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Fala, pessoal.

Fiz no começo dessa semana mais um review no canal. Desta vez foi da faca Petzl Spatha, uma faca dedicada aos escaladores, montanhistas e profissionais de verticalidade. 

Espero que gostem, os interessados!

 

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    • Por Yagê
      Boa Tarde.
      Em cima da hora um amigo meu me convidou e as pressas embarcamos com interesse em fazer a trilha e escalarmos o Pico das Agulhas Negras.
      Antes, entramos no site do Parque do Itatiaia, que faz a guarda da portaria de entrada, e imprimimos a ficha para acessar ao parque. O processo é sempre assim: Leva-se a ficha impressa (em anexo) ou preenche-se lá a ficha para dar entrada no parque.
      Recomendo muito mesmo que chegue bem cedo, por volta das 6 da manhã, pois a liberação se dá por ordem de chegada, tanto para entrar no parque quanto para estacionar dentro (caso contrário terá que andar em média 3KM a mais).
      Todo o caminho foi muito lindo e cansativo, e cada parada para descansar valia muito pelo visual deslumbrante do Pico das Agulhas negras e adjacências. Levamos cerca de 4 horas para fazer todo o trajeto, em um ritmo baixo.
      O que não sabíamos, pois nenhum relato diz sobre é preciso alguns conhecimentos de escalada e apresentar o equipamento básico pra entrar no Parque. 
      Descobri isso num dia anterior no hostel e então procurei um guia para nos ajudar. Demos sorte de encontrar o Ivan (35) 99271676.
      Esta é uma informação que considero crucial. Se você não tem muita experiência com escalada PRECISA contratar um guia. Durante todo trajeto vimos diversas pessoas se arriscando, por falta de orientação e/ou por abuso mesmo. A subida é íngreme e não é raro ficar próximo a desfiladeiros altos, o que pode ser muito perigoso e qualquer erro pode ter consequencias bem sérias. Vi algumas crianças na trilha e eu não recomendo devido aos riscos, mas é algo pessoal e cada pai sabe o que é melhor...
      Segue abaixo o contato do Ivan, muito legal e prestativo mas, o mais importante, um cara extremamente experiente em escalada e que leva a segurança dos clientes ao extremo. Usa corda dupla com nós muito firmes e sempre fica "na cola" da gente em todas as situações que envolviam qualquer risco:
      Ivan (Guia turístico do Pico das Agulhas Negras):
      (35)99271676 - atende por WhatsApp
      Valeu muito a pena mesmo e espero voltar mais vezes!
       
      Ficha_de_Controle__de_Visitante_2018.pdf
    • Por divanei
      ATENÇÃO: o MRCA( Ministério dos Relatos e Contos de Aventura) adverte: Esse relato contém palavrões e palavras chulas que afrontam a dignidade da nova família tradicional Brasileira.                                    
                                                                                                                                                  VIA SOLARIS
      .....................O tempo fechou, trovões e relâmpagos espocavam na serra a nossa frente, a chuva que estava prometida, realmente começou a dar as caras e aquilo que parecia estar ruim, se transformou num pesadelo impensável. Mal ouvia mais a voz do meu companheiro de escalada. Minha alma saiu do corpo e voo para bem longe daquela parede, acho que ela se recusava a ver a desgraça que poderia acontecer. Meu cérebro e minha perna já pareciam não querer mais se comunicar e não, eu não estava com o cu na mão, simplesmente meu cu já havia caído da bunda. Minha cabeça deu uma rodada, as pernas mal se sustentavam naquele minúsculo buraco. Eu já via a cena de um helicóptero tentando me salvar, vergonha, vexame, mas ainda era melhor que umas dezenas de ossos fraturados, mas mesmo assim eu nem sabia se tinha sinal de celular para pelo menos avisar algum escalador ali das redondezas que pudesse me ajudar, muito porque, o próprio Alexandre estava preso na parada mais abaixo, sem corda pra descer.................

                
                Já escalei montanhas épicas nesse país, entre elas, o Dedo de Deus, Agulha do Diabo, Baú, Ana Chata dentre outras, mas nunca me considerei um escalador de verdade, sempre fui o carregador de cordas, o cara que completa o grupo, porque pra mim , escalador de verdade mesmo é o cara que guia as vias, ou seja, o cara que vai à frente, que se arisca até o ultimo limite para levar a corda da escalada. Engraçado que quando começei , era o cara que se ariscava a  guiar as esportivas, mas com o tempo fui deixando de me dedicar e vi os amigos que começaram comigo deslanchar e virarem escaladores profissionais.
                Confesso que escalada esportiva depois de um tempo acabou por se tornar algo enfadonho para mim, mesmo sabendo que é ali nas paredes, pedreiras que se cresce e que se ganha experiência para enfrentar grandes escaladas clássicas, mas mesmo assim, pouco frequentava as tais esportivas nos últimos anos, mas quando alguém soprava um convite para uma escalada tradicional, não conseguia resistir, mas também já sabiam que eu era sempre o cara que seria um mero “segui”, ou seja, o cara que vai sempre na cola dos mais experientes e isso nunca me aborreceu, porque ia mesmo pela paisagem , pelos velhos amigos e por tudo que envolve essas escaladas clássicas .
                Já sabendo disso, Alexandre Alves, que sempre gostou de guiar mesmo, nos convidou para uma Clássica em Andradas-MG e passou na minha casa na boca da noite e a viagem foi rápida até tropeçarmos no Abrigo Bramido do Elefante, onde fomos recebidos pelo Tadeu que nos entregou as chaves, já que éramos os únicos escaladores naquele fim de semana. No outro dia estávamos em pé as sete da manhã, organizamos tudo e nos pomos a caminhar na estradinha no rumo leste, meio que paralelo a cadeia de montanhas que hospeda entre outras , a Pedra do elefante, mas nosso objetivo era a Pedra do Boi, um monólito pouco frequentado pela comunidade de escaladores. Um quilometro depois, adentramos a direita numa porteira meio troncha, exatamente a porteira logo depois da casa do próprio Tadeu, que exibe uma minúscula plaquinha anunciando a venda de mel.
                Adentrando a porteira, que pulamos, vamos caminhar por mais uns 500 m na estradinha, talvez um pouco menos, até interceptar uma trilha de pasto que vai descer até um riacho com aguas paradas, varamos mais uns 100 m de pasto até pularmos uma cerca de um cafezal novinho. Não há caminho, tivemos que atravessar o cafezal pór dentro dele, tomando cuidado para não derrubar as flores da plantação. Depois pulamos mais uma cerca e vamos adentrar em outro cafezal mais velho e ao chegarmos à cerca do outro lado, vamos nos manter do seu lado direito. O caminho é meio confuso, mas a Pedra do Boi está ali na nossa cara e é preciso ir meio que pelo rumo, seguindo as trilhas que se dirigem para aquela direção, que agora é sentido sul. Chega uma hora que a trilha acaba na mata e vira uma picada, as vezes sinalizada com uma tinta vermelha, outras vezes com uma argola de pvc. Tem que ir tendo faro de trilha mesmo e 2,7 km depois do abrigo batemos de frente com a pedra do Boi e aí é hora de caçar a via de escalada.

                Temos sempre que agradecer esses bravos escaladores que se dedicam a abrir essas vias, gastam tempo e dinheiro e não recebem nada em troca, mas sempre achei que falta uma identificação dessas vias, porque não é fácil localizar uma linha de escalada, ainda mais sendo em móvel. Bom, o certo é que achamos a VIA SOLARIS e nos pés dela um totem de pedra ajuda um pouco a saber que estamos no lugar certo.
                De novo, mais uma vez, tenho que dizer que por não ser um escalador de verdade, não tenho a intenção de ficar narrando procedimentos técnicos, vou me ater as dificuldades da pessoa humana, as emoções envolvidas nessa escalada, mas erros, acertos e uma série de outros fatores não serão descritos aqui, isso é mais um relato descontraído do que um guia para escalar essa via.
                
                A via SOLARIS tem 225 metros de extensão, é graduada como lV /V Sup (E 3), uma incógnita para quem não é do esporte, mas mesmo eu conhecendo um pouco dessas siglas todas, nem me preocupei em olhar esse croqui, muito porque, eu estava despreocupado e confortável, já que eu não ia guiar nada mesmo. Achando a sequência da via, o Alexandre deu início aos trabalhos, escalando essa primeira enfiada (lance) todo com equipamentos móveis, ou seja, aqueles equipamentos que você enfia nas fendas para passar a corda. O Alexandre é mesmo um rato de escalada, fez malabarismo, passou a fenda, virou à direita, entrou na chaminé e já estacionou na parada, 45 metros depois. Me clipei à corda e ganhei a parede inicial, ainda frio, dei uma titubeada, mas logo também entrei na fenda, mas na hora da transição da esquerda para direita, não achei mão para me agarrar e dei uma travada, mas como estava de segundo, tive calma e tranquilidade para tentar um salto mais arrojado e agarrar um patacão mais acima e ganhei o lance mais difícil e sem saber a sequência da via tentei escalar uma parede íngreme, mas logo o Alexandre me alertou que tinha que seguir fazendo a travessia para a direita até ganhar a chaminé, mas eu já estava todo lascado , pendurado na parede e tive que escorregar de volta para a sequência da via , mas ganhando também essa chaminé de meio corpo, o resto até me juntar ao Alexandre foi  como mamar na teta da vaca.

                O segundo lance é graduado em V sup e tem 30 metros de extensão e também foi subido sem nenhum problema, passando por outra canaleta, com bons pontos de aderência, tudo conforme manda o figurino. Ao chegarmos na parada, resolvemos nos deter por um tempo para tomarmos um suco e descansarmos um pouco.
       

                O Alexandre partiu para o terceiro lance, e logo é possível ver uma chapeleta bem acima das nossas cabeças, não muito longe, mas é necessário sair um pouco para a direita para ganha uma altura. O Alexandre tentou mandar, fez de tudo, mas desescalou novamente. Fiquei ali observando os movimentos, dando o segue atentamente, tudo nos conformes. Mais uma tentativa e o Alexandre voltou a falhar. Não era nada de mais, só que uma queda faria um pendulo potencialmente perigoso, por isso o cuidado com esse lance. Pela terceira vez o Alexandre tentou , mas as pernas grandes pareciam tocar a paredinha e não o deixava progredir, então com a perna bombada e os pés sendo carcomidos pela sapatilha, ele voltou até a parada e pediu para que eu tentasse.
               - Divanei, vai, tenta lá, você é menor e mais leve, talvez passe fácil.
               - Alexandre meu velho, melhor não, não tenho condições psicológicas para guiar.
               - Vai lá mano, sem compromisso, dá uma tentada lá, até que eu descanso.
                Meio contrariado, mas também não querendo deixar o companheiro na mão, me clipei a corda e ganhei altitude. Analisei bem o lance: Havia uma nervura que se entendia na diagonal até mais acima e se eu conseguisse galgar essa nervura, logo acima dela, um cristal bem grande poderia me dar sustentação para alcançar a chapeleta. Na pratica eu havia ganhado o lance com os olhos, havia montado um mapa de ação na minha cabeça, mas a realidade era bem outra. Dei o primeiro bote, ganhei a nervura para a esquerda, mas cadê a coragem para prosseguir. Desescalei enquanto ainda podia.
                -Alexandre, não vou não, está muito exposto para mim.
               -Divanei, que isso cara, tenta aí, vai, você consegue sim, já está aí mesmo, ganha logo o lance meu.
                Mais uma vez joguei minha mão encima da ranhura e não tive coragem de prosseguir. Maldito medo dos infernos e o pior é que o lance era mesmo fácil para mim.
                -Alexandre, infelizmente meu amigo, minha condição psicológica não vai dar.
                -Bobagem Diva, toca aí mano!
                Confesso, fiquei pressionado e com vergonha e com medo do Alexandre simplesmente encerrar a escalada e descer. Não que isso fosse um problema, se fosse preciso, desceríamos sem neura nenhuma, mas também me sentiria responsável por não pelo menos, me expor a esse lance. Botei a faca nos dentes, esperei a adrenalina chegar e subi gritando, feito um maluco descontrolado, tentando espantar o medo. Ganhei a ranhura e progredi rapidamente, cravando as unhas nas aderências, nem me lembro se usei os pés, estava adrenado e quando cheguei perto do grande cristal acima das nervuras, dei um salto e o agarrei como quem agarra um prato de comida. Me pus de pé e ganhei a chapeleta, passei a costura, cerrei os punhos e comemorei como um gol, minha parte naquela escalada estava feita, agora era com o Alexandre.
                  -Porra Divanei, caraca aí, mandou muito bem!
                  -Mano, agora me desse de vagarinho, o resto é com você, para mim já foi o bastante.
                  -Não Diva, toca o resto, você foi bem pra caralho.
             -Bom Alexandre, o lance seguinte não parece ser difícil não, mas eu estou com a adrenalina um pouco alta, não estou confiante, mas posso tentar pelo menos até a próxima chapa.
                O Alexandre me liberou a corda e colei o corpo na rocha, sapatilha agarrada em qualquer pedrinha e as unhas cravadas em ranhuras minúsculas. Sempre disse que me sentia bem em escalada de aderência, sempre tive certa facilidade e ali realmente era uma subida de boa tecnicamente, mas psicologicamente eu começava a definhar cada vez mais e já não sabia onde aquela loucura iria parar. Quando ganhei mais essa chapeleta, já estava com o moral em frangalhos e o pior, agora eu não tinha mais o apoio psicológico do Alexandre que havia sumido do meu raio de ação e as conversas eram aos gritos.
                  -Cheguei Alexandre!
                  -Bom mano! E aí como é o próximo lance?
                -Cara, eu estou extremamente nervoso, esses esticões estão me deixando pirado já, se eu puder descer seria bom.
                -Diva toca o pau, você tá indo muito bem, não tem cabimento descer agora, vamos nos encontrar na parada.
                Olhava para cima e as distancias entre as chapeletas estavam cada vez maior, tanto que eu nem consegui enxergar a próxima. Não sei, foi um impulso, coisa sem pensar, mas maldita hora quando abandonei aquela proteção onde eu havia me ancorado momentaneamente para descansar. A sequência da escalada continuava sendo fácil pra mim, tão fácil que acelerei muito e sem pensar, já me ví um quilometro da chapeleta que havia passado. O único problema era que não conseguia ver a próxima chapeleta e foi nessa hora que me dei conta da encrenca em que havia me metido. 
                  -Alexandre, pelo amor de Deus cara, conversa comigo, vê pra mim onde estaria a próxima chapeleta ou parada dessa via?
                      -Divanei, é para ter mais uma chapeleta antes da parada, procura direito cara!
                -Meu amigo, você não está entendendo a situação, eu estou parado no meio do caminho, sem poder me segurar em nada, com um pé apoiado em um buraco abaulado com 20 cm e na iminência de despencar. Eu preciso ter certeza que ainda não passei da parada, porque se isso aconteceu eu vou me fuder todo e não vai sobrar um osso inteiro do meu corpo para contar história nessa porra.
                  O tempo fechou, trovões e relâmpagos espocavam na serra a nossa frente, a chuva que estava prometida, realmente começou a dar as caras e aquilo que parecia estar ruim, se transformou num pesadelo impensável. Mal ouvia mais a voz do meu companheiro de escalada. Minha alma saiu do corpo e voo para bem longe daquela parede, acho que ela se recusava a ver a desgraça que poderia acontecer. Meu cérebro e minha perna já pareciam não querer mais se comunicar e não, eu não estava com o cu na mão, simplesmente meu cu já havia caído da bunda. Minha cabeça deu uma rodada, as pernas mal se sustentavam naquele minúsculo buraco. Eu já via a cena de um helicóptero tentando me salvar, vergonha, vexame, mas ainda era melhor que umas dezenas de ossos fraturados, mas mesmo assim eu nem sabia se tinha sinal de celular para pelo menos avisar algum escalador ali das redondezas que pudesse me ajudar, muito porque, o próprio Alexandre estava preso na parada mais abaixo, sem corda pra descer.
                -Fala comigo Alexandre!
                -Divanei, você tem que escalar, a chuva tá chegando.
               -Alexandre, estou vendo algo que parece ser uma chapeleta, mas também pode não ser e se não for, é o meu fim. É um estirão do demônio, a escalada parece fácil, mas psicologicamente já tô morto.
                -Cara, olha bem, deve ser a tal chapeleta, só pode ser, só se você já passou.
               Eu estava com uma espécie de lombada na vertical, que corria por uns 3 ou 4 metros. Aparentemente não haveria problemas em fazer esse lance, mas onde diabos estaria essa tal chapeleta? E onde seria essa tal parada com duas chapeletas paralelas? Foi quando de repente achei que teria avistado essa parada bem acima da tal chapeleta que eu pensava existir.
                -Alexandre meu velho, parece que avistei uma parada uns 2 m a direita da linha da via, uns 15 m de altura, seria essa?
                -Não Divanei, aqui no croqui essa parada é bem para a esquerda.
                -Puta que o pariu Alexandre, aí então fudeu cara, vê direito meu, eu tô cai mas não cai aqui e já estou no limite do que um ser humano pode aguentar no quesito medo.
               - Certeza absoluta, no croqui a parada está totalmente a esquerda, numa curva, procura aí meu amigo, não é possível que vc tenha passado por ela sem ver.
             Não, não havia nenhuma parada a esquerda e agora eu tinha que me apegar na possibilidade de que a chapeleta estava na minha mira mesmo, muito porque, meu corpo já estava inundado por um caminhão pipa de adrenalina. Bateu a cegueira, vou cair. Lancei minha mão acima e agarrei uma rachadura, não havia mais o que esperar, o que fazer e o desespero é que move o homem na sua luta, é o estágio final antes que ele se dê por vencido. Tremendo feito vara verde, colei a cara na rocha, minhas mãos viraram ventosas e minhas unhas eram agarras de falcão e eu agora já não era mais um homem, era quase um calango, uma lagartixa a se esgueirar parede acima, me segurando na vontade de não cair, só pensava nisso, não cair. – Não cai Divanei, não cai ! Repetia insistentemente, enquanto torcia para que acima da minha cabeça aparecesse logo essa chapeleta e quando minha mão tocou aquela minúscula tabua de salvação, feita de aço ou sei lá de mais o que, clipei o mosquetão da costura, passei a corda e gritei bem alto: 
                - Caralho Alexandre, estou salvo, cheguei, mas essa foi por pouco.
                - Aí, boa Divanei!
               Meu estômago já havia sido corroído pelo suco gástrico do nervosismo. Eu estava a salvo, ali eu não caia mais e dali também não iria para lugar nenhum, ali era o fim da linha, só pensava em descer, sair dali o mais rápido possível.
                -Alexandre, vou desescalar devagarinho, sei que não é o certo, mas nas condições em que me encontro, não consigo mais prosseguir cheguei ao fim, não tenho condições psicológicas para mais nada, cheguei onde poderia chegar. 
              -Não Divanei, não tem como você descer mais não cara, tem que ir até a parada e me puxar.
                -Meu irmão, eu não achei essa parada que está à esquerda, só estou vendo um par de duas chapeletas a minha direita e até lá é um estirão de uns 10 metros.
                -Caralho Diva, só deve ter uns 7 ou 8 metros de corda, aí fudeu, mas fudeu de verdade.
               - Alexandre, mesmo que eu esteja fazendo a conta errado e realmente a corda dê, pode ser que esse lance esteja acima da minha capacidade de escalar e se eu chegar lá encima e não conseguir passar, vou cair de uma altura desgraçada, não cara, estou fora, me desce por favor.

                -Puta que o pariu, você não está entendendo, não existe mais corda para você descer, você já usou mais de 50 m, descer não é mais possível, mesmo que contrariássemos todas as regras da escalada.
                Mas eu estava maluco mesmo, claro que o Alexandre estava certo, meu cérebro estava impossibilitado de pensar direito, tinha me esquecido desse detalhe, já havia subido tanto que a corda já tinha quase chegado ao fim e não havia outra escolha. Pedi para o Alexandre me dar um tempo, sentei-me um pouco perto da parada, tomei um pouco de água, minha cabeça estava confusa pela situação: E se a corda não desce até a parada? E se eu ficasse preso no fim do lance e não conseguisse mais escalar? Um turbilhão de coisas me passou, mas quando o céu começou a ficar preto encima da gente, aí tive que sair da inércia em que me encontrava.
                -Divanei você precisa escalar meu amigo, tem que ir, tem que ir logo, a chuva, a chuva.
                -Não vou, não vou e não vou, não vou porra nenhuma!
               Fiquei amuado, sentado lá, cabeça baixa, as vezes com o olhar perdido no horizonte, sem nem ligar para os gritos do Alexandre que vinham lá de baixo. Eu era o fracasso em pessoa, porque fui aceitar o desafio sabendo que estava acima da minha capacidade? Era um homem atormentado pela situação, um escalador de merda vencido pela minha própria incompetência, não técnica, mas psicológica.
                -Vamos Divanei, tem que escalar, tem que ir.
                -Divanei do céu, e aí vai ou não vai?
                - Libera corda Alexandre!
                -Você vai fazer o que?
                - Caralho, libera essa corda agora!
              Cerrei os dentes, como uma fera raivosa! Olhar fixo, fiz parar a respiração e os batimentos cardíacos para não abalar os movimentos. O mundo já não mais existia, agora era só eu contra aquela parede rochosa. Subi meu pé direito um meio metro, ganhei uma lasca de pedra e com a mão direita me puxei para cima e descolei do meu porto seguro. Um cristalzinho agarrado de cada vez, uma pisada certeira num grão de areia colado na rocha. Pensava em não cair nunca, enquanto abria uma perna feito uma bailarina arrombada. Quando não tinham agarras, eu colava meus pés e minhas mãos na rocha e ia me elevando centímetro a centímetro. Fui-me então! A concentração deixando qualquer Budista no chinelo. A corda já pesada, fazia um arrasto monstro e tentava a todo momento me derrubar da parede. Substancias inundavam meu corpo, como poucas vezes havia acontecido. Três dias se passaram antes que eu batesse a mão nas duas chapeletas da parada, ganhei o lance em definitivo, coloquei a costura, passei a corda, gritei um palavrão dos mais cabeludos que existem. Eu era um home aliviado, renascido das cinzas e quando o coração voltou a bater, fiz o Alexandre Saber da conquista.
                -Cheguei Caralho! Cheguei nessa porra, Alexandre!
                - Puta merda, boa Divanei, você sabe como monta os freios para me subir né?
                -Aprendi no You Tube, seu filho da puta!
                -Não ouvi, você falou o que?
                - Nada Alexandre, nada, vou montar o ATC para te puxar, rsrsrsrsrsrs.

              Montei a parada com o que tinha disponível, instalei o freio e fiz subir o Alexandre. Apesar de todo o perrengue passado, a gente fez piadinhas para descontrair. Dei segue para o Alexandre fazer a próxima enfiada e quando ele me puxou, me ofereceu o próximo lance para que eu guiasse até o cume. Para quem já tinha abraçado o capeta, visto a vó na curva, guiar esse finalzinho fácil até o cume, foi mamão com açúcar. Guiei com os pés nas costas e ancorei a parada numa árvore, já bem distante da beirada da parede e imediatamente subi o Alexandre e aí foi aquela comemoração, muito porque para nossa sorte, terminamos a escalada sem que a chuva desabasse na nossa cabeça no meio da parede, mas pra lavar a alma, assim que enrolamos a corda, ela desabou em cântaros e para nos proteger, nos enfiamos numa pequena gruta e ali ficamos, extasiados com a aventura vivida.
       
       

              A chuva caiu por uma meia hora e levantamos a possibilidade de voltar por trilha, mas assim que o sol surgiu novamente, interceptamos a linha de rapel, que não é descendo pela via Solaris e sim bem a esquerda dela, uns 30 metros ou mais, já quase fora da parede de escalada, mas não tem erro, está abaixo de um arvoredo, duas chapeletas bem expostas. Mas é mesmo um rapel enfadonho para quem trouxe apenas uma corda e serão precisos uns 5 lances para se chegar ao chão e quando lá chegamos, não perdemos tempo, guardamos nossos equipamentos e nos enfiamos na matinha até sairmos de novo nos sítios mais abaixo da Pedra do Boi e uma hora de caminhada depois estávamos de volta ao Abrigo.

       
              E qual a lição que tiramos dessa aventura? Primeiro que nunca devemos confiar cegamente em croquis de escalada: Poderia parecer só uma bobagem, mas realmente não é, uma informação errada para quem não está tarimbado ainda, pode levar a um acidente grave. Outra coisa que eu aprendi na pratica e que nunca tinha dado valor, é a leitura e a interpretação da linha de escalada, mesmo que eu não tenha intenção de guiar. Aprendi na pratica o que seria um (E 3), no meu caso foi aquele ditado: “ Não sabia que era uma exposição do caralho, o trouxa foi lá e fez” (rsrsrsrsrs).  E3 – Proteção “regular” com trechos expostos que oferecem perigos, onde em certas partes a distância entre as proteções exigem alto grau técnico e concentração do escalador. No caso de uma queda pode haver contusões sérias e até fraturas em casos extremos.
                Por certo passei um perrengue nessa escalada, mas pude constatar que tecnicamente tenho condições de me sair bem dessas enrascadas, basta treinar a parte psicológica e para isso não há o que fazer, é treinamento, muito treinamento. Agradeço ao Alexandre por ter confiado em mim e ao me dar a honra de se fuder nessa enfiada do demônio, fez com que eu crescesse um degrau no esporte e mesmo que eu continue a não levar muito a sério, com certeza a experiência vai me servir para os outros ESPORTES DE AVENTURA.
                                                                                                              Divanei- outubro/2019

    • Por divanei
      PEDRA DA BORACÉIA
                É na escuridão de uma noite fria de inverno que avançamos lentamente rumo a lugar nenhum. Nossa referência não passa de um ponto distante que miramos para fora da floresta, que nos faz esgueirar entre moitas e moitas de bambuzinhos espinhudos, onde provavelmente jararacuçus nos espreitam assustadas com tal ousadia. Não são nossas pernas que nos carregam, mas nossa vontade de escapar inteiros de uma das maiores aventuras dos últimos tempos e a maioria de nós apenas se arrasta, deixando que a resiliência comande nossos passos e que a luz das nossas lanternas e o céu qualhado de estrelas nos leve à civilização.

         ( Rafael, Júlio , Vagner , Luciano , Potenza , Régis , Trovo e Divanei . )
                A PEDRA DA BORACÉIA talvez seja dentre as montanhas da Serra do Mar de São Paulo, uma das mais isoladas, não só por estar em uma área de acesso restrito, mas também por se situar em uma parte em que a serra acaba se distanciando do mar, sendo guardada por terras indígenas em meio a florestas quase que intransponíveis com paredões abruptos de centenas de metros. Na carta topográfica consta como PEDRA QUEIMADA e independente de qual seja o verdadeiro nome, alcançar seu cume é estar mais de 100 metros acima do Corcovado de Ubatuba, outro ícone do litoral paulista.

               Por mais de uma década sonhávamos em conquista-la, mas conseguir as tais autorizações junto à SABESP (Companhia de Águas Paulista) ficava cada vez mais impossível e seria mesmo uma mão na roda porque era a oportunidade de avançar até a pedra por barco, navegando pela Represa do Ribeirão do Campo até a tal Cachoeira da Escada e de lá partir varando mato por umas cinco horas até o cume. Até tentamos por intermédio do Luciano Carvalho, que por lá esteve, perguntando sobre essa tal autorização, mas recebeu um não na fuça e a alegação era que o grande reservatório estava agora infestado de jacarés do papo amarelo.
                Diante da situação apresentada, nos restava apenas tentar angariar informações de alguns raros aventureiros que conseguiram ascender a pedra por trilhas e picadas de mateiros, palmiteiros e caçadores, portanto, ao invés de ir por água, ir tudo por terra. Alguns desses antigos exploradores nem se deram ao trabalho de nos responder, outros responderam com desdenho, alguns até que foram prestativos, mas suas informações foram tão genéricas que era impossível absorver algo. Na verdade, o que queríamos mesmo era um traklog, já que sabíamos que alguns detinham o caminho marcado no GPS, mas esses caras nos enrolaram, como a nos dizer: “ Querem conquistar aquela montanha, se virem, deem seus pulos “.
                Cansamos de esperar pela boa vontade de alguém, mandamos todo mundo a merda e decidimos que se fosse para conquistar  a Boracéia, faríamos isso com nossos proprios esforços, iríamos traçar um novo caminho, uma rota inédita até o cume, nem que essa rota gastasse o dobro do tempo.
                Eu e o Vagner nos debruçamos sobre mapas de satélite e cartas topográficas, buscando informações que nos levasse a um ponto de partida. Encontramos a pouco mais de 5 km em linha reta a leste da Barragem da SABESP, um atrativo turístico conhecido por POÇO BONITO, localizado no Rio Claro, sendo que uma trilha de uns 6 km poderia facilmente nos levar até ele no meio da densa floresta. Acima do Poço Bonito, uma cachoeira marcaria a nossa despedida do Rio Claro.  Esmiuçando a carta topográfica vimos que um grande corredor plano, como se fosse um vale subindo levemente, poderia nos conduzir ao sul até uma grande linha de transmissão de energia e de lá faríamos a curva para oeste novamente, seguindo até perto da base da Boracéia, na teoria poderia dar certo, um plano estava traçado.

                Traçado o plano, o roteiro e a estratégia, faltava formar o grupo, alguém que comprasse o projeto, mesmo sabendo que poderia ser a maior furada dos infernos. No início praticamente todo mundo fez cara de paisagem, os convites foram sendo negado e alguns exploradores, parceiros nossos das antigas, apenas se mantiveram em silêncio, outros estavam as voltas com compromissos familiares, trabalho e até mudanças e acabamos ficando com 3 integrantes confirmados, além de mim e do Vagner, o Rafael era o outro que desde o começo garantiu seu rabo na expedição. O certo é que joguei uns 10 nomes no grupo de WhatsApp e quando jogamos as cartas sobre a mesa, a maioria da galera tomou ciência da ousadia da Expedição, sabiam eles que seria uma oportunidade única e um a um foram saindo do armário, aniversário de parente, mudança de casa, trabalho, mudança de sexo, tudo foi se perdendo pelo caminho e a Expedição à Pedra da Boracéia ganhou força e corpo.
                No mapa estava tudo pronto, faltava agora ir lá nos cafundós de Salesópolis investigar essa tal trilha até o poço Bonito. O Vagner, o Trovo e o Rafa se prontificaram e coube a eles esse trabalho importante de investigação, aliás, para uma expedição sair do papel é preciso que pessoas se comprometam, botem a mão na massa e o pé na trilha. E os caras fizeram um trabalho lindo, acharam uma trilha de conexão da área rural que nos levaria até o poço e a Cachoeira Bonita, a primeira parte estava pronta, agora era montar a logística e reunir os expedicionários em torno do projeto.
                Agora com todo mundo motivado, escolhemos um feriado de junho para a expedição e seria a primeira vez que a gente se jogaria na Serra do Mar em pleno inverno e só fizemos isso justamente porque o nosso motivo maior seria uma montanha e não a exploração de rios selvagens, mas o tempo nos mostraria que não era bem assim como pensávamos. No horário marcado, nos encontramos todos (menos o safado do Rafa que chegou com uma hora de atraso) na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes, onde uma van nos esperava para nos desovar lá na área rural de Salesópolis. O motorista sentou o cacete e quando chegou no município citado, passou batido até interceptar a Estrada da Petrobras e transitou por ela cerca de uns 8 km, entrou à direita e uns 5 km depois saltamos no escuro, sei lá onde, num tal de Bairro dos Pintos e por mais uma meia hora nos pusemos a caminhar até que o Vagner localizou a tal trilha que passa ao lado de um sítio e embrenha na mata, vai descendo em nível, passa pelo Rio Clarinho, onde o Trovo e o Potenza resolveram cair de uma pontinha de madeira, segue sempre no aberto e uma hora e meia depois de iniciarmos na estrada, desembocamos na bucólica prainha do Poço Bonito do Rio Claro.


         ( Prainha do Poço Bonito)
                A madrugada já ia alta, mas surpreendentemente não fazia frio e decidimos montar um grande bivac sobre a areia da prainha. Sacamos uma corda, enfincamos um grande galho na areia e amarramos a corda no galho e em uma árvore nas margens do rio, jogamos a lona por cima e outra por baixo e jogamo-nos para debaixo com nossos sacos de dormir. Foi uma noite de cão para alguns que quase congelaram de frio, mas eu dessa vez não economizei nos agasalhos e dormi feito pedra até pouco depois das 6 da manhã. O dia amanheceu ensolarado, o que ajudou a animar a galera, que a partir de agora sabia que o passeio havia terminado e pela frente havíamos de enfrentar 4 longos de dias de aventuras selvagens.

                O Poço Bonito é um lugar lindo, um espelho d’água ótimo para um banho demorado em suas piscinas naturais, mas não no inverno. Então abandonamos ele pela esquerda, interceptando uma trilha que em alguns minutos nos levou até a CACHOEIRA DO POÇO BONITO, uma queda d’água não muito alta, mas muito cênica, muito parecida com a Cachoeira do Diabo, mas em menores proporções, provando que esse Rio Claro é realmente impressionante, mas o melhor ainda estava para ser descoberto. Depois de alguns clics da cachu , já fomos nos encaminhado para abandoná-la pela direita, mas antes disso uma chuvinha fina despencou sobre nossas cabeças antes das nove da manhã , mas isso não foi o suficiente para nos tirar o bom humor, porque a previsão do tempo já havia nos dito que haveria uma possibilidade pequena de precipitação.

         (Cachoeira do poço Bonito)
                Um a um fomos nos enfiando na mata e rasgando a floresta no peito, agora tendo como referência o traklog desenhado por mim e pelo Vagner no mapa de satélite que iria de encontro a um possível vale, um corredor que pudesse nos conduzir direto para o sul até que alcançássemos a tal rede de Alta Tensão, nosso próximo objetivo. O Trovo seguiu à frente porque já havia avançado por aquele terreno na semana passada, mas logo resolveu mudar de rumo para se livrar de umas moitas de bambu. Fomos ziguezagueando meio que para sudeste, fazendo uma diagonal até que pudéssemos interceptar de vez o caminho traçado para o gps e não demora muito, coisa de 20 minutos, tropeçamos em um rancho de palmiteiros/caçadores, incrivelmente bem preservado e sendo usado constantemente, provando que fiscalização ali não existe ou é totalmente ineficiente, a ponto dessa gente deitar e rolar, devastando florestas e florestas de palmeira Jussara.

                Concertamos o rumo e logo nos apareceu um rabo de trilha e alguém cantou que poderia nos levar para o rumo desejado, mas sem que percebêssemos, acabou nos fazendo rodar em círculos, perdendo tempo precioso. Andar com gps, principalmente um instalado no celular, parece fácil, parece que é só ir seguindo a bolinha, a setinha, sempre corrigindo o rumo, mas só parece. Algumas vez acontece um pequeno deley, um atraso que acaba confundindo o navegador, muito porque não é possível e nem viável ficar o tempo todo com os olhos grudados no aparelho, então qualquer desvio acaba fazendo a gente tomar o rumo errado e tendo que gastar energia preciosa para voltar para o rumo certo.
                Entre acertos e erros, uma picada nos fez voltar para o sul e nos deixou bem perto da linha que havíamos marcado no mapa e quando encontramos um córrego, na verdade um rio até que caudaloso, pensamos ter encontrado o nosso caminho definitivo, mas uma burrada monstro nos fez descer o rio ao invés de subir e de uma hora para outra , perdemos a direção , o bom senso e a nossas faculdades mentais, estávamos perdidos em algum lugar que até então  estava difícil sabermos qual foi o erro cometido, principalmente quando avistamos um outro rio muito maior do que o que havíamos descido e de onde despencava uma cachoeira gigante que nunca imaginávamos existir.

                Tudo estava confuso, de onde brotou aquele rio enorme? Que cachoeira seria aquela já que não constava em lugar nenhum, em mapa nenhum? Houve um momento de estresse, cada um dava um palpite diferente, cada um queria seguir por um caminho diferente para nos recolocar na rota, mas antes que a gente nos pegássemos na porrada para saber quem tinha razão, deixamos aquela discussão estéril de lado e fomos nos deslumbrar com aquela cachoeira perdida. A diversão e o encantamento fizeram com que colocássemos nossa cabeça para funcionar e a partir daí o Luciano sacou seu gps com bussola embutida, azimutou a direção e disse: “ Caralho, cometemos um erro tosco, ao invés de subirmos o rio, acabamos descendo “. Bingo! Isso mesmo, nossa rota para o sul era surpreendentemente subindo o rio, que depois descobri chamar-se RIO DO ALEGRE, um grande afluente do Rio Claro. Claro mesmo era que viramos tanto para sudeste que acabamos voltando de novo para o rio principal, só que muito mais acima dele. O erro foi dantesco, mas acabou nos dando de presente uma paisagem incrível, até então não relatada na literatura “internética”, conhecida somente por algum mateiro local e revelada ao mundo agora por nós, que sem conhecermos o nome, resolvemos chama-la de CACHOEIRA PADRE DÓRIA, até que alguém nos sopre o nome verdadeiro.

       
           (Cachoiera Padre Dória)
                Abandonamos, portanto, a grande queda d’água e voltamos a subir esse tributário do Rio Claro e quanto chegamos a um girau de caça o rio deu uma curvada e se abriu numa sequência de cachoeirinhas e degraus. Até então não sabíamos se esse rio realmente iria continuar seguindo para sul,mas enquanto ele nos favorecesse, seria o nosso guia, mesmo que fizesse muitas curvas porque ter um caminho livre de mato, bambu e cipó seria ouro no meio daquela floresta fechada. Os degraus foram aumentando e as cachoeiras se multiplicando até que o rio se estabilizou de vez e começou a subir suavemente, com a água hora pela canela, hora pela cintura, mas como a temperatura havia caído e o sol havia deixado de dar as caras desde as onze da manhã, a água gelada começava e incomodar e quando podíamos, fugíamos pela margem para evitar a friaca. 

                Apesar de estarmos subindo o rio e a tendência era de que ele fosse ficando cada vez com menos água, porque iria perder afluentes ao longo do caminho, isso não se confirmou e ele acabou ganhando foi piscinas naturais conforme ia se aproximando do planalto e era inevitável que de vez enquanto molhássemos acima da cintura e isso começou a fazer estragos e não demorou para surgirem as primeiras vítimas: Rafael foi o primeiro a sucumbir e foi preciso que o Luciano intervisse já que o menino tem os dotes de massagista e logo deu um jeito , mas não demorou muito e lá estava o Vagner estirado no chão se contorcendo por causa das câimbras também . Engraçado que sempre a pessoa que mais sofre com as baixas temperaturas sou eu, mas dessa vez os novinhos começaram a cair um a um e para variar a outra perna do Vagner travou também e lá foi novamente o Luciano fazer um carinho no menino.

                O tempo foi passando, o rio curvando para todo lado, mas sempre se mantendo para o sul. A temperatura caindo vertiginosamente conforme a tarde foi se aproximando e a sensação de que nunca chegávamos a tal Linha de Transmissão foi aumentando. Eu mesmo com uma camisa de neopremo sofria e gastava energia preciosa para fugir dos poços mais fundo porque a margem do rio era feita de bambus entrelaçados que dificultava o avanço. As vezes fazíamos algumas paradas para mordiscar alguma coisa, mas a retomada da caminhada era lenta e sofrível por causa do esfriamento dos músculos. O moral do grupo estava baixo, ninguém conversava mais, era nítido o sofrimento estampado no rosto de cada um e finalmente quando o Rio do Alegre cruzou a tal LINHA DE ALTA-TENSÃO e o nosso gps marcou a hora de virar para OESTE, o que estava ruim se transformou em pesadelo.
                Ainda sem encontrar um lugar descente para acampar e passando das cinco da tarde a chuva que ameaçou desabar durante as últimas horas, caiu toda de uma vez e a gente que já vinha sofrendo com a temperatura da água, agora nos encontrávamos em semi- hipotermia. Subimos o barranco à direita e tentamos nos abrigar na floresta, agora com terreno um pouco mais plano. Cada qual corre para tentar achar duas árvores descentes para montar sua rede e seu toldo, mas por sermos em oito foi difícil conciliar espaço para todo mundo.

                Não é possível narrar o sentimento alheio por completo, mas eu estava verdadeiramente na lona. O frio era tanto que não conseguia parar de tremer e muito menos conseguia pensar em uma solução. Árvores que pudessem me atender, eu não encontrava e quanto mais eu ficava exposto as intemperes do tempo, mais eu ia definhando, murchando e aquele aguaceiro dos infernos que não cessava ia fazendo com que a temperatura do meu corpo caísse de uma forma preocupante. Precisa fazer algo por mim, sair da chuva. Estiquei a lona em duas árvores esparsas e me enfiei embaixo e por lá fiquei, parado, inerte, pensado se ainda tinha idade para passar tamanho perrengue, pensando se já não estava na hora de parar de me enfiar nessas furadas. Poderia estar em casa, comendo bem e dormindo lindamente numa cama quentinha e macia, mas não, estava ali todo molhado, enfiado a um dia de caminhada do lugar habitado mais próximo, dentro de uma floresta fechada com uma chuva de inverno castigando sem dó e nem piedade a meio caminho de lugar nenhum.
                Era preciso agir. Saí do estado de inércia em que me encontrava, larguei minha mochila ao chão e fui esticar as beiradas da lona plástica. Retirei minha rede seca da mochila e amarrei nas duas árvores que por sorte deram espaço suficiente entre uma e outra. Tirei a roupa molhada, vesti uma seca e me enfiei dentro do saco de dormir, muito bem agasalhado. Aos poucos fui me aquecendo, a tremedeira passando e quando me dei conta já estava no mundo de Nárnia, num sono profundo, em estado de hibernação. Uma hora depois, já recuperado, levantei-me e fui cuidar do jantar que fiz juntamente com o Régis e embaixo da lona dele, ficamos até mais tarde jogando conversa fora até que definitivamente apanhei minhas coisas e fui morrer na escuridão da noite num canto isolado do grupo, mas ainda assim a ponto de ouvir o Júlio fazer um discurso na alta madrugada, porque não basta ser maluco, tem que ser sonambulo e incorporar espíritos.
                O dia amanhece sem chuvas, mas ainda com muitas nuvens. Desarmar o acampamento é uma coisa lenta e vagarosa, ninguém parece querer sair da rede quentinha e só lá pelas nove da manhã é que nos animamos a partir. A primeira coisa a fazer é localizar uma grande torre de Alta Tensão que pelos nossos cálculos não estava muito longe, já que agora bem visível sobre nossas cabeças passavam os fios de eletricidade, bem altos, mas mesmo assim ainda visíveis por entre as grandes árvores. Bastou um vara-mato despretensioso e logo a tal torre nos saltou aos olhos, reinando sobre uma pequena colina verdejante e desprovida de árvores e foi para lá que seguimos, agora no aberto e enfim com um pouco de horizonte e sol para nos alegrar a alma. Chegar a TORRE foi um marco, uma virada no ânimo da equipe. Subimos alguns metros, mas nem era preciso, do chão mesmo agora era possível avistar toda a imponência da cadeia de montanhas de onde a Pedra da Boracéia reinava absoluta ainda com seu topo sendo varrido por nuvens de algodão.

                Outra coisa logo de cara nos chamou atenção: Toda a extensão do terreno onde as torres passavam e que no satélite parecia capim alto, na verdade tratava-se de um emaranhado de pequenos arbustos e uma vegetação de passagem complicada, onde uma quiçaça entrelaçada não parecia dar passagem tão facilmente como imaginávamos, mas a simples segurança de poder nos guiar quase pelo resto do dia pelos fios de energia, já nos deixava feliz e se fosse preciso iríamos  arrastar aquela vegetação espinhuda no peito até o tão desejado cume.

                Agora nos valendo da direção oeste, vamos galgando o terreno ondulado até a próxima torre, uns 300 ou 500 metros à frente. Trovo vai abrindo caminho e a gente segue atrás, cada um ajudando o companheiro da frente a se livrar dos cipós que vão enroscando nas mochilas. As vezes o terreno acaba nos levado um pouco para fora da linha das torres, mas é só uma estratégia a fim de trilhar por melhores caminhos e uns 40 minutos depois atingimos a segunda torre e a cada torre conquistada é motivo para uma parada mais demorada a fim de comer algo, beber uma água e jogar conversa fora admirando a paisagem ao redor.
                 Pelo resto do dia essa foi a toada, conquistar torres! Foram 2 km varando mato e vales entre uma e outra até que aportamos na quinta torre, a uns 300 metros da base rochosa da Boracéia. Eram umas três da tarde e poderíamos tentar alcançar mais uma torre e de lá virar novamente para o sul varando mato até o pé da Pedra, mas estamos ansiosos demais e entramos em consenso para traçarmos um caminho direto para a face pedregosa da montanha, nossos pés estavam ávidos por pisar naquelas rochas lendárias.
                Juntamos o grupo e traçamos o caminho mentalmente. Fizemos uma diagonal para sudoeste e despencamos no buraco, quase um abismo no mato, descendo um barranco, escorregando para o fundo do vale até interceptarmos um riacho, cruzá-lo para o outro lado e pegar a direção da Pedra, subindo. Mais no alto conseguimos achar uma picada e seguimos por ela sempre na ascendência até que  uma meia hora acima do córrego ela acabou no capim, mas aí já estávamos sentindo o cheiro da rocha exposta, varamos uma língua de vegetação alta e ganhamos a face exposta da Pedra da Boracéia, agora não tinha erro, o caminho era escalaminhado a parede rochosa até o cume, mas antes uma parada para juntar a equipe, tomar um gole de água e mordiscar alguma coisa.

                Diante de nós uma rampa gigantesca se apresentava. Os mais ousados subiram pelo meio, se agarrando ao pouco de aderência que a pedra nos proporcionava, caminhando no limite da força da gravidade, um vacilo e o rola montanha abaixo seria certo. Os mais tímidos se encaminharam para as laterais onde alguma vegetação conseguia dar uma maior segurança, mesmo que apenas psicológica. O grupo acabou se dividindo em várias frentes, cada qual no seu ritmo, cada um tentando buscar sua própria força, física e mental. A caminhada é lenta, o avanço é moroso, a ansiedade vai servindo de combustível para a conquista. De repente o Luciano e o Rafael ficaram muito para trás se arrastando nos seus sofrimentos individuais, mas como o caminho é óbvio, os grupos vão seguindo, sempre para o alto, galgando cada lombada do terreno. Enquanto o cume não é conquistado nos restam as paisagens ao Norte, onde a Represa do Ribeirão do Campo nos alegra a alma, um mundo de água perdido em meio a uma das florestas mais exuberantes do mundo.

                Com o cume da montanha ainda sendo visitado esporadicamente por nuvens, que dançavam ao sabor do vento, resolvemos nos deter em uma área abrigada, junto a alguns pequenos arbustos para esperar que todo o grupo se unisse e quando os retardatários chegaram, nos juntamos em uma só equipe e partimos para a conquista final. Não há um caminho definido que nos leve direto para lá, então vamos abrindo a vegetação no peito mesmo até que, sem percebermos, o mundo acaba sob os nossos pés e outro mundo, o mundo dos abismos, o mundo das largas vistas, um mundo feito de águas oceânicas e areias prateadas se descortina, enfim no topo da PEDRA DA BORAÇEIA (1270 m), o gigante perdido, a lenda da Serra do Mar Paulista, onde poucos tiveram o prazer de colocar os pés, estava definitivamente conquistada.

                Como era finalzinho de tarde e o tempo ainda estava meia boca, com muitas plumas, resolvemos deixar  o dia seguinte para maiores contemplações e nos voltamos para assistir ao pôr do sol que já ia se jogando para oeste e também para planejarmos a nossa estadia no cume. Em meio as caratuvas e pequenos arbustos que compõem o cume propriamente dito, não encontramos nada que nos servisse, talvez uma ou outra arvorezinha aguentasse uma rede, mas a exposição seria um preço muito alta a pagar, então decidimos que desceríamos uns 100 metros e tentaríamos um bivac coletivo junto a uma área mais abrigada do vento.
                Enquanto o grupo se unia para conseguir um lugar abrigado e descente para todos, eis que que surgem 2 desertores, traidores do movimento montanhista e travessias selvagens na serra do Mar Paulista. Daniel Trovo e Rafael Araújo, abandonaram o grupo e mancomunados um com o outro, resolveram que montariam suas redes individuais, se valendo de um ou outro arbusto perdido na vegetação rasteira. Enquanto o alto comando (que não existe) assistia perplexo a traição sorrateira e covarde, voltamos a nos concentrar no abrigo. Em meio a um canto quase que beirando o abismo voltado para a face leste, nos concentramos na limpeza de uma área, retirando pequenas raízes no intuito de deixar o chão com possibilidade de podermos ter uma noite de sono razoável. Feito o trabalho, jogamos as lonas por cima dos arbustos e as amarramos, formando assim uma grande tenda para abrigar 06 exploradores. Jogamos uma grande lona no chão para isolar do frio e cada um escolheu seu canto e ali montou sua cama se utilizando de sacos de dormir.
                Estávamos todos  embaixo do nosso abrigo, nossa casa de montanha, felizes a contar causos de aventuras passadas, enquanto nossos fogareiros ronronavam exalando o puro perfume da boa comida, foi quando ouvimos um estrondo que ecoou em todo o cume daquela montanha isolada do mundo: Corremos a tempo de ver os traidores estatelados no chão, depois que o arbusto que haviam se pendurado com as redes veio a baixo e como usavam em parceria, lá ficaram as duas bestas, caídas na relva molhada de uma noite fria, no cume da Pedra da Boracéia. Imediatamente NÃO corremos para socorrê-los, apenas nos cagamos todos de tanto dar risada. ( kkkkkkk). Depois desse episódio, os desertores pediram clemência e se humilharam para se abrigarem junto com a gente, inclusive um deles teve que se deitar aos nossos pés e lá ficou, quase como um cão de guarda, rsrsrsrsrsrs.
                Oito almas viventes se espremeram naquele fim de mundo e na madrugada fria o vento varreu o cume e ameaçou jogar nosso abrigo lá para os abismos do litoral. Eu me encolhi o quanto pude, virei quase um tatu bola dentro do meu saco de dormir e não sei em que hora comecei a ouvir um zum zum, mas pensei ser novamente o Júlio recebendo o espírito do Dr. Fritz, então não ousei a colocar a cabeça para fora e depois fiquei sabendo que a nossa lona havia se rompido e a galera teve que se virar para deixar nosso abrigo novamente de pé, mas não foi só eu não. Daniel Trovo também se fingiu de morto e não levantou para ajudar. Eu era um safado, mas esse Trovo já estava passando dos limites, (rsrsrsrsrsrs).

                O dia que amanhe é lindo. Nenhuma nuvem no céu, nenhum vento, temperatura fria, mas agradável. Todo o grupo se levantou para ver o sol nascer e depois que a bola de fogo se estabilizou, corremos para o cume a fim de nos encantarmos definitivamente com a paisagem. Verdade mesmo que o melhor lugar para esses deslumbramentos não é no cume, mas alguns metros mais abaixo, onde uma pedra exposta é capaz de acomodar todo o grupo. Estar no cume da Boracéia ou PEDRA QUEIMADAcomo alguns preferem chamar e como consta em alguns mapas, é ter a honra de entrar para a galeria de meia dúzia de aventureiros e melhor ainda, é pensar que chegamos ali pelos nossos próprios méritos, uma rota nova criada por nós, uma verdadeira expedição até o cume. O espetáculo ao longe, numa visão de 360 graus ao nosso redor. Praias, ilhas, montanhas, abismos, florestas, um oceano incrivelmente belo. Do cume verdadeiro se abre ainda mais um horizonte extenso, onde é possível ver desde a baixada Santista até muito mais ao norte, passando pela famosa Ilha Bela e seus contornos gigantes. Bem aos nossos pés a praia da Boracéia e a Reserva Indígena da Tribo Silveiras, uma planície litorânea lindíssima forrada de florestas, onde rios quase que intocados desfilam como cobras a serpentear até o mar. Falando em reserva indígena, num primeiro momento pensávamos em estabelecer uma rota para o litoral, descendo em direção as terras dos índios, mas como o tempo se encurtou e alguns ainda estavam receosos de não conseguirmos finalizar essa expedição em 4 dias, resolvemos que não desceríamos até o mar, voltaríamos para o norte, voltando novamente por Salesópolis.
       

                Haviam dois ou três que ainda tentaram persuadir o grupo a seguir o plano original, mas como fomos vencidos, batemos o pé para voltar por outro caminho, quem sabe o caminho tradicional, voltando pela Represa do Ribeirão do Campo, mas havia um porém; não tínhamos informação de como fazer isso, apenas sabíamos que deveríamos chegar até a tal CACHOEIRA DA ESCADA, que nada mais era do que o local onde o próprio ribeirão do Campo se jogava para formar o grande reservatório, ou seja, seria mais uma expedição de volta pra casa e que Deus tenha piedade das nossas almas .
                Antes das onde horas da manhã abandonamos o cume, deixando aquela pedra selvagem entregue à sua própria solidão e partimos novamente para o norte, descendo aquela encosta íngreme e escorregadia, cada um tentando se manter em pé ou, como fizeram alguns, escorregando com a bunda, sem cerimônia. E é mesmo um grande barato tentar ludibriar a força da gravidade tentando fazer o equilíbrio perfeito com as mochilas às costas enquanto vamos testando os limites da aderência da rocha. A descida por isso mesmo é lenta e vamos perdendo altitude aos poucos até que desembocamos no início da floresta onde localizamos por dentro da mata um canal rochoso que acaba nos conduzindo sem que tenhamos que abrir mato no peito. Mas como ali, a inclinação ao invés de diminuir só fez aumentar e por causa do excesso de umidade não teve jeito, tivemos todos que descer sentados, escorregando no enorme tobogã natural até que ele nos levasse bem abaixo, para dentro de um riacho.

                Uma olhada no GPS e constatamos que aquele acanhado riacho poderia ser um dos afluentes do Ribeirão do Campo e como ele se dirigia para as coordenadas que nos interessava, não tivemos dúvidas, nos agarramos a ele e fomos descendo por dentro d’água até que ele se estabilizou e foi ganhando novos pequenos afluente, formando poços translúcidos em algumas curvas. A caminhada foi avançando e só saímos do rio quando queríamos escapar de alguma parte um pouco mais funda. Uma hora, em uma curva, ele ganhou um afluente bem mais encorpado e acabou crescendo de vez e umas 3 horas depois de partirmos da Boracéia, interceptamos o grande RIBEIRÃO DO CAMPO, que nem era tão maior do que seu afluente principal. Ali no encontro dos dois rios a paisagem começa a mudar e começa a aparecer o leito pedregoso e por vezes encachoeirados. Ao fundo é possível ver a magnitude da PEDRA DA BORACÉIA dominando o horizonte.

                Alguns corajosos, movidos pela novidade da paisagem, resolveram se jogar nos poços, mas outros queriam mesmo era distância da água fria. Seguimos, mas agora com o grupo dividido entre os que se aventuravam pela água e os que comiam capim, tentando escapar do rio emparedado até que todos se juntaram em um grande poço, um espetáculo formado de água represada que de tão bonito, os meninos o compararam aos rios da Serra da Canastra e por isso vou chamar aqui de POÇO CANASTRApara marcar território. Ficamos ali, diante daquele lugar incrível, batendo papo e nos aquecendo ao sol e aproveitando para dar uma forrada no estômago, enquanto assistíamos alguns se jogarem na água e quando resolvemos partir, dividimos novamente o grupo, mas sempre nos mantendo visíveis e quando o rio voltou a ficar raso , voltamos todos a nos encontrar onde finalmente o Ribeirão do Campo se joga de vez de cima de um cachoeira e vai morrer suavemente no GRANDE LAGO que domina aquelas paragens, com quilômetros de tamanho, um gigante no meio da selva.


          ( Poço Canastra)
               A tarde já ia pela metade quando resolvemos abandonar de vez a Cachoeira da Escada. Havíamos gasto 4 horas do cume da Boracéia até ali, mas foi uma caminhada até que tranquila e sem sobressaltos e ficamos até contentes em termos descobertos esse novo caminho sem ter que varar nenhum mato mais substancial ou ficarmos rodando feito barata tonta, então achamos que dali para frente conseguiríamos localizar uma trilha ou uma picada mais consolidada que pudesse nos levar ainda hoje para civilização, achamos errado.

                Logo perto da cachoeira, um largo e aberto caminho nos fez acreditar que sair dali seria mole, mas não deu 2 minutos de caminhada e a tal trilha se perdeu no nada. Rodamos para cima e para abaixo, um pente fino ao redor e para todas as direções até chegarmos à conclusão mais do que óbvia: Já fazia muito tempo que ninguém botava os pés naquele lugar vindo por terra e se alguém chegou ali, foi navegando pelo grande lago. Na verdade, mesmo dentro de mim já cresceu um sentimento, não tinha como esconder o que estava por vir e uma frase na minha cabeça resumia a situação naquele momento:PUTA QUE O PARIU, A GENTE SE FUDEU BONITO!
                Começamos então a varar mato e como primeiro objetivo elegemos tentar chegar no início de um braço grande do lago, onde tentaríamos acampar em alguma prainha, mas acontece que acabou ocorrendo um fato nesse trajeto: A partir daquele momento acabamos por deixar a navegação a cargo do Luciano, porque além de nos mostrar que tinha competência, ainda era o cara com um celular mais moderno contendo bussola, o que facilitaria muito aquele vara-mato dos infernos. Combinamos então que tentaríamos naquele dia no mínimo chegar até aquele braço, mas nós falávamos de um braço e o Luciano falava de outro. O tempo foi passando e a gente enfiado na floresta, as vezes achávamos algo que nos parecia ser uma picada, mas como todos os caminhos que encontrávamos, não dava em nada e ainda tínhamos que ouvir o Trovo dizer: “Também, isso não era trilha, era só o caminho de anta”. Claro que ouvir isso do Trovo não nos era novidade, já que para ele tudo que existe no mundo em matéria de caminho foi feito por elas (hehehehehe), mas ali parece que ele tinha razão.
                A noite chegou, caímos no fundo de um riacho e logo notamos que estávamos novamente perto do lago e quando o Luciano dizia que estávamos perto do nosso objetivo, ficávamos felizes, mas quando pedimos para ver o gps e descobrimos que ainda estávamos longe de onde pensávamos que poderíamos estar, ficamos extremante desapontados. Mesmo assim, não sendo o braço do rio que pretendíamos acampar, resolvemos ao menos tentar acampar nesse fundo de vale, que era nada mais nada menos que o próprio braço menor do lago, mas quando lá chegamos não existia um só palmo de areia, na verdade era uma margem alagada invadindo uma quiçaça, sem conter nenhuma árvore descente para tentar montar uma rede. Estava tão escuro que pouco enxergávamos, então foi preciso ligar as lanternas de cabeça e decidimos pegar água do lago e partir varando mato, ganhando altura até uma área mais espaçada, mais plana que pudesse comportar um acampamento, mesmo que improvisado, meio nas coxas. Então tocamos para cima, nos agarrando onde desse, na tentativa de vencer os grandes barrancos, meio que uma caminhada suicida, correndo o risco de enfiarmos as mãos em alguma cobra ou outro animal peçonhento. Essa é aquela hora que não queríamos estar ali, a noite já estava fria, a fome já consumia nosso estômago, as energias já eram tiradas de onde já não tínhamos. Foi quando alguém mais sensato resolveu dar um basta naquele sofrimento inútil e gritou lá atrás que poderíamos acampar por ali mesmo, um lugar mequetrefe, com poucas árvores descentes, cheio de bromélias espinhudas e cipós entrelaçados. Alguns protestaram, outros resmungaram, mas logo cada qual foi tratar de encontrar 2 árvores que comportasse sua rede e no fim , acabamos por ajeitar todo mundo e aquilo que seria mais um acampamento no inferno, acabou se tornando nosso lar doce lar por mais uma noite.
                
                A noite foi fria, alguns reclamaram, mas eu como estava bem agasalho, dormi muito bem, mas é sempre um drama levantar da “cama” quentinha e voltar a vestir a roupa úmida ou molhada, mas como tecnicamente seria o último dia, resolvi ficar com a roupa seca mesmo. A equipe pareceria estar bem-humorada, mas o Luciano acabou me preocupando. Ele era um dos “novatos” com a gente, não que fosse sem experiência, longe disso, mas era a primeira vez que se metera nessas expedições incertas e por isso mesmo apresentou um comportamento estranho, tremendo, mesmo bem agasalhado e com uma temperatura agradável. Entendi o que acontecia: o nervosismo não tinha nada a ver com medo, mas vinha da sensação de não dar conta de escapar ainda naquele dia  e perder compromissos inadiáveis, é um sentimento estranho de não conseguir controlar o tempo e nem o destino do jeito que queremos, mas o cara frágil da manhã, se transformaria num monstro no final da tarde.
                Desmontamos tudo, tomamos café e partimos. Já que estávamos a meio caminho do topo do morrote, resolvemos ir até o cume e foi entre grandes árvores que acabamos por localizar um vestígio de trilha, um caminho mais aberto dentro de uma floresta de bambuzinhos, que acabou nos levando para nordeste por quase 1 km, mas surpreendentemente fez uma curva e começou a voltar para noroeste, justamente de volta para as margens do lago, onde localizamos um RANCHO. Aí fica aquela sensação de que seria melhor, abandonar essa trilha de vez e seguir varando mato reto até o destino que vislumbramos ou nos apegarmos àquele rasgo na floresta com caminho desimpedido? Optamos por continuar pela trilha na esperança de ganharmos tempo e escaparmos o mais rápido possível dali. Por mais uns 600 metros tivemos caminho fácil e quando desembocamos novamente no lago e começamos a margeá-lo, pensamos que estaríamos com a vida ganha e até paramos em uma grande clareira de acampamento e por lá ficamos descansando e comendo algo.
                Saindo dessa clareira, novamente localizamos a trilha, que suavemente foi contornando o grande braço do lago, passamos por cima de um grande tronco que nos serviu de ponte e sem nem percebermos, começamos a seguir para nordeste novamente, voltamos a virar para oeste e finalmente para norte, a direção que nos favorecia. Trilhas apareciam, trilhas sumiam, uma hora estávamos caminhando desimpedidamente, outra hora rasgando mato no peito até que na descida de mais um vale ouvimos barulho de gente. Nos apressamos para tentar angariar alguma informação, mas o “ morador provisório” do rancho clandestino picou a mula para o mato, caiu na capoeira, escafedeu-se no mundo, fugiu apressado pensando que fossemos algum tipo de fiscalização. Tentamos localizar alguma trilha clandestino por onde esse “ curupira” poderia ter chegado ao rancho, mas nada encontramos. O dia ia passando e a gente rodando entre picadas clandestina que sumiam do nada e varação de mato. Aquilo já estava dando nos nervos e houve uma hora que os espíritos da floresta se apossaram da gente e ninguém mais se entendia quanto a localização, opiniões diversas começaram a surgir, cada qual queria ir para um lado e foi preciso parar e repensar a estratégia e por fim elegemos o Luciano como navegador oficial da Expedição, caberia a ele nos levar de volta para casa, seria melhor mesmo que um só, com equipamento mais preciso assumisse a navegação. Entramos em acordo para onde seguiríamos, decidimos que nosso objetivo seria uma cachoeira perdida no Rio Claro, aquela seria nossa tábua de salvação e era para lá que o Luciano deveria nos conduzir a partir de agora. – DEIXA COM O PAI! (Carvalho, Luciano)

                Pai Luciano ficou encarregado de nos fazer chegar até o vale de um rio, um afluente do Rio Claro que nos levaria direto para o grande rio e realmente não demorou muito, o encontramos e começamos a descer, o que nos deixava bem tranquilos quanto a navegação, mas era um riozinho de planalto entupido de árvores caída, curvas que não acabavam mais, atoleiros e por vezes era melhor tentar varar mato pela margem do que andar por dentro desse riacho. A tarde já apontou sua cara e nós ainda estávamos ali sem avançar, perdidos dentro daquela floresta e correndo o risco de termos que acampar mais uma noite, sem comida. Mais uma vez não aguentamos, paramos para rever a estratégia e tentar bater no navegador, que sem ter culpa de nada, mandou a gente a merda e resolveu abandonar o rio, traçando uma vara-mato direto para a tal cachoeirinha do Rio Claro.

                Subimos e descemos morro, comemos mato de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é qualidade e nos alegramos quando ouvimos ao longe o barulho do rio e a felicidade foi geral ao interceptarmos o GRANDE RIO CLARO e suas cachoeirinhas bucólicas por onde passamos usando o leito raso das suas cabeceiras e ali nos prostramos para um descanso demorado e para comemorar mais essa vitória. Enquanto a galera papeava no alto do POÇO REDONDO, saí à procura de alguma trilha que pudesse nos tirar dali e nos levar para o norte. Encontrei uma trilha se dirigindo para oeste, mas não serviria para a gente, muito provavelmente iria voltar para a Barragem do lago, muitos quilômetros longe do nosso destino. Na entrada para o poço redondo encontrei uma picada discreta subindo para o norte e foi por ela que seguimos, mas o dia já estava nas últimas e não demoraria para a escuridão nos apanhar.
                Seguir para o norte era a certeza de encontrarmos alguma estrada, algum vestígio de civilização, ainda mais por termos observado plantações de eucalipto no mapa, então decidimos que seria para aquela direção que o Luciano deveria apontar a bussola do GPS. A distância não parecia ser muita, mas aí que está o engano, 3 km varando mato morro acima já é algo gigante, mas fazer essa mesma quilometragem a noite já é algo quase que inimaginável para quem já vem se arrastando a 4 dias.
                Vamos seguindo, em fila indiana, alguns se revezam na dianteira, mas logo o Júlio, que parece ter um pawer bank no rabo, assumi a ponta de vez e vai lutando bravamente com o mato, o bambu, o capim, o cipó e como a noite já é nossa companheira, é a luz de lanternas que seguimos e os vultos vão nos parecendo monstros a serem vencidos como se participássemos de uma aventura Quixotesca. Não há mais conversa, só sussurros e gemidos ecoando no silencio da noite. Somos agora um bando que se arrasta, quase sem perceber e sem sentir as pernas. Somos fantasmas que deslizam na escuridão de uma noite fria de inverno, com um céu qualhado de estrelas e já perdemos faz tempo a capacidade de reclamar, apenas somos oito almas que resiste e não se entrega, resilientes de que em algum momento todo aquele sofrimento vai chegar ao fim. Quando o mato acabou e já sentíamos o cheiro de eucaliptos, nos deparamos com um rancho abandonado e ali encontramos uma picada que foi crescendo e logo se transformou numa estradinha cheia de mato que mais à frente se consolidou, se abriu de vez e meia hora depois desembocamos definitivamente numa estrada de verdade e desabamos ali mesmo, cansados, exaustos, mas com a certeza que a nossa missão acabara de ser cumprida.
                A estrada segue para leste e mais à frente interceptamos uma casa e ali imploramos por algo para comer e quando apareceram 2 grandes pacotes de bolacha e uma penca de banana, alguns ficaram emocionados e para mostrar que tinha uma educação de lorde, o Júlio que não queria jogar as cascas de banana no mato, pergunta: - Aí, passa lixeiro por aqui? ( kkkkkkk) Eu e o Régis que estávamos num canto já fora da visão do morador, não nos aguentamos e caímos na risada, aquilo ali era um fim de mundo, uma espécie de fiofó de Salesópolis, estava na cara que não passava lixeiro ali e o simplório morador apenas pediu para que ele jogasse no mato mesmo, porque as galinhas se encarregariam de dar conta do lixo orgânico.
                Estávamos a salvo do mato, éramos agora seres pertencentes a civilização, mas ainda teríamos que arrumar um jeito de voltar para Salesópolis que distava uns 15 km dali e não tínhamos a menor ideia de como faríamos isso naquela hora da noite,mas eis que na escuridão surge um motoqueiro visivelmente mamado, com a cara cheia de pinga e quando fizemos sinal, ele parou imediatamente. Não falava nada com nada, dizia coisas sem nexo, palavras desencontradas, jogadas ao vento, mas disse para a gente não se preocupar que ele daria um jeito de nos tirar dali, iria fazer “um corre” com uns conhecidos e se perdeu na escuridão. Claro, não levamos fé no locutor do Silvio Santos e nem nos apegamos àquela possibilidade, mas quando nos aproximamos um tempo depois do centro do amontoado de casas do Bairro dos Pintos, lá veio o motoqueiro nos chamando para um abrigo e dizendo que em pouco tempo nossa carona chegaria para nos tirar dali e nos levar para cidade. Havíamos desacreditado do morador local e agora teríamos que engolir nosso “pré-conceito” e mais uma vez acabamos por nos deslumbrar com a generosidade humana. Não demora muito, um taxi encosta e leva metade do grupo até um ponto de ônibus e volta para buscar a outra metade e foi assim que cada qual foi se perdendo para uma direção, alguns na região metropolitana de São Paulo e outros como eu, em direção ao interior do Estado.
                
                Ir para o interior selvagem da Serra do Mar Paulista é se jogar de cabeça na mais autêntica aventura que se possa imaginar, é onde a palavra Expedição pode ser usada sem que se caia no ridículo, mas para isso é preciso aceitar os riscos, é preciso compreender que não há garantias de nada, vai estar sempre andando sobre o fio da navalha, vai ter que encarar desafios, saber que sua vida corre perigos constantemente, seja imaginário ou real. Mais uma vez conseguimos juntar um grupo, uma equipe em torno de um projeto que nem nós mesmos poderíamos saber se daria certo ou não e tão difícil quanto executar um projeto, é fazer ele sair do papel, dar vida e agregar pessoas disposta a colocá-lo em pratica. Foram oito homens dispostos a conquistar uma montanha selvagem estabelecendo uma nova rota, um novo caminho e hoje posso dizer que esse novo trajeto para o Cume da Pedra da Boracéia é sem dúvida o melhor de todos, pelo menos por terra. Foi sem dúvida uma das maiores aventuras nossas dos últimos tempos, agregamos novos amigos e fortalecemos velhas amizades, sofremos muito, é verdade, mas nos divertimos como nunca, vivemos a vida com uma intensidade poucas vezes vista e voltamos para casa satisfeitos com nós mesmos, sabendo que fizemos história mais uma vez, se não foi história para montanhismo nacional, foi a nossa história, para contar para os filhos, para os netos sobre o dia em que desafiamos uma montanha e vencemos, não a  montanha, mas a inércia da vida.


               
               
               
               
               
               
      Divanei Goes de Paula Publicado em 12/07/2019 16:33
      Realizada de 20/06/2013 até 25/06/2013
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    • Por Matlobo
      Olá! Estou pensando em aposentar minha corda de escalada, e descobri uma marca nacional que fabrica cordas dinâmicas, a Brazilian Ropes Cordoaria - BRC. A fábrica deles fica em Lauro de Freitas, e como eu estava na Bahia, resolvi visitar. As cordas deles foram testadas em alguns ensaios de caracterização, cargas estáticas e deslizamento da capa, mas não em cargas dinâmicas - número de chutes UIAA e força de impacto. Conversei com o dono, e ele me informou que não estão fazendo os testes porque nenhum laboratório no Brasil faz esses ensaios, mas que muita gente na Bahia usa as cordas BRC, assim como grandes academias de escalada de São Paulo. Alguém aqui já usou corda dinâmica dessa marca? O que achou?


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