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Lençóis Maranhenses (Barreirinhas e Atins) e São Luís


Helen Pusch

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  • Colaboradores

Bom, esse relato foi escrito pelo meu marido, que se empolgou em relatar essa viagem que fizemos em julho de 2013 enquanto eu escrevia outro relato (da nossa viagem mais recente). Não teve jeito de convencê-lo a fazer um perfil de usuário para publicá-lo, então estou publicando, do jeito que ele escreveu e com as fotos que ele escolheu.

Apesar de algumas informações poderem estar um pouco defasadas, queríamos motivar as pessoas que pensam em conhecer os Lençóis Maranhenses, a irem mesmo! É um cenário paradisíaco, um lugar único e mágico, e com um astral maravilhoso. A única coisa a observar é o período ideal, em especial julho e agosto. Antes disso, há o período das chuvas, que é imprescindível para a formação das lagoas. E no início do ano, antes da época das chuvas, as lagoas já estão praticamente secas, então se caminha bastaaaaante nas dunas até chegar em uma ou outra mísera lagoinha. As únicas pessoas que vimos falando que não gostaram dos Lençóis, foram em janeiro ou fevereiro.

Feita a introdução, segue o relato.

 

MA – Lençóis Maranhenses (Barreirinhas e Atins) e São Luís

Relato da nossa viagem de 10 dias ao Maranhão em julho de 2013. Em primeiro lugar, um lugar lindo demais, nunca vi nada parecido. Se você tem vontade de conhecer esse paraíso, a palavra é uma só: Vá!

O roteiro: Optamos por ir direto aos lençóis, depois conhecer a capital para descansar (sim, férias também inclui descanso), então pegamos o vôo Porto Alegre- São Luís cedinho, descemos no aeroporto às 13 e pegamos um táxi até a rodoviária, que é pertinho (R$20). Compramos com antecedência, pela internet (viação cisne branco) a passagem de bus para Barreirinhas (R$28) 14 às 18:30.

 

Dia 1: Chegando em Barreirinhas, o ônibus larga em uma praça central bem perto da pousada. Check-in na pousada Vitória do Lopes, reservada pelo booking, ótima relação custo-benefício. Já marcamos os passeios pela pousada mesmo (não há como ir por conta, só os 4x4 chegam lá). Pertinho do centro, caminhamos para um reconhecimento. O centro na beira do rio é uma graça, com um deck onde estão os restaurantes, artesanato, etc. Como nos lençóis não há estrutura nenhuma, fomos ao mercado comprar bastante água e lanche para levar. Depois, cervejinha, jantar e cama.

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Dia 2: Passeio da Lagoa Azul (R$50). Os passeios das lagoas podem ser feitos pela manhã ou tarde. Optamos pela tarde, pois não queríamos acordar cedão nem fazer a volta das caminhadas (lá se caminha muito nas dunas) no sol do meio-dia. Além disso, você pega o pôr-do-sol nas dunas, que é lindo. Almoçamos no centro e partimos (eles pegam na pousada mesmo), uns 45min de trajeto quicando feito bola de paddle :lol: em cima daquela caçamba, e chegamos. Sobe uma duna e tem a primeira visão de tirar o fôlego: é lindo DEMAIS. Aquele deserto de dunas, e entre elas as lagoas, azuis, verdes, cristalinas...nossa. Muito banho e caminhadas até a hora do pôr-do sol. O primeiro dia foi maravilhoso, à noite, centro, jantar, cervejinha (os restaurantes são todos parecidos, alguns um pouco mais caros, outros bem baratos, mas todos os dias comemos bem gastando pouco, entre 20 e 30 reais a refeição para o casal).

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Dia 3: Passeio da Lagoa Bonita (R$60): Pela manhã, fomos ao centro, visitamos lojinha de artesanato, molhamos os pés na praia do rio preguiças (ao lado do cais tem uma prainha de rio) e almoçamos no Restaurante do Gaúcho. Pontualmente lá estava a 4x4 na pousada para no levar, à tarde, na lagoa Bonita. Trajeto um pouco mais longo, 55min de muito sacolejo. Quando chegamos, o guia mostrou o caminho: era preciso subir uma duna enorme e bem inclinada, tanto que existe uma corda para auxiliar na subida. Subimos e...é indescritível. A beleza é ainda maior que a do dia anterior. Fantástico MESMO, dunas e lagoas, cristalinas. A partir daí, é passear pelas lagoas, tomar banho, até a hora do pôr-do-sol, de beleza ímpar. À noite, jantamos na pizzaria do centrinho, chopinho e cama.

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Dia 4: Passeio de quadriciclo (R$280 para o casal): isso foi muito legal, esse passeio dura o dia todo. Começa de manhã e só retorna à noite. É na região chamada de pequenos lençóis, onde é permitido rodar nas dunas. O quadriciclo é supersimples de dirigir, e as paisagens são lindas. Passamos por fazendas, rios, muitas dunas e lagoas, paradas para banho, até chegar ao mar. Parada para almoço, depois começamos a volta, paramos nos povoados do caminho para conhecer, belos pontos para fotos, enfim, é um passeio imperdível, nós amamos. À noite estávamos mortos, comemos tapiocas no centro e depois, cama.

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Dia 5: Passeio de voadeira (R$60) e ida para Atins: esse é o dia de se despedir de Barreirinhas e ir para o povoado de Atins, praticamente dentro do Parque Nacional. Estudamos várias formas de ir até lá, e achamos melhor unir o passeio de voadeira (lancha turística local, um passeio pelo rio preguiças que vai passando pelos povoados de Mandacaru e Vassouras, até chegar a praia de Caburé para almoço e passar o resto do dia) com o deslocamento. O passeio é bem turístico, conhece-se os povoados ribeirinhos, o farol de Mandacaru, se alimenta os macacos em Vassouras, e chega em Caburé. Pagamos 50 mangos para o guia nos largar em Atins enquanto o pessoal do passeio continuava em Caburé, fica a uns 10 min de navegação. Nos deixou em uma beira de estrada de terra e disse: é por ali. Hehe, assim começa o desapego total à civilização. Caminhamos uns minutos por uma trilha, até chegar à “rua principal” de Atins, já avistamos a pousada da tia Rita, que conhecemos aqui pelo mochileiros. Tínhamos telefonado pra ela de Barreirinhas, e ela já nos esperava, fizemos um check-in, a pousada é bem domiciliar, sem água quente (acho que nenhuma tem isso em Atins) e partimos para um reconhecimento. Sol a pino, meio da tarde, fomos à praia que fica bem pertinho da pousada. Linda praia, deserta, encontro de rio com o mar, curtimos o resto do dia ali mesmo, lugar mágico. À noite jantamos na tia Rita, ela tem um forno a lenha, e um dos guias (e os filhos dela também são guias) fez um rodízio de pizzas saboroso, pagamos 15 ou 20 reais por pessoa para comer à vontade. Nos fundos da pousada tem redes para um descanso enquanto o reggae toca e o cheirinho de pizza vem até as narinas. Perfeito.

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Dia 6: Passeio para os lençóis de Atins. É até diferente acordar nesse lugar tão longínquo de tudo, o marido da tia Rita faz tapiocas quentinhas no café da manhã. Pegamos um guia que cobrou R$ 30 por pessoa para levar e passar o dia nos lençóis, parando para almoço no famoso camarões do Antônio. Ele levou a gente e mais três pessoas de outra pousada, o primeiro pedaço é de barco, uma meia hora de navegação, depois caminhada. Belas paisagens. Tudo vai mudando, desde a paisagem de beira de praia, passa por algo parecido com uma caatinga, até chegar ao deserto de areia. Quando avistamos as primeiras lagoas, o impacto foi o mesmo: é lindíssimo, porém, sem as hordas de turistas de Barreirinhas. As lagoas eram SÓ NOSSAS. Que coisa espetacular, aquele cenário, aquela beleza, e tudo aquilo só pra nós. Muito banho, abriu o apetite, fomos ao Antônio. Gente, mas o que é aquele camarão? Enoooormes e com um tempero maravilhoso, recomendo muito. Passamos o dia lá, à tardinha caminhamos pelo vilarejo, não tem muita coisa, uma escola, um postinho de saúde que tem médico "quase toda quarta-feira" (nosso Brasil) ruas de areia... na frente da tia Rita tem um restaurante, comemos um PF (baratinho e bem satisfatório) e fomos à cama.

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Dia 7: Neste dia fomos à praia pela manhã, curtimos aquela linda praia, e o almoço foi no barzinho/restaurante na frente da pousada da Rita (PF gostoso e barato de novo). Na tarde fomos dar uma caminhada no lugar que eles chamam de Igarapé, um riacho extenso que vai atravessando o mato até desaguar no rio. A caminhada no mato é legal, gostamos desses programas de índio, dá pra simplesmente parar e ficar dentro da água, riacho rasinho, sentindo a correnteza suave, curtindo a natureza, o barulho do mato, os bichos, enfim, sentir o tempo passar de uma maneira muito diferente do que na cidade grande. Depois do pôr-do-sol atrás das árvores, voltamos para a pousada para um banho e mais um rodízio de pizzas no forno a lenha da tia Rita. Era nossa última noite em Atins, aí começaram algumas curiosidades sobre como ir embora desse lugar...

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Dia 8: Íamos para São Luís. Durante o café-da-manhã, conversamos com um casal de uruguaios preocupados porque o seu transporte não apareceu. Lá é assim: quando você chega, já marque o transporte de volta para Barreirinhas, seja de 4x4 ou de voadeira. Nós marcamos de 4x4, mas ficamos com receio, pois esse casal também havia marcado (um horário anterior ao nosso) e os caras não apareceram. A tia Rita disse que eles acharam pouca gente, como era domingo, não valia a pena ir atééééé Barreirinhas com pouca gente...BEI :o ! como assim? O casal tinha passagem de avião comprada, estavam a ponto de perder o vôo...E agora? Bom, mas eles conseguiram algum transporte depois, na nossa hora o transporte estava lá. Que horror pessoal, é gente saindo pelo ladrão, motorista muito locão subindo dunas pelas beiradas, olha, o retorno foi com emoção, mais de uma hora de trancos. Conseguimos pegar nosso ônibus de volta para São Luís, já tínhamos comprado passagem antes de ir a Atins. O transfer nos deixou na porta do hotel de São Luís e custou R$40 por cabeça. Check-in feito no hotel Brisamar umas 20h. Bem localizado em Ponta da Areia, bairro nobre, orla, banho quente, piscina, de volta à civilização, ok? Ok, precisávamos sair pra jantar. Pergunto pra que lado podemos procurar um restaurante e o staff indica, porém, não recomenda aos hóspedes sair à pé à noite pois é perigoso. Putz, ficamos decepcionados, estávamos em uma zona turística e com medo de andar uma quadra até a avenida que tinha vários restaurantes. Bom, tínhamos que jantar, pegamos pouco dinheiro e fomos, quase correndo. Vimos que misturados aos prédios luxuosos e hotéis existe bastante pobreza, casebres, sujeira, enfim, felizmente não vimos nada de violência, mas os atendentes do hotel nos assustaram. Jantamos em um restaurante próximo e cama.

 

 

Dia 9: Centro histórico. Fomos pela manhã, é uma pena constatar o mal que gerações da família Sarney estão fazendo com essa cidade que tem um valor histórico tão especial. Muitos casarões degradados, mas alguns ainda bem cuidados, com todos os azulejos históricos bem preservados. O Palácio dos Leões é lindo, e o museu histórico do Maranhão é muito bom, a melhor visita do centro histórico. A guia foi espetacular, descendo o pau e contando histórias políticas locais horrendas. O conjunto arquitetônico, embora em processo de degradação, é muito legal, vale a visita. Almoçamos ali mesmo, no restaurante do Senac, muito famoso e que serve comida típica. É um buffet um pouco mais caro, nossa refeição mais cara na viagem. Mas pelo menos é delicioso. De tarde ficamos pelo hotel curtindo a piscina. À noite, saímos para jantar nos restaurantes da quadra ao lado de novo, não animamos a ir muito longe. #medo.

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Dia 10: Queríamos conhecer as praias, sabemos que são todas poluídas, mas fomos caminhar pela orla, curtindo mais um pouquinho da cidade. Almoçamos um caranguejo típico, que aliás não curti, os locais devem ter mais destreza com aquele martelo pra quebrar o bicho todo, eu fiz muita força e não comi quase nada ::tchann:: ...como bom gaúcho, prefiro uma costela ::otemo:: , mas valeu a experiência. Passamos pela também famosa lagoa da Jansen. Mal-cuidada, esgotos a céu aberto, local sujo e mal-cheiroso. Que pena... Voltamos para curtir a piscina do hotel, dormir cedo e retornar a Porto Alegre no outro dia.

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Esperamos ter ajudado com o relato, qualquer dúvida é só perguntar!

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  • 4 meses depois...
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Oi Helen,

Como sempre um ótimo relato e objetivo "Motivar as pessoas que pensam em conhecer os Lençóis Maranhenses", fui em outubro fiquei em São Luiz na casa de uma amiga e posteriormente para Barreirinhas, realmente lençóis é impar e o rio preguiças é uma benção, me incomoda bastante e a exploração turística barraquinhas,som alto, mesa de bar, cerveja, etc.., consequência deu para contemplar a natureza e ver a grandeza do lugar, fiquei chateado por não ter feito um trekking de 2 dias 100% mergulhado nos lençóis.

 

Para contribuir com seu objetivo, em São Luis no Centro antigo sugiro pegar o Catamarã para Alcântara R$12,00 embarca pela manhã e volta final de tarde em outro local devido a vasão da mare, um Trip Day interessante para caminhar ver as ruínas e prédios antigos, como tenho uma atração e facinio pelo Mar e embarcações gostei muito, quem tem receio ou não é acostumado e um pouco emocionante o Mar do Maranhão é agitado e no final da tarde venta bastante o que contribui mais recomendo.

 

Fotos: https://www.flickr.com/photos/sergioreoli

 

Maiores informações da Cidade de Alcântara/MA

http://www.feriasbrasil.com.br/ma/alcantara/

Centro de Lançamento da Aeronáutica leia mais http://www.cla.aer.mil.br/

 

Abraço ::otemo::

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  • Colaboradores

Olá, Sérgio.

 

Realmente, o contato com a natureza nesse lugar é indescritível, mesmo com a exploração turística que infelizmente já ocorre.

O passeio para Alcântara parece ser bem legal, ficou para uma próxima ida, pois certamente quero voltar!

Lindas fotos no teu Flickr, parabéns!

 

Abraço!

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    • Por divanei
      Na vastidão do deserto, somos dois pontos perdidos a meio caminho de lugar nenhum. O vento sopra de leste para oeste e vai penteando as dunas, levantando uma fina camada de areia, que se amontoa junto a uma lagoa, refletindo a luz cintilante do sol, que naquela tarde de inverno, chega a impressionantes 32 graus de temperatura. Do topo da duna, acompanho a trajetória do astro rei, enquanto me deslumbro com a cena da minha filha, imersa nas águas prateadas, se preparando para passar a noite num dos mais incríveis cenários do mundo. Quando o sol se deita, logo a lua cheia se levanta e ilumina nossa barraquinha e aí nos damos conta da grande aventura que estamos vivendo, do momento mágico que estamos presenciando. Estamos a um dia de caminhada de qualquer lugar onde se possa ver uma face humana, somos testemunhas da solidão, do isolamento e escolhemos por conta própria, sermos parte daquele sonho, senhores do nosso próprio destino, testemunhas de uma vida cheia de simplicidade, desapego e deslumbramentos.

      Quando nosso avião pousou em São Luís - MA, partindo de Campinas-SP e chegando ao destino, às três da madruga, mal colocamos os pés para fora do aeroporto e já nos vimos sequestrados pelas vans que seguem de madrugada para Barreirinhas, tecnicamente a capital dos Lençóis Maranhenses. Fomos arrastados sem termos tempo nem de nos manifestarmos e quando vimos, já estávamos à caminho, numa viagem de mais ou menos 5 horas por estradas ruins.
      Barreirinhas é uma cidade não muito grande, mas é o local mais movimentado da região, bem às margens do Rio Preguiças e é junto às dezenas de barcos, que somos desovados pelas vans, e ainda cabeceando de sono, ficamos por ali, tentando nos localizarmos, tentando compreender melhor a geografia do lugar, enquanto alguns agentes de viagens tentam nos vender algum pacote, algum passeio, mas queremos mesmo é achar uma hospedagem para podermos descansar e traçar um plano.
      Fazer a GRANDE TRAVESSIA DOS LENÇOIS MARANHENSES, era um sonho antigo, mas o fato de conseguir tirar férias somente no verão, inviabilizava qualquer projeto, já que no fim do ano, as lagoas já estão secas e a data fica quase imprestável. Por isso fomos sempre adiando e me parece que cada coisa tem seu tempo, já que agora, além de conseguir féria em final de junho, ainda teria a possibilidade de viver esse sonho com a minha filha, mas para isso era preciso montar uma estratégia, uma logística quase perfeita e que nos desse a possibilidade de viver uma das mais extraordinárias jornadas das nossas vidas.
      Uma coisa era certa e disso a gente não abria mão: Queríamos fazer a travessia independentes, sem a necessidade de um GUIA. Não que a gente não achasse importante o profissional, mas no estágio que havíamos chegado, depois de 25 anos de andanças pelo Brasil e fora dele, não me via mais com a necessidade de um, para caminhar em nenhum lugar desse país, se não fosse obrigado. Outra coisa, era que, por decidir não depender de ninguém, também queria estar autosuficiente, desejava andar com todos os equipamentos de segurança para poder resolver os problemas, sem vir a ter que recorrer a nenhuma ajuda.
      Mas para andar com um nível de segurança pleno, ainda mais estando responsável por carregar minha filha, teria que escolher os equipamentos a dedo, mesmo que isso me custasse andar com uma cargueira cheia. Consultando alguns amigos que lá estiveram, fui aconselhado a não levar blusas, sacos de dormir e deixar a barraca em casa, já que os pernoites seriam feitos nos chamados OÁSIS, lugarejos perdidos no meio do deserto. Os sacos de dormir e as blusas, até cheguei a tentar persuadir minha filha a deixá-los, mostrando para ela que a previsão no deserto estava por volta de 26 graus à noite, mas não teve jeito, ela não arredou pé, segundo ela, não queria correr nenhum risco num fim de mundo novo, desconhecido até então para ambos. Já a barraca, essa foi eu mesmo quem se recusou a deixá-la, porque se algo acontecesse, queria ter uma proteção sobre nossas cabeças, seria nosso porto seguro, seja lá em que lugar fosse. Para caminhar, decidimos que usaríamos as papetes, sandálias de couro, inclusive, cagando e andando para o que iriam pensar, embarcamos com elas até dentro do avião, feito uns molambos, foda-se. E para completar, levamos fogareiro a álcool, panelas, e todos os utensílios de cozinha necessários, além de comida reserva para quando tudo falhasse, além dos equipamentos básicos de primeiros socorros, lanternas, capas de chuva, enfim, estávamos pronto para sobreviver no deserto , como se fosse nas nossas expedições pelas grandes montanhas e florestas do Brasil.
      De volta à Barreirinhas , conseguimos uma hospedagem barata e depois fomos nos perder pela cidade, comer uma comidas típicas e apreciar a cultura local. O que nos chamou a atenção, foi o número absurdo de motocicletas, onde capacete não existe e famílias inteiras se penduram numa só moto, inclusive carregando recém-nascidos, algo inimaginável para nossa cultura aqui do Sudeste. Fomos até o píer comprar a passagem que nos levaria para ATINS no dia seguinte, lugar onde oficialmente começa a travessia a pé. E há vários jeito de se chegar lá : a pé , por quase um dia de caminhada pelas estradas de areia, de carro , balançando numa espécie de pau de arara de luxo , pegando o barco e navegando pelo rio Preguiças direto para o litoral( Atins) ou pelo melhor jeito , que é o passeio completo , também pelo Rio Preguiças, mas parando em tudo que é vilarejo, uma experiência incrível que vai lhe introduzir nos PEQUENOS LENÇOIS, uma prévia sensacional do que virá.
      DE BARREIRINHAS ATÉ CANTO DOS ATINS
      Compramos o passeio completo por 70 reais, não sei se é barato ou caro, muito porque , depois de Barreirinhas quase tudo é inflacionado e rola uma espécie de cartel até entre os nativos dos oásis. Às nove da manhã, nos apresentamos no lugar marcado, com nossas cargueiras, contendo tudo que tínhamos para 15 dias de viagens, tudo que havíamos trazido de São Paulo estava com a gente, o que usaríamos na travessia e o que não usaríamos. No porto, não encontramos ninguém que iria fazer a travessia a pé, só uma multidão de turistas indo para todos os lados. O Barco partiu e já ganhou a curva para o norte em direção ao litoral, deixando para trás, uma grande duna de areia que ameaça engolir parte da cidade.
      O Rio PREGUIÇAS é extremamente lindo e a navegação vai nos surpreendendo o tempo todo, com paisagens muito parecidas com a Floresta Amazônica, qualhado de buritis e todo tipo de palmeiras, até que o piloto faz um atalho e nos diz que aquele caminho, que corta uma grande curva do rio, foi talhado a mão. Não demora muito, somos surpreendidos pela lancha do Instituto Chico Mendes em conjunto com a Marinha do Brasil e logo nos vemos com uma metralhadora apontada para nossa cara. O fiscal faz um teatro danado quando o condutor do barco diz que não estava com os documentos da embarcação, mas logo percebemos que o tal fiscal era amigo do piloto e fez o teatro para impressionar, dizendo que ele teria que aportar mais à frente e só poderia seguir depois que fosse trazido todos os documentos, estava blefando, claro.
      A nossa primeira parada é simplesmente mágica, é quando você é apresentado oficialmente aos Lençóis Maranhenses, na verdade, aos Pequenos Lençóis, uma prévia do que a gente vai encontrar pela frente. Mas ao desembarcar, antes mesmo de ver a primeira lagoa, as boas-vindas são dadas pelos inúmeros macacos prego, que vão fazer de tudo para tentar abocanhar alguma comida, caso você esteja com uma, apesar das placas dizendo para não os alimentar. Estamos no lugarejo conhecido como VASSOURAS, tão minúsculo que eu não consegui enxergar mais que duas ou três casas. Mas se o cenário parece um tanto bucólico, com aquelas atrações onde deixa transparecer o clichê de que no Brasil, macaco anda na rua, não se engane, quando se sobe as dunas, atrás do vilarejo, seu queixo vai despencar na areia. Lagoas incríveis se apresentam, com dunas gigantes no horizonte, esse é o primeiro contato real com o paraíso, aprecie essa beleza, mas lembre-se de que coisas grandes é o que viemos buscar.

      Retomamos a viagem de barco e logo descemos em Mandacaru, na margem esquerda do rio. Um vilarejo pobre, formado por pescadores, onde a sua maior atração é o FAROL PREGUIÇAS, que infelizmente estava fechado para subir, mas ainda com acesso livre à visitação. O farol é bem bonito, um dos mais belos que já visitei, mas foi uma visita rápida, uma foto e já estávamos voltando para o barco que em mais 15 minutos nos levou para o vilarejo de CABURÉ.
      Em Caburé é onde se para na hora do almoço, mas os preços não são nada convidativos, coisa de 110 reais para duas pessoas por pratos simples, então eu e a Julia decidimos que não comeríamos ali, aproveitaríamos o tempo para conhecer a praia e as cabanas de pescadores. E foi realmente uma decisão muito acertada, porque é um espetáculo aos olhos o passeio na praia com as Usinas EÓLICAS de cenário e os ranchos de buriti , feitos para abrigar os pescadores por dias, enquanto esperam que os peixes caiam nas suas redes. Os ranchos tem uma construção próprias, feitos para abrigar do vento e do sol, com algumas tarimbas e poços para retirar água doce da areia da praia, uma engenharia bonita de se ver e como todos estavam vazios, pudemos entrar e conhecê-los, um passeio e tanto.
      A última e derradeira parada é o vilarejo de ATINS, mas antes de lá chegar, vamos nos deslumbrando com as gigantes construções das usinas Eólicas, grandes pás girando com a constância do vento que nunca para de soprar, nesse momento, somos D. QUIXOTE sem cavalo, absorvidas pelos gigantes que nos fascina.

      Pouco depois das 2 da tarde, encostamos perto do vilarejo de ATINS e para nossa surpresa, não vimos nada, nem casa, nem vila e muito menos um porto para desembarcarmos. A descida do barco é feita ali, de qualquer jeito, parecendo que éramos clandestinos tentando entrar ilegalmente em algum lugar. Na areia, várias caminhonetes com bancos tipo pau de arara, esperavam para levar para alguma pousada, todos os turistas que ali desembarcavam, vindos com a gente, no nosso barco e também de outras embarcações. Mas nós não, nós ficamos como cachorros que caem do caminhão da mudança, perdidos, sem saber nem qual direção seguir, com uma cargueira enorme nas costas, pés na areia, sol na cabeça, apreensão no coração. Tomamos um rumo que achávamos coerente, mas antes de darmos meia dúzia de passos, liguei meu GPS, anotei nosso ponto de partida e a partir de agora, estávamos oficialmente iniciando nossa TRAVESSIA e por 6 dias, somente um meio de transporte nos levaria ao nosso destino, o melhor meio de transporte que se pode ter, o único capaz de nos levar a qualquer lugar sobre a face da terra, NOSSAS PERNAS.

      Com o estomago nas costas, viramos à esquerda na primeira rua que vimos junto a praia ou foz do rio Preguiças, passamos por um córrego de águas escuras e vendo que a rua de areia não tinha saída, viramos à direita e interceptamos o que nos pareceu ser a estrada principal, uma rua mais larga, igualmente de areia fina, num lugar meio desolador, num sol escaldante, já que dentro desses vilarejos, costuma ventar pouco. Andamos umas 2 centenas de metros e descobrimos um pequeno restaurante aberto com Prato feito a 25 reais e como a fome já estava de matar, jogamos nossas mochilas ao chão e nos deleitamos com o banquete simples, que não passou de arroz, feijão, peixe frito e uma saladinha de tomate e um guaraná Jesus, porque a fome é o melhor tempero.
      Com a barriga cheia e diante de um calor infernal, a Julia ficou questionou se valeria a pena enfrentar quase 3 horas de caminhada até o próximo destino, já que a tarde já ia alta, mas eu bati o pé, queria aproveitar aquele resto de dia para adiantar a travessia. Então jogamos as mochilas às costas e partimos, deixando para trás as casas do vilarejo, adiantando passo nas ruas de areia, que por vezes eram cruzadas por rios que tinham que ser atravessados com a água pela cintura. De olho no mapa, fomos avançando, até que sem percebermos, fugimos da estrada principal e acabamos por pegar algumas alternativas que parecia que nos devolveria de novo ao tronco certo da estrada. E foi mesmo uma sorte ter errado o caminho, já que acabamos colando nas dunas dos Lençóis, onde uma placa nos avisa que é proibido adentrar naquela área com carros particulares e somente carros cadastrados são permitidos, mas como não falava nada de pessoas caminhando, demos de ombros e seguimos, um pé a frente do outro, numa caminhada linda, uma planície cheia de pequenas lagoas rasas, margeadas por dunas gigantes de areia.
      O sol baixou e o cenário ficou bucólico, não conseguíamos enxergar onde estaria essas tais casas que deveríamos achar. Resolvemos então, cortar caminho e seguir nossa intuição, até que interceptamos a estrada principal e por ela seguimos, até que vimos surgir a nossa frente, um amontoado de meia dúzia de casas espalhadas e numa delas, do outro lado de uma lagoa, uma mulher veio nos atender e sem ouvir nada do que ela dizia, atravessamos a lagoa até adentrarmos no portão e nem precisava perguntarmos onde estávamos, a placa já denunciava ser ali o RESTAURANTE E REDÁRIO DA LUZIA, um dos pontos de apoio em CANTO DOS ATINS, um fim de mundo a meio caminho entre o litoral e as dunas.

      A área do restaurante é enorme, mas o redário não passava de uma cobertura mequetrefe, sem paredes, onde a chuva poderia surpreender caso viesse com vento. Os preços são extremamente salgados pela estrutura oferecida, inclusive, como eu havia dito, há um cartel e todos cobram o mesmo preço: São 50 reais pela rede com café da manhã e mais 50 reais pelo prato feito, talvez o PF mais caro do mundo, mas não se engane, você vai pagar com gosto depois de um dia inteiro de caminhada. Mas ainda não era o nosso caso e como vimos que o tempo estava para chuva, resolvemos optar por um quartinho fuleira que custava 10 reais mais caro, mas poderíamos descansar bem, para no dia seguinte poder pular da cama bem sedo.
      As instalações eram bem ruins, mas não estávamos ali atrás de luxo nenhum, ao contrário, fomos buscar simplicidade. Se pouco ligamos para as instalações ruins, muito nos aborreceu o atendimento. A D. Rita não estava e o estabelecimento foi deixado a cargo de um pessoal mais jovem, mas com uma má vontade incrível de fazer as coisas, mal respondia o que perguntávamos. Como tínhamos almoçado tarde, tentamos descolar algo para comer que não fosse propriamente uma janta completa, mas a má vontade das pessoas nos fez optarmos por fazermos uma jantinha básica dentro do quarto mesmo. Eu de uma próxima vez, trocaria essa opção pela do seu Antônio, que é bem ao lado, talvez tivéssemos mais sorte.
      DE CANTO DOS ATINS ATÉ O ACAMPAMENTO SELVAGEM
      Combinamos de tomar café às 4:30 da manhã e você tem essa opção de escolher os horários em qualquer lugar, mas as 4 horas desabou uma tempestade que não víamos a muito tempo. E choveu e trovejou e relampeou. Acabamos saindo da cama somente as 7:30, tomamos café (servido com uma má vontade de espantar) e partimos. O nosso caminho começa por logo sedo, atravessar a lagoa, que agora, depois da tempestade, havia virado um oceano. Passamos entre as duas casas, se valendo de uma rua de areia, viramos à esquerda, logo a direita e fomos curvando novamente para esquerda até nos vermos meio que paralelos ao mar, que só ouvíamos o barulho das ondas ao longe, sem poder enxergá-lo.
      A caminhada é paralela ao mar, mas sem ainda conseguir botar os olhos neles, talvez pelas pequenas dunas que nos trava olhares mais distantes, mas 2 km depois de partirmos do abrigo, talvez uma meia hora, nos chama atenção uns ranchos de pescas e abandonamos nosso caminho para investigar. É realmente uma maravilha essas construções, esses ranchos e sinceramente, ao invés de dormir lá no alojamento, de uma próxima vez eu dormiria nesses ranchos, secos , bem construídos e que colocaria uma charme maior nessa travessia. Vinte minutos depois já estamos com o mar sob nossos olhares e ao invés de ser uma caminhada enfadonha, acaba se transformando numa paisagem bem bonita. Vamos cruzando incontáveis rios e riachos, margeando lagoas e vegetação rasteira, até que uma elevação nos chama a atenção e o que nos pareceu ser uma construção, não passava de uma formação rochosa, uma pedra furada.

      Uns 6 km após partimos do Alojamento, fomos obrigados a parar para analisar nossa saída do litoral e programar nossa entrada definitivamente para o interior do deserto. Essa parte do litoral, a turistada faz contratando um 4 x 4 e vai até um lugar, acho que um RANCHO que chamam de BONZINHO, mas eu não faço a mínima ideia de onde seja, muito porque, é necessário tocar mais uns 5 km pela praia e encurtar o caminho até Baixa Grande, o próximo destino de todo mundo. Mas o nosso roteiro está longe de seguir esse caminho, minha intenção era a partir dali, virar à esquerda e nos enfiar definitivamente no vazio, o que nos proporcionaria uma experiência jamais vivida, esse era o plano, essa era a estratégia, talvez um pouco ousada porque jamais havíamos tido contato com esse tipo de terreno, mas eu não abria mão disso, para isso havíamos discutido o projeto, para isso estávamos com uma cargueira enorme nas costas, havia chegado a hora de nos despedirmos da civilização, mas ainda tínhamos que alcançar o último ponto habitado ou com vestígio de moradia, que era um grande RANCHO DE PESCA, uns 200 metros afastados da praia, onde ao longe já enxergamos um bode pastando.
      No rancho, não encontramos ninguém, mas era um rancho com sinal de que pessoas passavam por ali constantemente, já que um gato tomava conta do local, mesmo que ninguém tomasse conta dele como deveria. Com dó do bichinho, abrimos a porta do rancho e pegamos um pouco de água para abastecê-lo e ficamos com o coração partido por não termos nada de comida pronta para deixar para ele, torcendo que o morador esporádico, voltasse logo.

      Agora seríamos somente eu e a Julia, pai e filha numa jornada solitária, se apegando um ao outro pelos próximos 5 dias. Apontei minha bussola e meu nariz para SUDOESTE, jogamos as mochilas nas costas e partimos, com a alma livre e o coração preso, fomos em busca de uma vida de aventuras, fomos fazer história, não para o mundo, que nem sabe que existimos, mas a nossa própria história de vida, história essa que compartilho a seguir com quem possa interessar.
      Nos despedimos do gato e do bode, atravessamos um riacho, onde atolamos até a canela e já ganhamos as areias das dunas e não levou 15 minutos para a gente ser definitivamente apresentados às lagoas da travessia. Era dia 25 de junho, uma sexta feira de inverno, mas o sol brilhava como nunca, com uma temperatura de 32 graus e vento soprando de leste, nos trazendo uma sensação muito agradável. A lagoa de aguas levemente amareladas pelas algas presentes no fundo, contrastava com a branquidão das dunas ao redor. As mochilas foram jogadas ao chão e delas retirados alguns petiscos, mas as roupas continuaram no corpo e foi com elas que nos atiramos para dentro da água, que mesmo ainda sendo pouco mais de 10 horas da manhã, estava quente, numa temperatura agradável, estava inaugurado o primeiro de centenas de banhos daquela travessia.

      Tínhamos um objetivo claro, como todos que partem para essa travessia, seja lá que caminho acabem pegando: chegar ainda hoje no OÁIS DE BAIXA GRANDE, mas, porém, entretanto, todavia, não tínhamos compromissos com o tempo, aliás, não tínhamos compromisso com coisa nenhuma, tempo era o que tínhamos de sobra. A caminhada vai seguindo, enquanto vamos tentando nos adaptarmos com o novo e desconhecido terreno, vendo o que é preciso ajustar nas cargueiras, testando o que melhor funciona, andar descalço ou com as papetes (chinelas de couro). Minha filha prefere se manter calçada, mas eu já havia pendurado as chinelas, achei que era menos atrito para os pés, mas não tinha certeza se seria mesmo uma boa ideia andar com os pés nus, era questão de tempo para ver o que seria melhor.
      No meu celular, um caminho previamente marcado para nos dar sempre um norte , uma direção, mesmo porque, o deserto do ano passado, não é mais o desse ano, as dunas mudam de lugar, as lagoas enchem ou esvaziam, novas surgem e outras desaparecem.
      Menos de 15 minutos depois, tropeçamos em outro lago, dessa vez com águas esverdeadas, ainda mais bonita que a anterior. Por enquanto, estávamos numa espécie de vale, um corredor entre grandes dunas que avistávamos ao longe e para lá fomos nos guiando, sempre cruzando por algumas pequenas lagoas, descendo ao fundo de algum vale que ligava uma lagoa à outra.
      Esperávamos uma caminhada dura, até meio enfadonha, subindo várias dunas até que uma ou duas horas depois, poderíamos aproveitar alguma lagoa, mas estávamos REDONDAMENTE ENGANADOS. Começamos a notar, que não se passava nem 15 minutos para que estivéssemos com o corpo, os pés e até o pescoço chafurdado dentro da água. A ficha começou a cair aos poucos, principalmente quando ao subirmos a encosta de uma grande duna, ela despencou vertiginosamente para dentro de uma lagoa do tamanho do mundo, donde bodes selvagens corriam de um lado para o outro, que ao notarem nossa ilustre presença, fugiam assustados. Eram lagoas não muito fundas, com muita vegetação, um jardim de possibilidades que iam transformando tudo que pensávamos a respeito dos Lençóis. O mundo não era só de areia e água como imaginávamos. Quanto aos bodes, ficamos sabendo que tinham donos, mas nasciam muitos sem o contato com humanos, ficavam lá, seres do mundo e seres do mundo não costumam ter donos, o mesmo que buscávamos nessa viagem, não ter donos, não sermos guiados por ninguém, seríamos viajantes ao sabor do vento, da água e da areia.

      Uma lagoa prateada é cruzada, uma verde-azulada deixada para trás, uma duna subida, para logo em seguida, um mundo de mais areia e água fazer com que a gente nos detivéssemos novamente. Aquilo era algo que nunca imaginávamos existir e por mais fotos e vídeos que tenhamos vistos dos Lençóis Maranhenses nesses últimos anos, nos custava acreditar naquilo que nos passava à frente dos olhos. Era o nosso cérebro tentando se adaptar a algo que lhe era estranho. O corpo parecia querer se aprumar para melhor compreender o que ali se passava e a cada passo que dávamos rumo ao interior do DESERTO MAIS MOLHADO DO MUNDO, nossa cabeça tendia a recalcular as mensagens recebidas.
      Com a caminhada deslanchando, começamos a ver que a dinâmica era sempre a mesma: Depois de uma lagoa, subíamos uma duna que era penteada com o vento, deixando suas costas duras e fáceis de subir, para em seguida, despencar para dentro de alguma lagoa, nenhuma igual a outra, cada uma com um cenário único, cada uma com uma cor própria. Eram lagoas rasas, fundas, grandes, pequenas, secas, com vegetação, com bode, sem bode, com alga, sem alga, era uma infinidade de possibilidade que em nenhum momento a caminhada se quer passava perto de ser monótona, pelo contrário, eram os adjetivos para classificar cada lagoa que iam escasseando do vocabulário.

      Ao meio dia e mais de 20 km de travessia desde que partimos lá de ATINS e umas 4 horas de caminhada de Canto dos Atins, paramos para um breve almoço junto a uma lagoa esverdeada com algas lindíssimas. Apesar do calor intenso, uma coisa é muito legal nos Lençóis, além de ventar um pouco, o que deixa o clima agradável, o próprio vento não deixa com que a areia fique muito quente a ponto de queimar os pés. Outro fenômeno que é incrível, é que a água não chega a ficar quente a ponto de incomodar, pelo mesmo fenômeno do vento que acaba resfriando-a um pouco e mantendo a areia do fundo da lagoa quentinha, então é a sensação mais incrível de bem-estar que se possa ter ao adentrar uma lagoa dessas. Você entra e se não se der conta, vai ficar lá para o resto da vida.
      O dia vai passando, as lagoas vão sendo cruzadas e são tantas e tão diferentes que fica difícil narrar aqui uma por uma. Depois das 13 horas resolvemos ir gastando nosso tempo em brincadeiras memoráveis, aqueles que largamos as mochilas e despencamos dunas à baixo , explodindo nas lagoas fundas. Aqueles eram momentos de pura diversão, de puro desapego , éramos dois perdidos no ócio, ligando pra coisa nenhuma , mas chega uma hora que é preciso começar analisar o tempo e a distância do oásis de Baixa Grande e percebemos que se quiséssemos dormir nele, precisaríamos parar e acelerar um pouco.
      Antes das 14 horas, um lago mais seco acaba marcando nossa virada definitivamente para OESTE, foi quando a Julia achou que daríamos conta de cumprir o roteiro completo do dia, mas eu já não tinha essa certeza toda não. Grandes dunas vão surgindo, o cenário vai ficando cada vez mais impressionante, o horizonte vai se pontilhando de lagoas para todos os lados e mesmo quando temos que descer até alguma mais seca, rios atravessassem grandes baixadas, num cenário de sonhos. Por vezes, encontramos lagoas mais profundas, que tinham que ser contornadas, mas eram raras as vezes que usávamos esse artifício, porque eu sempre procurava cruzar por dentro, carregando até a mochila da Julia quando pressentia que ela poderia ter problemas, deixando-a livre para nadar, caso fosse preciso.
      Mas, mesmo a areia não sendo muito fofa, chega uma hora que o corpo já começa a dar sinais de desgaste, afinal de contas, as 15 horas já fazia mais de 7 horas que estávamos envoltos em pernadas intensas, então tentamos apertar o passo com o objetivo de chegar há algum lugar onde pudéssemos vislumbrar a possibilidade de um camping. Cada passo que dávamos, cada lagoa que cruzávamos, não encontrávamos nada que nos deixasse satisfeito. Claro, poderíamos colocar nossa barraquinha em qualquer lugar plano, porque água não ia faltar, mas pretendíamos encontrar um lugar bem abrigado do vento, mas quando esse lugar era encontrado, era dentro de uma lagoa seca, então passávamos reto e seguíamos em busca do lugar perfeito.
      A gente começou a cruzar por cristas de dunas, onde algumas, com lagoas secas, parecia bocas de vulcões. Todas nos pareceu abrigadas, mas nós ainda buscávamos alguma com água dentro. Não que faltasse lagoas cheias, longe disso, não se passavam 15 minutos sem trombarmos com uma, mas nenhuma delas nos oferecia abrigo que esperávamos, até que numa curva de uma crista de areia branca, o lugar perfeito nos saltou aos olhos e nem precisou que consultássemos um ao outro sobre a possibilidade, nós dois sabíamos que aquele lugar era o mais perfeito possível. Uma duna gigante, uma lagoa rasa e de águas cristalinas, bem abrigada, num lugar lindíssimos, era tudo que eu sonhei quando resolvi planejar aquela travessia com uma cargueira nas costas, era aquele momento que eu esperava. Jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrada nossa jornada naquele dia mágico. Eu estava no limite da minha capacidade emocional, mais um pouco e eu aumentaria aquela lagoa com lagrimas.

      Passava da 4 da tarde e o sol já estava nos preparativos para logo mais ir se deitar a oeste. Antes de mais nada, aproveitamos para tomar um belo de um banho, o centésimo quadragésimo terceiro daquele dia. Logo depois, aos pés da duna gigante, montei nossa barraquinha com a porta voltada para oeste, a fim de evitar que a areia das dunas entrasse pela porta.
      Me organizei para fazer uma boa de uma janta, mas antes, joguei para dentro da barraca nossos sacos de dormir, um trambolho inútil que serviu apenas para forrar o chão, já que a temperatura era extremamente agradável. Para cozinhar, levamos uma espiriteira (fogareiro a álcool), optamos por ele porque não é possível carregar gás no avião e não teríamos tempo de procurar em São Luís. O vento atrapalha um pouco, mas safo como sempre fomos, já tratamos de fazer uma cobertura com uma toalha e resolver a contenda. Enquanto o arroz cozinhava lentamente, minha filha foi tomar o derradeiro banho do dia e eu subi a duna para apreciar o pôr do sol.

      Do alto daquele monstro de areia, sentei-me confortavelmente e fui acompanhando o cenário ao meu redor. O sol derramava uma luz cintilante, deixando a lagoa mais abaixo, toda prateada. Dentro da lagoa, minha filha se esbaldava com a água quentinha e ao lado dela, nossa morada provisória insistia em me informar que estávamos prestes a passar a noite num dos lugares mais isolados do Brasil, longe de qualquer lugar habitado. O acaso, o destino, havia nos levado até ali e as chuvas da madrugada, que caíram torrencialmente e nos fez começar tarde aquela caminha, fazendo com que não tivéssemos tempo de atingir o oásis, acabou apenas por se tornar uma grande desculpa. Verdade mesmo, é que já tinha a intenção de viver essa experiência única no deserto com a minha filha e quando o tempo foi se esvaindo pelos dedos, por dentro eu fui comemorando a possibilidade de podermos acampar.

      O dia se foi, a noite caiu, jantamos e nos pinchamos para dentro da barraquinha. A temperatura continuou agradável e uma leve brisa continuou a soprar a noite, jogando fragmentos de areia na nossa casa. Por incrível que parece, alguns mosquitinhos apareceram, nada demais e foi só fechar o mosquiteiro para nos sentirmos confortáveis. A Julia apagou imediatamente, mas eu ainda fiquei um tempo remoendo emoções vividas . Dormi umas 7 da noite e lá para a 11, saí da barraca para apreciar uma lua cheia de encher os olhos. O deserto iluminado pela lua é qualquer coisa de sensacional, acho que essa é uma cena que nunca mais vou esquecer em toda minha vida.
      DO ACAMPAMENTO SELVAGEM ATÉ BAIXA GRANDE
      Foi uma noite de sono incrível. Às 6 da manhã, estávamos em pé, desmontando nossa barraca, enquanto nosso fogareiro fervia uma água para o café. O dia amanheceu quente, como amanheceria todos os outros e nuvens no céu não havia, somente um azul de encher os olhos. Partimos às sete e para variar, não deu 10 minutos para a gente ter que negociar a descida para uma baixada, com uma imensa lagoa de águas mirradas, mas com um cenário encantador, onde uma vegetação rasteira, cruzada por inúmeros fragmentos de rios, e ia nos dizendo que foi muito acertada a nossa decisão de ter acampado antes, já que ali era bem desprotegido, sendo varrido por ventos constantes, nada de mais, mas que poderia ter atrapalhado um pouco nosso sono.
      O cenário vai se modificando radicalmente, as dunas vão crescendo de tamanho e parece querer engolir tudo ao nosso redor, principalmente onde não havia lagoas e sim baixadas com aguas rasas e vegetações rasteias. É impossível narrar como são as infinitas lagoas nesse percurso, mas o que marcou, foram as areias mais consistentes, que nos fazia avançar rapidamente para os cumes das dunas, mas por outro lado, também tínhamos que despencar mais vezes nas areias fofas que desabavam para dentro de lagoas profundas, onde tínhamos que atravessar com a água acima do peito. Não que isso fosse problema, na verdade, era uma enorme curtição.

      Ao longe, uma lagoa rasa e com vegetação rasteira, abriga um grupo de BODES SELVAGENS, que ao menor sinal da nossa ilustre presença, fogem apressados para as dunas. Atravessar essas lagoas, requer um cuidado para não atolar a perna até os joelhos e perder suas chinelas ou, acabar machucando os pés em algum graveto maroto.
      Por volta das 10 horas da manhã, conseguimos avistar ao longe, a vegetação do oásis de Baixa Grande e essa é a primeira vez que vemos uma árvore em quase um dia e meio. São florestas de cajueiros, que nessa época do ano, estão sem frutos. O aparecimento de algo que nos remeta à civilização nos anima a apertar o passo e vamos caminhando, decididos a chegar na hora do almoço. Pelo caminho, vamos deixando inúmeras lagoas, atravessando a nado ou rodeando, quando assim desejamos, parando vez ou outra para um bom banho demorado, afinal de contas, somos passageiros do ócio, não temos muito compromisso com o tempo, mesmo porque, nosso almoço é quando a gente quiser.

      Às onze da manhã, somos obrigados, pela força da beleza, a parar, jogar nossas mochilas ao chão e apreciar uma LAGOA VERDE CLARA, onde uma árvore seca a transforma numa atração imperdível. Com águas extremamente transparentes e quentes, por lá ficamos, extasiados pelo momento, como se pedíssemos para o tempo parar e para nos congelar ali mesmo.


      O oásis estava perto, mas não víamos nenhum sinal de habitação humana. A barriga já estava roncando, mas resolvemos que nosso almoço seria no povoado, então aceleramos. Os cajueiros foram aparecendo, mas a gente se enroscou para conseguir achar as trilhas que adentra definitivamente e rodamos um pouco, perdendo e achando trilhas. Adentramos no oásis, margeando um rio e só depois de cruzarmos para o outro lado, foi que percebemos uma estradinha/trilha de areia que nos levou para o centro da vegetação, saindo bem em frente a casa do seu Moacir, finalmente no OÁSIS DE BAIXA GRANDE.

      Já passava do meio dia. Bodes, porcos e galinhas, circulavam livremente ao redor do que mais me pareceu com uma aldeia indígena, do que com uma habitação. Mas logo somos recebidos pelo seu Moacir, que deitado na sua rede, embaixo de um barracão de folhas de buriti, nos convida para ficar . O preço por uma rede no redário é o mesmo, 50 reais com café da manhã. Mas naquele momento, nosso interesse era mesmo em um bom almoço e mesmo que a gente carregue comida e que possa cozinhar nosso próprio rango, não nos furtamos em pagar outros 50 reais por um prato feito, porque nós merecíamos.
      No deserto, as opções não são muitas e só havia frango, para gente, mais do que suficiente, ainda mais porque serviram muita comida, e sabedores de que tudo ali era escasso, tratamos logo de guardar o excesso para janta. Seu Moacir é um dos filhos do saudoso BRITO e nos disse que seu pai era o fundador de tudo aquilo, sendo dono de milhares de bodes, resolveu distribuir a família para cuidar do rebando e assim nasceria os povoados no meio do deserto.

      QUEIMADA GRANDE é um oásis no meio do nada e a casa do seu Moacir está um pouco afastado do vilarejo, que nem chegamos a conhecer. Umas casas simples, feitas de materiais simples, na sua maioria de folhas de palmeiras, mas o redário é bem construído, melhor que o alojamento de Cantos dos Atins. Com a pandemia, o turismo decaiu muito, segundo seu Moacir, tanto que praticamente ninguém havia chegado lá nesse mês de junho e eu e a Julia éramos os únicos hospedes deles. Internet não havia, estava com problemas há muito tempo. A luz vem de painéis solares, instalados há pouco tempo também. Como não tenho muita paciência para ficar só dormindo, levantei e fui passear pelas dunas ao redor, tomar banho num rio local, onde encontrei seu Moacir e a menina que trabalha com eles, lavando as redes. Acontece que, não os reconheci, porque o seu Moacir tinha tirado a barba e a mulher estava com um lenço na cabeça. Fiquei lá, fazendo perguntas sobre o povoado e ouvindo quase as mesmas coisas que já tinham me falado e quando resolvi falar que estava hospedado numa casa ali perto, seu Moacir saiu da moita: - Eu seu, sou o dono da casa e foi eu quem recebeu vocês. E a moça: -E foi eu quem cozinhou para vocês. ( hahahahahahahahahha). Passeio como doido, mas ainda sai no lucro ( rsrsrsrsrsrssrr)
      À noite, jantamos a sobra do almoço e fomos dormir sedo e deixamos combinado o café para 6:30 da manhã, porque achamos que não deveríamos madrugar, porque nosso próximo destino não estaria muito longe e pretendíamos alcança-lo lá pela hora do almoço. Dormimos muito bem, já que estávamos acostumados em dormir em redes, coisa que fazemos muito nas expedições à Serra do Mar de São Paulo.
      DE BAIXA GRANDE ATÉ QUEIMADA DOS BRITOS
      O dia amanheceu agradável, espetacularmente quente, mesmo sendo alto inverno, aliás, enquanto nos esbaldávamos com o calor nordestino, nossos conterrâneos do centro sul do pais, quase congelavam por causa de uma massa de ar polar. Tomamos café e partimos pontualmente às oito da manhã, passando por uma minúscula lagoa e já subindo do meio do oásis para as dunas, recomeçando nossa travessia, agora rumo ao oásis de Queimada dos Britos.
      Nossa jornada pelos Lençóis Maranhenses, já havia consumido quase 40 km de caminhada na areia, desde o povoado de ATINS. Oficialmente esse era o início do quarto dia de travessia e mesmo tendo optado por caminhar com cargueiras nas costas, ainda nos sentíamos muito bem, estávamos alegres e muito dispostos, ainda maravilhados com a paisagem. A Julia veio se comportando direitinho, sem reclamar e ao meu ver, parecia também muito envolvida com a empreitada, sem reclamar de coisa nenhuma, sempre uma companheira de primeira linha, atenta a tudo e palpitando na condução do roteiro, dando suas opiniões quando precisávamos decidir para que lado seguir, como cruzar as lagoas ou a melhor maneira de ganhar terreno sobre as dunas.
      E logo pela manhã, assim que subimos a primeira duna, já nos deparamos com uma grande baixada, onde um rio atravessava o nosso caminho. Esses rios são rasos, cruzam por dentro de grandes depressões, as vezes ligando uma lagoa à outra. A água varia muito, mas quase sempre são cristalinas ou assumem as cores das algas no fundo, num cenário muito bonito de ver e prazeroso de cruzar, com areia fininha. Aliás, as areias das dunas vão se alternando entre branca e branca feito neve, as vezes dura e compacta, outras vezes fofinha.

      Cruzar lagoas e subir dunas, vai sendo a tônica daquele dia, como seria a de todos os outros dias, mas não se engane, monotonia não existe e antes das nove da manhã, paramos para um descanso, que no caso se resume a ficar correndo sem mochila e se jogando de cima das dunas para dentro das lagoas, que hora são verdes, hora são azuladas, algumas mais rasas e outras profundas, emolduradas por plantas aquáticas, numa paisagem de sonhos.
      As vezes ficamos encantados e abismado com a capacidade da natureza de criar cores para as lagoas, que cansadas de serem só azul ou verde, começam a combinar com vermelho e amarelo e de repente, vira uma lagoa de múltiplas cores, um arco-íris de beleza, emolduradas por areias desenhadas pelo vento. Vamos perdendo a capacidade de achar adjetivos para homenageá-las, vamos embaralhando sentimentos, já perdemos noção do que é belo e do que é extraordinariamente belo e nossos olhos não se cansam, é um condutor de emoções, é através deles que vamos ampliando nosso arquivo de felicidade.

      Diferentemente dos dias anteriores, desde muito cedo, quando iniciamos a nossa caminhada, sempre tivemos ao longe a visão do nosso próximo objetivo, que sempre pareceu perto, mas só pareceu, porque no deserto, as distancias enganam muito. Mas às 10 horas da manhã, já vislumbramos a nossa chegada ao OÁSIS, mas antes de lá encostarmos, um trecho do caminho vai nos surpreender novamente: Uma mistura de rios, lagoas, baixadas e pântanos, vão nos fazer cair o queixo diante de um mosaico colorido impressionante. Aguas de todas as cores vão se juntando, mas dessa vez um rio na sequência de outro , com areias coloridas e algas, que vão formando outro mosaico , aquilo era bonito, aquilo parecia ir além das belezas , eu e a Julia estávamos novamente extasiados diante de tamanha diversidade.

       
      Havia chegado a hora de adentrarmos definitivamente no oásis, mas as coisas foram se complicando. Ao longe, vimos um grupo de pessoas sobre uma duna, calculamos uns 3 km da gente, mas como estávamos com o esboço da entrada da trilha no nosso gps, ignoramos a direção e começamos a navegar para dentro da vegetação, mas uma infinidade de rios começou a cruzar nosso caminho. Tentávamos escapar para todos os lados, mas as vezes éramos barrados por rios profundos ou com terrenos pantanosos. Sem desgrudar os olhos no gps , fomos nos perdendo para todos os lados, atravessando caminhos batidos, mas que no fim, não nos levaram há lugar nenhum. Tentei forçar a passagem pela vegetação, mas foi impossível passar, porque os cajueiros não estavam a fim de facilitar nossas vidas. O tempo foi passando e a gente preso num labirinto de vegetação rasteira, onde jardins de plantas carnívoras acabavam nos alegrando os olhos, até que achamos uma passagem entre uma duna e outra, que nos levou para uma estradinha de areia.

      Achar o caminho de areia foi realmente um alívio, mas estava longe de nos levar para dentro da Queimada dos Brito. Por um tempo até que achávamos que nossa missão estaria cumprida, mas logo tivemos que rever nossa euforia. A estradinha começou a atravessar uma lagoa atrás da outra. Atravessávamos meio que pelo rumo, com a água pela cintura, sempre tentando encontrar a sua continuação do outro lado. Mas às vezes era angustiante estar dentro de uma lagoa enorme, de águas turvas e não saber para onde ir e como nem tudo é ruim que não possa piorar, perdemos completamente a direção e nosso caminho se enfiou num oceano, fim da linha para a gente.

      Fizemos uma pausa para analisar o mapa e a trilha protada no gps, mas nosso caminho não mais existia. Estava claro que na época das chuvas o terreno muda, rios e lagoas tomam conta de tudo e o que outrora fora uma estradinha, hoje não mais existia e agora jaz no fundo das aguas. Vasculhei ao redor, tentei forçar passagem novamente pelo mato, mas não havia mesmo sinal de caminho. À nossa frente, uma ”lagoa oceânica” e sobre o topo de uma duna, 500 metros de onde estávamos, uma casa nos acenava como vestígio de civilização. Não havia o que fazer, havia chegado a hora de por em pratica alguma ideia estúpida e quando olhei para minha filha, com cara de deboche, ela já sabia que íamos nos enfiar em encrencas.
      Apesar da situação complicada, estávamos como ótimo estado de espírito e fazíamos piadas sobre a possibilidades de cobras e jacarés. A julia se segurou na minha mochila e fui nos guiando, tentando nos manter sempre com a cabeça fora da água, mas orientando a Julia sobre a possibilidade de soltarmos as mochilas e nadarmos. A temperatura da água estava excelente e mantive o foco, sempre mirando a casinha no alto de uma duna, do outro lado da lagoa. Avançamos bem e teríamos cruzado por dentro d’água, mas uma saída à direita conseguiu nos levar de volta para uma trilha de areia, que margeava a lagoa e surpreendentemente nos desovou bem em frente a uma casa, onde nos pareceu ser um alojamento, já que mais parecia uma maloca de índios, com alguns redários e foi aí que descobrimos ser ali a casa do seu Raimundo e da D. Joana, enfim QUEIMADA DOS BRITOS.

      Seu Raimundo era irmão do seu Moacir lá da Baixa Grande, portanto filho do seu Brito, o fundador de tudo aquilo ali. Quando lá chegamos, encontramos um casal de turistas que haviam chegado ali de quadricículo, vieram para uma expedição fotográfica junto com um guia e mais uma vez, não encontramos ninguém fazendo a travessia a pé, eu e a Julia éramos os únicos e claro, causamos espanto em todos quando souberam que estávamos por conta própria e com uma mochila gigante nas costas.
      O alojamento ali era bem estruturado e bonito, ainda que extremamente simples e os preços eram os mesmo de todos os outros, os mesmos 50 reais para rede e para a comida. Novamente decidimos não cozinhar, estávamos varados de fomo, com o estomago lá nas costas e nos demos esse presente, já que a comida também era agradável, mesmo que não passasse de um peixinho frito, arroz, feijão e uma saladinha.
      Havíamos enfrentado um dia difícil, complicado em termos de navegação, mas estávamos ali, sentados à mesa e com uma comida quentinha a nos alegrar a alma. Foi um dia incrível, com paisagens de sonhos e eu estava imensamente satisfeito de estar ali com a minha filha, num fim de mundo , no centro selvagem do deserto mais molhado do mundo e a minha felicidade transbordava, eu estava justamente onde queria estar, fiz tudo para estar ali, a vida me trouxe até ali , não tinha o direito de reclamar de nada, mas tinha o direito de chorar, extremamente emocionado pelo momento único.
      Depois do almoço saímos para conhecer o povoado de QUEIMADA DOS BRITOS e também já ir nos familiarizando com o caminho que nos levaria para fora do oásis no dia seguinte. Seu Raimundo nos contou que as dunas estavam avançando e que mais uma vez teriam que se mudar de lá, mas que já estavam acostumados. O povoado em si não tem muitas casas, talvez uma dúzia ali nos Britos e mais uma dúzia 1 km à frente, que é onde se diz ser a Queimada dos Paulos, mas o seu Raimundo diz que é invenção do povo e que tudo aquilo pertence a queimada dos Britos e que não tem nada de Paulo não.
      Nossos aposentos no alojamento da D. Joana (mulher do seu Raimundo), não passou de uma rede, instalada cuidadosamente numa espécie de oca circular, feita de troncos de cajueiro e palha de Buriti, um charme rustico. Além dessa espécie de oca, ainda há um grande galpão que serve de redário, que é justamente onde estão o casal de turistas e o guia. Aliás, o guia quis tirar uma casquinha, oferecendo para levar nossas mochilas no quadricículo, para o próximo destino, para o próximo oásis, mas recusei imediatamente, mesmo vendo que minha filha já estava com os pés bem machucados e que o dia seguinte seria o maior trecho que teríamos de percorrer. Talvez fosse um pouco de orgulho, mas tinha em mente atravessar o deserto com minhas próprias pernas, carregando minhas próprias coisas e não ia fraquejar agora, quando só nos faltavam 2 dias, nem que eu tivesse que carregar duas mochilas nas costas.
      DE QUEIMADA DOS BRITOS ATÉ BETÂNIA
      Às cinco da manhã, nos pomos de pé, tomamos café e partimos às seis, quando o sol deu as caras. Pegamos um atalho para fugir do rio, que nessa época do ano tomou conta da estradinha de areia, nos fazendo cruzar por uma ponte de troncos, que nos leva diretamente para o centro da aldeia. A estradinha cruza no meio das casas, onde ajudamos um bode a se livrar de uma rede de pesca. À frente, passamos pela escola que homenageia o seu Manoel de Brito e logo em seguida pelo pequeno cemitério. Um km depois, adentramos em QUEIMADA DOS PAULOS, onde está o caminho que vai nos devolver novamente para o deserto de areia, primeiro seguindo por um caminho sinalizado para algum veículo eventual, mas logo o abandonamos e nos enfiamos em definitivo no mar de dunas e lagoas, estávamos novamente envoltos a nossa própria solidão.
       
      Nesse quinto dia de caminhada, teríamos pela frente nada mais nada menos que 20 km de dunas , areia e lagoas e estávamos plenamente conformados de que seria um dia duro, talvez o mais duro de toda a travessia, mesmo assim, havia qualquer coisa de mágico no ar , porque havíamos ouvido falar que esse trecho era o mais bonito de todo o roteiro, mas não conseguíamos imaginar como poderia ser isso, já que na nossa cabeça , estava difícil pensar que ainda teria algo para nos surpreender, tamanha a beleza que já tínhamos presenciado nesses 4 longos dias.
      Logo de cara, uma lagoa gigante se apresenta. Não era uma lagoa muito fundo, mas daquelas que requer cuidado porque poderia haver algum buraco e como a Julia ficou com receio de atravessar e se dar mal, coloquei a mochila dela na cabeça e passei com as 2 mochilas, mas não foi algo fácil, já que era uma lagoa com uns 500 metros e andar dentro da água com 2 mochilas não é lá algo muito confortável, além do mais, tinha sempre que fazer um esforço enorme para não afundar e acabar sofrendo risco de afogamento. Poderíamos ter dado a volta, mas isso nos custaria tempo e mais esforço numa areia extremamente fofa. Para diminuir o trecho e tomar um fôlego, fomos usando as ilhas no meio da lagoa como porto seguro, para descansar e enfrentarmos o próximo trecho.
      As dunas vão crescendo de tamanho e como nada no deserto parece não ser insuperável, a areia foi mudando de cor e se transformando em um branco de doer os olhos, num fenômeno impressionante, a tal ponto da gente perder a noção de distância e profundidade e quase acabar despencando várias vezes em verdadeiras bocas de vulcões, poços de areia sem água. A cada duna subida, a cada lagoa atravessada, a paisagem ia se agigantando, como se as montanhas de areia quisessem engolir o mundo.

      O dia vai passando e é impossível contar quantas lagos diferentes testemunharam nossos pés, quantas dunas de areias foram subidas por nós, muito porque , dizem haver 36 mil delas espalhadas por um território tão grande que caberia toda a gigante cidade de São Paulo e ainda sobraria espaço e como eu havia dito, era impossível que se passasse mais de 15 minutos sem termos que cruzar uma lagoa, seja com a água pela canela, seja com a água no pescoço ou mesmo com algumas confinadas em verdadeiros poços, o que as tornam um espetáculo à parte.
      Esse quinto dia estava excepcionalmente mais quentes que os outros, talvez fosse impressão nossa, já que esse era um dia longo, com um desgaste um pouco maior, mas no horizonte, nuvens negras já pairavam sobre nossas cabeças, anunciando que a tarde não escaparíamos de uma boa chuva. Por isso mesmo, puxei a fila, apertei o passo, não poderíamos dar bobeira. Mas o dia vai passando e mesmo que já tenhamos o próximo oásis na nossa visão, temos plena consciência de que ele ainda se encontra numa distância considerável.
      Outro fenômeno que vai nos chamando a atenção, são os pássaros que ao nos ver, vão dando rasantes sobre nossas cabeças, na tentativa desesperada de proteger filhotes e ninhos. Essas pequenas coisas vão nos distraindo, vão fazendo o tempo correr e mesmo que estejamos apreensivos com uma possível tempestade no final de tarde, nunca nos furtamos de nos enfiarmos de cabeça nas lagoas transparentes e lá ficarmos, até acharmos que é hora de partir para outra lagoa, num ciclo que se repete a cada 15 minutos, fazendo com que estejamos sempre de bom humor , sempre felizes pela oportunidade que a vida estava nos dando, mas uma hora foi preciso descer para o mundo real, porque o nosso maior pesadelo veio sorrir para a gente.
      Estávamos há menos de 2 horas de caminhada da entrada do próximo oásis, quando o vento começo a urrar, soprar velozmente, levantando poeira para todos os lados. No horizonte, nuvens negras ameaçadoras faziam derramar uma atmosfera de água, a coisa começou a ficar feia. Atravessamos uma grande baixada, onde uma lagoa rasa era pontilhada por pequenos arbustos mortos. Não havia tempo para mais nada e infelizmente, eu nem mesmo sabia o que fazer diante da situação ameaçadora que se apresentava à nossa frente. Não havia para onde correr, éramos apenas espectadores passivos de um show de horrores, onde uma guerra de raios era travada no céu. Não havia tempo nem para montarmos nossa barraca e minha única ação foi tirar nossas capas de chuvas da mochila e esperar que a sorte fizesse com que passássemos ilesos pela tempestade. A água caiu com gosto, mas surpreendentemente não durou mais que 10 míseros minutos e do mesmo jeito que veio, foi embora, desapareceu na imensidão do deserto e nos deixou novamente com nosso companheiro de jornada e nós três, eu , a julia e sol, descemos e subimos mais algumas dunas até nos posicionarmos numa montanha de areia bem alta e ter certeza de que a terra prometida, ao menos daquele dia, já estava ao nosso alcance , o OÁSIS DE BETÂNIA já quase poderia ser tocado com nossos pés.

      Lá embaixo, duas lagoas de águas transparentes nos convidam para ficar. O sol tomou conta de tudo e não havia nenhum vestígio da chuva. Como o oásis estava ali, a não mais que uns 30 minutos de caminhada, jogamos nossas mochilas no chão e nos entregamos mais uma vez ao ócio e só fomos embora porque nossas barrigas começaram a roncar. Do nosso lado esquerdo, uma área alagada nos chama atenção e por um momento quase pensamos estar no PANTANAL. Avistamos uma prainha de rio, onde muitos veículos 4x4 estavam estacionados, os tais pau de arara de luxo e aí começamos a entender que esse oásis é onde os turistas conseguem chegar motorizados. Pois bem, para entrar no povoado é preciso que se atravesse o grande rio ALEGRE, pagando-se uma pequena quantia que deve girar em torno de uns 10 ou 15 reais, como haviam nos dito, mas antes mesmo de chegarmos no lugar onde se pega uma canoa, fomos interceptados por um pequeno barquinho a motor que nos ofereceu uma carona até o RESTAURANTE E REDÁRIO NOVO HORIZONTE.
      Esse estabelecimento fica um pouco afastado do povoado, não muito, mas como estamos na época das cheias, tudo em volta parece estar embaixo d’água e como eu disse, se você não se situar bem, vai pensar que está dentro do Pantanal. Já passava das três da tarde e a maioria dos turistas que foram ao restaurante, já haviam se mandado, mas ainda havia comida e mandamos ver um “PF” de peixe e camarões gigantes, com custos muito menor que a comida dos oásis anteriores, chegando a pagar 35 reais, mas como ali há muitas opções, era só procurar para achar preços ainda melhores, afinal de contas, o cartel estava quebrado pela concorrência e até as redes conseguimos alugar por 40 reais, num lugar tranquilo e aconchegante.

      DE BETÂNIA ATÉ SANTO AMARO DO MARANHÃO
      BETÂNIA, como os outros povoados é minúsculo, mas a gente nem chegou a ir no meio das casas, como eu disse, tudo alagado e também aproveitaríamos o barco do restaurante que nos levaria de volta sem nenhum custo. O Percurso Britos x Betânia é sem dúvida um dos mais duros e longo dessa travessia. A Julia estava com os pés em frangalhos, além das bolhas, sentia muitas dores por causa da repetição de movimentos, como se você ficasse o tempo todo dando pequenas batidinhas na areia dura e isso durante 5 dias seguidos, chega uma hora que o pé vai colapsar. A grande maioria que faz essa travessia, chega em Betânia e contrata uma das dezenas de caminhonetes que passam por lá todos os dias trazendo e levando turistas e poderíamos tranquilamente ter feito o mesmo, mas a gente se recusava a sair dali motorizados, nem que tivéssemos que nos arrastar de joelhos na areia até o final.
      Eram pouco mais de sete horas da manhã, quando o barquinho nos deixou em terra firme, bem do outro lado do rio, em frente à entrada ou saída do vilarejo. Tomamos a larga trilha de areia e em alguns minutos já estávamos novamente na mesma prainha onde ficam estacionados os jipes e caminhonetes 4x4. Passamos por eles, sob o olhar incrédulo dos turistas que por lá estavam, como se eles quisessem nos perguntar, para onde diabos iríamos com uma cargueira enorme nas costas. Deixamos definitivamente a civilização para trás e nos metemos nos caminhos dos jipes, descendo e subindo dunas, voltando a nos maravilharmos com lagoas cada vez mais espetaculares, mas numa curva do deserto, se é que deserto tem curva, fomos obrigados a logo pela manhã, pinchar nossas mochilas na areia e aplaudir de pé, mas as vezes aplaudíamos de cabeça para baixo, quando escorregávamos para a LAGOA AZUL E VERDE.

      Aquela lagoa ia além da nossa capacidade de achar as coisas bonitas. Não importa quantas lagoas havíamos visto, não importa que havíamos nos deslumbrados com centenas de paisagens incríveis, não sei porque, mas a gente ficou hipnotizado por ela, talvez nem fosse a mais bela do roteiro, mas estávamos fragilizados por ser o último e derradeiro dia daquela travessia. Era uma lagoa um pouco mais funda, principalmente na borda, onde a duna despencava para dentro d’agua e aí não teve jeito, ficamos brincando de correr e se jogar para dentro dela, duas crianças brincando no parque de diversão.
      Nesse último dia de travessia, como sabíamos que era um trecho curto, resolvemos não nos preocuparmos com o tempo. Decidimos apenas caminhar, apenas andarmos, um pé à frente do outro, fomos curtindo cada metro de areia, quando nos dava na telha, parávamos por um longo tempo e ficávamos imersos nas lagoas. Quando queríamos ganhar terreno, usávamos os caminhos dos jipes, sempre tomando cuidado para não sermos atropelados por um, já que as vezes caíamos em pontos cegos nas dunas, onde ninguém via ninguém. Aliás, toda vez que um jipe passava lotado de turistas, nós éramos a atração, ficavam apontando o dedo para gente, dois minúsculos pontos vagando pelo deserto ou éramos reverenciados, como símbolos de persistência e determinação. E não era de se estranhar mesmo tal comportamento, já que em quase uma semana, jamais vimos outro grupo fazendo esse roteiro a pé e tão pouco encontramos outros caminhantes por onde passamos e dormimos e olha que estávamos na alta temporada dos Lençóis.
      As lagoas vão se sucedendo, enquanto o sol vai se posicionando no meio do céu. Eu e a Julia vamos nos arrastando, vagarosamente. A julia mais ainda, devido as dores nos pés e conforme o tempo vai passando e vamos comendo quilometragens, parece que o corpo vai desacelerando, sabendo que o fim está próximo. Continuamos alternando o caminho dos jipes e a rota das lagoas, muito porque, o caminho dos jipes também passava por lagoas espetaculares, só não havia a necessidade de termos que cruzar por dentro delas, mas como passava colado, não nos furtávamos em nos jogar para dentro da água e lá ficávamos até a pele descolar dos ossos.
      Como essa parte da travessia passa pelas bordas dos Lençóis, vamos encontrando pelo caminho, placas que vão sinalizando, além do lugar onde devem passar os jipes, (já que podem despencar facilmente de uma duna de uns 50 metros de altura), mas também algumas lagoas turísticas, as poucas com nomes, das mais de 36 mil que existem por lá. Ao longe, uma antena nos indica que Santo Amaro já está na nossa mira, mas ainda muito distante, onde um vai e vem de veículos aparecem e desaparecem sobre as grandes dunas e vão nos dando a direção a seguir, nos facilitando a vida e nos fazendo planejar atalhos, que encurtam nossa jornada.
      Miramos a Antena e traçamos uma rota para ela, cruzando baixadas alagadas, subindo outras tantas dunas, dando tchauzinho para a turistada motorizada que passavam constantemente por nós, até nos desviarmos do caminho em favor de uma placa que marcava uma lagoa famosa. Às 11:30 estávamos na PISCININHA, uma lagoa incrível, não muito funda, mas com uma transparência única. Largamos tudo e corremos para dentro dela, sabedores que essa seria nossa última parada, oficialmente nosso último mergulho, nossa despedida final. E por lá ficamos, imersos, curtindo o que de melhor essa vida pode nos proporcionar.
      Nos levantamos e partimos, agora imbuídos de chegar, sem pressa, mas com determinação. Uma lagoa profunda se apresenta à nossa frente, mas bastou margeá-la para encontrar uma passagem, virar à esquerda e ganhar o km final, até tropeçarmos numa placa que marca a ENTRADA PARA DOS LENÇOIS, no nosso caso, a SAÍDA. Ganhamos a rua de areia, atravessamos um riacho e já demos de cara com uma BASE MUNICIPAL que fiscaliza os veículos 4x4 para saber se são cadastrados, CHEGAVA AO FIM NOSSA JORNADA PELOS LENÇOIS MARANHENSES, o mundo feito de DUNAS, AREIAS E AGUAS, acabava de ficar para trás.
      Antes de começarmos esta travessia, ainda em São Paulo, tentamos angariar informações sobre a necessidade ou não de sermos obrigados a contratar um guia ou sobre as restrições de se acampar no meio do deserto. Não encontramos nada e nem ninguém que nos dissesse o contrário, mas mesmo assim, ficamos preocupados o tempo todo de sermos barrados, não no meio do deserto, mas no início ou no final da caminhada. Então, quando vimos a base, ficamos receosos de sofrermos alguma sanção, mas com a cabeça firme e o olhar confiante, chegamos até a base e lá encontramos uma mulher, que mal olhou na nossa cara, quando demos um sonoro, BOA TARDE. Passamos ilesos e não demos outras satisfações, mas alguns metros depois, encontramos uma placa que nos esclareceu todas as nossas dúvidas: Na placa do próprio Parque Nacional, um monte de ícones nos dão aval para caminhadas, travessias , mergulho, fotografia, canoagem e acampamentos e só restringem fogueiras, jipes e motos não credenciadas , portanto, toda a nosso jornada estava dentro da lei , mas se o mundo de areia chegou ao fim às 13 horas da tarde, ainda nos faltava mais de uma hora de caminhada até o centro da cidade.

      Aquele era um dia quente, talvez o mais quente de todo a nossa travessia. A Julia capengava, quase não conseguia mais andar e até eu comecei a sentir uma cólica de rim, consequência de uma pedrinhas mal tratadas. Ganhamos o calçamento empoeirado. As ruas quase desertas, de um povoado meio que beirando um fim de mundo, ainda que um tanto grande. No caminho, tentávamos achar uma birosca para nos hospedar , mas não encontramos nada que nos interessasse e depois de perambular por mais de uma hora, ganhamos o que nos pareceu ser a avenida principal e ao vermos uma placa de restaurante, viramos a direita antes da praça central e quando lá chegamos, descobrimos que além de um lugar para se comer alguma coisa, também servia de alojamento e aí não tivemos dúvidas, encerramos nossa travessia oficialmente, SANTO AMARO DO MARANHÃO havia sido conquistado, MISSÃO CUMPRIDA.
      Almoçamos e fomos até o centrinho da cidade para comemorar nossa travessia com muito sorvete a base de frutas locais, além de agendar a volta para São Luís. E é preciso mesmo ficar atendo a isso, porque quase não há lugares disponíveis nas vans que partem geralmente uma vez ao dia e quase sempre de madruga, tipo quatro ou cinco da manhã. À noite, ficamos de bobeira, apenas descansando e curando as feridas, mas ainda extasiados com a aventura vivida nessa última semana e como no outro dia teríamos que acordar com o cantar do galo, fomos dormir sedo e se a caminhada havia terminado definitivamente, ainda sabíamos que nossa jornada por terras maranhenses estava apenas no começo, hora de conhecer a capital do Estado e dar um pulo na histórica Alcântara, mas essa é uma outra história, um longa e deliciosa história.
      Nessa vida, já tive a oportunidade de conhecer grande parte dos Estados do Brasil. Subir quase todas as grandes montanhas, viajar por quase todo o litoral. Já me enfiei em quase todas as Chapadas brasileiras, fui há lugares onde poucos já estiveram, pelo acesso difícil e complicado. Estive em dezenas de Parques Estaduais e Nacionais. Viajei por vários países da América do Sul, desde o norte da Patagônia, passando pelos desertos do Chile, altiplano boliviano, Cordilheira Branca no Peru, lugares históricos e de relevância mundial e apesar de serem lugares deslumbrantes e diferenciados, nenhum deles conseguiu me cativar quanto os Lençóis Maranhenses, mas tem um, porém, essa beleza toda tem que ser sentida, vivida intensamente, é preciso que a pessoa se desapegue das comodidades da vida moderna e se lance numa das mais incríveis caminhadas do Brasil. Será necessário sair da zona de conforto e se organizar para poder atravessar um dos desertos mais molhados do planeta, para sentir o quão isolado um ser humano pode estar, para sentir a essência do vazio espacial, mergulhar num mundo feito de areia e água, mas com uma diversidade inigualável e só assim poderá descobrir a grandiosidade dessa caminhada, que faz dos LENÇÓIS MARANHENSES, a mais SENSACIONAL travessia do nosso continente.
       
       
       
       
       
       
    • Por ariane_peabiru
      O meu relato de hoje é sobre uma experiência única de imersão em um deserto. Andar quilômetros descalça na areia, dormir em uma rede sob a luz das estrelas e ter uma visão única de um dos Parques Nacionais mais lindos do Brasil. A travessia dos Lençóis Maranhenses vai muito além de uma paisagem surreal, com suas dunas e piscinas naturais. 
      Nesse relato vou contar como foi fazer a minha primeira travessia sozinha com a Peabiru! Esse roteiro combina aventura com turismo de experiência e já está disponível lá no site. Abaixo vou dar algumas dicas extras que podem te ajudar a tornar essa aventura inesquecível.
       
      Lençóis Maranhenses e a infinitude de um deserto
      O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é o maior campo de dunas do Brasil. Seu diferencial são as mais de 7 mil lagoas que se formam entre as dunas, cada uma com a sua particularidade. São vários tamanhos, colorações e composições. Algumas são perenes e outras secam em determinada época do ano, uma vez que toda a água das lagoas é provenientes das chuvas. 
      Segundo o ICMBio, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses fica inserido no Cerrado, mas apresenta forte influência da Caatinga e da Amazônia. São 155 hectares (quase a mesma área da cidade de São Paulo!) que abriga ecossistemas frágeis, como a restinga, o manguezal e o campo de dunas.
      Cerca de ⅔ do parque é coberto pelas dunas de areia livre que se deslocam diariamente há  mais de 5 mil anos. Segundo estudos, elas podem se deslocar até 10 centímetros em um dia de vento forte, que pode chegar a 70 km/h. Na época de chuva, quase não ocorre deslocamento, as intensas chuvas são absorvidas pela areia, elevando o lençol freático e enchendo as lagoas temporariamente. 
      Certamente esse foi um dos fenômenos que mais me marcou nessa experiência, sentir na pele e ver com meus próprios olhos a formação e evolução das dunas. Em vários pontos da travessia o Geovanne indicou cajueiros, casas e comunidades que foram cobertas pelo avanço e movimentação das dunas dos Lençóis Maranhenses. Ele também contou sobre a formação dos cemitérios de florestas, onde toda a vegetação foi coberta pelas dunas de areia, as plantas morreram e agora a migração das dunas deixam em evidência diversos galhos secos e já sem folhas.
       
      Quando ir
      Embora muitos guias e sites indiquem a visita de Junho a Setembro, quando as lagoas estão mais cheias, eu acredito que cada época do ano traz uma vivência diferente nos Lençóis. 
      Viajei para fazer a travessia dos Lençóis Maranhenses em Outubro, já no final da temporada. Muitas piscinas naturais já estavam mais secas, mas ainda assim tinham muitas paradas para mergulhar e pude conhecer lagoas incríveis. Em vários pontos foi possível passar “por dentro” de lagoas secas, o que torna o trekking um pouquinho mais curto e cria uma visão linda de cemitérios de florestas. 
      Fiz a travessia em Outubro de 2020, durante a semana (quarta a sexta-feira) e tive o parque praticamente só para mim!
       
      Turismo de base comunitária e a vida nos Lençóis Maranhenses
      Existem vários tipos de passeios para visitar os Lençóis Maranhenses, mas sem dúvida a Travessia é o melhor atrativo. Os passeios tradicionais de 4×4 não podem acessar a zona primitiva do parque, onde está a maior diversidade de vegetação e aves.
      Os roteiros podem chegar até 7 dias, mas o mais comum são as Travessias de 3 a 4 dias. A visitação deve ser feita seguindo as regras de mínimo impacto e obrigatoriamente com guia cadastrado no Parque (fonte: ICMBio). 
      Aqui na Peabiru temos dois condutores cadastrados no Parque, Geovanne (que foi meu guia nessa aventura) e Marcelo. Eles são amigos de longa data e trabalham juntos em muitas ocasiões. Cada um tem sua pegada e forma de vivenciar os Lençóis de uma maneira diferente.
      Cerca de 30 famílias residem nos dois Oásis, Queimada dos Britos e Baixa Grande. Durante a travessia, dormimos em verdadeiros em redes nas casas de moradores de comunidades locais. Lá somos recebidos com refeições simples, mas muito bem preparadas, sendo uma excelente experiência de interação com a comunidade tradicional. 
      Uma das coisas que mais me marcou foi o carinho pelo qual o Geovanne era recebido em cada casa que visitamos. Deu para perceber que ele faz parte da família. Em cada lugar eles também perguntavam carinhosamente sobre o Marcelo. O Marcelo e sua família contribuíram muito para o desenvolvimento das comunidades locais. Eles ajudaram as famílias a estruturarem os espaços para receber visitantes, incentivando a renda das famílias através do turismo de base comunitária.
      Alimentação
      A alimentação nos oásis é simples, tem galinha caipira, peixe frito, macarrão, arroz e feijão. Se você quiser comer uma comida local, pode pedir para o guia solicitar carne de bode. Grande parte da comida vem ali mesmo do quintal dos moradores. No café da manhã tem cuscuz, tapioca, ovos e café, tudo incluso na diária.
      A travessia termina em Betânia, onde tive a oportunidade de comer a comida que mais me encantou em Lençóis Maranhenses: peixe com caju no leite de coco. Esse prato não estava no cardápio, mas é conhecido por todos os moradores locais. O Geovanne conversou com os donos do restaurante e conseguiu que eles fizessem especialmente para nós! Estava simplesmente sensacional!
      Se você é vegetariano ou vegano é importante avisar o guia com antecedência. Os anfitriões são flexíveis e podem preparar algo especial, mas precisam ser avisados o quanto antes para programar as compras e o cardápio.
        Roteiro e Dificuldade
      Se você nunca fez uma travessia, mas tem vontade, recomendo muito começar por essa!
      O ideal é levar uma mochila cargueira, pois ela se adequa e distribui melhor o peso. Mas a mochila vai quase vazia, pois a  rede e as principais refeições são fornecidas nas comunidades locais. Na mochila você precisa levar apenas água, lanterna, kit de higiene pessoal, lanchinhos para a trilha, uma troca de roupa para dormir e um casaco, porque a noite costuma esfriar. 
      Eu acabei levando também meu tênis, pois não sabia se sentiria dores no pé. Vi muitos relatos de pessoas com calos ou bolhas, mas eu tive sorte e não tive problema nenhum. Caminhei quase todo o percurso descalça mesmo e alguns trechos apenas de chinelo. O tênis foi um peso desnecessário que eu acabei carregando
      Um ponto importante é que a aventura deve ser feita em um único sentido: saindo de Atins e indo para Santo Amaro. Dessa forma, você sobe sempre as dunas na sua face mais suave e desce pelo chamado facão. Confesso que fiquei com medo nas primeiras descidas, pois era bem íngreme, mas a cada passo minha perna deslizava até o joelho dentro da areia, fazendo uma deliciosa massagem nos pés e na panturrilha. As descidas se tornaram um momento delicioso e divertido da caminhada.
      Eu imaginava que a areia seria super quente, mas não é. Devido a sua composição de quartzo, ela reflete o sol sem esquentar tanto. Também não sentimos muito calor porque o vento sopra constantemente. Claro que mesmo com o vento, o sol pega forte e é preciso tomar muito cuidado com a hidratação e a proteção. Em muitos momentos eu usei até a canga para proteger o meu rosto do sol.
      Outro ponto importante é que acordamos cedo todos os dias. A jornada começa antes do sol nascer, assim podemos caminhar com sol mais ameno, o que torna a caminhada menos cansativa. Também chegamos na casa dos nativos cedo, para aproveitar o almoço e depois temos a tarde para aproveitar o rio, as redes e o incrível pôr-do-sol nas dunas.
       
      Diário de bordo
      1° Dia – Passeio pelo Rio Vassouras e 8 km de caminhada
      A travessia começa em Atins, mas o Geovanne já organiza todo o percurso para chegar lá. Partimos de Barreirinhas às 9h, em um passeio pelo rio Preguiças de voadeira, que são barcos motorizados. 
      Nossa primeira parada foi Vassouras, onde vi a primeira lagoa. Um lugar lindo e muito conhecido pelos macacos que ficam soltos e pegam coisas dos turistas. Confesso que me senti um pouco mal de ver as pessoas alimentando os animais e incentivando o comportamento, apesar de os guias avisarem o tempo todo para as pessoas não fazerem isso e guardarem bem os seus pertences.
      Depois disso, paramos em Mandacaru, onde conhecemos o farol e tomamos uma água de coco. Almoçamos na praia do Caburé e, enquanto esperávamos o almoço, fomos ver o mar, do outro lado da estreita faixa de areia. Após o almoço partimos para Atins, onde fomos recebidos por um quadriciclo que iria nos levar até o início do trekking. 
      Uma dica interessante é dormir em Atins nesse dia e começar a travessia no dia seguinte. Como eu tinha pouco tempo, não consegui conhecer essa vila que dizem ser muito aconchegante. Dizem que o Camarão do Antônio é algo imperdível!
      Começamos nossa caminhada era umas 16:00 e chegamos no Oásis Baixa Grande após o pôr-do-sol, pois decidimos parar para apreciá-lo. Nesse primeiro dia são cerca de 8 km caminhando, mas eu estava tão empolgada para começar que nem senti!
      Pernoitamos no redário da Dona Loza, uma senhora muito simpática e animada que fez um peixe delicioso. Não havia nenhum turista naquela noite, assim pude conhecer e tomar uma cerveja com alguns moradores de Barreirinhas que estavam ali para visitar as comunidades. 
      Ali conheci o Índio, guia nativo que estava acompanhando uma amiga com suas filhas. Apesar de trabalhar durante a sua vida inteira como guia para os passeios tradicionais, ele nunca tinha feito a travessia. Como estávamos só nós 2, ele pediu para o Geovanne se poderia ir junto e, claro, topei na hora! O Índio foi uma companhia incrível e tirou as minhas melhores fotos!
      No final da noite o Geovanne fez uma pequena fogueira em uma área protegida e ficamos vendo o céu estrelado. Não olhei a hora, mas devo ter ido dormir às 21h. Foi a primeira noite que dormi na rede e achei super confortável.
      2° Dia – 12 km pelo deserto
      No segundo dia acordamos umas 6:00 da manhã, o Geovanne tinha visto que eu caminho bem e deixou a gente acordar um pouco mais tarde. Tomamos café da manhã bem reforçado e começamos a nossa caminhada rumo ao Oásis Queimada dos Britos. 
      Chego a ficar emocionada ao lembrar do sentimento de imensidão que eu senti caminhando pelas areias naquele dia, sem ver uma pessoa além do nosso grupo. Para cada lado que eu olhava era uma luz incrível, um movimento incrível e uma sensação de vida no deserto. Paramos em 2 lagoas para banho, sempre no momento exato que o corpo pedia um descanso e um refresco.
       
      Chegamos no horário do almoço na Queimada dos Britos e a comida já estava pronta para nos servirmos. Depois do almoço, descansei um pouco de baixo da árvore, na beira do rio que corta aquele Oásis. Um sentimento de paz e calma estar ali cercada de tanta vida.
      No final do dia fomos ver o pôr-do-sol e na volta paramos para tomar uma cerveja e uma Tiquira na casa de Seu Raimundo. Depois voltamos para jantar e dormir. 
      Durante o trekking o Geovanne havia comentado várias vezes como gostava de dormir de baixo da árvore ali na Queimada dos Britos, mas eu não havia me animado ainda. Quando chegamos a noite para montar a rede vi que tinha MUITAAAAA barata no redário e fiquei em pânico. Decidi que dormir ao ar livre seria melhor que dormir ali onde eu tinha certeza que tinha muitas baratas.
      O Geovanne montou a rede para mim na beira do Rio e lá fui eu dormir sob o céu estrelado. Confesso que acordei muitas vezes durante a noite, com cada barulhinho. Em um dado momento, escutei até o jegue que foi pastar ali perto. Apesar disso ainda achei uma experiência inesquecível, que me deu coragem para dormir fora da barraca na Chapada Diamantina depois (um dia conto mais sobre essa experiência de bivak).
      3° Dia – uma longa jornada de 19 km 
      Saímos da Queimada dos Britos às 4:00 da manhã, com nossas lanternas acesas, contemplando o céu estrelado, um pouco mais tarde que o habitual. Ver o sol nascer nos Lençóis foi uma aventura fantástica, o céu foi ganhando vários tons rosa e roxo, trazendo muitas emoções em cada momento.
      Nesse dia eu percebi o sol ainda mais forte e o corpo um pouco mais cansado. Foram mais momentos em silêncio e reflexão do que aquilo tudo representava. As paradas para banho traziam uma renovação de corpo e de espírito. 
      Acho que chegamos em Betânia umas 10:30 ou 11:00, onde a travessia do Rio Alegre marcava o final da nossa jornada caminhando. Uma nova energia e correntes de felicidade percorreram o meu corpo.
      Naquele dia ainda almoçamos o peixe com caju, que comentei antes e depois ainda demos muita sorte no transporte de volta. Pegamos um passeio tradicional de 4×4, onde tive a oportunidade de visitar mais duas lagoas. Elas estavam já bem cheias de pessoas e não era mais aquela paz que eu senti durante a travessia. 
      Vimos ainda o pôr-do-sol na saída do Parque em Santo Amaro. Embora tenha sido um lindo espetáculo e despedida do parque, a quantidade de carros e de pessoas tirando fotos e fazendo poses chegava a me incomodar. Foi uma despedida com chave de ouro, pois me deu a certeza que fazer a travessia é a única maneira de ter uma experiência autêntica nos Lençóis Maranhenses. 
       
      Outras Dicas
      Cuidados
      Eu fui sozinha fazer essa travessia, não tinha grupo e fui somente com o guia. Muitas pessoas ficaram preocupadas, e com razão. Infelizmente escutei diversas histórias de pessoas que se perderam e que foram com supostos guias que não conheciam o parque… Para uma mulher sozinha, isso se torna uma preocupação ainda maior.
      Vá com guias conhecidos e respeitados. Aqui na Peabiru você tem mais segurança, conhecemos pessoalmente os guias parceiros na Travessia dos Lençóis Maranhenses. Garantimos, dessa forma, uma experiência segura.
      Como chegar
      Eu fiquei em Barreirinhas, decidi ir para lá e fazer um voluntariado pela Worldpackers. Trabalhei durante 15 dias no Hostel Aquarela, foi uma excelente oportunidade para conhecer um pouco mais sobre turismo e a Bianca é uma excelente pessoa e gosta que os voluntários conheçam bem os Lençóis. Por isso ela super incentivou que eu fizesse a travessia e ainda me apresentou para o Marcelo, outro guia parceiro aqui da Peabiru. 
      Para fazer a travessia aconselho ter como base Barreirinhas, que fica a 256 km da capital São Luiz. Para chegar lá você pode alugar um carro, pegar o ônibus ou a van que leva cerca de 4h. Recomendo agendar a van com antecedência, para garantir um lugar e já combinar onde ela te busca em São Luiz e te deixa em Barreirinhas. 
      Existem outros passeios em Barreirinhas, inclusive dá para tomar banho no Rio Preguiças. Para isso vale a pena ir ao Centro Cultura da cidade, onde tem um bar com redes dentro do rio. Outro passeio gostoso é conhecer a casa de Farinha em Tapuio.
      Dicas Finais
      Leve apenas o essencial, você precisa de muito pouco nos Oásis Leve uma lanterna Leve dinheiro, você irá precisar para consumir bebidas na casa das famílias nativas Leve água e lanchinhos para as trilhas Traga todo o seu lixo de volta! Proteja-se do sol e da areia: use óculos de sol e dê-preferência para roupas de manga comprida, para não contaminar as lagoas com produtos químicos Use chapéu ou boné Leve um casaco ou fleece para a noite, pode esfriar bastante  

    • Por camilandarilha
      Olá aventureiros! 
      Estou indo para o Maranhão por 6 dias, e nesse tempo, dormirei uma noite em Barreirinhas (02/08) e outra noite em Atins (03/08), junto a uma amiga. 
      Gostaria de sugestões de camping ou até hostels mais acessíveis obrigada desde já! 
    • Por Leandro Z
      Apesar de haver bons relatos no site, espero contribuir.
      Há 4 ônibus diários entre São Luís e Barreirinhas pela viação CISNE BRANCO, R$51, demora 5h (não procurei vans saindo do aeroporto direto pra Barreirinhas, mas existem). Dizem que é melhor fazer a travessia no sentido Barreirinhas - Santo Amaro, por causa da posição do sol e do vento. A estrada São Luís-Santo Amaro é relativamente nova, está boa e é mais perto que SLZ - Barreirinhas. Além disso, as lagoas de Santo Amaro são mais bonitas. ATENÇÃO com a volta de Santo Amaro para São Luís, acho que não tem ônibus (se tiver, são raros) e dependemos do guia em achar uma van que ia pra lá. Geralmente, o último dia termina 12:30h e o transporte até São Luís demora 4h30min. Grande parte da travessia é em areia firme e fria, então é melhor andar descalço ou com meia. Também tem inevitáveis passagens por lagoas menores, onde se molha, pelo menos, as pernas. Elas são boas para se refrescar (o tempo inteiro eu andei molhado ou úmido de propósito). Melhor época: junho e julho, alguns dizem agosto e até setembro, mas nestes muitas lagoas já estão secas. Preços: como junho e julho são os melhores meses, só diária do guia custa até R$250; hospedagem (café da manhã incluído), em redário, sai por R$35; jantar: R$30 a R$35; água de 2l: R$8. Converse com o guia para ver o que está incluído no preço dele (passeio pelo rio Preguiça, hospedagens e refeições, etc). Cansar vai, mas com certeza vale a pena. Acredito que uns treinos de caminhada de 8km sejam suficientes para preparação. Esta é a travessia mais tradicional do parque, mas tem outras de 6 até 10 dias! Levar: poucas roupas (inclusive com proteção UV), meias, chapéu (nessa época, não precisa levar nada para frio, nem tênis), chinelo, protetor solar, água (pode ser comprada em cada parada),  snacks (frutas desidratadas, amendoim e castanhas), dinheiro em espécie, lanterna (não é essencial, não precisa na caminhada, mas ajuda nas hospedagens), coisas de higiene pessoal (sabonete, escova, pasta, repelente). É recomendável levar aquelas baterias portáteis, power bank, mas dá pra usar a eletricidade em algumas hospedagens. Dia 28/jun - 1º dia: Pegamos um barco em Barreirinhas para fazer o passeio pelo rio Preguiça (R$80) por volta das 10h, o guia já nos acompanhava. O passeio é tranquilo, para em Mandacaru, onde tem um farol, também para em Caburé onde tem dunas e uma lagoa. Termina em Atins, banhamos em uma praia. Depois, final de tarde, caminhamos até Canto de Atins, cerca de 3,5h em ritmo tranquilo, sem paradas para banhos, o GPS marcou 12km de caminhada durante o dia todo (pareceu bem menos). Em Canto de Atins, tem dois restaurantes/pousada: do seu Antônio e da dona Luzia. A dona Luzia foi pioneira e é mais famosa, mas o guia disse que a fama subiu-lhe a cabeça, ficamos no seu Antônio. O camarão na chapa é o prato chefe de ambos, não é barato (com refri e água, saiu R$50 cada um o jantar), mas realmente estava muito gostoso. Dormimos em rede (R$35), local coberto com palha, com luz, mas sem paredes, até às 2:30h da manhã.
       
      Dia 29/jun - 2º dia: Prometia ser o mais pesado, cerca de 17km até Baixa Grande (o quarto dia que foi o mais cansativo). Começamos a travessia por volta das 3:15h, depois de um bom café da manhã, caminhamos sob a lua cheia iluminando tudo e temperatura amena. Andamos pela praia um bom tempo, cerca de 4h (com direito a cochilada no caminho) até chegar às dunas. Valeu a pena? Sempre, no entanto, tem gente que faz este trajeto de carro e isto economiza umas boas horas. Nas dunas, subida, descida, banho em algumas lagoas. Terminamos em Baixa Grande às 12:10h. Cansei muito! O GPS marcou, durante todo o dia, uns 27km. Eu digo "durante todo o dia", porque ainda caminhávamos pelos arredores do local da hospedagem para conhecer lagoas, rios, ver o pôr-do-sol. Baixa grande é um vilarejo no meio do deserto, mas com construção de alvenaria e vegetação por perto. Almoçamos galinha caipira por R$35 (preço padrão e não é você que escolhe o que comer). Descansamos e, à tarde, fomos para uma lagoa e ver o pôr-do-sol. Dormimos, como sempre, em rede (R$35 preço padrão), sem iluminação, mas coberto com palha e "paredes". O dia seguinte seria mais tranquilo.
       
      Dia 30/jun - 3º: Este terceiro dia foi tranquilo, acordamos por volta das 4:30h para sairmos às 5h, após café da manhã simples (tapioca e ovo). Caminhamos devagar, parando bastante em lagoas e terminamos antes do meio-dia em Queimada dos Britos, o GPS indicou 15km. Eu comecei a usar meia, pois vi que estava começando a formar bolha no meu pé. Almoço (R$35) era peixe (estava salgado), teve salada (artigo raro) e até sobremesa. Lagoas, pôr-do-sol, jantar e dormir cedo, porque não tem muito que fazer a noite.
       
      Dia 1º/jul - 4º: De novo, acordamos umas 2:15h, tomamos café e saímos para caminhar às 3h e alguma coisa. Só terminamos à 12:30h, exaustos, em Santo Amaro. Foi o dia mais longo e mais cansativo, cerca de 28km. Neste dia, mais uma vez, é possível pegar um transporte em Vassouras, economizando assim, uns 10km. Pergunta se pegamos? Não. Faltando uns 8km (talvez 6km), o guia novamente perguntou se queríamos pedir um carro e pagar R$50 cada um. Pegamos o carro? Não, só faltavam 8km... As lagoas perto de Santo Amaro são bem mais bonitas que as de Barreirinhas e, acredito eu, o turismo em Santo Amaro irá aumentar com a boa estrada já existente até São Luís (só falta transporte).
       

    • Por Daniela Alvares
      Pessoal, alguém tem indicação de guia que faz a travessia a pé nos Lençóis Maranhenses?
      Muito obrigada.
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