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Por Aí... Uma aventura solitária pelo Peru, Bolívia e Norte do Chile


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"Amigos, eu nem acredito! Este relato foi transformado num livro que foi lançado dia 01-08-2011 na Assembléia Legislativa de Santa Catarina pela Diretoria Oficial de Imprensa do Estado através da Lei 15.019 "Cem Cópias Sem Custos".

Muito legal né?

 

Valeu, um abraço a todos e boa leitura... se desejarem um exemplar do livro é só me escrever [email protected].

 

 

Curta um relato de uma viagem por parte de três países da América do Sul. A aventura, no estilo mochileiro, é realizada de forma solitária e experimenta-se muitas emoções... O relato convida você a pôr uma mochila imaginária nas costas e aventurar-se, comigo, pelo Peru, Bolívia e Norte do Chile...

 

 

Ronei B. Amandio

 

 

POR AÍ... Uma aventura solitária

À minha esposa Janaina e aos meus filhos Dylan Thomas e Ana Paula.

 

 

Agradecimentos

 

Agradeço a DIOESC em especial ao Cidnei R. Soares pela correção, ao Paulo Silveira pela diagramação e arte e a Milene Dias Luz pelo atendimento dispensado.

 

Agradeço meu amigo Telmo Siqueira que, desde o início, e por conta de sua experiência, me orientou sobre importantes detalhes a serem observados antes, durante e depois da viagem.

 

Agradeço também à minha amiga Silvana Barbosa Granato, que colaborou com a revisão ortográfica deste relato.

 

Aos meus sobrinhos Marcos e Gleyce, que se fizeram presentes durante toda a minha ausência.

 

E, em especial, à minha esposa Janaina Telles, que foi a primeira a me apoiar e a “carimbar” meu passaporte. Afinal, sem o respeito, confiança e, principalmente, o aval daquela que me apoia sempre, a viagem não teria o mesmo valor.

 

Homenagem

 

Semente de tudo: Minha Mãe – Maria F. Amandio,

exemplo e orgulho de perseverança, dedicação e carinho.

 

Base de tudo: Meu Pai – Bertholino E. Amandio,

exemplo e orgulho de honestidade, trabalho e humildade.

(In memoriam)

 

 

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser... é preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo.”

 

Amyr Klink, (Mar Sem Fim)

 

 

Prefácio

 

Inicialmente planejei a minha primeira viagem internacional para conhecer a Venezuela (considerada a Veneza sul-americana) e, de lá, ir de ônibus ou trem até a Colômbia, Panamá e Costa Rica, e assim conhecer, entre tantas outras coisas, o mar do Caribe e o oceano Pacífico.

Como a companhia aérea da qual possuo os pontos do Programa de Fidelidade não faz os destinos Costa Rica, Panamá e Colômbia, eu teria de retornar à Venezuela que, além de ser mais dispendioso, o tempo ficaria comprometido. Com esse empecilho resolvi alterar o destino da viagem para o Peru, o que não me desagradou em nada, pois conhecer Machu Picchu também era um sonho há muito acalentado.

A programação inicial era ir a Lima e, de lá, de ônibus ou trem, a Machu Picchu, conhecendo algumas cidades do trajeto e voltando a Lima para apanhar o avião de retorno a Florianópolis.

Após muitas pesquisas na Internet, que me despertaram interesse em conhecer outros lugares além de Lima e Machu Picchu, e aproveitando a oportunidade, resolvi alterar o roteiro e a data da viagem. Enfim, conciliei o novo roteiro, agora mais extenso, às minhas férias que, na ocasião, também foram adiadas para março de 2010, na expectativa de conseguir conhecer Machu Picchu, que se encontrava fechado devido às chuvas que assolaram Cuzco e Aguas Calientes, cidades-base para ingresso à mais famosa e intrigante cidade/ruína inca de que se tem notícias. Com isso, o itinerário escolhido foi Lima, Cuzco, Machu Picchu e Puno no Peru, Arica no Chile e La Paz na Bolívia, de forma que a partida se deu no dia 17-03-2010, para Lima, e o retorno, de La Paz, no dia 29-03-2010.

Aprofundando-me nas pesquisas sobre os pontos turísticos de cada um dos novos destinos escolhidos, dei início, por ora virtualmente, àquela que se tornou uma das maiores aventuras já realizadas na minha vida.

Providenciei uma nova carteira de identidade, tomei vacina contra a febre amarela (obrigatória) e tirei meu primeiro passaporte.

A intenção do relato sobre esta viagem é tentar descrever os principais acontecimentos desta aventura que, repito, sozinho realizei com o propósito de conhecer o máximo possível dos locais escolhidos, durante o pouco tempo que dispunha. De forma alguma se trata de um “diagnóstico” das cidades ou países visitados, mesmo porque não era esta a intenção e nem poderia ser em face da vasta cultura daqueles povos, da extensão territorial daqueles países e, sobretudo, da brevidade com que se deu a permanência nas cidades percorridas...

 

 

Apresentação

 

Há mais de vinte anos eu conheço e trabalho com o Ronei. Ao longo desses anos tive a oportunidade de realizar muitas viagens profissionais com ele, que sempre me surpreendeu com a criatividade de torná-las mais agradáveis, pois, sem negligenciar o trabalho, ou seja, nos momentos em que estávamos de folga, sempre descobria algum lugar pitoresco ou um ponto turístico para conhecer pelas muitas cidades pelas quais passamos.

Posso afirmar que o meu amigo Ronei, com toda certeza, me fez despertar o gosto pelas viagens.

Agora ele me presenteia com a honra de fazer a apresentação deste livro em que relata as suas aventuras, ainda que com uma certa dose de luxo, num verdadeiro estilo mochileiro que, a meu ver, é o verdadeiro retrato de um aventureiro.

Descreve de forma muito agradável os seus passos desde a partida de Florianópolis, passando por cidades do Peru, Chile e Bolívia, até seu retorno a Florianópolis.

Com cuidado descreveu não apenas o que vivenciou, mas também as peculiaridades de cada local.

Com habilidade para fazer amizades, podemos notar em seu livro que ele não se restringiu apenas a conhecer as localidades, mas interagiu com o povo, podendo, desta forma, conhecer, de verdade, a realidade de cada local que visitou.

Finalmente, me resta dizer a todos que tiverem a oportunidade de ler este livro que o façam com a mente aberta, pois, com certeza, estarão viajando juntos nesta gostosa aventura.

 

Telmo Siqueira

 

 

Florianópolis, Brasil (quarta-feira, 17-03-2010)

 

Chegado o dia da viagem, a expectativa era grande e todos sentiam uma certa angústia. Afinal, este dia vinha sendo programado e esperado por todos da família há bastante tempo. Então, com o roteiro preestabelecido e a mochila pronta, minha esposa (que me apoiava, mas insistia em afirmar que era loucura ir sozinho) e minha amada filha Ana Paula acompanharam-me ao Aeroporto Hercílio Luz, onde ficamos conversando por algum tempo enquanto a ansiedade me castigava até a hora do embarque. Meu filho não pôde nos acompanhar.

Bem que eu gostaria de levar toda a família, mas com o início das aulas das crianças e com a esposa trabalhando, não foi possível. Convidei alguns amigos, que também não puderam me acompanhar. Então o jeito foi ir só.

Assim sendo, com o apoio incondicional de minha esposa e com a determinação de um desbravador, parti, sozinho mais Deus e uma mochila nas costas, para conhecer outros mares, outros povos, outras culturas...

A primeira parada foi no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, onde jantei pela última vez, antes desta viagem, em solo brasileiro.

O pequeno e rápido percurso se deu numa noite estrelada, onde a Lua clareava o mar de Florianópolis como um holofote gigante apontando para a bela capital catarinense, tornando-a ainda mais charmosa e atraente. Da pequena janela do avião me peguei pensando se encontraria num dos três países que estava prestes a conhecer lugares tão lindos e maravilhosos quanto este já cantado por tantos poetas.

 

 

São Paulo, Brasil (quarta-feira, 17-03-2010)

 

Como parti de Florianópolis com conexões em Porto Alegre e São Paulo, tive de pernoitar em Guarulhos/SP, pois lá cheguei por volta da 01h da madrugada e o voo para Lima, Peru, só partiria às 8h da manhã.

Como meu objetivo, como um bom mochileiro, era economizar o máximo possível, a intenção era dormir no aeroporto de São Paulo, porém a claridade, o barulho, o desconforto e, principalmente, a preocupação me levaram a tomar uma das vans que ficam de plantão na saída do aeroporto e ir descansar num hotel próximo. Essa decisão certamente contribuiu para que eu chegasse a Lima mais descansado, embora “dormir” das 2h30 às 6h não foi tão relaxante assim.

Após um simples café da manhã, parti mais cedo para o aeroporto com o intuito de comprar uma nova máquina fotográfica, pois a que levava e que fora comprada recentemente apresentou defeitos quando registrava algumas fotos da despedida no aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis.

No aeroporto de São Paulo me dirigi a uma loja onde me certifiquei de que a câmera realmente estava com defeito e realizei a compra de uma outra. Essa foi uma decisão essencial, pois sem ela não poderia registrar as mais de 1.000 fotos dos belos e exóticos lugares que percorri nessa inesquecível viagem.

 

 

Lima, Peru (quinta-feira, 18-03-2010)

 

Às 08h30 São Paulo e o Brasil ficavam para trás e diante de mim um mundo abstrato estava por ser descoberto. Cheguei a Callao, Peru, às 12h, tendo a impressão de ter voado apenas três horas e meia, mas como o fuso horário entre as duas cidades é de duas horas, o voo, na verdade, durou quase seis horas.

Com um belo dia de sol parti em direção a Lima e, percorrendo alguns bairros, cheguei ao Centro Histórico, vislumbrando a arquitetura hispânica da cidade que, fundada em janeiro de 1535, foi declarada a Cidade dos Reis por seu fundador, o conquistador espanhol Francisco Pizarro.

Conhecer apenas essa pequena parte de Lima, reconheço, foi pouco, mas o suficiente para sentir o agradável clima daquela linda região. É impressionante ver lindos bairros instalados a uns 100 metros sobre o nível do mar (m.s.n.m.). Outro fato interessante é a quantidade de museus. Lima tem mais de sessenta!

Antes mesmo de procurar um hotel, que encontrei facilmente próximo à Plaza Mayor (Praça Mayor), também conhecida como Plaza de Armas (Praça de Amas), localizada no “coração” de Lima, registrei várias fotos daquela praça que foi cenário da colonização espanhola de Lima e serviu como palco de algumas das mais importantes conquistas da História do Peru. Foi também usada como praça de touradas e como lugar de execução de condenados. Nesse local foi proclamada, em 1821, a Independência do Peru. Ao redor da praça ficam o Palácio do Governo, a Catedral e a Prefeitura com suas sacadas em madeiras nobres, que também ornamentam muitos outros prédios e casas das cidades peruanas.

Após a hospedagem, num hotel simples, porém “simpático”, saí para fazer o reconhecimento das imediações passeando pela praça e arredores.

Nessa região há um variado comércio e uma grande quantidade de restaurantes. Afinal, no Peru, há uma significativa reserva de recursos naturais, como inúmeros frutos do mar do oceano Pacífico, vegetais dos Andes e ervas e peixes da selva amazônica.

Almocei um curioso e gostoso prato denominado cebiche, aportuguesado com o nome de ceviche – símbolo da culinária limense. Ceviche é um prato típico peruano baseado em peixe cru marinado em limão, acrescido de sal, alho, cebola roxa e pimenta, muito apreciado em todo território daquele lindo país. Lula e polvo também são usados como alternativas. Dizem que os melhores são servidos num bairro próximo chamado Miraflores, mas a fome era tão grande que experimentei a primeira comida exótica da viagem ali mesmo.

Nessa tarde fui conhecer a Costa Verde – balneário que agrupa muitas praias. O curioso é que, em algumas delas, as pedras cinza, pequenas e roliças substituem a areia, tão comum em nossas praias.

A diferente e estranha sensação de andar descalço sobre aquelas pedrinhas me fez pensar em minha família e, em especial, em meu filho Dylan. Não sei exatamente o porquê, mas ele gosta de transformar pedras em lembranças, ao ponto de, numa ocasião, levar para casa uma das pedras da calçada de Copacabana no Rio de Janeiro. Naquele momento recolhi a primeira lembrança da minha viagem, algumas pedrinhas roliças e escuras que guardei com carinho no bolso da bermuda para levar a ele.

É, de fato, uma sensação totalmente diferente, e ali se percebe que, definitivamente, não se está em “casa”, ou seja, no Brasil.

O restaurante Rosa Náutica é uma atração à parte. Ele se estende sobre o mar por uns 150 metros aproximadamente, numa harmonia perfeita, contribuindo ainda mais para a beleza do lugar. Resolvi conhecê-lo e percebi que sua arquitetura suave não condiz com os preços salgados de seu cardápio. De qualquer forma, lá estava eu numa linda e ensolarada jueves (quinta-feira) à tarde, tomando uma deliciosa cervejinha peruana, à “bagatela” de R$ 10,00 cada long neck (365 ml). Tomei duas e, claro, pedi a conta. Este lindo restaurante abre aos domingos, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes e sábados (domingos, segundas, terças, quartas, quintas, sextas e sábados) e serve, entre outros pratos, uma especialidade diferente por dia.

Com um dos meus objetivos realizados – conhecer Lima e algumas praias do oceano Pacífico –, iniciei uma agradável e longa caminhada por grande parte da orla da Costa Verde, que abrange os bairros de Miraflores, San Isidro, Barranco e Chorrillos.

Para observar o mais belo pôr do sol de que me recordo me acomodei estrategicamente na varanda de um dos restaurantes do lindo Shopping Larco Mar e ali permaneci até jantar uma deliciosa Paella Marinha do Pacífico. O Larco Mar é um shopping a céu aberto aonde centenas de pessoas vão para, entre outras coisas, prestigiar e registrar o magnífico pôr do sol.

Depois disso, retornei à Praça Mayor para registrar algumas fotos noturnas.

De volta ao hotel, enquanto experimentava o Pisco Azedo – bebida tradicional do Peru, que consiste de conhaque de uva, limão, clara de ovo e uma pitada de canela, conversei com o atendente/dono sobre minha intenção de conhecer as islas Palominos (ilhas Palominos). Depois de ligar para algumas agências de turismo, ele me informou que não haveria passeio às ilhas. Desgostoso com a informação, mas satisfeito pelo que vira no primeiro dia em Lima e bastante cansado, relaxei e recuperei forças tomando um bom banho numa pequena e antiga banheira que tinha no velho apartamento do hotel, sem imaginar que no dia seguinte teria uma agradável surpresa.

 

 

Lima, Peru (sexta-feira, 19-03-2010)

 

Durante o desayuno (café da manhã) me lamentei com um outro atendente sobre a falta de sorte por não poder conhecer as ilhas Palominos. Fui dar uma volta enquanto ele tentava saber se haveria algum modo de me ajudar. Depois de andar muito pelo centro e imediações de Lima, perto do meio-dia retornei ao hotel, quando o rapaz me disse que se eu chegasse a Callao (local de partida) em uma hora, eu conseguiria conhecer as ilhas...

Começou ali uma frenética corrida contra o tempo. Subi para trocar de roupa; pôr uma bermuda e pegar uma toalha. Enquanto isso, ele fez contato com um taxista, que já estava me aguardando na porta do hotel quando desci, e apressados partimos em meio ao agitado trânsito de Lima.

Chegando ao local, que fica numa praça que não me recordo o nome, ao lado do porto de Callao, me frustrei quando um rapaz disse que já tinham partido. Nesse momento ouvi o taxista que me levara me chamar e apontar para o outro lado da praça, onde havia uma pequena banca improvisada. Ao me aproximar, uma mocinha falou:

 

Señor Ronei (Senhor Ronei)

Sí. (sim)

Estamos esperando por ti.

 

A sensação foi de alívio e de expectativa, pois, enfim, eu conheceria as tão famosas ilhas.

O passeio inicia-se numa simples embarcação e depois se segue numa linda lancha, onde são servidos salgadinhos (tipo Elma Chips) e Pisco Sour, uma espécie de caipirinha que consiste de limão, açúcar, gelo e pisco (aguardente feita de uva), objeto de embate internacional entre Peru e Chile, que requerem a patente da bebida.

Estas duas pequenas ilhas têm cheiro desagradável e barulho assustador, pois são habitadas por muitas espécies de aves, mas os leões marinhos e as focas dominam o ambiente. Mergulhar livremente junto a esses mamíferos traz uma indescritível sensação. São milhares deles descansando numa ilha sem vegetação alguma e mergulhando em seu entorno como se estivessem dando as boas-vindas às embarcações que de lá se aproximam. Esses animais são muito dóceis, curiosos e engraçados, pois fazem malabarismos na água para chamar a atenção dos turistas, que se deslumbram com tal experiência. O local é fora do comum devido à sua magnífica beleza natural.

A partir de Callao, leva-se aproximadamente uma hora e meia para chegar às ilhas Palominos, e durante o trajeto o guia vai explicando todos os interessantes acontecimentos que ocorreram próximos ao local.

Passa-se pela maior ilha do Peru, com aproximadamente oito quilômetros por quatro quilômetros de extensão onde, por tradição, o Presidente e oficiais das Forças Armadas do Peru confraternizam-se em datas festivas e, principalmente, nos réveillons. Há até cassino na ilha! Passa-se ainda por uma ilha que abrigou a ex-prisão El Frontón, na qual estavam encarcerados mais de 300 prisioneiros de guerra e membros do Partido Comunista peruano (Sendero Luminoso), cujo extermínio, planejado e executado pelo então presidente Alan García, em julho de 1986, foi considerado o fato mais sangrento da história carcerária do país.

No trajeto há uma forte agitação no mar que, segundo o guia, trata-se de uma cidade, hoje submersa, cuja população foi praticamente extinta, pois houve poucos sobreviventes do que teria sido um “tsunami”.

No retorno, pensei no porquê de o dono do hotel haver-me informado que não haveria passeios às ilhas e lembrei que ele disse que gostava do Brasil, mas achava que o país virou as costas para a América do Sul. Senti um certo desprazer em suas palavras que tinham certo fundamento, o que me levou a imaginar que seria este o motivo da sua indisposição.

Ainda nesse dia, após visitar as ilhas Palominos, retornei à Costa Verde para filmar e registrar o estrondoso e impressionante barulho que a maré faz nas pedrinhas quando do repuxo das ondas, dando a impressão de se estar próximo a uma queima de fogos de artifício. No percurso andei pelos bairros de Miraflores e Barranco, extremamente elegantes e bonitos, muito diferentes dos bairros de Callao, nos quais é necessário fechar os vidros dos carros para não se ser assaltado, conforme orientam os taxistas.

Fui então conhecer a praia de Chorrillos, onde conheci dois senhores aposentados da Marinha e da Aeronáutica peruanas, que me convidaram a sentar com eles. Ali permaneci até o final da tarde, conversando, comendo peixe-rei, tomando cerveja e ouvindo músicas peruanas que um trio, convidado pelos senhores, tocou durante um bom tempo. Esses dois aposentados eram profundos conhecedores da história contemporânea do Peru e fizeram questão de contar-me detalhadamente.

Depois de curtir aquele belo local, com uma vista deslumbrante dos bairros que ficam, repito, a uns 100 metros acima do nível do mar, comentei aos dois cavalheiros que pretendia conhecer o Mosteiro de São Francisco. Um deles divergiu sobre a relevância cultural e turística do tal mosteiro e convidou-me para conhecer o clube do qual era presidente, dizendo que o tal clube era muito mais interessante do que o mosteiro. Com habilidade recusei o convite e, antes de me despedir, ouvi seus conselhos quanto à minha segurança, alegando que eu era diferente do povo local e que poderia despertar a atenção de pessoas mal-intencionadas, o que poderia ser perigoso, pois andar sozinho por lá não era recomendado.

Tomei uma mototáxi que leva os passageiros apenas da parte baixa para a parte alta dos bairros e vice-versa, pois são proibidas de trafegar no centro de Lima.

Então, no alto da cidade e antes de me dirigir de volta ao centro de Lima, precisei ir a um banheiro. Me “viro” razoavelmente bem com o castelhano, mas fugi da aula que ensinava a pedir para usar um banheiro, pois ao entrar num boteco com o intuito de me aliviar, pedi licença a dois rapazes que estavam atrás do balcão:

 

Puedo usar el banheiro? (Posso usar o banheiro?)

Perdón! (Perdão!) – disse um deles.

Puedo usar el banheiro?

Banheiro? – disse o outro.

 

Não me aguentando mais tive de gesticular, pagar um “mico” e, quase gritando com os desentendidos, disse:

 

Banheiro, amigo, banheiro – URINAR, URINAR!

Ah! Sí, sí, servicios higiénicos.

 

Aliviado e satisfeito por saber que não passaria mais aquele ridículo, tomei um táxi e voltei ao centro de Lima. As corridas de táxis nesta parte da cidade são extremamente baratas, pois funcionam de forma coletiva, entrando e saindo passageiros o tempo todo, como transporte coletivo, pagando-se uns 4 Nuevos Soles (S./), mais ou menos R$ 2,50, para percorrer uma média de 10 quilômetros.

Cheguei ao mosteiro que já estava cerrado (fechado), de forma que não o conheci internamente e, portanto, não pude prestigiar um dos ambientes mais visitados do museu – os túmulos que serviram de cemitério público e ficam em corredores escavados, silenciosos e sombrios. Dizem que é um ambiente mórbido, mas curioso.

Só me restava então passear pelas imediações da Praça Mayor, jantar e depois descansar, afinal, o dia foi intenso e na manhã seguinte partiria para Cuzco, na esperança de conhecer Machu Picchu. No entanto estava acontecendo uma feira artesanal com apresentações folclóricas (indígenas e mexicanas (?)) no Largo do rio Rumac, próximo ao hotel, de forma que aproveitei para assistir a algumas delas e comprar umas lembrancinhas.

Jantei numa pizzaria onde as pizzas são servidas em fatias únicas e come-se dividindo o mesmo balcão, como nas lanchonetes no Brasil. Também não havia talher e só serviam café e Inca Kola – tipo de refrigerante amarelo com gosto parecido com refrigerante de tutti-frutti, formulado com Lúcia-lima – uma espécie de planta sedativa e digestiva, utilizada para fazer chá.

Nessa noite liguei para casa para falar com minha amada esposa e filhos, mas esqueci que o fuso horário é de menos duas horas, quando comparado ao Brasil, de forma que em Lima eram 22h30, resultando num belo susto às 00h30.

Depois disso voltei ao hotel e fiquei conversando com uns turistas australianos, que falavam português e que pretendiam conhecer o Pantanal.

No apartamento, enquanto assistia à televisão, descansava para enfrentar a altitude que me aguardava em Cuzco. A expectativa quanto à abertura de Machu Picchu era grande, mas eu só saberia no dia seguinte...

 

 

Cuzco, Peru (sábado, 20-03-2010)

 

Cuzco é uma das cidades mais lindas do Peru. Caminhar por suas ruas é como voltar no tempo, pois o que quer que se faça e para onde quer que se olhe, sente-se a cultura inca e/ou espanhola no ar. De arquitetura ímpar (quase tudo em pedras), esta cidade exala cultura.

Antes de os espanhóis invadirem Cuzco, a cidade era o centro do Império Inca e, não por acaso, foi uma das mais importantes do período colonial. Cuzco, em Quéchua, significa Umbigo do Mundo.

De Lima a Cuzco leva-se aproximadamente uma hora de transporte aéreo. Mal se sai do avião, e antes mesmo de pegar a bagagem, se é “atacado” por uma “enxurrada” de agenciadores oferecendo as mais diversas propostas de hotéis e passeios.

Ali mesmo, e sem conhecer nada, garanti a hospedagem com direito a traslado de táxi (aeroporto-hotel-aeroporto), no meu caso aeroporto-hotel-rodoviária, pois partiria de Cuzco para Puno de ônibus ou trem. O Sr. Victor (dono da agência) teve de me levar ao hostel (espécie de albergue), pois o taxista, “podre de bêbado”, não acordou e foi dormindo no banco traseiro do carro.

Mal larguei minha mochila no minúsculo, sombrio e malcheiroso quarto do hostel e já havia outra agente de viagem de nome curioso, chamada Luz Marina, que quis, logo no meu primeiro dia em Cuzco, bancar a espertinha, inflacionando o turismo na cidade. Sem ter tempo nem para me aclimatar, ela queria me vender, além do tour por Cuzco, a passagem, hospedagem e passeio para o lago Titicaca, tudo em Puno, ou seja, a quilômetros de Cuzco, que seria o próximo destino da viagem.

Enquanto tomava meu primeiro chá de coca, percebia a tal señorita (senhorita) tentando explorar esse ofegante, solitário e confuso turista brasileiro, cobrando-me muito caro pelos serviços oferecidos. Devido à pressão imposta, foi com certa dificuldade que consegui rejeitar e, claro, ela diminuiu em muito o pacote turístico por Cuzco, incluindo apenas a passagem para Puno. Acredito que todo esse emergente “ataque” acontece de propósito e antes que os efeitos do soroche, também conhecido como Mal da Montanha (espécie de mal-estar que se sente quando se está em altitudes muito elevadas), comece a diminuir, pois a pessoa chega um tanto quanto lenta e precisa de um tempo para se acostumar com a altitude, que em Cuzco é de 3.500 metros sobre o nível do mar.

Tive vontade de expulsá-la, mas o tour daquela tarde partiria dentro de uma hora e talvez não desse tempo de procurar uma outra agência, além do fato de que o tour do dia seguinte para o Vale Sagrado e ruínas de Saqsayhuamán, Q´enqo, Pukapukara, Tambomachay, Chinchero, Pisac e Ollantaytambo levaria o dia inteiro, ou seja, partiria às 08h e retornaria às 20h, o que tomaria todo o meu tempo em Cuzco. Ainda que ela tenha levado alguma vantagem, valeu a pena, pois a comodidade e a certeza de garantir os passeios e a passagem para Puno sem precisar me deslocar até outra agência de viagem e à rodoviária otimizaram meu tempo naquele momento.

No primeiro tour em Cuzco conheci lugares interessantes e intrigantes, como Qorikancha (Convento de Santo Domingo) – construído sobre o Templo do Sol e considerado o maior templo inca, quando suas paredes, revestidas de ouro, em adoração ao Sol, abrigavam o lugar mais importante para os cultos de todo o império incaico. Conheci também o Convento de La Merced, a Igreja La Compañia de Jesus, a Igreja e Convento de Santa Catalina, entre outros importantes cartões postais.

Reza a lenda que Saqsayhuamán – ruína mais próxima da cidade de Cuzco – foi construída por 20.000 pessoas. Há pedras gigantescas, sendo que uma delas mede sete metros e pesa muitas toneladas. Desinformado, acabei indo de bermuda e camiseta, passando muito frio, pois o vento naquela altura era intenso. O guia emprestou-me uma capa de chuva para amenizar a situação, mas, ali mesmo, comprei blusa, touca, luva e cachecol de lã de lhama, o que me fez sentir muito mais confortável para apreciar e enfrentar o restante do passeio.

Q´enqo ocupa uma área de 3.500 m² e acredita-se que era um centro cerimonial de orações e rituais dedicados ao Deus da Guerra. Puka Pukara, ou Fortaleza Vermelha, é uma ruína a 3.765 m.s.n.m. construída com pedras avermelhadas, destinada a abrigar as comitivas incas quando visitavam Tambomachay. Tambomachay, por sua vez, era uma espécie de lugar de repouso dos incas. Construído em 1500 d.C., ainda possui aquedutos, fontes, cascatas, canais de irrigação e até uma banheira de pedra usada, na época, para rituais e cerimônias, o que fazia desta ruína um templo de cultura à água. Na saída é oferecido queijo e maíz – um milho com grãos enormes do tamanho de uma moeda de cinco ou dez centavos de real, que depois de cozido é conhecido como choclo.

No Peru, com exceção de Lima e Callao, em todas as outras cidades que visitei, em especial nos pontos turísticos que basicamente resumem-se a ruínas, as lhamas são usadas como objeto comercial. Seus donos as usam para que os turistas fotografem-nas e em troca lhes deem propina (gorjeta) atribuindo, ainda mais, um astral andino à viagem.

Evidentemente que registrei várias cenas interessantes, como senhoras sentadas em pastos tricotando vários tipos de peças artesanais; peruanas com seus filhos embrulhados num pano e carregados nas costas, e crianças, como as que fotografei nas ruínas de Saqsayhuaman, que também se beneficiam das lhamas para ganharem suas propinas.

No final deste tour, já noite, parei na Praça de Armas e me dirigi a uma pollería (galeteria), na expectativa de conseguir jantar algo habitual e tomar uma cervejinha cuzqueña “gelada” (raridade na região andina). Não imaginava que naquele momento iniciaria a “saga” do pollo (frango)...

A jornada da viagem, as noites mal dormidas e o cansaço do tour me fizeram “voar” ao hotel depois da janta. Já deitado, percebi que havia esquecido, na galeteria, as luvas, toucas e cachecóis que comprei para meus filhos e esposa. Voltei, encontrei os objetos e retornei ao hotel.

Mesmo tomando comprimido para alpinista senti dormência nos dedos e intensa dor de cabeça – efeitos do soroche. Mas foi o cansaço que contribuiu para que eu dormisse razoavelmente bem.

Enquanto escrevia os detalhes daquele dia, pensava em como seria o dia seguinte e quais surpresas e emoções o segundo tour me reservaria.

 

 

Cuzco, Peru (domingo, 21-03-2010)

 

Naquele segundo dia em Cuzco parti bem cedinho para o segundo tour em direção ao Vale Sagrado de Los Incas que, conforme previsto, durou o dia inteiro. Tomei um café da manhã com pão cuzqueño e mate de coca para ajudar a suportar a altitude e, claro, outro comprimido para alpinista.

Vale Sagrado compreende a linda região entre os poblados (povoados) de Pisac e Ollantaytambo a 75 quilômetros de Cuzco e a 600 metros mais baixo. Este vale é composto por muitos monumentos arqueológicos e rios que cortam pequenos povoados indígenas. O principal rio é o Urubamba, o mesmo que, em fevereiro de 2010, arrasou alguns povoados de Cuzco e isolou turistas em Águas Calientes quando destruiu partes da ferrovia que liga aquela cidade a Machu Picchu.

Segundo a guia do tour, o vale foi muito apreciado pelos incas devido à sua qualidade geográfica e climática, sendo um dos principais pontos de produção pela riqueza de suas terras que até hoje ainda é o lugar onde se produz o melhor grão de maíz do Peru.

No pequeno povoado de Chinchero, que era considerado pelos incas como o lugar onde nasce o Sol, estava acontecendo uma feira artesanal muito original, onde os nativos fazem o intercâmbio de seus produtos e vendem muitos produtos estranhos. Naquela feira podem-se comprar carne e cabeça de lhama, peixe cru ou frito, grãos, estrela-do-mar seca e, claro, produtos artesanais como roupas, mantas, macas (redes), entre muitas outras curiosidades. Naquele local, além do templo sagrado, conheci uns peruanos apaixonados pelo Brasil e acabei respondendo a um extenso interrogatório:

 

Quantos anos tem o Pelé?

Você conhece o Ronaldinho?

Você joga futebol?

Você já jogou com Kaká?

O Brasil vai ser campeão nesta copa?

E o Lula é bom mesmo?...

 

Depois de responder a cada uma das perguntas consegui mudar a conversa, afinal o turista era eu, logo, as perguntas deveriam ser minhas. Ao me explicarem sobre a cidade, a igreja e que eram quarenta os guardiões do templo, não perdi a oportunidade de brincar com eles, dizendo:

 

¿Son cuarenta tutores y el templo es como allá? (São quarenta guardiões e o templo está daquele jeito?)

 

É que a igreja estava com uma característica nada zelosa e no seu interior havia muitas cadeiras e bancos quebrados e amontoados, demonstrando um certo desleixo para com aquela que, por certo, é o centro turístico daquela pequena comunidade. Eles riram e tentaram se explicar, enquanto bebiam as cervejas em litro que paguei a eles e que eram servidas, diretamente da caixa, ou seja, quente, por uma senhora que mal cabia atrás do pequeno balcão. Enquanto bebiam, brindavam; bem, o brinde foi o seguinte:

 

Viva el Pelé;

Viva el Zico;

Viva el Ronaldo;

Viva o Lula (esse foi meu)

Viva el Brasil... (todos)

 

Despediram-se aplaudindo-me e desejando-me boa viagem, gritando para todo o Vale Sagrado ouvir que “Los brasileños son nuestros hermanos” (Os brasileiros são nossos irmãos).

Pisaq, que está situado a 33 km da cidade de Cuzco, possui um dos mais importantes universos arqueológicos do Vale Sagrado. Este povoado, conhecido pelo seu observatório astronômico, tem uma parte inca e outra colonial. Sua praça principal é um lugar colorido com diversos artigos artesanais à venda. Dá para observar facilmente que a arquitetura é mestiça e, garante a guia, pode-se assistir a uma missa em Quéchua no meio dos indígenas. Igualmente, pode-se comprovar como os agricultores incas resolveram o problema de semear nas encostas dos morros. Um exemplo prático da inteligência incaica.

De todos os turistas que estavam neste tour, eu fui, involuntariamente, o único que havia escolhido almoçar no Restaurante Tunupa. Quando a guia, de voz fina e com bom domínio do inglês e do castelhano, comentou esse fato por meio do sistema de som do micro-ônibus, pensei que mais uma vez fora ludibriado pela agente de viagem; mas não. Segundo ela, tratava-se do melhor restaurante da região, e deveria ser mesmo, a julgar pela aparência do outro restaurante onde os demais turistas almoçaram. Sem tempo para voltar atrás, tive de almoçar ali mesmo, pois se eu fosse consultado, por certo, teria escolhido o mais em conta. Mas já que isso não era mais possível, resolvi aproveitar o ambiente, que oferece show musical ao vivo, para degustar e experimentar exóticos pratos criollos internacionais, servidos numa varanda ao ar livre com uma linda vista do rio Urubamba. Ali eu experimentei o cuy (porquinho da Índia) assado e cortado em pedacinhos, pachamanca (carnes, milhos, batatas e ervas aromáticas, colocados num buraco e revestido com pedras aquecidas) e juanes de galinha (arroz, frango, ovos cozidos, azeitonas e especiarias envolvidos e fervidos em folhas de bananeira).

O ápice desse tour é Ollantaytambo, sítio arqueológico que impressiona pela originalidade, tamanho e estilo. Trata-se de um dos complexos arquitetônicos mais monumentais do antigo Império Inca.

Uma das montanhas que cercam a cidade mostra umas formações rochosas e uma delas lembra o rosto do Deus Wiracocha. Segundo os habitantes, a imagem apareceu após um terremoto que aconteceu no século XX. A aproximadamente 75 quilômetros de Cuzco, o passeio até Ollantaytambo já é válido por si só. Durante o trajeto contemplam-se diversas aldeias e lindas vistas do Valle Sagrado de Los Incas – é realmente muito bonito.

De acordo com o dialeto Aimará, Ollantaytambo significa “lugar para ver até embaixo”. Já para o idioma Quéchua significa “cidade que oferece alojamento”. O complexo arqueológico de Ollantaytambo foi um estratégico centro militar, religioso e agrícola.

Percorri as ruínas separadamente do grupo de turistas (incluindo três maranhenses) que dividiam o tour comigo, pois eu já começava a evitar um pouco os guias tendo em vista a vasta quantidade de informações, um erro, admito. Cheguei ao local combinado com pelo menos 30 minutos antes dos demais e fiquei conversando com um artesão local e sua esposa, grávida de oito meses. Contribuí com eles, mas não fiquei com nenhuma das suas obras, pois estavam muito caras.

Como conheço Machu Picchu apenas por fotografias, não posso fazer uma comparação com propriedade, mas as ruínas de Ollantaytambo devem ser as que mais se assemelham, pelo menos em tamanho e originalidade.

Visitar essas ruínas me trouxe uma sensação muito agradável e, para minimizar a frustração de não poder conhecer Machu Picchu, fiz de conta que estava visitando a própria cidadela, que, inicialmente, era o principal propósito desta viagem.

As horas iam passando e a aclimatação aos poucos se estabilizava. Nesse dia tomei apenas um comprimido e não senti mais os efeitos da altitude. Mesmo assim foi um dia altamente cansativo, porém muito proveitoso, já que o Vale Sagrado traz uma sensação ímpar a quem o visita.

Restavam-me agora as emoções do dia seguinte, quando passaria por Andahuaylillas, Raqchi, Sicuani, La Raya, Pukara e Juliaca, entre outros destinos, até chegar a Puno para conhecer o lago Titicaca e as curiosas ilhas Tequile e de Los Uros.

 

 

Entre Cuzco e Puno, Peru (segunda-feira, 22-03-2010)

 

Às sete horas, conforme horário marcado, fui apanhado no hostel pelo Sr. Victor, que deve ter despedido aquele taxista. Conforme combinado, me deixou na rodoviária onde eu tomaria o ônibus que faz o percurso Cuzco – Puno.

Este trajeto também pode ser feito de trem, o que seria mais original para o propósito da minha viagem, mas, infelizmente, não foi dessa vez, graças àquela agente de viagem (Luz Marina), que me informara que a Peru Rail – Train Travel (empresa que faz o percurso Cuzco – Puno) não estava operando devido às fortes e recentes chuvas que assolou Cuzco, o que não era verdade, pois do ônibus avistei o lindo trem azul indo, harmoniosamente, pelo altiplano andino, em direção a Puno. De qualquer forma me fez economizar alguns dólares, pois a passagem de trem para Puno custaria aproximadamente uns duzentos dólares e faz exatamente o mesmo percurso do ônibus, com uma diferença: o ônibus para para visitas guiadas em Andahuaylillas, Raqchi, Sicuani (para almuerzo [almoço]), La Raya e Pukara, onde o guia explica cada detalhe, num discurso ensaiado e cuspido, sobre essas cidades e seus sítios arqueológicos.

A viagem foi inesquecível, com lindos e incríveis cenários por todos os lados.

Saindo de Cuzco, a primeira parada foi em Andahuaylillas, a 3.400 m.s.n.m., lugar onde se encontra a igreja de San Pedro e San Pablo, denominada como a Capela Sistina da América, que possui em seu interior uma decoração de valor incalculável.

Em Raqchi, a 3.450 m.s.n.m., há um complexo arqueológico onde foi edificado um grande templo dedicado ao Deus Wiracocha, entre outras importantes construções da época incaica. Nessa comunidade experimentei a chicha de cebada – bebida fermentada, produzida pelos povos indígenas andinos quando do Império Inca, sendo a mais popular entre todas as bebidas da época. O seu preparo, pelo menos em tempos remotos (espero), consistia em milho mascado por garotas e cuspido em um caldeirão com água fervida. Depois de fermentada, a mistura se transformava em chicha, quando só então poderia ser servida.

Parei em Sicuani para almoçar e, ao sair do ônibus, senti um cheirinho familiar de churrasco. E era mesmo, só que se chama anticucho – churrasco de carne de alpaca, que foi servido com cebola e macarrão “gelado”. O restaurante fica no meio do altiplano peruano. Enquanto aguardava os demais passageiros comprei uns souvenires e tirei fotos ao lado de duas lhamas enfeitadas.

Parti, então, em direção à La Raya, divisa entre Cuzco e Puno, que até então foi o ponto mais alto da viagem, com 4.335 m.s.n.m. Dali pode-se apreciar os cumes nevados da Cordilheira dos Andes.

A desagradável surpresa que tive nesse lugar foi o alto preço dos artesanatos e a inusitada cusparada que uma velha lhama me deu no rosto quando me aproximei para registrar uma foto. Algo que é comum acontecer, mas que eu desconhecia até então.

Antes de Puno, passa-se ainda por várias cidadezinhas, entre elas Pukara, que é uma cidade peculiar, pois dá a impressão de se estar numa cidade fantasma. Parecia cena de um filme de western, quando algum duelo está por acontecer, pois a cidade estava quase deserta, com muita poeira levantada pelo forte vento e uma simpática e solitária camponesa sentada nas escadarias da velha igreja da praça principal. Só faltaram os rolos de capim seco sendo arrastados pelo vento pelas ruas da cidadezinha para caracterizar ainda mais o clima de faroeste. Essa cidade é produtora dos famosos toritos (touros em miniaturas) de cerâmica, que ornamentam quase todas as casas no Peru andino e servem como proteção.

Nessa cidadezinha há um museu que pareceu interessante, mas, confesso, não o conheci, pois, desculpem a minha ignorância, não aguentava mais ouvir falar em cultura inca, em Pachamama, Pachapapa, Mama Ocllo, etc., e resolvi, enquanto aguardava os demais turistas, ficar na escadaria da igreja, conversando com a senhora andina e uma jovem americana que estava lecionando inglês (voluntariamente) na cidade.

O que me impressionou também foi a cidade de Juliaca, que fica próxima a Puno. A desordem em parte da cidade foi algo que me chamou a atenção. Carros, caminhões, caçambas, uns táxis em forma de bicicletas e aquelas mototáxis (iguais as de Chorrillos em Lima) se “entendiam”, não sei de que forma, parecendo uma cidade que estava em plena desocupação de emergência devido a alguma catástrofe natural anunciada. No entanto, essa cidade é considerada como a “Cidade das Meias”; “Cidade dos Ventos” ou “Capital da Integração Andina”. Com isso, a impressão que tive deve se desfazer ao conhecer melhor essa cidade que fica no Sul do Peru. De gastronomia exótica, o caldo de cabeça de cordeiro é um dos principais pratos da cidade.

 

 

Puno, Peru (segunda-feira, 22-03-2010)

 

Semelhante a Cuzco, guardadas as devidas proporções, em Puno também mal se sai do ônibus e nem mesmo se apanha a bagagem, os taxistas estão a postos na disputa por um passageiro. Durante o curto trajeto entre a rodoviária e o Centro, o motorista indica hotéis e agências de viagem que fazem o tour pelo lago Titicaca.

Levado até uma agência de turismo, escolhi o hotel, comprei o tíquete para o passeio pelo lago Titicaca e a passagem à Tacna – divisa com o Chile – ambos para o dia seguinte; tudo muito cronometrado, mas garantido pela agência. Dessa vez não fui enrolado e nem sequer tentaram levar qualquer tipo de vantagem.

Em Puno, cidade com cerca de 117 mil habitantes, me hospedei e, via de regra, fiz o ritual de reconhecimento, andando pelo centro de lado a lado, fazendo uma espécie de zigue-zague entre as interessantes ruelas daquela cidade onde buzinar é uma necessidade perene. Em Puno fica-se realmente atordoado com as claxon (buzinas) dos taxistas e mototaxistas, que economizam faróis, mas não economizam gasolina, pois circulam pelas ruas sem parar, disputando, a buzinadas, todos os pedestres que encontram pela frente. A 3.625 m.s.n.m., a cidade oferece como pontos turísticos a Catedral de 1657 e o lago Titicaca com as ilhas Tequille (com ruínas pré-incaicas) e Flutuantes de Los Uros (construídas sobre totora – uma espécie de junco que os habitantes utilizam para fazerem suas casas, barcos e as próprias ilhas). Essas ilhas são habitadas por descendentes dos antigos índios Uros, que se dedicam especialmente ao artesanato e à pesca.

Puno não me pareceu uma daquelas cidades com restaurantes requintados de cardápios sofisticados. Na verdade o que mais existe são pizzarias, que dão um show à parte, pois em todas há um pequeno forno à lenha e um pequeno balcão bem na porta de entrada, onde o pizzaiolo estica a massa e assa a pizza “ao vivo e em cores”, servindo como um chamariz para os transeuntes. Os clientes entram, passam pelo pizzaiolo, passam pelo forno, para então se dirigirem ao interior da pizzaria, diferentemente do Brasil. Algumas oferecem apresentações de grupos de danças tradicionais, ou seja, peruanos.

Em Puno e, creio, em todo o território peruano, os vendedores ambulantes imploram que você compre alguma coisa deles; alguns chegam a implorar tanto que parecem estar chorando num exaltado “señor, compre. Compre, señor, por favor, compre. Ayúdame, señor, por favor”... e assim, seguem as pessoas por alguns metros até desistirem ou conseguirem vender algum produto.

Depois de muitas “pernadas” e fotos, jantei numa daquelas pizzarias pitorescas e visitei o museu Carlos Dreyer, onde há objetos retirados das Chullpas de Sillustani – zona arqueológica interessante que se destaca pelas suas gigantescas torres de pedras (chullpas), onde os incas enterravam seus mortos, e que gostaria, mas não tive tempo, de conhecer. Depois perambulei mais um pouco entre a Praça de Armas e a Praça Pino, contemplando o comércio local.

Chegara a hora de voltar ao hotel e descansar, pois a saída para o Titicaca seria bem cedo e, segundo o agente, era bom estar em boa forma, pois o dia seria bem cansativo devido às curiosidades que as ilhas oferecem. Não via a hora...

 

 

Puno, Peru (terça-feira, 23-03-2010)

 

Era hora de me certificar se não tinha entrado numa “barca furada”, ou seja, cedinho, acordei para aguardar o motorista da empresa de turismo que me levaria à marina de Puno para zarpar em destino às ilhas do lago Titicaca.

Antes, porém, acordei o recepcionista do hotel, que dormia sob quatro grossos cobertores de lã de lhama num sofá na recepção e, se não bastasse, com pelo menos três blusas e calças de agasalhos (eu dormi com apenas um cobertor e no hotel não havia ar-condicionado).

Penso que o frio está nos ossos ou no psicológico dos nuestros hermanos, pois, mesmo durante os dias de sol, com temperaturas amenas, eles agasalham-se muito, parecendo que a qualquer momento uma nevasca vai assolar a cidade sem lhes dar tempo de apanharem suas roupas.

O rapaz teve de acordar uma moça para preparar o desjejum, que era servido no terraço do hotel de quatro andares e com uma vista sobre os telhados das casas e comércio daquela cidade sem grandes paisagens. Pão achatado e chá de coca foram o meu café da manhã.

Chegando ao Titicaca me acomodei no barco e, enquanto aguardava outros turistas, assistia a uma apresentação, um tanto quanto improvisada, de um descendente Uro que tocava flauta. Assim que o barco zarpou, o guia iniciou uma aula sobre o lago e as duas ilhas que visitaríamos. Ele simplesmente não parava de falar! Subi para a parte exterior do barco e lá conheci um paulista muito “gente boa”, chamado Fábio, que trabalha numa empresa fabricante de equipamentos de segurança para automóveis, como cintos e air bag, e que me fez companhia durante este tour.

Existem dois passeios pelo lago Titicaca: um que sai de Puno, no Peru, e outro de Copacabana, na Bolívia. Do lado peruano se conhece as Islas Flotantes de Los Uros (Ilhas Flutuantes dos Uros), a isla Tequile e a Amantaní. Já do lado boliviano, conhece-se as Islas del Sol e de la Luna (Ilhas do Sol e da Lua). Existem outras ilhas no lago Titicaca, mas não sei ao certo se são habitadas ou visitadas por turistas.

O passeio de aproximadamente oito horas é uma afronta à cultura de qualquer pessoa. Nas Islas Flotantes de Los Uros são conhecidos os hábitos e costumes dos seus habitantes, sua culinária, artesanato e como se constroem as ilhas. Uma das peculiaridades é o fato de eles poderem se deslocar tanto com as ilhas, que ficam presas com amarras, quanto com as próprias cabanas quando há desentendimentos familiares, desde que dentro da própria ilha. Eles vivem da pesca artesanal, do turismo e do artesanato, que consiste em pinturas, bordados e trabalhos com as palhas da totora. O meio de locomoção entre as ilhas é muito interessante, pois são realizados por intermédio de barcos feitos de totora, que possuem um aspecto muito original, com suas proas e popas pontiagudas ou em formato de dragões. Pode-se pernoitar nas cabanas e assim conhecer ainda mais a cultura daquela curiosa tribo.

Na ilha Tequile, conhece-se também os hábitos e costumes daquele povo, cujo atrativo principal é um almoço servido nas casas dos nativos. Esse almoço é normalmente servido na rua, sob uma lona improvisada. Naquele dia, depois de uma caneca de sopa, serviram trutas rosadas pescadas no Titicaca pelos próprios nativos; batatas, arroz e salada, tudo plantado e colhido ali mesmo. A grande mesa de tábuas foi dividida por várias nacionalidades, como americanos(as), argentinos(as), franceses(as), austríacos(as) e dois brasileiros – eu e o paulista.

O interessante é que se chega de um lado da ilha, sobe-se por uma trilha, conhece-se os nativos (no alto da ilha), almoça-se (no alto da ilha) e desce-se para partir do outro lado dela, perfazendo uma espécie de escalada, pois o centrinho daquela aldeia localiza-se a uns duzentos metros acima do nível do lago, o que torna a caminhada bastante cansativa, já que Puno está a mais de 3.600 m.s.n.m..

Não cheguei a conhecer a ilha Amantaní, que consegue se manter ainda mais rústica que a Tequile, pois recebe menos turistas.

O lago Titicaca, com seus 8.300 km² e 3.600 m.s.n.m., é o lago navegável mais alto do mundo e o segundo em extensão na América Latina, superado apenas pelo lago de Maracaibo, na Venezuela. Localizado no altiplano dos Andes, na fronteira do Peru e da Bolívia, tem uma profundidade média de 150 m e uma profundidade máxima de 280 m.

A origem do nome Titicaca é desconhecida; foi traduzido como “Pedra do Puma”, combinando palavras da língua local Quíchua e Aimará. Localmente, o lago é conhecido sob diversos nomes.

Segundo a lenda andina, foi nas águas do Titicaca que nasceu a civilização inca. Acredita-se que o “Deus Sol” instruiu seus filhos para procurarem um local ideal para seu povo quando Manco Capac e Mama Ocllo chegaram, então, a uma ilha - mais tarde batizada de Isla del Sol. O local teria sido o berço dos incas, que dominaram a região entre os séculos XII e XVI, quando se deu a invasão espanhola.

Duas horas depois do retorno já estava embarcando para Tacna, cidade fronteiriça com Arica, no Chile. Antes, porém, passeei um pouco mais pelo centro de Puno e retornei à Praça de Armas e Praça Pino, onde as pessoas faziam uma enorme fila para serem abençoadas por um franciscano que, dizem, só aparece de tempos em tempos.

Ainda antes de partir, e agora sim sob um frio intenso, telefonei para casa e falei com meus filhos e minha esposa, que estava de tala no braço devido a um tombo que levara na piscina. A saudade já começava a “apertar” e eu já começava a pensar em antecipar minha volta, até porque fiquei preocupado com a situação. Segundo os mais vividos, a “língua é o chicote do rabo”. Digo isso porque critiquei meu amigo Telmo quando este antecipou a viagem que fez a Machu Picchu por saudades de sua família. Realmente não é fácil ficar em terras estrangeiras por muito tempo, ainda mais sozinho. A cultura e culinária diferentes e, principalmente, a falta da companhia da família, entre outras coisas, fazem a diferença nessas horas. A estrutura emocional de cada um, aliada ao objetivo traçado antes de partir, é fundamental para se manter firme até o final.

Diferentemente de Cuzco, repito, dessa vez não fui explorado e paguei apenas 30 Nuevos Soles, em torno de R$ 18,00, pela viagem até Tacna, claro, sem tour, sem comida e com direito a dividir o ônibus com uma mãe peruana e um bebê chorão de apenas vinte e três dias que choramingou a noite toda, o que não me deixou dormir. Acredito que ele estava assustado com o escuro e, sobretudo, com os roncos de um andino que parecia um vulcão em erupção, tamanho barulho que fazia enquanto dormia, sossegadamente, durante toda a viagem – um horror!

Esse deslocamento foi horrível e levou a noite inteira. É que o ônibus parou em quase todas as cidades do trajeto. Para tentar relaxar procurei ler e ouvir músicas. Enquanto isso, os pensamentos se intercalavam entre a satisfação daquilo que já havia vivido e a ansiedade daquilo que ainda estava por conhecer. Afinal, estava mais próximo do que nunca de entrar no Chile pela primeira vez, cruzar parte do deserto, conhecer Arica e pisar nas lindas praias do oceano Pacífico pela segunda vez nessa viagem.

 

 

Tacna, Peru (quarta-feira, 24-03-2010)

 

Cheguei a Tacna às cinco horas da madrugada e tomei um táxi para o terminal terrestre internacional, onde partiria para Arica, no Chile. Tomei um suco de laranja e comecei a suspeitar que não estava muito bem. Nesse terminal conheci quatro haitianos que estavam indo para Iquique, também no Chile.

Há duas opções para se ir à Arica a partir de Tacna: ônibus ou táxi. De ônibus a passagem é mais em conta, ou seja, 10 S/. (+/- R$ 6,00), mas precisa ter no mínimo 25 passageiros, e só havia 14 naquele momento. Então resolvi ir de táxi (15 S/.), que dividi com dois equatorianos e uma mulher com um bebê (outro) que não sei a nacionalidade, pois não falou nada durante todo o trajeto.

Aqui tive uma grande prova de que estava bem guardado, pois, ao devolver os passaportes que pedira a todos os passageiros para fazer os registros da viagem junto aos órgãos de controle de Tacna, o Sr. (taxista) me devolveu os quinhentos dólares que estavam no meu passaporte, dizendo:

 

Hijo, guarde su dinero porque la policía de la frontera es ladrona (Filho, guarde seu dinheiro, pois a polícia da fronteira é ladrona).

 

Fiquei sem palavras pela honestidade daquele senhor e fui pensando, enquanto atravessava parte daquele deserto, em quantos problemas teria se ele não tivesse me devolvido os dólares...

Um dos equatorianos aproveitou para me sacanear e, a todo momento, me olhava e balançava a cabeça de forma negativa, como se quisesse falar: “que mancada”. Em outro momento puxava novamente o assunto dos dólares no passaporte, dizendo que com aquele valor o taxista pagaria metade do carro que dirigia.

Quase mandei o equatoriano à m...

 

 

Arica, Chile (quarta-feira, 24-03-2010)

 

Depois de todos os trâmites para entrar no Chile, o meu anjo da guarda em forma de taxista me deixou no terminal terrestre de Arica. Ainda um pouco confuso com a situação, paguei a corrida e não deixei uma gorjeta adequada para aquele senhor que salvara o resto da minha viagem, fato este de que mais tarde muito me arrependi.

A minha suspeita se tornara realidade. Estava me sentindo muito mal. Com febre e cólicas. Ao me hospedar já sentia a diferença, pois não fiz o reconhecimento que costumava fazer ao chegar às cidades. A placa do hotel, velha e enferrujada, instalada exatamente sobre a janela do meu apartamento, balançava e fazia um barulho insuportável não me deixando dormir, de forma que fiquei ali deitado, refletindo, lendo, ouvindo música, vendo as fotos, ou seja, ganhando tempo até recuperar um pouco de energia para, somente no final da tarde, sair e conhecer a linda Arica. Comprei e tomei alguns remédios e parti para conhecer o famoso morro de Arica.

De volta ao oceano Pacífico me sentia bem melhor quanto à altitude, mas muito indisposto pelo que estava sentindo. Mesmo assim subi o morro de Arica a pé e registrei fotos fantásticas da cidade e das praias de La Machas, Chinchorro, El Laucho, La Lisera, Brava e Arenillas Negras – única com areia negra da região.

Arica é uma província do Chile localizada no extremo norte do País, muito próximo à fronteira do Peru e Bolívia e, por isso, tornou-se um ponto de conexão por via terrestre entre os três países. É apelidada de “Cidade da Eterna Primavera”, pois seu clima é agradável durante todo ano, com pouca variação de temperatura mesmo nas mudanças de estações. Impressionante como o céu parece ter um azul mais vivo. Dizem que ali, como em Lima, não chove nunca.

O morro de Arica tem aproximadamente 130 metros de altura e é o melhor lugar para se ter uma vista privilegiada de toda a cidade. É neste local que o Museu Histórico de Armas está localizado. Em 1999 foi construído também “El Cristo de la Paz”, uma estátua de Cristo com os braços abertos, voltado para o oceano Pacífico. Para celebrar a paz entre Peru e Chile há, no alto do morro, as bandeiras destes países.

Ao registrar uma foto na bela praça, aos pés do morro de Arica, que lembra a cabeça de um leão, consegui, emprestada, uma bicicleta de um senhor para ilustrar uma foto. Ele acabou me oferecendo a bicicleta para dar uma volta. Agradeci e sai pedalando até a isla Alacrán (ilha Alacrán) interligada artificialmente por aterro.

Em Arica os costumes são parecidos com os do Brasil: não usam roupas tradicionais, frequentam bares e restaurantes parecidos com os nossos, “não buzinam” e possuem a tradicional simpatia dos moradores litorâneos.

Nessa noite, mesmo não me sentindo muito bem, andei pelo belo calçadão no centro da cidade, explorei o variado comércio local, me acomodei numa mesinha de uma choperia bem transada que fica naquele calçadão, tomei “uns chopps” bem gelados e comi pollo frito con papas (frango frito com batatas). As opções de bares e restaurantes são bem variadas nessa cidade, com apenas um desagrado: tem uns conjuntos musicais itinerantes que perturbam a noite inteira. Sem trégua, ao sair um grupo outro entra imediatamente em seu lugar, deslocando-se entre as mesas até parar na sua e só sair depois de ganharem algumas moedinhas.

Devido ao mal-estar, deixei de contratar um tour bacana que duraria em torno de dez horas e me levaria para conhecer pontos turísticos interessantes, como a cidade de Putre, os cactos milenares, e se estenderia até o lago Chungará – o mais alto do mundo, que fica aos pés do vulcão nevado Parinacota.

Entre as construções históricas de Arica estão a antiga aduana e a Catedral de San Marcos, desenhada por Gustave Eiffel, o mesmo que desenhou a Torre Eiffel, em Paris, França. A Catedral foi construída em 1876 sobre os escombros de uma antiga igreja que foi destruída no terremoto de 1868. Com exceção das portas feitas em madeira, a igreja foi totalmente construída em ferro maciço.

Arica seria uma interessante cidade para desfrutar e conhecer mais a fundo a sua cultura, culinária e outros pontos turísticos que com certeza há, mas, infelizmente, não foi possível. De qualquer forma posso afirmar que valeu a pena o deslocamento até o Chile.

O Museu Antropológico, em San Miguel de Azapa, onde se encontram as múmias mais antigas do mundo (Múmias de Chinchorro) e várias informações sobre os povos antigos da região, é um exemplo do que deixei de conhecer nessa bela cidade.

Mas, no dia seguinte, ocasionalmente e mesmo embarcando para Bolívia bem cedo, acabei conhecendo muito mais sobre o Chile do que esperava e do que pesquisara na internet. A sorte realmente estava do meu lado.

 

 

Arica, Chile (quinta-feira, 25-03-2010)

 

Por pouco não perdi a hora e, consequentemente, a viagem para La Paz (Bolívia), pois esqueci de ajustar o fuso horário entre Peru e Chile e pus o celular para despertar no horário do Peru. Sorte a minha ter combinado com um taxista para me apanhar às sete horas, pois ele fez com que o atendente do hotel me despertasse a tempo de chegar à rodoviária e não perder o ônibus.

Ao me dirigir à rodoviária solicitei ao taxista que contornasse a praça para eu ver, pela última vez naquela viagem, o morro de Arica e a igreja de ferro, o que fiz com o gostinho de ficar um pouco mais, mas novas e intrigantes aventuras me aguardavam em La Paz.

 

 

Entre Chile e Bolívia (quinta-fera, 25-03-2010)

 

Durante a viagem para La Paz, fiquei pensando na sorte que dei em não contratar a agência de turismo para fazer o tour para conhecer o lago Chungará e o vulcão Parinacota, pois o ônibus para La Paz faz exatamente o mesmo percurso. Tenho certeza de que eu ficaria muito indignado se tivesse me deslocado até a divisa do Chile com a Bolívia e retornar a Arica para, no dia seguinte, passar pelos mesmos lugares. Passei pela cidade de Putre, pelos cactos milenares (que crescem apenas 1 cm por ano e não tem graça nenhuma), pelo lago Chungará e, enfim, cheguei ao vulcão Parinacota, ou seja, exatamente os mesmos pontos turísticos do tour e com a economia de US$ 70, sem contar que ainda adiantei minha viagem em um dia, o que poderia fazer a diferença caso acontecesse algum imprevisto. A passagem custou 8.000 pesos chilenos, cerca de R$ 27,00, com direito a marmita – detalhe, sem faca. O almoço, para variar, consistia em frango com batatas, que foi servido exatamente no ponto em que o asfalto acabara e o ônibus sacolejava feito uma pipoqueira gigante. Mas eu não tinha outra opção: ou comeria ou ficaria com fome até o fim do dia, pois não comprara nada para comer durante a viagem, que não previa paradas.

Cheguei à divisa do Chile com a Bolívia exatamente às treze horas. O frio era intenso e o vento soprava mais forte, o que me agradava muito, pois adoro vento; ele me traz uma nostalgia gostosa.

A satisfação de estar ali, próximo ao lago Chungará e aos pés do nevado Parinacota, foi realmente única. Afinal, ainda não tinha vivido a experiência de estar tão próximo da neve.

O nevado Parinacota é um vulcão da Cordilheira dos Andes localizado na fronteira entre o Chile e a Bolívia. Ao seu lado há outro vulcão (irmão) chamado Pomerape, que juntos formam os nevados Payachatas. Seu cume está a 6.348 metros acima do nível do mar.

Dividi essa viagem com um uruguaio muito pacato, os três haitianos que encontrei na rodoviária de Tacna, alguns bolivianos e um sujeito estranho, que me deixou muito intrigado com o seu ar de quem estava armando alguma coisa, pois, no início da viagem, vivia olhando para todos os lados, inclusive para a parte de trás do ônibus, onde eu estava sentado. O mais estranho foi que todos, inclusive o “espião”, dormiram do Chile à aduana boliviana, despertando somente quando o motorista berrou da porta da cabina para que todos aguardassem, menos eu, é claro, que corri desesperado para o banheiro da aduana, ainda em território chileno, pois o ônibus não dispunha de um. Deu a impressão de que todos os passageiros tinham tomado algum tranquilizante. Eu, em contrapartida, me mantive alerta durante toda a viagem para fotografar e curtir cada quilômetro daquelas interessantes estradas.

Depois dos trâmites legais, carimbaram meu passaporte e, agora, com grande satisfação, eu estava em território boliviano.

Confesso que me deu um certo friozinho na barriga, aliás na minha barriga já tinha dado de tudo.

Naquele momento, meu rosto, lábios e nariz estavam descascando devido ao sol e ao frio que peguei, pois não usei o protetor solar que acabava sempre esquecendo na mochila e, por fim, não me protegendo devidamente.

Um dos haitianos enfrentou uma certa dificuldade para atravessar a fronteira, o que atrasou nossa viagem em pelo menos 40 minutos. Eu, como estava sozinho e sem pressa alguma, até porque adiantara a viagem em um dia, aproveitei para registrar umas belas fotos dos nevados gêmeos e do lago Chungará. Depois de tudo resolvido, voltei a conversar com o haitiano e ele me explicou que o guarda implicara porque um dos carimbos de seu passaporte estava um pouco apagado e sem assinatura.

Conversamos novamente sobre a atuação do Governo e do Exército brasileiro no Haiti (pelo que eles são extremamente agradecidos), sobre as recentes catástrofes que ocorreram naquele país, futebol e sobre o Rio de Janeiro, que seria o próximo destino daqueles três jovens aventureiros. Eles me pediram dinheiro brasileiro para coleção e presenteei-os com três notas novinhas de R$ 1,00 – que levei com este propósito –, o que fez com que eles ficassem agradecidos. Também pedi uma nota haitiana, mas me informaram que a moeda corrente lá é o dólar americano e, claro, não ganhei.

Todos comentavam sobre futebol quando percebiam que eu era brasileiro e com os haitianos não foi diferente. Taxistas, guias, atendentes de hotéis e até as mais simples das pessoas que conheci nessa viagem – os habitantes das ilhas flutuantes de Los Uros no lago Titicaca comentavam a respeito.

Durante a viagem, enquanto admirava aquela exótica paisagem, bem diferente da que estamos habituados a ver no Brasil, e observava de dentro do ônibus os povoados e as pessoas nos campos, muitas coisas me passaram pelo pensamento, entre elas a dificuldade das pessoas que moram em lugares tão inóspitos como aquele (entre Arica e La Paz), onde o sol e o vento castigam tudo e todos, deixando seus rostos tão secos e rachados quanto seus pés e a terra em que plantam.

Avistam-se apenas savanas e rebanhos de lhamas, uma ou outra casa fechada sem vida e sem cor. Não se veem homens, mulheres ou crianças nos quintais, é como se todos tivessem abandonado suas casas, mas é muito provável que estivessem no campo... trabalhando. Não há iluminação e, acredito, que a água seja escassa. Interessante que ali, como no Peru, não se vê uma única lhama, vicunha ou alpaca sem a presença de uma pessoa vigiando-as e na grande maioria das vezes uma mulher. Essa situação me chamou a atenção, pois fiquei imaginando o porquê de uma pessoa passar horas e horas, dias e dias, sozinha, numa savana cuidando de um rebanho de animais, sendo que, na maioria das vezes, muito pequeno.

Durante esse trajeto aproveitei para ouvir minhas músicas preferidas que estavam gravadas no MP4 que minha esposa me dera de presente para esta viagem, o que me transcendeu além da viagem em si, ou seja, afora do simples deslocamento de um lugar a outro.

Naquele momento eu pensava em muitas coisas, com destaque para a minha família e o quanto ela me faz bem e me fez falta. O quanto eu, como irmão, filho, pai e marido, peco em determinadas situações e o quanto ainda tenho de progredir para que as pessoas me olhem e pensem coisas agradáveis a meu respeito e sintam vontade de conviver comigo da melhor forma possível.

A natureza e sua geografia são mesmo surpreendentes. Pensei isso porque em Arica eu estava curtindo as praias e, em poucas horas depois, numa região completamente surreal, eu estava passando por desertos e vulcões totalmente nevados a milhares de metros sobre o nível do mar. O momento foi de satisfação e de reflexão. Pensei em como somos pequenos diante da natureza e de tudo o que ela nos proporciona. Tentava entender o que fazia uma senhora sentada no chão à beira da estrada, com uma lhama com os olhos vendados deitada a seu lado. O que fazia um ser humano daquele jeito àquela hora e naquele lugar?

O ônibus seguia e, sem respostas para tantos questionamentos, continuava a pensar se as pessoas permanecem naquele lugar por não terem condições para buscar outra forma de viver ou se realmente gostam dali. Pensei no que aquelas terras lhes oferecem e como conseguem viver com tão pouco.

Naquele momento ouvia, entre outras músicas, Blowing the Wind, de Bob Dylan, que traduzida é mais ou menos assim:

 

Quantas estradas precisará um homem andar

Antes que possam chamá-lo de homem?

Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar

Antes que ela possa dormir na praia?

Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voarem

Até serem para sempre abandonadas?

A resposta, meu amigo, está soprando no vento

A resposta está soprando no vento

 

Quantas vezes precisará um homem olhar para cima

Até poder ver o céu?

Sim e quantos ouvidos precisará um homem ter

Até que ele possa ouvir o povo chorar?

Sim e quantas mortes custará até que ele saiba

Que gente demais já morreu?

A resposta, meu amigo, está soprando no vento

A resposta está soprando no vento

 

Quantos anos pode existir uma montanha

Antes que ela seja lavada pelo mar?

Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir

Até que sejam permitidas a ser livres?

Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça

E fingir que ele simplesmente não vê?

A resposta, meu amigo, está soprando no vento

A resposta está soprando no vento

 

 

La Paz, Bolívia (quinta-feira, 25-03-2010)

 

Cheguei a La Paz às 18h e me hospedei a três ou quatro quadras da Praça Murilo, num hotel aparentemente decente. Nesse momento dei mais uma ligada para casa e pude matar um pouco da saudade que assola aqueles viajantes de primeira viagem. Falei também com meus três irmãos e minha mãe.

Durante dez anos viajei pela minha empresa, saindo às segundas e retornando às sextas-feiras. As atividades diárias que envolviam os trabalhos, os constantes deslocamentos entre as cidades, a companhia de outros colegas de serviço e, sobretudo, os curtos períodos das viagens, davam a impressão de que o tempo passava mais rápido e a saudade de casa fosse superada com mais tranquilidade. Enquanto que numa viagem desse porte a situação é diferente, pois viajar só, principalmente em terras distantes, me levou a pensar profundamente em cada uma das pessoas com as quais convivo. Isso me fez valorizar ainda mais cada uma delas e respeitar suas diferenças, o que só fez aumentar a saudade de todos.

Dividida em duas partes, a “Grande La Paz” conta com o Centro e suas imediações (parte baixa e encostas) e Los Altos (parte alta), onde fica o aeroporto.

La Paz é um enorme cânion, sem árvores, apinhado de casas com tijolos aparentes. Dizem que os habitantes não rebocam as casas porque sem reboco recebem desconto de 50% no IPTU, o que deixa a cidade com aparência de inacabada, parecendo um verdadeiro e gigantesco canteiro de obras.

A poluição sonora nesta cidade é semelhante à de Lima e Puno. Os motoristas de automóveis, ônibus e, principalmente, os de táxis aterrorizam as pessoas com suas incansáveis buzinas, que não cessam nem mesmo à noite.

Cheguei à Praça Murilo, a maior e mais linda da cidade, andei por seu entorno, sentei e contemplei a arquitetura local. A praça é realmente bonita, embora a falta de árvores tire um pouco de seu brilho. Ela possui apenas meia dúzia delas, ao contrário, por exemplo, da nossa Praça XV de Novembro, em Florianópolis, Santa Catarina, que é muito bem arborizada e muito mais bonita, é claro.

Já noite, à procura de algo para jantar além de frango e batatas (extremamente comum nos Andes), perguntei a um transeunte onde poderia degustar algo e beber uma cerveja boliviana gelada. O rapaz chamado Marcus prontamente me acompanhou a um pequeno bar a três quadras da praça. Lugar muito interessante que, muito embora eu não conheça pessoalmente, me deu a impressão de estar em Cuba, e o barzinho parecia um pub inglês.

Embora eu tenha ficado bastante alerta, o cara me pareceu normal, principalmente quando me apontou o bar e me desejou sucesso. Perguntei se era caminho dele e me respondeu que não, estava apenas sendo um bom anfitrião. Nesse caso, ofereci uma cerveja, o que ele aceitou. Conversamos um pouco sobre família, serviço e, claro, futebol. Na oportunidade, entre outras coisas, ele me falou que era empregado do governo municipal e que conhecia muito o Brasil por revistas, fotos e internet... e que em breve iria conhecer o Rio de Janeiro.

Cansado e desgostoso pela temperatura da cerveja (quente), solicitei a conta. O sujeito me acompanhou de volta à praça e combinamos de, no sábado, ele me apanhar para jogar futebol, comer um churrasco de lhama com os amigos e, garantiu, tomar cerveja gelada.

De repente, no meio de uma multidão sem tamanho, ele saiu correndo em zigue-zague. Aquilo me pareceu muito estranho, dando a impressão de que algo havia acontecido, mas não imaginei o que poderia ser. Pensei apenas que as histórias que ele contara e o convite para jogar futebol poderiam ser “balelas”, o que não justificaria tal atitude... ou que ele poderia ter visto algum trombadinha agindo e correu para apanhar o moleque... sei lá.

Um minuto depois, um tanto quanto nervoso e pálido, ele me reencontrou. Perguntei o que havia acontecido, e ele me disse que reconheceu um amigo que lhe devia plata (dinheiro) e foi cobrá-lo. Sinceramente achei o comportamento dele anormal, pois, além do nervosismo, ele parecia que estava se cuidando, olhando para sua própria cintura, dando a impressão de que estava verificando se alguma arma não estaria aparecendo. Naquele momento falei que apanharia um táxi e ele disse que ali era muito desordenado e que eu deveria ir a pé até o hotel, pois estava muito próximo, ou tomar um táxi mais abaixo, o que me soou contraditório com a primeira opção. A suspeita aumentou e, defronte a um guarda, mandei um táxi parar (o que não precisei fazer esforço algum) e, entrando no veículo, disse apenas que o esperaria no sábado; e enquanto o táxi partia disse algo como: “Yo no he nacido hoy! Tome el cuidado, bribón.” (Não nasci hoje! Te cuida, malandro). Espero realmente que eu não tenha cometido nenhum falso testemunho, mas naquelas condições não poderia agir de outra forma e nem dar guarida a espertinhos que, por certo, há muitos naquela frenética cidade. No hotel pedi aos atendentes que informassem, caso alguém me procurasse, que eu havia partido. Para meu alívio, ninguém me procurou.

Como já havia conhecido a Praça Murilo – principal ponto turístico de La Paz –, não tinha muito que me preocupar com o horário de acordar, já que tinha de conviver por mais 72 horas naquela cidade que não me oferecera boa impressão desde a primeira hora. Esperava dormir até mais tarde, na esperança de acordar melhor daquele susto e da minha cólica, mas muito ansioso para desbravar o que La Paz poderia oferecer.

 

 

La Paz, Bolívia (sexta-feira, 26-03-2010)

 

Buzinas me despertaram às 05h30 da manhã e não pararam mais. Não quis acreditar naquilo e tentei dormir mais um pouco, mas em vão, pois o buzinaço aumentava a cada minuto. Levantei-me, tomei um banho e um café da manhã com chá de coca, que era servido no oitavo andar, de onde se tinha uma vista linda da cidade e do vulcão Illimani. Dirigi-me a uma agência de turismo para ver o que poderia inventar naqueles três dias que me restavam. Visitei várias delas e, depois de subir e descer ladeiras e mais ladeiras, encontrei uns passeios bem interessantes para fazer: conhecer o Vale de La Luna, subir o Glaciar Chacaltaya ou descer de bike, se não me engano, a carretera de la muerte (estrada da morte), em Coroico.

Optei pelo Vale de La luna, que é uma vasta área arenosa com irregularidades parecidas com estalagmites gigantes. É uma área interessante, pois são mais de três quilômetros de extensão com pequenas pontes de madeiras e uns pequenos cânions. Uma hora, porém, é suficiente para conhecer e registrar algumas fotos daquele local, sendo que numa manhã faz-se o tour de ida e volta ao vale.

Na verdade, o que me chamou mais a atenção foi o percurso até o vale, pois se percebe claramente a diferença do poder aquisitivo ao sair do Centro de La Paz e percorrer alguns poucos quilômetros. O bairro que antecede o Vale de La luna, por exemplo, é habitado por pessoas famosas e endinheiradas da região. Com exceção de Cingapura, acredito que em todos os lugares existem miseráveis e ricos e lá não é diferente. Na verdade, não me surpreendi com a pobreza, pois isso eu já esperava, mas sim com a grande riqueza de uns poucos.

Durante esse tour conversei muito com uma senhora sueca que já visitara a Bolívia umas quatro vezes e por gostar tanto de La Paz estava pensando em se naturalizar. Bom, “cada um é cada um”. Essa senhora conhece dezenas de países, mas não conhece o Brasil, pois tem muito medo e acha que precisamos mudar a imagem no exterior. Segundo ela, pelo menos na Suécia, somos mal vistos e o pouco que se divulga não os agrada. Listou os países que já conheceu e destacou a Costa Rica como um lugar extremamente lindo, porém perigoso, pois fora assaltada por dois homens armados em plena capital (San José) e ninguém fez absolutamente nada.

Passeei pelo centro da cidade e almocei um X-alpaca, com batatas (tudo é acompanhado por batatas) e refrigerante (quente), na Praça Izabel La Católica, e me dirigi novamente à Praça Murilo, onde descansei um pouco, apreciei os milhares de pombos e suas revoadas, bem como a característica das pessoas e alguns de seus costumes. Registrei umas fotos e caminhei pelo comércio local até encontrar um pequeno shopping, que me pareceu um bom lugar para ir jantar. As lojas desse shopping fecham das 12h às 14h.

Ladeiras abaixo, ladeiras acima, afinal em La Paz não existe lugar plano, cheguei ao Mercado de Las Brujas (Mercado das Bruxas), que fica muito próximo do hotel onde eu estava hospedado. Esse mercado é extremamente variado, nele encontra-se de inúmeros tipos de semente a abóboras morangas gigantes; de muda de grama a flores de várias espécies; de talismãs (dos mais diversos tipos e tamanhos) a fetos de lhama secos, que são usados para “despachos”. Quando vi os fetos de lhamas secos logo comprei um, não para “despachar” nada, mas para sacanear uma de minhas cunhadas que, brincando comigo, me pediu para trazer uma lhama da viagem. Encontram-se ainda instrumentos musicais, oferendas prontas e muitos artigos de lã de lhama, como roupas, redes de dormir e souvenires em geral.

Não é só esse mercado que é estranho. Em La Paz há muitas outras coisas exóticas, como o hábito de as mulheres usarem chapéu com uma copa de mais ou menos vinte e cinco centímetros de altura e de os engraxates usarem roupas compridas e o rosto completamente tapado com balaclava (gorro confeccionado com lã que deixa apenas os olhos à vista) e boné para, segundo eles, protegerem-se das toxinas expelidas pela graxa.

As ruas de La Paz formam um gigantesco comércio, com suas calçadas totalmente tomadas por ambulantes e seus coloridos artigos. Pode-se presenciar uma imensa variedade de produtos, sendo que, dependendo do local, não há o mínimo grau de higiene e alguns produtos parecem ser de procedência duvidosa, o que pode apresentar riscos aos turistas. Imagine, em plena calçada, comer um pastel frito em óleo reaproveitado e extremamente queimado, ou um peixe que fica exposto ao sol sem o devido resfriamento, ou ainda beber um suco que não passa de um copo d’água, fora do gelo, com um pedacinho de fruta dentro que, ao longo do dia, vai tingindo a água com a cor da fruta até ser consumido por alguém. As unhas de alguns comerciantes são um caso à parte. De todas as comidas exóticas que pude presenciar e/ou experimentar, a mais estranha foi, sem dúvida, um caldo de cabeça de lhama (cortada ao meio) ensopada.

Sinceramente não via essas coisas de forma pejorativa, e sim com a curiosidade de um turista, afinal, no Brasil, certamente há coisas tão ou mais estranhas quanto na Bolívia, Peru ou Chile.

Nesse dia conheci uma brasileira chamada Georgina Reche, que é profissional em Charango – um pequeno instrumento de cordas sul-americano que tem uns 65 cm de comprimento, tradicionalmente feito com carapaça de tatu. As apresentações dessa simpática senhora podem ser vistas no youtube “charangobrasil”.

Sem muito que ver e fazer, resolvi descer, a pé, toda a cidade até chegar num mirante para fotografar o Illimani, uma gigantesca montanha nevada que atinge os 6.462 metros de altitude e que parece ficar guardando a cidade de La Paz. Illimani tem a maior altitude da Cordilheira Real (o cume mais alto da Bolívia é o Sajama, na Cordilheira Ocidental).

Quanto ao Illimani, não consegui boas fotos, pois havia algumas nuvens que resolveram, insistentemente, permanecer em seu entorno, aparentemente paradas e dispostas a não deixar que a gigante montanha fosse fotografada por inteiro. De qualquer forma valeu a caminhada, pois pude conhecer um pouco mais daquela diferente cidade, coisa que de ônibus ou táxi não daria para explorar tanto.

De volta ao Centro de La Paz, preferi deixar para jantar no shopping no dia seguinte e resolvi comer numa pizzaria na Praça Murilo. Liguei para casa e fui caminhando por entre os milhares de ambulantes até chegar ao hotel que deve ser o mais malcheiroso de La Paz. As toalhas nada perfumadas e extremamente ásperas como lixas tinham de ser solicitadas, pois a camareira arrumava o quarto, mas não deixava nenhuma limpa no lugar, conforme todos os demais hotéis que conheço.

Que saudade de casa! Das toalhas cheirosas e macias e da deliciosa comida feita com higiene, dedicação e carinho.

Depois de um precário banho, no precário chuveiro, do precário banheiro, do precário hotel, resolvi, enquanto escrevia, tomar uma das duas garrafas de vinho que comprara para meu concunhado Jorge. Esses vinhos foram comprados no Chile a pedido dele. Aquelas garrafas já haviam viajado muito e estavam me atrapalhando e pondo em risco as minhas roupas e a mochila que Santoro, um colega de serviço, me emprestara. Disposto a aliviar peso, tomei aquele vinho chileno com muito gosto e, caso resolvesse tomar a outra garrafa, naquela noite ou na seguinte, simplesmente passaria num supermercado qualquer, compraria um vinho chileno e diria a ele que trouxera do Chile – coisa em que já deveria ter pensado, pois assim carregaria menos peso. Qual seria a diferença? Afinal as duas garrafas quase ficaram na aduana boliviana quando um dos policiais me questionara por que razão eu estava entrando na Bolívia com duas garrafas de vinho chileno, quando respondi que não faria sentido entrar na Bolívia com duas garrafas de vinho boliviano (se é que existe). Mas acho que ele ou percebeu a sua infelicidade ou não entendeu o que eu disse e me deixou passar – acredito que ele não deveria gostar de vinho, pois, caso contrário, os teria apreendido. Acontece que não trazer pelo menos uma das garrafas pesaria mais a minha consciência que a mochila, o que me fez carregar aquela solitária garrafa até o Brasil.

Muito embora o vinho estivesse realmente saboroso, não se comparou – aliás, a meu ver, vinho nenhum se compara – aos vinhos do Roberto e Família produzidos artesanalmente e sem conservantes em Santa Izabel – Águas Mornas, Santa Catarina. Certamente qualquer sommelier classificaria este vinho como de primeira qualidade.

Gorros, luvas, cachecóis, blusas, camisetas dos três países, jogos de xadrez, pedrinhas do pacífico, chaveirinhos, trilobitas e até lhama seca eram outras lembranças que eu carregava na pesada mochila. Afinal, “Prefiro carregar o peso de uma mochila nas costas do que o peso de não ter conhecido o mundo”. Frase extraída do livro de Alice Watson – O Guia do Mochileiro.

 

 

La Paz, Bolívia (sábado, 27-03-2010)

 

Sessão nostalgia

 

Levantei-me extremamente cansado, não só pelo mal da montanha, mas também por não conseguir dormir bem. É que às 2h da madrugada uma banda começou a tocar, desordenadamente (como muitas coisas em La Paz), uma espécie de fanfarra que perdurou até aproximadamente às 4h. Sentia-me cada vez pior. Além da falta do que fazer, acordei com o rosto descascando e com herpes, devido à febre que me deu à noite.

Com mais 48 horas para encontrar o que fazer em La Paz, pensei, sem muito entusiasmo, em dividir o tempo entre ir ao zoológico, retornar ao mirante para tentar fotografar o Illimani, retornar à praça Murilo e caminhar novamente pelo Mercado das Bruxas.

Depois do café da manhã, entrei num daqueles ônibus característicos de La Paz e parti para o zoológico, que ficava no Parque Nacional Mallasa, distante do centro e próximo ao Vale de La Luna. Por apenas dois bolivianos cheguei ao zoológico e ali passei a manhã mais solitária de que me recordo enquanto observava cada animal do altiplano e ouvia músicas do meu inseparável e cada vez mais companheiro MP4.

Trata-se de um lugar agradável e muito tranquilo, incrustado num vale onde antes era um grande lago. Acredito que é daqui que retiram as trilobitas – inseto fossilizado em pedras pelo qual alguns ambulantes chegam a pedir 200 bolivianos. Eu comprei por 20!

A paz do lugar me fez refletir o quanto as pessoas nos fazem falta; o quanto é bom trabalhar; o quanto é bom jogar futebol com os amigos; estar com meus irmãos (Adailton, Jailton e Roseli), minha querida mãe (Maria), cunhados, cunhadas, sobrinhos e, claro, com minha amada esposa e meus maravilhosos filhos... Naquele lugar eu realmente me dei conta do quanto estava longe de casa e de todos...

Nessa região encontra-se de tudo, menos cerveja gelada! O frango é assado em assadeiras parecidas com as que temos no Brasil, só que em vez de usar eletricidade, usa-se fogo, feito com lenhas colocadas dentro das assadeiras.

Às 13h retornei à La Paz, almocei naquele shopping, fui ao Mercado das Bruxas comprar alguns presentes, contratei um tour para o Chacaltaya e depois voltei ao hotel para descansar um pouco. Passei a tarde vendo TV e arrumando minha mochila, pois às 7h do dia seguinte iria ao Chacaltaya e precisaria de muita energia.

Eis que às 19h o dono da agência de turismo me chamou na recepção do hotel para devolver o valor pago pelo tour, pois não atingira o número mínimo de pessoas necessárias para encarar os 5.500 metros de altitude.

Revoltado com a cidade que, principalmente naquele momento, não me agradara, prometi a mim mesmo que só voltaria ali se fosse para pagar promessa e das brabas. Pensamento este que hoje repudio, pois penso que La Paz tem sim atratividades interessantes que seriam ainda mais bem aproveitadas se eu estivesse em melhores condições de saúde. Então, bastante chateado por não ter mais o que fazer no próximo dia, sai para comer alguma coisa... pollos, pollos e mais pollos; papas, papas e mais papas... é só o que se vê, de forma que procurei por um supermercado e me indicaram um, mas se tratava daquele cuja higiene eu já comentei e que não passava de uma feira. Expliquei que não é aquele tipo de mercado que eu estava procurando, mas sim um que vendesse leite, iogurte, pão, biscoitos, conservas etc., mas o sujeito apontou para o mesmo local afirmando que ali eu encontraria tudo isso... Desisti, afinal neste mercado não se tem a certeza de que se vai comer e não se vai morrer.

Vencido o dia, depois de retornar pela enésima vez à Praça Murilo e subir e descer ladeiras, retornei ao hotel. Um sanduíche e dois sucos em caixinhas é o que jantei debruçado na janela do hotel, vislumbrando aquele mundo de luzes acesas nas casas incrustadas nas paredes do cânion, parecendo uma verdadeira constelação. Dali, observei o desafinado coro formado pelos auxiliares de transportes coletivos que, com metade do corpo para fora das vans ou ônibus, gritavam a todo volume os destinos e os preços das passagens, numa disputa que só eles entendem, e tudo isso com o som de fundo das buzinas já comentadas.

Ali eu vislumbrava outro cenário surreal, pois a Lua dava seu show particular iluminando La Paz sem, imagino, que seus habitantes percebessem a sua presença. Aquela visão me deu outro ânimo e me fez ver as coisas de forma diferente, ou seja, La Paz pode até não ter sido como eu esperava, mas valeu muito a experiência de, pela primeira vez, sair do Brasil e conhecer, numa única viagem, parte de três países tão curiosos e diferentes em suas culturas, arquitetura, culinária (bem, culinária nem tanto) e em todos os outros sentidos.

Depois de uma longa reflexão a esse respeito, li parte do livro “Lula - o Filho do Brasil” que ganhei da minha esposa para ler nesta viagem. Percebam que, mesmo distante, ela sempre esteve presente... Depois disso, mentalizei a hipótese de dormir até as dez horas sem ser acordado por buzinas e bandas noturnas como na noite anterior, mas algo em mim não me deixava satisfeito e a necessidade de conhecer, fazer ou aprontar (no bom sentido) alguma coisa era latente e fui dormir com essa sensação, que não chegou a me tirar o sono, mas que me fez acordar com outra disposição...

 

 

La Paz, Bolívia (domingo, 28-03-2010)

 

Enfim passei uma noite tranquila e consegui dormir bem, ainda que ansioso por ser a penúltima noite longe de casa e a última em La Paz, o que me deixou bastante motivado naquele momento.

Não consegui dormir até mais tarde conforme planejado, pois acordei com uma passeata política, às sete horas da manhã, que atravessava todo o centro de La Paz e acordou, creio eu, até os habitantes das cidades vizinhas. O ano de 2010 é eleitoral na Bolívia, de forma que vi em todas as esquinas manifestações políticas a respeito da eleição presidencial.

O que fazer? Eis a questão! Afinal meu voo era às 2h30 de 29-03, ou seja, tinha o dia inteiro e parte da noite para encontrar o que fazer, embora soubesse que seria difícil, pois não vislumbrava outra coisa na cidade senão a Praça Murilo, Mercado das Bruxas e o Vale da Lua, sem contar que tinha de fazer o chek-out no hotel às doze horas. Pensei em conhecer o lago Titicaca do lado boliviano onde Copacabana – cidade de onde se parte para as ilhas do Sol e da Lua – seria bom atrativo para aquele dia. Pensei também em ir conhecer o Salar de Uyuni em Potosi, mas não daria mais tempo devido à distância, ou ir a Oruro, Cochabamba ou até mesmo a Santa Cruz de La Sierra, sei lá, qualquer lugar fora de La Paz...

Depois do café da manhã, decidi sair caminhando para ver se encontrava algo diferente para prestigiar e acabei atravessando toda a cidade novamente e dando de cara com o Illimani, sem, outra vez, conseguir boas fotos, pois, novamente, estava encoberto por nuvens que se concentravam ao seu redor. Entrei em algumas agências de turismo para confirmar se formara ou não algum grupo de turistas a fim de subir o Chacaltaya. Acontece que várias agências vendem o tour, mas somente duas empresas o fazem e nem uma nem outra conseguira formar um grupo com o número mínimo de interessados. Outros passeios me foram oferecidos, mas infelizmente todos dependeriam de mais tempo para ser realizado. Um deles me aguçou a curiosidade, pois consistia em fotografar animais selvagens na selva amazônica. Porém era necessário dormir numa espécie de acampamento no meio da mata para retornar somente no dia seguinte, o que, naquele momento, não seria possível.

 

Questão de honra!

 

Passei a interrogar alguns taxistas sobre o valor que cobrariam para me levar ao Chacaltaya. Só encontrava propostas de 350,00, 370,00 e até 400,00 bolivianos, contra 50,00 das agências de turismo. Como a diferença era exorbitante e o preço extremamente “salgado”, estava me dando por vencido. Nesse momento eu comecei a ficar bastante chateado e outra vez indignado com La Paz.

Parei onde? Praça Murilo. Próximo a um ponto de táxi, fiquei atento a uma figura muito simpática que conversava com outro taxista e, embora não demonstrasse a sua indignação, tamanha simpatia e descontração, dizia estar chateado, pois acabara de perder uma corrida a Coroico. Dizia que uma senhora que havia agendado com ele não passava muito bem e resolveu cancelar. Aproveitei o momento e expliquei-lhe, sem demonstrar muito interesse para não ser explorado, que pretendia conhecer o Chacaltaya e estaria disposto a pagar-lhe 150 bolivianos, em torno de R$ 50,00.

 

200 Bs, disse ele.

150 Bs, disse eu.

150 Bs y la camiseta de Brasil que está utilizando (e a camisa do Brasil que você está usando), disse ele.

De acuerdo, disse eu.

Oh! Pancho muy feliz, muy feliz! – disse ele.

 

Fomos ao hotel, fechei a conta e deixei a mochila na recepção. Seguindo as instruções de Pancho, que é uma “figura” extremamente espirituosa, peguei uma jaqueta e uma garrafinha d’água e partimos.

Fomos conversando enquanto ele cantava e ouvia músicas bolivianas misturadas com jogo de futebol que se ouvia ao fundo da gravação feita em fita K7. De vez em quando ele repetia:

 

Pancho muy feliz; Amigo brasileño; camiseta brasileña... (Pancho muito feliz; amigo brasileiro; camiseta brasileira...)

 

Antes, porém, Pancho teve de abastecer o carro e, por conta disso, fomos a Los Altos onde ocorria a maior feira livre do mundo, segundo meu novo colega.

A estrada que liga La Paz ao Chacaltaya é muito bonita e interessante, sobretudo por ser de chão batido e cascalhos, com muitas curvas e muitas lhamas soltas pelo caminho. Não há sinalização nem proteção alguma, e qualquer vacilo que se dê pode-se parar dentro de uma das muitas lindas lagoas coloridas bem abaixo, aliás, muito abaixo.

O Glaciar Chacaltaya é um dos pontos turísticos de La Paz mais visitados, ou pelo menos era, pois ali já funcionou a pista de esqui mais alta do mundo, desativada recentemente. Atualmente não passa de uma montanha de pedras de coloração marrom, ligeiramente soltas e sem gelo, devido ao aquecimento global. O cenário, se comparado com o passado recente, é triste, pois devia ser muito bom e bonito visitar aquele local quando ainda tinha um clube de esqui e neve.

De qualquer forma é um lugar extremamente alto e tem-se uma visão excelente, ainda que distante, de Los Altos, La Paz e dos picos nevados da Cordilheira Real.

Para chegar à estação de esqui o melhor é ir de carro, porque fica a uns 30 quilômetros de La Paz e a 5.300 m.s.n.m., e, depois, seguir a pé mais uns 150 metros ou 200 metros até onde seria o início da pista. Acontece que, para conseguir essa façanha, é necessário muita disposição e fôlego, já que a 5.500 m.s.n.m. falta oxigênio no cérebro, os dedos adormecem e, no meu caso, a dor de cabeça e a sensação de cansaço foram muito fortes.

Existe um senhor que cuida do Clube Andino e dá as boas-vindas aos turistas. Oferece (por cinco bolivianos) uma xícara de chá de coca e orienta que as pessoas descansem pelo menos meia hora para aclimatar-se antes de começar a subir (se quiser) o restante da montanha.

Tomei um comprimido para alpinistas, tomei a xícara de chá e pensei estar aclimatado quando iniciei, sozinho, a subida rumo ao cume do Chacaltaya. Partindo da base de apoio, que era a base de esqui quando o clube funcionava, sobe-se primeiro uns 100 metros e depois mais uns 200 para se chegar ao lado do Huayna Potosí com seus imponentes 6.088 m. Inicialmente, sente-se que as pernas pesam três ou quatro vezes mais, dando a impressão de que se acabou de participar de uma longa maratona.

Lá em cima encontrei “uns loucos” da Nova Zelândia, Estados Unidos, Guatemala, Nicarágua e um guia particular boliviano que estava acompanhando-os. Depois que eu pedi para eles registrarem umas fotos minha e conversarmos um pouco, o guia, com sua filmadora, pediu para que eu registrasse uma mensagem a La Paz dizendo que colocaria no youtube. Posteriormente verifiquei que realmente postou, mas ficou tão mal gravado que não vale a pena conferir.

O lugar é realmente mágico e eu estava muito satisfeito por estar tornando a última tarde em La Paz na melhor aventura que tive na Bolívia.

No topo do Chacaltaya e em absoluto silêncio, quebrado apenas pelo vento que parecia assoviar uma canção melancólica que “soprava” e “varria” os últimos e escassos centímetros de neve que, insistentemente, tentavam permanecer naquele que já foi orgulho dos bolivianos, me deixei tomar pela paz que o lugar traz às pessoas que ali conseguem chegar. É uma sensação de inferioridade devido à beleza da paisagem, misturada com outra de puro êxtase devido à conquista, afinal, não é todo dia que se está no cume de uma montanha a 5.500 metros sobre o nível do mar.

Depois de muitas e muitas fotos e um bom repouso, pois o fôlego fica realmente escasso, os dedos adormecem e, no meu caso, o nariz, que já estava interna e externamente ressecado, sangrou um pouquinho, iniciei a descida daquele que foi um dos melhores momentos da viagem, perdendo apenas para a sensação que tive ao mergulhar com as focas e os leões marinhos nas ilhas Palominos em Callao, Peru.

Naquele momento, a música que aleatoriamente era selecionada pelo MP4, que me acompanhou em todos os momentos, era da Blitz – uma antiga banda brasileira já extinta – cujo refrão era assim:

 

Longe de casa

A mais de uma semana

Milhas e milhas distante

Do meu amor

Será que ela está me esperando

Eu fico aqui sonhando

Voando alto bem

Perto do céu...

 

Que ela estava me esperando eu não tinha dúvidas e que eu estava bem mais perto do céu, também.

Era hora de voltar!

Acordei o amigo Pancho, que ficou descansando no táxi, e o critiquei por não ter me lembrado de comprar umas frutas ou chocolates, pois estava com fome e já eram quase dezessete horas. Ele sorriu, bateu palmas e me disse ter uma surpresa. Foi ao porta-malas do táxi e trouxe uma sacolinha plástica com duas sobrecoxas de frango assadas, porém geladas. Tive vontade de descer a montanha correndo, porque não suportava mais ver frango, ouvir falar de frango ou comer frango.

Com cuidado disse (mentindo) que, assim como na Índia é proibido comer carne de vaca, no Brasil é proibido comer frango. Esperto, ele insistiu alegando que não estávamos no Brasil e que nesse caso eu não estaria cometendo nenhum pecado. Aceitei!

O retorno a La Paz foi tranquilo, e contente com a “graninha” extra que ganhara e acima de tudo com a camisa do Brasil que lhe daria conforme combinado, o taxista passou por outro caminho para que eu conhecesse um pouco mais daquela exótica região.

Satisfeito por ter passado o melhor dia em La Paz, fiquei no hotel e combinei para Pancho me apanhar à meia-noite para me levar ao aeroporto.

O tempo que fiquei na recepção aguardando Pancho era interminável e aproveitei para ler um pouco mais do livro, até que o atendente me ofereceu um quarto para descansar um pouco, o que aceitei de imediato e com gratidão. Tomei um banho e relaxei até às 23h, já que a noite seria um martírio, pois partiria no voo das 2h30 e teria de fazer uma escala em Assunção, no Paraguai, às 4h30.

No caminho para o aeroporto com o simpático Pancho que, mesmo cansado, foi cantando e conversando muito, não imaginava que a Bolívia ainda me reservaria uma desagradável surpresa. Acontece que, para chegar ao aeroporto, tem-se de passar pela periferia de Los Altos que, com todo respeito, mais parecia uma visão do inferno.

Imagine passar lentamente à meia-noite e meia num local que mais parecia o “quadro da dor”. Centenas de pessoas obstruíam as ruas como se estivessem em greve geral, embora se divertindo(?). Sem o menor pudor urinavam, ouviam músicas em volume alto, dançavam, conversavam e traficavam drogas com total liberdade. As buzinas dos táxis eram acionadas sem parar como que pedindo licença para puderem chegar a seus destinos e horários marcados. O lixo ocupava boa parte das ruas e numa encruzilhada até servia como rótula. Rótula essa disputada por alguns cachorros e duas ou três mulheres à procura de algo, talvez para comer... Realmente um submundo onde o que impera são a desordem e o desleixo, trazendo-me a sensação de estar vivenciando as cenas do filme Ensaio Sobre a Cegueira, baseado no livro (com o mesmo nome) de José Saramago.

Todo esse caótico cenário só foi amenizado com a certeza de que estaria retornando ao Brasil e ao seio da minha amada família ainda na manhã deste dia.

Não sabia, entretanto, que ainda levaria um grande susto em solo paraguaio.

 

 

Assunção, Paraguai (segunda-feira, 29-03-2010)

 

O voo atrasou duas horas, o que me fez sair de La Paz às 4h30 e de Assunção, Paraguai, somente às 13h, pois tive de aguardar outra aeronave chegar de São Paulo devido a um incidente com uma das turbinas do avião que “engoliu”, literalmente, uma ave no momento da decolagem, o que fez com que o piloto abortasse o voo e retornasse ao aeroporto. Alguns passageiros passaram mal e o desespero foi grande. O piloto tinha poucos metros de pista para conseguir controlar o avião, o que fez com extrema competência, já que o trem de pouso dianteiro encontrava-se no ar. Passado o susto e a agitação dentro do aeroporto com a realização do visto e do check-in imprevistos, eu e dois outros passageiros, um paulista e um senhor mineiro muito bacana chamado Olisio, almoçamos e ficamos tomando umas cervejas paraguaias (afinal estávamos vivos!) até partirmos para o Brasil.

 

 

Florianópolis, Brasil (segunda-feira, 29-03-2010)

 

Depois de muito esperar e tomar um verdadeiro “chá de aeroporto” em La Paz, Assunção e em São Paulo, fiz as devidas tramitações de entrada no Brasil e aterrissei em Florianópolis às 21h, onde meu sobrinho Diogo estava me aguardando no aeroporto enquanto minha família e outros sobrinhos (Marcos e Gleyce) me aguardavam em casa com um jantar especial: um delicioso churrasco e GALETO!

Marcos e Gleyce foram o braço direito da Janaina durante essa viagem, pois estiveram presentes em todos os momentos, o que trouxe a todos mais tranquilidade durante a minha ausência.

A recepção foi bastante calorosa. A euforia do retorno, misturada com a curiosidade dos fatos e fotos e não menos pelos presentes e lembranças, fez com que a noite fosse descontraída e alegre, apesar de todos terem ficado bastante surpresos e preocupados com a minha aparência que, naquele momento, apresentava seis quilos a menos.

Mais tarde, meu irmão Adailton, minha cunhada Nilva e meus sobrinhos Vinícius e Bruna também foram me dar as boas-vindas, e ali permanecemos boa parte daquela noite conversando e comemorando o meu retorno.

Enquanto todos jantavam, brincavam e viam as novidades, fiquei imaginando uma série de coisas e me convenci do quanto foi ótima a iniciativa e a coragem de ter realizado essa viagem que já me traz saudades.

 

 

Há, com toda certeza, muito mais coisas bonitas e interessantes que eu poderia ter conhecido nestes países, mas tudo aquilo que pude ver, sentir, tocar, beber e comer, agradável ou não ficará marcado em minha memória de forma extremamente positiva.

Afinal, conhecer a capital do Peru (Lima), a Costa Verde e suas praias de pedras; ver de perto lhamas, alpacas, vicunhas (comer os pobres dos bichinhos), pelicanos e flamingos; mergulhar com focas e leões marinhos; comer cuy, ceviche, paella marinha do Pacífico e pizzas montadas e assadas “ao vivo”; andar em táxis e ônibus exóticos; viajar por entre as Cordilheiras dos Andes e Cordilheira Real; conhecer e navegar no lago navegável mais alto do mundo (Titicaca) e conhecer o lago mais alto do mundo (Chungará); conhecer novas cidades e suas diferentes culturas, políticas, geografia, economia, arquiteturas e culinária; conhecer ruínas, vulcões, desertos, ilhas, parte da região Norte do Chile e o famoso morro de Arica e se aventurar pela capital da Bolívia (La Paz), tudo isso são coisas que se leva para a posteridade e deixa, sempre, um gostinho de “quero mais”...

Me segundo relato contando as as experiências vividas na Venezuela, Colômbia, Nicarágua, Costa Rica e Panamá durante a viagem realizada solitariamente em março de 2011 já esta pronto... qualquer hora eu posto Por aqui...

Aguardem!

 

 

Ronei B. Amandio

[email protected]

 

DICAS: Antes de viajar é importante que você verifique se sua Carteira de identidade está válida - a CI tem validade de 10 anos e deve ser renovada para poder viajar e/ou tirar o passaporte.

 

Outra coisa importante é liberar, junto a seu banco, seu cartão de crédito para uso no exterior.

 

A vacina contra a Febre Amarela é exigida no Peru, portanto procure um posto de saúde e vacine-se com antecedência mínima de dez dias, depois vá à ANVISA e solicite seu Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia - "exigido no Peru".

 

Faça um curso básico de Espanhol. Existem alguns na Internet (grátis) - por exemplo http://www.babelmundo.com.pt

 

 

FOTOS DO PERU:

 

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FOTOS DO NORTE DO CHILE:

 

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FOTOS DA BOLÍVIA:

 

Obs.: A foto da casa sobre o penhasco foi registrada no Glaciar Chacaltaya, La Paz - Bolívia. ESTA FOTO, INTITULADA "O REFÚGIO", FOI CLASSIFICADA EM 1º LUGAR NUM CONCURSO NACIONAL DE FOTOGRAFIAS.

 

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Editado por Visitante
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  • Membros

Grande Ronei,

 

Parabens pela bela iniciativa e acima de tudo pela coragem de por uma mochila nas costas e sair mundo a afora....senti em suas palavras que o apoio da Janaina foi a melhor bagagem que voce levou...isso ai meu amigo, sem apoio da familia nao somos nada nesta vida...!!!

 

Um abraço

 

obs: Agora podemos queimar aquela carne e voce mostrar mais fotos hem....

 

Meu e-mail ainda é o [email protected] / 8841-6051

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  • Membros

Valeu Roei, gostei muito de ver que vc continua o mesmo cara idealista e de princípios que eu conheci.

Mais falando da tua aventura, to morrendo de inveja, mais quem sabe um dia eu também consiga realizar este feito que também é o meu sonho, conhecer a AMÉRICA LATINA viajando.

Um grande abraço "AMIGO" e até a próxima aventura.

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  • Colaboradores

Nossa mto massa seu relato!! A composição do texto, a forma de expressar suas vivências, tdo mto bacana e me fez relembrar meus dias pela Bolívia e Peru!!! Experiência tbm que considero ímpar, o q me faz querer sempre colocar as mochilas nas costas e me permitir novos horizontes!!

 

Parabéns e sucesso nas próximas trips!!

 

Bjs!

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