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Olá viajante!

Bora viajar?

Nepal 2005

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00ckathmandujirimarceuedico7ny.jpg

Os protagonistas do trek durante a viagem de busão até Jiri. 10 horas sacolejando e tirando fino de precipícios, sendo que 8 delas viajando no teto. Marcéu é o que tirou a foto e cortou metade da própria cara.

 

Dias 00

 

O trek foi ótimo, ótimo MESMO. Nós andamos por 31 dias, de Jiri até o Campo Base do Evereste e com uma esticada até o vale do Gokyo. Tudo com picos extras e treks secundários que não estavam no programa inicial.

 

Kathmandu é uma cidade única e como tal tem um jeito único de ser. Thamel, bairro comercial de Kathmandu onde há a maior concentração de turistas, é sujo, confuso, poluído, com ruas estreitas lotadas de carros, riquixás, pessoas, bicicletas e motos. E é barulhento, já que todos lá dirigem com a buzina. Adoramos Thamel!

 

Os acordos nas compras de material que faltava para o trek começaram bem. É muito fácil barganhar em Thamel, mas é mais fácil ainda perder horas e horas do precioso tempo de suas preciosas férias conversando com os vendedores que, uma vez demonstrado seu interesse em algo, não mais o querem largar. Nas ruas também é mais certo que a morte você ser abordado por agentes de viagem ou algum dos seus capangas, ou se ver na vexante situação de ignorar os pequenos traficantes que o seguem perguntando "você fuma?" ou "mariuana, haxixe?". "Qual seu preço?" e "seu preço é meu preço" são frases comuns e que vai ouvir nas lojas e ruas. A menos que faça como alguns dos turistas que vimos e simplesmente pague pelo que lhe pedirem, o que considero tremenda burrice, mas enfim, a grana é deles.

 

Isso tudo serviu para que eu, após dois dias em Thamel, ficasse desesperado para iniciar o trek.

 

Então finalmente partimos num ônibus cujos bilhetes que nos tinham sido vendidos por preços exorbitantes estavam caducos e tivemos que comprar outros, por preços pouco menos exorbitantes. Ônibus nepalês é muito pequeno e nossas cabeças quase tocavam no teto. Pralém disso estava lotado e mais gente subia no caminho. O motorista nos disse que iríamos no teto, mas só depois que passássemos algumas barreiras do Exército, o que levou cerca de duas horas, horas essas em que passamos em pé e torcidos sem poder mexer nada nem ter onde nos encostar.

 

Ao se afastar um pouco de Kathmandu, duas horas depois de ter partido, o motorista pára a velha condução, e bota velha nisso, e diz que podemos ir pro teto, o que soou como música aos meus ouvidos e bálsamo às minhas pernas e costas entravadas. Enquanto subíamos ao teto, 80% do ônibus se meteu na mata pra tirar água do joelho. Parecia um bosque de cabeças. Praticamente não havia arbusto sem uma cabeça por cima dele.

 

Embora um pouco ventoso, viajar no teto foi fantástico e de lá tivemos nossa primeira, digo, segunda vista das montanhas (a primeira foi do avião). Era só uma, mas parecia um monstro se elevando do horizonte.

 

Passamos várias barreiras do Exército no caminho, mas essas não se preocupavam com gente no teto.

 

O ônibus segue zique-zaqueando morro acima e abaixo por cerca de 10 horas. Como a estrada é estreita, os finos são inevitáveis, sempre manejados com muita buzina, assobios, gritos e batidas na lataria dos ônibus. Numa das vezes nosso motorista arrancou o retrovisor de outro ônibus que estava "estacionado", porém ele nem parou e seguiu em frente. Acho que ele não queria perder o bom embalo que o ônibus tinha pegado. Aliás, ele não gostava muito de dar lugar aos outros ônibus que vinham em sentido contrário e cada vez que era mesmo necessário que um recuasse pro outro passar, uma pequena batalha de buzinas acontecia até que um dos dois desistisse. Para nosso orgulho o nosso ônibus estava equipado com um belo conjunto de sonoras buzinas e logo éramos campeões de "abre alas que eu quero passar".

 

Numa das subidas, uma de muitas e longas, um pneu furou e lá ficamos quase uma hora até ser trocado, operação que envolveu a gerência, observação e aconselhamento de muitos e o trabalho de poucos.

 

Já de noitinha chegamos em Jiri, após passar por uma última barreira de soldados, que anotaram nossos nomes. Em algumas outras barreiras todos tinham de descer e seguir em fila indiana até o controle e os turistas, nós, ficávamos no ônibus. Dessa vez tivemos de descer também, mas nos mandaram furar a fila e ir pra frente.

 

Após nos inscrevermos, fique de papo com um soldado lá, que recomendou alojamento e deu uns conselhos sobre os maoístas. Prometi que ia ter cuidado e agradeci a ajuda. Não falamos de política. Não acho saudável falar de assuntos polêmicos com alguém segurando uma metralhadora.

 

No ônibus, um dos donos de alojamento subiu conosco e nos pescou pra ficar em seu alojamento, o que, depois de saber sobre comida (repeteco no dhal?) e banho (incluído no preço?), aceitamos. Lá encontramos mais alguns trekkers. Um deles estava voltando e o resto, inclusive nós, estavam indo. O que estava voltando disse que não queria estar em nossa pele, o que não diminuiu nosso entusiasmo, mas foi um primeiro contato com as durezas que nos esperavam. O cara, Paul, tinha cara de exausto mesmo.

 

Banhos tomados e de barrigas cheias, fomos pra cama, ou melhor, pros sacos, ansiosos pela chegada do dia de amanhã, primeiro dia de um longo trek.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

Editado por Visitante

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Agora apareceu a foto!!!

Sinistra!!!!!!!!!!!!!!!!

Caraca....huahau!! Agora deu medo...

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!

 

Coloca mais fotos....

 

[]'s....

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Tem sim, Gabriel:

 

http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/hendrik_vd/my_photos

 

Ficou pronto ontem mesmo, depois de meses renomeando, dando retoques, colando panoramicas, discutindo com meu irmào o que era o que, re-renomeando porque pulei um dia ou uma letra, ou as repeti, etc, etc, etc...

 

É que ontem tinha feito um post em inglês para anunciar isso, já que tava com pouco tempo para fazer em português. O post está mais acima. É basicamente explicando o sistema:

 

"As fotos estão nomeadas segundo o seguinte "sistema"

 

----

 

Por exemplo:

 

05m-EFVH-Nhuntala-Vila e mosteiro Trakshindu.jpg

 

Foto tirada no 5º dia do trek, ponto de partida sendo o Everest First View Hotel (EFVH) e ponto de chagada a vila de Nhuntala, quando nos encontrávamos e tiramos foto da vila e mosteiro de Trakshindu.

 

Ou:

 

06a-Nhuntala-Bupsa-Marceu ponte 109m Dudh Kosi H-PAN.jpg

 

Panorâmica horizontal (H-PAN) do meu irmão Marcéu sobre uma ponte suspensa de 110m sobre o rio Dudh Kosi (tema), situada entre Nhuntala (origem) e Bupsa (destino), no 6º dia do trek (dia).

 

E par aí afora...

 

Espero não ter matado ninguém de tédio e caso AINDA queiram ver alguma foto, estão no seguinte endereço:

 

http://br.pg.photos.yahoo.com/ph/hendrik_vd/my_photos

 

Se comportem,

 

Hendrik (Dik, Dicó, Enrico, El Mestiço, tanto faz...)

 

P.S.: Mika, que foto tá aparecendo só o pedaço? o do meu irmão na ponte? como assim só aparece um pedaço? ela é uma panorâmica, então é estreita mesmo.

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Ja voltou ao normal Hendrik.

Mas tava aparecendo so a metade de cima....nao dava pra ver a ponte...

Agora ja deu...hehe!!

 

[]'s....

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valeu pelo link Hendrik

 

são bastantes albuns, hein?? hehehehe

 

quando tiver tempo vou ver todos...

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É, Gabriel... e olha que fomos até bastante econômicos com as fotos, "só" tirando umas 700, que depois de feitas as panorâmicas e descartadas as ruins/repetidas, somam agora "só" 623.

 

Agora pergunta ao Vinícius quantas ele tirou.

 

[]'s

 

Hendrik

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Muito linda as fotos...se antes eu ja tinha vontade de ir para lá agora mais ainda....

 

 

O ceu é algo que mais me impresionou nestas fotos..que azul......

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03dsetelanjurasubidalanjurala2.jpg

Um pequeno exemplo da infernal Subida de Sete. É isso aí, e pior, por 3 dias consecutivos. Na foto, do Marcéu, já estamos na crista que leva para o passe Lanjura.

 

Dia 03

 

Hoje o dia foi curto.

 

Apesar de estar exausto da Subida de Sete, ainda insisti em acordarmos cedo, para podermos andar o máximo possível e ter chances de acompanhar os suecos (essa última razão sendo secreta). Minha condição pode ser mais bem descrita como falta dela: falta de condição. Os sintomas do dia anterior ainda estavam bem presentes, mas meio que abafados, escondidos, de tocaia, prontos pra vir ao de cima na menor provocação que eu lhes desse, o que não tardaria a acontecer mais tarde, não muito mais tarde.

 

Deixamos pra tomar o café-da-manhã no próximo alojamento com os outros trekkers, já que por essa altura notamos que refeição no trek é algo que pode demorar à sair e não queríamos atacar a trilha muito tarde.

 

E estavam todos lá, tirando dois austríacos que tinham estado no mesmo alojamento em Jiri, partido mais tarde, nos alcançado ainda na Subida de Deurali e nos deixado comer poeira desde então. Duas coroas já nos tinham passado na descida para Kenja, embora eu goste de me consolar com a desculpa que elas estavam com guia e carregadores e nós não.

 

Assim, me restou os suecos e uma belga. Feliz de vê-los ainda ali, encomendamos o café-da-manhã e conversamos de ladeiras, dores e demais assuntos afins ao tema que todos estávamos passando, uns com mais graça, como o Marcéu, os suecos e, outros, com mais desgraça, que no momento parecia ser só eu mesmo.

 

Eles acabaram de comer antes de nós e se puseram a andar. Despedi-me com um otimista "até breve". Não os voltaria a ver, tirando dois integrantes do grupo, que encontraríamos em nossa ida pra Pangboche, quando eles estariam VOLTANDO pra Lukla, uns bons dias depois desse café-da-manhã em Sete.

 

Então de barrigas cheias, fomos para a segunda parte da Subida de Sete. Já agora, é uma subida brada essa. Por essa altura eu já deveria estar mais no ritmo, mas se tinha uma coisa que eu não estava era em qualquer estado indicativo de uma positiva situação apropriada para subir fosse o que fosse, nem sequer de forma simbólica. Ou seja: eu estava lascado.

 

A segunda parte da Subida é muito massa e bonita, principalmente na aproximação do passe, o Lanjura la ("la" quer dizer "passe"na língua nativa, aparentemente), onde caminhamos pela cresta do monte. Mas eu estava acabado, destruído, morto, exausto, derrubado ou qualquer expressão que lhe venham à cabeça e consiga qualificar um estado pessoal de completa e absoluta entropia de um sistema. Não conseguia dar 10 passos sem ficar ofegante e ter de parar por uns bons minutos para descansar.

 

Nem de longe estaríamos no passe antes do meio-dia, prazo máximo dado pelo guia para vermos os aviões que voavam de e para Lukla, carregados de descansados trekkers/turistas que, acima de tudo, não estavam numa ladeira medonha com dores-de-cabeça, náuseas, tonturas e dores nas costas/ombros/pernas. Alguns pilotos gostam de passar pelo passe tirando fino. Parece ser coisa pra turista ver, já que nem todos, a maioria, faz isso.

 

Só sei que era umas duas da tarde e ainda não estávamos no passe. Por sorte a trilha tinha aplainado UM POUCO, o que acendeu em mim a esperança de poder alcançar uma pequena vila que fica pouco antes do passe e poder dormir lá, pra'lém de almoçar, ato que inicialmente planejávamos fazer bem depois do passe.

 

Lá pelas 15.00 é que chegamos à vila. Foi então que, à espera da sopa, comuniquei à Marcéu que dali eu não passava. Ele queria deixar o assunto pra depois que estivéssemos descansados e almoçados, mas eu disse que não tinha dúvidas que ali seria a meu pernoite. Tava maus mesmo. Tinha de deitar e dormir, acima de tudo.

 

Pra piorar a situação, resolvi inovar no cardápio e experimentar uma sopa RARA. Achei que todas as sopas eram coisas locais simples, tipo a sopa de vegetais, mas RARA parecia tão exótico que fui nessa.

 

A... coisa... que me foi servida foi um miojo com muita pimenta. Não, isso ta errado: foi MUITA pimenta com um pouco de miojo. A cumbuca estava cheia de alguma coisa que para fins teóricos chamarei de "comida", mas contesto firmemente que aquele troço mereça ser qualificado como dentro da categoria de substâncias apropriadas para a alimentação de qualquer ser existente na Via Láctea. Agora, pra'lém de tonto, enjoado, exausto e com dor-de-cabeça, estava suando, chorando e com o nariz escorrendo por conta de um prato de miojo apimentado. RARA, nunca mais!

 

Depois da sessão de tortura fui pra cama direto. Não eram nem quatro da tarde e já estava dormindo, não sem antes sentir umas picadinhas e coçadinhas dentro do saco-de-dormir. Não acredito: pulgas, pegamos pulgas no último lodge. E agora? Agora vou é dormir. Não seria uma AMSzinha, a sopa me corroendo as tripas ou umas reles pulgas que me fariam perder o sono.

 

Lá pelas 18h, Marcéu me acorda pra perguntar se eu queria jantar. Achei que a pergunta era tão sureal que pensei estar sonhando, mas não, ele tava mesmo querendo saber se eu iria... COMER. Comer me parecia na altura a ação menos pertinente à minha biologia, com incompatibilidades fundamentais ao nível quântico para com meu organismo. Se tivesse uma porta ali, batia ela na cara do Marcéu. Na falta dela, me consolei em virar pro lado, tarefa difícil num saco-de-dormir, e resolvo voltar pro mundo dos sonhos, onde sopas RARA estariam ausentes ou presentes, dependendo se estava sonhando ou tendo pesadelos.

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04nlanjuraefvhdicodescidajunbe.jpg

Na descida para a vila de Junbesi, não resisti de fazer pose ao lado de uma imensa parede do morro pintada com mantras budistas. Marcéu queria que ficasse de pé, mas ventava tanto lá que tive medo de cair.

 

Dia 04

 

Acordei lá pelas 6 da manhã. Isso mesmo: mais de 12 horas dormindo. Acordei ótimo! Todos os grilos e perengas do dia anterior me pareciam coisa do ano passado ou que fossem parte da história de outra pessoa, não eu. Felizes da vida, praticamente voamos até o passe Lanjura, que tava mesmo ali do lado, coisa de uns 30 ou 40 minutos de caminhada em trilha plana. 40 minutos de caminhada no Nepal em trilha plana em comparação com o típico sobe e desce por horas e horas é como comparar pratinho de azeitonas com Pires de Oliveira. Mesmo assim Marcéu chegou lá primeiro.

 

O passe era incrível e ficamos tipo 1/2 hora lá, tirando fotos e olhando a paisagem. Deurali era um passe também. E antes dele teve o Danda la (passe Danda), entre Jiri e Shivalaya, mas o Lanjura la (passe Lanjura) foi o primeiro onde senti estar num passe de verdade. Só de saber que estava à 3500m era como ter alcançado o Evereste mesmo. Sentia-me tão bem e feliz por estar ali que foi inevitável o renascimento da minha Santíssima Trindade: MACHO-EGO-TESTOSTERONA. Por que não? Sentia que tinha sobrevivido e vencido sobre o pior que o Nepal podia me jogar em cima, então não havia razão alguma de ser uma florzinha e diminuir o ritmo. Cara, eu posso ser super-burro algumas vezes... muitas vezes... na maioria das vezes... tá bom, tá bom, já chega de "mea culpa"!

 

Em Lanjura nós conhecemos um pirralho, que devia ter o que? 7 anos? 8? O caso é que ele resolveu adotar Marcéu e estava determinado em domestica-lo com o claro intuito de que algum doce lhe fosse oferecido. Ou canetas. Ou Rúpias. Ou qualquer coisa. Depois da sessão de fotos, ele tentou seguir Marcéu por um tempo e estava mesmo fascinado com as nossas mochilas. Felizmente para meu irmão, a mãe dele veio em missão de socorro e chamou o diabinho, digo, criança, de volta.

 

Como todos que fazem essa trilha, Jiri-Lukla, não era a primeira vez que encontramos essas crianças pedindo. Via de regra, assim que eles avistam um trekker, começam logo a entoar o mantra: "Alô, pen" (o mais comum, que significa "alô, lápis/caneta") ou "alô, sweet/candy/bombom" (esse dá pra entender, né? Pedindo doces) ou "alô, Rupee" ("alô, Rúpia", que é a moeda local) ou "alô, flower" (onde lhe oferecem uma flor, na expectativa que algo lhes seja dado em troca) e por fim "alô, beautiful" (que é um mistério pra mim. Será que é dizendo que são bonitinhos e devemos tirar foto e, portanto, pagar? Ou tão chamando um marmanjo barbado, suado e fedendo de bonito, elogio que deve ser recompensado com doce, Rúpia ou caneta? Acho que nunca saberei. Mais um mistério pra minha coleção...).

 

O guri de Lanjura era diferente. O mantra dele era assim: "alô pen, no pen, alô pen, no pen, alô pen, no pen, alô pen, no pen..." . Acho que ele percebeu como as coisas funcionam e não necessitava que lhe respondessem mais. É que "no pen" é uma resposta bem comum também que os trekkers dão quando atacados pelas diferentes facções da Gangue da Caneta. Quer dizer, obviamente, "sem caneta". Governo e associações desaconselham que os trekkers encoragem a mendicância, dando às crianças locais doces, canetas, Rúpias, etc. É um problema mesmo, que foi começado por nós, ocidentais.

 

Então voltando ao trek. Finalmente começamos a descer o morro. No meio da descida haveria uma pequena vila onde planejamos tomar café-da-manhã e depois era chegar em Junbesi bem cedo. Depois de umas 2 horas de zigues-zagues por entre árvores, descendo, descendo e mais descendo, me convenci que NADA no Nepal é "quase ali". Eventualmente encontramos um pequeno lodge no caminho e paramos para um ótimo café-da-manhã, com direito à repeteco e tudo, mas que demorou mais de uma hora pra ficar pronto.

 

Apesar das intermináveis horas de caminhada que pareciam partir de lugar algum pra chegar em lugar nenhum, eu gostei bastante da trilha até Junbesi, porque não envolvia MUITO sobe-e-desce, só o básico de forma que antes que o desespero batesse forte, o sentido da trilha mudava. Pelo menos não era nada parecido, nem de longe, com as temíveis e assustadoras subidas de Deurali e Sete. Me sentindo SUPER-MACHO outra vez, praticamente corri até chegar em Junbesi, mas não o suficiente para conseguir alcançar o atlético Marcéu..

 

Quando chegamos em Junbesi, que eu não gostei. A primeira coisa que reparei é que a vila está muito bem adaptada ao nível de turismo que iríamos ver depois de Lukla ($$$). A vila é bem cuidada e tudo. Um dia ou dois lá seriam bem gastos, mas também bem caros. Então resolvemos seguir para o EFVH (Everest First View Hotel, pensão que fica na encosta da próxima subida de onde se tem uma primeira vista do Evereste). Isso deveria ficar só um pouco além de Junbesi, só que isso de "pouco depois" não existe na trilha pro Evereste e a porcaria da coisa era numa subida, ainda por cima.

 

Então lá vamos nós, de novo, subindo e, de novo, o "pouco depois" se transforma numa subida sem fim, penosa e dolorosa. Encontramos algumas pessoas na subida, inclusive o dono da pensão pra onde íamos. E toda vez eu perguntava se faltava muito pra chegar. As respostas variavam de "quase lá" até diferentes estimativas de tempo, de "mais 10 minutos de caminhada" até " mais 1 hora andando". Em breve aprendi a dolorosa lição de que há uma diferença entre passo sherpa e meu passo, e a diferença era ENORME. Normalmente tinha de multiplicar o tempo dado por 2 ou 3. Então "mais 1 hora de caminhada" x 3 = "mais 3 horas de caminhada". Os tempos dados pelo LP e os tempos que eu estava conseguindo fazer também começaram a ser muito diferentes. Antes eram coisa de meias-horas. Agora era algo digno de respeito. Meu CARA-CABA-DA-PESTE-SUPER-MACHO-TREKKER começou a definhar. Epifania não estava longe...

 

Antes do hotel paramos numa casinha onde tinha uma mulher com uma criança de colo chorando os pulmões prá fora. A mãe nos viu e veio ao nosso encontro e disse: "do you smoke?" o choque de ouvir tal pergunta ali foi grande, tanto que não acreditei nos meus ouvidos e perguntei ao que ela se referia. Seu inglês era ruim, então ela achou melhor mostrar ao que ela se referia. Logo ali na frente da casa, um monte de pé de maconha! Por um momento achei estar de volta à Holanda. (pra quem não se lembra, "do you smoke" nas ruas de Thamel equivale à "do you smoke... mariuana" e é inevitável ouvir isso umas trocentas vezes por dia).

 

Duas horas antes do pôr-do-Sol, finalmente chegamos à pensão. O lugar era mais simples que supunha, mas era legal. Lugar legal, vistas magníficas, ventos gélidos. Peguei minha câmera em outra tentativa de a entender e conseguir algumas fotos do meu objetivo, o Evereste, apenas para constatar que o meu objetivo, o Evereste, não tava muito afim de sair de trás das nuvens. "Ah, bem... amanhã pela manhã vou tentar outra vez tirar foto do sujeito. Por agora, tomar banho e jantar um belo prato de arroz frito misto e um belo queijo de yak."

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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05tefvhnhuntalagompatrakshindu.jpg

Panorâmica de uma gompa, contrução religiosa onde as cinzas de lamas mortos são depositas, no passe Trakshindu, à caminho de Nhuntala. Lindas vistas de montanhas distantes. há uma pequena vila lá. 3071m.

 

Dia 05

 

Inicialmente, no conforto do lar e sentado ao computador, com mapas e guias abertos na minha frente, eu planejei fazer alguns treks secundários durante a parte Jiri-Lukla, mas agora eu estava tão cansado e com tanto medo que minha baixa prestação física comprometesse o trek como um todo que eu sacrifiquei esses treks secundários. Um deles era à uma fábrica de queijo de yak, mas esse não foi muito difícil de sacrificar pois envolvia uma extra subida na já exaustiva Subida de Deurali, que já era bem mais que o que eu poderia suportar naquele momento. Em Deurali e Sete eu fiquei física e emocionalmente exaurido. Nesses trechos eu simplesmente odiava o mundo.

 

Aos negócios:

 

Acordei bem feliz no EFVH [Everest First View Hotel]. Tirei fotos da magnífica fileira de montanhas ao norte, mesmo em frente à nós, com o Evereste incluso, apesar de sua aparição deixe parecer que ele esteja apenas fazendo uma ponta naquele espetáculo todo, de tão ao canto e pequeno que ele parece. Ilusão de ótica, pois ele está bem mais longe que as montanhas que parecem maiores.

 

Pegamos um café-da-manhã reforçado, mais algumas boas gramas de queijo de yak e, com banho tomado no dia anterior, me senti revigorado. Até então os banhos ainda eram baratos, então podíamos tomar banho todos os dias, situação que mudaria drasticamente alguns dias depois. Também não tínhamos de nos preocupar com comida porque era bem barata. Isso também estava fadado a mudar mais tarde, já em Lukla.

 

Com tudo pronto, vamos à trilha!

 

Depois do EFVH, a trilha é muito boa. Sobe e desce um pouco, é verdade, mas nada perto do que pegamos antes. Infelizmente as distâncias não mudavam e me pareceu que estávamos rodeando aquele morro à décadas até que finalmente a trilha começou a descer, descer, descer. Por essa altura Marcéu consolidou sua posição à frente e eu estava achando difícil ficar junto. Andar mais rápido era sem chance pra mim e ele se queixava que andar mais devagar faria-o cansar mais. Pegamos umas briguinhas na descida. Já tivemos brigas antes, mas na trilha isso era sempre sobre achar um denominador comum para nossos ritmos, de forma à permanecermos juntos. Só que ele estava bem mais em forma que eu e enquanto eu reclamava que muito rápido cansava mais, ele reclamava que muito devagar mais cansava. Era um beco sem saída e passamos boa parte da descida tentando convencer um ao outro que nosso ritmo era melhor. A situação não melhorou muito quando eu sugeri que a dor que ele estava começando a sentir no joelho esquerdo provavelmente era conseqüência do ritmo rápido com que ele descia os grandes degraus de pedra da ladeira.

 

Tudo que sei é que se continuasse a puxar muito meus limites, arriscava a ter um péssimo trek, sem poder apreciar nada da trilha e paisagens, pois estaria mais focado nas dores e cansaço, ou podia acontecer algo pior, como a AMS que tive no Lanjura la. Então quando chegamos ao fundo do vale e olhei para a subida que teríamos de fazer pra chegar a Ringmo, sabendo que aquilo era só a ponta do iceberg, já que a subida era até outro passe, com Ringmo sendo uma vila ainda no início da trilha até lá, fez-se luz na minha mente. Decedi que de jeito algum terminaria aquele dia como terminei no Lanjura lá, todo quebrado e exausto. Enterrei bem fundo o CABA-MACHO e aceitei que era florzinha mesmo e de forma alguma conseguiria manter nível com a estamina do meu irmão. Putz, que tou dizendo? Eu nem podia acompanhar senhoras perto dos 50 que estavam subindo aquela ladeira, quanto mais acompanhar o Marcéu! Tentei me convencer que não tinha nada de errado em ser um trekker fraco. Não fui bem sucedido, mas me fez sentir melhor comigo mesmo.

 

Então com uma última briga, eu e Marcéu nos divorciamos. A partir de agora cada um faria sua trilha separados. Ele poderia ir no passo dele e eu, no meu. Isso tudo começou logo na subida pra Ringmo. Todo mundo me passava. Marcéu subiu e sumiu de vista na escadaria. E eu estava estudando um novo jeito de andar, menos cansativo. Então descobri que os degraus da subida tinham pontos altos e baixos. Geralmente os yaks e carregadores já conhecem be esses caminhos e administram seu caminho de forma a não pegarem os piores pontos da trilha. Tentei fazer isso. Era estranho, porque as partes baixas dos degraus não eram umas à seguir às outras e muitas vezes eu tinha de percorrer o degrau no seu comprimento da saída de um ponto baixo até o seguinte. Deve ter sido esquisito a figura que tava fazendo, andando naquela subida aos zigue-zagues, aumentando em muito a quilometragem a ser percorrida. Mas querem saber? Funcionou maravilhas. Com passes curtos e aos zigue-zagues, cheguei lá em cima MUITO mais descansado que o costume. Minhas paradas também encurtaram bastante. Antes qualquer parada requeria uns bons minutos até conseguir recuperar o fôlego. Agora podia andar e andar sem precisar parar. Estava maravilhado e com lágrimas internas, meu eu interior aceitou sem vergonha a nova florzinha que tinha me transformado.

 

Sem viadagens agora...

 

O caminho pro próximo passe, o... deixa ver no guia LP... Trakshindu la, era agradável. Quero dizer, era dureza e o Sol nos assava sem misericórdia, mas comparando essa subida com as anteriores Deurali e Sete, e mesmo a do EFVH, essa era canja. Uma canja difícil de tomar, mas canja do mesmo jeito. Logo depois de Ringmo passamos umas casas que vendiam tortas. O LP dizia que eram tortas boas e resolvemos parar pra provar, já agora. Mas então os donos nos disseram que teríamos de esperar eles fazerem as tortas. Por essa altura já sabíamos o que isso significava: o "só demora um pouco" das cozinhas nepalesas são iguais aos "tá quase lá" que ouvíamos nas trilhas pra algum lugar: era sempre mais tempo que a frase fazia parecer. Então desistimos e fomos embora. Eu também não tava muito animado em perder meu recém-adquirido passo-yak. Fora as Rúpias que trazia, era a coisa mais valiosa que tinha no momento.

 

Como era de se esperar, Marcéu chegou no passe bem antes de mim. Sei lá, uma meia hora antes. Como ele andava mesmo depressa, fiquei pensando que a diferença não era assim tão grande, mas fiquei calado. Nosso ânimo pós-divórcio ainda estava muito frágil para falarmos de coisas muito sensíveis e termos como "andar", "passo", "cansaço" ou "tempo" ainda eram tabu.

 

Trakshindu la é bonito, mesmo não sendo um passe muito importante. A gompa e portão que estão lá são bem cuidados e valem muitas fotos. Mais montanhas aparecem. Tiramos várias fotos. Eu tirei umas fotos em panorâmica da gompa contra a luz, só pra descobrir mais tarde que panorâmicas não eram meu forte e deu um trabalhão pro Marcéu conseguir juntar aquelas fotos.

 

Depois de Trakshindu la rumamos para Nunthala. Ir pra Nunthala fez de mim um besta aos olhos de alguns locais, porque aparentemente o nome "Nunthala" quer dizer "depois do passe" ("passe" em nepali é "la"). Então lá ia eu, descendo depois do passe (nunthala) perguntando aos locais com quem cruzava se estava no bom caminho para ir para depois do passe (nunthala). Eventualmente uma alma caridosa se apiedou de mim e me explicou qual era a piada por trás de minhas sinceras perguntas.

 

No meio do caminho ladeira abaixo, visitamos um mosteiro que o LP fala. Lugar bonito, mas não senti grande coisa lá. Andamos por ele, tiramos umas fotos, vimos uns monjes dormindo ao Sol e pronto. Acho que gostei mais do dhal que comemos numa pensão ao lado do mosteiro que do mosteiro em si. Depois de um tempinho estávamos em "após o passe", Nunthala (dessa vez a vila que tem esse nome...). Talvez por ser descida e não ser longa, chegamos quase juntos, Marcéu e eu.

 

Foi um dia bom. Não estava cansado. Ou pelo menos não estava morto de cansado. Finalmente terminei o dia sem estar caindo aos pedaços. Meu novo passo me saiu coisa melhor em mais de um sentido.

 

Explico: uns meses antes eu comprei uma cargueira nova. É um Quechua Symbium 75+15 e tem um "novo e revolucionário" sistema de suspensão. Quero dizer, a alça que passa pelos ombros tem, no ponto onde se junta à base da mochila, um elástico super-forte. Esse elástico é suposto absorver os impactos dos passos, poupando os ombros e costas de receber todos os esticões que cada passo dado produz nas alças. Isso soa legal, né? Eu achei ser perfeito para um trek long, como o que ia fazer no Nepal e então comprei-a sem pestanejar. Claro que a testei na loja e me pareceu muito boa. Coloquei pesos, andei uns minutos por lá dentro. Me abaixei, levantei, balancei, etc. Ela parecia ideal.

 

Mas nunca testei a mochila à sério, num trek de mais de algumas horas. O EBC seria a primeira vez. Bem cedo descobri que o ajustamento do comprimento da mochila tava maus. Era muito grande pra mim e fazia o peso cair todo nas costas e ombros. Em "Small" (pequeno) esse ajustamento estava no limite do conforto pra mim. Teria de ter menos que "small" para ser bom. Como não tinha, tive de andar o trek todo tendo que ajustar a mochila toda hora, porque as tiras e alças afrouxavam e lá vinham 25Kg pras costas e ombros. As alças da cintura também estavam no limite mínimo, que praticamente esmagava minha barriga, mas era a única forma de fazer a carga cair pra cintura e não pros ombros. Fora isso, o "novo e revolucionário" sistema de absorção de impactos é UMA MER**!

 

Aquela bos** de elástico fazia minha mochila balançar de um lado pro outro CONSTANTEMENTE! Se eu me inclinasse um pouco que fosse, o elástico de um lado esticava e o do outro lado recolhia. Então TODA VEZ que eu me inclinava, a mochila continuava se inclinando mesmo depois de eu ter parado e lá vou eu atrás da mochila, perdendo equilíbrio e forçando pernas, costas e ombros desnecessariamente. Isso não era nada legal e nada engraçado e eu estaria preso àquela fdp de mochila por cerca de 1 mês!

 

Então essa é a outra razão pela qual meu novo passo era bom. Passos grandes e rápido faziam a mochila balançar e saltar feito uma bola. E eu balançar e saltar atrás dela. Com passos curtos e lentos, esse efeito era reduzido à níveis mais toleráveis e as dores, atuais e posteriores, eram bem menores.

 

Continua...

 

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Hendrik

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Marcéu admirando a altura no meio de uma ponte suspensa de 109m de comprimento, sobre o rio Dudh Kosi, quando seguíamos para Bupsa, nossa última pernoite ante de Lukla

 

Dia 06

 

Talvez agora eu possa dizer que já estava acostumado à trilha. Era uma espécie de sentimento de submissão, uma quase-religiosa aceitação do inevitável, do destino, da fatalidade, ou seja lá como queiram chamar isso. Era mais isso que realmente estar acostumado à trilha. Acho que falando a verdade, eu nunca me acostumei à trilha. Me acostumei ao peso da mochila sobre minhas costas, cintura e ombros, esmagando-os à cada passo; ao suor escorrendo sobre os olhos; à diarréia; à ser sempre o último a chegar onde quer que fosse. Essas eram as fatalidades que eu me acostumei a pensar que não poderia escapar.

 

Mas a trilha... isso era outra coisa. Após algumas horas andando, eu sempre acabava desenvolvendo a sensação que estava passando por algum tipo de punição, tipo um castigo que as mães botam os filhos prá cumprir em virtude de alguma diabrura que tenham feito. Mas ao contrário dos castigos de mãe, aos quais podiam escapulir, eu não via forma alguma de escapulir deste. Simplesmente tinha de aceitar a dor, o cansaço, o peso, a doença e as intermináveis trilhas como "faz parte" e continuar em frente. Agora eu entendo porque os livros e todo mundo que já foi lá me dizia que o fator psicológico era importante componente para se fazer este trek. Sem uma boa dose de determinação, esse trek é impossível.

 

O caminho para Bupsa é bastante... Nepal. É longo, cheio de sobe-desce, zigue-zagues e com um ponto de chegada que nunca chega. Mas posso dizer que era bem mais fácil que Deurali ou Sete, o que não é uma facilidade muito difícil de ser alcançada. Não devem ser muitas as trilha que podem se gabar de serem tão difíceis quanto Deurali ou Sete. Por agora podíamos ter subidas de 2 ou 3 horas. Deurali foi uma prensa de umas 5 horas em marcha forçada e Sete durou o dia inteiro e só pôde ser terminada no dia seguinte, também em marcha forçada.

 

A ida pra Khari Khola, vila antes de Bupsa, foi um pouco perturbadora para mim. Durante a parte inicial da caminhada eu podia ver Marcéu na minha frente. Depois eu o via de vez em quando por entre as árvores ou nalgum pedaço de reta ou curva muito mais à frente. Depois ele virou um ponto distante e sua posição estava estranha, porque me parecia estar nalgum lugar que eu não conseguia imaginar como sendo continuação da trilha onde eu estava. Então depois de umas horas aos zigue-zagues, lá estava eu no mesmo lugar onde o tinha visto. Esses zigue-zagues eram tão longos que passei a manhã inteira com a sensação de estar perdido. Felizmente tinha lido nos livros e na Net que bastava seguir a merd* na trilha. Normalmente isso funciona. Também resulta seguir o lixo, composto particularmente por embalagens plásticas de miojo (RARA), papel de bala e plásticos do tabaco que os locais cheiram, mastigam ou põe entre os lábios e os dentes.

 

Pouco antes de Khari Khola, no topo de uma cresta, há umas pensões, onde Marcéu me esperava. Certamente não lhe podia dar o prazer de reconhecer que meu passo era MUITO lento e nem por isso não estava me cansando tanto quanto se andasse com o passo dele. Então fiz um show mostrando que eu estava ótimo, nadinha cansado e "ei, que tal irmos até o topo daquela encosta?"

 

A parada foi curta e fomos logo pra Khari Khola. Tanto esta vila quanto Bupsa eram visíveis da cresta onde estávamos. Marcéu disparou na frente.

 

Por essa altura tinha conseguido convencê-lo que o primeiro à chegar aos lugares de refeição/pernoite, começaria a pesquisar por comida e alojamento. Ele não estava muito feliz em ter de falar inglês e acho que isso me custou algum ódio de sua parte, mas Marcéu sabe bem mais inglês que eu, apenas que tinha vergonha de praticá-lo. Foi um Evereste de brigas para fazê-lo ver que não era justo que tudo fosse resolvido por mim se ele chegava primeiro nos lugares e podia ir adiantando as coisas. Na verdade eu queria era que ele perdesse a vergonha de falar inglês.

 

Tínhamos walk-talkies com a gente. Como já estávamos longe de Bandhar, onde havia o perigo dos maoístas os confiscarem da gente, começamos a usá-los mais vezes para falar sobre preços e comida e andávamos com eles pendurados nas mochilas. Mal sabíamos nós que pela trilha até Bupsa também havia atividade maoísta. Alguns trekkers que encontraríamos no caminho mais adiante nos falaram de encontros com os rebeldes em Bupsa.

 

Só que a coisa começou a chamar a atenção dos locais, o que era normal. O problema é que meu inglês é ruim e o inglês dos locais geralmente ruim era. Então toda vez que alguém via o aparelho, vinha perguntar sobre ele e lá ia eu ter de fazer ginásticas com meu inglês de cáca para dolorosamente conseguir explicar o que aquilo era, como funcionava, pra que servia e não, aquilo não era um celular. Mais tarde passei a dizer: é um radinho, pra ouvir música.

 

Depois do almoço, durante o qual aproveitei para estender meu saco-de-dormir e me livrar de algumas pulgas que apanhei numa pensão de Sete e que têm me feito companhia nas frias noites desde então, respirei fundo e me preparei para a subida de Bupsa. Pelo menos AQUELA subida pude ver desde onde eu estava. Isso tipo que ajuda a moral da gente se podemos conhecer nossos inimigos com antecedência, né? Todas as subidas antes daquela eu me senti tipo que tomado de surpresa ou caído nalguma armadilha que o morro me tinha armado, como se fosse uma presa inocente indo pra dentro da caverna do leão sem saber do leão lá dentro. O sentimento de ter sido traído e enganado estava sempre lá, mas com Bupsa estava tudo bem. Eu vi a subida e sabia para onde estava indo. Até via a vila lá em cima. Senti-me em controle da situação.

 

Que ingênuo...

 

Claro, isso não era nenhuma Deurali ou Sete. Mas a subida levou-me umas três horas, acho. De novo as dimensões dos morros no Nepal me fizeram perder o sentido de tamanho e distância e a subida não era nada pequena...

 

Por agora já havia muita gente indo e vindo e fiquei com a impressão que os nepaleses gostam de fazer companhia aos turistas e acompanha-los em suas lidas, conversando enquanto nos acompanham. Só que eu mal podia andar e respirar, quanto mais ficar falando abobrinha! Como eles esperavam que ficasse de lero-lero com eles? O eu ser brasileiro não ajudou e estavam sempre falando de jogadores e ISSO é o campo de conversa do Marcéu, porque eu não sou grande fã de futebol, então não podia dizer muito mais que repetir: Rivaldo, Romário, Pelé, Ronaldinho! Só que como Brasil é sinônimo de futebol, minha ignorância no tema não lhes era credível e insistiam em falar de fatos do futebol brasileiro que me eram tão estranhos quanto se falassem das últimas aparições de sacis ou mulas-sem-cabeça no sertão nordestino. Creio estar mais preparado para falar dos métodos de como prender um saci do que o que Ronaldo estava fazendo, que provavelmente seria engravidando alguma loira, sei lá.

 

Eventualmente, sabem lá os deuses como, cheguei em Bupsa. Marcéu já estava lá, claro, conversando com uns caras sobre as lidas do futebol brasileiro. Exausto e com tudo doendo, eu explodi sobre os arranjos de comida e pensão, como tínhamos combinado mais cedo. Achei que ele estava se esquivando do acordo, mas ele me disse que tinha acabado de chegar também, que estava apenas recuperando fôlego depois da subida, que foi dura e longa e que eu deixasse de ser um cuzã*, pois certamente não esperava que ele fosse correndo prás pensões sem sequer descansar um pouco, não é? Bom, não foi bem assim que ele disse, mas chegou perto.

 

Eu tipo não acreditei que ele tivesse chegado quase ao mesmo tempo que eu e disse-lhe isso. Ele tinha passado o dia muito à minha frente e agora chegávamos quase ao mesmo tempo? Não pode ser. Então me dei conta que em caminhadas longas não fazia muita diferença à velocidade do passo.

 

Depois de esfriarmos as cabeças, fomos atrás de alojamento e comida. Achamos um na saída da vila, onde uma belga que encontramos em Bandhar estava hospedada. Lá tomamos banho para tirar a camada de suor e poeira e comemos feito yaks.

 

Em Bupsa assisti um dos mais belos pôr-do-Sol que já tinha visto. Era mágico. Aliás, o céu nepalês é mágico, de tão límpido que é. Espero que permaneça assim e que a ONU declare aqueles céus "Patrimônio Mundial".

 

Lukla está perto. Nosso "trek-preparatório" se aproxima do fim e eu estava feliz em pensar que até que enfim essa vida de cruzar montes e vales, sobe e desce intermináveis, iria chegar ao fim.

 

Que ingênuo...

 

Continua...

 

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Hendrik

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