Ir para conteúdo
  • Cadastre-se

Posts Recomendados

Travessia da Serra Fina Full – 3 dias

Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia, que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na incursão  anterior,  cogitamos  entre  o  subir  ou  não  aquela  montanha  pelo  horário  em  que começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado... então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.

A  questão  agora  não  era  “se”,  mas  “quando”.  Temporada  de  montanha  findando,  os compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda: aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim que  possível,  para  iniciar a  subida  à  noite  e  aproveitar  o  enregelante  frescor  noturno  para caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo. Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha no  papel,  na  fala,  difere  da  realidade...  o  somar  dos  infindáveis  passos,  o  perseverar, independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com as  lanternas  apagadas  nos  trechos  de  crista...  dessa  vez  teríamos  o  mar  de  estrelas  por testemunhas  do  feito.  Foi  o  que  bastou  para  nos  decidirmos.  Já  éramos  conhecedores  das incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a real beleza que veríamos.

Ao  grupo  original  (Douglas,  Marinaldo,  Rodrigo  e  Rogério)  somaram-se  alguns  amigos  que acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares, complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui, tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do Marinaldo  quanto  ao  esforço  físico  que  nos  esperava,  deixei  minha  habitual  inércia  e  me obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer que foi isso  que evitou um  constrangedor pedido de resgate, por total exaustão  física. Nos encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa jornada,  acomodando  5  cargueiras,  uma  dama  e  4  marmanjos  num  (modelo  do  carro?)  e partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa dela e partiríamos assim que possível.


Primeiro dia

A  Patrícia  nos  deixou  perto  da  Toca  do  Lobo,  pouco  antes  das  23h  e,  rapidamente,  nos equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas, em  pouco  tempo  chegamos  à  Toca  do  Lobo  onde  fizemos  a  primeira  foto,  ajustamos  as cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando meu inventário para 1  litro. Enquanto  eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e assim   que   retornei,   recomeçamos   a   ascensão.   Em   pouco   tempo,   caminhávamos   pelo encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir sem   paradas   até  o   alto   do   Capim   Amarelo.  Subíamos  pouco   ansiosos,  confiantes  do planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras. Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em pouco  tempo  encontraríamos  seu  dono.  De  fato,  não   tardou,  e  num  dos  pontos  de acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar muito  aos  montanhistas  acampados  ali  e  retomamos  a  caminhada,  buscando  assegurar  a descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA, notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato, o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota possibilidade  de  termos  algum  contratempo  com  a  lotação  da  serra,  no  acampamento  do primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.

 

Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre

Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre

 

De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol com  a  lua  minguante  ainda  visível  no  céu.  Caminhávamos  compenetrados,  procurando aproveitar  os  trechos  planos  para  trocarmos  ideias  e  retomarmos  o  folego.  Talvez  pela adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o dia que nascia.

Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano.
 Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia

Tocamos  em  frente pelo  sobe  e desce  da  crista  do Melano,  ganhando  altitude  devagar,  na diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas que  subiríamos  antes  de  acamparmos,  nominá-las,  fazer  comentários  e  contar  causos  de pernadas anteriores por aquelas plagas.  Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a base da cachoeira vermelha, às 8h.

Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha, quase  que  sem  nenhum  vara-mato  e  em  pouco  tempo  estávamos  aos  pés  do  Tartarugão. Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha.
Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e Leste.  Registramos  os  nomes  do  grupo,  algumas  impressões  da  caminhada  e  das  nossas intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado antes,  guardamos  tudo  no  tubo  de  cume  e  partimos  para  explorar  parte  dos  ombros  do Tartarugão,  avaliando  possíveis  alternativas  para  uma  travessia  a  partir  da  face  sul  da  PM, subindo a partir do Vale do Paraíba.  Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado, essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
12h.


Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno

Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia

Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a 2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no sentido  do  Paiolinho,  por onde  atacaríamos  o  Ruah  Norte.  Sabe  aquela  história  de  barraca voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento base,   fizemos   uso   do   tradicional   trepa-pedra   para   descermos   a   encosta   da   área   de acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.

Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do que  propúnhamos  fazer,  grassava  em  nosso  peito,  dividindo  espaço  com  a  sensação  de superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um mês  antes,  a  ausência  de  outros  registros,  acrescemos  ao  “kit  perrengue”  um  cobertor  de emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado, iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos até a parede quase vertical do acampamento base.
Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.

Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o  Ruah se transforma à noite, colhemos porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas, que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de bivaque  de  emergência.  Fizemos  a  primeira  refeição  quente,  conforme  o  cardápio  que escolhemos  e  que  nos  foi  fornecido,  abaixo  do  preço  de  custo,  pela  Livre  Adventure  Tour. Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui significativamente  na  redução  de  peso  das  cargueiras.  Optei  pelo  espaguete  com  frango  e legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente naquelas que servem  duas porções. Cansados pela pernada do  dia, alteramos os planos de vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.

A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas e  gorro...  imaginava  que  acabaria  por  acordar  de  madrugada  com  calor,  mas  aí  já  teria recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.

Segundo dia
Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e, vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem queimados  de  frio...  fiz  uma  massagem  vigorosa  em  ambos  os  pês  e  mesmo  a  cor  não normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste e a PM compensava o desconforto.

Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas, peguei  a  mochila  de  ataque,  preparada  na  véspera  e  avisei  aos  amigos  que  iria  esperá-los tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior, em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.

Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros, água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã com  as  frutas  liofilizadas,  chocolates,  queijos  e  guloseimas  trazidas,  curtindo  os  diferentes ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde nossa  incursão  anterior,  apontando  que,  mesmo  tão  próximo  a  concorridíssima  trilha  da travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume, considerando  que  possam  ser  de  grande  valia  para  algum  colega  num  eventual  perrengue explorando os arredores da trilha tradicional.

Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava, mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na caminhada  anterior  já  havíamos  deliberado  mantê-la  ali,  pelo  menos  enquanto  seus  restos fossem  reconhecíveis.  Curiosos  com  a  história  que  havia  ali,  condensada  naquelas  poucas gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto quanto  o  anterior. A diferença de altitude entre os dois não  ultrapassa 20 m. Nesse cume, havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa passagem, na travessia full anterior.

Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia

Ali  registramos  nossa  passagem,  acrescemos  o  mel  ao  material  de  emergência  deixado anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às 10h15 os 2480m de altitude do seu cume.  Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior, à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas e,  paradoxalmente,  exatamente  no  momento  em  que  eu  alertava  a  Areli  e  o  Zagaia  da possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto, retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição bem  maior  e  uma  errada  como  a  de  poucos  minutos  antes,  quase  certo  de  que  teria consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé” para cima.


Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma parada maior, registramos a passagem  pelo  livro  de cume, aproveitando  para revestir duas pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores... a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4. Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda o faríamos antes de dar o dia por encerrado.

CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno

Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas

Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse, acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o correr  de  água,  em  quase  todos  consegui  uns  goles.  Já  na  subida  do  Morro  do  Avião, encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro do  planejado,  então  fomos  até  os  destroços  do  avião  monomotor  na  encosta  antes  de retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia. Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos agua até o final da tarde do dia seguinte.

Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma vez  meu  banho  naquelas  águas.  Nesse  ponto,  nos  abastecemos  de  toda  água  possível  nas mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
Com  os  últimos  raios  de  sol  se  perdendo  atrás  da  PM,  deixamos o  Ruah  para a  derradeira caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as barracas  montadas,  nos  preparando  para  dormir  algumas  horas,  já  que  o  planejado  era partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.

Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera, no  Ruah,  aos  pés  da PM  e  ficara  no  aguardo  de  alguns  retardatários.   Estimamos  que  eles tardariam  no  máximo  duas  horas,  porém,  com  o  cansaço  e  a  progressão  à  noite  pouco confortável,   eles   optaram   por   armar   acampamento   antes   do   Cupim,   numa   área   de acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais; ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo, de  forma que  apenas coloquei  o  isolante  inflável  de lado  e  adormeci sobre o  bom  e velho isolante “casca de ovo”.

Terceiro dia

Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as pernas  enquanto  os  amigos  faziam  os  últimos  preparativos.  Por  mais  que  procurasse,  não consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda, para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos e
quais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava, apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim, tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e instalamos  um  novo  tubo  de  cume  num  pico  mais  afastado  à  2580m  de  altitude,  após  os destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe “safar a onça”.

Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro

Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno

Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a estratégia  de  descer  em  linhas  paralelas,  cuidando  para  que  alguma  rocha  eventualmente deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo, buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.

Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas, busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo, do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.


Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante... Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo, mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por sob  o  capim  e  encontrei  um  lado  que  me  permitiu  galgá-la  com  êxito.  De  sobre  ela,  gritei novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso. Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.

Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal, e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia.  Uma vez  que  eu,  para  poupar  água  e  por  falta  de  apetite,  não  utilizara  minha  segunda  refeição liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h, com o sol rachando tudo e a todos.

Alcançamos  o  cume  do  Três  Estados  pouco  antes  das  12h30,  ficamos  cerca  de  10  minutos recuperando  o  folego  e  descansando  na  deliciosa  sombra  dos  arbustos  que  insistem  em sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de minimizar  o  impacto  na  natureza  lhes  impõem.  Aproveitei  para  fazer  uma  cata  dos  lixos escondidos  em  algumas  moitas  de  capim,  à  exemplo  do  que  encontrara  quando  ali  estive, atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto do grupo em que estava.
O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada. Levamos  pouco  mais  de  uma  hora  para  atingir  o  cume  do  Bandeirante....  ainda  que progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate. Consideramos  que  levaríamos  cerca  de  4  horas,  a  partir  dali,  para  alcançarmos  a  estrada, colocamos  uma  margem  de  segurança  de  cerca  de  meia  hora,  de  forma  a  permitir  que andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.

Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que percorre  a floresta. Dessa forma, considerei levar  três  horas  até o  próximo  ponto  de água, imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como resultado,  o  tempo  não  passava,  mas  a  sede  ficou  bem  administrada,  permitindo  chegar próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em generosos goles.

Eu  e  o  Marinaldo  seguíamos  um  pouco  à  frente,  chegando  no  ponto  de  água  com  alguma vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer, preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.

Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30. Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.

Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto esperávamos  o  resgate,  rememorando  a  caminhada,  as  paisagens,  petiscando  o  delicioso biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.

A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de cumes  em  alguns  dos  principais  cumes  no  entorno  da  PM....  onde,  após  várias  tentativas, mapeando  e  explorando,  avançando  a  partir  dos  relatos  dos  montanhistas  percursores, conseguimos   realizar.   Nesse   processo   cumulativo   de   aprendizado   e   desenvolvimento, percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias. Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF, tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se você  que  lê  essas  linhas,  precisar  utilizar  esse  material,  pedimos  que  nos  avise  para  que possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente, preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que suportam  a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao  seu redor e ainda mais, a muitos quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais, evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de algumas passagens.

Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê essas  toscas  e  mal  traçadas  linhas,  saiba:  se  estiver  na  montanha  e  precisar,  um  bom montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
isso  naqueles  irmãos  de  montanha,  que  buscam  ajudar  e  orientar desconhecidos,  nos  guias que,  pesados, sobem  rindo  aquelas  encostas que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida...  Forte abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!

  • Gostei! 1

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

@RogerioAlexandre  Parabéns pela travessia! Mandaram bem demais!  Tomei a liberdade de converter em texto pra postar aqui.   Se quiser ajuda pra inserir as fotos, pode me mandar via MP que insiro! 

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisar ser um membro para fazer um comentário

Criar uma conta

Crie uma nova conta em nossa comunidade. É fácil!

Crie uma nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Entrar Agora

  • Conteúdo Similar

    • Por Renato Santini
      Olá Pessoal, encontrei esse artigo no site do Alta Montanha e acho que vai ajudar muita gente a encontrar o equipamento certo para fazer a travessia sem se dar mal, segue o link do artigo e o vídeo abaixo:
      http://altamontanha.com/guia-completo-de-equipamentos-travessia-da-serra-fina/
       
    • Por RogerioAlexandre
      E

      m caminhadas anteriores pela Serra Fina (SF), ralando pelo Paiolinho ou suando pela Toca do Lobo, com frequência vinha à mente uma ideia meio masoquista, e visionária: por que não fazer uma caminhada que somasse a tradicional travessia Toca do Lobo/Sitio do Pierre com ataques aos Picos de maior destaque no entorno? Seria uma forma de ver essas montanhas de ângulos diferentes... Conhecer mais da SF, deixar pegadas em sítios históricos, observar a geologia e a vegetação em pontos menos afeitos à maioria dos caminhantes... Ou seja: uma chance de se arrastar a montanhas menos frequentadas, mais ermas e não menos belas que as da rota tradicional. Toca do Lobo – Quartizito-Capim Amarelo-Melano-PM-Cupim de Boi-Três Estados- Alto dos Ivos- Sitio do Pierre.

      Essa ideia, com certeza passou pela cabeça de muitos outros montanhistas, e aos poucos o plano foi se desenhando: faríamos a Travessia em um feriado, na temporada de montanha (nada de dar muita margem ao clima inóspito daquelas plagas) e nos condicionamos a fazê-la no prazo normal da travessia clássica: 4 (quatro) dias, com 3 (três) noites na serra.

      Em conversas anteriores, alguns já haviam se pronunciado pelo interesse na empreitada, com as restrições de compromissos profissionais, médicos, familiares, etc., o grupo tinha 4 (quatro) integrantes com agenda disponível para o feriado de 31/05/2018: Eu, que vos escrevo (Rogério Alexandre), o Rodrigo Oliveira, o Douglas Garcia, e o Marinaldo Bruno. E eis que surge a Greve dos Caminhoneiros, que com reivindicações justas, nos levou a um ponto de inflexão: manter a data ou postergar? Pesadas as opções, adotou-se a contingência de irmos de ônibus e compramos passagens para P4. Com as datas de retorno disponíveis, o Rodrigo não poderia participar. Ficamos no aguardo, na torcida pelo melhor desenlace da greve dos caminhoneiros e o retorno ao abastecimento de combustíveis nos postos, condição que se impunha para a participação do Rodrigo na empreitada. Na manhã de quarta, veio a boa notícia: carro abastecido! Corremos com últimos preparativos: lanches, verificar bateria do GPS, cancelar as passagens e retirar qualquer grama a mais das cargueiras, etc.

      Nesse dia, na ânsia de aproveitar ao máximo a folga e fazer uma reserva de energia, abusei um pouco da alimentação: sanduiche de mortadela, milho verde com manteiga, almoço de mãe, ceviche de pescada e lula. Esse abuso teria consequências no meu desempenho na pernada, rs.


       
      Escrito por Rogério Alexandre com revisão do restante do time, uma pequena noção e, que palavra nenhuma explicaria, o que foi essa aventura!


       
      Primeiro dia:

      C

      hegamos em Passa Quatro às 20h30 e depois de procurar um pouco, encontramos a casa da Patrícia, onde guardamos o carro, separamos o que ficaria para uso na volta a SP, colocamos as cargueiras na Pajero dela e pegamos estrada, às 21h de quarta (véspera do feriado), para o ponto próximo da Toca do Lobo.

      Vestimos as cargueiras, nossas companheiras de relação amor e ódio pelos próximos 4 (quatro) dias, fizemos os últimos ajustes e nos colocamos a andar pela antiga estradinha que leva a Toca do Lobo. Ali fizemos as primeiras fotos, à luz das lanternas, nos hidratamos e nos abastecemos da água necessária para alcançar o Quartizito, onde faríamos a primeira recarga maior de água. Nesse trecho, bastou-nos um litro por cabeça, já que faríamos a ascensão mais leves e na madrugada, o que ajuda em muito no menor consumo de água.

      Como planejado, pontualmente às 22h, partimos em busca do primeiro cume da travessia: Cume do Cruzeiro. A subida começa relativamente íngreme, nos alertando para o que nos esperava. Vamos em passo normal, poupando forças para a longa jornada. Em pouco tempo saímos da mata e começamos a curtir mais a caminhada, apreciando a beleza da Serra, os contornos da crista que iríamos subir, que iluminados pela lua cheia, pareciam nos desafiar.

      Para o Rogério a caminhada tinha uma complicação adicional: para não utilizar a lente de contato por um período longo demais, decidiu utilizar óculos durante a noite, e só colocar a lente com o dia já claro. Até aí nada demais, se a joça dos óculos não teimasse em ficar embaçando a cada pouco, fazendo com que, ele alternasse em caminhar sob uma “neblina” particular, que só ele via, tateando com os pés em algumas passagens ou parar a cada pouco para limpar a lente dos óculos. Era trabalho de Sísifo: bastava desembaçar para o processo de enevoar recomeçar, principalmente nas partes menos expostas à gélida brisa noturna. Apesar de aborrecer um pouco, ainda surgiria uma dificuldade para se somar com essa, e que faria com que ele deixasse de “puxar” o grupo e passasse a ser o “cerra fila”, decorrente da sua gula durante a preparação para a travessia. Voltamos a essa questão mais adiante.

      Alcançamos a crista e seguimos subindo buscando o Quartizito e seu ponto de água, tementes quanto à disponibilidade, pois da presença de água ali possuíamos apenas relatos, já que sempre passamos naquele trecho já abastecidos de água. Os temores se mostraram infundados, e depois de descer uma pirambeira, pudemos completar o abastecimento para a caminhada até a base da PM, onde sabíamos encontrar água para o primeiro pernoite, na nascente do Rio Claro.

      Subimos o Quartizito, no escorregar clássico da montanha que parece se desmanchar em pedriscos aos nossos pés e, à meia noite alcançamos seu cume e iniciamos a descida para o ombro por onde faríamos a longa subida do Capim Amarelo, ansiosos pelos trechos com cordas que noticiam a proximidade do cume.

      Um detalhe sobre a subida do Capim Amarelo merece registro: esse trecho é um dos que, para os que o percorrem pela primeira vez, testa a determinação do montanhista. A cada falso cume, têm-se que redobrar a disposição, diante da descoberta de que o almejado cume ainda não chegou; são vários os falsos cumes, então, haja determinação para não esmorecer. Sabedores disso, vamos subindo procurando não pensar muito nisso, curtindo a pernada, o visual da Serra Fina ao luar ajudando a dispensar os pensamentos. Alcançamos o terceiro cume da nossa travessia às 2h30min da madrugada. Fizemos uma pausa maior para recuperar o folego, registramos a passagem no livro de cume e, tentando não perturbar os colegas que descansavam acampados ao lado do livro, comemoramos a primeira etapa. Partimos para a descida do Capim Amarelo, pouco antes das 3h da madrugada, atentos para não desviar da trilha correta, que segue bem à esquerda. Nesse trecho, há uma trilha muito marcada, porém errada, pouco à direita da trilha correta, que termina em uma grota, e que expõe os muitos que a tomam, ao desgaste do retornar trepando por raízes e pedras, no mínimo. A necessidade de se escalaminhar para corrigir a descida errada explica que ela esteja mais clara do que a trilha correta, já que, com o erro, você desce e sobe ela, como já o fiz noutra pernada. Mais tarde ficaríamos sabendo que um ou dois “ponteiros”, supondo sermos de empresa concorrente, na ânsia de nos alcançar, acabaram por cair nessa grota. Felizmente, nada de mais grave ocorreu, visto que, pouco além da grota, há um precipício de uns 30 (trinta) metros, no mínimo.

      Na descida, o Rogério encontrou um isolante perdido, certamente subtraído pelos bambus que insistem em retirar qualquer objeto que esteja fora da mochila (em sua travessia anterior - Casa de Pedra-Tijuco Preto-PM-Paiolinho- acontecera com ele... A estrutura de sua barraca ficou pelo caminho, e o colocava numa situação nada agradável... Felizmente, um montanhista amigo encontrou e o livrou de um belo perrengue). Agora seria sua vez de retornar ao Universo a boa energia. Não pensou duas vezes, e passou a levar o isolante nas mãos, para prendê-lo na cargueira quando alcançássemos o Maracanã, onde faríamos uma breve parada, se o dono não estivesse por ali mesmo. No Maracanã, haviam duas barracas e apesar do avançado da hora, 4h30min, achamos por bem, perguntar se o dono do isolante perdido estava ali... Foi um reencontro emocionante, rsrs... Nada como uma madrugada gélida para curar mágoas.

      Nesse momento as tripas do Rogério começaram a alardear que ele havia sido, no mínimo, ousado demais em comer de tudo um pouco durante o dia. O desconforto se avolumava e a necessidade de encontrar um ponto afastado da trilha para cavar uma fossa emergencial se fazia cada vez mais urgente. Seria sua sina pelos próximos quilômetros, deixar a pazinha, o papel e o lenço de fácil acesso. Ele procurava levar com bom humor a desagradável questão, considerando, que pelo menos, precisava carregar menos peso, a cada fuga para alijar parte da carga que ele carregava e que seu corpo não curtia. No plano, sem mochila, e com as facilidades da vida moderna, a questão já é delicada... Imagine subindo montanha, meio que às cegas, com cargueira de 15 (quinze) kg, a atenção que se dispensava para os sinais do seu corpo, tornara o caso tragicômico.

      Tocamos em frente, e pouco depois do nascer do sol estávamos andando na crista do Melano, no sobe e desce típico de crista de serra, perdendo altitude até alcançar a Cachoeira Vermelha às 9h da matina. Animados com o rápido progresso até ali, guardamos as cargueiras e partimos para o ataque ao Pico do Tartarugão, passando pela crista do Tartaruguinha. Não encontramos muitas referências para atravessar os trechos de capim, então fomos no bom e velho vara-mato até a base e subimos em ziguezague em duas duplas, para reduzir a chance de uma pedra solta acertar alguém. Alcançamos o cume do Pico do Tartarugão às 10h30min. Fizemos uma breve pausa para a manutenção do tubo de cume, fazer os devidos registros no livro, fotos e caminhadas pelo topo da montanha e começamos a descida, retomando as cargueiras na Cachoeira Vermelha e partindo para reabastecer o inventário de água no Rio Claro, ao pé da Pedra da Mina (PM). Aproveitamos para nos fartar de água e tocamos para a última subida do dia, chegando no alto da PM às 13h30min... O cume estava estranhamente vazio para um feriado prolongado, talvez consequência da crise no abastecimento de combustíveis. Escolhemos os melhores lugares, substituímos o livro de cume por um novo e, também deixando um reserva, uma vez que o anterior, iniciado em 03/02/2018 estava completo, registrando nosso progresso no novo livro, preparamos a primeira refeição da trilha e ficamos curtindo o visual.

      Conforme entardecia, esfriava e se formava a costumeira neblina na região, começamos a ficar um pouco apreensivos com o Adilson Cypriano que subia com outro grupo pelo Paiolinho e que não havia chegado ainda, chegando a considerar descer até a base da pedra, pelo caminho de quem vem pelo Paiolinho para verificar se estavam acampados na base, mas o cansaço e a confiança na capacidade do nosso amigo nos levaram a abandonar a ideia. Foram diversos gritos de “Adiiiiiiiilsoonnnnnnnnn” que marcaram o fim de tarde na Pedra da Mina, todos sem resposta perceptível. Conjecturamos sobre a pertinência de algum tipo de sinal sonoro com apitos, que permitisse a comunicação em distância maiores e ficamos de buscar possíveis códigos. Nos recolhemos cedo, para recuperar as forças para a pernada do dia seguinte, que prometia ser ainda mais pesada.


       
      Segundo dia:

      N

      a madrugada, descobrimos que o grupo do Adilson havia chegado pouco após o anoitecer e acampado próximo de nós. Apesar de ser uma rota muito mais curta que a pernada que havíamos feito desde a Toca do Lobo, a subida da PM, via Paiolinho é bastante exigente devido às subidas do Deus-Me-Livre e da Misericórdia, bastante íngremes e que tem que ser vencidas com as cargueiras carregadas. Felizes e aliviados com o reencontro, fizemos planos de atacar o Ruah Maior com ele, na tardinha do segundo dia, marcando encontro no alto do Pico do Avião, 15h.

      Levantamos cedo, 5h da madrugada e ficamos curtindo a alvorada e o nascer do sol, enquanto preparávamos as mochilas de ataque para as investidas do dia. Apesar de ser de ataque, as mochilas não estavam particularmente leves, pois, além da água e do mínimo para um eventual perrengue (casacos, kit de 1º socorros, lanches e petiscos para o dia), levamos os tubos de cume para serem instalados nos picos dos Camelos e os cadernos para reposição dos livros de cume, caso necessário.

      Um pouco tarde, mas refeitos do cansaço da véspera e tendo curtido o nascer do sol com calma, às 7h40min começamos a descida da PM pela rota da travessia tradicional, porém nosso primeiro destino era o Ruah Menor, de forma que, na bifurcação para a subida ao Pico do Avião, deixamos a trilha e passamos a seguir pela encosta, através das lajes de pedra e curtos vara-matos até alcançar o ponto onde nos parecia mais viável atravessar o Vale do Ruah para iniciar a subida. Nesse ponto é justo o registro de que, trilhávamos, se não nas exatas pegadas, no rumo aproximado que os amigos montanhistas Adilson Cypriano, Douglas Garcia e João Siqueira haviam desbravado em pernadas anteriores, quando em (29/07/2017) instalaram o Tubo de Cume no alto do Ruah Menor (ou Ruah Leste). Bom, uma ressalva é que na Serra Fina, “desbravado” não quer dizer “manso”, então tivemos nossa cota de vara-mato para alcançar a base do Ruah Menor e mesmo na subida, o que nos consumiu quase uma hora para avançarmos poucos metros. Chegamos ao cume às 9h30min, fizemos os registros devidos, observando que, desde a instalação no ano anterior, nenhum outro montanhista anotou sua passagem por aquelas plagas, algumas fotos de um ângulo diferente da PM e dos arredores, estudamos um pouco os próximos passos enquanto lanchávamos e começamos a descida, agora buscando nos aproximar do colo entre o Pico do Avião e o Primeiro dos Camelos. Nova seção de vara-mato; porém o estudo feito a partir do Ruah Menor se mostrou bastante preciso, e em “pouco” tempo estávamos escalaminhando as lajes de pedra do Pico de Avião, tendo passado pela famosa lata de sardinha deixada por alguém para marcar o caminho. O avançado estado de corrosão da lata indica que deve estar lá há pelo menos um par de anos, talvez mais.

      Quando alcançamos o colo entre os Picos do Avião e Camelos 1 (um), passamos a descer para buscar o acesso ao Camelos 1 (um), que por ter poucos trechos de vara-mato foi alcançado com relativa facilidade. A partir daí bastou “tocar para cima” até o Cume, alcançado às 11h. Nesse Cume não paramos para descansar, preferimos tocar para o Camelo 2 (dois), para recuperar um pouco do tempo dispendido nos vara-matos pelo Vale do Ruah.

      Entre lajes de pedra e escalaminhadas, progredíamos rapidamente e, pouco antes do meio dia, já estávamos descansando no cume do Camelos 2 (dois). Sob doação do Douglas, instalamos o primeiro dos Tubos de Cume que transportávamos, com material para “safar a onça” de um montanhista num perrengue naquela região onde quase ninguém vai (vela, fosforo, cobertor de emergência, coordenadas de latitude e longitude para solicitação de resgate), ideia e patrocínio do Douglas Garcia. Se alguém um dia precisar, já sabe a quem agradecer! Numa outra pernada o Rogério disse que vai acrescer uns saches de mel. Fizemos um breve registro no livro, algumas fotos e partimos para o Pico dos Camelos 3 (três), não muito distante, mas que exige mais técnica em algumas passagens à descoberto, com precipícios de ambos os lados... Nesse ponto a SF se afina ainda mais, rs, e é difícil não sentir um frio na base da espinha ao pensar no “e se”... Por outro lado, a vista da Crista do Pico Cupim de Boi, das montanhas do Parque Nacional do Itatiaia, do Vale das Cruzes e dos outros vales ainda sem nome ali é estonteante e vale todo o esforço.

      Alcançamos o Camelos 3 (três) e procuramos avaliar a viabilidade de alcançar o Pico dos Camelos 4 (quatro), terra que, até onde sabemos, ninguém pisara. Rapidamente entendemos o porquê: uma borda abrupta com penhascos a perder de vista de um lado e uma quiçaça quase intransponível do outro lado, coroando outros penhascos... Bom, como escrito anteriormente, “quase intransponível” e não “intransponível” descemos por esse lado, palmilhando cada passo com extremo cuidado, em busca de possíveis gretas escondidas pelo matagal que poderiam resultar num acidente grave ou mesmo fatal. Basta dizer que todos palmilhávamos a mesma passagem com igual cuidado, do primeiro ao último, considerando que a “racha fatal” poderia estar de olho em qualquer um, de campana, escondida sob moitas de capim navalha e bambus.

      Tomou tempo. Assustou. Custou sangue e suor. Mas atravessamos a quiçaça e retornamos às lajes de pedra, duas dezenas de metros abaixo da borda abrupta do Camelos 3 (três). Estávamos na parte menos conhecida de toda a nossa empreitada, trepando pedras e escalaminhando em busca do cume do Camelos 4 (quatro). Alcançamos o cume às 12h30min. Fizemos um breve descanso, depois nos veio à cabeça estabelecer um totem ali, que fosse visível da travessia tradicional, nos mirantes do Pico Cupim de Boi e também do Pico do Cabeça de Touro... Então enquanto descansávamos as pernas, exercitávamos (mais) os braços carregando pedras... Fizemos uma divisão de tarefas para minimizarmos o tempo e começarmos o retorno: um preparava o tubo de cume, fazia os devidos registros, com outro “kit perrengue” patrocinado pelo Douglas, outro fotografava (todos os créditos ao Rodrigo Oliveira nesse aspecto), outro trazia as pedras finais para o totem. Resolvi fazer 4 (quatro) círculos na encosta menos inclinada para ajudar na visualização do totem, raspando com uma pedra e removendo parte da rocha já intemporizada e escurecida pelo sol, revelando a rocha clara (gnais?) que forma aquele espigão (muito provavelmente, um batólito, formado à quilômetros de profundidade, que a erosão diferencial acabou por expor). Iniciamos o regresso, buscando manter o acordado de nos encontrarmos com o Adilson às 15h no Pico do Avião.

      Agora com o caminho já trilhado uma vez, porém sem descuidar, voltávamos mais rápido, parando para admirar a paisagem e retomar o folego de quanto em quanto, sempre em lugares mais amplos e antes das passagens mais arriscadas. Nesse ritmo, pouco antes das 15h (14h56min) estávamos no Cume do Pico do Avião, sozinhos... O grupo do Adilson se atrasara um pouco em relação ao previsto. Fizemos a abertura do tubo do Cume do Pico do Avião instalado em (21/07/2017), por doação do Douglas Garcia, e parceria com Adilson Cypriano, João Siqueira, Rodrigo Oliveira, Leo Muniz e Gabriel Aszalos, onde percebemos que um montanhista distraído deixou a tampa entreaberta e com os efeitos climáticos prejudicou a conservação do livro, o qual ficou todo encharcado, sendo contabilizado, 43 (quarenta e três) assinaturas desde sua inauguração. Realizamos sua manutenção e substituímos o livro de cume, realizando os registros. Em uma próxima oportunidade após a secagem, o Douglas irá levar cópia do primeiro livro e deixar no tubo de cume para consulta. Tiramos fotos, esticamos as pernas e descansamos um pouco, ponderando as opções. A possibilidade de varar mato para ir e voltar ao Pico Ruah Maior, provavelmente também varar mato montanha acima e montanha abaixo, o tempo frio, ventando forte e a névoa que começava a se formar desaconselhavam a empreitada. A lembrança do montanhista francês falecido no Pico dos MARINS e a dos dois montanhistas socorridos com hipotermia na semana anterior no Parque Nacional do Itatiaia contribuíam para a indecisão. O atraso do nosso colega foi a gota d’agua para adiarmos essa parte da empreitada.

      Enquanto curtíamos o frio e o fim de tarde no Cume do Pico do Avião, pensávamos no que fazer em seguida, o grupo do Adilson chegou e acabamos por dividir novamente as tarefas: enquanto o Rogério e o Marinaldo foram até os destroços do Avião (Monomotor PT-KMB, que saiu do Campo de Marte, SP, com destino a Juiz de Fora, MG, colidindo em 05/01/2000 na encosta Sul do Pico do Avião (São João Batista), vitimando 05 (cinco) ocupantes) o Douglas e o Rodrigo que já o conheceram em incursões anteriores iriam buscar água no Rio Verde, no Vale do Ruah. Nos encontraríamos no começo da subida da PM para retornar ao acampamento e descansar, de forma que a primeira dupla ao chegar deveria esperar a outra para dividir a carga na subida da PM. A caminhada até o local da queda foi rápida e após descer cerca de 100 (cem) metros de altitude em relação ao Pico, observamos os destroços, em grande parte ainda preservados devido aos materiais empregados e ao clima da Serra. Para não deixar os colegas esperando, uma vez que imaginamos que eles precisariam de uma hora para chegar no ponto de encontro, começamos a caminhada ao ponto de encontro às 15h50min, visando chegar na bifurcação das trilhas antes da dupla que havia ido buscar água. Chegamos lá em pouco mais de 40 (quarenta) minutos de caminhada pelas lajes da encosta do Pico do Avião. Aguardamos até as 17h20min pelo retorno dos amigos, que haviam se atrasado ajudando outros montanhistas que estavam perdidos no Vale do Ruah a retomar a trilha correta. Novamente reunidos, nos empenhamos em chegar ao Cume da PM antes do final da tarde, o que conseguimos apenas em parte, vimos os últimos raios de sol quando estávamos no último trecho da subida. Tratamos de preparar o jantar e nos recolhemos para as barracas, na esperança de que o descanso noturno nos trouxesse de volta às melhores condições. Meio engano: mesmo com a boa noite de sono, no outro dia o cansaço das sucessivas provações começava a se firmar e os músculos reclamavam aos novos esforços. Educados, reclamavam, mas atendiam aos comandos de “marche!”, “ande!” e “suba!” que recebiam.


       
      Terceiro dia:

      A

      cordamos cedo, ainda antes do sol nascer desmontamos as barracas e preparamos as mochilas, a pernada do dia seria longa, com o ataque ao Pico do Cabeça de Touro e havia alguma ansiedade com a solução que daríamos ao problema de acampar nessa noite, uma que a SF estava coalhada de grupos guiados ou autônomos que seguiam pela rota tradicional da travessia e que acampariam no Pico dos Três Estados e imediações, uma vez que a área de acampamento no cume dele é pequena e não comportaria tantas barracas. Consideramos bivacar próximo ao Cume, o que foi descartado pelo fato de não dispormos de equipamento para essa opção sem passar perrengue e ainda não estávamos precisando disso. Cogitamos passar direto pelo Cume e acampar mais para frente, mas a ideia de ver o sol nascer no último dia da travessia, no ponto de divisa dos Três Estados era por demais tentadora para ser ignorada sem uma longa análise.

      Acrescentamos um novo livro de Cume na PM, em somatória com aquele que colocamos na véspera, em parte surpresos com a quantidade de gente que registrara a presença desde que o iniciamos, em parte aborrecidos com o descaso que faz com que alguns pulem páginas ou grandes espaços em branco antes de registrarem a presença. Não há regramento, de forma que é aberto e livre o que e como registrar, desde data/nome/origem e destino, até os sentimentos experimentados, sonhos, promessas, enfim... Tudo. Mas nos entristeceu um pouco a atitude de alguns colegas de montanhas: de um dia para o outro, metade de um livro de Cume havia sido "preenchido"... Será que supõem que os livros de cume são de geração espontânea? Será que não podem aquilatar o trabalho que dá para manter esses registros nesses lugares inóspitos. Enquanto alguns desses supostos montanhistas se arrastam montanha acima, seja carregando todo o equipamento ou com apoio de terceiros no transporte, outros, de forma abnegada, o fazem com mais do que o material para si: trazem livros para reposição, tubos e caixas de cume montanha acima, para que todos possamos fazer registro dessa singular experiência que é alcançar alguns dos pontos mais altos do País.

      Iniciamos a descida da PM, agora no sentido da travessia tradicional, comentando a questão do lixo que alguns montanhistas deixam para trás, muitas vezes por descuido ou falta da educação adequada, outras pela situação de perrengue extremo em que se encontram. Ficava para trás, na Pedra da Mina, quase que junto ao livro de cume, os restos de uma barraca, certamente como consequência de uma situação de perrengue dessas, haja visto que pouco tempo antes, o fim de semana tinha coincidido com uma chegada de frente fria, com ventos de mais de 60 (sessenta) km por hora e muita chuva. Pode parecer pouco, mas combinado com a temperatura “normal” no cume da Pedra da Mina nessa época, inferior a 10°C, faz com que a sensação térmica seja abaixo de 0°. A julgar pela barraca, dificilmente os colegas estavam com os demais equipamentos adequados para a noite que passaram, ou melhor sofreram. Alguns montanhistas disseram que fariam uma subida para recolher lixo e que desceriam os restos da barraca. O Rogério pegou uma garrafa de 1,5 litros para levar embora; mesmo porque havia perdido outra de 500 ml cheia d’água, na pernada do dia anterior e por mais que procurasse, nem sinal.

      Acabou que combinamos de acampar no primeiro ponto que fosse adequado pouco antes ou após o Pico Cupim de Boi e retornarmos para o ataque ao Pico do Cabeça de Touro. Dessa forma, nosso abrigo já estaria garantido e, mesmo que a volta ao acampamento ocorresse durante a noite, teríamos condições para algumas horas de sono bem abrigados.

      Com essa intenção em mente, aproveitamos o nascer do sol na PM e pouco depois das 7h partíamos em direção ao Vale do Ruah, último ponto de abastecimento de água para a caminhada que ainda faríamos. Dessa vez, procuramos nos hidratar ao máximo, e levar todos os litros possíveis, pois sabíamos que a subida do Cabeça de Touro, com o sol à pino seria desgastante e consumiria bastante água.

      Passamos pelos grupos que acamparam no Vale do Ruah e seguimos em passo forte pelos sobe-e-desce dos morros que fazem caminho até a base do Pico do Cupim de Boi. Enquanto caminhávamos, todos os mirantes eram motivo de apertarmos os olhos na tentativa de distinguir nosso totem no Camelos 4 (quatro), desde a parte do Vale das Cruzes até o Cume do Pico Cupim de Boi, que alcançamos pouco depois das 11h.

      Na passagem pela crista do Pico do Cupim de Boi, observamos e avaliamos as opções de acampamento que haviam, mas nenhuma se mostrou muito convidativa para abrigar 3 (três) barracas, de forma que seguimos o sugerido pelo Douglas e descemos a encosta do Pico do Cupim de Boi, em direção ao Pico do Três Estados até um bosque de bambus no colo entre as montanhas, ali escolhemos os melhores lugares e rapidamente montamos acampamento e organizamos as coisas nas mochilas de ataque para o retorno ao Cume do Pico do Cupim de Boi, e em seguida, ao próprio Pico do Cabeça de Touro.

      Nesse momento o Rodrigo, permaneceu na dúvida se seguiria com o grupo ao ataque ao CT, por estar sentindo uma indisposição somada pelo esforço da empreitada, mas como diz o provérbio chinês: “Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”... Bastou uma troca de palavras com o Douglas, que o convenceu a nos acompanhar. Pouco antes das 12h partimos para o último ataque da travessia, com 2 (dois) litros de água para cada um, lanches e guloseimas, material de primeiros socorros, lanternas e os kits de perrengue para caso algo falhasse.

      Enquanto buscávamos o melhor ponto para descer a encosta do Pico do Cupim de Boi até o vale formado entre ele e o Pico do Cabeça de Touro, pudemos orientar muitos montanhistas que nos vendo seguir em frente após a bifurcação da trilha da travessia, seguiam nossos passos e acabariam em apuros para voltar com as cargueiras se insistissem no caminho que fazíamos. O que ocorre, é que naquele ponto a trilha da travessia faz uma curva à esquerda que 90º e passa a descer a encosta do Pico do Cupim de Boi em ziguezague e, sendo um trecho de laje de pedra, é fácil ao montanhista desatento passar direto por essa curva e gastar algum tempo tentando entender porque a trilha que vinha tão nítida “some” de uma hora para outra.

      Encontrado o ponto certo, começamos a descida, tomando cuidado com as pedras soltas. O Douglas seguia na frente, seguido pelo Rodrigo e pelo Rogério e o Marinaldo fechava a fila. Bastou descermos alguns metros para termos uma desagradável surpresa: enormes formigas soldados ameaçavam fazer o Rodrigo despencar montanha abaixo. Após alguns momentos tensos, com a ajuda do Douglas, conseguiu livrar-se dos raivosos insetos. Sabedores da nova complicação, todos adotaram uma tática: não parar onde fosse visualizado um formigueiro ou em quiçaças, assim, esperávamos que houvesse mais espaço entre os colegas que iam à frente e passávamos os trechos mais delicados com rapidez, o que nos livrou de maiores tormentos com as doloridas mordidas. Em condições normais, seria pouco mais que um inconveniente a presença desses insetos, porém ali, entre pedras soltas e um precipício de dezenas de metros às costas, era uma situação realmente delicada.

      De pedra em pedra, alcançamos a Peladona e dali miramos a peladinha e começamos a descer pela vegetação da encosta, pelo caminho que há pouco mais de um mês, Douglas, Adilson e o Rogério haviam aberto na base do vara-mato no peito. Como a gente sempre busca melhorar algo, testamos virar para direita e buscar uma laje de pedra para facilitar o avanço até o totem natural que existe no selado entre as duas montanhas. Depois de algumas fotos com a curiosa formação geológica começamos a escalaminhar a encosta do Pico do Cabeça de Touro, alcançando o Cume, todos juntos, às 13h20min. Fizemos as honras de praxe, descobrindo que o Cume havia recebido a visita de outra turma de montanhistas entre nossa passagem anterior e a presente.

      Mesmo assim, o livro de Cume do Pico do Cabeça de Touro tem menos de 40 (quarenta) assinaturas diferentes, desde 1992! Indício da dificuldade de acesso? Seria em razão do menor interesse dos montanhistas pelos cumes menos acessíveis da SF? ou pelo fato de montanhistas em alguma visita, não encontrar o livro? Ficam as perguntas. Procuramos com bastante afinco nosso totem no Camelos 4 (quatro), mas ficamos sem conseguir um registro fotográfico claro dele, mas sabemos que ele está lá aguardando a visita de novos montanhistas. Combinamos de começar a descida às 15h e, enquanto o Rogério fazia um abrigo de pedra para fugir do sol escaldante, os demais (Douglas, Marinaldo e Rodrigo) foram até os destroços de uma outra Aeronave que se chocou contra o Pico do Cabeça de Touro, um Embraer XC-95 Bandeirante, Prefixo FAB-2315, que vitimou 08 (oito) ocupantes, tinha partido da Base Aérea de SJC – CTA – SP, para retornar ao mesmo local. Assim, foi descoberto em pernadas anteriores, outro avião em um local de mais difícil acesso. Após tirar fotos e caminhar por muitos destroços espalhados pela montanha, seguiram pela crista do CT até o seu extremo para curtir o visual do ponto mais próximo do Parque Nacional de Itatiaia.

      Na incursão anterior, em (22/04/2018) a ideia era aferir com pelo menos dois aparelhos de GPS diferentes a altitude do Pico do CT. Encontramos 2633 metros de forma coerente entre os dois aparelhos. Ao nos afastarmos do Pico, o valor decrescia de forma coerente e nossos relógios apontavam pequena divergência, inferior a 5 (cinco) metros com os valores observados pelos GPS.

      Pouco depois das 15h, começamos a descida, e com a experiência acumulada, em pouco mais de 20min estávamos caminhando pelas lajes de pedra em busca do melhor ponto para atravessar o capim navalha que cresce no selado entre as duas montanhas. E como cresce! Há lugares que as touceiras suplantam a altura de um homem com as mãos para cima... E pensar, que vistos lá de cima, parece longos trechos gramados. Uma observação empírica: quanto mais água disponível mais o capim cresce e, mais ele entrelaça as folhas com as touceiras vizinhas.

      Da base do Pico do Cupim de Boi nesse selado bastou aplicar o “toca para cima” de tudo quanto é jeito que em pouco tempo estávamos novamente na Crista do Pico do Cupim de Boi. O Douglas e o Marinaldo optaram por ficar para ver o sol se pôr, enquanto o Rogério e o Rodrigo desceram até o bosque para jantar e dormir. Porém eles não esperavam que o bosque estivesse daquele jeito. Parecia que estavam na Praça da Sé em SP, na hora do rush... Não havia um caminho livre, todos os cantos e passagens estavam tomados por barracas... Com “com licença” e “desculpe” foram se esgueirando até suas barracas para tentar dormir em meio ao burburinho de dezenas de pessoas que estavam em diversos grupos se espremendo no bosque. Apesar de não haver mais caminho livre, ainda haviam grupos de amigos chegando e com alguma paciência e bastante colaboração entre desconhecidos, todos conseguiam se acomodar. O Rogério ajudou alguns montanhistas a instalar a barraca e foi dormir, com uma facilidade incrível (o barulho eufórico era intenso), mas havia um motivo essa sua facilidade: levantaríamos às três da madrugada para partir às quatro e chegar no Cume do Pico do Três Estados a tempo de ver o sol nascer.


       
      Quarto dia:

      O

      Douglas acordou todo o grupo às duas da madrugada com uma mudança de planos: havia muita gente combinando partir para o Pico do Três Estados às quatro da manhã, era grande a chance de ocorrer um “congestionamento” na trilha o que poderia arruinar nossa ideia de curtir o nascer do sol e já começar a descer para o Sítio do Pierre. Foi providencial a mudança de planos, pois teríamos a comprovação desse temido congestionamento ao longo do dia nas trilhas. Em meia hora, Rogério estava pronto com a mochila pronta e foi fazer hora, enquanto o Douglas preparava o café da manhã com uma crepioca (ovo com tapioca, queijo provolone e sal de ervas). Diga-se de passagem, muito boa!

      O Rodrigo estava pálido, consequência das fortes cólicas intestinais que prejudicaram seu sono e o atormentava, mesmo após seguidas idas às moitas mais distantes do equipamento. Ainda assim, o planejado foi mantido, considerando que, caso fosse algo mais grave que uma “mera” indisposição intestinal, o quanto antes alcançássemos a civilização, melhor seria. Com a cargueira vestida, o apertar da barrigueira lhe deu um conforto temporário e seu rosto adquiriu uma coloração rosa-pálida que ainda denotava seu sofrimento. O Rogério se ofereceu para levar sua cargueira por um tempo, para reduzir seu martírio, mas ele valentemente, não aceitou. Talvez adepto da filosofia que prega que “cargueira é como consciência, cada um leva a sua”... Para desconfortos intestinais e preocupações em geral, nada melhor que um bom ”toca para cima”, de forma que terminamos de preparar as coisas para a pernada do dia.

      Partimos 3h20min pelos labirintos formados pelas barracas e logo começamos a encontrar outros madrugadores nas trilhas, mas que ainda não estavam com todos os apetrechos guardados. De forma que éramos o primeiro grupo a subir a encosta do Pico Três Estados e podíamos ditar nosso ritmo, apertando o passo em certos momentos e aliviando em outros para descansar e apreciar a paisagem sob o luar parcialmente amortecido pelas nuvens.

      Em alguns pontos, quando já estávamos próximo ao primeiro Cume do dia, podíamos divisar as luzes dos acampamentos entre as folhagens dos bosques abaixo. A imagem lembrava as fotografias noturnas de acampamentos de garimpeiros, isolados na escuridão da floresta. Não deixava de ser poético, o contraste entre a tranquilidade da escuridão e a agitação das luzes das turmas em preparação para o último dia de caminhada.

      Alcançamos o Cume do Pico do Três Estados às 5h manhã, assinamos o livro de cume e escolhemos um bom lugar para apreciar o nascer do sol, abrigado do vento frio da madrugada. Procuramos um local para que o Rodrigo pudesse bivacar, estendemos um isolante na laje de pedra para deixa-lo confortável enquanto ele buscava se acertar com o intestino rebelde. Enquanto esperávamos, rememorávamos acontecimentos e impressões dos últimos três dias. Conforme amanhecia, as nuvens que amorteciam o brilho da lua se tornavam mais visíveis e traziam dúvidas sobre aquele nascer do sol tão esperado. Pouco antes do romper da aurora, o sol tingiu de sangue o horizonte com o perfil das montanhas do PN de Itatiaia ao fundo. Fizemos fotos de perfil contra a vermelhidão do amanhecer ... Foram breves momentos, antes das nuvens se fecharem e ocultarem inteiramente o sol, mas valeram todo o esforço.

      Como combinamos, começamos a descida do Pico do Três Estados pouco após as 7h pela trilha da direita, bastante íngreme e progredíamos com velocidade, porém acabou que na “pressa” em começar a descida, deixamos o Douglas para trás, e como ele não se manifestou logo no início, descemos quase que toda a encosta antes do Marinaldo nos alertar sobre a ausência do Douglas. Aguardamos um pouco, chamamos algumas vezes por ele e ante a ausência de resposta, só nos restou tocar montanha acima, voltando sobre nossos passos na busca do amigo retardatário... Alcançamos o Cume do Pico do Três Estados e nada dele, procura daqui, procura dali e nada... Mistério... Supondo que ele tivesse optado pelo caminho da esquerda, começamos a descer novamente, chamando por ele e... Ouvimos ao longe “frannnnnnnngoooooo”, quase que um grito de guerra do nosso amigo. Numa mistura de alivio e zanga, apertamos o passo, mas sem responder a ele e ao pé da descida nos reencontramos. Feitas as acusações mútuas de praxe e vencida a zanga, fizemos as pazes e retomamos a pernada, caminhando em direção ao Cume do Pico do Bandeirante, alcançado em pouco mais de uma hora de caminhada, em passo tranquilo. Na verdade, a partir do Pico do Três Estados, não seria muito preciso dizer que estávamos “trilhando”, seria mais justo dizer que passeávamos, curtindo a trilha, as montanhas, o cheiro da mata. Acho que nesse ponto, mesmo o Rodrigo também curtia, ainda que sofrendo com a cólica. Supondo que tivesse alguma relação com a economia de água, procurei fazer com que bebesse a cada pouco. Não havia mais pressa, não havia mais “ataques”, era uma questão de manter o foco, para evitar acidentes e caminhar pelo ombro do Pico dos Três Estados e subindo pelo Pico do Bandeirante, penúltimo Cume da travessia.

      A partir do Cume do Pico do Bandeirante, seguimos no tradicional sobe-e-desce da SF, perdendo altura de forma consistente, enquanto buscávamos o sopé do Pico do Alto dos Ivos, derradeiro Pico da Travessia. Da base dele até o cume, são cerca de 130 metros de altura, menos de metade da diferença de cota observada na Pedra da Mina ou no Pico do Cabeça de Touro, mas com o cansaço somado dos dias anteriores, não deixa de ser uma visão ameaçadora para os que estão se arrastando na travessia.

      Para nós, marcava o início do fim da nossa aventura pela Serra Fina. A partir desse cume, alcançado às 9h20min, a trilha seria de descida quase que constante até alcançar o Sitio do Pierre. Como havíamos sido conservadores com o consumo de água, tínhamos agora água abundante e fazíamos uso dela com muito gosto.

      Caminhando sem pressa, procurando distrair o Rodrigo das cólicas, fizemos os últimos quilômetros caçando morangos silvestres, framboesas, azuizinhos do cerrado, e amoras silvestres, chegamos ao ponto de resgate às 13h30min, com considerável margem para o horário marcado das 15h. O Douglas e o Marinaldo chegaram pouco depois, o Douglas mancando um pouco devido aos calos que o atormentavam desde a descida do Pico dos Três Estados. Aproveitamos para comprar alguns produtos de um produtor local, pouco acima do local do resgate. Queijo, mel, doce de leite, goiabada cascão... Tudo provado e aprovado.

      Fizemos a tradicional foto de fim da travessia, nos parabenizamos mutuamente e ficamos curtindo a sensação de superação e orgulho pelo sucesso da empreitada, inédita ao nosso conhecimento em vários sentidos, realizando a Travessia Serra Fina em 4 (quatro) dias subindo todos os Picos da Travessia Tradicional, mais os Picos do Tartarugão, Ruah Menor, Camelos 1 (um), Camelos 2 (dois), Camelos 3 (três), Camelos 4 (quatro), Avião, e o colossal Cabeça de Touro (que está inteiramente no território do Estado de São Paulo, sendo o mais alto do Estado), onde a batizamos de Travessia Serra Fina Full (TSFF).

    • Por RaulConte
      Com o feriado de 7 de Setembro se aproximando, eu e mais 3 amigos começamos a nos preparar para fazer a subida à Pedra da Mina via Fazenda Serra Fina, não fazendo ideia do que nos esperava. Moramos em Barbacena, e a viagem de carro até o pacato município de Passa Quatro (MG) demora em torno de 4 horas, mas o acesso à fazenda é por uma estrada de terra que nos toma mais 1h15min...enfim, saímos de Barbacena por voltas das 3h50 minutos, enfrentamos as precárias estradas do sul de MG, paramos em Pouso Alegre para tomar um café da manhã reforçado e seguimos para enfrentar a mais precária ainda estrada de terra que dava acesso à Fazenda Serra Fina. A estrada é bem sinalizada, então não houve grandes dificuldades para chegar até a fazenda, principalmente usando o GPS. Chegando lá por volta das 9h30, pagamos R$20,00 à senhorinha que mora na fazenda, assinamos um livro que é para controle de quem entra e sai da trilha, nos arrumamos e iniciamos a trilha por volta das 10h. A placa que marca o início do caminho passa uma ilusão gigantesca de que a subida até o pico leva 5h, o que nós realmente acreditamos veementemente e achamos inclusive que dava para abaixar esse tempo (iludidos 😓).
      A primeira parte da trilha é muito tranquila, basicamente um caminho por mata fechada (bem fechada, alguns pontos é até difícil ver a trilha), com alguns pontos de lamaçal e riachos, mas todos com algumas pedras que auxiliam na passagem. Após 30 min de caminhada tranquila, chegamos à cascata, com uma água cristalina e um visual sensacional. Após atravessar pelas pedras, bem escondido no canto esquerdo da outra margem do rio, tem um acesso à uma cachoeirinha que nos brinda com esse visual SENSACIONAL. Perdemos uns 20 minutos ali descansando, tirando fotos, hidratando e checando a trilha no WikiLoc (app que recomendo muito, inclusive, baixamos a trilha antes de sairmos de casa e nos ajudou muito). Na cascata também existem muitas abelhas pretas, que não têm ferrão, mas grudam no cabelo e tem uma mordida muito doída.

      A trilha a partir daí começa a exigir muito mais do físico, já que começa uma subida já com traços de escalaminhada, muito íngreme e muito longa (realmente parece que nunca mais acabar). É válido lembrar para levar um calçado adequado, pois a terra e o capim tornam a trilha muito escorregadia. Após esse primeiro "susto" com a necessidade física da trilha, chegamos num primeiro local de acampamento, onde paramos para almoçar e abastecer nossos recipientes de água numa bica que tem por lá (a água é geladinha e tem um gosto sensacional, a vontade era encher algumas garrafas para levar para casa), já que segundo o WikiLoc e alguns relatos, ali é o último ponto de água antes do cume (e a informação realmente procede, a travessia toda se destaca pela escassez de pontos de água). Ali tinham alguns grupos de trilheiros que almoçavam e conversavam, e todos eles nos disseram que a pior parte da trilha estava logo a frente (o que muitos relatos também confirmavam).

      Após uma parada de mais ou menos 1h para almoço, descanso e abastecimento de água, seguimos viagem já preparando o psicológico para enfrentar o temido "Paredão do Deus Que Me Livre", e o paredão faz jus ao nome ! Estávamos animados com o horário, já que segundo o WikiLoc, fizemos praticamente metade da trilha em questão de distância em 2 horas, mas ao observar o que nos esperava, vimos que a trilha mal havia começado. O subidão é praticamente do começo ao fim uma escalaminhada muito pesada, em alguns momentos exigindo inclusive uma certa experiência com escalada. É bom sempre ficar atento aos totens e às marcações reflexivas, pois alguns pontos da subida possuem várias bifurcações e é realmente muito fácil se perder. Sempre que possível, parávamos em algum lugar para descansar e hidratar, mas o cansaço bateu forte do começo ao fim, pensamos em desistir algumas (muitas) vezes.

      Terminando o subidão da Deus Que Me Livre, demos de cara com o Morro da Misericórdia, que era igual ou pior ao anterior. A essa altura, o psicológico bate forte, muitas pessoas montam equipamento ali mesmo, ou um pouco mais a frente, dentro da mata no vale, aonde tem uma área de acampamento em uma área de mata fechada; mas resolvemos continuar. Após chegar ao fim do Morro da Misericórdia, com as pernas e os ombros pedindo arrego, nos deparamos com mais uma caminhada considerável até chegar no pé do morro da Pedra da Mina, aonde montaríamos acampamento. Andamos devagar, ainda nos recuperando das duas subidas absurdas que havíamos acabado de vencer, mas chegamos à área de acampamento por volta das 17:10, montamos acampamento rapidamente e subimos ao morro sem mochila para acompanhar o por do sol, o que com certeza valeu muito a pena. Lá de cima é possível ver claramente o belo Vale do Rhua, o Pico das Agulhas Negras e alguns vários municípios da região, a vista é DESLUMBRANTE, por um instante até se esquece o esforço feito para chegar até ali.

       
      Após ver o por do sol, descemos para nos alimentar e ir dormir. Colocamos algumas roupas secas, já que as da trilha estavam encharcadas de suor e o frio já estava começando a dar as boas-vindas, fizemos um macarrão com frango desfiado usando o fogareiro a álcool, apreciamos o belíssimo céu estrelado com direito até a chuva de meteoros e fomos dormir.
      Nosso "rango", que deu uma sustância muito boa e ficou pronto rápido
       
      Acordamos por volta das 5:30, desmontamos acampamento e andamos um pouco até o pico do Morro da Misericórdia, para afastar-nos um pouco do frio. Lá no pico, tomamos café com uma vista deslumbrante do vale, e por volta das 7:00 começamos a descida da trilha, que é tão doída quanto a subida. O joelho dói muito na descida, já que boa parte da trilha é escalaminhada e descidas muitos íngremes, um bastão de caminhada é ESSENCIAL para a volta. Chegamos até a área em que almoçamos na subida, descansamos por mais ou menos 1h e repusemos a água na bica para continuar a descida. Chegamos à fazenda exaustos por volta das 11:30 e embarcamos no carro para a volta para casa e o merecido descanso.
      Nossa vista do vale durante o café da manhã 
      A trilha exige MUITO preparo físico, equipamento bom (principalmente calçado, bastão de caminhada,barraca, isolante térmico e saco de dormir para -10ºC) e exige também muito preparo psicológico, mas com certeza valeu muito a pena. A vista durante toda a trilha é sensacional, o céu noturno no alto do pico é inexplicável e a experiência como um todo é sensacional. Da próxima vez, pretendemos fazer a travessia de 4 dia da Serra Fina, começando pela Toca dos Lobos, mas até lá ainda vamos nos recuperar por um bom tempo 😅😅😅.

      O frio castigou durante a noite ! ❄️❄️
       
       
       
    • Por Igorthebard
      Partindo de São Paulo, eu e mais quatro amigos passamos 12 dias nessa viagem, incluindo o trekking do Monte Roraima e os passeios turísticos mais tradicionais de Manaus, entre outros programas mais alternativos que agradam qualquer mochileiro com espírito de aventura. Fizemos tudo da forma mais econômica possível sem comprometer a segurança e o mínimo de conforto, disso saiu um rolê bastante acessível, exótico e simplesmente fantástico. Acompanhe nesse relato dia a dia com todas as informações necessárias pra te ajudar a planejar e aproveitar ao máximo sua viagem e evitar perrengue.
                      Essa foi também a primeira viagem internacional do grupo Trilhando na Faixa, então inscreva-se no canal para ver o vídeo assim que estiver disponível: https://www.youtube.com/channel/UCw7K-Ri4mgpVsG4WIBdIbSg
                      Lembrando que os valores são aproximados e referentes a Julho de 2018, podendo apresentar variações. Os valores discriminados são em despesas essenciais, não esqueça de reservar um pouco do orçamento para uma regalia ou outra que não conste na lista.
                      Bônus para os Veganos: O autor que vos escreve é um também, então acompanhem pra terem informações específicas sobre a alimentação vegana em cada local.
      Índice de dias (use o Ctrl+F para navegar):
      Dia 1 – De São Paulo a Manaus a Boa Vista
      Dia 2 – De Boa Vista a Santa Elena de Uairén
      Dia 3 – De Santa Elena ao Paratepuy ao Acampamento do Rio Têk
      Dia 4 – Do Rio Têk ao Acampamento Base
      Dia 5 – Do Acampamento Base ao Hotel Índio e circuito no topo
      Dia 6 – Vale dos Cristais Brasileiro, Ponto Tríplice, El Foso e o cume
      Dia 7 - Do topo ao Rio Têk
      Dia 8 - Fim do trekking e Gran Sabana
      Dia 9 - De Santa Elena a Boa Vista, Lethem e Manaus
      Dia 10 – Manaus, praia da Lua e Mercado Municipal
      Dia 11 – Rios Negro e Solimões, INPA e bar
      Dia 12 – Teatro Amazonas e retorno pra São Paulo
       
                                                                
      Antes de mais nada – Preparação
       
                      O planejamento da viagem foi montado em torno de seu prato principal, o trekking do Monte Roraima, então as outras coisas entraram como um adicional oportuno.
      Para o trekking em si
       
                      Juntamos um grupo de 6 pessoas com disponibilidade de duas semanas em Julho para subir o Roraima de forma econômica, nosso plano foi de contratar um guia local e fazer o trekking sem recorrer a porteadores de equipamentos ou serviços de agência. Estando todos habituados a atividades outdoor, não seria problema algum transportar nossas cargueiras ou cozinhar nos acampamentos, então o serviço de que precisaríamos seria o mais básico possível. Procuramos por guias que trabalhassem dessa forma e encontramos algumas boas opções, sempre indo atrás de indicações e comentários sobre cada um.
       Tendo sido o que prestou melhores esclarecimentos sobre tudo que precisávamos e estando numa faixa de preço bastante razoável, além de ter sido recomendado por uma conhecida, optamos pelo Jesus (WhatsApp: +5804266940599 / +5524992802417 ), contratamos o serviço de guia para uma expedição de 6 dias e um porteador para a estrutura de “banheiro” (mais sobre isso adiante) e transporte de lixo e dejetos, já que o Parque Nacional Canaima exige que se traga de volta isso tudo. Lá não existe levar pazinha e enterrar os dejetos, os porteadores trazem tudo de volta em sacos plásticos grossos com cal. É incluso também o transporte em 4x4 de Santa Elena ao Paratepuy, onde começa a trilha, e a volta.
                      Os guias não cobram por pessoa, mas pelo trekking em si, independentemente do número de participantes. Cada guia pode levar até 6 pessoas. O valor acordado foi de 3000 mil reais, totalizando 500 de cada um de nós. Antes da viagem, uma das pessoas envolvidas precisou desistir da viagem e o custo final foi de 600 por cabeça. Nos oferecemos para pagar parte do valor em equipamentos de camping, já que eles são muito caros e difíceis de conseguir na Venezuela, e Jesus incluiu um passeio em algumas cachoeiras da Gran Sabana no último dia do trekking como uma troca de gentilezas. Todo mundo saiu feliz, rs.
      Pagamos uma parte do preço antecipadamente para reservar o serviço, o restante seria pago em mãos na véspera da expedição. Mantivemos contato com o guia nos meses antes da viagem para preparamos os equipamentos e afins, partimos da seguinte lista de itens essenciais, que pode ser ajustada de acordo com as necessidades de cada um:
       

      É perfeitamente possível reduzir o número de trocas de roupa; uma para o dia e uma para a noite, mais uma de reserva, só é muito importante ter todas as peças para o sistema de aquecimento em camadas e também um bom número meias, se possível utilize as específicas para trilha, são caras mas valem muito a pena para o conforto e saúde dos pés na expedição. Do contrário, improvise um liner colocando uma meia social sob a comum, isso ajuda a reduzir o atrito dos pés com a bota e previne bolhas. Truque simples e funcional.
      Julho é temporada de chuvas no Roraima, então pra quem vai nessa época é muito importante ter uma barraca resistente a água (o sobreteto sim, mas também o piso, atenção pra isso); roupas impermeáveis; saco estanque para os eletrônicos, saco de dormir e roupas; sacos plásticos para o restante; capa de chuva pra mochila e possivelmente ainda um poncho.
      IMPORTANTE: Não use barraca que não seja autoportante, no topo do Roraima é bem capaz que ela dê trabalho ou seja simplesmente inútil no chão de pedra e areia dos hotéis (parapeitos rochosos ou pequenas grutas que servem de cobertura natural, provendo locais de acampamento protegidos de chuva e vento).
      O tempo lá é imprevisível e muda muito rápido por conta dos ventos alísios. Chove com frequência, em geral em baixo volume, mas às vezes a aguaceira pode vir mais forte. Não tem hora pra cair a chuva, as previsões do tempo dão uma ideia do que esperar, mas inevitavelmente vão errar em algum momento. Esteja sempre preparado.
      Uma boa mochila é essencial para quem vai levar suas próprias coisas, escolha uma que se ajuste bem e fique confortável com o peso, aprenda a regulá-la corretamente de antemão.
                      O uso do bastão de caminhada é opcional, mas é um equipamento extremamente útil para a subida e descida íngreme do Roraima, bem como para a travessia dos rios no caminho e outras possíveis utilidades
      Leveza é palavra-chave para se equipar, busque dividir barracas e investir em equipamentos leves e compactos, bem como em não levar nada além do que vai ser preciso e suas margens de segurança. Isso vale pra comida também, seja o mais eficiente possível.
      Dica Vegana: Para as refeições principais, levei 3 pacotes de Carne de soja, arroz integral com lentilha e purê de batatas da LioFoods, cada pacote dá pra duas refeições e apenas o purê não é vegano, basta dá-lo pra algum colega e voilá, dá pra comer até sem água quente, se necessário. Levei também um pacote de sopão de legumes da Kitano, levinho e faz até 8 pratos. Foram 14 refeições potenciais em 1066 gramas, 6 mais encorpadas e 8 mais leves. Para cafés da manhã e lanches, fui de amendoins, paçoca, biscoitos, barrinhas e Rap10 integral. Deram conta muito bem.
      É importante ter um método de purificar a água. Quando estiver no acampamento é preferível aproveitar a possibilidade de fervê-la, mas no caminho você vai ter de se virar com o cloro (ou um Lifestraw, se você tiver). Eu costumo utilizar o Hidroesteril ao invés do Clorin, é mais barato, fácil de achar e rende mais. É possível também pegar Hidrocloril gratuitamente em postos de saúde. Escolha o que preferir.
      Não é possível transportar os cartuchos de gás de fogareiro no avião, então reservamos alguns em uma loja em Manaus próxima ao aeroporto, a Apuaú Pesca. Os cartuchos ficaram 20 reais cada. Se sua alimentação não for excessivamente demorada para preparar, só um já dá conta muito bem para uma pessoa. Eu recomendaria levar dois só por garantia, o segundo podendo ser o backup de outro colega também, talvez.
      O Roraima não é um trekking difícil, mas ir com cargueira é pedreira nos trechos de subida. Não é necessário ser um atleta, mas não é programa pra sedentário, quiçá com porteador pra levar as coisas, mas mesmo assim é melhor adquirir condicionamento e experiência com outras trilhas menos exigentes. É possível para iniciantes, mas é essencial se informar e equipar muito bem, e ter a resiliência pra encarar dificuldades que são de praxe pra quem já tem o costume de travessias e acampamentos. Quanto menos delas forem novidade, mais tranquila será a experiência.
      Um resgate de helicóptero lá no alto é perfeitamente possível por conta das áreas planas do topo, mas custa uns 6 mil reais, e diferente das agências que já cobram alguns milhares de antemão, ir com guia contratado quer dizer que quem vai arcar com esse custo será você caso precise. Se prepare e se informe antes de ir, a montanha não vai sair de lá se você precisar esperar algum tempo pra conhecê-la.
      Para o caminho
       
                      Para fazer o trekking, precisamos ir até Santa Elena do Uairén na Venezuela, cidade fronteiriça com Pacaraima, vizinha da capital roraimense Boa Vista, que conta com um aeroporto, mas para o qual os voos de São Paulo estavam tanto caríssimos quanto muito longos. Acabamos optando por ir por Manaus e pegar um ônibus noturno a Boa Vista, mas na trilha encontramos um casal que conseguiu um preço bom de voo pra lá, então fique de olho pro que for melhor, talvez consiga uma boa promoção. Compramos as passagens de ida e volta antecipadamente pelo Guichê Virtual. De Manaus a Boa Vista o ônibus não lota, dá pra comprar na rodoviária, mas pro caminho de volta é bom comprar com antecedência.
                      Para entrar na Venezuela basta o RG, e o processo é até mais rápido do que com Passaporte, então se não fizer questão do carimbo, pode deixa-lo em casa. Para sair de Santa Elena para o interior da Venezuela, é preciso o Certificado Internacional de Vacinação contra febre amarela. Você vai precisar disso se por acaso for parado num posto de controle na estrada. Não precisamos apresentar o documento em nenhum momento, mas é bom tê-lo em mãos pra evitar problemas, é fácil, rápido e gratuito solicitá-lo, então não tem desculpa.
                      Já deixamos feita nossa reserva para a hospedagem em Santa Elena, na Posada L’Auberge, lugar seguro e confortável com chuveiro quente, camas limpas, ar condicionado e wi-fi, todo o necessário para uma boa noite de descanso. O preço ficou bem em conta e a pousada está localizada no coração da área turística da cidade, próxima a bons restaurantes. O único ponto negativo é a parca iluminação em alguns quartos, que nos fez tirar as lanternas da mochila antes mesmo do trekking, mas só isso.
                     
      Dito isso, vamos ao dia a dia da viagem.
       
      Custos na preparação:
       
      R$ 3000 pelo Guia, valor divisível em até 6 pessoas;
      R$ Variável de alimentação e equipamentos pro trekking;
      R$ Variável de transporte aéreo;
      R$ 367 nas passagens de ônibus Manaus-Boa Vista e retorno (compradas via Guichê Virtual);
      R$ 20 por cada cartucho de gás em Manaus (a quantidade a levar vai da preferência de cada um);
      R$ 40 de reserva de diária na hospedagem em Santa Elena, valor aproximado, varia de acordo com o quarto.
       
      Dia 1 – De São Paulo a Manaus a Boa Vista
       
                      No primeiro dia pegamos nosso voo de São Paulo a Manaus pela manhã, chegamos a nosso destino na hora do almoço e fomos recebidos pelo contraste do bafo quente do clima manawara com a temperatura amena do ar condicionado do avião. Entramos logo num Uber para irmos comprar os cartuchos de gás que havíamos reservado. O próximo destino foi a rodoviária, onde retiramos nossas passagens para o ônibus a Boa Vista. Deixamos as cargueiras no guarda-volumes da rodoviária e partimos a pé para um Carrefour que fica lá pertinho, para pegar o resto dos mantimentos que faltavam pro trekking e também para beliscar na viagem de ônibus. É bom não deixar pra comprar nada em Boa Vista ou Santa Elena, se possível, já que não há muitas opções no caminho, e definitivamente nenhuma com tanta variedade quanto esse Carrefour.
                      Dentro do supermercado há um caixa Itaú, já retiramos o dinheiro para a Venezuela lá mesmo, mas há caixas eletrônicos 24 Horas tanto na rodoviária de Manaus quanto na de Boa Vista. Fica a gosto do freguês onde fazer o saque.
                      Depois disso, fomos passar o resto da tarde no Amazonas Shopping, boa opção próxima à rodoviária para fazer hora antes do horário do ônibus. Jogamos uma partida de airsoft e comemos na modesta praça de alimentação.
       

                      Dica vegana: Foi aqui que eu já tive o primeiro indício de que Manaus não é lá muito fácil pra vegano, não tinha nada no cardápio de nenhum dos restaurantes que fosse livre de produtos de origem animal. Pedi pra adaptar um prato no Alemã Gourmet e foram bastante solícitos, aceitaram substituir os ingredientes animais por outros vegetais sem custos a mais nem nada. Foi uma boa opção considerando custo, também.
                      No fim da tarde voltamos pra rodoviária pra esperar o horário do ônibus. Pra quem suar demais sob o sol manawara, lá há a opção de pagar um valor módico para tomar um banho. Próximo a uma das paredes há tomadas para carregar o celular.
                      O ônibus partiu às 20h para chegar em torno de 6h30 no destino. O semi-leito já é confortável por si só, mas ele partiu com tão pouca lotação que foi possível que quase todo mundo tivesse duas poltronas lado a lado para si, permitindo deitar de forma muito mais à vontade do que o normal, o que foi ótimo. A TV do ônibus saiu de Manaus exibindo uma novela da Globo e depois um filme de ação genérico. O veículo contava com wi-fi, mas este só funcionou até sair da cidade, depois disso ficamos sem sinal com o mundo exterior.
                      A estrada a Boa Vista é bem cuidada, é uma viagem bastante tranquila por entre vegetação densa pontilhada por alguns pontos de luz que despertam a curiosidade de o que seriam. Eu não sabia o que esperar da parada, definitivamente não um Graal como os das rodovias de São Paulo, mas fiquei surpreso com o quão modesta era a lanchonete escolhida. Apenas o básico do básico, então é bom estocar o necessário em Manaus mesmo. Foi engraçado reparar que, apesar de estarmos no meio da madrugada numa cidade minúscula na Amazônia, a algumas quadras dali rolava um estrondoso pancadão de funk. Acho que algumas coisas são as mesmas em todos os lugares, rs.
      Dia 2 – De Boa Vista a Santa Elena de Uairén
                      Chegamos em Boa Vista bem cedo de manhã. A rodoviária de lá é um pouco melhor do que a de Manaus, mas não tem nada em volta dela. Para ir a Santa Elena de Uairén há táxis que vão até a fronteira e voltam, eles ficam numa outra rodoviária lá perto, basta tomar um táxi comum até lá que não deve passar de 10 reais. Nessa outra rodoviária, é possível aguardar até o carro pra Santa Elena encher para dividir o valor entre mais pessoas. Conseguimos ir os 5 em um carro só, de 7 lugares, os espaços restantes ficaram para as cargueiras. 50 reais por pessoa.
                      Há ônibus que vão e voltam da fronteira também, mas não vale tanto a pena  pelos horários.
                      A estrada de Boa Vista até Santa Elena, passando pela última cidade brasileira antes da fronteira, Pacaraima, é uma linha reta cortando plantações perfeitamente planas. Não há nada pra ver na estrada, o caminho leva pouco mais de duas horas, é o momento perfeito pra tentar dormir um pouco e encurtar a percepção do percurso.
                      A entrada na Venezuela é bem rápida e tranquila, basta passar pelo posto da polícia federal, responder algumas perguntas de identificação e retirar seu Permiso de entrada. Você vai precisar apresentá-lo na hora de voltar pro Brasil, guarde-o seguramente.
                      Verifique se seu taxista pode te deixar em sua hospedagem em Santa Elena, é uma opção bem conveniente se ele concordar. Se preferir, já aproveite pra agendar a volta também, mais uma vez verificando se é possível partir já da porta do hotel. Muito mais prático do que pegar outro táxi até a fronteira, mesmo se ficar um pouquinho mais caro.
                      Chegamos ao L’auberge no começo da tarde e nos hospedamos, já fazendo agora a reserva para o dia do retorno do trekking. Jesus já se encontrou conosco lá mesmo, onde também havia se hospedado, e deu breves explicações sobre o percurso do trekking e sobre Santa Elena, o briefing de verdade seria à noite. Feito isso, nos convidou para ir almoçar nas redondezas e já aproveitar pra trocar o dinheiro.
                      Comemos em um restaurante bem simples lá perto, com poucas opções. Fiquei só no arroz e macarrão mesmo, e estranhei um pouco este porque os venezuelanos parecem utilizar um molho de tomate muito mais doce do que o nosso. Percebi também que todos os pratos vieram excepcionalmente bem servidos, nenhum de nós conseguiu terminar de comer tudo. Muita comida é uma constante lá na Venezuela, então vá com a barriga preparada para fartas refeições, rs. Experimentamos uma bebida popular de malte, o Maltín, é bem gostoso, vale a pena conhecer. Pagamos em reais, coisa de 15 por pessoa.
                      O câmbio do dinheiro é totalmente informal e complicadíssimo a primeira vista pelos valores estratosféricos em bolívares. Andamos pelas ruas buscando a melhor conversão entre os vários cambistas nas esquinas e em frente às lojas. O melhor que conseguimos foi 1:175k. Troquei 100 reais e foi o suficiente pra tudo que precisei pagar em bolívares, incluindo lembranças pra trazer pra casa, mas as coisas são bastante instáveis por lá no que se refere a dinheiro, o que se paga em duas cervejas comuns em Santa Elena é o valor de um almoço inteiro com bebida numa comunidade indígena na Gran Sabana.
      Sobre o câmbio, esse foi um bom valor para a conversão na rua, mas para moradores com contas em bancos venezuelanos há a possibilidade de conversão por transferência bancária, em que é possível trocar a 1:800k. A maioria das lojas e restaurantes em Santa Elena aceita pagamento em reais, e geralmente o faz a taxas bem acima de 1:175k, então o recomendável é deixar os bolívares para as comunidades indígenas na Gran Sabana e pagar o que for possível em reais. Mesmo nelas há frequentemente a possibilidade de pagar em reais, e parece até preferível por parte dos moradores, então talvez nem seja necessário trocar o dinheiro, mas é bom ter um pouco de bolívares só pra garantir.
      Minha impressão foi de que o bolívar está tanto quanto fora de controle, a inflação fez com que ficasse bastante instável a ponto de até mesmo dentro do parque nacional o guarda-parque me informar que só poderia comprar um mapa do Tepuy Roraima pagando em reais.
      Não deixa de ser uma experiência divertida, porém, ter nas mãos aquelas pilhas enormes de notas para travar uma guerra com os amigos ou fazer chover dinheiro. Não é sempre que a gente pode se sentir tão ryco, afinal, rs.
      Depois do almoço e de uma volta pra conhecer um pouco de Santa Elena, voltamos à pousada pra deixar tudo arrumado pra partida no dia seguinte. Repousamos até a noite quando saímos novamente com Jesus, seu irmão Randy e o sr. Leotério, que também iriam conosco no trekking, para um jantar no Papa Oso Pub, uma pizzaria bacaníssima a uns 5 minutos de lá.
      Dica vegana: Em Santa Elena também não encontrei opções veganas nos cardápios, mas foi tranquilo de adaptar, pedi uma pizza sem o queijo e ela veio muito melhor do que qualquer uma que já comi no Brasil desse jeito. A culinária venezuelana é muito rica em variedades vegetais e as usa de forma bem inventiva, então lá é um ótimo lugar pra ser vegano, eu diria. Eu pelo menos consegui comer muito bem.
      Comemos pizzas artesanais absolutamente deliciosas e tomamos uma cerveja local popular, Zulia, mais suave do que as brasileiras e bem saborosa, gostei bastante. Aparentemente os venezuelanos gostam muito da nossa Itaipava, que é pra eles como uma Stella ou algo do tipo é pra nós, fato interessante.

      A conta ficou bem alta em bolívares, mas em reais a coisa mudou de figura, foi um preço baixíssimo considerando o naipe da refeição. 138 reais numa refeição espetacular para 8 pessoas.
      Voltamos pra pousada, deixamos na recepção algumas bolsas com coisas que não usaríamos no trekking e fomos dormir cedo pra partir ao amanhecer para o trekking.
       
      Custos no dia 2
      R$ 10 de transporte de uma rodoviária a outra em Boa Vista, divisível por 4 pessoas;
      R$ 50 de transporte de Boa Vista a Santa Elena de Uairén;
      R$ 40 de reserva de diária na hospedagem em Santa Elena para o dia do retorno, valor aproximado, varia de acordo com o quarto;
      R$ 15 de almoço;
      R$ Variável de câmbio de reais a bolívares;
      R$ 20 reais de jantar;
       
      Dia 3 – De Santa Elena ao Paratepuy ao Acampamento do Rio Têk
                      Sair com o nascer do sol não foi bem o que aconteceu, porém. Explico: Abastecer o carro em Santa Elena é uma tarefa demorada. Demorada tipo umas 12 horas numa fila gigante em que as pessoas deixam seus carros à noite e vão pra casa dormir pra abastecerem de manhã quando o posto abre. É uma coisa realmente impressionante, e bem inconveniente quando você tem hora pra sair.
                      Íamos partir com a luz do sol, acabamos saindo umas quatro horas depois, que foi quando nosso motorista conseguiu encher o tanque. Os veículos que fazem esse serviço são, como já nos havia sido dito, rústicos. Um 4x4 antigo com uma gambiarra aqui e outra alí, várias  marcas de uso e idade, e música animada tocando a todo volume, várias vezes versões modificadas de músicas populares do funk ou sertanejo brasileiros. É uma experiência veicular divertidíssima.
                      Um dos nossos teve uma situação de saúde que, apesar de não ser grave, seria impeditiva para fazer o trekking. Depois de muita deliberação, conjectura, replanejamento e insistência, Jesus chamou um táxi para deixá-lo seguramente na fronteira, donde voltou a Boa Vista, e nós quatro restantes partimos para o parque, com pesar pelo companheiro.
                      Enfim, embarcamos tardiamente com Jesus, Randy, Leotério e os pais de Jesus, que foram junto porque a mãe, de origem indígena, daria um voto de confiança para nosso grupo frente aos que regulam a subida ao Paratepuy e entrada na trilha do Monte Roraima. Só um método de agilizar o processo. Os pais de Jesus também foram extremamente simpáticos conosco, foi uma reunião familiar bem agradável de participar, rs.
                      No processo de obter as autorizações necessárias, já deixamos reservado e pago nosso almoço na comunidade indígena do Kumarakapuy, por onde passaríamos antes de ir ao passeio da Gran Sabana alguns dias depois. 2 milhões de bolívares com bebida inclusa, pouco mais de 10 reais.
                      27 km de estrada de terra acidentada depois, estávamos no Paratepuy. Lá foi o momento de assinar a ficha de entrada no parque e ter nossas bagagens revistadas brevemente por itens ilegais. Coisa rápida, só foram bastante enfáticos quanto à proibição de entrada de drones. O mesmo senhor que coleta as assinaturas e faz a vistoria vende mapas do Monte Roraima ao valor de 25 reais cada, é um preço um pouco salgado, mas é um item bem feito e informativo, pra mim valeu a pena como recordação.
                      Por volta de 14h, horário limite de entrada na trilha, começamos o trekking, esse primeiro dia é tranquilo, um pouco de subidas e descidas, mas o perfil altitudinal do percurso é praticamente plano ao longo de seus 14 km. O que dificultou foi a má fortuna de sermos pegos numa chuva relativamente forte, e de ter chovido bastante no dia anterior também. Sacamos roupas impermeáveis e capas, até aí tudo bem, o problema de verdade foram os rios, que sobem bastante com as chuvas. Mais de uma vez tivemos que parar para esperar a água baixar no que seriam travessias triviais sobre pontes ou pedras. O resultado foi que já nesse dia tivemos que meter o pé na água. Adeus a pés secos pelo resto do trekking.

                      Fora isso, esse primeiro dia é muito tranquilo, chegamos a nosso destino em torno de 17h30. O acampamento do Rio Têk conta com casas de pau a pique que os indígenas usam como espaços de comércio para os trilheiros durante a alta temporada. Não é o caso em Julho, mas podemos usar a cobertura para deixar as coisas, cozinhar e comer, garantindo um pouco de conforto. Para montar a barraca, há espaços de grama alta que podem servir como um colchão relativamente macio. Alguns cachorros ficam por lá de olho na comida que  podem conseguir dos trilheiros, dê uns pedaços pra eles, rs.
                      No acampamento do Rio Têk é muito importante tomar cuidado com a fauna, há alguns formigueiros no local e, na época de chuvas, é comum avistar cascavéis. Uma delas inclusive deu uma volta por perto de nossa barraca durante a noite. Eu estava dormindo profundamente, mas meu colega ouviu movimento na grama e no dia seguinte uma testemunha ocular confirmou, hahaha, então aplicam-se os cuidados de verificar suas coisas fora da barraca antes de mexer nelas, e evitar de andar sem botas.
      É lá que você vai ter seu primeiro encontro com os puri-puri também, mosquitos minúsculos e extremamente irritantes que vem em horda e mordem em qualquer lugar desprotegido, deixando marcas cabulosas. Ainda ostento algumas nos braços duas semanas depois do trekking, rs.
      Provavelmente o seu não será o único grupo acampando lá, então se estiver se sentindo sociável, deve ter uma galera diferente pra conversar. Nesse primeiro dia compartilhamos a mesa com um casal de brasileiros. Ele, fotógrafo, não colocou suas câmeras em sacos estanque e uma delas acabou totalmente encharcada na chuva, um prejuízo de dar dó, então é bom ter muito cuidado com o que não pode molhar. No dia seguinte cedi alguns sacos plásticos pra eles protegerem um pouquinho melhor as coisas. Uma dica que eu dou é a de levar um rolinho de sacos de lixo com a litragem que você achar mais adequada, eu levei de 15L. É sempre bom ter esse recurso em abundância, alguém sempre acaba precisando.
       
      Custos no dia 3
      R$ 15 de reserva de almoço com bebida inclusa no Kumarakapuy, pago em bolívares, valor aproximado;
      R$ 25 de mapa do Monte Roraima, opcional.
       
      Dia 4 – Do Rio Têk ao Acampamento Base
                      Despertamos com o sol no segundo dia de trekking e tomamos um café da manhã reforçado, a trilha hoje seria um pouco mais dura pelo ganho de altitude. Jesus compartilhou um pouco da culinária local conosco: pão com uma pimenta tradicional indígena; domplins, que são como pasteizinhos; e apenas uma beiçada para cada de um fermentado indígena de batata doce, bebida com sabor bem peculiar mas que não pudemos tomar muito pois ela tem histórico de mexer com o intestino de quem não está acostumado, rs.
                      Acordamos cedo, mas tardamos a sair, aguardando o nível do rio Têk baixar. Não era ele o problema maior, explicou Jesus, mas logo depois teríamos que cruzar também o Kukenán, mais largo e bravo. O Têk serviu como uma espécie de diagnóstico para quando o Kukenán fosse estar transponível, desse modo. Enquanto esperávamos, tivemos vista limpa do Roraima e do tepuy vizinho, chamado Kukenán também, igual ao rio. A vista para ele é melhor do que para o Roraima, provavelmente a maioria das fotos que você já viu do Acampamento do Rio Têk com uma montanha no fundo eram dele. E é lindíssimo.
                      Saímos às 9h e atravessamos o Têk para iniciar a caminhada de 9 km até o acampamento base. Poderíamos ter tirado as botas para atravessar, mas como já estavam molhadas mesmo, não ia fazer muita diferença. Entre o Têk e o Kukenán, há uma colina com uma pequena igreja construída com pedras do rio, e perto dali há rochas com inscrições antigas em relevo, litóglifos, representando animais e pessoas. Duas vistas muito interessantes para os curiosos com o aspecto humano em torno desse território.
                      Atravessar o Kukenán realmente foi um pouco mais pedreira, a travessia é feita onde um afluente se junta a ele, o que resulta numa distância relativamente longa a ser percorrida de uma margem a outra. O bastão de caminhada é item essencial aqui, se você não tiver um seu, provavelmente usará um emprestado do guia.

                      Do outro lado, paramos por uns 20 minutos para entrar na água num ponto em que ela é mais lenta, ótimo lugar para banho. Afastando-se um pouco da margem já se chega ao acampamento Kukenán, também com estruturas de pau a pique. Pareceu tão confortável quanto o acampamento do Rio Têk.
                      A partir daí é só subida, subida e mais subida. É cansativo com a cargueira, sobretudo se o sol forte da savana abrir por entre as nuvens, mas dá pra ir tranquilo. Paramos no meio do caminho, no Acampamento Militar – este apenas uma área aberta no meio da vegetação – para um lanche. Tivemos aqui nosso segundo (e felizmente último) encontro com uma cascavel, que estava camuflada entre as rochas bem perto de onde nos sentamos. Cuidado. Vimos também diversos lagartos, grilos enormes, e os malditos dos puri-puri, rs.
                      Mais uma pernada de subida em subida e chegamos ao Acampamento Base no meio da tarde, uma ampla área para montar barracas, com água bem perto. Nele não há as estruturas que há no Têk e Kukenán, mas os guias costumam estender lonas presas a árvores para permitir que se cozinhe e coma a abrigo da chuva.
                      Há muitos pássaros diferentes e bonitos nessa área, e encontramos uma amoreira com alguns frutos silvestres dando sopa. Ainda não estavam maduros, mas nada que prejudicasse a experiência de poder comer alguma coisa fresca por entre nosso cardápio de industrializados, rs. Quando caiu a noite, tivemos ainda a boa fortuna de ter céu limpo. Tão longe da cidade, é claro que estava completamente estrelado e magnífico, a ponto de avistarmos diversas estrelas cadentes passando. O Acampamento Base é um lugar belíssimo, em suma, e estar tão perto da parede do Roraima, com toda aquela expectativa para o dia seguinte, só fez aumentar a apreciação. Foi uma ótima noite.
       
      Dia 5 – Do Acampamento Base ao Hotel Índio e circuito no topo
                      Esse seria um grande dia. Acordamos bem cedo para nos preparar, Leotério mais cedo ainda, já que subiu antes para garantir nosso lugar de acampamento lá em cima. Jesus optou pelo Hotel Índio, mais próximo do acesso ao topo, mas bem pequeno, então seria preciso essa segurança, já que outros grupos iriam subir no mesmo dia.
                      Conforme nos foi dito, os guias e porteadores tem uma organização tácita entre si para levar coisas de volta desde o Acampamento Base até o Paratepuy, e por isso poderíamos, sem precisar desembolsar nada, deixar pra trás algumas coisas que não iríamos utilizar no topo, e as pegaríamos de volta quando retornássemos à comunidade. Essa foi a hora de separar o essencial da tranqueira, a subida até o topo é íngreme e longa, quanto menos peso melhor.
                      Tendo removido tudo que não seria preciso, iniciamos o percurso, que adentra em mata mais fechada e vai se aproximando do paredão. Mesmo com a vegetação mais densa, é uma trilha bem aberta, sem dificuldades. Só exige uso de mãos em alguns poucos trechos de escalaminhada, mas nada complicado.

                      Logo se chega à parede do Roraima e aí se pega o único caminho conhecido para o topo que não exige escalada em Big Wall, a famosa La Rampa. Sem surpresa, é uma subida constante rumo ao topo, sem muito a se dizer aqui.
                      O ponto digno de nota é logo antes da chegada ao topo, trata-se do Paso de Lagrimas, uma pirambeira em pedras soltas sob uma cascata semipermanente, é o trecho mais complicado do percurso, e onde é preciso ter mais atenção para evitar acidentes, sobretudo na época chuvosa, quando a queda de água está mais forte.  Ênfase em forte, proteger bem seus equipamentos contra a água é muito importante, pois apesar de ser um trecho curto, molha bastante, e não dá pra se dar ao luxo de atravessar com pressa.

                      Passado o crux do caminho, chega-se em pouco tempo ao topo do Monte Roraima, um momento bastante emocionante. O topo mostra desde cedo suas características únicas e justifica seu apelido frequente de “O Mundo Perdido”, as formações geológicas são impressionantes e a vida expõe toda sua gana de se manter num ambiente tão estéril. A água, a rocha e o vento desenham formatos que não existem em qualquer outro lugar do mundo, e é espetacular não por se parecer com algo fora da Terra, mas justamente pelo quão terreno é, pelo tanto que diz de inacreditável sobre os processos que o planeta e a vida enfrentam há milhões de anos. Imagino que para geógrafos, geólogos, biólogos e afins, aqueles que saibam realmente ler essas marcas, a experiência seja ainda mais fantástica, mas o leigo não perde nada no quão marcante ela é.
                      Enfim, andamos mais alguns minutos do acesso ao topo até o Hotel Índio, montamos nosso acampamento sob a proteção da cobertura rochosa e partimos ávidos para conhecer mais do Tepuy.

                      Partimos sob chuva e vento fortes, mas aliviados por estarmos caminhando leves. Nesse dia faríamos um circuito nas proximidades, começamos pelo Vale dos Cristais do lado venezuelano, um local onde cristais de quartzo cobrem o chão. Quartzos podem não ser lá tão impressionantes por si só, mas a mera quantidade deles torna a vista lindíssima.
      Seguimos para ver algumas das Ventanas, áreas próximas ao abismo de onde se pode ver o Kukenán e outras faces do Roraima. As nuvens densas do topo não ajudaram muito, mas por entre as curtas aberturas no branco tivemos visões maravilhosas, a mais marcante para mim sendo quatro cachoeiras lado a lado num ponto longínquo do Roraima.

      Vimos também o Salto Catedral, uma grande cachoeira lá no alto do Roraima, na qual é possível banhar-se dado um clima favorável. Ainda assim, não seria um local tão bom quanto as famosas jacuzzis, pequenas piscinas naturais de água tão cristalina que mal se vê onde ela começa nas margens mais rasas, e com o fundo coberto de quartzos. Não há descrição que faça jus a elas.
       Depois disso seguimos para a parede sul do Tepuy, onde adentramos na Cueva de los Guácharos, uma caverna que corre por vários quilômetros até acabar num buraco no paredão. Claro que só entramos por algumas dezenas de metros, para ver as formações geológicas. Cavernas são sempre lugares interessantíssimos, quase alienígenas, e essa não foi diferente, é um ponto muito bacana pra se visitar. Pertinho, há um mirante, do qual não conseguimos ver nada, e outro hotel, esse bem maior, ocupado pela turma de uma agência de Boa Vista.
      Voltamos a nosso acampamento e jantamos muito confortavelmente num patamar superior do hotel Índio, que forma como se fosse uma mesa onde podemos colocar o fogareiro e as panelas, e uma suave curva na parede onde se pode sentar. É como se tivesse sido esculpido.
      Durante a noite fez bastante frio, tivemos que recorrer a toda gama de roupas para ficarmos aquecidos. Senti que meu isolante térmico – um basicão de EVA e alumínio já surrado pelos anos – não deu conta. Não que eu tenha ficado em risco de hipotermia nem nada, mas perdi muito em conforto nessa noite, um equipamento um pouco melhor (ou ao menos mais novo) talvez seja uma boa pedida.
      Também tivemos um visitante noturno inesperado. Durante a madrugada ouvimos algumas coisas caindo na “cozinha”. Meu pensamento foi que outra pessoa estivesse lá fazendo algum lanche noturno ou algo do tipo, mas descobrimos depois que foi um quati esguio que foi pra lá tentar abocanhar alguma coisa. Eu sei que tem um hotel chamado Quati lá em cima, mas fiquei surpreso de saber que eles realmente conseguiam viver lá em cima, quatis são impressionantes.
      Depois disso deixamos as coisas mais fora de alcance. Não posso afirmar com certeza, mas suspeito seriamente que tenha sido isso que aconteceu com um saco de chá instantâneo que eu perdi depois de uma refeição e não encontrei mais, rs, só espero que não tenha feito mal pro bicho.
       
      Dia 6 – Vale dos Cristais Brasileiro, Ponto Tríplice, El Foso e o cume
                      Esse seria o dia do circuito longo no topo, o prato principal do trekking por assim dizer. O dia amanheceu frio e chuvoso, características bem pouco promissoras para proporcionar belas vistas de paisagem, mas que dão ao Roraima seu ar misterioso. Calçamos as botas, jogamos as mochilas de ataque às costas e partimos.
                      No caminho, fomos atribuindo formas às rochas encobertas pela neblina enquanto andávamos no que parecia um plano sem fim e indistinto. Percebi como a navegação no Roraima pode ser complicada, sem visibilidade não há pontos de referência claros para orientar a caminhada, alguém andando sozinho e sem conhecimento do terreno poderia facilmente se perder.
                      Depois de margear um rio em um vale entre duas paredes altas de rocha. chegamos ao Vale dos Cristais do lado brasileiro, e se o outro já é impressionante, este é simplesmente fantástico. Os cristais de quartzo cobrem o chão como neve e afloram aglomerados em grandes rochas. Em algumas cortadas, é possível perceber os traços do longo processo de formação dos cristais. Nenhum de nós jamais havia visto algo parecido.
                      Bem perto de lá, num ponto elevado, encontra-se o famoso Ponto Triplo, que marca o encontro de Venezuela, Guiana e Brasil. Não há muito para se ver, mas a sensação de estar lá vale o percurso. É apenas uma pirâmide triangular em que cada face corresponde a um dos países. Nos lados de Brasil e Venezuela há placas identificando o país, datas etc. No lado de Guiana, a placa é arrancada pelos militares venezuelanos sempre que é instalada pelos guianenses, consequência do ainda vivo debate entre os dois países pelo território da Guayana Esequiba. Me pareceu um tanto cômico que os militares dos dois países fiquem nessa disputa por uma placa no alto da montanha, rs.
                      Enfim, o terceiro ponto de interesse desse circuito é não menos magnífico que o primeiro, no que se refere a obras naturais. El Foso, um belo cenote no meio da paisagem. Com tempo bom é possível banhar-se, mas pelo alto nível da água o caminho estava até mesmo intransponível, com as galerias que levam ao poço alagadas.

                      A próxima parada foi um quase-hotel sob o qual nos sentamos para uma refeição, já que a caminhada de volta seria longa e rumo ao Maverick, ponto culminante do tepuy, convenientemente bem próximo do Hotel Índio. Maverick porque teoricamente o formato de alguma rocha por lá se parece com o veículo de mesmo nome, nem reparei, e creio que a associação seja um tanto forçada, já que esse nome deriva do original imaweru (ou algo parecido com isso, a memória não ajuda a lembrar de nomes, rs), relacionado à lenda de Makunaima.
                      A aproximação foi por terreno um pouco mais pantanoso, tivemos de evitar a lama e as poças fundas, mas a subida em si não é comprida e não apresenta dificuldades técnicas. Rápido e fácil.
                      A sensação de chegar ao cume, porém, não é menos fantástica. Creio que não importa quantas montanhas você já tenha subido, nunca perde a magia, e o Roraima parece ter algo que aumenta ainda mais o sentimento. Beijei a rocha e coloquei uma nova pedrinha no totem que marca o ponto mais alto. A montanha não me deu uma vista da Gran Sabana, mas de si própria. Tive vista para os pontos longínquos do tepuy e para seu abismo, e nunca vou me esquecer da imagem.

                      Após desfrutarmos do cume, retornamos ao acampamento, o que tomou pouco tempo. Durante o jantar adiantado, ainda ao fim da tarde, o céu se abriu um tanto e deu vista perfeita para o Kukenán, bem de frente para nós. Refeições com uma vista maravilhosa, quando as nuvens colaboram, mais uma vantagem do Hotel Índio
      Esse foi o último dia no topo, na manhã seguinte sairíamos ao amanhecer. Durante a noite choveu e ouvimos trovões à distância, no Kukenán.
       
      Dia 7 - Do topo ao Rio Têk
      Saimos cedo, com alguma urgência, pois as nuvens de chuva ainda se acumulavam no paredão do Kukenán, na cabeceira do rio que leva seu nome e que teríamos que atravessar mais tarde.
      O Paso de Lagrimas foi de novo a parte mais difícil, descer mais ainda. A cascata caía forte e as pedras tornavam as passadas arriscadas, não à toa é nessa descida onde ocorre a maioria dos acidentes. Calma e cuidado.
      O resto da descida é tranquila, mesmo os trechos mais verticais do caminho até o acampamento base são surpreendentemente simples para descer, em pouco tempo estávamos lá embaixo, onde descansamos brevemente antes de seguir rumo aos rios.
      Como se diz, pra baixo todo santo ajuda, a descida é uma delícia, seguimos com bastante espaço entre nós, cada um a seu ritmo apreciando um momento de introspecção solitária na savana.
      Pelo caminho, já desde La Rampa, cruza-se com porteadores descendo pela mesma rota. Eles podem ser contratados para levar as bagagens de quem estiver moído pelos dias na montanha. Uma das nossas contratou um deles para levar sua cargueira nesse dia e no próximo, 35 reais por dia. É uma opção.
      O sol abriu forte por entre as nuvens depois de um tempo. Queimou-me o braço exposto em questão de minutos, a marca da fita do bastão de caminhada ainda está visível nas costas da minha mão. Não dispense o protetor solar, o sol equatorial é bruto.
      Chegamos com alguns minutos de intervalo entre cada um ao Rio Kukenán, e atravessamos apressadamente, Jesus estava claramente preocupado, o rio subia rápido e ficava cada vez mais forte. Cruzamos poucos minutos antes de ficar perigoso.
      O Têk já estava alto também, tivemos que margeá-lo até encontramos um ponto adequado para cruzar, mas o fizemos sem qualquer traço da preocupação que marcou a travessia do Kukenán.
      Estávamos em casa, de volta ao acampamento do Rio Têk, com seus cães amigáveis e os malditos puri-puri. Compartilhamos o vasto espaço com um pequeno grupo de agência que conhecemos brevemente no topo. Não falamos muito com eles.
      Desci sozinho ao Rio Têk num momento para lavar nas pedras uma camiseta que eu estava usando como pano. Me vi sozinho na imensidão da savana, com o Kukenán imponente entre as nuvens exercendo uma atração magnética sobre meus olhos, e a sinfonia do rio preenchendo meus ouvidos. Nada além disso. Lavar roupa num rio, um dos momentos mais pacíficos de toda minha vida, seguido pela sensação agridoce de saber o quanto eu sentiria falta desse lugar.
      Dormimos cedo, na manhã seguinte deveríamos estar caminhando já antes do sol nascer.
       
      Dia 8 - Fim do trekking e Gran Sabana
      Acordamos antes das 5 e tomamos um café da manhã generoso, agora fazia menos sentido racionar. Saimos em silêncio, no escuro, para não acordar o outro grupo.
      Sair tão cedo teve o objetivo de chegarmos logo ao Paratepuy para termos mais tempo nas cachoeiras da Gran Sabana. Ninguém reclamou.
      A caminhada foi acelerada, de meus companheiros, eu fui o único que não contratou um porteador para esse dia. Estava me sentindo muito bem e queria terminar o percurso com minhas próprias forças. O Roraima fez me sentir mais forte e disposto do que havia há muito tempo na rotina de São Paulo. Depois de andar com peso pelos últimos dias, a única coisa no meu corpo que não estava a 100% eram os pés que passaram tanto tempo em botas molhadas, mas o incômodo era só no começo da caminhada. E as picadas de puri-puri, não dá pra se acostumar com isso tão rápido.
      Ajudou, também, que todos os trechos de água que dificultaram muito nosso percurso no primeiro dia estavam agora muito mais baixos. A diferença era simplesmente espantosa, se não soubesse o quanto a água podia subir, não teria nem mesmo registrado esses trechos, de tão insignificantes que pareciam agora.
      Roraima e Kukenán nos deram uma esplendorosa despedida, pela primeira vez vimos os dois juntos livres de nuvens. Imaginei o quão espetacular estaria a vista do cume em que eu havia estado dois dias atrás. Mas aceitei de bom grado que a montanha não tenha me concedido essa visão, não fez falta nenhuma
      A chegada ao Paratepuy veio com gosto de sucesso, completamos o trekking, concluímos uma experiência que será para sempre grandiosa em nossas memórias.
      E ainda era cedo, logo teríamos um almoço de verdade e um dia pelas maravilhas fluviais da Gran Sabana.
      Eu demorei muito pra ficar impaciente, nas cerca de 4 horas de atraso de nosso transporte. O grupo que deixamos dormindo no acampamento do Rio Têk inclusive acabou descendo antes de nós, apesar do veículo deles também ter atrasado bastante. E quando fiquei impaciente, foi só isso, já falamos sobre as condições do abastecimento lá em Santa Elena, todo mundo foi compreensivo.
      Eventualmente o 4x4 chegou, trazendo um grande grupo de coreanos que aparentemente não tinham ideia de que estavam ingressando num trekking de vários dias com quantidades cavalares de lama e chuva. Trouxe também um grande isopor cheio de cerveja, para brindarmos o trekking concluído.
      A descida foi emocionante, pode-se dizer. Perrengues veiculares são algo por que já passei um milhão de vezes, então minha reação ao ouvir o carro inguiçando foi um “bem, acho que isso era inevitável” mental. Quando tivemos que parar pro motorista fazer alguma gambiarra pro carro voltar a andar eu fiquei calculando de quantas horas poderíamos precisar para estarmos de volta em Santa Elena se ele quebrasse ali no meio do nada no caminho do Paratepuy. Seriam muitas, na certa. Mas no fim do tudo certo, chegamos ao Kumarakapuy e o motorista foi embora levar o carro pra consertar, em breve viria uma substituição.
      Foi o tempo de darmos uma volta pelas poucas lojinhas abertas - já que era sábado e os moradores são de maioria adventista - e almoçar.

      Fiquei surpreso com o prato vegano que chegou: arroz, feijão vermelho, repolho, mandioca, banana da terra e abacate, todos maravilhosamente temperados. Eu pessoalmente não gosto de abacate e nem de comer bananas fora de seu estado mais natural possível, mas as duas coisas caíram muito bem com um pouquinho da pimenta tradicional dos indígenas. Tudo acompanhado por um belo suco natural de maracujá, o favorito dos venezuelanos, pelo jeito.
      Nas lojinhas comprei um modesto chaveiro representando o Roraima, um suporte de incenso para minha noiva e um pote da famosa pimenta. Eles tem uma versão dela com o acréscimo de cupins inteiros na receita, o que achei bastante curioso. Tudo muito barato mesmo em bolívares.
      Isso feito, embarcamos já um pouco tarde para o passeio pela Gran Sabana, concordamos em tirar uma das cachoeiras do roteiro para aproveitarmos bem as demais, e partimos na road trip mais divertida que já fiz. O carro voava pela estrada enquanto dentro soavam de novo as músicas animadas que no Brasil seriam de uma cafonice extrema.
      A primeira parada foi o Oasis, uma cachoeira que faz jus ao nome, praticamente ao lado da estrada. Queda pequena no meio de uma concavidade formada por um paredão, resultando num poço simplesmente magnífico e perfeito para nadar. A água estava ótima, o dia seguia quente apesar de ameaçar chuva nas próximas horas. Passamos um bom tempo curtindo o local, não há nada melhor do que uma bela piscina natural após uma montanha.

      Quando subimos de volta ao carro, começou a chover, mas nada que fosse interferir com os planos. Partimos para o próximo ponto enquanto ríamos de nosso colega no banco de carona quando ele, ao tentar fechar a janela, constatou que não havia vidro. O passeio definitivamente não seria tão divertido num carro novo e arrumadinho, de forma alguma. E a chuva não durou o bastante pra aquilo ser realmente um problema, afinal.
      Seguimos até uma ponte onde paramos para observar o rio Yuruani, um curso de água bastante largo e que corria forte. Ficamos tirando algumas fotos no meio da estrada com a turma toda, correndo de um lado para o outro para procurar os melhores ângulos.
      Dalí, o carro avançou pela margem direita do Yuruani, nosso próximo ponto de interesse era uma queda um pouco acima no rio, a Cortina do Yuruani. Desembarcamos numa área de picnic aparentemente abandonada há algum tempo, seguimos perto da margem parando nos pontos de visibilidade para a cascata, ficando mais próximos dela a cada um.
      A Cortina do Yuruani é uma queda não muito alta, mas muito bonita, que vai de uma margem a outra do rio e cai uniformemente. Pelo que disseram, com o rio baixo é possível caminhar por trás dela de uma margem a outra. Definitivamente não era o caso, o rio estava violento, impressionantemente bravio, uma queda ali seria morte certa, mas fiquei curioso de como seria na época de baixa, quando é comum as pessoas praticarem rafting e nadarem perto das margens.

      Já perto do fim da tarde, subimos no carro para voltar a Santa Elena, agora mais calados conforme a escuridão se assentava. Chegando à cidade, demos entrada na pousada e combinamos de nos encontrarmos em uma hora para jantar lá perto, tempo suficiente de tomar um banho e colocar roupas limpas. Pegamos de volta as bolsas que havíamos deixado na recepção, sem incidentes.
                      A uns cinco minutos da hospedagem, jantamos em uma pizzaria, esta bem mais modesta – e – do que o Papa Oso, mas que também não devia no sabor. Uma deliciosa massa pan. Eu, o vegano, pedi uma pizza individual, a que tinha mais vegetais no cardápio, sem o queijo. Pensei que a pequena seria menos adequada do que a média, afinal, os últimos dias me autorizavam a comer bastante. Acabou que a média tinha 8 pedaços, e dali pra cima entrávamos numa terra de gigantes. Acabei comendo 7 dos pedaços, estava delicioso.
                      Voltamos para a pousada, confirmei nossa partida na manhã seguinte com o taxista, que viria nos pegar às 8 horas. Nos encontraríamos antes com Jesus e Randy para um café da manhã típico e despedidas. Dormir numa cama foi uma mudança bem-vinda.
       
      Custos no dia 8
      R$ 15 de jantar em Santa Elena, pago em bolívares, valor aproximado.
       
      Dia 9 - De Santa Elena a Boa Vista, Lethem e Manaus
                      Depois de uma semana em campo, o relógio biológico já está regulado ao tempo da natureza, despertei pouco antes do amanhecer e não voltei a dormir. No meu típico hábito de estar com tudo pronto antes da hora, já deixei todas as minhas coisas preparadas, quando o táxi chegasse era só pegar tudo e partir.
                      Nos encontramos com Jesus e Randy em frente à pousada e fomos comer o que Jesus disse que seriam as coxinhas de padaria da Venezuela. Arepas e domplins com os mais variados recheios. Nenhum vegano, claro, então pedi um domplin simples, pra comer puro. Bem, o domplin que comemos no Roraima não era frito em óleo, obviamente, então fiquei um pouco surpreso de receber um enorme pastel redondo, do tamanho de uma pizza brotinho. Melhor. Café. Da. Manhã. De. Todos.
                      Era mesmo um pastel, só com a massa um pouco mais grossa. Nada saudável, que seja, mas muito bom. Acompanhou novamente um suco de maracujá.
                      Voltamos à pousada e nos despedimos calorosamente de nossos guias e agora amigos, já pensando em reencontros quando voltássemos à Venezuela ou eles fossem ao Brasil. Vendi os cartuchos de gás que não utilizamos para eles, a menos do que paguei na loja, só para recuperar um pouco do valor.
                      No horário, embarcamos no táxi de volta para Boa Vista. A saída da Venezuela foi muito mais rápida e tranquila do que imaginei que seria, apenas entregamos os permisos  e seguimos a longa viagem pro Brasil. O valor ficou em 75 reais por pessoa, agora que estávamos em quatro pessoas.
                      Passaríamos a tarde em Lethem, para ir pra lá é possível pegar um ônibus sentido Bonfim, no valor de cerca de 35 reais, que para na fronteira da Guiana, e de lá ir de táxi para o centro comercial da cidade. Para voltar é a mesma coisa. É possível também pegar um dos mesmos táxis que fazem o percurso a Santa Elena, em torno de 500 reais para o grupo. Questão de ver o mais rentável.
                      O caminho para a Guiana passa pelo Rio Branco, e na época de cheia a visão é bem impressionante, a estrada cortando campos alagados pontilhados por árvores e construções. Depois disso vai plano por entre plantações até chegar a seu destino.
                      A fronteira Brasil-Guiana é completamente diferente da Brasil-Venezuela, se nesta há um monte de gente pra todos os cantos e filas grandes, naquela há muito menos movimento, entra-se rápido no país e a primeira coisa que se nota é a mão inglesa do trânsito. A mudança súbita do lado da estrada por onde se deve trafegar causa certo estranhamento, rs.

                      A cidade de Lethem é minúscula, e evidencia a austeridade do país, as largas ruas sem asfalto acumulam lama, os prédios são baixos, pouco luxuosos, não há nada de particularmente vistoso por lá. O centro comercial é uma área com lojinhas de tranqueiras, é um bom lugar pra comprar presentes pra trazer de volta pro Brasil. Eu havia ouvido falar sobre um refrigerante de banana que só existe lá na Guiana, e fiquei de olho para ver se encontrava, é de uma marca chamada I-Cee. Acabei encontrando num pequeno restaurante, paguei 5 reais por garrafa de 710 ml, e valeu a pena, é bom.
                      Há algumas opções de almoço por lá, desde comida brasileira até umas opções mais locais, que não são muito diferentes da comida chinesa mais simples que encontramos por aqui, o que se explica pelo grande influxo de imigrantes orientais que a Guiana recebeu historicamente. Com 20 reais se paga um bom almoço com bebida.
                      Percebam que estou dando os valores em reais, lá não é preciso trocar dinheiro, as lojas aceitam reais. A língua da Guiana é o inglês, mas presumo que os lojistas estejam acostumados a se comunicarem com brasileiros de uma forma ou de outra, se for necessário. Não imagino que não-falantes do inglês tenham dificuldades para se virar por lá.
                      Enfim, não é um passeio espetacular, mas é uma experiência definitivamente muito interessante, até porque não é muita gente que pode dizer que visitou a Guiana, não é mesmo?
                      De volta para Boa Vista, fizemos hora na rodoviária - já que não há nada de interessante pra se ver por perto dela - até a partida do nosso ônibus. Dessa vez ele saiu cheio, todas as poltronas ocupadas, muitas delas por passageiros venezuelanos. Fui sentado ao lado de uma moça bem falante que me deu várias dicas sobre Manaus. Num momento o ônibus parou e adentraram dois militares ordenando que todos mostrassem os documentos. Os estrangeiros foram tirados do ônibus para uma verificação ou algo do tipo. Fiquei um pouco espantado, mas aparentemente, é de rotina. Só mais um sintoma da situação fronteiriça.
                      O ônibus logo partiu, adentrando a escuridão por entre as árvores. E eu dormi até o amanhecer.
       
      Custos no dia 9
      R$ 75 de táxi de volta a Boa Vista;
      R$ 100 de transporte para ir e voltar de Lethem, valor aproximado;
      R$ 20 de refeição em Lethem;
      R$ 15 de refeição simples e petiscos para o ônibus na rodoviária em Boa Vista.
       
      Dia 10 – Manaus, praia da Lua e Mercado Municipal
                      Acordei novamente com os primeiros raios de sol, quase chegando a Manaus. Nosso camarada que não fez o trekking já estava lá, em um hostel perto do centro histórico da cidade. Da rodoviária pedimos um Uber para lá. O Hostel Manaus, onde ficamos, é uma hospedagem a preço bastante razoável, limpa e com excelente atendimento, fica a recomendação. Dividi um quarto privativo com um colega ao valor de 45 reais a diária para cada um, há diárias mais baratas nos quartos coletivos. O hostel pede um caução de 20 reais, que pode ser usado em consumo de cervejas e refrigerantes vendidos por lá, ou recuperado no check-out.
                      Depois do check-in deixamos as coisas nos quartos e partimos logo para conhecer a cidade. Nesse dia, quente e abafado, optamos por visitar uma das praias do Rio Negro, e o atendimento do hostel foi muito solícito em nos dar informações e sugestões. Optamos pela Praia da Lua, para chegar lá pegamos um Uber para a Marina do Davi e, de lá, um barco até a praia.
                      O lugar é fantástico, uma faixa de solo corta o Rio Negro entre a floresta inundada. A água é boa e ver sua própria pele parecer vermelha sob a água escura do rio é bem interessante. Lá há quiosques para comer e beber, bem como aluguel de pranchas de Stand Up Paddle. A água calma e as copas das árvores despontando formam um lugar excelente para marinheiros de primeira viagem, como eu, terem uma experiência bastante divertida, rs

                      Passamos um bom tempo lá, quando cansamos apenas voltamos ao pequeno píer para esperar o próximo barco voltando para a Marina. Embarcamos e chegando lá já pedimos um Uber para mais um rolê, agora no Mercado Municipal. O lugar é enorme e tem muitas opções de presentes e lembranças para levar pra casa, acabei trazendo uma garrafa de cachaça de jambu, uma fruta do Norte que provoca efeito anestésico na boca, não é pra todos os gostos mas é muito interessante e gerou muitas reações engraçadas com o pessoal aqui, hahaha. Experimentei algumas marcas e a que mais gostei foi a Meu Garoto, que foi a que comprei.
                      Meus colegas foram comer um almoço tardio no Mercado, pratos tradicionais de peixe. Eu como não encontrei nada de vegano, comprei um açaí. Eu sabia que era diferente do que conhecemos aqui em São Paulo, e honestamente achei o nosso muito melhor. Questão de hábito, talvez. Não que tenha achado ruim, mas realmente é um pouco amargo. Enfim, se não me agradou no sabor, na sustância não deixou a desejar.

                      Feito isso, fomos dar uma volta na avenida em frente ao Mercado para analisar as opções para nosso passeio do dia seguinte. Havíamos pegado contato com a companhia que nos levou e trouxe da Praia da Lua e negociamos um barco privativo no valor de 600 reais para fazer o passeio turístico tradicional pelos Rios Negro e Solimões. O melhor valor que conseguimos nos operadores de rua, para ir num barco lotado com mais 30 pessoas, foi de 100 reais por cabeça. Pagando 120 cada um, preferimos ter o conforto do barco privativo, até pra podermos ver tudo rapidamente e termos tempo de emendar algum outro passeio depois desse. A quem possa interessar, seguem os contatos do barqueiro, chamado Grande: (92)99981-8463/99157-8495/99227-3999 (WhatsApp).
                      A pé, fomos para um Carrefour nas redondezas comprar comida pra fazermos no hostel e seguimos para ele na sequência. Não saímos à noite nesse dia, aproveitamos para organizar nossas coisas, descansar e jogar umas cartas entre nós. O Hostel Manaus é populado principalmente por mochileiros estrangeiros, pelo que pude perceber, então as interações por lá foram consideravelmente internacionais, o que é sempre muito interessante. É fantástico ter três línguas diferentes sendo faladas ao seu redor num mesmo lugar.
                      Fomos dormir não muito tarde, o passei no dia seguinte seria nas primeiras horas da manhã.
       
      Custos no dia 10
      R$ 20 de Uber ao hostel, divisível por 4;
      R$ 90 de duas diárias de hospedagem em quarto privativo pra duas pessoas;
      R$ 20 de caução no hostel, podendo ser recuperado no check-out ou usado em consumo;
      R$ 15 de Uber à Marina do Davi, divisível por 4;
      R$ 10 de barco para a Praia da Lua, já contando ida e volta;
      R$ 15 de Uber ao Mercado Municipal, divisível por 4;
      R$ 8 de açaí no Mercado Municipal;
      R$ 30 de comidas e bebidas no supermercado, para dois dias.
       
      Dia 11 – Rios Negro e Solimões, INPA e bar
                      O café da manhã incluso na diária do hostel era simples, mas suficiente e saboroso, o suco natural de cupuaçu ou graviola na certa era a melhor parte. Comemos bem e partimos para a Marina do Davi novamente. Encontramos nosso barqueiro, Grande, e embarcamos na Apuaú III, uma lancha grande e confortável que tínhamos só para nós.
                      Navegamos pelas águas escuras do Rio Negro até chegar ao primeiro ponto de interesse do passeio, uma aldeia indígena bem pequena, claramente apenas um espaço de recepção de turistas. Lá há artesanato para comprar, algumas coisas interessantes para fotografar e, pra quem é dessas, a opção de degustar as saúvas defumadas consumidas pelos indígenas. Para quem quiser pagar, há a opção de assistir a uma apresentação e realizar pintura de pele, mas como não era de nosso interesse, logo seguimos viagem.

                      A próxima parada foi num braço do rio, e é ponto polêmico considerando meus colegas veganos: É o rolê de nadar com os botos. Acessa-se o local por uma plataforma flutuante onde os operadores solicitam que se remova todo o protetor solar da pele e dão instruções para os visitantes sobre como interagir com os animais sem incomodá-los. Os bichos vêm soltos do rio, atraídos pelos peixes que um funcionário dá no bico deles. Esse tipo de interação meio domesticada com animais selvagens é sempre questionável, sobretudo considerando que depois do nosso barco chegaram dois daqueles que carregam 30 pessoas cada. Enfim, questão de consciência, esse passeio é cobrado separado de qualquer forma, 10 reais por pessoa.
                      Daí, seguimos por um igarapé do Rio Solimões, um curso de água por entre as árvores que, nessa época do ano, estavam inundadas. A passagem é simplesmente magnífica, a vista da flora e da fauna é linda, tiramos muitas fotos belíssimas no caminho até o restaurante flutuante de onde sai o caminho elevado para se ver as vitórias-régias.

                     
                     Eu quando criança, depois de uma aula na escola sobre essas plantas, sonhava com viajar à Amazônia para conhecê-las enquanto ainda era leve o bastante para que suportassem meu peso. Eu não teria podido subir nelas, de qualquer modo, então o atraso de alguns anos não mudou nada para a realização do sonho, eu acho. A vista das vitórias-régias é linda, mas por entre tantas coisas maravilhosas acaba não se destacando tanto assim, acho que dentre meus colegas eu fui o que mais se deslumbrou, considerando meu velho desejo infantil.

                      Fora as plantas, há a exuberante fauna amazônica para pontilhar a paisagem: macacos, sapos, aves, insetos etc.
                      O restaurante flutuante é um ponto de parada para almoço nos passeios tradicionais. Também há artesanatos indígenas para serem adquiridos, a preços mais altos do que na aldeia. Como Já havíamos decidido não parar para almoçar ali, seguimos logo para o próximo ponto de interesse.
                      No caminho pelo rio, passamos pelas ferragens de várias grandes embarcações abandonadas e vimos botos despontarem hora ou outra na superfície, passamos por baixo da grandiosa Ponte Jornalista Phelippe Daou e enfim chegamos ao gran finale, o Encontro das Águas, o local onde os rios Negro e Solimões se encontram para formar o Amazonas. As águas de diferente densidade, velocidade e temperatura não se misturam, empurram uma à outra como se competindo pelo espaço. A vista é um espetáculo, e botando a mão na água pode-se perceber a diferença da temperatura. Alguns dizem que não vale a pena ir até tão longe no rio para ver esse fenômeno, mas discordo.

                      Esse foi o último ponto do tour, na volta contornamos a cidade e vimos o grande porto, a Zona Franca, os vários postos de gasolina para barcos (o que é curioso para nós que não vivemos às margens de um rio como esse, rs). Grande nos deixou no píer em frente ao Mercado Municipal, onde comemos uma coisinha rápida (eu fui de açaí de novo) e logo pedimos um Uber para nos levar ao Bosque da Ciência do INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia), uma pequena área de preservação com animais silvestres soltos e recintos de animais resgatados sendo cuidados pelo instituto, além de um museu com exibições biológicas e históricas.
                      O bosque é um local bem agradável, e é fácil avistar diversos animais por entre as árvores. Vimos macacos, preguiças e uma paca jovem. Junto com os animais em cativeiro: peixes-boi, jacarés,  tartarugas e uma ariranha, o instituto oferece uma amostra bem diversificada da fauna amazônica.

                      E bem, se Manaus é difícil para veganos, pelo menos tem tapioca pra todo canto, e mesmo a simples – lembrando de pedir sem a manteiga - já é uma refeição relativamente saborosa e de sustância. O melhor de tudo é que é extremamente barata, normalmente 2 reais. Aproveitei e comi uma numa lanchonete lá dentro pra complementar, e ela e o açaí de antes já foram o bastante até chegarmos de volta ao hostel.
                      Voltamos já eram umas 17h e fomos arrumar as coisas para partirmos sem problemas no dia seguinte. Com tudo pronto, começamos a falar sobre sair à noite para ir a um bar, decidi jantar antes para não ter problema de não encontrar comida pra mim. Pouco depois partimos de Uber para a praça do Teatro Amazonas, que não fica longe, mas todo mundo nos alertou pra não andarmos por aí de noite. O seguro morreu de velho e a tarifa mínima do Uber não ia quebrar a banca de ninguém. Nosso destino foi a Casa do Pensador, um bar legal com preços bons e um cardápio diversificado. Entornamos algumas cervejas, mandamos umas porções de batata pra dentro e experimentamos uma caipifruta de Graviola que, apesar de um pouco fraca no álcool, estava deliciosa. Enquanto estávamos lá, um grupo de mochileiros profissionais artistas de rua parou lá perto pra fazer uma apresentação de música e acroyoga, foi bem interessante. Voltamos pro hostel quando o bar começou a fechar.
                      Eu já estava um pouco tonto pela bebida, então quando deitei não demorei a adormecer.
       
      Custos no dia 11
      R$ 15 de Uber à Marina do Davi, divisível por 4;
      R$ 120 de passeio Rios Negro e Solimões;
      R$ 8 de açaí no Mercado Municipal;
      R$ 15 de Uber ao INPA, divisível por 4;
      R$ 5 de ingresso no Bosque da Ciência do INPA;
      R$ 2 de tapioca no Bosque da Ciência do INPA;
      R$ 15 de Uber ao hostel, divisível por 4;
      R$ 10 de Uber à praça do Teatro, divisível por 4;
      R$ 20 de comes e bebes no bar;
      R$ 10 de Uber ao hostel, divisível por 4.
       
      Dia 12 – Teatro Amazonas e retorno pra São Paulo
                      Dormi como uma pedra e fiquei surpreso quando, no café da manhã, estava todo mundo admirado com a chuva cabulosa que caiu durante a noite e sobre a qual fiquei sabendo apenas naquele momento. Os benefícios de um sono suavemente etílico, hehehe.
                      Acordei cedo querendo aproveitar a manhã para fazer o tour do Teatro Amazonas e ir ao Palacete Provincial, que abriga cinco museus. Ninguém mais quis ir comigo e, desdenhoso da falta de espírito de exploração de meus colegas, parti sozinho pelas ruas manawaras sob o sol que já desde cedo escaldava a pele.
                      Cheguei no Teatro antes dele abrir e entrei com a primeira turma, o tour custa 20 reais a inteira e passa pelo interior do prédio com uma guia explicando detalhes da História, Arte, Arquitetura e curiosidades do local. É um passeio bastante interessante, apesar do tamanho do prédio não impressionar o paulistano frequentador do nosso enorme Theatro Municipal. Mais do que compensando por isso, o Teatro Amazonas é magnífico e os detalhes de sua construção e decoração são tantos e de tal esmero que impressionam qualquer um.

                      Como um apreciador da ópera, devo dizer que acrescentei na minha lista de coisas a fazer antes de morrer uma visita ao Teatro quando estiver ocorrendo seu famoso Festival Amazonas de Ópera, evento anual com diversos artistas internacionais e apresentações que me pareceram fantásticas.
                      O tour, infelizmente, demorou bem mais do que eu esperava, o que me deixou sem tempo hábil para a visita ao Palacete, então retornei ao hostel para encontrar meus camaradas. Antes de fazer o check-out, fomos fazer uma refeição numa lanchonetezinha simples mas gostosa lá perto, a Skina dos Sucos, onde comi uma tapioca com recheio de uma raiz da região, o tucumã, que se parece um pouco com cenoura, e tomei um suco de uma fruta cítrica também local, o taperebá. Tudo muito bom.
                      Voltamos para o hostel, fizemos o check-out e usamos a grana do caução para tomar uma saideira da geladeira de lá. Seguimos para o aeroporto e logo embarcamos no voo de volta pra São Paulo. O último presente que Manaus me deu foi a vista aérea do Encontro das Águas, magnífica.

                      Chegamos em casa no começo da noite, findando assim essa viagem fantástica e exótica que agora compartilho com vocês.
       
      Custos no dia 12
      R$ 20 de tour do Teatro Municipal (ou 10 a meia);
      R$ 15 de suco e tapioca na lanchonete;
      R$ 20 de Uber ao aeroporto, divisível por 4.
       
                      Acaba aqui o relato, agradeço a você que chegou até aqui e fico alegremente disponível para auxiliar na medida do possível com qualquer dúvida que os leitores possam ter. Não hesitem em mandar mensagens, rs, e boa viagem!
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
  • Seja [email protected] ao Mochileiros.com

    Faça parte da maior comunidade de mochileiros e viajantes independentes do Brasil! O cadastro é fácil e rápido! 😉 

×