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Olá viajante!

Bora viajar?

Nepal 2005

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Os protagonistas do trek durante a viagem de busão até Jiri. 10 horas sacolejando e tirando fino de precipícios, sendo que 8 delas viajando no teto. Marcéu é o que tirou a foto e cortou metade da própria cara.

 

Dias 00

 

O trek foi ótimo, ótimo MESMO. Nós andamos por 31 dias, de Jiri até o Campo Base do Evereste e com uma esticada até o vale do Gokyo. Tudo com picos extras e treks secundários que não estavam no programa inicial.

 

Kathmandu é uma cidade única e como tal tem um jeito único de ser. Thamel, bairro comercial de Kathmandu onde há a maior concentração de turistas, é sujo, confuso, poluído, com ruas estreitas lotadas de carros, riquixás, pessoas, bicicletas e motos. E é barulhento, já que todos lá dirigem com a buzina. Adoramos Thamel!

 

Os acordos nas compras de material que faltava para o trek começaram bem. É muito fácil barganhar em Thamel, mas é mais fácil ainda perder horas e horas do precioso tempo de suas preciosas férias conversando com os vendedores que, uma vez demonstrado seu interesse em algo, não mais o querem largar. Nas ruas também é mais certo que a morte você ser abordado por agentes de viagem ou algum dos seus capangas, ou se ver na vexante situação de ignorar os pequenos traficantes que o seguem perguntando "você fuma?" ou "mariuana, haxixe?". "Qual seu preço?" e "seu preço é meu preço" são frases comuns e que vai ouvir nas lojas e ruas. A menos que faça como alguns dos turistas que vimos e simplesmente pague pelo que lhe pedirem, o que considero tremenda burrice, mas enfim, a grana é deles.

 

Isso tudo serviu para que eu, após dois dias em Thamel, ficasse desesperado para iniciar o trek.

 

Então finalmente partimos num ônibus cujos bilhetes que nos tinham sido vendidos por preços exorbitantes estavam caducos e tivemos que comprar outros, por preços pouco menos exorbitantes. Ônibus nepalês é muito pequeno e nossas cabeças quase tocavam no teto. Pralém disso estava lotado e mais gente subia no caminho. O motorista nos disse que iríamos no teto, mas só depois que passássemos algumas barreiras do Exército, o que levou cerca de duas horas, horas essas em que passamos em pé e torcidos sem poder mexer nada nem ter onde nos encostar.

 

Ao se afastar um pouco de Kathmandu, duas horas depois de ter partido, o motorista pára a velha condução, e bota velha nisso, e diz que podemos ir pro teto, o que soou como música aos meus ouvidos e bálsamo às minhas pernas e costas entravadas. Enquanto subíamos ao teto, 80% do ônibus se meteu na mata pra tirar água do joelho. Parecia um bosque de cabeças. Praticamente não havia arbusto sem uma cabeça por cima dele.

 

Embora um pouco ventoso, viajar no teto foi fantástico e de lá tivemos nossa primeira, digo, segunda vista das montanhas (a primeira foi do avião). Era só uma, mas parecia um monstro se elevando do horizonte.

 

Passamos várias barreiras do Exército no caminho, mas essas não se preocupavam com gente no teto.

 

O ônibus segue zique-zaqueando morro acima e abaixo por cerca de 10 horas. Como a estrada é estreita, os finos são inevitáveis, sempre manejados com muita buzina, assobios, gritos e batidas na lataria dos ônibus. Numa das vezes nosso motorista arrancou o retrovisor de outro ônibus que estava "estacionado", porém ele nem parou e seguiu em frente. Acho que ele não queria perder o bom embalo que o ônibus tinha pegado. Aliás, ele não gostava muito de dar lugar aos outros ônibus que vinham em sentido contrário e cada vez que era mesmo necessário que um recuasse pro outro passar, uma pequena batalha de buzinas acontecia até que um dos dois desistisse. Para nosso orgulho o nosso ônibus estava equipado com um belo conjunto de sonoras buzinas e logo éramos campeões de "abre alas que eu quero passar".

 

Numa das subidas, uma de muitas e longas, um pneu furou e lá ficamos quase uma hora até ser trocado, operação que envolveu a gerência, observação e aconselhamento de muitos e o trabalho de poucos.

 

Já de noitinha chegamos em Jiri, após passar por uma última barreira de soldados, que anotaram nossos nomes. Em algumas outras barreiras todos tinham de descer e seguir em fila indiana até o controle e os turistas, nós, ficávamos no ônibus. Dessa vez tivemos de descer também, mas nos mandaram furar a fila e ir pra frente.

 

Após nos inscrevermos, fique de papo com um soldado lá, que recomendou alojamento e deu uns conselhos sobre os maoístas. Prometi que ia ter cuidado e agradeci a ajuda. Não falamos de política. Não acho saudável falar de assuntos polêmicos com alguém segurando uma metralhadora.

 

No ônibus, um dos donos de alojamento subiu conosco e nos pescou pra ficar em seu alojamento, o que, depois de saber sobre comida (repeteco no dhal?) e banho (incluído no preço?), aceitamos. Lá encontramos mais alguns trekkers. Um deles estava voltando e o resto, inclusive nós, estavam indo. O que estava voltando disse que não queria estar em nossa pele, o que não diminuiu nosso entusiasmo, mas foi um primeiro contato com as durezas que nos esperavam. O cara, Paul, tinha cara de exausto mesmo.

 

Banhos tomados e de barrigas cheias, fomos pra cama, ou melhor, pros sacos, ansiosos pela chegada do dia de amanhã, primeiro dia de um longo trek.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

Editado por Visitante

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Sumi por uns tempos mas sempre q vc posta eu leio viu??? Hehe!!

Vc devia escrever um livro!! Huahhahua!! Ta mto legal seu relato!

To ate salvando no pc pra qdo chegar a minha vez de sofrer...hauahua!!

 

[]'s!!!

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Beleza Hendrik!

 

Muito bacana a tua viagem...

em que época do ano voces foram? Que compania aérea e qual voo?

Se puderes me dar uma noçao de preco da viagem...

Valeu!!

Abraço

Bruno

  • 2 semanas depois...
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TA MUITO LOCO ESSE RELATO

TO RACHANDO O BICO....

QTO CUSTARAM OS HOTEIS NESSE TRECHO MAIS BARATO???

E A COMIDA QTO FOI????

 

ANO Q VEM É A NOSSA VEZ DE SOFRER....HEHEHHEHEHEHE

  • 1 mês depois...
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Desculpem a ausência. Fiquei sem Net e foi um samba do criolo doido prá repo-la.

 

Doug, os alojamentos de Jiri até Bubsa variavam muito. Algo entre 10 e 100 Rúpias. Digamos que 50 Rúpias. Mas isso é se você comer lá.

 

Nós comemos o mais barato, mas também variava bastante. Havia lugar onde o dhal era 60 e em outros, era mais de 100. Mas não se preocupe. Creio que com 3 doletas/dias se consegue fazer esse trecho (talvez mais agora). A concorrência é grande e até se arranja pensão onde o banho está incluso no preço. Questão de negocior, o que nossos confrades europeus e norte-americanos acham um pecado fazer, visto a situação miserável dos nepaleses. Infelizmente eles se esquecem que brasileiro também não é rico.

 

De Lukla em diante, a coisa fica feia. Aí você pode se preparar para despejar 10 doletas dia, ou memso mais. Em Tengboche, depois de Namche, o choque econômico é grande. Tudo muito caro. Sugiro dormir em Pangboche, umas 3 horas de lá e muito mais barato.

 

Dingboche também é aceitável e de qualidade. Chokung, Duglha, Gorak Shep e Dzongla são autênicos assaltos mão armada. Para ter idéia: uma garrafinha de água custava 50 Rúpias em Namche e 200 em Gorak Shep. Banhos à partir de Lukla só para ricos. Depois de muito chorar , Marcéu, meu irmão, conseguiu banho por 150 Rúpia em Dingboche. Um balde pequeno de água quente.

 

Todo mundo fala mal de Lobuche e Gorak Shep. Não achei esses assentamentos piores que os anteriores.

 

Dugla e Dzongla são autênticas titicas. Carríssimas e serviço horrível. Pratos de comida que não dá nem pro cheiro. Se tiver de parar em Dzongla, faça tudo prá chegar cedo e conseguir lugar no alojamento mais alto. Se possível, vá dormir em Duglha ou Lobuche. Se não, aguente.

 

Gokyo tem alojamentos fantásticos e preços módicos se comparados com pós-Tengboche. Ficamos no Cho Yu View, onde o quarto era de graça se comessemos por lá. Excelente lugar. Gokyo é muito melhor que o Khumbu. Gokyo ri é uma montanha muito mais interessante que a Kala Pattar. Seu cume é imenso e dele pode-se passar para vários cumes, assumindo que possua energia suficiente. Um passeio para os Lagos Sagrados superiores é altamente recomendado. Andar pela moraina por trá da vila é fantástico. Ficar vagabundeando nos imensos e ensolarados refeitórios dos alojamentos com um lago e montanhas belíssimos como vista, é impagável. Tudo regado com um chazinho de limão e uns biscoitos de côco. Ficamos 4 dias em Gokyo, mas podíamos ter ficado 10 sem problema. Há muito para explorar por lá.

 

Para quando está planejando ir? vai só?

 

[]'s

 

Hendrik

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Biradoo, fomos na estação alta, Out e Nov. Ficamos 40 dias lá, sendo 30 na trilha.

 

Fomos pela Gulf Air, voô saindo de Paris. Muita confusão.

 

Saimos da Europa, então custou-nos 1.600 Euros, as passagens. Depois devemos ter gastado mais uns 1.000 Euros por lá. Duas pessoas. Com presentinhos. Mas tem de negociar. Ouvir um preço e oferecer metade ou menos.

 

[]'s

 

Hendrik

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07dbupsaluklalukla0we.jpg

Primeira vista da vila de Lukla, foto tirada pelo Marcéu aquando de nossa aproximação desde Bupsa, depois de um interminável serpentear pelas encostas dos morros. Parece perto, mas ainda tinhamos algumas horas de caminhada até chegar lá. Lukla está à uns 2800m. A trilha que leva até ela pode ser vista no canto esquerod inferior da foto.

 

Dia 07

 

Não lembro que horas saímos de Bupsa. Acho que a trilha imediatamente após a vila obliterou completamente qualquer memória de tempo em mim. No seu início, a trilha Bupsa-Lukla é uma das mais agradáveis e fáceis de todo o trek. No meu "Top 5" de "Subidas Infernais", esse trecho inicial estaria no completo oposto de Deurali e Sete. Era um passeio no parque, ou seria um passeio no parque se não fosse pelos 25kg de inutilidades me esmagando ombros e costas. Os sobe-desce eram curtos, a encosta era bem sombreada, com eventuais raios de Sol passando por entre a folhagem, e dava pra ver, em muitas partes, o quanto alto estávamos. Lá embaixo o Dudh Kosi parecia um riacho. Não havia muita gente na trilha ainda (por isso acho que saímos cedo), então andava grandes espaços de tempo sem ver ninguém. Não poderia estar mais unido à Natureza, nem que saísse abraçando árvores.

 

Mal saímos de Bupsa e Marcéu, El Speed Gonzalez, já estava longe, longe, lá na frente. Devido às incontáveis curvas que as encostas faziam, cedo o perdi de vista. Estava contente por finalmente o trek ter entrado na fase Sul-Norte, percorrendo as cordilheiras no comprimento ao invés de ter de cruzá-las na largura. Achei mesmo que aquela vida de sobe montanha e desce vale tinha ficado pra trás.

 

Marcéu tava sempre cheio de energia pela manhã, enquanto eu preferia poupar pra mais tarde, mas tava achando que meu passo tava mesmo lento. Sem muito pra fazer, gastei parte da manhã tentando me convencer à não ligar pra essas coisas. Isso de "nossa trilha" não me pareceu correto. Era algo artificial tentar casar um grupo com uma trilha. Sendo cada um, um mundo à parte, me pareceu mais natural que cada pessoa teria uma relação pessoal com a trilha, então era a "minha trilha" e devia vivê-la como melhor pudesse, sem preocupação com ritmo, passo ou tempo. Esses eram meus mantras naquela trilha fácil. Nas duras só pensava em: dor, dor, dor.

 

Enquanto Marcéu parecia estar se adaptando bem ao seu passo ligeirinho, eu parecia estar cada vez mais dependente do meu passo-colapso. Então não tinha chance alguma de fazermos trilhas longas juntos.

 

Absorvido por esses pensamentos, nem reparei que um nepalês estava me acompanhando de perto, mesmo na minha cola, como uma sombra. Minha reação automática foi parar pra lhe dar passagem, achando que ele estava querendo me passar, como todo mundo me passava. Mas então ele parou também e ficou lá me olhando. Então cumprimentei e disse que ele podia seguir na frente, porque eu era muito lento. Ele respondeu que tava tudo bem, que ele também era muito lento.

 

Ele tinha um olhar e voz bem meigos, gentis, mas eu fiquei logo desconfiado. Já tinha tido companhia na caminhada, mas esse era estranho: não falava, não perguntava nada. Só ficava ali na cola da pessoa, com passos de gato. Éramos os únicos na trilha, não tinha mais ninguém. Finalmente tendo algo diferente para com que me preocupar, me esqueci de pensar em tempos e ritmos. A próxima hora, ou quase hora, foi então preenchida com pensamentos felizes do tipo: roubo, assassinato, espancamento ou que ganharia uma viagem só de ida até o fundo do precipício para ver se a água estava fria ou não.

 

Tá, já sei o que estão pensando. Marcéu também acha que sou meio paranóico. Mas tudo é válido se conseguir me fazer distrair das dores nos ombros e esquecer das 6 ou 7 horas de trilha que teria pela frente.

 

Fiquei então esperando que o resto da gangue saltasse em cima de mim na próxima curva.

 

Mas no fim, sem nada aparecendo, me cansei da brincadeira e parei numa pedra, me sentando e fingindo estar muito cansado e precisar de um descanso. O cara parou também. Disse-lhe que podia ir em frente, que eu estava muito cansado e ficaria uns minutos ali até recuperar, que ele não precisava se atrasar por minha causa.

 

Para minha paz de espírito, ele foi embora. Esperei uns minutos pra ele pegar uma boa distância e sumir de vista e, aliviado, retomei o trek.

 

Já à meio da manhã, após passar umas casas, desço uma pequena escadaria de pedra. Uma velhota sai de dentro de uma casa, me passa e começa a tanger um yak. O bicho tava ali na margem da trilha, pastando. A velha gritava e enchia o pobre de pedradas. Então ela se virou pra mim e começou a falar em nepalês, aos gritos e bem rápido. Fiquei com cara de quem tava vendo um ET. Então ela pegou em pedras e paus, apontou pra mim, jogou as pedras no yak, que se afastou um pouco, e apontou pra mim de novo. Enfim entendi: ela queria que eu fosse tangendo a vaca até a próxima aldeia.

 

Foi assim que arranjei trabalho no Nepal: pastor de yak. No início, tudo bem. Eu ia andando, jogava umas pedrinhas no bicho, às quais batiam no chão (as dos sherpas passam zunindo e batem em cheio no lombo dos bichos), o bicho andava uns metros, parava, pastava, eu chegava, jogava mais umas pedrinhas, o bicho, etc, etc, etc...

 

Até uma hora em que o animal subiu uma encostazinha e se pregou ali a pastar. Minhas pedras não surtiram efeito, então como não estava muito afim de caçar yak pelas encostas do Himalaia, me demiti do meu emprego e segui em frente.

 

Perto das 11, ou meio-dia, sei lá, Marcéu me chama pelo rádio e diz que tá vendo Lukla. Ele tava com um cara ao lado, um nepalês, que lhe disse que aquela era Lukla. Massa, pelo menos ELE tá perto. Só que como ele pode estar de meia à três horas à minha frente, não me animei muito. Meia hora depois, quando dobrava uma das encostas, vi uma vila grande lá na frente, bem distante, construída num declive suave de uma encosta grande. Pousei a mochila e fiquei à espera de ver aviões chegando ou saindo - o pano de fundo sonoro nas manhãs entre Jiri e Lukla são os bimotores indo e vindo de e para Lukla - mas não vi ou ouvi nada, o que não quer dizer muita coisa, já que à partir do meio dia não há mais vôos, devido ao tempo. Neblina e nuvens baixam e não dá pra ver as montanhas, então não dá pra voar.

 

Um grupo de nepaleses vem em minha direção no sentido contrário. Pergunto-lhes se aquela ali é Lukla. Eles dizem que não, que é Puyam, uma vila que está descrita no LP como sendo antes de Lukla e que teria de passar para chegar lá. Ora bem, parece que ainda tenho muito que andar até estar onde Marcéu disse ter visto Lukla...

 

Andei, andei, andei e andei... Marcéu liga de novo, perguntando sobre almoço. Eu digo-lhe o que quero, mas que ia demorar ainda pra chegar lá, pois ainda não tinha sequer visto Lukla. Talvez mais umas 2 horas de caminhada e chego lá, eu disse pra ele enquanto pensava pra mim mesmo: duvido muito.

 

Acho que não deu 10 minutos e me aproximava de um alojamento solitário numa curva da encosta. Mas no muro dos carregadores (todo lodge tem um murozinho em dois níveis onde os carregadores colocam seus balaios pra descansarem um pouco) o que eu vejo? Uma mochila familiar... Será? Não, não pode ser... Ele tá longe pacas, horas e horas à minha frente. Então ao passar pelo terraço que o alojamento tinha, o que vejo? Marcéu e... o homem-sombra! O cara que Marcéu falou ter lhe dito sobre Lukla era o mesmo que estava comigo horas antes!

 

Perguntei então onde raios estava Lukla e o que ele tava fazendo com aquele cara. Marcéu então apontou Lukla (Puyam, segundo o que me tinham dito) e disse que o cara tinha colado nele umas horas atrás e que era gente fina, apenas um pouco esquisito. Não quis revelar minhas preocupações paranóicas sobre as intenções secretas do cara, então diverti a conversa para a localização de Lukla. Achei impressionante que os nepaleses que tinha encontrado não sabiam que aquilo era Lukla, não Puyam.

 

Já agora, alguém viu Puyam? Eu não vi nada...

 

No alojamento pedi um arroz frito mixto. Foi um dos melhores que comi no Nepal: porção generosa, gostoso e barato. Mal sabia eu que isso se tornaria uma raridade nos dias que se seguiriam.

 

Do alojamento dava pra ver a próxima vila, Surkhe, lá embaixo. Também dava pra ver a trilha pra Lukla e ela estava muito acima de Surkhe. Não podia acreditar que teria de descer tudo aquilo até Surkhe e então subir tudo aquilo até a trilha. De onde estávamos era só ir em linha reta até a trilha, não era?

 

Claro que não era... Nós tivemos de descer até Surkhe, para então subir tudo aquilo pra chegar à trilha. Por essa altura já não estava satisfeito em sofrer nas grandes subidas e comecei a desenvolver um sofrimento para as descidas também, porque invariavelmente longas descidas possuem um único significado: longas subidas logo a seguir.

 

No fim de Surkhe, ainda em descida, tinha uma placa numa bifurcação da trilha: em frente, para Chablung, descendo ainda mais; à direita, para Lukla, subindo e subindo. O caminho para Choblung era uma tentação, mas queria passar por Lukla pra confirmar o vôo de regresso. Com um último olhar arrependido em direção à fácil trilha de Choblung, fui pra Lukla.

 

O homem-sombra agora já podia escolher entre Marcéu e eu, então ficava revezando em quem ele colava. Reparei que ele seguia a pessoa de perto para poder ficar imitando-nos, tipo as brincadeiras de pirralho que tinha na rua, antes de inventarem o Atari. O cara pisava onde eu pisava e passava onde eu passava. Fazia o mesmo com Marcéu, que me contou isso mais tarde. Numa das subidas da trilha, carvada na rocha, achei que devia entrar na brincadeira e comecei a andar aos zigue-zagues, pisando em lugares mais difíceis nas pedras, etc, o que ele copiaria logo em seguida. Se não fosse pelo peso da minha mochila, seria mais divertido. Só que o cara só tinha uma mochila de escola e eu, uma cargueira enorme. Parei de brincar logo, morto de inveja daquela mochilinha. Algumas vezes o cara se adiantava e parava pra conversar com amigos que ia encontrando, para depois nos alcançar mais tarde.

 

A subida pra Lukla propriamente dita é curta, mas mortalmente curta. Marcéu não desapareceu de vista, o que era sinal que a coisa era séria mesmo, que aquela subida não era brincadeira. Pode não ser longa, mas é íngreme e poeirenta. Agora sabia porque muitos nepaleses tinham lencinhos. Eram usados para proteger boca e nariz da poeira das trilhas. Me arrependi de não ter nada similar.

 

Encontrei algumas patrulhas do exército. Os caras apareciam do nada, saindo do meio da mata, silenciosos como gatos, carregando grandes armas. Ao invés de sentir segurança, senti foi medo. Torci para que nenhuma emboscada maoísta escolhesse aquele momento para iniciar algo estúpido. Não seria divertido ser apanhado no fogo cruzado desses soldadinhos de chumbo.

 

A subida levou umas duas horas, sob Sol forte e pó. Enfim cheguei aos pés do aeroporto. Um pouco acima, a verdadeira Lukla aparecia. Não gostei dela. Na rua principal, me senti olhado por locais e turistas como sendo uma ave rara. Acho que era o suor e sujeira que nos cobria, pois havia grande diferença entre nós e os que chegavam de avião, limpinhos e cheirosos.

 

Pensão, pensão! Achar pensão! Na primeira que Marcéu foi, vimos logo que a realidade logística tinha mudado. Tudo era MUITO mais caro que até então. Estava tão cansando que quando fui perguntar em outra pensão e ouvi o preço alto, disse logo que não tínhamos vindo de avião de Kathmandu, que tínhamos vindo de Jiri, então que nos desse um preço melhor. Não me pergunte sobre a lógica do argumento, mas funcionou, pois acabou que pegamos uma suíte com duas camas por metade do preço, banho incluso e, muito importante, direito a repeteco no dhal.

 

Exaustos do dia e da subida, tomamos banho e fomos conhecer a "cidade". Cedo voltamos à pensão, para começar algo que seria rotina: jogar truco até hora do jantar. Quer dizer, eu perder no truco até a hora do jantar.

 

Tinha pouca gente na pensão. Num quarto contíguo ao refeitório estava um japonês que tinha ido só até Tengboche. Toda vez que ele saia do quarto, para falar com seu guia ou comer, ficava fazendo alongamentos no meio da sala.

 

Embora tenhamos chegado cedo à Lukla, antes da 16h, acho, a agência de aviação que iríamos usar pra volta já estava fechada, nos disse um cara da pensão. Fiquei de ir lá no dia seguinte, quando partíssemos para a etapa seguinte do trek. Afinal, tinha ido pra Lukla só por causa dessa confirmação, pois o cara que nos tinha vendido o bilhete era meio malandro e já nos tinha vendido bilhetes errados para o ônibus, vivia querendo empurrar coisas caras e enfiou comissão em tudo que é servicinho que fez. Por isso queria confirmar se os bilhetes eram válidos mesmo.

 

Continua...

 

Hendrik

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Para quem não notou, editei os posts para adicionar fotos. Cada dia, uma foto desse dia.

 

[]'s

 

Hendrik

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08aluklachomoatharokosi0yc.jpg

Tharo Kosi, vila no fundo do vale após descer de Lukla. Muita gente para ali para descansar, principalmente os despreparados trekkers que chegaram em Lukla de avião. Ficam lá debaixo de sombrinhas, tomando Coca e vendo uma montanha na frente. Chamei essa vila de Tharo Kosi Beach, pois era isso que parecia. Foto de Marcéu.

 

Dia 08

 

Em Lukla começamos a praticar uma nova forma de dar início aos treks: mais tarde.

 

Normalmente, começamos o dia bem cedo, digamos lá pelas 6 da manhã. E isso se refere ao principiar da caminhada. O acordar é mais cedo, lá pelas 5 da matina. A partir de hoje e de agora em diante, o ACORDAR será lá pelas 7, num dia "normal", onde não teremos de fazer muito.

 

Fiquei meio preocupado comigo, porque me revelei um andarilho MUITO lento, então fiquei com medo de não ser capaz de finalizar o dia, alcançando o objetivo estipulado para ele. Sabia que o Marcéu, meu irmão, não teria problemas alguns com a nova hora, porque ele é bem rápido, mas eu...

 

"Veremos" é meu lema, então deixei para descobrir isso mais tarde.

 

Foi ótimo acordar mais tarde. Comecei a sentir que estava realmente de férias e tudo, o que é bem fácil de esquecer num longo trek no Nepal, especialmente num LONGO, ÍNGRIME, INTERMINÁVEL e ESCALDANTE subida, tipo Deurali ou Sete.

 

Mas então, acordamos tarde, tomamos uma bela ducha, a última grátis pelo resto do trek, café-da-manhã, arrumamos tudo, pegamos a trilha e... voltamos porque nos esquecemos de escrever e-mails para nossos pais e amigos, dizendo que estávamos vivos e ainda na trilha certa, o que, por si só e considerando os últimos dias, eram pequenos milagres, pelo menos no meu deplorável caso. Foi um e-mail bem caro, num tipo de "resort", tanto que Marcéu, ao ouvir o preço, achou que era por hora e não por minuto.

 

Enquanto ele escrevia os bits mais caros de nossas vidas, eu permaneci do lado de fora olhando o movimento. Muitos trekkers recém-chegados de avião passavam pela trilha com grandes sorrisos nos rostos, falando alto e andando com grandes, espaçados, determinados e firmes passos. Sorri para mim mesmo pensando o quanto desse estado iria sobreviver depois da primeira subida séria e o quanto eles se pareciam comigo mesmo uns dias antes, ao sair de Jiri e antes de ser apresentado à Deurali. Era como estar a me ver num espelho refletindo o passado. Mais tarde eu os encontraria bufando pela trilha, em atitudes bem mais modestas que as que agora mostravam.

 

Quando Marcéu terminou o e-mail e deixou nosso cofrinho um tanto mais magro, iniciamos o trek... outra vez.

 

Às "portas" da vila alguns soldadinhos estavam sentados numa mesinha fazendo o que me parecia ser a contagem de trekkers que saiam e entravam. Pelo menos o que aparentava saber segurar um lápis colocou uma marca num livro quando eu passei. Só espero que seja isso e não alguma notação para "suspeito".

 

Como usualmente tem ocorrido durante o trek, Marcéu ativou seu sistema turbo e me deixou a comer poeira. Não voltaria a vê-lo até a hora do almoço. Não que, ao contrário da parte Jiri-Lukla, eu não teria entretenimento contínuo daqui em diante. Agora teria MUITA coisa para ver e, para ser mais específico, para me prevenir. As hordas de yaks, grupos organizados de trekkers e carregadores seriam uma constante pelo resto do dia. Eu iria ter saudades da solidão que tinha até então.

 

A primeira hora da trilha é uma descida agradável, embora um tanto longa e íngreme, o que é mau pros joelhos. Está relativamente bem feita com pedras, pelo menos parte dela. O problema maior que achei foi o pesado tráfico de carregadores, trekkers e yaks que me forçavam a constantes desvios e a respirar poeira levantada pelos seus passos. Se não fosse isso, seria um grande início de manhã.

 

Numa das curvas da descida, que como toda descida e subida nesse trek seguiam em zigue-zagues intermináveis, escutei o inconfundível som de sinos que os yaks levam pendurados ao pescoço. Senti-me feliz por poder enfim por em prática os ensinamentos do LP. Portanto me coloquei do lado interno do caminho, contrário ao lado que dava para o barranco, e esperei que as bestas passassem, só para descobrir que as (estúpidas) bestas TAMBÉM dão preferência ao lado interna da trilha. Acho que eles também se dão conta que por ali é mais seguro de andar. Só que ao fazerem isso transformaram esse lado num lado bastante inseguro... para mim. Um pontiagudo chifre passa a uns 3 cm da minha barriga, para minha surpresa e desespero. Sempre achei que os yaks, como qualquer outro tipo de bovino de carga, ao menos tivessem alguma capacidade de reconhecer coisas ao seu redor, tipo um trekker se espremendo contra uma parede tentando não ser espetado ou pisoteado. Sobrevivendo à este primeiro embate, eu passaria a ter muito cuidado em prestar mais atenção em qual o caminho que os yaks estão usando de modo a poder me colocar ou usar o caminho mais longe deles possível, mesmo se fosse o mais próximo do barranco ou mais difícil de andar. Lição do dia: yak tem sempre razão.

 

Eles são animais bastante domesticados e mansos, mas acho que possuem uma ligação neural disposta de tal maneira que interessantemente são incapazes de desviar ou parar quando avançando em direção à trekkers que cometem a fatal distração de estarem em seu caminho ou direção. No entanto quando somos vistos por eles, seus olhos manifestam um total terror por nós.

 

Ou talvez seja apenas eu que precisasse de um banho e barbeada...

 

Assim que a ameaça à saúde me passa, sem levar consigo alguns meros dos meus intestinos, eu recomeço o trek.

 

Após passar a longa vila de Chablung, vejo-me numa estranha picada. Estranha porque não tinha qualquer aparência de ser a trilha principal. Parecia uma picada mesmo, recém aberta à facão. Com medo de estar perdido, mandei um toque ao Marcéu pelo rádio, perguntando sobre a trilha. Ele responde que mais tarde há qualquer-coisa-cartão. O que? Como? O-que-cartão? Ele responde: "Não, não! Um bla-bla-bla-cartão." Achei que ele estava com problemas com algum posto de controle policial ou do exército e perguntei que cartão era esse. Ele fala de novo que é um sei-lá-o-que-cartão. Tão a pedir algum documento para ele que não vem mencionado no LP? Respondo que fique onde está que já estou chegando e, em vista da evidentemente infrutífera capacidade de saber sobre o caminho, sigo por ele mesmo até achar alguém que esclareça isso para mim. Não acho ninguém, o que nesse caminho é fora do usual, o que reforça meus temores de estar no caminho errado.

 

Então chego numa bifurcação e chamo Marcéu outra vez prá perguntar que caminho ele seguiu, se o da esquerda, para baixo, ou da direita, em frente. Então ele responde que era disso que ele tava falando antes e fez-se luz na minha mente. Não era de qualquer-coisa-cartão, mas sim de "bifurcação" que ele estava falando e qual ele tinha tomado. Troquei as bolas.

 

Segui para baixo pela trilha da esquerda, mas logo estava em dúvida sobre ser correta mesmo. Era absurdamente acentuada, estreita e composta por areia solta que achei ser impossível ser aquilo uma trilha usada por milhares de turistas todo ano. Me parecia mais uma "quebra-perna" que outra coisa. Se alguém fizesse um sério pipi ali, certamente destruiria a trilha. Com 25 kg de preciosa e inútil porcaria na mochila, comecei a imaginar em que condições conseguiria chegar lá embaixo ou se mesmo conseguiria chegar lá embaixo. De alguma forma, a visão de ontem do trekker sendo carregado numa maca improvisada por nepaleses por ter quebrado uma perna começou a fazer mais sentido agora. Os bastões se enterravam vários centímetros na areia fofa antes de eu sentir alguma firmeza neles e arriscar outro passo. Finalmente encontrei mais trekkers usando a trilha, principalmente a subi-la, o que faziam com imensa dificuldade. Um cara gordão estava subindo com dois nepaleses, um acima e outro abaixo, ambos bastante apreensivos. O nepales de cima apreensivo com a saúde do seu cliente e o de baixo, com os braços esticados como se estivesse pronto para segurar o gordão caso ele escorregasse, parecia mais apreensivo com a própria saúde. Não creio que ele conseguiria fazer qualquer coisa para segurar o gordão caso ele escorregasse.

 

Eventualmente cheguei lá embaixo e vi a razão daquela trilha ser tão imprópria: uma ponte tinha sido levada por um deslize e estavam a fazer outra. Quase que rezo para que estivesse pronta dali uns 20 dias, quando viesse de volta do trek. Pouco depois cheguei à vila Tharo Kosi. Marcéu já estava chegando em Phakding, vila bem mais a frente.

 

Me desculpem os que estiveram por lá e gostaram de Tharo Kosi, mas eu achei meio comicamente patética a quantidade de sombrinhas levantadas lá, cheias de trekkers bebendo suas Cocas e cervejas, olhando uma montanha em frente à vila. Não consegui deixar de relacionar a imagem à alguma praia. De minha parte, a hora do almoço estava chegando perto, ao contrário de mim, que não estava nada perto de Phakding, onde tínhamos combinado almoçar. Então não me juntei ao grupo do Kosi Beach e fui em frente.

 

Em frente ido, descobri a razão de porque tantas pessoas paravam para descansar em Tharo Khosi: há uma subida logo na saída da vila que é tão inclinada que chega a ser ridículo. Suspirando feito um pobre mortal diante da concretização de alguma inevitável maldição lançada contra ele por alguma deidade todo-poderosa e psicopata, simplesmente comecei a subir aqueles degraus infernais. Em breve entrei em "modo yak" e lá pelas 14h estava em Phakding, onde colapsei aos pés de Marcéu, que por essa hora estava bastante descansado, muito obrigado.

 

300 Rúpias por um dhal bhat!!! PQP!!! Por que simplesmente não apontam uma arma para nossas cabeças e esvaziam nossas carteiras? Não conseguia decidir se o dono estava tirando onda com nossa cara ou estava sendo sinceramente um ladrão. Ele disse que é o preço padrão por lá, então Marcéu achou melhor procurar um lugar menos padrão. Ao ver isso, o patrão deu uma modesta reduzida e concordou com o repeteco. Não era o ideal, mas era bem melhor. Marcéu é bom negociador, então comemos lá mesmo. E eu estava faminto, o que dizem ser um bom sinal de aclimatização mas era um péssimo sinal para nossa grana.

 

Com dois pratos de dhal no bucho, o resto do caminho pareceu bem mais fácil, então fizemos um bom tempo até Chomoa, vila onde dhals e banhos não tinham seus preços padronizados. Bem mais caros que em Jiri-Bupsa, mas mais baratos que em Phakding. Não irei me queixar dos intermináveis sobe e desce que tivemos de passar para chegar lá, porque a essa hora eu suponho que já se saiba que quando digo que fomos de tal lugar para tal lugar, está implícito que fomos subindo e descendo de tal lugar para tal lugar.

 

Mas nessas trilhas pós-Lukla, a poeira na trilha, ou trilhas de poira, se tornam mais e mais comuns, então acho sumamente aconselhável que quem for lá que compre uns lencinhos ou leve máscaras para cobrir pelo menos o nariz e filtrar um pouco do ar que respira. Tem trechos onde senti que poderia cuspir tijolos ao fim de algumas horas andando por eles.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Buenas Hendrik!

 

Bem vindo de volta.

Estou acompanhando o seu relato de perto e me divertindo com as suas lembrancas, ao mesmo tempo que vou tracando um paralelo com as minhas.

Estarei finalizando um trabalho que se der certo vai ser muito legal, sobre a trilha e meus dias no Nepal.

 

Um grande abraco!

 

Vinicius

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Ôpa, Vinícius!

 

Valeu pelo retorno. É bom saber que alguém está apreciando nosso trabalho e couro deixado nas trilhas do Nepal. Mal posso esperar para ver seu trabalho terminado. Cetrza que será show de bola.

 

Agora, outro dia:

 

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09bchomoanamcheentradaparqueev.jpg

Nossa triunfante entrada no Parque Nacional Sagarmatha.

 

Dia 09

 

A noite em Chomoa foi boa e tivemos a oportunidade de entrar em contato com uma das ocorrências mais típicas do Nepal: os grupos organizados. No caminho de Jiri, nos encontramos com um grupo, mas eram apenas amigos que contrataram um guia. UM guia. Eram pessoas legais e eram máquinas de caminhar. Eles estavam a dias à nossa frente e quando chegamos a Pangboche, vila ainda há muitos dias de Lukla, voltamos a cruzar com dois membros desse grupo, VOLTANDO do trek.

 

Voltando ao assunto, os grupos organizados são... estranhos. E peço desculpas em antecipação se disser algo que vá ofender alguém adepto desse... estilo de trek. Sei que esse tipo de assunto é bastante sensível. Contratar guias, carregadores, pechinchar nas pensões, ir em grupos, independente ou por que cargas d?água você resolveu ir ao Nepal se tão perto de você, no seu próprio país, há centenas de belos lugares para visitar e caminhar. Tudo são questões pessoais que devem ser adotadas ou recusadas de acordo com o estilo de cada um. Não creio que caiba a qualquer um emitir julgamentos nesse campo, se não há prejuízo para terceiros ou para o meio ambiente. Então o que direi é minha opinião pessoal, óbvio. Só serve prá mim e mais ninguém.

 

Entendo a contratação de agências para organizar suas aventuras, ainda mais se ela envolver tópicos para os quais não estamos preparados ou não podemos tratar de alguma forma. Pessoalmente acho que isso retira um tanto da realização pessoal, da satisfação de ultrapassar obstáculos. Enfim, o que não consegui superar foi ver esses chamados grupos organizados, que são as pessoas que pagam às agências de turismo lhe arranjarem TUDO para o trek, se comportando nos alojamentos como se estivessem a fazer algo muito selvagem num lugar muito selvagem, numa clara atuação de que são trekkers fazendo uma expedição extrema. Chega a ser cômico assistir à esses espetáculos, de tal forma que não chego a perceber se eles estão tentando se convencer que estão realizando uma gigantesca aventura ou se estão se exibindo para quem estiver assistindo, isto é, nós.

 

O grupo que encontramos na pensão de Chomoa devia estar um tanto desapontado pela magra audiência que tinham no seu alojamento. Apenas Marcéu e eu, ambos aguardando famintos que a janta chegasse. Mas eles armaram o circo de qualquer forma, então tivemos de ouvir pelas próximas duas horas o quanto eles eram ?extremos? (para citar suas palavras), a grande e selvagem aventura que tinham vivido nas últimas duas semanas ao irem ao EBC E Kala Pattar (por favor, reparem com cuidado no ?E?, pois eles tiveram muito cuidado em enfatizá-lo, talvez na esperança que algum dia alguém, tipo eu, pudesse espalhar esse impressionante feito mais tarde, o que procuro fazer, devotamente, agora), o espantoso total de quilômetros eles subiram e desceram desde Lukla, colhidos e gravados fielmente por um dos membros que possuía uma enorme máquina no pulso para esse propósito e sim, por favor, nós aceitamos um pouco mais de chá e biscoitos, servidos por uns quatro rapazes locais que os serviam, enquanto o resto da armada que os servia estava lá fora, armando-lhes as tendas e preparando-lhes o jantar.

 

Ora bem, esse tipo de grupo são apanhados no aeroporto de Kathmandu e não tem de se preocupar com nada. São postos num hotel previamente arranjado. São postos num avião para Lukla. São apanhados lá e postos numa pensão já arranjada. Suas coisas são carregados por outros e seguem os passos dos guias sem darem dois passos sem os mesmos. Durante todo trek, onde ficarão, onde irão, o que verão e comerão, tudo está pré-determinado. Suas tendas são armadas por outros. Suas refeições são cuidadas por outros, inclusive o pedi-las e servi-las. Quero dizer, o que raios essas pessoas fazem?

 

Deixando Chomoa e seus bravos hóspedes aventureiros para trás escovando seus dentes numa baciazinha de água morna, uma para cada, dispostas num murozinho, com toalhinhas e sabonete ao lado, tudo preparado pelos seus serviçais, seguimos para a próxima vila, Monjo. O Sol estava nascendo algures por essa hora e tínhamos subido uma não tão simpática bom-dia-encosta, por isso achei que seria uma boa desculpa de parar para descansar se eu fizesse de conta que estava interessado em fotografar a montanha em frente, a qual não saiu grande coisa, pois como eu disse o Sol estava ainda para sair de trás de alguma montanha e o fotógrafo, eu, não é grande coisa.

 

Em Monjo vimos alguns trekkers a acordar e sair dos alojamentos. Achei que estavam a sair, pois nos saudaram com um ?namastê?, mas não tive tempo de parar para conversar e saber, pois estava muito ocupado tentando desesperadamente ficar perto de Marcéu, de maneira a entrarmos juntos no parque (o Parque Nacional Sagarmatha, claro). Tal empreitada exigia-me apreciável montante de energia e realizei com horror que eu teria o resto dia consideravelmente fud*** mais tarde por causa disso. Grandes gastos de energia pela manhã = arrastar-se pelas encostas pela tarde, por falta de forças.

 

Com tais felizes pensamentos em mente, chegamos à entrada do parque. Marcéu, mais uma vez provando que consegue falar inglês quando quer, indagou sobre se já tinha passado muitas pessoas até agora. Éramos os primeiros a entrar. Não sei porque isso era importante, mas eu não me senti menos cansado ou minha mochila menos pesada, então classifiquei essa informação como inútil.

 

Fui apresentar minha entrada, um certificado de pagamento de permissão para fazer trekking no parque. Tinha na memória os bilhetes de ônibus errados que nos foram vendidos e tinha medo do mesmo ocorrer com as entradas agora, comprometendo seriamente nosso futuro suplemento de biscoitos de coco e diminuindo de forma efetiva tanto a freqüência quanto a quantidade de nossos atos consumistas. Felizmente estava tudo em ordem, portanto teria de achar outra coisa para ocupar minha mente pessimista pelo resto do dia.

 

Tinha esperanças que Marcéu fosse perder algum tempo cuidando de sua entrada, de forma que eu pudesse recuperar o fôlego e fazer alguma coisa ?irmanica?, tipo encher sua mochila de pedras e barras de ferro, de modo a ter alguma chance de chegar primeiro em Namche. Mas acontece que Marcéu estava mesmo determinado em ser um trekker sério e nem sequer tirou a mochila para apresentar os papéis e eu fui deixado como prêmio de consolação o velho truque de pegar a câmera para tirar fotos do momento, ao invés de perpetrar qualquer ação maquiavélica. Nela estou fazendo um positivo sinal de vitória, embora positivismo não condissesse com as dores nas costas, e assim consegui tapar o rosto de Marcéu. Um ?acidente?, claro... Fora isso a foto ficou meio desfocada e escura, o que veio a requerer um tratamento intensivo de ACDSee, que também não resultou muito bem, já que também sou daltônico.

 

Achei que após cruzar os mágicos portais do parque, nós seríamos instantaneamente transportados para Namche. Não que não foi legal andar pelo vale e cruzar todas aquelas pontes suspensas, escutando o rugido do rio e tudo mais. Foi legal, mas não foi legal. Legal porque era plano e tinha aquelas coisas todas. Não foi legal porque era muito curto. Muito antes de poder aproveitar bem essa pausa, dei de frente com uma ponte esquecida pelo tempo, a qual quase examinei detalhadamente em busca de algum aparelho anti-gravitacional que me explicasse racionalmente o fato visivelmente impossível dela se agüentar ali pendurada. Não tendo achado nada, apenas tinha de confiar na ausência de corpos esparramados no fundo do vale como prova de que a ponte não iria se desmanchar no momento que eu pisasse nela. Então a passei. Já tinha cruzado pontes de madeira antes, mas não suspensas e certamente não com aquela altura toda.

 

Após cruzar a ponte magicamente suspensa, há uma pequena escadaria feita inteiramente e nada além de mer** de yak. Rezam as lendas e mitos locais que há pedra e cimento por baixo daquele monte de excrementos bovinos, mas acho que se trata de uma fábula criada pelos locais com o propósito expresso de nos acalmar ou rirem às nossas custas. O fato é que há apenas e unicamente bos** naquela escadaria. Sorte minha que era uma manhã fria (sorte nada, todas as manhãs são frias por lá) e por isso os dejetos estavam meio congelados, e meio fedidos também, o que me poupou de afundar-me neles até a cintura. Mas por estarem geladas, as fezes estavam também muito escorregadias, e escorregando lá vou eu por dois ou três degraus até conseguir parar, estabilizar, me levantar e olhar em volta para ver se alguém tinha testemunhado minha vergonhosa queda e escorregada no esterco. Naquela hora da manhã, notei que minha vergonha foi assistida por zero pessoas, o que impediu que os danos sofridos pelo meu ego fossem piores que os anteriores.

 

Feliz por meu breve e lúdico entretenimento no estrume não ter sido visto por ninguém, continuei meu caminho, desconhecendo que estava exibindo uma longa e larga faixa de esterco na minha mochila, como um sinal claro de não só onde estive, como o que estive fazendo onde estive. Não que tinha a ilusão de não cair durante todo o trek, mas sempre achei que tal se daria sobre algum monte, por cima de poeira e pedras, de forma a poder mostrar mais tarde as gloriosas impressões de um trekking sério, que levaria com honra e orgulho pelos alojamentos do Nepal para a inveja de muitos trekkers inexperientes que não possuiriam essas marcas distintivas do que é um aventureiro experiente e vivido. Mas no momento estava com a mochila coberta de mer**, o que não creio ter feito nunca parte dos meus planos originais nem serviria para os propósitos acima numerados.

 

Nada disso teve qualquer significância nem eu teria presença de espírito para me preocupar com isso, porque após o caso da mochila de cáca veio a cruel Subida de Namche, que mereceu logo de cara uma entrada gloriosa na minha lista pessoal de infernos na Terra, logo a seguir Deurali, Sete e Tengboche. Não que isso levaria um dia inteiro para ser feita, como Deurali ou Sete (Sete leva dois dias), mas especialmente por causa das incessantes decepções que encontrei pelo caminho ao cruzar com outros trekkers que teimavam em me repetir que ?Namche estava perto?, tornando ?perto? um conceito de distância bastante vago, quase sem significado na presente situação. ?Perto? tanto podia ser ?15 minutos? como ser ?18 horas?.

 

Meu humor estava bastante em baixo quando, lá pelas 9 horas, cansei de ser ultrapassado por carregadores levando cargas muito maiores e mais pesadas que a minha. Não há montanhas para ver nem nada que pudesse usar como uma justa desculpa para minha honra e poder parar sem me sentir um fracote, no claro intuito de fotografar algo e não de estar morto de cansado e ter de descansar. Não senhor, eu não estava nada cansado, com o suor a me cobrir o rosto e entrando pelos olhos, enquanto limpava o nariz ranhoso com as costas das luvas ou assoava o que tinha de assoar para o chão. Há muitos zigues-zagues e a cada 5 minutos olho para cima na esperança de ver o topo e fim daquele flagelo. Muitas vezes antevia um aberto numa curva e pensava se tratar do tão desejado topo e fim dos meus problemas. Mas a cada vez era decepcionado, pois quando atingia a tal curva, outro topo surgia do nada, transferindo o fim para outra curva e postergando a chegada até Namche mais e mais. Fico imaginando o quão duro não será essa subida para quem começou de Lukla, após ter voado para lá de Kathmandu e ter chegado ao Nepal uns dois dias depois.

 

Foi por essa altura que Marcéu me ligou, dizendo que havia chegado à Namche, que era uma vila muito massa e começaria a olhar por pensão assim que descansasse um pouco. Portanto mais uma vez não tive a menor chance de acompanhá-lo e chegaria lá muito depois dele. Programei minha mente para agüentar mais umas duas horas de subida e me coloquei amargurado.

 

Foi com tão alto astral que surpreendentemente cheguei à primeiras casas. Pensei ser Namche, mas eram apenas alguns alojamentos pouco antes de Namche. Desta vez o ?pouco? era pouco mesmo, de verdade verdadeira, para variar.

 

Foi então que cheguei à uma bifurcação, para direita estava uma escadaria, bem feita e bem acentuada. Para esquerda, estava a trilha, bem plana e sedutora. Perguntei à um nepales que estava por ali qual rota tinha de seguir para Namche. Ele aponta para a trilha plana e cômoda, para meu grande alívio. Mas pensei que ainda estava longe de Namche. Não estava. Após umas curvas pelas encostas do monte, cheguei à Namche, só que a trilha plana me levou para a baixa Namche, que era no lado oposto onde Marcéu estava e me fazendo ter de subir até a parte alta da vila e depois cruza-la até onde Marcéu estava. Mais valia ter ido pela escadaria. Da forma como foi exigiu considerável extra esforço e algumas confusões pelo rádio antes que nosso feliz re-encontro fosse possível, de forma a termos oportunidade de brigar outra vez sobre os resultados da procura de alojamento e comida. Namche tem muitas pensões com muita variedade na qualidade e preço. Tanto que estávamos muito cansados para procurar em todas antes de escolher alguma. Marcéu pesquisou numas 6. Numa delas o dono pediu 50 doletas por um quarto com duas camas! Uma pena para a defendida política de fixação de preços que dizem estar em vigor por lá.

 

Eventualmente Marcéu achou um bom alojamento, com modestos quartos de 100 Rúpias, bem de frente para a rua principal da vila. Nessa pensão declarei dia de descanso oficial de participação obrigatória para o membro Hendrik de nossa pequena expedição e decidi gastar o resto do dia ali mesmo, deitado na cama, me levantando apenas para comer, ir ao banheiro e mandar e-mails. Fiz um ataque brutal às minhas reservas de queijo de yak.

 

Mais tarde, lá pelas 14h, começamos a ouvir o conhecido mantra ?Om Mani Padme Hum? que recebia os trekkers que estavam a chegar em Namche. Pela nossa janela podia ver as pessoas a chegarem na vila, olhando hipnotizadas tudo em volta, com rostos exaustos, mas felizes. Depois de várias horas de dura caminhada, Namche pode ser um lugar bem mágico de se chegar. O mantra adiciona bastante para esse sentimento. Pessoalmente senti ter realizado uma importante etapa na realização de um sonho à longo tempo sonhado. A vila também dá um gostinho do que nos espera pela frente e que tal é possível e não sonho.

 

Com um grande prato de arroz misto frito no bucho, mais uma significante quantidade de biscoitos, passas e queijo, bem como litros de chá de limão, fui dormir realmente feliz e em paz com o mundo.

 

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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