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Olá viajante!

Bora viajar?

Quase morri na Bolivia (jun/10)

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Quase morri na Bolívia

 

Existem algumas coisas que as pessoas consideram completamente insanas e eu, ainda não sei porque, considero natural como o nascer do sol. Uma dessas era que deveria viajar. Ainda no meu trabalho fui surpreendido por um colega vendo fotos de uma viagem de moto até a Patagônia. Ele achou um absurdo quando disse que gostaria de fazer a mesma coisa. Alguns dias depois voltava para aquela sala de escritório no vigésimo sétimo andar para assinar minha demissão. O mesmo colega, quando me viu, perguntou:

-Ei, voce veio assinar a demissão? Achei que estava no Chile.

Saí dali, comprei uma mochila, uma barraca e uma lanterna e fui para Monte Verde. Não importava que nunca havia armado uma barraca na vida. Se bem que eu havia feito uma tentativa, mas meu quarto na república em que morava não comportava o espaço da barraca para duas pessoas e acabei levando a incerteza da capacidade daquela tarefa. Era assim que eu constumava agir: levava a incerteza da capacidade das tarefas ao invés de me preparar. Eu preferia dizer que nascera preparado, mas era apenas da boca pra fora.

Andei alguns quilómetros pelas serras dos Brasil como quem procura algo por todos os cantos e esquece de checar sob cama. Chequei em tudo quanto foi lugar, até no tecido adiposo sub cultâneo e nada. Quando me dei conta estava indo para a Bolívia jurando que havia deixado lá.

-Mas se voce nunca saiu do Brasil, como pode ter deixado lá?

Eu tinha sonhos tão complexos quanto um pequeno burguês. Índias nuas dormindo na minha barraca sob luares hipnotizantes e os Andes sob meus pés eram os pensamentos que carregava na garupa da moto ainda perto de São Paulo.

A primeira parada era em Campo Grande, local que havia visitado alguns meses antes. Andar mil quilómetros de uma vez só não se mostrava uma boa estratégia, mas eu corria todos os riscos possíveis. Na minha cabeça chegaria em La Paz tres dias depois de ter saído de São Paulo, dormindo em Campo Grande, em Santa Cruz de La Sierra e, enfim, na capital boliviana. No caminho eu sabia que não ia dar certo, mas continuava. Não tinha a menor idéia do que estava fazendo.

Para chegar em Campo Grande pegara estrada à noite, o que é o exato contrário da regra mais importante dos viajantes de moto. Cheguei cansado e acabei adaptando meus planos, deixando o dia seguinte para descanso, para retomar o caminho apenas na sexta-feira. A companhia em Campo Grande era agradável, o que ajudava. Porém, dali pra frente eu não sabia o que me esperava e o que imaginava se distanciava muito da realidade.

Saí muito cedo de Campo Grande com destino a Santa Cruz e logo tomei o primeiro susto. Em algum lugar que não tenho a menor idéia do nome, a estrada é cheio de rotatórias em que se tem que reduzir a velocidade. Porém eu ia quase no limite. Em alguma delas eu peguei uma mancha de óleo. A moto já estava quase de lado quando, num reflexo, bati o pé esquerdo no chão, sendo devolvido a posição de equilíbrio. Ufa!

Viagens de moto são cansativas, tanto fisicamente como emocionalmente. Eu pretendia passar mais de dez horas sentado ali, naquele banco, porém eu não havia me preparado para o tédio. Quando se anda de moto por horas, nem estamos prestando atenção na estrada nem em outra coisa, de maneira que os pontos de referências no caminho ficam relacionados com os pensamentos que temos na hora em que passamos por eles. Assim uma base policial me fez lembrar de quando quebrei a perna e um restaurante a beira da estrada me lembrou o SESC Interlagos.

Depois comecei a cantar, o que me levou a crer que a pior desvantagem de uma moto para um carro não é a chuva ou o banco, mas a falta de um rádio. Então, para compensar minha imaginação limitada que só conseguia pensar em duas ou tres músicas, passei a investir em verdadeiras performances enquanto cantava Paralamas ou Legião. O som abafado pelo capacete fechado fica realmente intenso com um "quando o sol bater na janela do teu quarto" bem gritado.

Logo cheguei aos bloqueios na estrada. No primeiro perdi a passagem por alguns minutos. Por conta de uma reforma a pista fica aberta apenas em um sentido. Cada intervalo demorava cerca de meia hora nessa primeira. Mas, quem é o burro que resolve reformar dez quilómetros de pista de uma só vez? E se eu passasse pelo bloqueio imporvisado com uma periguete responsável pela operação? Fiquei torrando no sol por meia hora pensando nisso e, logo após começar a andar um posto da polícia federal deu a entender que seria burrisse. As armadilhas da estrada.

Cerca de meio dia cheguei a Corumbá, a última fronteira. Eu nunca havia saído do Brasil e estava um tanto emocionado, porém como minha primeira vez seria logo com a Bolívia, a desconfiança era maior.

Parei no primeiro posto que vi para almoçar na tentativa de adiar ao máximo uma refeição do outro lado da fronteira. Ainda aproveitei para ver o Brasil perder da Holanda. O resultado do jogo era tão importante para mim quanto para um astronauta numa estação espacial.

Na fronteira eu ainda não tinha a menor idéia de quais papéis deveria pegar, carimbar, se deveria pagar proprina ou se estava tudo certo. Resolvi tudo, troquei alguns pesos por ali mesmo e resolvi pegar a estrada. Era umas tres da tarde e eu queria chegar a Santa Cruz de La Sierra ainda naquele dia. Nem precisa abrir o Google Maps pra saber que era uma burrisse que beirava a inocência. Aliás, abra o Google Maps, por favor. Pede o caminho que vai de Campo Grande a Santa Cruz. O caminho que o Google dá não é o que eu fiz, mas pelo Paraguai. É que na verdade por ali não tem bem uma estrada, é mais um caminho. É tudo de terra e quando chove é preciso cruzar os rios, pois se não há estrada não há pontes. Aliás, se não há estrada, não há postos de gasolina, muito menos hotéis. Sabe o que tem de monte? Plantação de coca e traficantes. Sair às tres da tarde era uma burrisse sem tamanho.

Eu estava na estrada. Achava engraçado as placas diferentes, escritas em espanhol. O sol brilhava. Por conta da demora na fronteira eu estava de camiseta, sem a jaqueta que protegeria de algum acidente. Mas que acidente porra nenhuma, eu queria era respirar liberdade.

Logo veio uma placa: Plaza de pedágio: 1km. Aqui também deve ter um monte disso. Espero que seja barato, pelo menos.

Andei bem mais de um quilómetro sem ver nenhuma cancela e fiquei pensando se a causa era uma decisão do Evo ou dos narcotraficantes. Depois avistei bem na frente uma casa na beira da estrada que parecia um boteco. Queria ver se vendia gasolina, por em Puerto Qujaro é proíbida a venda para veículos com placas brasileiras. Nem estava tão rápido, cerca de noventa por hora. Não consegui entender o que era aquilo com umas cadeiras e uma mesa para fora. Passava exatamente pela frente da casa de madeira direto quando senti algo no meu peito. Olhei para a esquerda e vi que havia um poste de madeira, como de varal, segurando um fio, e era esse fio que eu havia sentido. No curto instante de tempo que se seguiu eu não fui capaz de concluir que deveria parar. Ao invés disso, a lógica era de que logo o fio, que interpretei como sendo uma corda de pipa, seria cortado pela velocidade em que eu estava. Ledo engando. Era um cabo de aço. Apenas senti o fio esticando e fui puxado para trás, sendo derrubado da moto e caindo de costa no chão. Apaguei.

Quando abri os olhos vi o céu azul, sem nenhuma nuvem. Durante o inverno na Bolivia o céu é sempre assim, limpo, azul. Senti o asfalto quente nas minhas costas. Eu acho que a única maneira de ficar deitado no asfalto quente é sofrendo um acidente. Que droga, por que eu não estava com a minha jaqueta?

Essa não era a pergunta correta a se fazer. Eu não precisaria de nenhuma jaqueta se eu não tivesse sido puxado por um cabo de aço pelo pescoço à noventa por hora. Por que eu fui puxado por um cabo de aço? Acho que essa era a pergunta correta. Levantei e vi um boliviano correndo em minha diração. Vi estrelinhas e achei que ia apagar denovo. Respirava com dificuldade. Corri do boliviano, devagar o suficiente pra não apagar, rápido o suficiente pra fugir de um ladrão.

Achei que iam roubar a minha moto e corri em direção a ela. Estava jogada no meio do mato vários metros a frente. Porra, eu tenho que chegar até Santa Cruz ainda hoje. Não posso ficar sofrendo acidentes assim.

Tentei tirar a moto dali mas ela estrava presa no mato. Voltei pra estrada e o boliviano que corria atrás de mim falou qualquer coisa que não entendi. Parou um caminhão e tiramos a moto dali. Após algumas tentativas ela ligou. Estava um pouco torta mas acho que poderia seguir caminho.

Eu estava adrenado. Voltei até a casinha que parecia boteco e que na verdade era o pedágio. O cabo de aço era pra evitar que passassem sem pagar. Não é que essa porra funciona mesmo?

A adrelina começou a ceder. Eu percebi que minha vista estava avermelhada. Sangue. Pelo espelho restrovisor quebrado pude ver que estava mal. Logo meu pescoço começou a dar dicas que o acidente havia sido feito. Mal conseguia virar. Os bolivianos me avisaram que eu não poderia seguir pois uma ambulância fora chamada. Eu já havia desistido.

Logo chegou uma viatura da polícia. Acho que ambulância deve significar viatura em espanhol. Eu deveria seguir para o hospital na viatura e o outro policial levaria minha moto para o mesmo destino enquanto eu estivesse sendo atendido. Enquanto saia da cena do acidente, fiz grande esforço com o pescoço dolorido para poder olhar pelo retrovisor da viatura a moto, sentindo que a veria pela última vez.

No hospital fui suturado por uma jovem médica. Ela parecia que sabia o que estava fazendo e ganharia minha confiança não fosse pelo fato que durante todo o procedimento seu celular tocava Shakira bem alto, pendurado no seu pescoço, no meu ouvido.

Pode ser que um dia a Shakira venha para o Brasil, eu a encontre e acabemos trepando. Eu só lembrarei do moderno sistema anti-fraude do pedágio boliviano.

O policial que me acompanhou pediu todos os meus documentos. Todos. Não tinha escolha e entreguei. Logo após o procedimento pedi para que o chamassem para saber se minha moto já havia chegado. O policial havia ido embora. Eu já pensava na minha volta pra São Paulo, de ônibus, com o rabo entre as pernas. Não sem antes tentar de tudo.

Não sei bem porque acabei conversando com o motorista da ambulância. Deve ser pelo fato que todos estavam curiosos acerca do brasileiro burro que não sabia como funciona um pedágio. Eles deviam pensar: será que não existe pedágio no Brasil?

O tal motorista era o único que entendi meu portunhol ainda prematuro. Disse a ele que se encontrasse a moto eu lhe daria dinheiro. Ele sorriu quando abri a carteira e dei alguma coisa pra motivar a busca.

Em poucos minutos voltou com uma notícia boa. Os policiais estavam com a moto e me devolveriam, mas só na manhã seguinte, pois queriam falar comigo. Ele também me disse que eu precisaria pagar mil reais para reavê-la.

Opa, claro. Mil reias? Só se for agora. Ele estranhou, mas quanto lhe ofereci mais algumas notas ele saiu para chamar um enfermeiro que tirasse o soro. Não precisava do enfermeiro já que eu mesmo arranquei o soro.

Fui de ambulância até a delegacia, onde encontrei minha moto. Peguei a corrente do baú e prendi ela num posto. Ninguém tiraria ela dali.

As fardas dos policiais pareciam as daquelas tropas dos programas do Didi. Eu estava cheio de sangue seco numa camiseta do Che Guevara rasgada. Sete pontos no pescoço e dois no supercílio. Mal conseguia mover o pescoço e os braços e os policiais queriam mil reias. O responsável por me falar que tinha que dar dinheiro pra pegar a moto acabou sendo o motorista da ambulância. Eu respondi em alto e bom som: Não vou dar nenhum dinheiro a ninguém. E não saio daqui sem a minha moto. Se preciso, durmo abraçado nela.

Me fizeram esperar. Eu precisava falar com o coronel. Eu esperava por alguém no estilo do sargento pincel, e não fui desapontado. O bigode do cara lembrava o Leôncio. Ele me chamou pra uma sala com poltronas e senti que não sairia dali vivo. Ele pegou todos os documentos e disse que faltava um. O tal do documento de trânsito.

Esse relato não tem como objetivo informar ninguém sobre preços, caminhos, dicas ou coisas do tipo. Mas, se numa situação semelhante lhe pedirem o documento de trânsito, não vá pensar que esqueceu de algo. Ele não existe e serve apenas como pretexto para proprina.

Nessa hora fiquei nervoso. Levantei da poltrona e disse que não existia porra de documento de trânsito e que tudo que precisava estava ali. Ele murmurou que no país dele quem ditava as regras era ele. Eu respondi que ele estava certo. Então dormiria ali mesmo, abraçado à moto, e no dia seguinte entraria em contato com a embaixada para providenciar o documento de trânsito.

Ele olhou bem pra mim, e notou que, devido ao meu estresse o pescoço havia recomeçado a sangrar. Entregou a chave da moto e os documentos e me disse para ir embora.

Voltei ao hospital de dei mais um dinheiro ao motorista da ambulância. Finamente poderia descansar. Veio então o enfermeiro e me pediu cinqueta pesos para recolocar o soro. O motorista da ambulância deve ter falado que ganhou dinheiro e ele queria se aproveitar do gringo brasileiro.

O problema não era pagar pra ter o soro, mas o que poderia ter no soro. Levatei da maca, peguei a mochila decidido que voltaria ao Brasil naquele instante. Um monte de gente tentou me impedir, não sei se por prudência ou na esperança de arrancar algum dinheiro. A moto tinha o baú solto, o alforje rasgado, mas minha caixa de ferramentas deu jeito. Sem farol e com a moto torta andei uns quarenta quilómetros até Corumbá, sentindo um vento frio que parecia que entrava nos meus pulmões pelo corte no pescoço. Na primeiro hotel que vi, parei a moto e chamei o garoto que carrega malas com um gesto que parecia ter saído de "Onde os Fracos Não Têm Vez".

Pedi que guardasse a moto e a bagagem e chamasse um taxi. Segui para um hospital e só voltei no dia seguinte para pegar a mala e voltar a Campo Grande.

Quinze dias depois estava novamente em Corumbá. Ainda não para pegar a moto, mas apenas de passagem. Já sem os pontos no pescoço eu voltaria a Quijaro para pegar o trem da morte e seguir para La Paz. A viagem estava apenas começando.

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Nossa, "perturbador" seu relato!!!!!

 

Também estou aguardando o restante da trip!

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Davi, que relato incrivel, apesar do que passou.

Vocë escreve de uma forma que nao da para parar de ler!!! Muito bom!

 

Espero a continuacao tambem,

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Olá. Agradeço aos comments, que dão uma motivada pra continuar escrevendo.

 

Estou escrevendo uma outra parte e vou tentar colocar aqui antes da próxima viagem, que deve ser semana que vem.

 

Abs,

Davi.

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Amei seu relato!

Chorei de rir e depois fiquei com remorso pois vc deve ter se machucado pra valer...

Vc escreve mto bem...

E acredite! O que deixa a nossa vida mais interessante são esses momentos! Que graça teria se tivesse dado tudo certo?

Bjs e Boas Viagens!

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pô velho !! ainda bem que tu não se mato .... pelo menos no Brasil os pedágios são sinalizados neh hehehe

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Cara!!!

SEM PALAVRAS!!!!!

 

Acho até que vc nem deveria escrever mais, deixar como está, pq tá digno de moldura esse relato!!!!!!!!!

 

Aplausos em pé!!! ::cool:::'> ::cool:::'> ::cool:::'> ::cool:::'>

 

Parabéns!

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Acho que ficou a lição que devemos planejar as viagens, nem que seja o mínimo de planejamento, para não passar por apuros como esse. Trabalho na rodovia que leva a fronteira com a Bolívia, essa que você passou e que estava em obras. Uma vez parei um cara que estava indo conhecer a Bolívia e Peru de carro e nem um mapa ele tinha. Só sabia que queria chegar em Machu Pichu. O pior é que estava em um Monza velho a Álcool e não sabia que na Bolívia e Peru não existe esse combustível, apenas gasolina e diesel. Então galera, o fórum existe para isso. Pesquisando um pouco, diminuem as chances das coisas darem errado.

Abraço!

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Estou postando abaixo a parte 2 do meu relato de viagem na Bolivia.

 

Eu fiz um blog onde coloquei os mesmos textos, mas que vai servir para eu escrever os relatos que vou colocar da minha próxima viagem que vai acontecer no próximos dias aos Andes.

 

http://naturedrunk.blogspot.com/

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Morte na montanha

 

Acordei bem cedo e fui tomar café da manhã. Já com minha grande mochilas às costas, fechei a conta e fui a porta do hotel. O sol estava longe de dar as caras e as ruas, mesmo no centro de La Paz, são tenebrosas durante a madrugada. Eu precisava encontrar um taxi com antena e barato. Com antena, pois havia descoberto que é mais difícil pegar um taxi falso tendo ele antena de rádio.

Já estava há alguns dias na Bolívia quando decidi que era hora de escalar. A escalada em alta montanha exige aclimatação e eu tinha passado alguns dias andando pela Ilha do Sol, mas ainda não era o suficiente.

Finalmente parei um carro e pedi que me levasse a Praça Balivian, em El Alto. 50 pesos. No caminho eu pensava em como odiava a situação de ter que esperar por alguém em um lugar público, ainda mais tão cedo. Eu mal lembrava a fisionomia do guia tampouco sabia se era ele mesmo que iria me encontrar.

O lugar parecia com a praça da Sé. Montes de pessoas pegando conduções para ir trabalhar e outros montes com cara de que a noite havia sido longa. O motorista do taxi me adverte que seria burrisse eu esperar por alguém ali. Com minha cara de gringo era questão de tempo para que me roubassem.

Esperei algum tempo dentro do taxi mas acabei ficando por ali mesmo. Se tudo ocorresse conforme o combinado, o guia logo chegaria. Meu medo era inclusive que ele tivesse sido pontual demais e eu que tivesse atrasado. Mas a pontualidade boliviana é de no mínimo uma hora de atraso.

Vem uma garotinha até mim e pergunta se sou o Davi. O pai dela havia pedido para que me encontrasse. Seguimos até sua casa onde encontrei os dois espanhóis que me acompanhariam naquela viagem. Eu seguiria de carona com eles até a ragião do Condoriri. Eles ficariam acampados por alguns dias e depois mudariam o acampamento para poder escalar outras montanhas. Eu iria apenas me aclimatar. Depois voltaria à La Paz e escalar o Huyanna Potosi. Eles tinham umas 6 ou 7 mochilas cheias de equipamentos para tudo e eu nunca havia visto neve.

Genaro, o guia, me avisou que eu apenas iria com os espanhóis, pois eles ficariam lá umas duas semanas. Eu deveria voltar de carona com alguém que estivesse por lá. Pelo que ele disse não parecia difícil e, dado que eu estava indo de carona não parecia mal também voltar de carona.

A van chegou e eu não demorei muito para embarcar minhas coisas, que se resumiam a minha mochila. Então, para parecer simpático, dei uma ajuda com as coisas dos espanhóis, inclusive, um monte de garrafas de água mineral.

No caminho fizemos o usual trajeto saindo de La Paz e indo para o oeste, que se faz para ir ao Huyanna, Chacaltaya, Copacabana ou Ilha do Sol. Mas em determinado momento saímos da estrada de asfalto e pegamos terra. Na Bolívia, nessa época do ano, terra significa muito pó. Daquele que após algum tempo sentimos o gosto na boca. Atravessamos um riacho em que a água fazia esforço para continuar correndo e seguimos algum trecho já podendo visualizar a figura do Condor que dá nome a região. Os espanhóis se animaram, pois era plano deles subir a asa esquerda.

No caminho o sol nos castigou, mesmo dentro do carro. O clima ali não é só caracterizado pelo frio, mas pela alta amplitude climática. Eu tentava me adaptar, mas não ligava muito. Quando está frio ponho as roupas para o frio. Sequer uso protetor solar durante os dias muito quentes. Isso me garantia uma bela marca dos óculos escuros, mas que não chamavam atenção desde que continuasse com os óculos escuros. Eu penso no Sol como uma grande fonte de energia, não apenas fisicamente, mas mental também. Não chego a colocá-lo como Deus e sair fazendo oferendas, mas não consigo perceber que ficar exposto por muito tempo sob seus raios vão me causar câncer. E não acho que um creme vá me proteger. Na prática eu digo que protetor solar é para os fracos.

Já os espanhóis faziam questão de usar a tecnologia nas suas mais variadas formas para se proteger da natureza. Quando o carro chegou no nosso destino, de onde deveríamos continuar a pé até o campo base, Benja estava com tanto protetor solar que parecia maquiado. Além disso usava também um óculos estranho e um líquido para os olhos, pois ressecavam.

Eu apenas observava. Eu não sabia como me comportar no meio dos alpinistas. Aliás, eu não me sentia um alpinista. Eu estava ali como o chachorro que entra na igreja porque a porta estava aberta. Eu não sabia o que tinha ido buscar ali, mas desde que pude olhar aquele horizonte tão grande, as paisagens surreais, as cores que faltam no meu monitor mesmo tendo mais de 65 milhões, eu havia sentido a natureza.

Daniel e Benja haviam contratado um muleiro que os deveria estar esperando, mas não cumprira o compromisso. Ah, se ele tivesse um Blackberry. Eu segui o caminho com a minha mochila. No caminho parei várias vezes. As paisagens eram muitos bonitas. A neve, ao contrário do que imaginava não era branca, mas branca, vermelha, púrpura. Eu nem sabia os nomes das cores, mas como estava sozinho não precisava dar nomes as cores.

Cheguei finalmente ao acampamento, já cheio de barracas. Vi um lugar que parecia bom e armei a minha. Uma Falcon Nautika de cem reais. Senti um pouco de vergonha no meio de tantas North Faces e Eurekas, mas era o que eu tinha. Ancorei bem, pois mais vergonhoso que uma barraca barata é uma barraca voadora. Cozinhei meu jantar e fui dar uma volta.

Como toda região nevada havia as famosas morainas logo ali do lado. Percebi que havia uma coisa se movento um pouco a frente e fiquei com medo. Poderia ser atacado. Depois mais um susto e logo percebi que coelhos e outros roedores faziam toca por ali.

Me sentei um pouco e um senhor veio em minha direção e puxou conversa. Era alemão e falava inglês. Eu tentei me comunicar mas os tempos verbais se enrolavam na minha cabeça e logo depois que falava percebia os erros que tinha cometido. O senhor não ligava para os erros e continuou conversando, talvez se esforçando para me entender. Ele era de uma expedição que tinha umas dez barracas montada ali no canto. A maioria dos seus amigos estava escalando o Pequeno Alpamayo naquele momento, mas ele havia ficado por ali, pois estava cansado.

Os espanhóis chegaram e fui falar com eles. Eles passaram umas boas horas montando acampamento e a barraca deles parecia realmente difícil de ser armada, mas não aceitaram minha ajuda. Depois me convidaram para um chá, que fizeram dentro da barraca. Havia uma área para cozinhar. Conversamos e eles me perguntaram o que iria fazer no dia seguinte. Eu não havia planejado nada além se dar uma volta e aceitei o convite de subir com eles o Cerro Austria. Era um pico que não tinha neve, apenas uma boa subida para aclimatar-se. Fui dormir, pois havíamos combinado de acordar às 4. Antes fiz um chá e deixei numa garrafa térmica para tomar durante a noite.

Até pouco antes de escurecer o clima era bem agradável, mas quando o sol se punha o frio castigava e em poucas horas não havia lugar como dentro do saco de dormir. Cada quilo que tive que carregar no caminho valia a pena durante a noite. Estava alegre em ter sido convidado pelos gringos para subir o Áustria no dia seguinte. Seria um passeio legal.

Acodei cedo com tudo dentro da barraca congelado. A água e até a pasta de dente estava dura dentro do tubo. Achei aquilo tudo muito legal. Era escuro e fui com a head lamp até um cano de onde sai água supostamente limpa. Encontrei os espanhóis e logo saímos para o nosso primeiro cume por ali.

Eu estava de calça jeans e uma bota bastante permeável. Os caras estavam de bota plástica. Quando vi aquilo pensei que eles esperavam neve no caminho, mas me disseram que era pra se acostumar.

Eu estava com bastante medo de não conseguir acompanhá-los pois eles eram bastante experientes escalando nos Alpes, mas foi o contrário que aconteceu. No início demos uma grande pernada sem parar, até por uma questão de motivação, mas acho que isso os cansou. Na primeira parada ficamos mais do que eu gostaria e meu ritmo esfriou. Logo paramos denovo e denovo e assim fomos, parando pelo caminho. Pelo menos as paradas eram agradáveis. Sempre o Daniel dava um jeito de tirar um barato com o Benja. Numa das paradas o Benja aproveitou para retocar o protetor solar no rosto, que já era excessivo. O Daniel lhe disse que era mejor morrer como um hombre do que viver como um maricón. Essa até eu entendi. Em geral eu entendia o que o Daniel falava, já o Benja, que era de uma região basca ou algo assim, a maioiria das vezes eu apenas concordava com a cabeça sem ter a menor noção do que ele dizia.

Em outras paradas, era possível avistar o Condoriri. Eles então ficavam um bom tempo olhando e traçando estratégias de escalada, caminhos na montanha longíngua, mas que faziam sentido. As vezes eu soltava alguma pergunta, tentando fazer parte.

Algum tempo depois, chegamos ao cume. Comemoramos bastante, pois era o nosso primeiro cume na Bolívia. Por mais que não tivesse exigido muito trabalho, era o primeiro. Se tudo havia dado certo até ali era um bom sinal. Não tínhamos a menor idéia do que os dois passariam alguns dias mais tarde.

Decidimos ficar bastante tempo no cume para deixar o corpo sentir a altitude e facilitar a aclimatação. Passamos umas duas horas tirando mil fotos, fazendo piadas, dizendo como seria mais fácil descer pelo abismo do que pelo caminho que havíamos feito. Não sei bem se era a alegria do cume, a beleza da paisagem ou apenas a hipoxia, mas definitivamente estávamos alegres.

Em algum momento os espanhóis decidiram medir os batimentos cardíacos, para saber como seus corpos estavam reagindo à altitude. Eles tinham até relógios que faziam isso. Enquanto isso eu coloquei dois dedos no pulso, medi quinze segundos no relógio e multipliquei por quatro.

Quando estávamos quase começando a descer, chegou uma garota argentina que havia feito o mesmo caminho que nós, porém na metade do tempo. Ficamos com cara de ué quando nos demos conta de como forámos lerdos. Falamos um pouco com ela, tiramos uma estranha foto que ela tira em vários cumes com um bicho de pelúcia, acho que para colocar no fotolog ou algo assim, e descemos, mas não sem antes ouvir a história de que ela e uma amiga eram o duo cefaléia e diarréia.

Na descida o Sol veio forte e fomos tirando as roupas. Só não foi possível para meus amigos tirar as botas plásticas, que naquela hora estava um forno, conforme me disseram. Por cada poça de degelo que passávamos os dois faziam questão de parar para resfriar um pouco o pé.

De volta ao acampamento, o circo havia ido embora. A duas grandes expedições não estavam mais ali. Mais abaixo a última grande estava desarmando barracas e colocando as panelas sobre as mulas.

Eu estava realmente preocupado com minha carona de volta. No acampamento só restariam eu, os espanhóis e um casal, mais abaixo, que estava nas mesmas condições que eu, esperando pelo retorno de alguém. Minha esperança era um par de barracas colocadas ao lado da fonte de água, mas que eu ainda não tinha visto ninguém por ali desde que havíamos chegado, no dia anterior.

Dormi um pouco antes de almoçar e aproveitei a paisagem. No entardecer, fiquei vendo os coelhos selvagens correndo atrás de algo pra comer. Me aproximei dos espanhóis para conversar, olhar no guia de montanha boliviano deles se era viável ir andando até o Huyanna Potosi, palpitar sobre os planos deles de ir até a asa esquerda do condor.

A certa altura vimos uma cena totalmente National Geografic. Não sei de onde, uma águia começou a sobrevoar o acampamneto. Então deu um rasante e pegou um coelho selvagem com suas garras e levou até o alto de uma motanha, onde deu de comer a alguns filhotes que a mãe nem precisava esconder em ninhos, pois creio que não há predadores.

Começou a anoitecer e fui me despedir dos espanhóis. Na manhã seguinte eles iriam cedo escalar e era bem provável que eu não os visse mais. Trocamos e-mail, que eu acho que anotei errado, pois até hoje não consegui contato. O Daniel me disse que quando eu fosse para a Europa, não deixasse de o visitar na Espanha para escalar por lá. Eu achei isso muito legal, e disse a ele que se fosse ao Brasil me escrevesse para que eu o levasse a algum lugar legal. Depois eu fiquei pensando onde eu o levaria em São Paulo e o melhor que consegui foi a Rua Augusta.

Nesse momento bateu em mirra barraca uma solidão triste daquelas que sentimos que estamos sozinhos no mundo. Mas, definitivamente, eu não estava sozinho. Tá certo que muitas vezes, na cidade, entre milhões, me fizeram crer que eu estivera sozinho e eu estava sendo punido por mim mesmo da maneira que fui ensinado. Eu não souber ser forte e lutar contra aquele sentimento e fiquei muito triste. As montanhas que cubriam 45 graus da vista que tinha pela porta da barraca fizeram o que podiam para me alegrar, mas me decidi a voltar para a cidade implorando pela aceitação da pessoas, nem que fosse a de um garçom ou de um vendedor feliz com meus dólares.

Essa foi a grande derrota da minha viagem. Eu era capaz desafiar cabos de aço na pista, policiais corruptos, a natureza, mas não conseguia chegar ao cume de mim mesmo? Eu poderia entender culturas milenares, paisagem complexas, idiomas estrangeiros, mas estava fugindo de mim mesmo? Decidi que tinha que encontrar uma carona e não sabia que o melhor presente que recebera era a incerteza do dia seguinte.

Minha estratégia era ver se os misteriosos ocupantes das barracas vazias apareceriam na manhã seguinte para ir embora e pegar uma carona com eles. Era isso ou ter que andar muito até um lugar onde poderia pegar um ônibus.

Várias vezes durante a noite acordei e fui até lá ver se eles tinham chegado. Mas nem sabia quem eram eles. Mas na manhã de sábado, logo que o Sol me acordou, botei a cabeça para fora da minha barraca e vi um monte de mulas pelos lados deles. Coloquei a bota e sem nem mijar fui correndo ver se conseguiria minha tão sonhada carona.

Mas os donos das barracas nem haviam chegado. Era apenas o muleiro que tinha sido contratado para estar ali naquele horário. Segundo me disse, um casal estava escalando e iria embora aquela hora, pois em 2 horas o motorista deles chegaria no até onde os carros vão.

Eu não sou muito experiente em escalada, mas mesmo alguém burro perceberia que algo de errado tinha ali. Se o casal tinha combinado com o muleiro para estar ali na sexta-feria de manhã, pelo menos na quinta-feira a noite eles já deveriam estar no campo base. Algo havia acontecido na montanha e eu não sabia o que fazer, nem quem avisar.

A primeira coisa que pensei é que o motorista devia ser avisado, para que chamasse o resgate que poderia vir de La Paz. Fui então com o muleiro até onde o carro chegaria. Pouco antes da dez horas eu estava lá, mas nada do cara chegar. Fiquei até meio dia debaixo do sol, quando decidi ir a pé, pois deduzi que o motorista já deveria ter sido avisado e não iria buscá-los. Então vejo bem longe uma caminhonete parar numa casa e o motorista vir corrento até mim, achando que eu era o cliente. Explico a situação toda e decidimos voltar ao acampamento base para procurar alguma pista do paradeiro dos dois em suas barracas.

Demora pouco mais de uma hora para fazer o percurso, mas eu estava realmente preocupado com o casal que sequer conhecia. O que mais me incomodava era a incapacidade técnica e, sobretudo, material. Se eu tivesse ali uma bota plástica e um crampon, iria atrás dos espanhóis para tentar achar o casal perdido. Mas não, eu nunca havia visto neve na vida. O máximo que eu conseguiria fazer era nada.

Na barraca dos dois não encontramos nada e, para piorar tudo, o celular do motorista não funcionava. Daquela região deveríamos voltar muito, quase perto da pista de asfalto, para que o aparelho desse sinal. Voltamos para o carro e decidimos ir até um lugar onde o celular pegasse. Enquanto o motorista dirigia eu ficava olhando o sinal. Nada.

No caminho avistamos um acampamento, cheio de barracas. Era uma expedição de ingleses que, não sei porque, havia parado ali. Havia umas dez barracas montadas, guias e cozinheiros. Explicamos a situação para eles e nos disseram para que entrasse em contato com Genaro, em La Paz, que ele organizaria o resgate.

Achei aquilo muito estranho. Os guias que estavam ali, há umas 3 horas de alguém que sofrera um acidente na montanha não poderiam ajudar, mas apenas um cara que estava em La Paz poderia? O motorista disse que iria até um lugar onde o celular funcionasse e que era melhor que eu ficasse por ali. Daquele acampamento um ônibus sairia para La Paz em meia hora e eu poderia voltar. Mas eu nem pensava mais em voltar, eu estava indignado com os guias que preferiram ficar ali com os clientes a ajudar no resgate.

Em meia hora peguei o ônibus e voltei a La Paz. Pensando bem no que aconteceu naquele dia vejo que nada justifica minha covardia de ter entrado naquele ônibus. Nem a covardia dos guias justifica a minha.

Hoje penso que deveria ter me aproveitado da minha qualidade de gringo e ter ido falar com o ingleses que almoçavam confortavelmente na barraca refeitório para que pedissem aos seus guias que fossem ao resgate. Ou que eu voltasse ao Condoriri e tentasse algo com o espanhóis. Eu só não poderia ter saído dali naquele velho ônibus escolar, sentado ao lado da minha mochila, tentando explicar a ela que eu não poderia fazer nada. Eu fui covarde.

O acidente que aconteceu na asa direita do Condoriri envolveu um montanhista, Peter Cornelius Wiesenekker e sua guia, Isabel Suppé. Eles sofreram uma queda de quatrocentos metros. Ele morreu e ela sobreviveu com fratura no pé por 2 noites na montanha.

A equipe de resgate só chegou no dia seguinte e os espanhóis foram excenciais para a operação que salvou a vida da guia. Após resgatarem a guia e carregarem o corpo do australiano, voltaram para a Espanha.

Eu voltei para La Paz.

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