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Olá viajante!

Bora viajar?

De moto pela América do Sul - Diários de Motocicletas II

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Expedição Andes Peruanos – Machu Picchu

A construção desta Expedição começou com o mesmo entusiasmo da anterior, quando fui com meu filho para a Argentina, Chile e Uruguai. Só que desta vez, a ideia inicial era eu ir apenas com o meu amigo (e também meu mecânico) Adriano Ferreira, que nunca tinha feito uma viagem como esta, mas tinha muita vontade. Esse primeiro roteiro sairia de Cruz das Almas-BA e iria entrar na Bolívia, seguindo até Mollendo, no Peru, voltando pelo Norte do Chile e da Argentina. Em seguida, ao mostrar a construção do roteiro para o meu amigo Olair (outro motoqueiro que conheci na Expedição pelas capitais do Nordeste e que se tornou grande amigo), ele pediu para incluí-lo e aumentar um pouco o percurso, tornando, desta forma, a expedição 2000 km maior e fazendo a equipe crescer para três expedicionários. Todavia, algum tempo depois, percebi que Adriano estava ausente demais e entendi que ele não iria. Isso foi confirmado algum tempo depois.

Neste meio tempo, eu que estava solteiro comecei a namorar e, inicialmente, a namorada não iria comigo por conta de compromissos dela, mas, ainda bem, decidimos que ela iria. A equipe voltou a ter três, somente até a penúltima semana, porque Olair também teve que desistir por problemas de saúde. Sendo assim, retomei o percurso para algo intermediário entre os primeiros percursos e o de Olair, então, partiríamos apenas eu e Vanessa.

Passei os últimos 60 dias que antecederam a partida pensando apenas nisso, revisão da moto, compra de peças e acessórios para colocar especificamente para a expedição, o que aliviou as tensões que o final de ano de um professor passa.

Dia 0: 17/12: Teixeira de Freitas/BA até Varginha/BA – 1020 km

Saí da cidade que trabalho, no interior da Bahia, por volta das 7h da manhã. A viagem foi tranquila até um pouco depois de João Monlevade-MG, onde o tráfego começou a aumentar bastante, logo após o almoço. Eu já tinha cruzado BH umas 6 vezes, mas aquela não poderia ser como foi, um tráfego pesado, o que me fez perder mais de 1 hora para fazer 30 km. O tempo ameaçava chover o tempo todo, mas só tomei chuva de verdade após BH e já era noite. Cheguei em Varginha depois das 22h, morrendo de frio e com o olho formigando de andar com o capacete semiaberto por causa do embaçamento da lente. Cheguei no ponto onde a expedição iria começar. Agora era descansar e sair no dia seguinte cedo novamente, porque havíamos projetado tentar chegar o mais perto possível do Estado de Goiás.

1° dia: 18/12: Varginha/MG até Batatais/SP - 295 km

Acordei tarde, cansado, mas duplamente feliz, porque agora seríamos nós dois, com um relacionamento que se iniciara alguns meses antes e já iríamos para uma viagem em que iríamos passar vários dias, 24 horas por dia, juntos. Saímos após o almoço, porque resolvemos arrumar a parte da bagagem de Vanessa nesta manhã. Seguimos, inicialmente, por estradas que eu nunca havia passado, mas a Vanessa conhecia (não devo deixar de mencionar que ela também é motoqu… digo, motociclista – como ela prefere ser chamada). Paramos num posto de combustíveis logo após a cidade de Arceburgo-MG. Lá conhecemos um rapaz que viajava de RV e conversamos um pouco. Seguimos tranquilamente, até bem pertinho de Batatais, paramos num posto porque estava ameaçando chover e ficamos bastante tempo pensando se seria interessante vestir a capa de chuva ou não (todo motoqueiro que se preze sabe do que eu estou falando). Chegamos em Batatais e eu fui procurar um hotel que eu ficara com meu filho no ano anterior. Encontramos, e depois fomos comer na mesma pizzaria que também jantei com meu filho no ano anterior e fomos dormir.

2° dia: 19/12: Batatais/SP até Aparecida do Rio Doce/GO - 580 km

Saímos logo após o café da manhã, olhamos o tempo e não parecia que choveria, mas foi só pegar a rodovia que começou o barrufo de chuva, e nada de colocarmos a capa de chuva. Passamos pelo interior de São Paulo, cidades como Barretos até Frutal, onde entramos curiosamente em Minas novamente. Neste dia, almoçamos o restinho de pizza do dia anterior com energético que compramos na cidade em que estávamos pensando em almoçar, em Goiás. Chegamos em Aparecida do Rio Doce antes de escurecer, nosso objetivo naquele dia era ir um pouco mais longe do que até ali, mas resolvemos ficar. Pegamos uma pousada e em frente tinha um restaurante com comida simples, onde comemos. Neste dia, também resolvemos lavar algumas roupas que estavam molhadas e/ou sujas.

3° dia: 20/12: Aparecida do Rio Doce/GO até Cuiabá/MT - 700 km

Saímos em direção ao Mato Grosso. Nosso objetivo era chegar em Cáceres, mas a nossa dinâmica de saída e parada era diferente do que eu tinha imaginado, há algumas diferenças entre viajar com seu filho jovem de 20 anos e sua namorada (risos). Paramos na cidade de Mineiros, ainda em Goiás, para abastecer, tomar água e seguimos. Neste dia cruzamos para o estado de Mato Grosso, por estradas de alta velocidade, um calor absurdo, abafamento, mas também belas paisagens dos chapadões a cada curva. A alta umidade e o calor era uma previsão de chuva e ela caiu com muita força. Quando faltava uns 100 km para Cuiabá, a chuva aumentou muito, o que fez com que nós tivéssemos que antecipar a nossa parada. Chegamos a pensar em acampar num posto de combustível em Pedra Preta, mas, mesmo com a chuva, ainda era cedo e resolvemos seguir até Cuiabá. Dormimos por lá numa pousada.

Vanessa pediu comida (eu tenho uma grande resistência em pedir comida por delivery, prefiro sempre sair pra comer) e com isso acontecera um fato pitoresco. A comida demorou e depois de muita reclamação, eu já estava pronto para dizer poucas e boas ao entregador, mas aí a Vanessa escreveu na mensagem que “meu esposo estava lá esperando”, a minha fúria foi amansada.

4° dia: 21/12: Cuiabá/MT até Campo Novo do Parecis/MT- 400 km

Ao acordar, fomos tomar café e quando terminamos, conhecemos o Edmar, um motoqueiro de Cáceres. Ficamos conversando, trocamos contato e eu estava pensando neste dia em pegar a rodovia que passaria por Cáceres. Ledo engano! Seguimos pelo GPS e não pelas placas que indicavam o sentido de Cáceres. Em determinado momento, eu estava ficando muito estressado com o fato de não chegarmos em Cáceres e o GPS indicou que estávamos nos afastando. Achei que tinha pegado o caminho errado, então, paramos na PRF e um policial indicou que aquele caminho era melhor do que ir por Cáceres, o que me deixou um pouco mais tranquilo.

Esse caminho era completamente diferente do que encontramos ao entrar no Mato Grosso. Em vez de paisagens com relevos acidentados e exuberantes, agora eram apenas plantações imensas de soja e uma entediante paisagem plana. Em algumas estradas, dava vontade de apertar o passo para sumir daquela visão. Queríamos almoçar e paramos num local onde era um restaurante, mas como era domingo, estava fechado, entretanto, o banheiro estava aberto e tinha também uma internet wifi funcionando. Como não sabíamos o que encontraríamos pela frente, já que a cidade anterior mais próxima tinha ficado 150 km para trás, resolvemos comer o que sobrou do jantar.

Neste local, havia um casal parado com medo de pane seca ao seguir viagem e por isso estavam traçando planos de como seguir, estávamos em caminho opostos, senão, eu poderia ajudar pegando combustível para ele, caso houvesse a pane seca. Nesse meio tempo, chegou um casal de moto, o cara estava com uma camisa de motoclube, parou pra falar comigo e na conversa, ele falou que o pai é baiano de Salvador e que costuma viajar para a “minha quebrada” para vê-lo.

Seguimos viagem olhando para a nossa direita e uma formação de nuvens de chuva nos seguia. Queríamos dormir em Vilhena nesse dia, mas, mais uma vez, nosso planejamento não combinara com o que acontecia na prática. Paramos em Campo Novo do Parecis para verificar o que a chuva iria “decidir por nós”. Começou a chover muito forte e se parasse em pouco tempo, minha intenção era dormir em Sapezal, mas não passou e decidimos ficar por ali mesmo.

Encontramos um hotel, fomos no mercado e compramos o que seria nosso jantar e lanche do dia seguinte.

5° dia: 22/12: Campo Novo do Parecis/MT até Jaru/RO- 770 km

Tomamos o café da manhã do hotel e seguimos viagem. Uma das situações pitorescas que eu já tinha ouvido falar é o pedágio para acessar terra indígena, que ocorrera 15 km após sair da cidade, cobrado pelos próprios indígenas da etnia Paresis. É uma cobrança informal, mas não me preocupei em pagar os dez reais, porque entendo bem a relação histórica e os enfrentamentos dos povos originários. Outra questão que cumpre-se salientar é que a paisagem dentro da reserva Paresi é de mata fechada, a floresta preservada, mas isso durou muito pouco, porque logo adiante voltamos a ver os grandes latifúndios em enormes monoculturas, principalmente, de soja. Dali, seguimos viagem, paramos para abastecer em Sapezal e questionamos no posto a distância da cidade mais próxima. Nas mediações de Cacoal, paramos para tomar açaí (açaí de verdade, não esse emulsificado que chega para os estados de fora da região norte) e na saída, um casal de velhinhos numa Belina parou e conversou conosco, supusemos que eles também estavam em viagem, posto que no carro havia bagagem que suscitavam isso. Mesmo tendo parado para tomar o açaí, que é bem calórico, em Vilhena nós almoçamos numa churrascaria do posto na entrada da cidade.

Já estava sentido um pouco o acúmulo do cansaço e do tédio, mas ao entrarmos em Rondônia, a paisagem muda bastante, a monocultura dá lugar a uma diversificação de imagens com floresta, pasto e plantações, além das cidades. Paramos num posto para abastecer, banheiro e água. Conhecemos um senhor que conhecia a Bahia, principalmente Mimoso do Oeste, hoje, Luis Eduardo Magalhães, cidade que foi a primeira que trabalhei depois de sair de casa (há 32 anos).

Num ponto da estrada, havia um pare-siga e um outro casal de idosos ficou conversando conosco, evidenciando que viajar é algo que transporta as pessoas a sonhos e desejos que elas deixaram para um adiantado da vida, mas que poderiam ter feito muito antes. O dia já estava findando, o sol se pondo e nós não conseguiríamos chegar em Porto Velho, então, comecei a olhar ao lado da estrada locais onde fosse possível parar, e o local escolhido foi a cidade de Jaru. Paramos num posto, abastecemos e conversamos com o vigilante, que nos indicou uma borracharia atrás do posto, ficamos lá. Jantamos num restaurante no próprio posto e tomamos banho em seguida. Algum tempo depois, parou um casal com uma CG160, a mulher era mais velha do que o rapaz, e parecia bem cansada. Já era 21h e eles estavam rodando pelo mesmo tempo que eu, com a diferença que a moto deles era bem mais desconfortável e a mulher ainda estava levando a mochila nas costas. Eles precisavam de uma chave para apertar a corrente da moto, eu não tinha a chave da moto deles, mas um caminhoneiro que acabara de parar tinha e cedeu para que ele conseguisse apertar a corrente. Eles seguiram viagem para Porto Velho, disseram que chegariam lá por volta das 1h da manhã. Achei loucura, mas parece que eles estavam com tempo e dinheiro curto, então, estavam tentando adiantar. Para nós, a noite já estava chamando para dormir e foi o que fizemos.

6° dia: 23/12: Jaru/RO até Porto Velho/RO - 290 km

Acordamos e resolvemos colocar a cozinha portátil em prática. Vanessa fez cappuccino, comemos com os mantimentos que compramos no mercado em C. Novo do Parecis. Seguimos viagem bem tranquilos, visto que naquele dia seria uma viagem bem curta, para o padrão de distância que estávamos acostumados e que tínhamos em mente rodar. Paramos em Candeias do Jamari em um pare-siga enorme, o que me fez pensar que era melhor parar para abastecer e procurarmos um restaurante para almoçar. Paramos num restaurante de um senhor que conhecia o litoral nordestino. A funcionária dele disse que nunca saíra dali, mas que sonhava com isso. Ouvir depoimentos de pessoas que tem vontade de estar em movimento mas que as circunstâncias acabam não favorecendo, é algo que mexe comigo de alguma forma, porque eu sinto muito por elas, a empatia nesse sentido é bem evidente, justamente porque eu sou uma pessoa que amo estar em movimento e se não me fosse adjudicado esse direito, eu seria uma pessoa bem infeliz.

Chegamos na casa do nosso amigo Orlando, motoqueiro de Rondônia, que conheci em Luiz Correa, no Piauí, em janeiro de 2024. Ele nos convidou para ficarmos lá e nós não nos fizemos de rogados. Ficamos batendo papo todos e depois de algum tempo Vanessa ficou conversando com a filha deles e notou que aquela uma hora e meia fora a primeira vez que nos afastamos por mais de cinco minutos (e se tornaria a única vez em toda viagem).

Algumas roupas precisavam ser lavadas e a moto precisava de limpeza da corrente e foi o que fizemos. Continuamos ajeitando as coisas e batemos mais papo até a hora de dormir. Orlando nos aconselhou a dormir em Brasileia, no dia seguinte, que dava uns 700 km de distância, foi o que pensei em fazer.

7° dia: 24/12:Porto Velho/RO até Trevo p/ Xapuri/AC - 650 km

Saímos um pouco mais tarde do que estávamos fazendo, viagem tranquila, paisagem de floresta, calor abafado… Já pertinho da divisa com o Acre, paramos para almoçar e lá um policial que também era motoqueiro veio conversar conosco. Nos contou experiências em relação às estradas que pegaríamos e nos desejou boa viagem. Seguimos viagem, e algo é importante citar sobre esse percurso, que é a ausência de postos de combustíveis. Há lapsos de 150 km sem nenhum posto, o que pode complicar a vida de quem não tem em mente essa informação.

Logo após a cidade de Capixaba, a ameaça de chuva se confirmou e colocamos as capas de chuva, mas a chuva nos pegou tão de surpresa que nos molhamos todo ao colocarmos a capa. Já era finalzinho da tarde e ao chegarmos no Trevo de Xapuri, paramos no posto de combustível, logo ao lado da PRF e resolvemos acampar por ali. O posto tinha banheiro para tomar banho e o dono foi muito solícito, nos cedeu a área coberta da lanchonete para montarmos a barraca. Fora um dia muito cansativo e o estresse me pegou nesse dia.

8° dia: 25/12: Trevo p/ Xapuri/AC - até Puerto Maldonado/Perú - 400 km

Acordamos cedo e desmontamos a barraca para desocupar a área, isso me estressou um pouco mais, indício de um dia emocionalmente cansativo.

Neste dia, passamos dentro do território do estado do Amazonas, mas apenas por 8 km. Este pedaço fica perto da divisa entre Acre e Rondônia, num pedacinho do território de La Brea (cidade onde termina a TransAmazônica), não nos demos conta disso e não paramos para tirar foto. Então, resolvemos cruzar outro tipo de fronteira, a do Brasil com a Bolívia. Pedi para os policiais aduaneiros e as soldados para entrar na Bolívia somente para tirar foto e eles deixaram.

Paramos em Brasileia para sacar dinheiro brasileiro, com intuito de trocar por Soles na fronteira com o Peru.

Era Natal, feriado, o que dificultou os trâmites aduaneiros, porque haviam poucos funcionários, mas até que foi rápido, só não conseguimos fazer o SOAT, porque estava fechado, o aduaneiro disse que teríamos que fazer em Puerto Maldonado. Por ali também troquei 1000 reais por 600 soles e fiquei tranquilo com a questão de dinheiro.

Adentramos o Peru e o objetivo era chegar em Marcapata neste dia, mas eu tinha plena convicção que não daria (ou que seria bem estressante).

Entre Iñapari e Puerto Maldonado tem fiscalização aduaneira e nos pararam pedindo documentos. A chuva nos pegou um pouco antes de sermos parados e quase não os vi.

Chegamos em Puerto Maldonado e começamos a imersão na cultura peruana: vários locais que não aceitam cartão, gasolina vendida em galões (4 litros), a solicitude do povo peruano e o calor e a chuva.

Na praça principal da cidade, ficamos numa pousada bem simples e em baixo dela havia um Café, lá comemos e eu tomei minha primeira Inka Cola (risos). Fomos à praça olhar as ornamentações de natal e voltamos para dormir, porque no dia seguinte seria puxado.

9° dia: 26/12: Puerto Maldonado/Perú até Marcapata - 300 km

Ajeitamos tudo e descemos para procurar um lugar para comer. Foi numa lanchonete num mercadão de feira. Tomei um suco de mamão e comi pan con huevo y pastel, Vanessa tomou café e comeu o mesmo que eu. Depois fomos procurar onde fazer o SOAT, e no meio do caminho, conhecemos alguns brasileiros que estavam indo para o mesmo lugar que a gente e precisavam fazer o seguro também. Eles já estavam de moto e nós estávamos a pé, quando nos encontramos, eles estavam numa lojinha tentando fazer o seguro ali e só depois de uns 20 minutos, o rapaz percebeu que não conseguiria fazer e tivemos que sair. Eles seguiram procurando um lugar e chegaram lá estava fechado por causa do horário, as coisas abrem após as 9h. Depois do revés, vieram nos contar, e eu segui a pé procurando outro lugar, só que do jeito mais eficiente, perguntando às pessoas. Desse jeito, descobri onde fazer e mandei mensagem para um deles, o que havíamos trocado telefone, o qual apelidei de Paraná, nos encontramos lá e tudo deu certo. Inclusive, o SOAT ficou menos de 100 reais, na fronteira seria mais de 250 reais. Depois disso tudo, voltamos à pousada para terminar de ajeitar tudo e sair, quando começou a chover muito forte e previsão de não parar tão cedo. O dono do estabelecimento me ofereceu um café e eu não tomava café desde 1994, tomei e recordei porque não tomo café. Ele ficou nos aconselhando a não seguirmos com a chuva porque seria perigoso, mas eu já estava com aquela sensação de que estávamos atrasados na viagem e segui mesmo assim.

Essa chuva nos causou alguns problemas no dia seguinte, mas neste dia, a gente seguiu viagem sem maiores problemas.

Paramos em três postos de combustíveis e nenhum deles havia gasolina, havia algumas pessoas vendendo gasolina na beira da estrada, mas ainda não era necessário, aguardei chegar num posto, o que foi muito bom pelo que aconteceria com a moto no dia seguinte.

Comemos bobagens no caminho e seguimos subindo a Cordilheira Peruana, a chuva não cessava e o frio aumentava.

Fato pitoresco desse dia, os táxis andam em alta velocidade nas montanhas, nos locais onde a velocidade regulamentar é de 30 km/h, eu estava com mais do dobro disso e eles me passavam como se eu tivesse parado.

As paisagens eram muito bonitas, cachoeiras no meio da selva peruana, rios no pé da montanha e o frio que estava nos deixando preocupados.

Neste dia, havia a previsão de acamparmos na beira de uma lagoa, mas seria imprudência diante do frio, da chuva e do desconhecido.

Dessa forma, ao passarmos por Marcapata, estava fazendo 6 graus, resolvemos dormir ali. Ficamos numa pousada simples e não tivemos coragem de sair para comer. Vanessa disse que eu dormi sem nem dá aviso, ou seja, capotei.

10°, 11°, 12° dia: 27, 28, 29/12: Marcapata até Cusco - 170 km

Acordamos e fomos comer numa vendinha de uma senhora pertinho da pousada. Conversei algumas coisas com ela, que nos contou que só fora uma vez em Machu Picchu. Falei que iríamos a Puno, no lago Titicaca e ela disse “¡Alalay, es bien frío en Puno!”, perguntei o que era alalay e ela disse que era uma expressão quechua de quando estava muito frio. Eu estava com medo do frio e mesmo rindo da expressão, fiquei temeroso.

Seguimos viagem e eu vi de perto, pela primeira vez, a neve nas montanhas e ao nosso alcance. Vanessa estava com muito mais frio do que eu, mas eu também estava com bastante frio. Paramos para tentar tirar foto e filmar no Abra Pirhuayani, mas ficamos com receio de endurecer tanto que não conseguiríamos subir novamente na moto.

Rodamos uns 5 km depois disso e paramos num restaurante para comer. Comemos queijo de alpaca, batata cozida no caldo de cordeiro e um bolinho. Ficamos bastante tempo dentro do restaurante porque estava quentinho, quando saí para colocar a moto pra funcionar, a moto não ligou. Tentei de tudo e não funcionava. Enfiei um pedaço de papelão dentro do tanque para molhar de gasolina e tentei tocar fogo embaixo da moto, mas não acendia. Achei que era o frio e a altitude, tentei de tudo e não disparava. Foi aí que entrou em nossas vidas um anjo chamado Nancy. Estávamos em contato para irmos até Machu Picchu com a agência dela, mas ela foi mais que uma profissional da Pullman Machupicchu, ela foi um ser humano que nos ajudou a encontrar e convencer um guincho a nos buscar. Outro ser humano foi o dono do restaurante, que nos cedeu o depósito de batatas para ficarmos e não morrermos de frio, e o motorista da concessionária da rodovia que conversou comigo cedo e voltou 22h para saber de nós. O motorista do guincho, Flávio, outro ser humano ímpar, que foi nos buscar com a promessa de pagá-lo na segunda-feira.

Quando Flávio nos pegou, já passava da meia noite e chegamos em Cusco bem mais tarde que isso. Lá, nos hospedamos no hotel reservado por Nancy.

11°, 28/12: Cusco

De manhã, resolvi esquecer da moto, mas precisava dar um jeito de pagar ao Flávio, então, fui buscar a Western Union. Encontramos na internet e liguei para o Flávio para combinar uma hora e local para pagá-lo.

Neste dia, almoçamos na feirinha e eu fiquei tentado a comer o cuy. Vanessa achou muito esquisito o bichinho, mas eu até hoje me arrependo de ir no Peru e não comer um cuy na feirinha (gargalhadas).

A noite, fomos percorrer a cidade e marcamos com Flávio próximo à Plaza de Armas. Vanessa e eu fomos tentar visitar a cidade e depois fomos para o hotel.

12°, 29/12: Cusco

No dia seguinte, a Nancy nos mandou mensagem e perguntou sobre a moto, nos indicando onde tinham Taller de motos para consertar a bendita CB500X, vulgarmente apelidada de La Poderosa II.

Adriano, meu amigo, mecânico e parceiro desistente da viagem, fez uma vídeo chamada para tentarmos consertar a moto. Empurra pra lá, empurra pra cá, e nada. Mesmo com a ajuda do recepcionista do Hotel, não conseguimos.

Levei a moto empurrando pelas ruas de Cusco até a Super Bike Talleres e ali começamos a resolver as coisas. Os caras da oficina descobriram em questão de minutos que os problemas se resumiam em um suspiro entupido e água no tanque. Fizeram limpeza, trocaram a gasolina e a moto estava pronta para seguirmos.

A noite fomos fazer turismo, algo que não sou muito dado, mas a vida é de novas experiências o tempo todo (risos). Neste dia, Vanessa perdeu o celular e isso mexeu um pouco com nossos ânimos, mas a vida devia seguir. Fomos dormir para deixar a cidade mais velha das Américas no dia seguinte.

13° dia: 30/12: Cusco até Arequipa - 500 km

No projeto da viagem, de Cusco iríamos para Puno, mas os problemas mudaram as rotas, seguimos para Arequipa e, na saída, abastecemos na saída de Cusco. A estrada até Sicuani já tínhamos passado, mas foi en la grua de Flávio. Entretanto, pela manhã, vimos o que perdemos com a escuridão da noite. Na primeira parada para abastecer, veio o desconforto intestinal e o resultado de termos comido todo tipo de comida que eu não estava acostumado. Aparentemente, só eu passei por aquilo, mas logo ficaríamos sabendo que Vanessa também tinha sido acometida com uma patologia, a infecção urinária.

Como nosso destino era passar por Mollendo, deixamos a estrada que passaria por Juliaca e Puno e seguimos em direção ao oeste, ou melhor, o litoral peruano.

Paramos para comer num restaurante pequeno e pedimos “trucha”, o frio passou quando comi um pedaço de pimenta que, inicialmente, achei que era tomate e na mordida achei que era pimentão, mas era pimenta ardida, mais que malagueta.

Ficamos com medo de ficar sem combustível por causa das distâncias entre os povoados

Pegamos até um pedaço de estrada de terra próximo às estradas que dão acesso para Juliaca e Puno. Aproximadamente 400 km após Cusco, cruzamos o Abra Condoroma, o ponto mais alto dessa rota, a 4.738 metros. Foi ali que enfrentamos o desafio do chão batido e do ar rarefeito antes de iniciar a descida definitiva para o litoral, foi também perto dali que ameaçou uma chuvinha e o frio muito forte, posto que a altitude era de quase 5000 m. Colocamos as capas de chuva em meio ao vento e o chuvisco (que não se confirmou em chuva, mas permaneceu o frio).

Depois pegamos uma estrada muito ruim, em meio às montanhas e logo em seguida chegamos na região industrial de Arequipa.

Passamos por um trecho muito engarrafado no tráfego, entramos numas ruas complicadas, o GPS nos jogou num trecho muito sombrio da cidade, mas conseguimos chegar num hotel que havíamos reservado no Booking na região da Plaza de Armas, porém, não ficamos nele, porque não tinha garagem. Procuramos por ali e encontramos um hotel algumas ruas adiante. Lá tinha cochera, também, havia alguns brasileiros hospedados e Vanessa conversou com eles. Depois saímos para comer uma pizza pertinho da pousada e voltamos para dormir o sono dos cansados.

14°, 15° dia: 31/12, 01/01: Arequipa até Arica/Chile - 530 km

De manhã, fomos fazer programa de turista (devo salientar mais uma vez, que não gosto da exploração que o turismo faz da cultura de um local, olhando e agindo como se tudo fosse exótico e não apenas seres humanos vivendo a sua própria vida social, cultural e histórica, qualquer coisa diferente disso me incomoda, porque parece exploração do que deveria ser apenas um exercício da alteridade, ou seja, respeito à cultura do outro como algo normal, embora diferente da nossa). A Plaza de Armas é muito bonita, com uma arquitetura que demonstra a interferência do colonizador, diferentemente de Cusco, que guarda ainda muito dos povos pré-colombianos em sua arquitetura. Tiramos fotos, voltamos para a pousada e nos ajeitamos para seguir viagem.

Pegamos uma estrada com muito tráfego de Arequipa até Mollendo, onde havia um vento contrário muito forte e deformações no asfalto, juntando a isso, as pessoas se deslocando em direção ao mar do Pacífico.

A proximidade com as Cordilheiras dos Andes faz a costa do Perú e do Chile uma beleza geográfica interessante. Sair de Arequipa, que já repousa a cerca de 2.300 metros de altitude, em direção ao mar, é uma experiência de transformação geográfica constante. O que começa como um cenário dominado pelos vulcões Misti e Chachani logo se torna uma descida vertiginosa através das entranhas do deserto de Atacama.

A rodovia serpenteia as encostas com uma sequência interminável de curvas em "S" e “U” que exigem foco total na pilotagem. As curvas são largas o suficiente para inclinar a moto com prazer, mas o despenhadeiro ao lado é um lembrete constante da magnitude da montanha.
A queda de altitude é rápida e sentida fisicamente. Em um intervalo de poucos quilômetros, você despenca dos 2.300 metros para o nível do mar. É impossível não sentir a pressão nos ouvidos — o famoso "estalo" — enquanto o ar vai se tornando mais denso, úmido e salgado.

A vegetação escassa das montanhas desaparece totalmente, dando lugar a um deserto de areia cinzenta e rochas avermelhadas que parecem saídas de imagens cinematográficas de outro planeta.

Em certos trechos, você pode mergulhar na camanchaca, aquela névoa densa que sobe do mar e encobre as curvas, transformando a descida em uma jornada misteriosa e úmida.
Após quilômetros de paisagem marrom, o azul profundo do Pacífico surge no horizonte, criando um contraste chocante com o ocre das dunas.

A descida termina no asfalto quente de Mollendo. O alívio de sentir o calor do litoral após os dias de frio intenso nas "abras" de 4.700 metros é indescritível. A moto, antes coberta pela poeira branca de Condoroma, agora brilha sob o sol forte da costa, estacionada em frente ao restaurante onde o Adobo de Chancho nos esperava para celebrar a travessia. Ao chegarmos em Mollendo, a fome apertou. Paramos em um restaurante simples, mas estrategicamente posicionado entre a rodovia e o som das ondas da praia. O cardápio apresentava o clássico Pollo Asado, que Vanessa comeu mas havia algo mais que nos chamou a atenção, uma especialidade regional que não conhecíamos pelo nome, isso porque eu não consegui lembrar o que era chancho quando la chica ofereceu “Adobo de Chancho”, mas ela logo se prontificou em mostrar uma foto do bicho, o nosso leitão. Com um sorriso, ela percebeu nossa dúvida e resolveu o dilema da melhor forma moderna: sacou o celular e nos mostrou uma foto de um porco no Google.

A comida foi o combustível exato que precisávamos para encarar os próximos quilômetros em direção a Arica, já no Chile.

Comemos, e seguimos viagem pelo litoral que muitas vezes nos convidava para uma parada, mas a gente estava muito resistente (risos). Alguns quilômetros após Mollendo, em Punta Bumbon, a estrada se afasta um pouco da beira mar, mas logo após pegamos novamente a paisagem marítima. Em alguns locais, parece que entre a estrada e o mar tem um precipício, o que torna tudo ainda mais bonito, seguimos em frente e praticamente só interagimos com carabineros próximo a uma cidade que não me recordo e numa gasolinera uns 80 km antes de Tacna. Mantemos ritmo forte porque o objetivo era vencer a burocracia da fronteira ainda naquele dia.

Passamos por fora do centro de Tacna e logo o sol começou a baixar, pintando o deserto de tons alaranjados enquanto nos aproximávamos do complexo fronteiriço de Santa Rosa (Peru) e Chacalluta (Chile).

Foi na chegada à aduana que a experiência de estrada nos pregou uma peça. Diferente de outras fronteiras, ali descobri que o processo exigia um documento específico - a Tarjeta de Salida ou o famoso Relación de Pasajeros.

Sem saber onde conseguir o formulário oficial, a solução veio da solidariedade dos "profissionais da fronteira". Inclusive, quando descobrem que somos brasileiros, o tratamento muda muito, se tornam muito solícitos e gentis. Foram os taxistas que fazem o trajeto Tacna-Arica quem me salvaram, primeiro dando a informação da necessidade do documento. E um motorista de ônibus que me ajudou, fornecendo o papel necessário para preencher os dados da moto e dos passageiros, cobrando uma ninharia. É aquele tipo de detalhe que nenhum GPS avisa, mas que faz parte da mística de viajar pelas Américas.
Com o papel em mãos, o trâmite fluiu. A aduana Peru-Chile é integrada e moderna, mas o processo de conferir documentos de importação temporária da moto no escuro traz sempre uma dose extra de adrenalina. Aquela foi a primeira vez que vi o temperamento mal humorado de um aduaneiro como ouço falar na internet. O cara foi ríspido com Vanessa porque ela se afastou para preencher um documento, mas logo sem seguida, quando percebeu que éramos brasileiros, se tornou brincalhão e gentil. Depois, foi a vez de tirar tudo da moto para fazer a passagem na checagem, até então, nunca tinha feito isso. Assim, quando finalmente os portões se abriram e entramos no Chile, a escuridão já era total. Rodamos os últimos quilômetros sob o frio do deserto noturno até o brilho das luzes de Arica, onde o cansaço do dia deu lugar à satisfação de ter cruzado mais uma fronteira com a La Poderosa II.

Chegamos em Arica perto das 22h do dia 31/01. Ou seja, mais uma vez eu passava o réveillon em uma cidade chilena, só que desta vez a companhia seria outra. Encontramos um hostel no booking, bem perto da praia e nos alojamos por lá.

Era para termos saído para curtir a noite, mas chegamos muito tarde e muito cansados, acabamos comendo uma comida que o querido anfitrião do Doña Francisca nos cedeu.

No dia 01/01/2026, fomos para a praia fazer exposição de nossa beleza tupiniquim. Foi aí que nos arrependemos de não ter acampado na praia, visto que parecia lugar perfeito para isso.

Não achamos lugar para almoçar e comemos uma comida numa lanchonete e à noite nós comemos um sanduíche gigante numa xará de Vanessa. Fomos dormir descansados e preparados para o dia seguinte.

16° dia: 02/01: Arica/Chile até Tocopilla - 590 km

No dia seguinte, precisávamos sair cedo para sacar dinheiro no Western Union, porque até então eu estava usando o DolarApp (que mudou para ARQ), mas nem todo lugar usa cartão de crédito/débito, e não ter dinheiro em mãos me deixou apreensivo. Nessa mesma procura, queríamos comprar um chip chileno e fomos procurar. Rodamos a cidade, até que dois guardas municipais me levou até uma Western Union que estava sem o sistema funcionar, mas as moças de lá me indicaram os cambistas da rodoviária, que era perto.

Lá consegui comprar um chip com 52 Gb de internet e também trocar o resto do dinheiro peruano que eu tinha por Pesos Chilenos. Não era muito, mas dava para se livrar de problemas.

O percurso de Arica até Pozo Almonte, onde paramos para abastecer, é muito desértico, mas mesmo assim bonito. A beleza se mistura à apreensão, por não haver possibilidade de ajuda imediata caso algum imprevisto aconteça. Inclusive, a moto estava com o óleo da suspensão dianteira vazando, de toda forma, só segui.

Em Pozo Almonte, abastecemos a moto e comemos, só então descobri que o cartão ARQ só funciona no crédito nas redes COPEC do Chile, isso graças à atendente da loja de conveniência, que percebeu que alguns cartões internacionais não funcionavam no débito e testou no crédito (mas o dinheiro era sacado como débito, vai entender!). Dali seguimos em direção a Iquique, embora pudéssemos seguir em frente, preferimos a bela paisagem da chegada em Iquique. As curvas da chegada da cidade de Iquique é muito linda, embora um pouco complexa, tanto que errei uma entrada e acabei rodando mais do que deveria. Dali em diante, o mar estava sempre a nossa espreita, mas também estava por vir parada aduaneira e estradas em reconstrução, o que atrasou um pouco a viagem. Vanessa continuava sentindo dores da possível infecção urinária e isso fazia com que a gente tivesse que parar muitas vezes para aliviar a situação.

Chegamos em Tocopilla já era mais de 20 horas, paramos num posto para confirmar um lugar para acampar, visto que não tínhamos dinheiro suficiente para pagar o hotel em cash. Um frentista (primeira e única pessoa negra que conheci no Chile) nos indicou um local uns 20 km em direção a Antofagasta, mas Vanessa ficou apreensiva de seguirmos aquele horário, então, decidimos procurar um hotel barato e encontramos um que não aceitava cartão. Combinamos com a proprietária para pagar na manhã seguinte, quando a gente iria sacar o dinheiro no Western Union.

17° dia: 03/01: Tocopilla até Antofagasta (e Mão do Deserto)- 330 km

Fiquei apreensivo com a possibilidade da gente não conseguir sacar o dinheiro, visto que era sábado. Vanessa costuma não se antecipar na resolução de problemas e acabamos tendo um entreveiro nesse sentido, porque meu medo era atrasar nossa saída da cidade por falta de dinheiro. Por incrível que pareça, numa agência de correios, conseguimos sacar a grana e fomos tomar café e depois pagar o hotel. Dali seguimos para a Mão do Deserto.

Num posto de gasolina, encontramos dois casais de brasileiros que estavam viajando em duas motos, um deles estava de Dominar 400 (a moto que eu iria comprar em 2023, mas desisti) e disse que estava gostando muito da moto, porém, quando ele falou do consumo de combustível, percebi que a moto era muito beberrona.

Chegamos en la Mano del Desierto e, mais uma vez, eu fiquei encantando por chegar ali, lugar que tem um simbolismo importante para motoviajeros de todo continente. Era a primeira vez de Vanessa ali, mas era a minha segunda vez, mesmo assim, senti praticamente a mesma coisa, com exceção da falta de lágrimas dessa vez.

Dali fomos para a cidade, decididos a acampar na praia. Comemos num mercadinho perto do local onde fiquei com meu filho no ano anterior e dali fomos para a praia. Era dia e ainda tinham pessoas na praia - um costume que os chilenos costumam ter é ir à praia com barracas de acampamento e passam o dia - nós iríamos passar a noite.

Conhecemos um rapaz que disse que era “és tranquilo quedar aqui”, a esposa dele era venezuelana e por isso eles sabiam o porquê das comemorações que estávamos vendo passar em carreata pela orla eram comemorando a prisão de Maduro pelos EUA.

O por do Sol perto das 21 horas é magistral nessa praia.

18° dia: 04/01: Antofagasta até Susques/Argentina - 590 km

Dormimos muito tranquilo e só fomos incomodados por um casal que chegou de carro no início da manhã ainda bêbados da noite anterior, no mais, foi tudo tranquilo.

Comemos a comida que compramos no mercadinho e saímos com destino à Calama. Para isso, pegamos toda a orla da cidade e subimos. Chegamos em Calama procurando um local para almoçar e abastecer a moto. As dores de Vanessa aumentavam e as paradas aumentavam cade vez mais. Não encontramos lugar para almoçar em Calama e quase não achamos banheiro, tivemos que improvisar no deserto.

Dali seguimos para San Pedro de Atacama, e lá fomos procurar lugar para comer. No ano anterior, eu não cheguei a parar em San Pedro, desta vez demos uma voltinha pelo centrinho, porque eu precisava trocar o dinheiro chileno por dinheiro argentino.

Seguimos viagem e, subindo a cordilheira, o frio começava a nos pegar, mas nada que nos impedisse de apreciar a paisagem até o Paso de Jama. Pela primeira vez, senti desconforto por altitude e não entendi, já que 4200 metros não eram nada diferente dos 4800 a 5000 que encontramos nos dias anteriores no Peru. Eu achei que foi o fato de termos dormido no nível do mar por 3 dias seguidos que causou a desaclimatação. O guarda brincou comigo, pedindo para entrar e sentar numa cadeira e eu achei que tava em apuros, mas logo em seguida ele disse que tinha percebido que eu estava com o desconforto da altitude e pediu para descansar.

Tal qual entrar no Chile pelo Paso de Jama no ano anterior, foi muito fácil sair. Ninguém nos travou tanto e eu cheguei a cogitar que daria para dormir em Purmamarca, mas sequer falei com Vanessa sobre isso.

Seguimos com o dia terminando e adiante raios cruzavam os céus, nos deixando com muito medo de sermos pegos pela chuva que se pronunciava. Por sorte, chegamos em Susques e não pegamos nada de chuva.

Fomos para o hotel Kactus, local onde muitos motoviajeros costumam ficar, e lá encontramos um casal de Maringá, o Filipe e Ana, que estavam indo para San Pedro e depois para o Salar de Uyuni. Conversamos um pouco com eles, comemos e fomos nos aquietar, porque as dores de Vanessa só pioravam.

19° dia: 05/01: Susques/Argentina até San Salvador de Jujuy - 200 km

Tomamos o desayuno, aprontamos as motos, tiramos fotos com o Filipe e a Ana e seguimos viagem. Deixamos Susques cedo, ainda sob o impacto das altitudes do Paso de Jama.

No meio deste caminho, temos a Costa do Lipan, que a estrada serpenteia numa longa e bela descida. Demos uma parada nas Salinas Grandes, que estava bem diferentes do ano passado – algo que me chamou a atenção foram os protestos em cartazes contra a exploração lítio na região. A parada seguinte foi o monumento de 4170 m de altitude, tiramos fotos e seguimos. Cruzar aquele deserto de sal branco sob o céu azul profundo é uma experiência sensorial única, coroada pela foto no marco de 4.170 metros de altitude. A moto, embora valente, começou a dar sinais de que o esforço das "abras" cobraria seu preço: percebi que o outro retentor (retén) da bengala havia cedido.

Passamos pelos Cerros de Purmamarca e seguimos procurando um lugar para trocar o “retén” da bengala da moto, paramos em um posto próximo a San Salvador para avaliar o dano. Ali recebemos o primeiro conselho de quem conhece o trecho: "Não percam tempo procurando oficinas pequenas por aqui. Sigam direto para a capital, San Salvador de Jujuy." Foi a decisão certa.

Chegamos a um bairro de Jujuy que, à primeira vista, parecia "barra pesada". A fome apertou e paramos na porta de uma casa simples que vendia comida. Foi um momento mágico de imersão. Uma menininha de uns 10 anos que estava trabalhando para a mãe e o tio naquele “comedor” improvisado, olhos brilhando, dizendo que estava emocionada em conhecer brasileiros.

A Vanessa experimentou o Gnocchi (nhoque) local, enquanto eu fui nas Humitas (a versão deles da nossa pamonha).

Foi ali que a Vanessa tomou, pela primeira vez, o tão falado (por mim) suco de pomelo. É o sabor oficial da estrada calorenta argentina. Aquelas pessoas da casa nos indicaram um mecânico de carros e motos, que por sua vez nos encaminhou para o Dani. O Dani não foi apenas um mecânico, foi um “anjo da guarda”. Ele nos levou pessoalmente para comprar o retentor, o óleo de suspensão e o óleo do motor. Fez o polimento minucioso da bengala e a troca do retentor. Aproveitamos para soldar o cavalete central, que havia empenado com o peso logo na saída de Varginha. Enquanto a moto estava nas mãos do Dani, levei a Vanessa a um médico local. Fomos atendidos por um doutor simpatia, um senhorzinho de uns 70 anos, extremamente simpático, que já tinha visitado o Nordeste brasileiro. Ele achou "muito bonitinho" o meu cuidado e preocupação com ela — um toque de humanidade em meio à correria do conserto. O fato pitoresco desse encontro é que Vanessa não falava espanhol e eu tive que entrar com o tradutor, mas o médico não ouvia direito, eu tinha que falar muito pausadamente. Antes de finalizarmos tudo na moto, Vanessa foi para o hotel e eu voltei para el Taller de Moto, onde o Dani e seu auxiliar me convidaram para algo inesperado: ver uma Folia de Reis (celebrada por eles naquela época). Foi um momento de comunhão cultural que nenhum guia turístico poderia proporcionar.
Terminamos o dia exaustos, mas com a moto pronta. Celebramos com um sanduíche generoso, mais suco de pomelo e o descanso merecido em um hotel ali perto, com a sensação de que Jujuy nos acolheu como se fôssemos da família.

20° dia: 06/01: San Salvador de Jujuy até Corrientes - 860 km

O dia seguinte nos reservava um dos maiores desafios térmicos da viagem. Saímos em direção a Corrientes cruzando o Chaco pela Ruta 16. A Ruta 16 no Chaco é conhecida como uma das retas mais monótonas e quentes da América do Sul. O calor não era apenas um detalhe, era o protagonista. Paramos para almoçar nas proximidades de Libertador General SanMartín (ou algo parecido na rota), onde abastecemos e seguimos.

Viajar com pouco dinheiro em espécie na Argentina é um exercício de paciência. O medo de não encontrar postos que aceitassem cartão nos acompanhava. Em uma das paradas, o receio se confirmou: perdemos um abastecimento porque o posto só aceitava “en efectivo”.
Ali, no meio do nada, os contrastes da estrada se revelaram. Conhecemos um grupo de motociclistas brasileiros rumo ao Salar de Uyuni. Apesar de estarem com equipamentos de ponta e parecerem ter muito recurso, foram extremamente simpáticos.
No extremo oposto, uma família que costumava viajar de moto, mas estava de caminhonete, não nos passou uma boa impressão. Mais tarde, confirmaria essa intuição ao descobrir postagens homofóbicas do marido em comunidades de Facebook — a estrada revela o melhor e o pior das pessoas.

O termômetro continuava subindo. Paramos em um posto em uma cidadezinha antes de Pampa de los Infiernos. Brinquei com o frentista sobre o nome da próxima cidade, e ele, com o humor seco de quem vive no deserto, respondeu: "Aqui está mais quente do que lá adiante". E eu respondi brincando, dizendo “como que o inferno é mais frio do que aqui?” O calor era tão opressor que fiquei enrolando no caixa, apenas para ganhar alguns minutos extras sob o ar-condicionado.

A nota positiva era a saúde da Vanessa, a medicação passada pelo médico de Jujuy estava fazendo efeito e as dores finalmente começavam a ceder.

Ao chegarmos em Presidencia Roque Sáenz Peña, ao final do dia, o frentista confirmou o que sentíamos na pele: os termômetros beiravam os 50°C. Com o sol se pondo, seguimos os quilômetros finais até Corrientes. Para nos protegermos de possíveis animais na pista, usamos os carros que passavam como "escudos", mantendo um ritmo e distância segura da traseira deles.

Atravessamos a imponente ponte que liga Resistencia a Corrientes já no escuro. Após uma tentativa frustrada em um hotel de um aplicativo local, acabamos fechando pelo Booking em um hotel mais para dentro da cidade. A La Poderosa II teve que pernoitar na calçada, na porta do hotel, por falta de garagem — uma preocupação constante para qualquer motoviajero.

No quarto, um detalhe inesperado me transportou no tempo. O frigobar era da marca Telefunken. Ver aquele nome ali, em pleno 2026, me trouxe memórias nítidas da minha infância e do meu querido pai, lembrando da antiga TV que ele comprou da mesma marca quando eu era criança. Mandei mensagem para meu irmão perguntando se lembrava desse detalhe. Um toque de nostalgia familiar para encerrar um dia de superação física.

21° dia: 07/01: Corrientes até Foz do Iguaçu/PR - 620 km

O dia começou com uma tentativa frustrada de lavar roupas em Corrientes, o que nos fez seguir viagem com o que tínhamos. O plano original de relaxar no Camping El Sol em Ituzaingó, que tem piscina e infraestrutura completa para motociclistas, acabou ficando para uma próxima oportunidade. Almoçamos em Ituzaingó e seguimos o trecho final da Argentina, parando para um último abastecimento estratégico cerca de 200 km antes da fronteira.
A entrada em Puerto Iguazu e a travessia para o Brasil trouxeram uma mistura de alívio e tensão. Tivemos um pequeno desentendimento na aduana brasileira: a Vanessa estava relutante em perguntar ao oficial sobre os trâmites de entrada, o que gerou um clima pesado num momento de cansaço acumulado.

Já em solo brasileiro, a sorte não estava ao nosso lado para o pernoite. Tudo parecia fechado e só conseguimos encontrar um camping para dormir, os hotéis estavam muito caros, cerca de 400 a 500 reais a diária. Sem opções de alimentação abertas nos arredores, fomos descansar com o estômago quase vazio, mas com a satisfação de estarmos novamente em casa.

22° dia: 08/01: Foz do Iguaçu até Ciudad del Este/Paraguai - 11 km

O dia começou com a tentativa de resolver pendências práticas. Lavamos roupa em uma lavanderia self-service em Foz e, graças à gentileza do gestor do camping, conseguimos estender nossa permanência por algumas horas extras. Decidimos, então, cruzar a ponte para comprar um celular para a Vanessa — o que logo se provou uma péssima ideia.
Assim que nos aproximamos da ponte, fomos cercados por atravessadores em motos. O assédio era constante, guiando-nos e pressionando para entrarmos em lojas específicas. O clima era uma mistura de tensão e comédia, com abordagens que ofereciam de tudo: "Hola parcero, ¿que quieres? Dolce & Gabbana, viagra, metralhadora, dinamite para abrir banco antes da hora!". No fim, o cansaço do assédio nos fez comprar um aparelho pelo mesmo preço do Brasil. Descobri ali que o cartão ARQ não tinha vez, mas o PIX já domina até as ruas paraguaias.

22° dia: 08/01: Foz do Iguaçu até Campo Mourão - 315 km

Saímos tarde de Foz. O plano original era atingir Maringá, mas o tempo consumido no Paraguai nos obrigou a parar em Campo Mourão. No posto de abastecimento, fomos cercados por curiosos, todos encantados com o nosso feito. Jantamos um clássico espetinho de churrasco e fomos descansar em um motel reservado pelo Booking que, apesar do estilo, foi extremamente aconchegante para repor as energias.

23° dia: 09/01: Campo Mourão até Jaú/SP - 520 km

O retorno por solo brasileiro trouxe pequenos prazeres que antes passavam despercebidos. Fiz questão de gravar um vídeo celebrando a facilidade de encontrar água gelada gratuita nos postos de gasolina em São Paulo — um luxo que simplesmente não existe na maioria dos países vizinhos.

Ao chegarmos em Jaú, quase caímos na cilada de esperar até as 22h por um motel que estava barato por causa de uma promoção, mas fomos desistimos e fomos para perto da rodoviária, onde eu imaginei que teria hotéis baratos. Lá, fomos salvos por um ex-funcionário de um hotel que nos deu o caminho das pedras. Com o check-in feito cedo, pudemos caminhar por uma pracinha, comprar janta no mercado e ter uma noite de sono realmente tranquila antes do último tiro.


24° dia: 10/01: Jaú/SP até Varginha/SP - 400 km

O último dia foi marcado por um cansaço profundo. O sono acumulado de semanas de estrada pesou nos olhos assim que cruzamos a divisa. Precisei parar a La Poderosa II no acostamento, já em Minas, para um cochilo rápido. Foi ali que a essência do povo mineiro brilhou: eu não conseguia dormir cinco minutos sem que alguém parasse perguntando se precisávamos de ajuda ou se algo tinha acontecido com a moto.

Almoçamos nas proximidades de Poços de Caldas e, no meio da tarde, finalmente avistamos Varginha. A chegada na casa da Vanessa, com os filhos dela nos esperando, foi o ponto final perfeito. A poeira dos Andes, o calor de 50°C do Chaco e os perrengues da aduana ficaram para trás, transformando-se em história. Missão cumprida.

Total 10.021 km

Dizem que a estrada é o teste definitivo para qualquer relação, mas para nós, foi o início de tudo. Conheci a Vanessa a pouquíssimo tempo e , em pouco tempo, ela se tornou a única coisa que eu quero viver para o resto das nossas vidas. Partir para uma expedição dessas com tão pouco tempo de namoro era, no mínimo, audacioso. Brincávamos, entre um abastecimento e outro, que daquela viagem sairia um casamento ou uma separação definitiva, o pior término de nossas vidas.

Passamos 24 dias vivendo 24 horas por dia um para o outro. Não havia para onde fugir quando o cansaço batia, quando a altitude de 4.700 metros tirava o fôlego ou quando o calor de 50°C no Chaco testava nossa paciência. Ali, entre poeira, frio, fome e asfalto, as máscaras caem. Percebemos, na forma mais crua possível, nossas fraquezas e nossas forças.

Descobri que a Vanessa é a parceria que eu não sabia que existia; ela descobriu em mim o cuidado que se manifesta até no meio de um cochilo à beira da rodovia. Cada curva da Cordilheira e cada reta do deserto serviram para sedimentar o que já sentíamos.

Não voltamos apenas com a moto suja de terra e o passaporte carimbado. Voltamos testados pelo tempo, pela distância e pela convivência extrema. Cruzamos fronteiras geográficas, mas a fronteira mais importante que atravessamos foi a da incerteza. Hoje, ao estacionar a La Poderosa II em solo mineiro, não olho apenas para o mapa do que percorremos, mas para o futuro que decidimos construir. A piada do "casar ou separar" perdeu a graça, porque a resposta tornou-se a nossa única certeza: voltamos querendo ficar para sempre juntos.

A estrada termina aqui, mas a nossa jornada está apenas começando. Que venham novas expedições.


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32 minutos atrás, pmichelazzo disse:

Parabéns pelo relato, pela viagem, pelos 10 mil Km e claro, pela namorada.

Que venham outras viagens assim 👏👏👏

Muito obrigado, meu caro

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