez mais difícil continuar. O rio era mais e mais forte e não havia caminho que pudesse seguir, tendo de atravessar por entre arbustos espinhosos. Já estava todo arranhado e ficaria ainda mais na volta, então não quis adicionar mais extra arbustos para a caminhada.

 

Liguei pro Marcéu e disse que estava voltando. Ele disse o memsmo que antes, que estava ?quase lá?, mas também estava cansado, faminto, suado e um tanto com medo, pois o terreno lá parecia bem traiçoeiro para se andar, com tudo coberto de gelo, que cobria pedras e as fendas entre elas. Ele chegou ao ponto onde a água saia por entre as pedras, como numa fonte. Concordei que não era muito inteligente para mim cruzar o rio onde eu estava ou ele continuar a caminhar naquele tipo de terreno, então voltamos os dois.

 

O início da volta dele era mais fácil que o meu. Ele encontrou uma pequena trilha, enquanto eu tinha de passar aqueles malditos arbustos cheios de espinhos outra vez. Depois de 1 hora e de ter deixado metade do couro para trás, cheguei ao ponto onde começavam os pastos dos yaks, mas marcéu passou seu ponto de cruzar o rio e estava agora como eu estava, atrás de um lugar para faze-lo. Andamos juntos rio abaixo, ele numa margem e eu noutra, até depois da vila, onde havia uma pequena ponte.

 

Nossa pequena aventura não foi bem o que esperávamos e mais arriscada que parecia vista da vila, mas a vida é assim mesmo. O que importava agora era comer bastante e nos lavarmos da sujeira e suor acumulados. Banho quente era muito caro aqui, então voltamos ao riacho e tomamos banho de gato. Depois voltamos ao alojamento e perguntamos pela comida. Não estava pronta ainda. Tudo bem, fomos jogar Truco enquanto esperamos, no qual sou péssimo e só faço perder. Marcéu então vai escrever em seu diário e eu fico ali, sentado com a cabeça encostada na parede, feito zumbi. Depois chegam as crianças do dono da pensão, cheias de brinquedos que um casal inglês lhes ofereceu. Do lado de fora, um alemão botou uma mesa no terraço, uma garrafa de whisky em cima, um termo com chá, canecas, charuto, cinzeiro, aperitivos e um nepalês sentado ao lado tocando flauta. Ao redor, outros nepaleses faziam companhia. Achei aquilo cômico, como se o cara estivesse num barzinho na Europa (num café, como dizem por lá). Chamei Marcéu para dar uma olhada no surrealismo da cena.

 

Tudo isso se pasou em hora e meia, finda a qual fui perguntar da comida que nunca mais saia, só para descobrir que a mulher tinha esquecido! Estavam tão ocupados atendendo seus ricos clientes europeus que nos esqueceram! Inacreditável... mas pelo menos se sentiram mal por causa disso e nos compensaram com porções generosas quando finalmente a comida ficou pronta.

 

Amanhã vamos ao tão falado mosteiro budista de Thami e voltamos para Namche. Mas por agora almoçamos e ficamos por ali esperando dar a hora do jantar. É, comer era com a gente mesmo.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Bom, com isto postei os dias que estavam acumulados no micro. Para os próximos terei de escreve-los, nas poucas pausas que meu trabalho de proporciona. Tenham paciência.

 

[]'s

 

Hendrik

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Obrigado pelas palavras de incentivo, "suíço"!

 

Já deve ser a quinta vez que escuto a sugestão de escrever um livro sobre essa viagem... quem sabe, não é? acho que dos relatos que estou escrevndo dá prá tirar um rascunho e melhora-lo. Algo a se pensar.

 

[]'s

 

Hendrik

  • 2 semanas depois...
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12dthaminamchethamotengevaleno.jpg

Voltando do mosteiro que há em Thami, têm-se uma ótima visão do vale que segue até o passe Namgpa, fronteira com o Tibete. A vila abaixo é a Thami Teng.

 

Dia 12

 

Quando acordei, me dei conta que o trek fracassado de ontem ainda estava me perturbando. Parte de mim queria voltar lá e fazer o que eu, por estupidez, não fiz. Tudo por conta de um riachinho de 2 metros de largura, apesar de frio e forte. Foi meio frustrante não ter alcançado o sopé daquela montanha enorme por causa de um pouco de água gelada. Marcéu que queria ir mesmo, chegando a sugerir que voltássemos lá e tentássemos de novo. Mas após ter posto um bocado de comida no bucho e um pouco de bom senso na cabeça, achei melhor esquecer algo que não nos custaria menos que 4 horas, quando a ida de volta à Namche era hoje mesmo. Então convenci Marcéu a não irmos e só visitar o mosteiro budista que tem lá, o mais antigo da região pelo que ouvi dizer, e seguir prá Namche logo em seguida. A subida para o mosteiro e, depois, as subidas e descidas para Namche, me parecem mais que suficiente para atingir os níveis mais altos em meu ?tolerômetro? que controla meu estado de exaustão quando confrontado com essas particularidades recorrentes da trilhas no EBC. Adicionar mais cansaço hoje me parece beirar ao masoquismo, então deixa o sopé quieto que ele está muito bem onde se encontra.

 

Mas se ao menos tivesse conseguido cruzar o rio ontem... bom, quem sabe da próxima vez, quando e se houver uma próxima vez.

 

Tudo pronto e tudo pago, saímos da pensão. Não me canso de saborear a afável leveza da minha mochilinha de 22l. Andar daquele jeito até dá gosto.

 

Quando saímos, perguntei aos locais se era possível subir ao mosteiro sem ter de voltar até o início da vila para poder pegar a trilha. Como nossa pensão fica no fim da vila, queria ver se dali memso dava prá pegar a trilha prá cima. Disseram que sim, que era só ir até o sopé do morro e subir de lá. Dava até prá ver trilhas pequenas saindo dali.

 

Seguindo pelo caminho apontado, cruzamos algumas casas e quintais, chegando ao início da subida. Realmente partindo dali, diversas trilhas menores subiam o morro até se encontrarem com a trilha principal. Infelizmente havia uma cerca entre nós e essas trilhas menores. Tivemos de andar paralelos à essa cerca até onde ela acabava, para podermos pegar a trilha. Esse ponto se revelou à entrada da vila, justamente o que queria ter poupado desde o início.

 

Mas tudo bem. O tempo está bom, a mochila está leve e a paisagem é ótima. Até gostaria de dizer que, após chegar à trilha, a subi feliz da vida até a crista do morro, que leva ao mosteiro, mas eu NUNCA me senti feliz, em toda viagem, enquanto subia, tirando que fossem as escadas da pensão eté o quarto, que é sinônimo de fim do dia, que implica em muita comida e cama. Mas subir ladeira? Não... por mais romântico que os guias e livros digam que é caminhar no Nepal, suor escorrendo pros olhos, camisa empapada de suor, falta de ar, pernas e ombros doendo, mal cheiro do banho não tomado ou mal tomado, vento frio cortando a cara... nada disso me cheira a romantismo, tirando que eu fosse masoquista. Já no dia anterior tinha visto uma fila indiana de gente subido aquela ladeira bem devagarinho e estava nutrindo um sofrimento antecipado de quando fosse minha vez. Bom, agora era minha vez.

 

Fazer trek no Nepal é ter coloridos momentos de felicidade entremeados por longos momentos cinzas de mesmices. Acho que é por isso que tanto guia fala da importância do fator psicológico.

 

Então, depois do aborrecido subir, a crista se revelou valer aquilo e muito mais. Abaixo para o sul, tem uma bela visão de Thami e seu vale, com suas montanhas. Ao norte, tem o vale que vai para o passe que faz fronteira com o Tibete, vasto e com muitas montanhas também. Gokyo pode ser alcançado seguindo parte desse vale também. Pela frente, o caminho para o mosteiro, mais ou menos plano. Preferia ficar por ali, mas o ?bichinho do guia? me pegou e peguei estrada para o mosteiro, tal qual um bom comportado turista faria. A trilha plana e curta, cheia de gompas, chortens e pedras de oração, fizeram desses escassos minutos uma boa lembrança, no fim de tudo. O surreal que ocorreu foi que, ao passar por um muro de oração, do outro lado um tibetano para e fica a nos olhar. Parei e olhei para ele. Como grande parte dos tibetanos, ele levava sua bagagem num saco que levava aos ombros. Então ele pegou o saco e começa remexê-lo. Saírá um colar artesanal dali? Uma arma? Um coelho? Não... ele tira uma latinha de Coca-Cola de lá e pergunta se não queremos compra-la, baratinha.

 

Cara, a visão daquela latinha naquele lugar nas mãos de um tibetano me pareceu mais surreal que qualquer quadro de Dali. Só me faltava chegar ao mosteiro e descobrir que na verdade era um Mc Donalds. Quase sem voz, tamanho foi o choque, que quase não consigo articular a recusa.

 

Fugindo do homem da Coca-Cola, chegamos ao mosteiro. Ainda é cedo, então não há muita gente de pé nem turistas por ali, o que é melhor para mim. Andamos um pouco em volta e subimos ao templo, que ainda estava fechado. Algumas pessoas estão trabalhando na construção de uma casa nova, mas não são monges. Tudo é muito pacífico e tals, mas depressa me cansei daquilo. A crista era bem melhor, então sugeri ao Marcéu que nos fossemos. Ele concordou, mas queria pegar outro caminho. Ele não gosta muito de voltar pelos mesmos caminhos que vem, então queria ir em frente e ver se alguma trilha contornava o mosteiro e descia. Estiquei o pescoço sobre uma murada e não vi nada. Acho que temos de voltar por onde viemos. Mas ele insiste, desce umas escada e damos de cara com um monte de banheiro nepalês, buracos cheios de mer**. Quase que lhe digo que aquele era o caminho dele, mas não precisava pegar briga sete dias por semana.

 

De volta à crista, achei o vale que vai até o Tibete tão atraente que quase desço até ele, só para estar lá. Só que isso significaria subir na volta, ter mais uma canseira extra, então não fui. Me contentei a andar pela crista e tirar fotos. Andamos por toda extensão da crista, até onde essa começa a se desfazer para cair no rio. Não era muito seguro, mas era bem bonito.

 

Quando saímos de lá, vimos estar nas traseiras de Thami, onde há muitos curais de yaks. Depressa pegamos a trilha de volta à Namche. Claro que isso quer dizer descer até o rio e depois subir outra vez pelas encostas opostas, mas fui tranqüilo, devagar e tudo correu sem nada de mais. Marcéu voou na frente, como sempre. Como sempre, yaks e carregadores passam pelo caminho. No fim, um trek de aclimatização bastante agradável, algo altamente recomendável para se fazer antes de ir para Tengboche, que seria o oposto disso, embora eu não soubesse de tal na altura.

 

Quando cheguei à pensão, Marcéu estava lá, na porta, o que não é estranho. Mas me pareceu que ele estava me esperando, vigiando a trilha para ver quando eu chegava. Ele faz um sinal qualquer, que eu espero não ter sido com o dedo do meio. Não entendi nada do porque de tanta comoção, até conseguir decifrar o sinal: tinha as chaves do quarto no bolso.

 

Com aquele tesouro salvo no meu casaco, diminuí ainda mais o passo. Marcéu não achou tudo tão engraçado, mas eu achei, então se eu achei, que importa?

 

Chegamos bem a tempo do almoço em Namche, que foi em quantidade bastante generosa, como sempre, seguido de compras na ?rua? do comércio de Namche, uns e-mails e organização das coisas para amanhã. Tudo pronto, ficamos pela janela, a comer passas, queijo, biscoitos e a ver os turistas chegarem, com suas caras vermelhas e felizes. Um bom jantar e café-da-manhã já anotado e o dia estava fechado. Quero levantar cedo amanhã e começar a trilha antes do Sol ficar forte demais. A cama me recebe de braços abertos antes mesmo de estar escuro.

 

Alguns japoneses estão no refeitório falando bem alto. Voltaram agora do EBC, pelos vistos.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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13fnamchetengbochemarceutrilha.jpg

Marcéu na trilha para Tengboche, logo à saída de Namche.

 

Dia 13

 

Acordei por volta das cinco da manhã. Não dormi muito durante a noite, principalmente no seu início, pois os trekkers japoneses que estavam festejando no refeitório ontem a noite, estavam realmente felizes e comemorativos por terem feito o seu trek. Se a festa tivesse se limitado ao refeitório, tudo bem, mas com o passar das horas, ela começo a se alastrar pelo resto do alojamento e por fim subiu as escadas. Tal qual uma tsunami, ela arrasou corredores e quartos do andar de cima, onde eu tentava dormir. Marcéu é um homem santo e dormia o sono dos justos. Eu também não sou fácil de acordar, mas para isso preciso atravessar aquela frágil fronteira entre estar acordado e estar dormindo, ato este que nosso amigos japoneses não me deram tempo de perpetrar.

 

Assim, tive de aturar sei lá quanto tempo de gente andando pelos corredores, gritando alegremente umas para as outras enquanto pisavam vigorosamente no assoalho de madeira com suas incríveis botas de trekking. Em especial, duas japoneses se destacaram na balbúrdia. Uma tinha seu quarto ao lado do meu. A outra, no canto oposto, no fim do corredor. Essa então se dedica à sonora tarefa de ir e vir ao e do quarto da amiga até/do seu próprio quarto, gritando sei lá o que em japonês, mas com muito entusiasmo. A amiga, sentadinha no quarto ao lado do meu, respondia tudo com igual ânimo, enquanto revirava suas coisas, batendo na fina placa de compensado que separava minha orelha da tempestade de barulho.

 

Como qualquer ser humano normal, jurei vingança.

 

Então, como ia dizendo. Acordei às 5 da matina e o fiz de forma a ter absoluta certeza que nenhum japonês daquele alojamento, em especial minha querida vizinha, não ficassem alheios à isso. Como toda parte superior do alojamento é feita de finas placas de madeira, não foi muito difícil, após algumas pancadas e passos fortes pelo corredor, de ouvir gente acordando nos quartos, sinal que estava obtendo sucesso em minha tarefa. Mas pelo sim, pelo não, dava uma pancada na parede só para me certificar que ninguém voltava a cair no sono. Enquanto duraram meus preparativos, uns 30 minutos, fiquei muito feliz de ouvir que os meus queridos japoneses estavam bem acordados. Muito bem.

 

Tendo alcançado o primeiro objetivo do dia, fui tomar café-da-manhã. Era um super-café-da-manhã, que me deixou meio pesado, mas sabia o que estava pela frente e que iria precisar de toda aquela comida nas próximas horas de ladeira. Marcéu chegou pouco depois de eu ter começado e falei-lhe dos malditos japoneses barulhentos da noite anterior. Ele me olhou meio surpreso e disse que não ouviu nada! Vai ter sono pesado assim no... Nepal!

 

Por fim nos despedimos do simpático dono do alojamento e fomos para oq eu esperava ser onde o trek de verdade iria começar, com toneladas de montanhas para ver e tudo isso que li e vi nos livros e na Net. Achei que o pior tinha passado, que essa vida de subir e descer ladeira tinha acabado. Agora que estávamos em direção norte, era só seguir os vales e encostas no seu comprimento, sem ter de subir e desce-los constantemente, certo?

 

Errado.

 

A subida logo na saída de Namche era já esperada. Sabia disso desde que a tinha visto quando estávamos andando ao redor das encostas sobre Namche, dois dias antes. Mesmo assim era muito dura de se subir, muito íngreme. Agora sei porque aquele grupo que tinha visto na altura estava andando tão devagar. E eu que fiz pouco deles... agora era minha vez e não achava aquilo nada engraçado. Fora a subida abrupta, tinha o frio da manhã. Ainda era muito cedo e não havia sol para nos aquecer, então o vento frio que soprava pela encosta depressa me deixou com a cara e as mãos duras de frio. As mãos então, doíam de tanto frio. Tive de parar várias vezes para massageá-las e/ou tirar/pôr camadas de roupas, de acordo com o estar molhado de suor ou tremendo de frio. Algumas vezes, os dois ao mesmo tempo, com partes do corpo congeladas enquanto outras derretem por baixo de várias camadas de roupas. Devia ser duro prá Mercéu também, pois cheguei até a ultrapassá-lo na subida!

 

Após subir tudo e ter chegado ao mesmo lugar que dias antes tinha parado para ver as montanhas, tiver de fazer uma pausa porque não agüentava mais essa situação de cozinhar/congelar. Parei ali mesmo e me sentei, apreciando a vista de tirando fotos, esperando que meu corpo terminasse de distribuir seu calor de forma mais igualitária entre seus membros.

 

Marcéu chegou pouco depois de mim, descansou só uns cinco minutos e meteu pé na estrada. Quando enfim resolvi ir embora, ele já estava longe. O cara é incrível! Uma máquina de andar!

 

Então lá fui eu para o Everest View Hotel. O caminho é plano e reto, com subidas curtas e gentis. Então pensei que seria assim até chegar ao Campo Base do Evereste, apenas com umas eventuais subidas para pegar altitude, nada mais. Moleza.

 

No hotel, a trilha fica um pouco confusa, porque... desaparece. Tive que perguntar para uns caras que estavam lá, construindo alguma coisa, por onde deveria ir. Então tinha de ir em volta do hotel e descer. Fiquei com a impressão que o hotel ?comeu? a trilha, mas tudo bem. Fui em volta, passei uns banheiros e veio a descida para Khumjung, então... peraí... ?descida?? DESCIDA? Não sei porque, mas não gostei muito de como isso me soava. Qualquer descida no Nepal e fatalmente seguida de uma subida. É um tipo de Lei Universal, tipo Gravidade ou Termodinâmica: você simplesmente não tem como escapar delas. É melhor que essa ?descida? seja uma bem curta.

 

Realmente era. Acho que cheguei na vila de Khumjung em menos de 30 minutos. Havia uma trilha que continuava indo para baixo, para minha direita. Mas as trilhas melhores estavam em frente, seguindo para cima numa subida suave. Tremendo de medo, perguntei à um paisano sobre direções.

 

...

 

A Verdade é dura algumas vezes, mas é inescapável. Quase tendo um chilique, escuto que a trilha para Tengboche e a que segue pela direita e para baixo. Oh, grande Zeus... eu já tinha feito uns 30 minutos de descida. Quanto mais descer, mais terei de subir.Por favor, que essa descida não seja muita.

 

Mas os deuses estavam ocupados nesse dia.

 

Então desci.

 

E desci.

 

E desci.

 

Cruzei com alguns nepalêses subindo. Crianças indo para a escola, carregadores e algumas mulheres. Eles parecem estar muito cansados da subida, o que me deixa muito preocupado. Por que esses locais estão cansados? Eles não se cansam com facilidade. Até parece que vê subido desde longe... não me diga que... não, não pode ser... não seria justo. Já atingi minha meta de subidas. Eu mereço algum descanso, uma trilha fácil, umas férias! Uma porcaria de pausa nessa vida de yak!

 

Ouço crianças rindo atrás de mim, logo após ter passado por baixo de uns arbustos. Olhei para trás a fim de ver o que tinha de tão engraçado ao passar por baixo de arbustos. Então vi que uma de minhas cuecas tinha ficado presa nos galhos, arrancada da mochila onde estava pendurada a secar (ou gelar). Estava tremulando como uma bandeira. Minha bandeira. Como se isso não fosse vergonhoso o suficiente, era branca, o que quer dizer que era marrom, após dias de uso e mal lavadas, exibindo aos raios de sol daquele dia abençoado toda a glória das minhas condições digestivas dos últimos dias.

 

Dica do dia: NUNCA leve suas cuecas brancas para seu trek.

 

Retomando o trek, continuei descendo.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Parei. Estarei perdido? Deixa ver o guia LP... hum... não, não estou... mas então deveria estar pelo menos em Sanasa, vila onde o guia diz que as trilhas alta e baixa se encontram antes de virarem trilha única para Tengboche. Essa vila fica aindo no primeiro terço da caminhada e nada dela! Nada de Sanasa e essa descida condenada não mostra o menos sinal de estar no fim. Vou andar um pouco mais e ver e encontro com alguém que possa me dar indicações.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Ufa! Uma bifurcação! Até que enfim! A trilha para Tengboche TEM de ser a que segue para a esquerda, subindo. A da direita não pode ser, pois segue em direção à Namche. Não pode seguir em frente, pois continua descendo até os quintos dos infernos. Ah, uma placa. Já não era tempo de ver uma sinalização. Deixa eu ler o que está lá... hum... trilha da esquerda, subindo, vai para... Gokyo...

 

BWAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!

 

Deve ser o cansaço. Li mal. Vamos tentar outra vez. Trilha-da-esquerda-subindo-vai-para... Gokyo.

 

Gelei ali, olhando para a placa como alguém que tivesse acabado de ler sua sentença de morte, cuja aplicação seria imediata. Olhei em volta, olhei para a paisagem, para os pedregulhos, para a trilha poeirenta, para as árvores... Prestei atenção aos sons dos pássaros, do rio correndo no fundo do vale, do vento soprando... estava em choque. Esfreguei os olhos e olhei para a placa outra vez. Vai ver foi uma ilusão de ótica.

 

Não, não era...

 

Escutei gente chegando pela trilha da direita, que vem de Namche. Alguns carregadores, guias e seu grupo. Cumprimeteei-os e murmurei como se fosse uma súplica se eles sabia a direção para Tengboche. Disseram que iam para Gokyo.

 

Pegaram a trilha da esquerda, para cima.

 

Estou abismado. Tenho de fazer alguma matemática para entender isso tudo. Vamos ver:

 

a) Estou numa bifurcação

 

b) Tenho 4 possibilidades, desconsiderando que não fique maluco, me dispa e saia correndo e gritando pelas encostas dos morros.

 

c) Vim da trilha por trás de mim

 

d) Esse sobe, porém regressa para Khumjung

 

e) Tengboche não pode ser em direção à Khumjung. O guia fala claramente que fica na direção oposta. Também tenho certeza que não é para lá, pois estive lá e tenho certeza que não vi nenhuma Tengboche.

 

f) Fora isso, estaria na direção cardinal errada.

 

g) Restam três trilhas:

 

G1) A da esquerda, é para Gokyo. Algumas pessoas foram para lá, com guias e tudo.

G2) A da direita é para Namche. Essas pessoas vieram de lá.

G3) A da frente, que, por eliminação, é a única que sobra. Essa continua descendo.

 

Desconsiderando a possibilidade de sair voando dali ou de me enterrar na terra, respirei fundo e fui para baixo.

 

Por fim, Sanasa está perto. Posso ver alguns telhados entre as árvores, lá em baixo. Boas notícias, por fim. Sanasa é uma das três vilas que devo cruzar antes de Tengboche, portanto faltam-se ?só? mais duas.

 

Já em Sanasa, uma trilha segue para a esquerda, para cima. Quem sabe não será essa? Fui lá ver, feito um bichinho desesperançado. Não, aquela vai para Gokyo também. Porcaria de Gokyo! Odeio Gokyo! Continuo descendo... mrblmrbrlmb... discriminação... mrebmlremblmr... Todas a strilhas boas vão para Gokyo... mrelgmbrlemmgr... Gokyo, Gokyo... mreoplmfmrepdmb...

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Outra vila, cheia de trekkers. Eles estão felizes. Eu não estou nada feliz e farto dessa descida toda. Nem sequer olho duas vezes para a festa deles. Um cara me ultrapassa, à toda velocidade. Outro trekker independente. Ele parece em forma e determinado.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Brincadeira, né?

 

Desci.

 

Desci.

 

Desci.

 

Estou quase no fundo do vale! Devem estar de gozação!

 

Desci.

 

Desci.

 

E parei de descer. Cheguei ao fundão do vale e última terceira vila. Finalmente!

Na entrada de uma alojamento, há uma placa bem-humorada avisando que dali em diante são 3 horas de subida sem pontos de parada e que eles alugam cavalos. A mudança de direção é drasticamente feita. Cruzo uma pequena ponte a poucos metros do rio e dou de cara com uma subida absurda. As lembranças de namche e, cruz-credo, Deurali e Sete, voltam a me atormentar. Pego a subida e subo.

 

E subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia! Agora terei de fazer toda aquela maldita descida em sentido contrário. Vão ser pelo menos 4 horas nessa porcaria de subida. Estou fu**** e sei disso.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Gente vindo de cima e de baixo começa a me passar. Um, dois, três. Quem vem de cima não fala mais aquelas mentiras simpáticas que escutamos na subida de Namche, do tipo ?está quase lá?. A situação deve ser séria.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Três caras atrás de mim. Estão longe, mas se aproximando rapidamente.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Os três me apanham. São dois caras e uma mulher. Alpinistas, pela ferragem que levam nas costas. Estão cansados. Isso vai mal.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Alguns yaks. Os primeiros do dia. Breve muitos mais começam a aparecer pela trilha, descendo-a.

 

Como já disse, aprendi da pior forma que o melhor jeito de evitar essas bestas de carga é ficar do lado oposto por onde elas andam. Eles são mansos e tudo mais, mas parecem desconhecer completamente a noção de ?parar?. Mesmo quendo param, tipo que me assusta, pois ficam ali, olhando-nos com aqueles olhos grandes e melados, até que uma pedra certeira do tangedor os acerte no lombo. Ainda bem que a maioria tem sinos nos pescoços, então dá para ouvi-los muito antes de chegarem perto de nós, e temos tempo de achar um local seguro. Olho para cima e vejo os primeiros a aparecer. São muitos, pelos vistos. Pelas minhas contas, vamos nos encontrar num lugar onde a trilha bifurca, transformando-se numa trilha de mão-dupla. ?Corro? até a minha entrada da bifurcação e fico esperando ver qual das mãos os bichos vão escolher para descer. Claro, eles escolhem a parte mais fácil, deixando-me a parte mais difícil, perto do barranco, feita quase só de areia e mais íngreme. Amaldiçôo esses malditos animais e pego a parte da trilha que me tocou. No meio de tudo, a fila de yaks se quebra porque o yak do meio decidiu descer pela MINHA parte da trilha, trazendo atrás de si o resto dos yaks. Agora dancei, pensei logo. Metade dos yaks estão na trilha ao lado, um pouco acima da minha, e a outra metade vem em minha direção. Não dá para descer porque lá embaixo as trilhas se encontram. Portanto agora sou uma ilha cercada de yaks. Yaks na frente, yaks ao lado, yaks por trás... grito ?shazam!?, me transformo no Capitão Marvel e saio voando dali, para grande surpresa dos sherpas, trekkers e diabólicos yaks.

 

Voltando ao mundo real, apenas reuni todas minhas forças e me pendurei ingloriosamente nuns arbustos que estavam do lado do barranco até que os yaks passassem. Eles passam e um pelotão completo de trekkers e sherpas vem logo de seguida. Um dos guias me vê pendurado ali e oferece ajuda, para me puxar de volta à trilha. Digo que está tudo bem obrigado. Na verdade queria dizer que não precisava de ajuda. Precisava era que aquelas bestas fossem alinhadas contra um paredão e fuziladas uma por uma. Podia fazer isso? Não? Então desapareça.

 

Claro que não disse isso, mas o pensamento de yaks ensangüentados espalhados sob meus pés tipo que amenizou a raiva e orgulhos feridos por conta de ter de me pendurar feito um macaquinho para que suas majestades, os yaks, pudessem passar por AMBAS trilhas.

 

Então subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Sino! Escuto mais sino! Mais yaks! As minas! Tenho de enterrar minas por onde eles vão passar para que explodam ao pisa-las!

 

Quero dizer... tenho de achar um lugar seguro. Mas o sino vem muito rápido. Yaks de corrida? Será?

 

Então vem um sherpa montado num cavalo, descendo a todo galope pela ladeira. Estou boquiaberto. Que mais surpresas essa subida surreal me reservará?yaks voadores? Sherpas de moto? Não, só mais subida.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

...

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Subo.

 

Marcéu liga pelo walkie-talkie. Ele chegou lá! É de verdade! Tengboche existe! Um sorriso parece por entre a grossa camada de pó e suor que me cobre o rosto. Talvez mais umas duas horas e estou lá. São quase 11 e estou morrendo de fome. Deixamos Namche lá pelas 6. Quase 5 horas de caminhada direta, garnde parte dedicada à essa subida de poeira e yaks. Dava jeito uma parada agora. Uma bem longa.

 

Para minha surpresa, cheguei logo em Tengboche. Não se passou nem uma hora para chegar lá depois que Marcéu me ligou. Na subida, só umas 5 ou 6 pesoas me passaram, mas o lugar, que é pequeno, está cheio. Para minha infelicidade, cheio de grupos organizados. O dia está bonito, então há esperança deles ficarem do lado de fora.

 

Os preços são altos, muito altos. Não há alojamento com promoção ou qurto mais simples e barato. Tudo o mesmo. Sem problema. Só preciso sentar e tirar minhas botas para que meus pés podres e molhados possam respirar. Estou tão feliz de ter chegado que nem esquentei com os preços. O lugar é bonito. O mosteiro que tem lá, as vistas, a aglomeração de trekkers e escaladores... agora sim, parece mais que estou à caminho do EBC. Pedimos umas toneladas de comida e litros de chá, chá de limão. Me sinto jogando dinheiro fora hoje. Dia de festa!

 

Enquanto isso, ficamos olhando para os caras dos grupos organizados se posicionando ao sol. Eles todos parecem bem profissionais, com equipamento topo de linha. Achei que fossem escalar. Como? Não vão escalar? Vão até o EBC ou campo base do Ama Dablam? Só isso? Esse circo todo armado em volta para apenas isso? Que vergonha...

 

Chega a comida deles. Os sherpas que os servem colocam duas batatinhas nos seus pratos, uma fatia fina de queijo, um pedacinho de carne. Os caras comem vagarosamente. Botam meio garfo na boca e ficam mastigando aquilo para sempre. Então olham para o Ama Dablam por uns segundos, falam qualquer coisa uns pros outros por mais uns segundos e então botam outro meio garfo na boca.... e repetem tudo de novo. Quando sherpa-garçon vem perguntar se querem mais uma meia batatinha, fazem cara de fastio e recusam.

 

Estou... sem palavras... que zorra é essa??? essa gente existe de verdade???

 

Nossa comida chega. Dhal Bath, claro. Trazem garfos. Mandamos voltar os garfos, esses utensílios inúteis, e trazerem colheres de sopa. Nos próximos 5 minutos, Marcéu e eu protagonizamos o mais significativo espetáculo de como se massacrar um dhal. Homens-das-cavernas em ação. O repeteco chega logo em seguida, mas nossos pratos já estão vazios, então o repeteco é de prato cheio, outra vez. O Massacre do Dhal II. Eles acham que podem nos enganar, mas aprendemos depressa. Antes, comíamos o primeiro prato tranquilamente, então quando traziam o repeteco nossos pratos ainda estavam pelo menos pela metade, então não repetíamos muito. Agora que já sabíamos como o sistema funcionava, comíamos o primeiro prato bem depressa e quando o repeteco chegava, já podiam enche-los outra vez. Não é fácil engolir tudo aquilo rapidamente, mas com algum treino chega-se lá. Nossos sistemas digestivos não estavam lá muito felizes com isso, mas, pó, é uma guerra que vai lá fora. Há que ser forte.

 

Acabamos os dois pratos de dhal antes que os caras lá fora terminassem suas meias batatinhas. Hora de dar uma caminhada digestiva em volta de tengboche, ver o que o local tem a oferecer como treks de aclimatização. Como disse, Tengboche é pequena, então cedo a caminhada acabou e tratamos de achar um lugarzinho tranqüilo e afastado para podermos aproveitar o sol e descansar em paz.

 

Por volta das 16h, voltamos ao alojamento. Todas as barracas dos intérpritos aventureiros estão armadas. Não sei para que essa gente dorme em barraca havendo tanto quarto disponível nos alojamentos. Parecem crianças brincando de acampar no quintal de casa, imaginando que estão fazendo alguma grande aventura.

 

Bah... isso não importa. Nosso alojamento não está tão cheio assim e nos preparamos para o jantar. Marcéu vai escrever, eu vou ler. Depois vamos jogar cartas. Quero dizer, eu vou perder nas cartas e ele vai ganhar. A comida chega, com colheres. Mais uma pequena demonstração para os outros do que é comer de verdade e o dia está terminado. Hora do saco-de-dormir.

 

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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