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Travessia Serra Grande/Praia da Engenhoca (Itacaré)

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Fala pessoal, trazendo mais um relato pelo litoral baiano, dessa vez um pouco mais ao sul. O trecho que fiz saindo de Itacaré em direção a Barra Grande me motivou a fazer outro logo! hehehe (http://www.mochileiros.com/itacare-algodoes-a-pe-t141705.html)

Idealizei essa travessia desde o carnaval, para realizar em abril, coincidindo com as férias, e fazendo um planejamento simples, por se tratar de um trecho curto. Serra Grande fica situada entre Ilhéus e Itacaré, e é uma pequena cidade que tem se desenvolvido mais atualmente, com surgimento de empreendimentos e inciativas com uma abordagem mais ecológica. Assim como toda a região, tem muitas opções de aventura, atividades ao ar livre e em contato com a natureza, oferecendo paisagens paradisíacas de rios, cachoeiras, costões rochosos e praias desertas.

 

PLANEJAMENTO

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Idealizei fazer esse trecho saindo do pé da serra e contornando o costão rochoso pra então seguir pela areia até a praia da Engenhoca ou Jeribucaçu, isso tudo me baseando em muita pesquisa, vendo alguns vídeos do local no YouTube, imagens de satélite no Google Maps e fotos que procurava pela internet. Morei em Ilhéus minha vida quase toda e frequentava muito Itacaré, sempre de passagem por Serra Grande, mas nunca atento aos detalhes que eu precisava saber pra fazer esse trecho, principalmente do costão, (grau de declividade, distância "caminhável" entre a encosta e a água durante a maré seca, regularidade do solo nas rochas, entre outros) e, por esse motivo, o contorno do costão foi na completa aventura, já que essas pesquisas não me davam noção exata desses detalhes e não conheço ninguém que pudesse me dizer, me precavendo apenas com um tênis, que foi essencial! Entretanto, caso não fosse possível fazer esse trecho, subiria Serra Grande e desceria a trilha pro início da praia, local que inclusive já fui há um tempo. Pelo Google Maps/Earth, o trecho do pé de serra até Jeribucaçu deu um total de 16,3Km. Tinha observado um rio pequeno desaguando no trecho (Barra do rio Tijuípe) e, assim como qualquer caminhada de praia, é imprescindível que saiba a maré ideal pra o local que vai, que nesse caso seria seca. Isso pode evitar perrengues ou complicações (que vou citar a seguir! hahaha). Apesar de o trecho ser relativamente curto, não tenho costume de fazer grandes caminhadas e não sabia se dormiria no caminho ou se daria pra terminar em um dia, então levei a barraca. Como sempre tem muuuito coqueiro, acredito que fazer um trecho desse com rede e cobertura (lona, tarp...) deve ser uma boa, já que reduz o peso e volume da mochila. Além disso tudo, como já conhecia o início da praia, sabia que teria pelo menos um trecho de praia com declividade grande e areia grossa fofa (praia predominantemente refletiva), sabendo que seria hard caminhar nessa condição!

 

ORGANIZAÇÃO

De férias em Ilhéus, já tinha visto com muita antecedência o dia bom com maré seca pela manhã, para ter mais área de areia pra caminhar e um amigo iria comigo, mas cancelou na noite anterior ao dia combinado. Fiquei no impasse de ir sozinho ou cancelar de vez, mas a vontade era muita e me organizei pra ir sozinho no dia seguinte ao combinado. Consegui carona com outro amigo e tudo foi dando certo pra fazer nesse dia mesmo. Estava com uma cargueira de 35L.

(Não levei minha câmera dessa vez, e a GoPro afogou uma semana antes, num acidente enquanto surfava :( . As fotos ficaram por conta do celular mesmo).

 

CAMINHAR!

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A minha carona avisou que sairíamos de Ilhéus às 7h, me animei porque saindo essa hora a programação com o horário da maré ia encaixar tranquilo, entretanto acabamos saindo mais tarde, aproximadamente às 8h30. Chegando no pé de serra, me preparei e saí: camisa de manga comprida, óculos escuro e tênis! Do jeito que era acidentado, se caminhasse no costão descalço, chegaria sem pé ::lol4:: . Saí às 9h50. O costão é acidentado em praticamente todo o contorno, mas em alguns trechos tem trilhas mais acima, que ficam na parte com grama, no pé dos coqueiros, inclusive já mostrando que passa gente por ali com certa regularidade, porque a trilha é bem marcada, provavelmente pelos pescadores que vi. Em algumas partes, caminha-se em parede quase vertical, e o "bastão de caminhada" (cajado de madeira hehehe) que achei no início me ajudou muito no apoio. A maré já estava cheia a um ponto considerável e cheguei a tomar alguns "sprays" das ondas em trechos mais estreitos, mas nada que pusesse a caminhada em risco, é sempre bom prezar pela segurança, ainda mais sozinho! Depois de andar mais um pouco sobre as rochas, surge um caminho bem fechado entre palmeiras baixas, que seguia até uma pequena praia onde vi algumas pessoas chegando e que aparentemente não tem acesso difícil, seguida por um grande gramado liso com coqueiros espaçados (gramado perfeito pra um camping! haha).

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Mais à frente, algumas piscinas naturais se formam entre as rochas, o visual é sempre convidativo e é tentador parar em cada lugar pra curtir um pouco.

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Depois, mais uma pequena (essa é beem pequena, com uns 10m de extensão!) praia paradisíaca com cara de cenário de filme/série, onde tinha uma família (4 pessoas), aparentemente da comunidade de Serra Grande, pescando. Dali pra frente, só mais um pequena parte e acabou o costão rochoso. O contorno do costão foi um trecho curto, mas bem puxado!

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Havia um pescador no início da praia, e era visível também muitos pontos de desova de tartaruga. Caminhei uns 100m até um lugar bom pra parar, me hidratar e comer algo pra então sair e iniciar a grande caminhada pela areia. Alguns metros depois, uma lagoa espelhada se destacou mais pra trás, muito bonita e parece ser um bom lugar pra acampar.

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Daí pra frente, o trecho segue praticamente o mesmo, com algumas casas bem grandes, mas vazias, dunas pequenas sempre beiram a praia e segue assim praticamente até chegar ao rio. Em cima das dunas se vê muitos mandacarus, e alguns tinham frutos que eu, com certeza, peguei pra comer! Quem conhece sabe como é bom e deve imaginar como foi bom esse achado! hahaha (importante não comer nenhum fruto se não conhecer! É melhor morrer de fome do que de envenenamento ::otemo:: ).

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O RIO!

Quando cheguei no rio tomei um susto! Tinha chovido um pouco nos dias anteriores, mas não imaginei que tivesse aquela intensidade de fluxo...pra dentro do rio! A maré estava enchendo e as ondas quebravam e entravam com força. A travessia era bem curta,15 a 20m. Dois pescadores estavam jogando tarrafa no rio e ainda de longe vi que um deles estava atravessando com água quase no pescoço e dava algumas braçadas pra conseguir andar e vencer a correnteza. Do lado de cá, chamei eles e gesticulei com a mão, perguntando em que altura estava a água, quando um deles fez o nível acima da cabeça. Nessa hora, tive uma breve certeza de que acamparia do lado de cá do rio, pra na manhã seguinte, na maré seca, atravessar e continuar. Larguei a mochila na beira e resolvi checar por conta própria, dando uma analisada visualmente antes, pra ver onde parecia estar mais raso. A correnteza estava forte, a areia era fofa e afundava o pé até um pouco acima do tornozelo e as ondas não paravam de entrar, andei até a metade e atravessei o resto com ajuda de braçadas, assim como o pescador. Do outro lado, dei uma olhada melhor, fui mais pra frente, voltei, fui de novo, olhei, olhei e atravessei traçando uma diagonal até o outro lado, dessa vez com a água no peito, chegando ao ombro. Dei uma pensada e confesso que quaase fiquei por ali mas, além de ter achado um local mais raso pra atravessar (mas ainda assim arriscado), ainda era cedo, 12:10! Única coisa que estragaria realmente se acontecesse de molhar a mochila acidentalmente, seria o celular, pois o resto era "recuperável" (claro que seria terrível molhar a barraca, mas é mais fácil de enxugar e recuperar). "Embrulhei" o celular em duas sacolas plásticas, pensei mais um pouco e resolvi atravessar segurando a mochila acima da cabeça pelo caminho que tinha traçado. Sim, deu tudo certo, mas foi bem hard hahaha, a mochila estava com um peso considerável, e todos os outros fatores dificultaram bastante também. Atravessei e deitei na água na "lagoa" que se formava do outro lado, muuuito boa pra tomar banho e além dos pescadores na beira do rio, só estavam duas meninas com uma mulher tratando uns peixes, à qual pedi pra tirar uma foto minha :D .

(link com um vídeo curto que fiz do rio, depois de atravessar:

)

-Observação 1: muito importante analisar as condições do rio, bem como do local e o seu preparo e conhecimento de corrente, maré e etc., PRINCIPALMENTE ESTANDO SOZINHO. O risco de se afogar existe até para os mais experientes mesmo nas condições mais desprezíveis e a análise dos riscos podem livrar de um perrengue. Além da correnteza jogando para dentro da lagoa do rio, a profundidade era pouca, tenho boa natação, não atravessei preso à mochila (poderia largar para nadar) e haviam pessoas ali. Na dúvida, é melhor não arriscar!

-Observação 2: por mais que tenha visto a desembocadura do rio pelas imagens do Google Earth, esse ambiente tem um perfil que está constantemente sujeito a mudanças causadas pelas forçantes locais como: ondas, maré, fluxo do rio, entre outras. O perfil que encontrei lá pessoalmente, já estava BEM diferente do que observei pelas imagens então, é bom estar preparado para isso (olhando as imagens históricas do Google Earth, vi que nas imagens de 2010 a desembocadura chegou a ter aproximadamente 100m de uma margem à outra, aparentemente com uma profundidade considerável, condição praticamente impossível de atravessar sem ajuda de um barco ou algo do tipo!).

 

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Dessa parte em diante, a praia já fica menos inclinada e em vez de dunas, uma mata fechada com muitas palmeiras e coqueiros beirava a praia, e seguiu assim até chegar num "morro" pequeno que debruçava na água, com um riacho na lateral (um pouco antes disso, vi um esqueleto de baleia realmente grande!).

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Comecei a subir o morro por uma trilha, que tinha uma cerca com uma passagem, mas na dúvida se também teria passagem do outro lado, resolvi voltar e contornar por baixo.

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Depois de contornar o morro, um coqueiro baixo com um cacho de cocos chamou minha atenção e não resisti em subir e tirar: bebi muita água de coco e segui. Nessa parte depois do morro, tinha também uma cerca com uma propriedade imensa com uma casa e até alguns cavalos pastando!

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A partir daí, algumas casas de alto nível, depois o resort Txai e a praia de Itacarezinho, onde vi que não tinha possibilidade de contornar o costão rochoso para a Engenhoca, porque tem uma declividade muuito acentuada.

Me informei da trilha que sai dali para a Engenhoca, tomei um banho gelado na bica e segui. Nunca havia feito essa trilha de Itacarezinho pra Engenhoca, e é uma trilha bem fácil e bonita.

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Antes da Engenhoca, ainda se passa por duas praias, a primeira (pelas pesquisas, o nome parece ser Camboinha) estava deserta, e a segunda é a Havaizinho, conhecida, que tem estrutura bem simples de barraca de praia, dali pra Engenhoca é um pulo, mais dez minutos e finalizei o percurso na Engenhoca mesmo, às 15h15, totalizando 5h25 de percurso. Já era fim de tarde e cheguei à conclusão que não valeria a pena dormir ali para no outro dia só fazer o trecho até Jeribucaçu.

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Atualização: fiz uma estimativa do tempo parado, me baseando em fotos que havia feito na hora de cada parada longa e quando voltava a caminhar. Como além das paradas longas parei algumas vezes rapidamente pra tirar fotos e não contei o tempo, estimei um tempo somando cada foto. A soma das paradas longas totalizou 1h10min, mais uma estimativa de 20min das paradas curtas, resultando aproximadamente 1h30min de tempo parado. Dessa forma, o tempo efetivo de caminhada estimado foi de 3h50min. Considerando a distância do percurso como 15Km, a velocidade média foi de 3,9Km/h. Espero conseguir comprar meu GPS logo pra ter essas informações de forma mais prática e exata!

 

O QUE APRENDI NESSA TRAVESSIA:
-Nunca tinha usado "bastão de caminhada" e foi muito útil não só no costão rochoso mas também na praia;
-Em casos como esse, trocar a barraca por uma rede e cobertura talvez seja ideal;
-Acondicionar as coisas em sacos estanques dentro da mochila é realmente importante, ficaria menos preocupado no caso do rio, por exemplo;

EQUIPAMENTOS USADOS:
-Curtlo Highlander 35+5L
-Azteq Nepal 2 (não usei)

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Refiz a travessia com um amigo em dezembro de 2017 e só vim trazer algumas atualizações e fotos.

PLANEJAMENTO
O conhecimento prévio adquirido durante a primeira vez nessa travessia me permitiu modificar algumas coisas que fizeram a dificuldade do trecho diminuir ainda mais:
-Já sabia que não precisaria dormir no trecho, então não levei mochila com comida e barraca, por exemplo. Dessa vez, consegui levar tudo em uma pochete (protetor solar, 1 garrafa de água, barra de cereal, celular, etc.). Isso implica em muito menos peso pra carregar e, assim, maior mobilidade no trecho do costão rochoso, por exemplo, assim como menos esforço e desgaste na parte de areia fofa. Faz muita diferença! hahaha :D
-Por estar sem mochila e, consequentemente, com menos peso, dispensei bastões de caminhada.
-Dessa vez fomos de carro até o Pé de Serra e deixamos estacionado lá. Tem um espaço amplo, cercado e de graça. Ainda conseguimos uma sombra pra deixar o carro.

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CAMINHADA
Nesse dia, a maré seca seria em torno de 12h45. Me apeguei menos ao horário dessa vez, mas lembro de termos saído em torno de 11h, então tínhamos uma boa folga em relação à maré.
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Após o trecho do costão rochoso, tínhamos planejado parar na lagoa pra tomar um banho, mas um pouco antes de chegar, vimos um coqueiro baixo com alguns cocos chamando muita atenção. Não deu pra resistir haha foram 4 cocos pra cada um.
Depois, uma parada na lagoa e um banho pra refrescar!
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Seguindo a caminhada, a areia estava muito mais inclinada do que da outra vez, e nossa única alternativa era andar na parte mais acima da faixa de areia, onde ela é mais fofa.
Daí pra frente, sem muitas novidades. Estava só na curiosidade de como estaria a travessia do rio.

O RIO
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Chegando lá, me surpreendi bastante: dava pra atravessar com água pouco acima dos joelhos e o rio estava bem calmo, com pouca profundidade em toda a área que tinha água. Claro que o banho foi indispensável. O visual junto com a tranquilidade que estava ali nos fez passar mais de uma hora só curtindo o rio, meditando, observando tudo aquilo que estava ali, extasiados com tanta beleza e calmaria. Uma experiência transcendente!
O perfil do local havia se alterado totalmente. A saído do Rio se deslocou cerca de 400m a norte e vinha meandrando desde o local que vi da vez anterior até esse novo local, onde saía com um fluxo bem menos intenso.

No trecho seguinte também não tinha muitas novidades, praia extensa, menos inclinada e com areia bem branca o tempo todo. Paramos pra pegar mais cocos, mas dessa vez contamos com ajuda de um menino que surgiu de uma casa que inicialmente pensamos estar vazia. Com muita humildade e sem pedir nada em troca, ele subiu no coqueiro, tirou os cocos e ainda abriu com um facão.
20171222_142841.thumb.jpg.996901e488ffee4947f9ff9091f4160c.jpgTripé improvisado.
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TARTARUGAS
Seguimos em direção a Itacarezinho. Cerca de 100m após o resort Txai, tivemos uma surpresa imensa quando, durante nossa conversa, só percebemos a cerca de 4m um monte de filhotes de tartaruga que tinham acabado de nascer e estavam fazendo sua caminhada até a água. Ficamos surpresos, impressionados e, claro, passamos um bom tempo ali observando e registrando cada uma delas indo pra água com toda falta de jeito de quem acabou de nascer e nunca caminhou antes ::lol4::. 
Vídeo das tartarugas: 

Seguimos pra Itacarezinho, e fomos direto pra trilha pra terminar a caminhada, sem passar na Engenhoca. Conseguimos uma carona até o Pé de Serra, onde estava o carro, e finalizamos o dia. :) Por mais que já tivesse feito o trecho antes, o deslumbramento não foi menor. As praias são muito bonitas, oferecem visuais incríveis e são sempre desertas.

EQUIPAMENTOS USADOS:
-Deuter Pulse Four EXP
-CamelBak Chute 750ml

  • Gostei! 3

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Boa tarde, Gabriel. 

Acho que perdi uma coisinha em seu ótimo relato: e entre as praias Engenhoca e Jeribucaçú, como foi? Pelo costão ou pela trilha do resort abandonado?

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@Fernando Aznar , acabei encerrando na Engenhoca mesmo. Além de não saber nada da trilha por dentro, tenho muita vontade de fazer esse último trecho contornando o costão rochoso, mas não tenho conhecimento da declividade. Agora aguardo por férias pra poder ir lá tentar essa aventura 😅

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      Ola a todos.
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      aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
      que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
      caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
      cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
      Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
      dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
      no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
      independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
      seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
      as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
      testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
      incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
      real beleza que veríamos.
      Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
      acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
      complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
      do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
      tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
      aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
      forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
      Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
      obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
      que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
      encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
      jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
      partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
      se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
      23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
      Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
      possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
      ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
      forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
      dela e partiríamos assim que possível.
      Primeiro dia
      A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
      equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
      em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
      cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
      levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
      meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
      travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
      pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
      temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
      assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
      encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
      lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
      os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
      sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
      planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
      Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
      pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
      acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
      pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
      pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
      2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
      não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
      do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
      grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
      muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
      descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
      notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
      o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
      afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
      possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
      primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
      Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
      para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.
      Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
      De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
      consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
      ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
      queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
      com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
      aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
      adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
      das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
      para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
      dia que nascia.
      Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
      Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
      diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
      para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
      que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
      pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
      base da cachoeira vermelha, às 8h.
      Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
      as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
      bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
      quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
      Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
      possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha
      Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
      da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
      a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
      de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
      Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
      intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
      antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
      Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
      subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
      pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
      frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
      essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
      base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
      dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
      Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
      12h.
      Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
      Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
      e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
      fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
      2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
      o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
      das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
      sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
      voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
      base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
      acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
      Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
      a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
      a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
      verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
      perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
      companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
      de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
      Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
      que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
      montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
      que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
      superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
      mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
      emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
      lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
      iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
      um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
      até a parede quase vertical do acampamento base.
      Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
      atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
      rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
      Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
      existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
      essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
      caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
      vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
      horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
      cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
      porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
      que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
      de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
      bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
      escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
      Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
      significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
      legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
      uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
      de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
      nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
      com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
      naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
      vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
      nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
      A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
      do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
      de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
      dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
      tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
      e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
      recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
      roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
      e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
      dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.
      Segundo dia
      Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
      ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
      dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
      barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
      barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
      Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
      às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
      havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
      vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
      eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
      queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
      normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
      toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
      barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
      parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
      e a PM compensava o desconforto.
      Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
      peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
      tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
      que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
      em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
      encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
      mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
      apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
      Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
      limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
      de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
      água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
      retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
      Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
      com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
      ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
      nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
      travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
      fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
      considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
      explorando os arredores da trilha tradicional.
      Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
      mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
      sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
      ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
      mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
      caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
      fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
      gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
      camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
      altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
      Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
      com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
      quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
      havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
      passagem, na travessia full anterior.
      Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
      Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
      anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
      10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
      direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
      à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
      e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
      possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
      um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
      caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
      o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
      aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
      dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
      encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
      e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
      cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
      retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição
      bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
      consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
      dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
      forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
      para cima.
      Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
      parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
      pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
      de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
      a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
      Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
      maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
      o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
      CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
      Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
      Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
      apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
      acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
      do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
      seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
      nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
      eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
      correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
      encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
      a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
      do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
      retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
      Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
      agua até o final da tarde do dia seguinte.
      Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
      Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
      hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
      termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
      hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
      águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
      vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
      mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
      das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
      para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
      da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
      com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
      pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
      Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
      caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
      em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
      o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
      barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
      partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
      Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
      dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
      no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
      tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
      confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
      acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
      segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
      dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
      passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
      ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
      mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
      utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
      a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
      de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
      isolante “casca de ovo”.
      Terceiro dia
      Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
      amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
      3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
      pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
      consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
      para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
      de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
      se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
      previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
      a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
      íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
      para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
      caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
      ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
      minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
      2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
      apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
      lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
      visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
      uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
      Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
      estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
      o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
      para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
      pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
      mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
      tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
      cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
      instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
      destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
      vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
      “safar a onça”.
      Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
      Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
      com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
      avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
      instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
      atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
      como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
      estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
      deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
      colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
      buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
      ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
      Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
      busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
      água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
      estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
      buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
      estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
      posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
      afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
      descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
      do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
      queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
      duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
      Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
      a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
      avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
      não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
      Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
      dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
      “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
      mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
      e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
      machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
      sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
      novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
      e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
      estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
      para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
      ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
      Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
      enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
      Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
      Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
      apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
      havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
      o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
      dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
      e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
      cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
      10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
      vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
      liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
      com o sol rachando tudo e a todos.
      Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
      recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
      sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
      minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
      escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
      atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
      minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
      de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
      pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
      do grupo em que estava.
      O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
      poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
      Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
      progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
      minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
      curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
      No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
      Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
      colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
      andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
      Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
      não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
      agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
      percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
      imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
      resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
      próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
      generosos goles.
      Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
      vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
      preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
      Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
      com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
      contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
      Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
      Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
      esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
      biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
      A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
      cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
      mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
      conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
      percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
      e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
      Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
      tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
      você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
      possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
      perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
      preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
      suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
      quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
      fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
      Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
      picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
      cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
      na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
      necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
      caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
      evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
      algumas passagens.
      Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
      há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
      refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
      que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
      posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
      essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
      montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
      isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
      desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
      que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
      apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
      motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
      abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
       


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