Ir para conteúdo
  • Faça parte da nossa comunidade! 

    Encontre companhia para viajar, compartilhe dicas e relatos, faça perguntas e ajude outros viajantes! 

Posts Recomendados

È meu primeiro relato, vou tentar retribuir a comunidade que tanto me ajuda em silêncio. 

Em julho desse ano acampei na Pedra Macela em Cunha - SP e desci com alguns amigos para Paraty via trilha dos 7 degraus, que ainda tem seu calçamento histórico, de lá partimos para praia do Sono onde tentei sozinho (já que estavam todos esgotados) e sem sucesso alcançar a cachoeira do Saco Bravo, o tempo era apertado e o sol estava castigando, mas ficou na minha imaginação e hora ou outra iria alcançar esse objetivo.

Dia 18 de Dezembro parti para Paraty novamente, sozinho e com a cachoeira do saco bravo em mente mas com um trajeto muito mais ousado que teria a famosa cachoeira como quase final. Realizando a travessia com início em Paraty Mirim e finalizando na praia do sono.

image.png.5f031fe11d89a05b8c75ef1b3ae6fb92.png

DIA 1:

Embarquei em São José dos campos pela manhã com destino a Paraty, onde cheguei por volta das 14h, de lá peguei um circular ali mesmo na rodoviária que me deixou com o pé na areia da praia Paraty Mirim, por 5 reais. Minha missão era encontrar um barqueiro para me levar a praia do cruzeiro, e todos davam o valor fixado de 100 reais por barco, não importando se está sozinho ou em cinco. Depois de muito negociar conseguir um barco que me levou por 70 reais. 

IMG_20181218_165412133_HDR.thumb.jpg.f376607f14b3fe841e75159a0aa37306.jpg

Já era por volta de cinco da tarde e até então, iria fazer o Pico Pão de Açúcar no dia seguinte, porém assim que desci do barco já avistei uma placa que indicava a trilha para o pico e com uma duração de 1 hora, arrumei o primeiro camping que vi por 30 reais, larguei minha mochila, peguei minha lanterna e parti para o cume.

A subida era leve/moderada, o calor naquele horário não era mais tão forte e os troncos de arvores permitiam o apoio, subi tranquilamente em cerca de 1h e 30.

IMG_20181218_184421883_HDR.thumb.jpg.e00eb77f6e4a8d4a06ffabc5f9c220e3.jpgIMG_20181218_184707612_HDR.thumb.jpg.ba6cd218d8a413860d8db038d7792e0b.jpgIMG_20181219_073837225_HDR.thumb.jpg.aa717532cafece4430db86cee8fb28d9.jpg

Consegui descer antes que escurecesse, um senhor que estava na varanda de uma casa ali na beira da praia disse que foi ele quem abriu a trilha, que lá de cima da para ver até a antena da usina nuclear (eu não vi) e que o pessoal costuma subir cedo para chegar no cume as meio dia, quando as águas tem uma coloração mais bonita, fica pra próxima. Jantei e fui dormir, nem coloquei a lona na barraca pois a noite estava muito bonita, se não fosse um cachorro encrencar com minha barraca durante a noite teria sido uma noite perfeita.

DIA 2:

 Levantei cedo e parti para a trilha, o sol estava castigando muito e logo no inicio da caminhada me vi dentro de uma mansão, pensei ter errado o caminho, fui a praia e procurei por uns 20minutos a continuação, sem sucesso, retornei a mansão morrendo de medo de ter um cachorro, vi um funcionário da limpeza que me indicou que a trilha continuava nos fundos da casa, um puta lugar e que dizem que foi gravado o filme crepusculo. A trilha toda acompanha os postes que levam os cabos de energia. Segui a caminhada até a praia grande da cajaiba, este foi o dia mais cansativo da caminhada, entre a praia do crepusculo e a praia grande tem uma subida de 450m toda com o sol na cabeça, com mata rasteira, sem ponto de agua e quase nenhuma sombra. Cheguei na praia grande por volta das 16h, onde só tem 2 restaurantes, um deles tem camping nos fundos onde fiquei por 20 reais, pedi um prato feito, que veio bastante caprichado com peixe, por 25 reais que deu para recuperar as energias. Encontrei um rapaz neste camping que estava fazendo a travessia no sentido contrário ao meu, eramos os únicos dois no camping, me deu algumas dicas que foram valiosas para os próximos dias, para se atentar no trecho entre a ponta negra e martim de sá, que ele havia se perdido por cerca de 2h. E para se atentar que ele viu cobras.

IMG_20181219_090947430_HDR.thumb.jpg.34aaa0c5a093c2df03eb180a30fca345.jpgIMG_20181219_112829495_HDR.thumb.jpg.82271ddb84de2ed8139d3877ef04ebe8.jpgIMG_20181219_185106247_HDR.thumb.jpg.634db27f90bbe51b88453f47286952b1.jpg

DIA 3:

Este foi o dia mais tranquilo, saindo da Praia grande, passei pela praia do pouso até chegar na praia martim de sá, é notório a mudança do mar a partir desse dia, se antes parecia uma piscina de tão calmo, na praia martim de sá era um mar super bravo com uma correnteza forte, tinha vários surfistas no único camping da praia, não só o único camping, era a unica coisa que tinha naquela praia. O camping estava cheio tinha umas 8 barracas (para quem tinha ficado sozinho nos outros dias, era muita gente kk), a trilha terminava dentro dele e começava (com sentido pra ponta negra) também dentro dele. Foram 25 reais com direito algumas várias picadas de insetos, o pf era de ovo também por 25 reais, e preferi não comer, na cozinha do camping tinha um armário com dizeres armário da herança, deixe o que não for usar, lá tinha uma embalagem de azeitonas que estavam deliciosas, muito obrigado a quem deixou. O ponto negativo do camping eram os banheiros, pelo preço caro que cobravam não disponibilizavam nem papel higiênico, estavam sempre entupidos e ou sem água. E o chão era muito duro, o que dificultava fixar a barraca, no final, nem fixei ela direito por preguiça, e fui castigado pela primeira chuva da travessia, muito forte e com vento, mas deu tudo certo e minha humilde barraca (windy 1 da nautika) aguentou.

IMG_20181220_135007135_HDR.thumb.jpg.1162a13765758566a6f37f19aa270e85.jpgIMG_20181220_133931424_HDR.thumb.jpg.30cda6101a187e1ce6fefe7519ea68a5.jpg

DIA 4: 

O dia amanheceu lindo, em contraste a tempestade do dia anterior, logo arrumei minhas coisas pro dia que prometia ser o mais difícil da travessia e o mais longo (12km) com uma subida a 550m. Logo no começo tem uma bifurcação para o pico do miranda, que fica a 3,2km dali, que em uma pesquisa posterior, descobri ser de fácil acesso e com um nascer do sol lindo, uma pena ele não ser muito conhecido, me arrependi muito de não ter esticado mais um dia para subi-lo. Segui em frente e fui pego por uma tempestade que me assustou bastante no meio da mata, foi o primeiro momento que senti falta de um parceiro de trilha e o psicológico começou a pesar, por sorte, a praia de cairuçu das pedras estava perto e por lá fiquei num teto de um camping, esperando a chuva passar.

IMG_20181221_061017696.thumb.jpg.b96ee523ca1c8c295df76d96f37646df.jpgIMG_20181221_092112795_HDR.thumb.jpg.2d7738b821bf25ce3984debd6c3bfa27.jpg

Logo após a praia de cairuçu das pedras tem várias bifurcações sem sinalização, graças ao wikiloc notei rápido que tinha pego uma bifurcação errada, foi bom poupar bateria do celular até esse dia. O sol voltou durante a caminhada e no final a subida foi tranquila, a mata era fechada deixando o clima ameno, cheguei na praia da ponta negra e comi um belo prato de peixe por 30 reais, com uma deliciosa coca gelada, e pra minha surpresa o local passava cartão, eu realmente fiquei impressionado depois de dias em lugares que mal tem energia elétrica. Encontrei um camping com uma boa estrutura, lona, banheiros, estava aberto sem ninguém, entrei e montei a barraca. Da hora que cheguei por volta das 16h até a manhã seguinte ninguém tinha aparecido, procurei o dono pela praia, que atende pelo nome de Ismael, e nada, ninguém sabia, por fim, dormi de graça.

 

DIA 5:

Acordei cedo, por volta das 6h para ser o primeiro a chegar na cachoeira do saco bravo, que dizem lotar de pessoas, entre café da manhã e desmontar barraca gastei um tempo e parti para a trilha as 7h e 30 da manhã, deixei minha mochila num comércio local pois achei inseguro deixar ela sozinha num camping que não tinha ninguém. Era um alívio andar sem a mochila pesando nas costas, estava desfrutando de cada passo e chegando ao meu objetivo, nem as duas grandes subidas entre ponta negra e a cachoeira podiam me cansar, por fim cheguei por volta das 9h e 30, tive alguns minutos sozinho na cachoeira, uns 10min após chegou mais um, e depois grandes grupos de gente. Para minha surpresa, havia muitas pessoas iniciando a travessia e que passariam o natal andando.

IMG_20181222_094723472_HDR.thumb.jpg.37cd8df7e59d7c6edab2e435479a42a3.jpgIMG_20181222_095244150_HDR.thumb.jpg.808d04f3be8ec6da846d335cd1adc0ea.jpg

A volta foi cansativa, comecei por volta do meio dia, e muitas pessoas indo em direção a cachoeira, o negócio realmente é ir bem cedo. Cheguei na ponta negra e meu corpo já estava exausto, almocei por lá, e graças a máquina de cartão, me sobrou dinheiro pra ponderar pegar um barco de volta a laranjeiras. Dito e feito, por 40 reais fui direto da ponta negra até o condomínio, já conhecia a praia do sono e a praia do antiguinhos. De lá peguei o circular para voltar a rodoviária, e fui para Taubaté no primeiro ônibus que encontrei, as 17h, que por sorte estava vazio e ninguém precisou sentir meu cheiro sentado do lado.

IMG_20181222_154707224.thumb.jpg.a3c09b5c24dd393affb4b6ec0525fb1b.jpg

 

 

 

  • Gostei! 1

Compartilhar este post


Link para o post

Goulartinho,

Gostei muito do seu relato. Me chamou atenção o perrengue que passou na trilha entre Martim e Cairuçu. Em janeiro de 2017, fiz essa trilha e começou a chover, tinhamos que atravessar dois rios seguidos, separados apenas por uma pequena faixa de terra, um pouco depois de atravessar o primeiro rio veio a tromba d'agua, eu e meu companheiro na época quase morremos. Não tinha como atravessar o próximo e nem voltar, ficamos um tempão esperando enquanto a água ia subindo com a gente naquela ilhotinha. Fiquei em total pânico, fomos subindo para a água não cobrir a gente, foi então que vimos uma árvore caída (foi muita coisa de filme, ou de Deus né!) que dava a chance de atravessar de volta para Cairuçu (estavamos sem bagagem, acampando em Martim), de barriga, agarrados no tronco, conseguimos voltar.

Ás vezes subestimamos a natureza, além disso estamos falando de Mata Atlântica, muita umidade, fora que é a serra do mar, então a declividade é grande, a quantidade e a força da água vindo lá de cima é mto forte.

Abraço!

Compartilhar este post


Link para o post

Participe da conversa!

Você pode ajudar esse viajante agora e se cadastrar depois. Se você tem uma conta,clique aqui para fazer o login.

Visitante
Responder

×   Você colou conteúdo com formatação.   Remover formatação

  Apenas 75 emoticons no total são permitidos.

×   Seu link foi automaticamente incorporado.   Mostrar como link

×   Seu conteúdo anterior foi restaurado.   Limpar o editor

×   Não é possível colar imagens diretamente. Carregar ou inserir imagens do URL.

  • Conteúdo Similar

    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Preparação
      Mais uma vez começamos um planejamento para uma trip em grupo, e acabamos terminando em dois só, kkkk.
      Levantamos muita informação, dados, e dicas. Não é segredo algum que minhas viagens geralmente não contam com guia contratado, eu mesmo navego e planejo tudo. De posse das informações, havíamos levado dois meses aprendendo sobre a Serra dos Órgãos, talvez por isso as pessoas desistiram. Tiveram tempo de pensar no que fariam. Encarar uma grande aventura exige mesmo espírito livre.
      A Grande Jornada
      Em 19/07/19 saímos de Campo Mourão às 00:00, foram 1.100 km de estrada, cerca de 17h de viagem. Ainda bem que um dos passageiros que me acompanhou (BlaBlaBla Car) se dispôs a dirigir entre São Paulo e o Nova Iguaçú. Foi um dia todo na estrada. Chegamos em Terezópolis já se passavam das 17:50; o primeiro furo da viagem. Eu havia estimado chegar em Tere dia 20/07 antes das 17h e conseguir viajar até Petrópolis no mesmo dia ainda, dormindo próximo da portaria lá. Doce ilusão, já era noite e tive de procurar um camping ainda, mas tudo certo os Óreas (deuses da montanha) sempre fazem certo.
      Paciência ... tenha paciência.
      Levantamos acampamento ás 06:00, que é a hora que abre (deveria abrir) o Parque em Tere. Chegamos na portaria para guardar o carro e lá estava um aglomero de gente, logo fiquei sabendo que a recepcionista não tinha chegado. Foram 45min de espera, enquanto isso ia aumentando a fila. Quando a mulher chegou já armou-se um fuzuê danado, o povo queria brigar ao invés de me deixar fazer checkin. Com muito trabalho consegui fazer o meu checkin e deixei o povo lá batendo boca.
      Com o carro estacionado voltei para a portaria na esperança de um Uber me levar a Petro. Outra trabalheira danada, uns cinco motoristas recusaram a viagem, chegaram a pedir dinheiro por fora pra fazer o carreto, mó sacanagem. Mas o sexto Uber não hesitou e nos levou ao destino.
      Dia 1, subida, subida, s u  b   i    d     a      .        .          .
      Às 10:15 começamos a trilha, foram 7h de subidas sem fim, mas com um visual de tirar o fôlego, até o desgaste físico passa desapercebido diante da exuberância da mão verde.
      Quase todo o dia foi por dentro do Vale do Bomfin subindo suas encostas. Quase no fim do dia chegamos a Isabeloca de onde já podemos avistar a Baía de Guanabara e os Castelos do Açú, nossa parada para dormir. No final da tarde, o pôr do Sol visto do Morro do Açú foi apaixonante. Leia mais aqui.




       
      Dia 2, sobe e desce, sobe e desce...
      O segundo dia é o mais intenso de toda a travessia, e provavelmente um dos mais belos dias que você pode passar na vida. Toda a cadeia da montanhas da Pedra do Sino ficam de frente para nós. A navegação também é mais complicada, presenciamos alguns grupos perdidos (geralmente pessoas sem experiencia ou fanfarrões).
      A cada descida uma subida maior esperava do outro lado, mas tinha-mos a certeza que o visual depois da ascensão e durante a próxima descida seriam ainda mais incríveis. Foram cerca de 8 km, caminhamos por 6 morros (Morro do Açú, Morro do Marco, Morro da Luva, Morro do Dinossauro, Pedra da Baleia e Pedra do Sino), é nesse trecho também que ficam os obstáculos mais difíceis (Elevador, Lajão, Grotão e Cavalinho). Eu particularmente me apaixonei pela pedra conhecida como Garrafão, talvez seja a lembrança que ela me traz que tenha me conquistado. Foi um dia realmente incrível e às 17h novamente chegamos no Abrigo. Ainda tive tempo de tomar um banho frio numa tarde de 4º C. Leia mais aqui



       
      Dia 3, uma corridinha para encerrar a travessia.🏃‍♂️
      Levantei com o escuro e subi novamente na Pedra do Sino contemplar a sinfonia de Apolo ao empurrar seu Astro sobre as montanhas.
      Saímos do abrigo às 07:15, a partir daí só descida praticamente uma trilha bem relax, com a oportunidade de avistar Teresópolis de cima, o Morro da Caledônia e os Três Picos no horizonte. De brinde uma vista por entre as montanhas da Granja Comari, onde um dia já treinou uma seleção de dar medo. Chegamos na barragem às 11:00 fizemos a trilha suspensa e conhecemos o encanto (Cachoeira Peri e Ceci) onde nasceu uma obra prima nacional: "O Guarani". Deixei a tralha no carro e tomei a trilha para o mirante do cartão postal, logo na entrada li que tinha 1.200 m, e eu com pressa; ainda tinha 1.110 km de rodovia até a casa. Não deixei me abalar, liguei a Go Pro e saí em disparada, em 15 min estava de frente para a formação que encantou os portugueses. Mais 15 min estava novamente no carro, exausto agora.




      Reuni tudo, dei uma parada para repor as calorias e às 14:00 rumava novamente para o Paraná, dessa vez tive de dirigir sozinho por 16h. 06:30 do dia 24 de julho eu deligava o carro com aquela sensação de euforia, sinônimo de missão cumprida, só no aguardo da próxima. Leia o relato completo aqui.
       
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
      Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
      que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
      todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
      – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
      Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
      Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
      incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
      começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
      descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
      desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
      fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
      então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
      vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
      A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
      compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
      aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
      que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
      caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
      cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
      Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
      dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
      no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
      independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
      seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
      as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
      testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
      incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
      real beleza que veríamos.
      Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
      acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
      complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
      do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
      tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
      aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
      forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
      Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
      obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
      que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
      encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
      jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
      partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
      se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
      23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
      Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
      possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
      ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
      forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
      dela e partiríamos assim que possível.
      Primeiro dia
      A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
      equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
      em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
      cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
      levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
      meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
      travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
      pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
      temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
      assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
      encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
      lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
      os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
      sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
      planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
      Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
      pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
      acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
      pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
      pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
      2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
      não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
      do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
      grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
      muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
      descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
      notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
      o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
      afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
      possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
      primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
      Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
      para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.
      Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
      De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
      consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
      ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
      queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
      com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
      aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
      adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
      das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
      para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
      dia que nascia.
      Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
      Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
      diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
      para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
      que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
      pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
      base da cachoeira vermelha, às 8h.
      Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
      as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
      bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
      quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
      Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
      possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha
      Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
      da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
      a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
      de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
      Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
      intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
      antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
      Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
      subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
      pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
      frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
      essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
      base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
      dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
      Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
      12h.
      Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
      Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
      e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
      fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
      2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
      o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
      das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
      sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
      voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
      base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
      acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
      Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
      a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
      a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
      verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
      perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
      companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
      de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
      Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
      que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
      montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
      que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
      superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
      mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
      emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
      lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
      iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
      um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
      até a parede quase vertical do acampamento base.
      Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
      atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
      rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
      Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
      existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
      essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
      caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
      vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
      horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
      cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
      porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
      que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
      de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
      bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
      escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
      Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
      significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
      legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
      uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
      de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
      nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
      com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
      naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
      vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
      nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
      A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
      do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
      de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
      dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
      tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
      e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
      recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
      roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
      e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
      dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.
      Segundo dia
      Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
      ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
      dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
      barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
      barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
      Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
      às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
      havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
      vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
      eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
      queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
      normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
      toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
      barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
      parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
      e a PM compensava o desconforto.
      Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
      peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
      tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
      que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
      em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
      encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
      mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
      apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
      Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
      limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
      de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
      água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
      retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
      Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
      com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
      ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
      nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
      travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
      fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
      considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
      explorando os arredores da trilha tradicional.
      Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
      mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
      sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
      ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
      mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
      caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
      fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
      gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
      camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
      altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
      Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
      com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
      quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
      havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
      passagem, na travessia full anterior.
      Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
      Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
      anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
      10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
      direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
      à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
      e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
      possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
      um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
      caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
      o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
      aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
      dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
      encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
      e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
      cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
      retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição
      bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
      consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
      dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
      forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
      para cima.
      Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
      parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
      pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
      de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
      a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
      Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
      maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
      o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
      CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
      Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
      Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
      apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
      acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
      do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
      seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
      nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
      eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
      correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
      encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
      a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
      do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
      retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
      Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
      agua até o final da tarde do dia seguinte.
      Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
      Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
      hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
      termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
      hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
      águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
      vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
      mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
      das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
      para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
      da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
      com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
      pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
      Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
      caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
      em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
      o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
      barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
      partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
      Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
      dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
      no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
      tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
      confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
      acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
      segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
      dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
      passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
      ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
      mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
      utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
      a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
      de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
      isolante “casca de ovo”.
      Terceiro dia
      Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
      amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
      3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
      pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
      consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
      para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
      de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
      se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
      previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
      a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
      íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
      para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
      caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
      ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
      minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
      2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
      apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
      lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
      visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
      uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
      Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
      estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
      o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
      para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
      pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
      mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
      tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
      cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
      instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
      destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
      vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
      “safar a onça”.
      Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
      Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
      com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
      avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
      instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
      atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
      como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
      estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
      deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
      colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
      buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
      ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
      Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
      busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
      água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
      estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
      buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
      estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
      posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
      afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
      descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
      do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
      queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
      duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
      Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
      a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
      avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
      não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
      Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
      dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
      “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
      mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
      e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
      machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
      sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
      novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
      e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
      estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
      para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
      ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
      Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
      enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
      Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
      Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
      apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
      havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
      o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
      dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
      e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
      cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
      10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
      vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
      liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
      com o sol rachando tudo e a todos.
      Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
      recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
      sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
      minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
      escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
      atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
      minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
      de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
      pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
      do grupo em que estava.
      O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
      poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
      Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
      progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
      minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
      curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
      No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
      Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
      colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
      andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
      Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
      não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
      agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
      percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
      imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
      resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
      próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
      generosos goles.
      Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
      vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
      preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
      Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
      com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
      contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
      Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
      Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
      esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
      biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
      A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
      cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
      mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
      conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
      percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
      e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
      Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
      tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
      você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
      possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
      perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
      preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
      suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
      quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
      fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
      Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
      picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
      cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
      na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
      necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
      caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
      evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
      algumas passagens.
      Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
      há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
      refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
      que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
      posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
      essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
      montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
      isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
      desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
      que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
      apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
      motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
      abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
       
    • Por Adriana Gar Mi
      Olá, pessoal!
      Em outubro irei passar 14 dias no Amazonas com meu marido, dos quais, 5 dias em Presidente Figueiredo. Estaremos com um carro alugado e gostaria de estender até o Pará ou Roraima, já que não são tão distantes. Alguma dica do que posso fazer em algum desses lugares? Dá pra chegar de carro até lá, alguém já se aventurou?? Obrigada!
    • Por luafonseca
      Boa tarde, pessoal!!

      Alguém sabe me dizer qual calçado seria mais adequado para fazer a travessia dos lençóis maranhenses (4 dias de caminhada na areia, passando por lagoas)?
      Várias pessoas sugeriram as papetes, mas fiquei pensando se aqueles tênis híbridos (servem para água, areia e asfalto) não seriam melhores. Não vi ninguém indicando ou contraindicando...
      Obrigada!
    • Por divanei
      EXPEDIÇÃO VALE DO ITINGUÇU
       
                Foi numa tarde quente e chuvosa de verão que eles surgiram. Nove homens desembocam de supetão na extraordinária e turística CACHOEIRA DO PARAÍSO, nos domínios da JURÉIA. Toda a ação é assistida por uma multidão que fica perplexa, sem se darem conta do que está acontecendo. Um burburinho toma conta do lugar, homens, mulheres, crianças e velhos tentam entender de onde surgiram aqueles extraterrestres de coletes, perneiras, capacetes e mochilas estanques com equipamentos de escalada a tira colo. Os salva-vidas do parque ficam paralisados, sem ação, só fazem acompanhar com os olhos um a um dos exploradores descerem a escadinha de madeira e depositarem suas mochilas ás margens do grande POÇO VERDE e se atirarem na água, nadando para o outro lado até se posicionarem embaixo da queda da cachoeira. Nada disso havia sido combinado e o grupo foi tomado por um sentimento avassalador de satisfação e conquista e ao se juntarem, se abraçaram e comemoraram juntos, como jamais haviam comemorado antes e o aniversariante do dia não se conteve e escondidamente deixou escapar umas lagrimas em meio àquela enxurrada de emoções e agradeceu por estar vivo para apreciar aquele momento único.
       
      (Uma das Grandes Quedas do Itinguçu, no centro da Mata Atlântica, quase 2 dias da civilização)    
          Já fazia muito tempo que eu deslumbrei a possibilidade de explorar às nascentes do Rio Itinguçu, o rio conhecido por abrigar a fenomenal CACHOEIRA DO PARAÍSO, uma das maiores atrações do entorno da Reserva Ecológica Juréia-Itatins nos domínios de Peruíbe, mas foi procurando um caminho para chegar ao cume da serra que descobri uma possível passagem que poderia nos levar a montar uma expedição que pudesse descer aquele vale selvagem e desconhecido.
       
                Por incrível que pareça, esse projeto foi parar em um canto esquecido do meu computador após tomarmos ciência de um pico selvagem e deslumbrante que servia como guardião das nascentes do rio, então deixamos de lado a aventura aquática e nos embrenhamos no meio da floresta até alcançarmos o cume perdido do Morro das Três Pontas. A expedição ao cume do pico Careca foi um sucesso e a partir daquela conquista, estabelecemos também um caminho viável para um dia tirarmos o Vale do Itinguçu do anonimato.
       
           (Cume Motchaka-Morro das Três Pontas)    
                Eu já estava propenso a me enfiar em outros vales, quando parte do nosso grupo insistiu que a gente deveria pôr fim à novela do Vale do Paraíso, que era como vínhamos chamando aquele vale perdido até então,no feriado do Carnaval. Num primeiro momento dei uma titubeada por achar a logística partindo da cidade de Itariri muito complicada por ser um município perdido no Vale do Ribeira e sem transportes regulares partindo do interior Paulista ou mesmo da capital e quando os caras botaram os planos sobre a mesa , foi aí que me dei conta que a logística era mesmo uma grande merda: Teríamos que dirigir com nossos carros até lá na véspera do grande feriado e depois de tentarmos atravessar o vale, ainda teríamos que retornar para resgatar os veículos que ficariam aonde o Judas cagou nas botas.
       
                Bom, como não sou explorador de arregar pra coisa nenhuma e sabedor de que se não fosse agora perderia a chance de escrever também meu nome na história, dei uma garibada no velho NIVA 4X4 , apanhei o Vinícius e o Alexandre no centro de Sumaré e rumamos para a cidadezinha de Itariri que fica a uns 300 km de casa, mas antes paramos no meio do caminho para dar uma carona para o Gersinho, que era um dos que estavam na expedição ao Morro das Três pontas. A outra metade do grupo, todos da região metropolitana de São Paulo decidiram sair só na manhã do sábado e nos encontrar na cidadezinha antes do meio dia.
       
               Ao chegarmos à primeira entrada de Itariri, viramos para a direita e fomos rumo ao bairro da Igrejinha, sempre seguindo paralelos ao Rio Azeite e, ao atravessarmos a grande ponte, nos mantivemos a esquerda e ao chegarmos a um ponto de ônibus, alguns metros depois, deveríamos também continuar nos mantendo a esquerda, mas nosso navegador bobeou e fez com que pegássemos o caminho errado e fossemos nos perder no meio do nada, numa estrada sem saída em meio a escuridão daquela madrugada quente. Já passava das 4 da manhã, eu estava tombando de tanto sono e não houve nada que fizesse com que a gente voltasse para o nosso rumo, então encontramos um motoqueiro fantasma e ele nos guiou para fora do labirinto e nos deixou novamente depois da grande ponte do Rio Azeite e logo à frente um boteco abandonado, com uma grande cobertura, nos serviu de hotel pelo resto da noite e o tal QUIOSQUE DO BURRO acabou por se tornar uma escolha bem inteligente.
       
                Quando o dia clareou, o Vinícius já fez logo um pampeiro para que a gente levantasse. Me levantei, mas não deixei de protestar porque pensava em dormir até um pouco mais tarde e mesmo ainda com muito sono, dar de cara logo cedo com aquele rio espetacular, já faz com que o nosso humor se eleve rapidamente. A parte paulistana do grupo já nos sinalizou que só chegaria perto das 11 da manhã, então aproveitamos o tempo ocioso e voltamos até o centro de Itariri para um café reforçado e quando o bucho encheu, voltamos para perto do Quiosque do Burro, junto à uma ponte pênsil e lá ficamos até que que o resto do grupo se juntasse a nós.
       
                Antes do meio dia os meninos paulistanos aparecerem e é sempre um grande prazer rever esse bando de malucos vindos de todos os cantos da cidade e de outros municípios vizinhos. Silvester Natan, Daniel Trovo, VGN Vagner, Paulo Potenza e Rafael Soares, todos com uma alegria irradiante e felizes por estarem ali prestes a darem início a mais uma Expedição Selvagem, sem a certeza do rumo que aquela brincadeira tomaria, sem saber se aquela loucura chegaria bem ao seu final, mas todo mundo consciente de que cada um estaria por conta e risco, sabedores dos perigos que tal empreita envolveria.
       
               Com o dia claro, não tivemos problemas para encontrarmos a fazenda de bananas que procurávamos e seria nosso ponto de partida, a mesma propriedade do qual havíamos conquistado o cume do Morro das Três Pontas no ano passado, que por sorte, acabamos virando amigos do administrador que já havia nos dado o aval, deixando a gente estacionar nossos veículos na casa dele.
       
                Essa expedição tinha uma característica diferente das outras, desta vez teríamos que subir uma montanha com um desnível enorme para depois tentarmos navegar varando mato no peito até encontrarmos a nascente do RIO ITINGUÇU. Já conhecíamos o caminho até o topo da montanha, mas ainda discutíamos se era melhor varar mato em linha reta e ganhar precioso terreno ou tentar seguir por uma antiga trilha de caçadores e palmiteiros, que bordejaria o rio da Usina dos Ingleses, uma ruina perdida no meio da selva. Lá pelas 13 horas jogamos às mochilas às costas e partimos, mas me chamou a atenção o excesso de equipamentos que alguns carregavam, claro que eu já sabia qual era a intenção deles, mas me mantive sereno, já que essa foi uma discussão que eu havia perdido.
       
                Abandonando a casa do administrador, seguimos enfrente pela estradinha que ia ganhando altura aos poucos. O grupo se dividiu em dois e a pernada inicial foi servindo para botar os papos em dia, até que vinte minutos depois somos obrigados a abandonar a estrada em uma curva e adentrar para a esquerda, numa antiga estrada que hoje não passa de uma trilha erodida e interditada pelo matagal. Esse caminho servia para dar acesso ao bananal nas cabeceiras da fazenda, mas pela dificuldade de acesso, toda a plantação foi abandonada. Quinze minutos de caminhada, talvez menos, ouvimos um grito do grupo que vinha logo atrás. O Rafael estava passando mal e precisava descansar um pouco. Também pudera, a temperatura beira os 38 graus e até os mais magrelos já ameaçavam sucumbir diante daquele calor dos infernos. Logo o Rafael retomou seu caminho, mas não foi muito longe, caiu novamente prostrado, botando os bofes para fora. O Potenza deu-lhe um remédio e fomos caminhando lentamente, tentando fazer com que ele chegasse vivo até o casebre abandonado onde pensávamos que conseguiríamos um pouco de água. A chegada ao barraco caindo aos pedaços nos remete às boas lembranças de expedições antigas, mas água mesmo somente em uma garrafa grande deixada por algum caçador que logo foi despejada sem dó sobre a moringa do Rafael, que tinha anunciado a sua desistência da Travessia Expedicionária. Ficamos na choupana velha, vendo se seria necessário alguém acompanhar o nosso amigo de volta para a civilização, mas de repente o Rafa sacou lá do fundo da sua alma um último suspiro de vida e desistiu da sua desistência, preferia morrer na subida da serra do que se ver fora daquela expedição e correr o risco de nunca mais ter outra oportunidade e se a frase é mais do que batida, também seria mais do que oportuna: O SOFRIMENTO É PASSAGENRO, MAS DESISTIR É PARA SEMPRE!
       
               
                Com o Rafa aparentemente recuperado, largamos aquela habitação decrépita e partimos para o pé da montanha, atravessamos o bananal no peito, nos guiando pelo faro e pelo nosso GPS, até vermos que havia chegado a hora de deixarmos o conforto das bananas docinhas e nos enfiarmos de vez no meio da floresta espinhuda. O rio era audível do nosso lado direito, mas a vegetação não nos deixava avançar e o Rafael já começava a querer tombar de novo, aliás, todo o grupo cozinhava os miolos naquele calor escaldante. Todo mundo parecia implorar para que o rio chegasse logo, mas ao invés de água, toma barranco na fuça. A paciência acabou, mandamos o traklog para PQP e seguimos nosso instinto de sobrevivência até água e quando lá chegamos, não teve um que não tenha se atirado de cabeça nos poços de águas translucidas e alguns quase morreram de tanto beber e o moribundo do Rafael se atirou no leito do rio e lá ficou até que seu corpo absorvesse metade da água do córrego na tentativa de se restabelecer novamente.
       
                A tarde já ia lá pela sua metade e aquela dúvida inicial se seria melhor seguir pelo mato ou bordejando o rio, acabara de ser desfeita. Com o Rafa ainda meia boca, seria muito mais seguro ir tocando por dentro da água ou pela margem do rio, sempre subindo as pirambeiras que iam surgindo. Portanto, pela água começamos a pular pedras e atravessar pequenos poços e cachoeirinhas bucólicas e isso deixava todo mundo feliz por termos nos livrado do calor intenso. Sabíamos que aquele rio nos levaria direto para a grande cachoeira dos Ingleses e consequentemente para o alto da serra, mas ao chegarmos a uma bifurcação de rio, os caras que estavam seguindo o caminho pelo GPS, comeram bola, e ao invés de pegarmos o rio da direita, pegamos o da esquerda, talvez hipnotizados pela bela cachoeira que se apresentou à frente. Como subir a cachoeira era tarefa árdua e vendo que o caminho não era aquele e que estávamos no rio errado, aferimos nosso azimute e tentamos voltar para o vale correto, mas a gente começou a subir barranco atrás de barranco e cada vez mais parecíamos estarmos fora da rota, até que os navegadores decidiram pegar uma linha reta até o outro rio e ao invés de subirmos, começamos a descer. Perder altitude foi uma péssima ideia, foi um tempo perdido e eu morrendo de sono por ter dirigido a noite toda e não ter dormido, achei aquela navegação um furo n’água.
       
                Quando cansamos de andar para o lado errado, finalmente encontramos terreno aberto, mas longe de ser um caminho mais tranquilo porque aí começou a tocar de vez para o rio e ao chegar no seu leito tocamos para cima até interceptarmos a antiga CACHOIRA DA USINA DOS INGLESES, uma ruina do século passado que foi engolida pela floresta. A chegada à essa cachoeira é uma grande festa e as mochilas foram largadas ao chão e todo mundo se atirou para debaixo da queda no intuito de baixar de vez a temperatura do corpo, mas como não é possível ser feliz para sempre, logo já estávamos de volta a nossa labuta de tentar conquistar aquela montanha ainda hoje.
       
            ( Cachoeira Usina Velha dos Inglêses)
                 A continuação do caminho é escalando ao lado da cachoeira, adentrando embaixo de uma espécie de gruta cavada na rocha e já saindo para esquerda e logo interceptando uma antiga trilha de caçadores.. A subida estava dura, o Rafael parava a cada 15 minutos e pelo andar da carruagem eu já estava vendo que daria o último suspiro e pediria para ser enterrado ali mesmo. A cada parada do Rafa, o grupo também era obrigado a cessar a caminhada e eu já procurava uma árvore para dormir por alguns míseros minutos, mas foi em um momento específico que todo mundo acordou de vez: ao passar por um buraco no chão, o grupo mais à frente despertou a ira de um vespeiro e não deu nem tempo para mais nada quando alguém gritou a palavra mágica: “CORRE, ABELHA “. O Rafael que já era uma múmia a vagar pela floresta, deu meia volta junto com o Vagner e despinguelou barranco à baixo na trilha e eu peguei carona no vácuo deles. O resto do grupo correu para cima e mesmo assim o Vinícius foi alvejado duas vezes. Quando tudo parecia se acalmar, o grupo que correu para baixo tentou se juntar ao grupo do alto e foi nessa que também fui atingido. Uma ferroada certeira bem na mão esquerda, que imediatamente ameaçou cair do meu braço de tanta dor. A dor é tão grande que nem a picada de jararaca que tomei anos atrás se compara. Por sorte o Vagner, já esperto de outros carnavais, me deu logo um antialérgico para acalmar minha ansiedade.
       
               A tarde já quase que agonizava e nada da gente encontrar água e nem um lugar descente para acampar. Nos enfiamos por dentro de uma parede rochosa, denunciando que estávamos muito perto da saída do vale. Eu estava com tanto sono que nem sabia mais que rumo tomar, só deixava minhas pernas me levar aonde meu cérebro achava que estava seguro. O Rafa insistia em continuar em pé e a todo momento alguém tentava persuadi-lo a não desistir de vez, até que sem termos outra opção, apontamos nosso nariz de volta para o grande rio e nos escorregamos na sua parede íngreme até novamente chegar as suas águas, aonde um poço esverdeado, junto a uma cachoeira Afunilada nos deu as boas-vindas. O lugar era lindo, mas imprestável para acampar por ser um vale rochoso e sem árvores aonde pudéssemos montar nossas redes. Eu já estava com vontade de sentar e dormir encostado em qualquer lugar, até que alguém deu a ideia de apanharmos água e voltarmos a subir até um selado onde havíamos passado na descida para o rio e sem perder tempo nos dirigimos para lá e cada qual escolheu sua árvore favorita para montar sua casa de mato. Diz a lenda que alguns ainda voltaram ao rio para tomar um belo banho no poção esverdeado, eu particularmente, caguei e andei para o banho, montei minha rede e me joguei para dentro aonde morri por umas 2 horas e só acordei porque o Alexandre teve dó da minha pessoa e me trouxe um prato de comida, porque se dependesse de mim, não iria nem jantar.
       
               (Cahoeira  AFunilada)
                Doze horas de sono tem o poder de transformar um moribundo em outra pessoa. Acordei renovado, com energia suficiente para arrastar toda uma floresta no peito até o litoral e mesmo o Rafael que no dia anterior agonizou, já estava um touro bravo. Vagarosamente, desmontamos nosso acampamento e partimos. Retornamos ao alto da serra junto a parede rochosa e localizamos novamente o rabo da trilha que nos tiraria de dentro do “VALE V” e nos jogaria num mundo novo, de descobertas e encantamento, um mundo talvez trilhado por ninguém, apertem os cintos, a AVENTURA SELVAGEM vai começar.
       
                 Logo cedo é hora de subir montanha e quando o terreno começou a se estabilizar, passamos por um córrego, esse ainda, afluente do rio da Usina dos Ingleses. Estamos num grande planalto e teremos que atravessá-lo por dois ou três quilômetros até que interceptemos de vez o grande Rio Itinguçu, bem na sua nascente, mas até lá chegarmos vamos comer o pão que o diabo amassou.
                Para aquela expedição, havíamos traçado um caminho usando as curvas de nível no mapa, mesmo porque é um mundo de florestas fechadas onde é impossível saber a real localização da nascente do Itinguçu apenas pelas imagens de satélite. Andaríamos por mais de 2 km até termos certeza absoluta que  estávamos mesmo descendo o leito do rio. É , tudo isso parece obviu , mas na verdade não passa de uma grande ilusão e uma vez ali, parece que o mundo gira de  tal forma que ninguém mais sabe para que lugar seguir, por isso a importância do GPS para nos dar um rumo, uma direção.
       
               (início do Rio Itinguçu)
                O terreno estabilizou de vez e é impressionante o numero de pequenos córregos que vão correndo para todas as direções, portanto seria quase impossível se apegar a um deles na tentativa que eles desaguassem no rio que procurávamos. Nessa condição os nossos navegadores tiveram que não desgrudar mais os olhos do GPS. O avanço é lento, emperrado por uma vegetação fechada e com terreno encharcado. Outros tantos pequenos córregos são cruzados, mas nenhum seguia para o nosso destino e muito provavelmente seriam abastecedores de algum afluente do Itinguçu que possivelmente ira interceptá-lo mais a baixo, Passado mais de hora, a gente se deparou com uma grande nascente, um grande buraco de onde a água brotava e tomava a direção exata do grande Vale do Itinguçu e foi aí que a gente começou a desconfiar que por uma grande sorte, havíamos finalmente achado a verdadeira nascente do rio.
                Aquela nascente foi ganhando outras vertentes de água e foi crescendo e quando ficou com mais ou menos um metro de largura, tivemos a certeza de que nossa navegação havia sido um grande sucesso, então não perdemos mais tempo com o GPS e tratamos logo de nos jogarmos  de corpo e alma naquele corpo d’água. O rio foi crescendo, se alargando e quando pensávamos que nossas vidas seriam facilitadas, os homens que iam à frente foram surpreendidos por um Lamaçal de respeito, inclusive Daniel Troco e Vagner quase foram sugados para a entranha da terra, atolando seus corpos até na linha da cintura e outros que vinham atrás também tiveram o mesmo destino.

       
                As águas do córrego a cada curva ficavam mais cristalinas e o seu leito, antes barrento, começava a ganhar uma camada de pedregulho. Alargou-se de tal maneira que poços profundos já eram cruzados com a água acima da linha da cintura e quando chegamos a uma prainha formada por pedrinhas, paramos para um descanso e para morder alguma coisa. Sentados ali, naquele lugar lindo, em meio a uma das florestas mais espetaculares do mundo, há quase dois dias longe da civilização mais próxima, logo nos chama a atenção uma frutinha muito familiar, na verdade o chão estava qualhado delas: Quando alguém balbuciou dizendo que se tratava de JABUTICABAS, dei uma desdenhada antes de cair a ficha totalmente. Aquilo era realmente incrível porque se existe uma fruta que é símbolo do Estado e até do Brasil, essa seria a jabuticaba, mas eu em quase 25 anos de andanças pela Mata Atlântica jamais havia visto um pé selvagem desta fruta, já me deparei até com onças, mas jabuticaba era a primeira vez. Bom, a fruta estava ali, espalhada por toda a prainha, mas onde estaria o pé? Procurei pelo pequeno arbusto em meio às grandes e frondosas árvores e nada encontrei, até que do outro lado do rio, uma árvore de tronco esbranquiçado e de uns 15 metros de altura se curvava sobre nossas cabeças. Encontrar aquela raridade no Vale do Itinguçu foi mesmo uma grande honra e essa travessia iria nos mostrar que é igual a jabuticaba selvagem, só existe na Mata Atlântica e destinada a poucos.

               (Jabuticabas Selvagens)
                Retomamos a travessia, mas agora já sabedores de que os grandes desníveis não tardariam em se apresentar e logo quando o rio de pedrinhas se transformou em um rio de leito de rochas gigantes, as primeiras quedas já surgiram pelo caminho e para felicidade geral do grupo, uma delas nos chamou a atenção pelo tamanho do poço de águas esverdeadas e essa foi a deixa para todo mundo se jogar de vez e lavar a alma naquele dia ensolarado de verão. O poço fez a alegria da galera, o banho renovou os ânimos, lavou a lama e já nos mostrou um pouco do que nos esperava pela frente. O rio afunilou por um momento e logo apareceu uma cachoeira de tamanho considerado e aí foi hora de pararmos para estudar o terreno.
       
                Antes de expedição começar houve um embate sobre levar ou não cordas para fazer a descida das grandes cachoeiras. Eu e outra parte do grupo achávamos totalmente desnecessário carregar um material pesado para esse tipo de travessia selvagem, ainda sabendo que a possibilidade de pegarmos lugares intransponíveis seria praticamente nenhum, mas uma outra parte do grupo achou que seria viável e muito bem vindo para um treinamento específico, então parte da equipe acabou por carregar esse peso extra. Pois bem, ao nos depararmos com essa cachoeira, parte do grupo se preparou para montar as cordas e a outra parte se enfiou no vara-mato e ficou combinado de todos nos encontrarmos no patamar mais abaixo, no pé da cachoeira. Como imaginávamos, a passagem pela floresta, perdendo altura, foi rápida e tranquila, mesmo a gente tendo que nos pendurarmos numa parede coberta por vegetação solta e depois tendo que descer escorregando por outro barranco até ganharmos o leito do rio.Descemos e ficamos apreciar a galera fazer um bonito rapel ao lado da queda e quando todos estavam unidos novamente, partimos novamente por dentro do rio.
       
                
               (Primeira Grande queda do Itinguçu)
                Por dentro da corredeira o avanço é lento, mas muito prazeroso já que o calor estava de matar. O rio vai perdendo altura até que se joga novamente num abismo em forma de garganta e novamente o Vinícius, o Alexandre, o Gersinho e o Natan abrem mão do equipo para o rapel, enquanto os outros já encontram uma passagem pelo lado direito entre as árvores e em poucos minutos estávamos todos na entrada da garganta de pedras pretas e que logo ganhou o nome de CACHOEIRA DO CÂNION DO ÉBANO. Mais uma vez a gente assistiu de camarote a galera se pendurar nas cordas e ir baixando vagarosamente até caírem no leito do rio. Apesar desse procedimento tomar um tempo , a gente não estava muito preocupado com isso não, já que chegamos a uma conclusão que poderíamos estar com um tempo de sobra e poderíamos nos dar ao luxo de curtir cada parada.
       
               
               (Cachoeira do Cânyons do Ébano)
                Enrolada a corda e guardado os equipamentos, a descida continuou, mas não deu nem tempo da corda escorrer a água e já foi novamente retirada da mochila para fazer a descida de mais uma cachoeira aonde um grande poço na sua base convidava todo mundo para outro mergulho. Mais uma vez parte do grupo se aventurou pela descida sem corda, na verdade, somente eu, o Troco e o Vagner atravessamos a correnteza à beira da queda para tentar descer. O Vagner desceu um barranco pulando de uns três metros, se valendo de um patamar mais abaixo, mas eu não tive confiança de ariscar o salto porque se o tal patamar escondido na vegetação não parasse meu corpo, com certeza eu iria despencar no vazio e achei melhor tomar outro rumo. O Trovo passou pendurado numa rampa igualmente perigosa e foi se junta ao Vagner na base do poço. Retornei para junto do resto da galera e quando estava tentando procurar uma passagem mais segura pela direita, os caras me convenceram a descer pela corda. Nunca tive problemas com rapéis à beira de cachoeiras, pelo contrário, o fato de eu ter passado anos da minha vida me dedicando a descida de dezenas de quedas, fez com que esse tipo de atividade perdesse a graça e se tornasse uma coisa comum, mas confesso que até foi interessante me jogar novamente corda à baixo e deixar meu corpo cair dentro daquele poço incrível e sair nadando até sua margem.

      Quando todo mundo se juntou ao pé da cachoeira, partimos novamente, agora nos enfiando em mais um vale estreito e cada um vai desescalando como pode e logo mais a baixo, alguém chama atenção para uma cachoeira que despenca de afluente do lado direito do rio e para lá nos dirigimos, escalando alguns pequenos matacões até nos depararmos com uma parede negra de onde uma água limpíssima despencava de num véu incrível e a coloração da rocha já fez alguém batiza-la de CACHOEIRA NEGRA.  Aproveitamos a parada para comer alguma coisa e para nos refrescarmos, mas foi uma parada rápida porque ainda sabíamos que teríamos que vencer mais uma grande queda até a hora de acamparmos
       
        (Cachoeira Negra)
                Outras pequenas quedas são cruzadas, alguns poços atravessados, barrancos desescalados até chegarmos às bordas da maior cachoeira da travessia. Não era uma cachoeira gigante, nos moldes das que estávamos acostumados a encontrar nessas expedições, muito porque já sabíamos que esse rio não seria um rio com desníveis abruptos e abismos colossais, mas era uma cachoeira muito cênica e os meninos que carregavam as cordas e vinham aprimorando suas técnicas, não perderam tempo e já instalaram o rapel do seu lado direito, enquanto o grupo sertanista, como o Trovo chamou em tom de brincadeira, se enfiou  mato à dento do lado direito e em poucos minutos já estavam apreciando a movimentação dos canyonistas, sentados confortavelmente sobre uma grande rocha e ali ficaram, comendo “pipoca com manteiga” e assistindo a ação bem sucedida do grupo radical e para marcar esse ponto importante dessa EXPEDIÇÃO SELVAGEM, vou me dar ao direito de batizar essa cachoeira e o nome acho que não poderia ser outro, uma homenagem a esse rio incrível , que nasce no meio do nada e vai crescendo, ganhando corpo até se transformar nessa espetacular CACHOEIRA DO ITINGUÇU.
       
         ( Cachoeira do Itinguçu)
                O dia quase que já havia findado e o sol já se preparava pra se deitar ao oeste e então decidimos que já era chegada a hora da gente achar um lugar para acampar. Conseguir localizar um lugar descente e que possa abrigar nove exploradores não é tarefa das mais fáceis quando se está imerso dentro de uma vale com paredes rochosas dos dois lados e é preciso achar algo antes de escurecer. Todos estão cansados e loucos para descansar o esqueleto porque foi um dia de aventuras intensas, mas a cada passo dado e sem encontrar nada, a preocupação vai aumentando e até a euforia vai diminuindo consideravelmente. Um afluente quase seco faz com que a gente opte por um desvio e foi aí que o batedor que ia à frente vislumbrou um patamar acima, quase plano, com árvores grossas e espaçadas e não tivemos mais dúvidas, jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado mais um dia de explorações.
       
        ( Segundo Camping)
                Cada qual foi cuidar de montar seu abrigo e quem for mais esperto vai conseguir ficar com as melhores árvores, uns se dão bem, outros como eu, são obrigados a dormir pendurados a um passo da ribanceira. Montada minha rede, instalado o meu toldo, me livro das roupas molhadas e vou cuidar da janta, porque apesar de ter sido um dia duro e intenso, me sinto muito bem disposto. A janta não vai ser um banquete porque optei em vir o mais leve possível e apenas cozinho um pouco de arroz, frito umas fatias de bacon, pico um pedaço de pimenta dedo de moça, abro uma lata de sardinha, jogo um queijo ralado no arroz, dissolvo um suco de laranja numa garrafa pet e isso é o bastante para deixar a minha alma alegre pelo resto da noite. Antes das oito  já me atiro para dentro da minha cama de mato, fecho o mosquiteiro e apago completamente. Acordo lá pelas cinco da manhã descansado e bem disposto e como ainda está escuro, fico envolto nos meus pensamentos e logo me lembro de que hoje acordei um ano mais velho e me sinto feliz de, aos 48 anos ainda estar ativo, podendo desfrutar de uma vida de aventuras.
       
                Lentamente vamos desmontando nosso acampamento e enquanto a água não ferve para preparar um café, resolvo instalar a capsula de registro das travessias selvagens, mas ao invés de uma capsula bem elaborada, desta vez apenas improvisei com uma garrafinha de suco de uva porque não queria me dar ao trabalho de carregar peso algum que não fosse o essencial para minha sobrevivência naquela expedição. A galera realmente acordou diferente nessa manhã de 12 de fevereiro, estavam parecendo mais leve, todo mundo mais animados, acho que já prevendo que seria um dia tranquilo, um dia dedicado ao divertimento e ao laser, já que a pior parte parecia ter ficado para trás.
       
           ( Capsula do tempo)
              
                 A nossa travessia é retomada voltando de novo ao rio, mas por ainda ser muito sedo, vamos evitando entrar na água, só que o esforço de ficar quebrando mato no peito já faz com que parte do grupo proteste com os batedores que logo são obrigados a tomarem outro rumo e voltarem  para o rio, fazendo com que o grupo seja obrigado a se pendurar num barranco alto, tendo que se jogar encima de um arbusto e fazer uma queda controlada até mais abaixo. O dia já começa quente e o melhor caminho é mesmo por dentro da água, deslizando entre suas correntezas, saltando nas suas piscinas naturais.
       
               O rio vai sendo cruzado de um lado para o outro, grandes pedras são escaladas ou apenas desescaladas. Quando os obstáculos parecerem intransponíveis  é hora de avançar pelo mato e quando era preciso, um pedaço de corda era jogado e nele nos pendurávamos como dava e descíamos de volta para o rio. Algumas ilhas vão surgindo no nosso caminho, fazendo com que o rio se divida em vários, mas logo voltava a virar um só quando os rios se juntavam mais abaixo. Quando apareciam aqueles poços incríveis era hora de parar e desfrutar das suas águas incrivelmente cristalinas, era hora de se jogar, era a hora do divertimento, do lazer. Os mais eufóricos se jogavam de cima de grandes pedras em saltos espetaculares, outros só faziam passar vergonha com seus saltos pífios.

       
                Pelo caminho uma infinidade de pequenas cachoeirinhas é transposta, vales, corredeiras vão ficando para trás e antes do meio dia, como havíamos previsto, chegamos a um grande poço de onde uma CACHOEIRA    se espalhava de um lado a outro do rio, formando um grande tobogã natural, hora de jogar as mochilas ao chão para um descanso mais demorado e comer algo porque o lugar é mesmo especial. Aquele lugar era mesmo incrível, de uma transparência única. Sentei-me sobre uma grande rocha para poder me aquecer um pouco, já que eu mesmo havia me atirado de cabeça naquele grande poço. Fiquei ali parado, inerte, assistindo parte do grupo despencar cachoeira abaixo, escorregando na grande rampa. Estávamos ali, imersos em um lugar onde, muito provavelmente, nunca ninguém esteve antes e aqueles homens, alguns com a metade da minha idade, mais pareciam crianças descendo no escorregador do parquinho, felizes da vida e imersos num mundo só deles, sem se preocuparem com coisa nenhuma, apenas a desfrutar de uma vida simples e de desapego. A galera parecia não querer ir mais embora, mas depois de descerem de trenzinho mais uma vez, tomaram ciência de que aquela expedição teria que terminar ainda hoje e para guardar uma boa lembrança daquele lugar, nos reunimos para uma foto histórica no coração selvagem da Serra do Mar Paulista, como a fazer um brinde pela vida e pela oportunidade de estarmos mais uma vez juntos em mais uma travessia memorável.

       
                Depois da cachoeira do grande escorregador, pegamos uma sequencia onde o rio afunilavam nos obrigando a descermos por dentro das corredeiras e sempre tendo que cuidar para não sermos levados ao desescalarmos por dentro da água e assim foi o ritmo por mais de uma hora até tropeçarmos em outro grande poço com uma pequena cachoeirinha que despencava num refluxo de águas azuis, onde mais uma vez fizemos uma parada para recreação, regados a muitos pulos e mergulhos. Na sequencia ainda passamos por incontáveis outros poços aonde nos jogávamos de cima das pedras e nadávamos para o outro lado, sempre nos divertindo muito até que chegamos a uma grande rampa d’água, uma cachoeira inclinada, que desaguava em outro poço fenomenal e ali paramos para mais uma descanso, para apreciar uns petiscos e esperar que a galera das cordas se divertisse tentando descer mais esse corpo d’água. Verdade mesmo que somente o Vinícius e o Natan acabaram por se envolver nesse rapel, porque o Alexandre e o Gersinho preferiram ficar à beira do poço degustando uma calabresa com limão e depois tiveram que ouvir poucas e boas porque o Vinícius teria quase se lascado na torrente de água e eles não estavam lá pra ajudar, mas não demorou muito e logo as coisas se acertaram.


       
                Lá pelas 14 horas começou a chover e estávamos sempre atentos para não sermos pegos por alguma possível cabeça d’água. A chuva veio, mas o tempo continuava quente e agradável e o rio continuava com a mesma transparência de sempre. A travessia continuava muito animada e tranquila e o terreno só se complicou um pouco quando chegamos a um grande desnível de onde despencava uma pequena cachoeira em um afluente do lado esquerdo do rio. Descemos por um desnível considerável e logo nos jogamos de cima de mais uma cachoeirinha e passado esse trecho enfrentamos uma sequencia de corredeiras mais violentas onde íamos nos jogando por dentro delas e deixando a força da água nos adiantar o caminho.
       
                No nosso localizador por satélite observamos logo que o final da travessia não estava muito longe, mas ao transpor mais um imenso poço de águas cristalinas nos deparamos com um amontoado de rochas e alguns que esperavam moleza no final, fizeram uma cara de desanimo.  Foi aí que demos um pulo certeiro. Ao tentarmos varar mato pela esquerda nos deparamos surpreendentemente com uma trilha larga, aberta e bem consolidada. A trilha corria perpendicular ao rio e logo achei que ela poderia se perder em alguma localidade rural, mas o Rafael insistiu que deveríamos ir por ela, já que ele mesmo era exímio conhecedor ali daquela região. Seguimos então por ela e logo passamos por um afluente, onde o atravessamos e subimos o barranco do outro lado e em mais uns 10 minutos tropeçamos numa bifurcação e o Rafael reconheceu o lugar e nos indicou que deveríamos pegar para a direita que logo chegaríamos à Cachoeira do Paraíso.
       
                Bastou alguns minutos mais de caminhada e já avistamos a placa que indicava que deveríamos virar à direita e ao fazermos isso, já demos de cara com a cachoeira e seu grande poço de águas esverdeadas. Já fazia maios de 20 anos que eu não botava meus pés nessa CACHOEIRA DO PARAÍSO e sinceramente, nem me lembrava de que o poço era tão grandioso. Quando adentramos naquele lugar, que estava lotado de turistas, fomos recebidos com um enorme espanto pela multidão que se aglomerava naquela grande atração . Não sei o que houve naquela tarde de segunda-feira feira de carnaval porque surpreendentemente nosso grupo pareceu estar tão extasiado com o final daquela travessia que ninguém disse nada e como um zumbi, um a um foi caindo no poço e nadando para o patamar aos pés da cachoeira. Pior ainda foi a cara dos guarda-vidas do Parque Estadual, que só nos olhavam sem entender o que estava acontecendo. Quando todo o grupo se juntou, fomos tomados por uma sensação inigualável de sucesso, de dever cumprido. Havíamos proposto realizar uma travessia inédita, desbravar um grande rio a partir da sua nascente e agora estávamos todos ali, havíamos cumprido o planejado. Estávamos eufóricos, extasiados, inebriados pela conquista, nos abraçamos e celebramos o sucesso da empreitada.
       
         ( Cachoeira do Paraíso)
               Depois daquela cena memorável, varias pessoas ficaram nos perguntando o que estava acontecendo e de onde vínhamos com aqueles trajes de astronautas. Desconversamos, muito porque já percebemos que os salva-vidas ganharam a nossa movimentação e avisaram a portaria  pelo rádio que algo estranho estava acontecendo. Juntamos-nos para uma ultima foto do grupo enfrente a cachoeira, apanhamos nossas mochilas e saímos vazados de lá.
       
                Bom, agora havia chegado a hora de enfrentarmos a fiscalização do Parque Estadual do Itinguçu, parque esse que foi meio que desmembrado da reserva Ecológica da Jureia, justamente para poder permitir que o cidadão pudesse frequentá-lo, mas que jamais entenderiam se falássemos que vínhamos da nascente do rio, três dias atrás, mesmo assim teríamos que enfrentar esse problema. Quando o grupo chegou à portaria não demorou muito para um dos controladores de acesso encurralar o Natan na parede. Perguntou que horas havíamos entrado, se estávamos nos aventurando mais acima da cachoeira do Paraíso e o Natan já deu um “migué” dizendo que havíamos chegado bem cedo e já foi picando a mula sem dar maiores satisfações e assim foi seguido pelo resto do grupo, que mal olhou na cara dos guardinhas e  ganhamos rapidamente a rua e sem nem olhar para trás, continuamos caminhado até  sair das vistas de quem quer que seja.
       
                Ficamos sabendo que o único ônibus que poderia nos levar de volta à civilização só partiria depois das oito da noite, então resolvemos caminhar uns 3 ou 4 km até uma bifurcação de onde tentaríamos outro ônibus ou uma carona para nos levar até Peruíbe, mas quando lá chegamos, descobrimos que talvez não houvesse ônibus algum, já que o rio que corta a estrada estava cheio. Mesmo chovendo, não Havia alternativa, senão tentarmos chegar ao vilarejo do Guaraú caminhando por umas três horas ou mais. Sem termos o que fazer, lá fomos nós, um pé à frente do outro até que logo à frente nos deparamos com a cheia do rio que inundou uns 200 metros de estrada e chegamos bem a tempo de presenciarmos um caiçara que incorporou a mãe d’água e foi morar com sua motoca no fundo da inundação. Depois desse trecho passamos por um camping e por sorte, uma conhecida do Potenza estava por lá “excursionando” e não demorou nadinha para o menino passar um óleo de peroba na cara e ir lá descolar uma carona numa Van, mediante a um pagamento simbólico.
       
                O veículo nos deixou numa pracinha do Guaraú, que fica bem ao pé do morro de mesmo nome e o que nos restava agora era termos paciência até que o ônibus que partiria para Peruíbe chegasse. A chuva não dava trégua e mesmo assim a festa de carnaval corria solta no vilarejo, onde um trio elétrico fazia a alegria da multidão de foliões que, possivelmente com a cara cheio de pinga, não estavam nem aí com a “molhasseira” dos infernos. A noite já ia caindo e nada do tal ônibus chegar. Estávamos todos molhados e com frio e ficamos ali, numa marquise de uma lanchonete, assistindo ao show de horrores dos “cú de pinga” dançando carnaval e quando um dos nossos (Alexandre), depois de tomar uma latinha de cerveja, resolveu descer na boquinha da garrafa, decidimos que era hora de fazermos algo pela gente e que nos tirasse daquele antro de perdição.
       
                Quando uma Kombi encostou enfrente a lanchonete do outro lado da avenida, vislumbramos a possibilidade de conseguirmos um transporte para Peruíbe e para isso destacamos para essa missão, nosso enviado especial para assuntos logístico, o xavecador mor, VGN Vagner e esse foi o  maior erro que cometemos nessa expedição. O Vagner voltou dizendo que havia conseguido um carreto para Peruíbe por meros “cinco conto”, mas que o nosso motorista parecia estar um pouco alterado. Quando lá chegamos com nossas cargueiras, nos deparamos com uma Kombi toda zuada, sem bancos e com um “rippie maconheiro” , com o rabo cheio de fumo. Bom, é aquele negócio, já que está no inferno abraça logo o capeta, mas essa frase talvez não fosse muito adequada para o que ia se seguir.
       
                A chuva havia aumentado ainda mais e rapidamente nos jogamos com mochila e tudo para dentro da Kombosa e cada um se ajeitou como pode e como deu. O motorista e seu ajudante ainda tiveram tempo de dar um sorriso amarelo, quando viram nove homens e suas cargueiras adentrarem no veículo. Deu a partida no bagulho e logo que se livrou dos foliões que desfilavam atrás de nós, ganhou a estradinha escura que leva ao alto do Morro do Guaraú. O barulho era ensurdecedor, parecia que o carburador iria explodir a qualquer momento, mas mesmo assim estávamos contentes porque finalmente parecia que sairíamos daquela travessia, porque já tinha gente comparando aquela expedição com a Caverna do dragão.
                O rippie acelerou, esgoelou, a Kombi tremeu, balançou e foi subindo aos trancos e barrancos e nós tentávamos ajudar com a força do pensamento, mas quando faltava menos de 1 km para chegar ao alto da serra, o trambolho morreu de vez e ficou atravessada na diagonal, no meio da pista e não houve nada que o rip pudesse fazer para que ela voltasse a pegar, inclusive nem o freio ele conseguia acionar direito, fazendo com que a gente quase caísse na ribanceira. Ficamos todos ali, sem saber o que fazer e só esperando a hora que um carro viria para estraçalhar a Kombi com a gente dentro e a cada freada dos veículos na escuridão, nossos corações pareciam que saltaria pela boca. Ninguém disse uma palavra, eu olhava para os caras e só via  olhos arregalados e o safado do rippie também não dizia coisa com coisa e quando alguém resolveu tomar uma atitude dizendo que iria sair para sinalizar e abriu a porta da perua, uma avalanche de mochilas e caras cagados, se jogaram para fora da Kombi naquela noite escura e chuvosa e essa foi a ultima vez que ouvimos falar do o tal rippie porque não quisemos nem saber o que houve com  ele e com aquele veículo do satanás.
       
                Tendo nos livrado do rippie para salvar nossas vidas, caminhamos até o alto da serrinha e lá nos amontoamos embaixo de um ponto de ônibus mequetrefe e esperamos até que um ônibus nos apanhasse e evitasse que morrêssemos de frio e nos levasse direto para a rodoviária de Peruíbe e chegando lá, embarcamos imediatamente para Itariri. Já passava das dez da noite e ali na minúscula cidade, nos despedimos da galera paulistana, que conseguiram um taxi para poder resgatar o carro na fazenda de bananas, enquanto eu, o Alexandre, o Vinícius e o Gersinho resolvemos dormir num hotelzinho e voltar para casa somente na terça feira, já que não queríamos dirigir a noite por quase 300 km até a região de Campinas.
                
                E essa foi mais uma EXPEDIÇÃO, até então inédita na Serra do Mar Paulista, uma aventura que marca mais um pioneirismo em um dos mais exuberantes lugares do mundo, uma travessia de descobrimento, encantamento, regada a amizade, companheirismo e determinação, uma aventura em busca de conhecimento, de aprendizado, mas antes de tudo, um brinde a vida e ao desapego porque a simplicidade sempre nos bastou. Fomos em busca do novo, do diferente, de um mundo selvagem, nos embrenhamos na selva para escaparmos das mesmices de sempre e voltamos de lá extasiados pela descoberta, porque em matéria de AVENTURA, essa SERRA nunca decepciona .

       
                                                                             Divanei Goes de Paula - Fevereiro/2018
       
               
               
       


×
×
  • Criar Novo...