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Olá viajante!

Bora viajar?

Nepal 2005

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Os protagonistas do trek durante a viagem de busão até Jiri. 10 horas sacolejando e tirando fino de precipícios, sendo que 8 delas viajando no teto. Marcéu é o que tirou a foto e cortou metade da própria cara.

 

Dias 00

 

O trek foi ótimo, ótimo MESMO. Nós andamos por 31 dias, de Jiri até o Campo Base do Evereste e com uma esticada até o vale do Gokyo. Tudo com picos extras e treks secundários que não estavam no programa inicial.

 

Kathmandu é uma cidade única e como tal tem um jeito único de ser. Thamel, bairro comercial de Kathmandu onde há a maior concentração de turistas, é sujo, confuso, poluído, com ruas estreitas lotadas de carros, riquixás, pessoas, bicicletas e motos. E é barulhento, já que todos lá dirigem com a buzina. Adoramos Thamel!

 

Os acordos nas compras de material que faltava para o trek começaram bem. É muito fácil barganhar em Thamel, mas é mais fácil ainda perder horas e horas do precioso tempo de suas preciosas férias conversando com os vendedores que, uma vez demonstrado seu interesse em algo, não mais o querem largar. Nas ruas também é mais certo que a morte você ser abordado por agentes de viagem ou algum dos seus capangas, ou se ver na vexante situação de ignorar os pequenos traficantes que o seguem perguntando "você fuma?" ou "mariuana, haxixe?". "Qual seu preço?" e "seu preço é meu preço" são frases comuns e que vai ouvir nas lojas e ruas. A menos que faça como alguns dos turistas que vimos e simplesmente pague pelo que lhe pedirem, o que considero tremenda burrice, mas enfim, a grana é deles.

 

Isso tudo serviu para que eu, após dois dias em Thamel, ficasse desesperado para iniciar o trek.

 

Então finalmente partimos num ônibus cujos bilhetes que nos tinham sido vendidos por preços exorbitantes estavam caducos e tivemos que comprar outros, por preços pouco menos exorbitantes. Ônibus nepalês é muito pequeno e nossas cabeças quase tocavam no teto. Pralém disso estava lotado e mais gente subia no caminho. O motorista nos disse que iríamos no teto, mas só depois que passássemos algumas barreiras do Exército, o que levou cerca de duas horas, horas essas em que passamos em pé e torcidos sem poder mexer nada nem ter onde nos encostar.

 

Ao se afastar um pouco de Kathmandu, duas horas depois de ter partido, o motorista pára a velha condução, e bota velha nisso, e diz que podemos ir pro teto, o que soou como música aos meus ouvidos e bálsamo às minhas pernas e costas entravadas. Enquanto subíamos ao teto, 80% do ônibus se meteu na mata pra tirar água do joelho. Parecia um bosque de cabeças. Praticamente não havia arbusto sem uma cabeça por cima dele.

 

Embora um pouco ventoso, viajar no teto foi fantástico e de lá tivemos nossa primeira, digo, segunda vista das montanhas (a primeira foi do avião). Era só uma, mas parecia um monstro se elevando do horizonte.

 

Passamos várias barreiras do Exército no caminho, mas essas não se preocupavam com gente no teto.

 

O ônibus segue zique-zaqueando morro acima e abaixo por cerca de 10 horas. Como a estrada é estreita, os finos são inevitáveis, sempre manejados com muita buzina, assobios, gritos e batidas na lataria dos ônibus. Numa das vezes nosso motorista arrancou o retrovisor de outro ônibus que estava "estacionado", porém ele nem parou e seguiu em frente. Acho que ele não queria perder o bom embalo que o ônibus tinha pegado. Aliás, ele não gostava muito de dar lugar aos outros ônibus que vinham em sentido contrário e cada vez que era mesmo necessário que um recuasse pro outro passar, uma pequena batalha de buzinas acontecia até que um dos dois desistisse. Para nosso orgulho o nosso ônibus estava equipado com um belo conjunto de sonoras buzinas e logo éramos campeões de "abre alas que eu quero passar".

 

Numa das subidas, uma de muitas e longas, um pneu furou e lá ficamos quase uma hora até ser trocado, operação que envolveu a gerência, observação e aconselhamento de muitos e o trabalho de poucos.

 

Já de noitinha chegamos em Jiri, após passar por uma última barreira de soldados, que anotaram nossos nomes. Em algumas outras barreiras todos tinham de descer e seguir em fila indiana até o controle e os turistas, nós, ficávamos no ônibus. Dessa vez tivemos de descer também, mas nos mandaram furar a fila e ir pra frente.

 

Após nos inscrevermos, fique de papo com um soldado lá, que recomendou alojamento e deu uns conselhos sobre os maoístas. Prometi que ia ter cuidado e agradeci a ajuda. Não falamos de política. Não acho saudável falar de assuntos polêmicos com alguém segurando uma metralhadora.

 

No ônibus, um dos donos de alojamento subiu conosco e nos pescou pra ficar em seu alojamento, o que, depois de saber sobre comida (repeteco no dhal?) e banho (incluído no preço?), aceitamos. Lá encontramos mais alguns trekkers. Um deles estava voltando e o resto, inclusive nós, estavam indo. O que estava voltando disse que não queria estar em nossa pele, o que não diminuiu nosso entusiasmo, mas foi um primeiro contato com as durezas que nos esperavam. O cara, Paul, tinha cara de exausto mesmo.

 

Banhos tomados e de barrigas cheias, fomos pra cama, ou melhor, pros sacos, ansiosos pela chegada do dia de amanhã, primeiro dia de um longo trek.

 

Continua...

 

[]'s

 

Hendrik

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Dia 20

 

Dia repleto de uma grande ausência de acontecimentos. Por ter me machucado, não podemos ir para Gorak Shep hoje, como planejado, e teremos de ficar por Lobuche por sei lá quanto tempo. Pelo menos até meu pé conseguir aguentar todo peso da mochila sem que espasmos insuportáveis de dor se manifestem na minha cara.

 

Decidi seguir a sugestão de Marcéu e fui ao riacho algumas vezes para fazer compressas no pé, que doeram mais que a própria torção. Marcéu veio uma vez para lavar sua toalha, só que a água estava tão fria que ele apenas a jogou entre umas pedras do riacho e enrolou uma ponta num graveto para poder resgata-la mais tarde, depois que a correnteza fizesse todo trabalho de limpar a sujeira. Enquanto isso, meu pé deixou de doer e passou à completamente insensível devido ao frio. Podia bate-lo, mexe-lo e tudo, mas não o sentia de forma alguma.

 

Enquanto estamos ocupados com meu pé congelado e com tentativas de traze-lo de volta à vida, uma fila de yaks se aproxima do nada e cruza o riacho um pouco acima de onde estamos, quase pisando na toalha de Marcéu, que escapou dos cascos das bestas mas não da lama que levataram e que correu com a correnteza para onde ela estava. Agora de suja a toalha ficou imunda de lama e xixi de yak. Depois que a tropa passou, Marcéu se resignou e meteu a mão na água para lavar, demoradamente, sua nova toalha marrom. Enquanto isso meu pé descongelou, a dor voltou redobrada e eu lutava para mete-lo nas botas. Felizmente, ao me levantar, podia andar melhor, ou mancar menos, como preferir.

 

Também demos outra volta atrás de livros. Desta vez tive sorte e numa pensão chique, seja lá o que isso signifique na trilha para o EBC, o recepcionista me deu uma metade de um livro. Estava sem capa, com folhas caindo e todo sujo. Mas a metade disponível era a primeira metade, e era de graça. E de graça até ônibus errado. Aceitei alegremente o presente. Mesmo depredado, continha páginas suficiente para me entreter por vários dias. De volta ao nosso alojamento peço água quente e vou cozinhar o pé por um bocado.

 

Passamos o resto do dia fazendo nada. Sonecas, livros, banhos de sol quando o vento deixava, comer, beber chá... essas coisas.

 

Já de noite, o casal francês parece estar pior. Não sei se fizeram o que queriam, mas não parecem se aguentar de pé. A forma como falam em fazer isso e aquilo não casa bem com a imagem que passam. Alguns americanos estão presentes e é uma agradável surpresa para mim que não sejam como pensamos eles serem: arrogantes, egocêntricos, donos de tudo, etc.

 

Brincadeira. Eram gente boa, apesar do inglês de alguns ser bastante difícil de compreender, apesar de tantos filmes já assistidos.

 

Também há gente da Itália, Suíça e Japão, entre outros. Casa cheia, devo observar. Todo mundo se espremendo nos bancos. Achei engraçado os japoneses e suas engenhocas para medir seu bem estar quase que ao nível molecular. Parecem o oposto de mim. Eles bem cuidadosos e eu sem cuidado algum.

 

Vou cedo para a cama. Mais tarde Marcéu vem também e diz que umas pessoas vieram de Pheriche, enfermeiros ou algo assim, perguntando pelos alojamentos sobre se estão todos bem, esclarecendo dúvidas, essas coisas. Ficaram um tempão falando com o casal zumbi de franceses.

 

Graças às compressas e gel, meu pé doe bem menos agora e penso que amanhã será possível ir para Gorak Shep. Mais um dia sem nada para fazer fora congelar e cozinhar meu pé é pior que a dor de andar com ele assim.

 

Continua...

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20z2lobuchegorakshepmarceudico.jpg

Várias fotos para comemorar o tão esperado dia:

1) No pico do Kala Pattar, em nosso primeiro dia em Gorak Shep: o Evereste, por fim.

2) Panorâmica do Ama Dablam

3) Os protagonistas, bem felizes de terem alcançado o cume do Kala Pattar.

 

Dia 21

 

De fato meu pé doe bem menos e decido que é o suficiente para aguentar algumas horas de caminhada. Como terei de andar muito, muito, muito devagar, saí primeiro que Marcéu.

 

A primeira parte dessa trilha, em volta do glaciar de Lobuche, é bem plana, então consegui supera-la bastante bem, chegando até a ultrapassar uma senhora de certa idade. Uma façanha, sem dúvidas. Como não há muitas pedras no caminho, não tenho de me preocupar muito onde porei o pé machucado. Fora isso, apenas o vento é sádico em seu constante soprar frio, forte e afiado. Sorte minha que estou de costas para ele, o que até ajuda, pois sou meio que empurrado, facilitando minha vida.

 

Espero ver a Pirâmide Italiana em breve, mas por mais que cambaleie pela trilha, não a vejo, o que me preocupa sobre o quanto terei de andar hoje. No LP a Pirâmide é colocada mais ou menos no meio do caminho entre Lobuche e Gorak Shep, então ver a Pirâmide é sinal de estar na metade do caminho. Como não a vejo, temo pelo tempo que terei de ficar na trilha.

 

Xixi é outra difícil tarefa de ser executada aqui, mas justamente no sopé da subida para a moraina do Khumbu há uma enorme pedra que parece ser perfeita para o trabalho. Me aproximando dela, vejo muito papel higiênico pelo chão e manchas na pedra que não se parecem muito com o resto da cor da mesma. O chão também possui partes molhadas e secas. Acho que este é o banheiro público do caminho, eleito tal por muitos trekkers e escaladores desde bastante tempo em suas gloriosas aproximações do grandioso Evereste. Fico pensando se Hillary parou ali. Se colocarem uma placa dizendo W.C. ou começarem a escrever na pedra as infames piadinhas de banheiro, seria oficial.

 

Aproveitando que tratamos de assuntos menos nobres: uma vergonha, grande vergonha, a forma como o caminho estava cheio de lixo. Não me refiro apenas ao papel higienico, que sendo feio como é e uma poluição de qualquer maneira, acabará por eventualmente se dissolver num relativo curto espaço de tempo. Também não falo sobre embalagens de tabaco, de RARA (o miojo de lá) jogados aqui e ali por carregadores e outros nepaleses, que aparentemente possuem pouca compreensão sobre as consequências dos seus atos. Falo sobre as centenas de papel de Halls e similares, fora as dezenas de embalagens, latas e garrafas plásticas cujas procedências, usos e preços podem apenas ser atribuídas à nós, os civilizados ocidentais cujas férias estão transformando o caminho ao Evereste numa trilha de lixo. Dá para suportar fezes, xixi ou papel higienico, mas papel de Halls ou Mars, garrafas plásticas de água ou Coca-Cola, embalagens vazias de Paracetanol, Diamox e outros medicamentos, jogados no chão por toda parte, isso é imperdoável.

 

Bom, a pedra-banheiro está muito bem onde está, porque é precisamente antes do inferno que a ladeira à frente é, a que sobe prá moraina do Khumbu. Não é longa e seu topo é perfeitamente visível do sopé, mas é muito íngrime, estreita, poeirenta e cheia de gente e yaks. De fato uma parte difícil da trilha, como pude verificar em primeira mão. Suas curvas estão cheias de trekkers colapsando, como eu, que não conseguem dar 10 passos sem parar sem fôlego, como eu, xingando o dia que resolveram ir prá lá, como eu e amaldiçoando deuses sobre, sob e abaixo da Terra. Talvez as religiões com práticas penitenciais devesse adotar este trek como penitência aos seus fiéis seguidores que vão para eles, tipo dizendo “Padre, eu enganei minha esposa”, aí o Padre diria “Filho, o deus X lhe perdoa. Agora vá fazer um trek ao EBC sem guia ou carregador para pagar seus pecados”.

 

Eu ainda tinha o adicional problema do pé, para junta-lo à falta de ar. Como agora é pedra para todo lado de todos os tamanhos, feitios e posições, tenho de estudar cuidadosamente cada passo que dou com o pé, para esse desça na posição certa sem doer demais. É uma operação delicada e precisa, por isso estou aplicando para que seja reconhecida como Ciência Exata. Não é fácil detectar e analisar toda pedrinha de Lobuche até Gorak Shep, decidindo de ela está ou não satisfatoriamente posicionada em condições de ter meu pé por cima. Poderia muito bem nomear todas as pedras maiores que um polegar entre os dois assentamentos.

 

Depois dessa ladeira, estou na moraina. Achei que iria ser mais fácil daqui prá frente, o que é tranquilizador. Infelizmente a trilha não pretende cooperar com minha tranquilidade e se desdobra numa infinidade de sobe e desce e curvas por toda sua extensão. Sendo uma das trilhas mais estreitas que já peguei, se não a mais estreita, suas subidas e descidas de pedra e íngrime, a altitude e o fluxo de gente e bicho indo e voltando... bem... acho que é de fato uma das partes mais difíceis do trek.

 

Em certa curva em subida da trilha, onde eu mancava penosamente para vencer, vi alguns yaks vindo em minha direção e fui vagarosamente me posicionar em lugar mais seguro. Olhei para trás e vi alguns trekkers vindo, porém eles não podiam ver os yaks, então falei para eles que os bichos estavam vindo e eles foram se proteger também. É aí que uma garota que vinha na frente dos yaks, vendo todo esse espaço extra sendo aberto diante dela, acha que é uma boa hora de tirar a câmera e fotografar o glaciar, abertamente visível à nossa frente e vários metros abaixo de nós. Ela pára mesmo do meu lado e fica lá tirando fotos tranquilamente, na beirada da trilha, à poucos centímetros do barranco. Uma queda respeitável, se ela escorrega. Como ela estava à poucos metros dos yaks, assumi que ela soubesse o que fazia e o que vinha logo atrás dela. Quando os bichos chegam à uns 2 metros, já não tenho tanta certeza e fico falando para a trekker que a bicharada vem chegando. Ela ignora o que digo e continua sua sessão de fotografia. Os yaks também ignoram ambos ela e sua arte e seguem em frente. Eu fico nervoso e falo mais alto para ela sair dali. Ela permanece. Os yaks também permanecem seguindo seu caminho. Quando eles chegam à 1m dela, começo a gritar “yak!yak!yak!”. Ela me ignora e então começo a balançar os braços e bastões para ver se os bichos param, mas os bichos não param. Tal como a garota, ignoram minha presença e ameaçadores bastões. Parece que yaks e garota dividem um senso comum de propósitos e limitado poder de concentração para uma tarefa de cada vez. O chifre pontiagudo do primeiro yak erra a mochila da garota por poucs centímentros, mas sua bagagem, bem mais larga que o yak em si, consegue acerta-la. Felizmente para a garota, e todos que observavam o ocorrido, a carga do yak bate de frente na garota, que se desequilibra um pouco mas é empurrada para frente e não para o barranco. Finalmente reconhecendo a presença dos yaks, ela sai dali. Todo mundo estava achando que iam presenciar uma queda feia.

 

Voltando à rotina da caminhada normal, Marcéu em breve surge e me ultrapassa. Não sei onde ou se foi antes ou depois do incidente com a garota, mas sei que ele saiu de Lobuche quase uma hora depois de mim e já está aqui, em ótimas condições, praticamente atropelando irmãos, sherpas, carregadores, trekkers e yaks em sua imparável passagem. O filho-da... nasceu para isso.

 

Eu sou então deixado na companhia dos mais velhos ou mais doentes que, como eu, param mais do que andam.

 

A moraina parece se extender para o infinito e meu tempo andando nela parece durar para sempre quando a última subida aparece, tão difícil quanto a primeira. Acho que é para manter a simetria. Pelo walk-talkie acompanho a chegada e negociações que Marcéu faz em Gorak Shep, que são rápidas já que só há três pensões por lá. Para minha sorte, ele fica na primeira das três, abreviando nalguns metros minha caminhada.

 

Fico muito feliz ao chegar em Gorak Shep. Meus objetivos estão mais perto que nunca, ainda que permaneça a dúvida se iremos ter uma boa aclimatização aqui. Estaremos agora todo tempo acima dos 5000m.

 

Novamente noto certa discrepância entre as descrições dos guias e relatos e o que encontro in loco. Segundo publicações, Lobuche seria o “sovaco” dos Himalaias e Gorak Shep, um lugar muito “inóspito”. Apesar de haver apenas três opções para alojamento, essas pensões são enormes, dando ao local uma aparência mais desenvolvida que a de muitas vilas que achei pelo caminho. A grande preocupação dos trekkers: quarto, banheiro e comida, são iguais às de qualquer etapa da trilha. Inclusive os refeitórios são enormes se comparado com o que ficamos em Lobuche. A única coisa inóspita que achei por ali foram os preços, de fato bastante agressivos para nossa parca economia.

 

Nosso alojamento é grande, como disse. Refeitório grande e um monte de quartos pequenos. O dono concordou em fazer um preço menos salgado por um quarto perto do banheiro, sem janela e sem luz, claro. Ficamos ali mesmo. No corredor, achamos uma bandeira do Brasil, recordação de uma turma que passou por ali uns anos antes. É a primeira vez que vemos algo do Brasil na caminhada e nossas esperanças de achar brasileiros torna a viver. Temos pequenas bandeiras do Brasil toscamente costuradas em nossas mochilas, na esperança de alguma identificação positiva ser feita, o que não ocorreu.

 

Quando cheguei em Gorak Shep era hora do almoço e eu estava faminto. Muita gente estava espalhada pelo grande refeitório. Um ambiente verdadeiramente multinacional, que eu gosto bastante de ver e ouvir. Infelizmente as porções de comida são em dimensões de restaurantes do primeiro mundo.

 

Para avaliar a altitude e econômia dos lugares, criei a medida “biscoito de coco”, onde o preço do pacote dessa iguaria me dava uma idéia precisa sobre o isolamento, altitude e nível econômico do lugar. Aqui o pacote era absurdamente caro. Mesmo assim não pude deixar de reparar muita gente não se privando de várias guloseimas caríssimas, como os supra citados biscoitos, e Coca-Cola ou Mars. Deve ser reconfortante não ter preocupações quanto ao dinheiro...

 

De qualquer forma, após o almoço nos preparamos para subir o famoso Kala Pattar. Para mim é tarde demais, mas acho que conseguimos administrar o tempo que nos resta e subir o morro antes do pôr-do-sol. Novamente, uma grande alegria carregar meu kit de subida ao invés da cargueira. Por conta do vento frio, usei meus Thinsulate por baixo das mittens.

 

Os alojamentos são construídos em volta de um plano arenoso grande, que temos de atravessar para chegar ao sopé da montanha. Depois disso, a subida tem início de forma abrupta. Ao contrário das montanhas anteriores, onde a subida se torna gradualmente íngrime, a do Kalla Pattar vai do plano ao íngrime em poucos passos.

 

Conseguia acompanhar Marcéu no início, mas meu problema com fôlego cedo me colocou numa rotina de parar diversas vezes e a distância entre nós dois crescia mais e mais. Outra vez estou por minha conta e risco.

 

Tal como Chokung, esta subida é longa. Muito bom ver o pico do Evereste aparecer mais e mais à medida que subimos, mas não tão bom ao ponto de me fazer esquecer o cansaço. Cedo chegamos na parte dos zigue-zagues, uma tiragem longa deles. Para meu desespero, muitas pedras e bandeiras estão colocadas em diversas dessas curvas, que minha mente e corpo cansados liam como sinais que a tortura estava no fim. Mas eram apenas falsas esperanças. Chegando lá, outro lance de montanha se descortinava. E outro. E outro.

 

A subida final é outra ridícula de tão íngrime. Ao seu pé, podemos ver os dois picos do Kala Pattar e a crista que liga os dois, no meio da qual ficam as tradicionais torres de pedra. Muitas delas. Marcéu está lá longe, já bem avançado na subida. Muitos trekkers seguem para o pico maior, da esquerda. Alguns seguem por outra trilha, para a seção da crista com as torres, perto do pico menor, da direita. Marcéu segue para lá.

 

Juntando-me à procissão de trekkers tossindo e colapsando na trilha, inicio a subida final. Ainda não estou certo sobre qual o cume alto do morro, então pergunto à um trekker feliz que vem descendo a rampa, que me confirma ser o menor, da direita. Parece então que estamos na trilha certa e, sem mais com o que me preocupar senão em chegar lá em cima, abaixo a cabeça e entro em “modo yak” por um tempo. Quando chego na metade da subida, levanto a cabeça para ver se Marcéu já chegou lá em cima, o que suponho ter ocorrido, e para minha surpressa o vejo atravessando na perpendicular a distancia que separa as duas trilhas e indo para a do pico maior, mais baixo. Não sei porque ele decidiu isso, mas está longe demais para gritar e não creio que consegueria produzir um grito decente ali, onde mal conseguia respirar.

 

Com Marcéu quase no pico maiore mais baixo, eu chego no meio da crista que separa os dois picos e me sento para um mais que merecido descanso. Esse passe é um verdadeiro paraíso na terra, porque todas aquelas torres impedem que o vento nos castigue demais e nos deixa saborear o calorzinho do sol. Fico uns minutos ali sentado quando um trekker, descendo do cume menor, chega e fica ao meu lado, expressando muita alegria. Descubro que grande parte dela se devia ao fato de estar ali embaixo, protegido do vento. Ele diz que o cume menor é particularmente exposto e que por isso o vento frio sopra forte lá em cima. Fora eu ali, ele é o único pelos lados do cume menor. Todo resto foi para o maior.

 

Por fim, com as energias repostas pelo descanso, fui fazer o ataque final ao cume. Não foi nada como ir ao Chokung Peak, mas também não era nenhum passeio. A trilha é só pedras de diversos tamanhos e o vento forte e frio de fato torna tudo mais penoso. Quando enfim chego ao cume, não podia mesmo ficar de pé, com medo do vento me fazer cair. Os últimos metros da subida fiz subindo de quatro, me segurando nas cordas das bandeiras de oração que tem por lá. Como o topo em si é muito pequeno, deixei a mochila mais abaixo e levei apenas a câmera à tira-colo e minhas luvas sem dedo. O frio intensificado pelo vento forte me impede de apreciar bem a paisagem e me limito a olhar em volta, tirar algumas fotos até minhas mãos não aguentarem mais a dor e descer rapidinho.

 

Ter estado lá foi realmente a concretização de um sonho, com vistas incríveis dos glaciares e montanhas em redor. O Evereste está bem de frente e o saber o quão distante ainda estamos do seu pico gelado aumenta ainda mais a sensação de assombro. Pumori virou uma parede mesmo ao lado. Até dá a impressão que bastava esticar o braço para toca-lo.

 

Tremendo de frio, desci o mais rápido possível até o ponto entre-picos e me aninhei entre as pedras e torres, de forma a ser aquecido pelo Sol sem ser pertubado pelo vento. Fico lá até descongelar e sentir minhas mãos outra vez. Mais gente está chegando agora, inclusive Marcéu, que deve ter me visto quando ele foi no topo menor. Achei que pela hora eu seria o último a estar lá, mas pelos vistos o cume em breve estará cheio.

 

Marcéu e outro cara chegam e vão para o cume. São os únicos por lá, mas cerca de uma dúzia de outros trekkers se aproximam. Não sei como farão para caber todos naquele pico minúsculo.

 

Quando Marcéu e o outro cara chegam, fazem como eu e procuram logo se abrigar do vento e pegar Sol. Conversamos um pouco e tiramos fotos. Um grupo de faisões chegam e viram atração. Mas não quero ficar lá muito tempo. Estou cansado do dia e a tarde avança rápido.

 

Descer mais uma vez prova-se mais fácil que subir. Milhões de vezes mais fácil. Praticamente corro ladeira abaixo e apenas meu pé me impede de ser mais rápido. Encontro um cara vestido todo de amarelo e lhe dou encorajamento e sigo em frente. Depois, já bem depois da ladeira final, cruzo com um casal que avança lenta e penosamente, especialmente a garota, que veste um casaco fino e está de... jeans! Também levam cerca de meio litro de água cada um, nada mais. Não lhe dou palavras de encorajamento porque acho que eles precisam é de um milagre, não de coragem.

 

Logo mais à noite no jantar, o refeitório está cheio, mas conseguimos bons lugares. Para não perder o hábito, discuto com Marcéu sobre algumas regras malucas do Truco, que desconfio terem sido inventadas na hora para que ele ganhasse. É então que escuto o inconfundível português do Brasil ser falado. Quando conseguimos identificar a fonte, lutamos com nossa timidez por um instante e por fim falamos bem alto “Ei, Brasil!”. Vemos mãos se levantarem e fomos para lá. Um casal de brasileiros que mora em Nova Iorque e Fred, um cara de São Paulo. Fred viaja já faz uns meses e tem estado em companhia de um austríaco nos últimos tempos, Chris, que tem feito o mesmo faz uns 6 meses também. Conversa vai, conversa vem, ficamos sabendo que o casal vai ao Kala no dia seguinte e depois volta para casa. Estão com carregadores e guia. Fred e Chris vão para o EBC e combinamos ir juntos. Fred me diz que caminha devagar, que soa como música aos meus ouvidos. Chris, que foi ao Kala e ainda não voltou, foi corredor de maratona e anda bem rápido, o que é perfeito para Marcéu.

 

Então amanhã, por volta das 7h, vamos enfim para o Campo Base do Evereste, que foi originalmente a idéia inicial de todo este longo trek.

 

Continua...

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e ai hendrik

 

naõ sei se essa info ja foi dada...se foi me desculpe a falta de atenção..

 

qual a tempratura ideal que o saco de dormir precisa suportar pra não passar frio na trilha???

 

to me decidendo entre um de -5graus e zero graus...o q vc acha???

 

valeu

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Para um trek nos Himalaias nepaleses? um -20°.

 

Bom... também tem de ver se você é friorento. Tinha um austríaco lá com um -5°, mas de boa marca e ele só dormia em alojamentos que tivessem cobertas, o que nem sempre se encontra. Creio que ele passou algum frio...

 

Abaixo dos 3000m, pode ser que o -5° quebre o galho, mas quando chegar nas etapas de alta altitude, creio que -5° é insuficiente. Eu tive frio algumas vezes com meu -20° de marca peba. Tive de usar agasalhos algumas vezes para compensar. Abaixo dos 3000m, passei calor.

 

Apesar de Out-Jan serem os meses mais frios nos Himalaias, um bom saco-de-dormir e roupas quentes são imprescindíveis.

 

[]´s

 

Hendrik

 

P.S.: Tem uma seção no fórum só para Nepal (e Tibete). Não que me importe em tirar dúvidas aqui, mas pode ser que assim o pessoal que procure por dicas semelhantes vá para lá e no fim não acha nada porque as dicas vão estar aqui.

 

P.S.2: O fórum, em inglês, www.trekinfo.com é muito bom e inteiramente dedicado ao trek no Nepal. Muitos participantes fizeram muitos treks por lá e sempre ajudam os novatos. Me ajudaram muito com as dúvidas que tinha antes de partir para o Nepal.

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parabens pelo seu otimo e agradavel texto, Hendrik.. bom mesmo!

Qdo sai o livro? tem vernissage?

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Fala Hendrik!

 

Fiquei sem checar o forum depois do ultimo piripaque e confesso que fiquei muito feliz de reencontra-lo cheio dos teus relatos!

 

Abracao

 

Vinicius

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Valeu pelo suporte, gente.

 

Dei uma pesquisada sobre publicar livro, mas a coisa é difícil via editora e cara via independente.

 

Além disso, relendo meu relato, achei-o bem ruinzinho em todos os sentidos: cansativo, gramaticalmente pobre, confuso em algumas áreas, repetitivo... se um dia isso for servir de base para tirar um livro, muita coisa vai ter de mudar ou melhorar.

 

Mas obrigado por le-lo assim mesmo!

 

[]´s

 

Hendrik

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Várias fotos para comemorar a realização do nosso sonho: o EBC!

1) À caminho do EBC, caminhamos por dentro do glaciar Khumbu.

2) Marcéu de nariz vermelho, sob umas assustadoras pedras e estalactites de gelo presas por um fio.

3) Marcéu sobre os destroços do segundo helicóptero caído durante uma missão de resgate.

4) Da esquerda para a direita: Eu (Hendrik), Fred (de Sampa e que conhecemos em Gorak Shep), Chris (da Áustria e que era companheiro de trilha do Fred) e Marcéu. Alta comemoração no EBC - notem a garrafinha de whisky e Coca-Cola. Objetivo alcançado!

5) Marcéu deixando o EBC.

6) No EBC, muitas pedras enormes estão no topo de colunas de gelo.

7) Já perto de Gorak Shep, em nosso regresso do EBC ao cair da noite, as nuvéns cobrem tudo, mas os últimos raios de Sol iluminam os topos das montanhas mais altas, que parecem estar a flutuar no céu.

 

Dia 22

 

Dia do EBC! Dia do EBC! Dia do EBC! Dia do EBC!Dia do EBC! Dia do EBC!

 

Finalmente chegou o dia para ir ao Campo Base do Monte Evereste! Depois de ano e meio sonhando, planejando e juntando o máximo possível de grana, irei ver e estar no Campo Base do Evereste! Ano e meio chateando e aborrecendo todo infeliz com o malfadado destino de cruzar comigo ou estar à minha volta, real ou virtualmente, sobre essa viagem, tomando toda conversação como tendo único e natural propósito de falar sobre o trek. Finalmente irei calar minha boca e eles poderão retomar suas conversas sobre tópicos e temas menos importantes, como política, situação social interna ou externa, problemas ambientais, se há ou não algum deus aí fora e qual seria esse deus, etc. Incrível como as pessoas podem falar de tamanhas futilidades quando não estão indo caminhar nos Himalaias nepaleses...

 

Pessoalmente teria preferido sair mais cedo de Gorak Shep, mas como Fred e Chris também virão e eles estão acostumados a sair mais tarde, me submeto ao ritmo deles. 7.30h e com tudo pronto para partir, Marcéu se dá conta que seus bastões estão sumidos. Dependemos tanto desse equipamento que sair sem eles é impessável. É como sair sem as pernas. Não dá.

 

Mas o problema maior é que ele tem certeza de ter deixado ao lado de sua mochila, que estava do lado de fora do alojamento, num daqueles muros-bancos que os carregadores usam para descansar suas cargas. Portanto ele acha que alguém os levou.

 

Eu não consigo acreditar nisso. Embora não seja impossível haver roubo no trek, é tão raro entre os que viajam só e mais raro ainda entre quem viaja acompanhado que eu acho que Marcéu esqueceu onde colocou os bastões ao invés de alguém os ter pegado.. Ele se ofendeu muito diante dessa sugestão e iniciamos uma pequena porém ríspida briga, é claro. Já sentia falta das brigas... tantas horas sem nenhuma...

 

Olhamos no quarto, no banheiro e refeitório diversas vezes. Não sei qual a lógica de se olhar no banheiro, muito menos diversas vezes, mas estamos desesperados, por isso racionalidade não conta muito aqui. Foi então que me lembrei de ir ao refeitório e perguntar ao gerente da pensão se alguém sabia algo sobre uns bastões esquecidos... digo... pegados. O homem aponta para uma pilha enorme de bastões encostada num dos cantos do refeitório. Vou lá, remexo tudo e acho os de Marcéu. Triunfante, por ter estado certo o tempo todo, levo-os para ele, que quase imediatamente entra em modo de fúria diante de minha estúpida revelação de que os bastões tinham sido encontrados esquecidos no refeitório. Já é tarde e desde muito que deveríamos estar à caminho do EBC, então digo que tudo bem, que o que importa é que os bastões foram encontrados e vamos embora. Ele insiste e fica murmurando sobre sua prodigiosa memória e eu murmurando sobre que tudo bem, os bastões foram encontrados e vamos embora.

 

Nesse pacífico estado da mente, partimos para o sonhado e mágico EBC...

 

Fico imaginando se outros grupos são assim também. Sempre que cruzo com um ou os vejo nos alojamentos, parecem estar tão acima dessas insignificâncias. Fico imaginando como conseguem superar as brigas.

 

De qualquer jeito, com Fred no grupo eu finalmente ganhei um companheiro de trilha. Ele é quase tão lento quanto eu, mais para menos lento. Abaixo dos 4200m isso não seria problema algum, mas agora, acima dos 5000m, é um monte de problema e o esforço de manter o rítmo num andar sem pausas frequentes requerem de mim um esforço devastador. Diversas vezes tenho de recorrer ao truque da “parada para foto” ou “parada para xixi”. Achei que Marcéu e Chris iriam sumir de vista, mas para minha surpresa Chris fica sempre esperando por Fred quando a distancia se torna muito grande ou quando ele quer dizer algo ou apontar algo. Gostei da atitude dele.

 

Desde Duglha, acho, que venho ouvindo comentários desfavoráveis sobre o EBC. Aparentemente a maioria dos trekkers não vai lá, principalmente os organizados. Por isso à caminho de Gorak Shep eles simplesmente ficam justificando suas decisões sobre não ir ao Campo Base falando mal do mesmo. A difamação mais comum é de que o lugar não tem nada de especial que justifique um dia de caminhada. “Apenas pedras, sem nada para ver” é a “justificativa” mais comum. Outra “razão” é que a principal razão de se ir lá é uma meramente simbólica, o de estar no Campo Base da mais alta montanha do mundo. Aparentemente para eles isso é apenas vanidade. A esmagadora maioria nessas conversas difamatórias são pessoas que nunca estiveram lá.

 

Eu mesmo nunca estive lá e a razão para ir era a fútil: estar no Campo Base do Evereste. Me parece estranho fazer a trilha para o EBC e não ir ao EBC. É como ir à Roma e não ver o Papa. Deviam chamar o trek de “trilha para Kala Pattar”, se não pretendem fazer o EBC. Lembro-me a frase de George Mallory, quando lhe perguntaram porque escalar o Evereste. “Porque está lá”. Ou seja, nem sempre se precisa de uma razão para ir ou estar num lugar. O estar num local com imenso apelo simbólico é uma das forças por trás de qualquer aventureiro, explorador, descobridor ou simples mochileiro como eu mesmo.

 

Mas por enquanto estamos apenas na moraina do glaciar e já discordo fortemente das pessoas que acham que o lugar é só um monte de pedras sem nada para ver ou fazer. Ao contrário da parte que segue para Gorak Shep, esta parte da moraina é bastanete solitária, o que é mais uma razão de estar gostando dela. Talvez cruzemos meia dúzia de trekkers durante todo dia e nenhum yak de todo. O lugar em si é mágico. Nas paradas para descanso podia-se ouvir o glaciar rachando e eventuais avalanches ao longe. Tudo estava vivo, bem vivo. Mesmo que ao olhar tudo pareça morto e devastado.

 

Quando cruzamos a moraina, descendo e subindo para o glaciar em si, a impressão de estar sobre um outro planeta fica cada vez mais forte. Se o ar não fosse respirável, não teria dificuldade alguma em acreditar que fomos transportandos para um mundo desconhecido. Se não pelo gelo e céu, poderia ser Marte. Todos os detalhes do lugar são formidáveis: as altas paredes de gelo, grande pedras suspensas sobre finas colunas de gelo, as cascatas de gelo com imensas estalactites alcançando o chão, grandes poças de água gelada e cavernas de gelo e pedra, as torres de gelo esculpidas pelo vento ao longe, na grande cascata de gelo que desce do Evereste, a fina camada de terra e pedrinhas que cobre o imenso chão de gelo por onde andamos... tudo isso é tão diferente e estranho de tudo que vimos até hoje que acho inacreditável haver gente pensando e afirmando que o local não vale a pena ser visitado. Claro, talvez possuam valores diferentes dos meus, mas me parece injusto que digam tudo que ouvimos dizer nos alojamentos. O lugar é sensacional e com certeza merece ser visitado, se não mesmo passar dois dias nele, acampando. Isso é, se você puder aguentar o frio da noite e matinal, o que eu não podia.

 

Sem nos darmos conta, Chris, Fred, Marcéu e eu nos transformamos em crianças, como se estivéssemos num parque, correndo de um brinquedo para o outro, rindo e conversando animadamente sobre o que estava em volta, por qualquer razão, por menor que fosse. Entramos nas cavernas, patinamos nas poças congeladas, brincamos com as estalactites, andamos em volta das pedras sobre colunas de gelo e paramos à cada 5 minutos para apreciar o que havia em redor. Cada volta na trilha era mais uma descoberta, mais brinquedos, mais diversão. Quando chegamos aos helicópteros já estávamos eufóricos o suficiente para esquecer toda vergonha e ficar brincando neles. Entramos neles, subimos neles, fotografamos, examinamos, sentamos nos manches de controle, apertamos botões, etc.

 

Depois disso tudo, achamos que chegou a hora de ir examinar a cascata de gelo em si. Descendo para lá, a quantidade de pedra diminui e a de gelo sobe. Gelo para todo lado. Altas paredes, morros e vales de gelo. Devido ao vento, a superfície do gelo é toda serrilhada, o que é bom para segurar as botas, mas não queria cair ali e bater com a cabeça ou mãos naquelas lâminas finas de gelo. Ficamos um bom tempo andando às voltas ali dentro. O segundo helicóptero serve de referência para o caso de nos perdermos. Qualquer coisa era só subir um morro de gelo e ver onde o helicóptero estava para saber de que lado ficava a saída daquele labirinto gelado. Agora ele é um pontinho azul lá longe no glaciar. Porém sinais da passagem dos humanos estão espalhados por todo lado: pedaços de cordas, latas, papeis de diversos tipos, pacotes vazios, pedaços de equipo... tudo espalhado em volta. Uma vergonha, sem dúvida. Com isso tudo, a ilusão de estar em outro planeta diminui bastante.

 

Acho que está ficando muito tarde e inicio a procura de um lugar onde podemos fazer nosso pic-nic comemorativo. Depois de andar um pouco por entre as paredes de gelo, descubro um pequeno vale com chão de pedra que parece ter espaço suficiente para montar o fogareiro e nos ter sentados em volta para almoço. Duas imensas paredes de gelo estão de cada lado, o que protege um pouco o local do vento. Pequenas avalanches caem ao longe, mesmo em frente. Perfeito. Deixo minha mochila lá e vou caçar Marcéu, que está bem ocupado com sua própria exploração. Fred e Chris estão bem à vista, no alto de um morro de gelo de onde estão apreciando tudo e conversando, como se estivessem no topo do próprio Evereste. Eles também se apaixonaram pelo lugar.

 

Encontrei Marcéu e o guio para o meu vale, onde começamos a arrumar tudo para o pic-nic. Hoje nosso kit de caminhada secundária está um pouco maior. Há coisas que estavam nas mochilas por dias. Tenho a coca que comprei em Namche e Marcéu a pequena garrafa plástica de whisky Everest, também comprada em Namche. Uma pasta de nozes super-doce que compramos na Suíça e alguns chocolates sei lá de onde. Alguns pacotes de biscoito de coco e mais umas besteirinhas compradas aqui e ali durante o trek. O extra peso não importava muito, pois se tratava da comemoração de ter atingido o tão sonhado, por ano e meio, Campo Base do Evereste. A coca caiu redonda e experimentei o whisky de Marcéu, mas achei muito forte. Até Marcéu achou isso e ele é mais experiente no assunto que eu. Para mim, é alcool puro. Mas de novo, eu não sou de beber e praticamente toda bebida um pouco mais forte vai me parecer ser alcool puro. Sorte nossa que gelo era o que não faltava para pôr na garrafa. Quebramos a ponta de uma estalactite de gelo e metemos no gargalo. Melhorou um pouco. Chris e Fred chegam logo à seguir e se unem à comemoração. Tiramos umas fotos juntos, bebemos um pouco, comemos uns doces e conversamos por cerca de meia hora. Mas eles não podem fica muito tempo e logo se vão para Gorak Shep. Quando parte, arrumamos o fogareiro para cozinhar uns pacotes de comida liofilizada, compradas à preço de ouro e que trazemos desde a Suíça. Foi complicado manter a chama estável, mas conseguimos cozinhar e comer. Lavar as panelas e talheres custou mais ainda, pois tinha de ser num regato geladíssimo. Nossa mesa era um bloco horizontal de gelo.

 

Depois de tudo lavado e arrumado, resolvemos voltar. Era mais tarde do que eu gostaria que fosse, por isso fomos mais depressa, o que era obviamente nada parecido do que ir depressa ao nível do mar. Quando chegamos no ponto onde saímos do glaciar e subimos para a moraina, cruzamos com uma dupla, pai e filho, indo para o EBC. Eles perguntam se falta muito e digo umas duas horas, na esperança que desistam de ir hoje. Mas eles parecem determinados a conhecer o EBC hoje mesmo e somem nos meandros do glaciar. Eu e Marcéu subimos a moraina com alguma dificuldade, mas quando chegamos ao todo, a trilha é bem plana e progredimos rápido em direção aos alojamentos.

 

Mais ou menos à meio do caminho, já com as núvens cobrindo tudo e com o Sol já escondido por trás delas e dos picos mais altos, temos uma visão que parece ser bem típica de lá: quando um eventual e estrategicamente localizado buraco se abre nas núvens, podemos ver apenas a parte do pico de uma grande montanha, todo amarelo iluminado pelos raios do Sol. O meio e base da montanha estão escondidos pelas núvens e crescente escuridão. Só o pico é visível. É como se estivesse flutuando no céu. Uma coisa enorme brilhante flutuando no céu. Que Spielberg que nada! Efeito especial é nos Himalaias!

 

Chegamos no alojamento já escuro, como quando voltamos dos Chokungs para Dingboche. Despejamos as coisas no quarto e fomos comer. Para minha surpressa, Fred e Chris ainda estavam lá. Parece que Fred não está passando muito bem e resolveram descansar um pouco e ver se conseguem fazer o Cho la junto com a gente. Mas antes querem descer até Pheriche ou Dingboche e ver se Fred recupera. Pheriche é mais baixo e dormir abaixo dos 5000m certamente fará milagres no Fred, mas depois terão de subir uma ladeira enorme e longa até Duglha e depois para Dzongla. Marcéu e eu ficaremos mais uma noite aqui e outra em Lobuche, para podermos descansar desses dois dias acima dos 5000m e só então ir para Dzongla. Nosso apetite está tão bom quanto sempre esteve, mas tossi um pouco quando fui me deitar. Sorte minha, era uma tosse normal, o que me faz pensar ter sido apenas mais uma crise de tosse que tenho de tempos em tempos. Não era seca nem do tipo que parece estar tossindo água dos pulmões, como muita gente hospedada no alojamento demostra nesta noite.

 

Continua...

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Dia 23

 

Outro dia curto.

 

Com o EBC feito, me sinto um ser superior. Um ser superior completamente exausto, sejamos mais específicos. O fato de ter chegado ao EBC me trouxe grande paz de espírito e já não sinto inveja dos que vão ou vem de lá. Chego mesmo a olhar sobranceiro para os que ainda não foram nem para o Kala nem para o EBC. O meu objetivo principal foi alcançado e perfeitamente alcançado. Apesar dos meus temores, deu tudo certo e estou em paz comigo mesmo.

 

Mas não tenho tempo de distribuir minha luz entre os trekkers menos favorecidos. Infelizmente para eles estarei indo para Lobuche hoje e para Dzongla amanhã cedo. Seguindo sugestão do LP, iremos quebrar o Cho la em duas etapas, parando para dormir em Dzongla desde lado e Tagnag do outro lado. Dessa forma não nos cansaremos demais correndo para chegar em Gokyo.

 

Terminei meu café-da-manhã e empacotamentos bem antes de Marcéu. Como sua condição física é bem melhor que a minha, que ainda sofro um pouco do pé, parto primeiro. Mas não sem antes pechinchar um desconto de última hora com o dono da pensão, tirarmos umas fotos junto e colar com duck tape uma bandeirinha do Brasil que assinamos e pusemos no refeitório. Se algum brasileiro for lá, dê uma olhadinha em volta e veja se ainda está lá, por favor.

 

Me sinto tão bem e com o pé muito melhor que no dia anterior que praticamente saio voando pela trilha. Subo e desço as ladeiras da moraina quase sem esforço e olho com pena para os trekkers que cambaleiam em sentido contrário, lutando para vencer a distancia que os separa de Gorak Shep e dos seus sonhados Kala Pattar e EBC. Eles mal podem respirar, enquanto eu sinto que poderia dançar, se dançar soubesse.

 

Quando enfim chego ao fim da moraina e desço até a pedra-banheiro, acho estranho Marcéu não ter me ultrapassado ainda. Nem sequer está ao alcance da vista. Decido chama-lo pelo walk-talk e recebo de volta um monte de gente falando ao mesmo tempo em italiano. Ao princípio achei ser Marcéu falando rápido demais para eu entender e fiquei tentando várias vezes, sempre pedindo que falasse mais devagar. E toda vez a torre de babel respondia.

 

Já em Lobuche e nada de Marcéu, tentei outra vez e foi quando o vi chegando. Quando enfim alcança o alojamento, perguntei sobre o rádio e ele diz que não ouviu sinal de chamada nenhum. Estranho...

 

Dentro do alojamento e já com tudo no quarto e nós no refeitório esperando a hora da comida, ficamos vendo os grupos se reunirem e encherem a casa. Um cara italiano senta mesmo na mesa da frente e tira um enorme walk-talk da mochila. Fico escutando a conversa dele com a dona da pensão e descubro que ele é o respossável por uma “expedição” e que usa o wakl-talk para se manter em contato com os membros, que andam em diferentes rítmos. Expedição para o EBC... tá certo... mais um grupo organizado cheio de guias, carregadores e mordomias se achando o máximo.

 

Uns trekkers ao nosso lado estão falando sobre comida. Bifes, massas, pizzas, etc. Não pude deixar de me meter na conversa e ficamos ali um tempão falando de chícaras de café com leite, pão com manteiga e docinhos no café da manhã. A mesmice da dieta na trilha começa a nos afetar e já sentimos saudades de algumas coisas. Incrível como o ordinário do dia-a-dia de uma pessoa, como um café com leite e torrada com manteiga de repente se transforma num enorme e suculento banquete quando nos privamos dos mesmos por alguns dias e em lugares ermos.

 

É então que um casal do grupo fala de um salto que tem em Kathmandu, que é incrivelmente maluco de se fazer. Me interesso logo. Apesar de ter certo medo de alturas, sempre tive curiosidade para saber como seria fazer bungy jump. Não sei se teria coragem de pular se tivesse oportunidade, mas na segurança do alojamento ficava nutrindo a possibilidade de faze-lo quando retornarmos, se tivermos tempo. Custa muito caro, então se fizermos será a última das coisas a se fazer, caso sobre grana.

 

Desda vez não perdoo ninguém falando coisas sem sentido sobre meu amado EBC. Quando escuto o famoso “é só pedra”, me meto e digo que fui lá e adorei. Que era muito massa e diferente e se tinha vistas boas das montanhas ao redor, bem como o ambiente era coisa de outro mundo.

 

Chega a comida e dividimos nossa atenção entre garfadas de comida e naipes de truco, tudo regado com goles de chá de limão. Estamos bem festivos agora que fizemos tudo que planejamos fazer e penso ter combinado com Marcéu sobre irmos juntos para Dzongla. Agora que não há mais pressão de alcançarmos o EBC e Kala Pattar, talvez ele vá me dar uma colher-de-chá e andar em quarta ou invés de voar em quinta pelas trilhas.

 

Continua...

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À caminho de Dzongla, vindos de Lobuche. Ao fundo o vale Khumbu Khola. Esta foi uma das melhores trilhas do trek.

 

Dia 24

 

Com o EBC alcançado, começo a sentir uma sensação de “dever cumprido” e que o trek chegou ao fim. Ainda falta Gokyo, mas isso é “apenas” outro trek secundário, algo extra que coloquei nos planos para caso tivesse tempo, grana e energia. O principal era o EBC e o Kala Pattar. Com estes feitos, meu “trabalho” estava terminado. Agora era encarar a trilha de forma bem mais descompromissada.

 

Como sempre, acordei e tomei café-da-manhã bem antes de Marcéu. Como sempre, pedi mingau, chá de limão e um extra como prêmio por toda a bravura que demostrei nos dois últimos dias, traduzido em biscoitos e panquecas. A festa ainda continua!

 

Enquanto estou ocupado devorando isso tudo, um pequeno japonês chega com seu guia, vindo do dormitório. Como de costume com os japoneses, esse também se senta todo duro na mesa e espera que seu guia lhe traga a comida. Tudo que vem é do melhor e mais caro, mas ele mal toca nos pratos. Petisca aqui e ali, com jeito de estar enjoado. Parece ter passado uma péssima noite. Quando o guia leva de volta os pratos quase cheios, o que é um motivo de felicidade para os guias e carregadores que lotam a cozinha, ele se dedica à paciente tarefa de ficar bicando umas cream-crackers que traz consigo, em pacotinhos pequenos, tipo comida de avião. Pessoa estranha, mas enfim... é a força dele que está em questão, não a minha.

 

(A relevância desse personagem virá mais tarde.)

 

Terminei tudo e fui empacotar. E acordar Marcéu. Enquanto ele se lava, come e se prepara, eu espero do lado de fora com a mochila e aprecio o levantar de Lobuche. Como sempre, carregadores, yaks e trekkers vão, nessa ordem, se preparando para o dia que vem. Uns se preparam para voltar e outros pra seguir adiante em seus treks. Caras cansadas de noites mal dormidas ou de frio perambulam aqui e ali, cedo se transformando numa atividade cada vez mais intensa que irá durar até a vila ficar vazia e os primeiros trekkers vindo de Duglha ou Gorak Shep começem à chegar. Eu espero que Marcéu apareça logo, antes que o vento me cubra até o pescoço de poeira. O japonês, Cream Cracker-sam, passa com seu guia vale a baixo. Seu carregador leva dois sacos enormes. Para um pessoa só, certamente que ele leva bastante coisa.

 

Eventualmente Marcéu sai do alojamento e iniciamos nossa trilha para Dzongla. O pessoal do alojamento me disse que não ficava longe. Apenas duas ou três horas de caminhada. Traduzindo do sistema de horas sherpa para o meu, calculei mentalmente umas 5 ou 6 horas pela frente.

 

Tal como a vinda para Lobuche, a ida para Dzongla segue inicialmente pelo vale ao lado da moraina do Khumbu, que é plano e fácil. No entanto depois de uma meia hora andando, o calor me pega e tenho de parar para tirar casacos. Como estou quase ao lado de Marcéu, achei que ele tinha me visto ou ouvido parar e achei que fosse me esperar. Sem olhar para trás, ele seguiu em frente até sumir de vista. Não gostei.

 

Minha parada demorou mais que o planejado, porque um grupo se aproxima e ficamos conversando um pouco sobre direções. Quando enfim volto ao caminho, Marcéu está completamente fora de vista. Ando, ando e nada dele. Já bastante furioso, pego o rádio e tento chama-lo. Ele diz que está a minha espera depois “da curva”. A curva é a encosta de um morro, depois da qual o vale alarga um pouco e temos de cruza-lo para alcançar umas encostas que tem do outro lado. Nada difícil, mas quando faço a curva e me vejo no meio do vale, reparo que Marcéu está lá longe, na metade da subida para a encosta do outro lado. Continua andando, então não me parece que tenha parado de jeito nenhum. Fico mais furioso e decido que o combinado foi prá cucúia. Farei a trilha só, mais uma vez.

 

Sozinho outra vez, diminuo o rítmo. Sem Marcéu não preciso ficar apertando o passo.

 

Depois de cruzar o vale e seu riacho raso e pedregoso, começo a pequena porém cansativa subida das encostas do outro lado. Depois disso fica tudo plano outra vez. Apesar de muito estreita, é uma caminhada bem agradável, que corre paralela com a trilha para Duglha, que está na encosta oposta à minha, do outro lado do vale. À medida que o vale se alarga entre as duas encostas e curva para o Sul, as trilhas se afastam, até que uma garganta profunda separa as duas. Os trekkers do outro lado são pontinhos se mexendo vagarosamente. Quando a nossa trilha entra de frente para o vale baixo onde Pheriche fica, ela curva para a direita e fico a impressão que dessa vez o EBC ficou mesmo para trás. Mas precisamente onde a trilha curva e esconde os últimos traços da região, um gramado largo se abre e temos um visão panôramica de todo o vale e diversas montanhas. Simplesmente coisa de sonhos. Muita gente parada ali, carregadores e trekkers, então acho que é um ponto natural onde tomam fôlego e descansam, e apreciam a paisagem, claro. Como tem muitas pedras, há lugar para sentar e deixar as mochilas enquanto nos sentamos pela grama ou ficamos de pé, hipnotizados pelo espetáculo diante dos nossos olhos. Fico certo tempo lá, tirando fotos e só olhando. Cream Cracker-sam, o japonês, também está lá.

 

É então que escuto um ruído esquisito vindo da minha mochila e vou ver o que é. Marcéu no rádio tentando saber onde raios eu estou, porque ele está me esperando faz mais de meia hora num lugar bem legal com uma vista espetacular. Eu respondo que estou eu mesmo num lugar bem legal com vista espetacular mas não o vejo. Ele tenta dar coordenadas, mas o sinal não está legal e não consigo entender nada. Como ainda estou zangado por ele ter sumido, digo qualquer coisa sobre não estar entendendo e desligo. Cinco minutos depois ele aparece de detrás dumas pedras, bem mal-humorado. Brigamos um pouco, apenas para abrir o apetite, e ele vai embora. Deixo passar algum tempo para que ele ganhe boa distância e não tenha chance de alcança-lo. Se nos vermos outra vez, vai ser briga na certa e não estou afim. Por agora, quero é ficar sozinho.

 

Quando enfim volto à trilha, descubro que a mesma é bastante usada. Muitos trekkers e carregadores lotam a estreita trilha, indo e voltando. A vista continua muito boa, mas a trilha começa a entrar numa de subir e descer, por isso tenho de me concentrar mais nela que na vista. A montanha do Cholatse, seu glaciar e um lago enorme abaixo preenchem todo meu campo de visão. A perda de escala faz tudo parecer terrivelmente perto e enorme.

 

Depois de muito sobe e desce, cruzo com um grupo. Nada especial sobre esse, mas após cruza-lo e descer para um pequeno vale, e eles subirem para onde eu estava antes, a trilha bifurca. Eu sigo pela maior, mais usada, que vai pela esquerda. Estão quando olho para trás, num gesto casual, vejo que o grupo está lá em cima,olhando para onde estou e apontando com seus bastões para a outra trilha, a pequena da direita. Como que para confirmar, aponto a mesma com meu bastão e eles apontam com os deles para a trilha pequena, outra vez. A trilha menor é uma miserável. Pequena, fechada e incerta. Não parece ser muito usada. Umas tendas estão armadas na boca do vale. Isso e o fato de gente que veio dessa direnção ter-me apontado para seguir por ali, me convençeram que apesar das aparências, a trilha menor era a correta. Acho que eles sabem para onde apontam...

 

Depois de uns 20 minutos andando por ali, por entre arbustos e com a trilha cada vez mais difícil de se ver, ligo prá Marcéu para saber por onde ele foi. Ele disse que seguiu pela grande e tem cruzado com muita gente desde então. Para mim é o suficiente: retorno por onde vim e pego a grande. Não sei se o grupo estava apontando a trilha para mim ou apenas apontando algo entre eles e eu achei que fosse comigo. O lado bom foi que engoli meu orgulho e chamei Marcéu, senão em breve estaria à horas de caminhada para lugar algum. Talvez as barracas fossem de escaladores.

 

Um “pouco” antes de Dzongla, há um riacho semi-congelado. A travessia do mesmo não me era clara, por isso não vi uma ponte pequena feita de pedras largas e comecei a pular de pedrinha para pedrinha até me ver no meio do riacho encarando a ameaça de um banho gelado e mal-vindo. Aborrecido, olho em volta e vejo a ponte. Como não a vi antes, não sei. Me equilibrando precariamente nas pedrinhas, dou meia volta e salto de uma em uma até chegar a margem. Saltar com uma cargueira cheia e à 5000m é algo que não aconselho. Se não fosse pelo incentivo da água gelada, creio que nunca faria aquilo. Enfim, alcanço a margem e cruzo o riacho pelo lugar devido. Depois de mais uns sobe e desce, posso enfim ver um telhado, a primeira vista de Dzongla. Por essa altura, minhas forças estão nas últimas e só xingando muito que consigo subir a última ladeira.

 

Uma vez lá, vejo que Dzongla não passa de dois alojamentos pequenos e uns 3 currais de yaks. Marcéu está sentado no muro do primeiro dos alojamentos, o menor dos dois. Pergunto sobre arranjos para o dia e ele diz que não fez nada, porque está cansado e tinha acabado de chegar. Não gostei do fato de have apenas duas pensões ali, numa trilha bem concorrida, e vou direto no em frente perguntar sobre quarto e dhal. 300 Rúpias pelo dhal e 250 pelo quarto! Caríssimo! Marcéu vai na outra pensão, mas já está cheia. Estamos presos com a cara, pequena e mais porcaria das duas. Nosso quarto é um cubículo com um estrado de madeira coberto com um colchão fino à quisa de cama. Não há assoalho, que é feito de tufos quadrados de terra gramada. Para piorar, a “cama” estava desnivelada e se encontravam no meio. Primeira vez que dormirei numa cama em diagonal. Mas as boas-novas não terminam aí: mesmo ao lado da porta, uma pilha enorme de fezes secas de yak perfuma todo o recinto. Para finalizar, o refeitório é minúsculo.

 

Aguardando o almoço, Marcéu e eu temos a mais azeda e pior das brigas de todo o trek, sobre o virmos juntos hoje. Os detalhes dessa briga são tão espetacular e incrivelmente vãos, pobres, podres, mesquinhos e fúteis que me recuso a entediar qualquer um com eles. A imagem mais próxima que posso dar é de dois orgulhosos bodes nepaleses batendo suas cabeças um contra o outro por nenhuma outra razão senão para passar o tempo.

 

Depois do prato de arroz frito misto miserável e caro, saímos para uma pequena volta pelos arredores dos alojamentos. Cada um para seu canto. Para meu canto descubro logo o banheiro: outra pedra grande. Reparo que as encostas tem quadrados cavados aqui e ali, que são os “azulejos” usados pelas pensões para seus chãos. As encostas ao redor das pensões são gentis e numerosas, mas eu prefiro subir uma maior que está do lado direito, que suponho ser a que leva ao Cho la. Só até a parte mais alta, onde umas bandeiras de oração estão esticadas. Dali devo poder ter boa visão do que nos espera no dia seguinte. Muito bom lá em cima, apesar do vento forte. Subo e me deito numa pedra grande, por onde passam as bandeiras de oração e fico ali contemplando o próximo dia. A primeira parte será muito boa, pois a trilha segue no comprimento de um grande e plano vale, mas depois me dá calafrios ve-la subir até perder de vista por umas encostas muito íngrimes. Olhando pelos mapas e contando as aberturas entre as montanhas, prevejo muito suor e dores para amanhã. Será um dia para andar seriamente, coisa para relembrar os dias de Jiri até Lukla ou de Namche para Tengboche. Só que bem mais alto.

 

Por fim o frio do vento supera o calor do Sol e resolvo descer e voltar para a pensão. Quando chego lá, encontro Marcéu me esperando, porque eu fiquei com as chaves do quarto por engano. Foi por engano, juro! Não se tratou de nenhuma vingança... coff... bom... me senti um pouquinho vingado, mas foi mesmo sem querer. Meti as chaves no bolso sem pensar em trancar Marcéu do lado de fora.

 

Dou as chaves e resolvo continuar a caminhada para o outro lado dos alojamentos, pelas gentis encostas. Me entendio logo, pois anda e ando e nada muda no cenário. E fica cada vez mais frio. Resolvo voltar dando uma grande volta por fora, mas sem descer muito que é para não subir muito depois. É aí que vejo um pequeno grupo ao redor de uma pedra alta. Alguns sherpas estão à volta com cordas e outras coisas para escalada. Ao pé da pedra, o grupo de valentes escaladores aguarda que seus sherpas façam todo trabalho de prender cordas e tudo mais, de forma que eles possam treinar escalada e rapel. Os sherpas fazem tudo, inclusive testar tudo. Aí então seus clientes vão heroicamente subir, e descer. Desculpem lá, mas não consigo simpatizar com esse tipo de aventureiros. Depois que os sherpas fazem e testam as cordas é que eles vão se fazer de escaladores? Que raios de escaladores são esses que nem sequer conseguem treinar por conta própria?

 

Acabo me cansando de assistir a comédia e volto pro alojamento. Quando chego lá, fico de frente ao mesmo, pegando os últimos raios de Sol, quando vejo quem chegando? Fred e Chris! Vou cumprimenta-los, abraça-los e dar as boas-vindas. Dormiram em Dingboche e voltaram hoje para fazer o Cho la. Fred se recuperou um pouco, não muito, mas quer fazer o Cho la de qualquer jeito. Fico feliz de ter meu parceiro lento outra vez, deixando Marcéu livre para correr na frente com Chris.

 

Mas eles chegaram muito tarde em Dzongla e não acharam mais quartos livros. Nosso alojamento só tem 4 quartos. O outro tem mais, mas já encheu. Depois de muito encher o saco do dono do alojamento de cima, que tem um refeitório maior, conseguiram que os deixasse dormir lá por uma módica quantia.

 

Fofocamos um pouco e fomos para nossos respectivos alojamentos para comer. Outra vez, a comida no nosso é péssima, pouca e cara. Além disso, deixaram para nos servir depois que serviram os clientes mais ricos, dos grupos organizados, que acampam fora mas passam a maior parte do tempo dentro. Marcéu e eu estamos lendo tranquilamente depois de devorarmos nosso segundo prato de comida e mesmo assim ainda ficarmos com fome quando um sherpa que estava guiando um grupo entra com suas ovelhinhas a segui-lo fielmente e fala para mim, todo bruto, que é para tirar minha mochila do banco de maneira que seus clientes possam ter mais espaço. Quase que educamente o mando para os detritos fecais ou que fosse se entreter com algum ato sexual em si mesmo, mas me contentei em gritar de volta, todo bruto, que a referida mochila não era minha e que de forma alguma iria tocar nalgo que não era meu. Não me mexi um centímetro e voltei para a leitura, deixando-o de pé com seus clientes. Depois de mais educadamente perguntar em volta de quem era a mochila, o bravo guia conseguiu espaço para seus reis, que não abriram as bocas o tempo todo.

 

Com a parca comida na barriga e alguma literatura na cabeça, fui para a cama. Muito apertado no refeitório para poder relaxar. Já no saco, estou contando as horas para poder sair daqui e torcendo para dormir logo e acordar para o dia do Cho la. Mas não é nada fácil dormir numa cama quando estamos constantemente escorregando para um lado, onde então ela se encontra com a cama de Marcéu. Os outros 3 trekkers nos outros quartos são bem barulhentos, mesmo que sejam poucos. Dois franceses em dois quartos que ficam, cada um no seu quarto, falando alto um com o outro. Quando por fim adormecem, não melhora muito, pois roncam bastante. O outro quarto restante é ao lado do nosso e quem está lá é Cream Cracker-sam, o japonês da trilha e de Lobuche. Quando os franceses adormecem e roncam, Cream Cracker-sam decide se transformar ele mesmo numa pequena, porém eficiente, fábrica de barulho. A produtividade é espetacular: se mexendo sem parar no saco-de-dormir, abrindo o saco-de-dormir, acendendo a lanterna, abrindo suas sacolas e fechando-as, abrindo seus famigerados pacotinhos de cream-cracker e comendo-os, sugando água, se metendo no saco-de-dormir e fechando-o, se mexendo de um lado pro outro dentro dele e daí 5 minutos repetir tudo de novo. Até umas duas da matina, quando o cansaço venceu minhas orelhas e consegui adormecer, foi desse jeito. Fiz uma nota mental para trazer tampões de ouvido da próxima vez.

 

O que me ajudou a adormecer foi o ter decidido que Cream Cracker-sam irá acordar muito, muito cedo no dia seguinte. Isso eu prometo.

 

Combinamos com Chris, Fred e um israelense que sairíamos para o Cho la por volta das 7.30h.

 

Continua...

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