Olá pessoal, como já dividi aqui com vocês algumas das minhas iniciações no montanhismo, desde as primeiras trilhas no Itatiaia, depois a Petrô X Tere e Marins Itaguaré, vou dar continuidade contando minha experiência na Serra Fina. É uma forma de analisar como subir pouco a pouco de dificuldade. Fizemos a Travessia da Serra Fina clássica em 4 dias/ 3 noites, nos dias 18 a 21 de junho de 2024. Perdoa que dessa vez não fiz muito breve não, o misto de sentimentos foi maior. E desculpa que as fotos subiram todas deitadas, ô desgraça!
GUIA E CUSTOS
Eu, Rafaela, NÃO FAÇO TREKKING SEM GUIA (pelo menos até o presente momento). Se você faz tudo auto guiado, parabéns.
O guia contratado foi o @willmantiqueira - WhatsApp: (35) 9201-1357. O valor dele foi o mais atrativo que achei: R$1.490,00 por pessoa, incluindo hospedagem em Passa Quatro/MG, transfer in/out da montanha, café da manhã e jantar na montanha, locação de barraca dupla (nossa barraca é tripla e não é mais aceito pelo RUAH), banho pós-trilha. Esse foi o valor que ele me passou em fevereiro e, além disso tudo, incluía também as taxas do parque. Porém, quando voltei a falar com ele, ele disse que estava tendo problemas pra comprar os ingressos para os participantes, por isso eu comprei os ingressos no site da RUAH e descontei o valor do pacote. Ficou assim, pra duas pessoas:
Taxas do RUAH: R$345,80 (notar que fomos em meio de semana)
Pago pro Guia: R$2.634,00
Importante:este guia NÃO é carregador. Nós levamos nossa barraca e dividimos o peso da alimentação jantar/ café da manhã. Ele ficou responsável por cozinhar para nós e levar os utensílios de cozinha. Ou seja, se você precisa de mais conforto na montanha, o melhor é buscar uma agência com mais estrutura (o que vai refletir num preço maior)e não o guia independente – como foi o nosso caso.
O Will é gente boa, mas senti que por saber nossa experiência prévia, deixou a gente pra trás em vários momentos. Aquela mãozinha em trechos de escalaminhada não rolou (embora não tivesse nenhum muito complicado). Enfim, é um guia pra quem tem mais experiência (não que eu tenha muita kkkkk). Outro ponto positivo é que ele tem muito contato com a RUAH e sabe de tudo que tá rolando na Serra durante a trilha, quem entra, quem sai, quantas pessoas, quais acampamentos. Nós por exemplo, ficamos sozinhos em todos os acampamentos que ficamos todos os dias.
De qualquer forma, a facilidade de ter a hospedagem da noite anterior inclusa foi muito bom. Além disso, pudemos deixar uma mochila pequena no hostel dele com uma muda de roupas limpas, toalhas e outros itens paratomar banho na volta e ainda ele nos deixou ficar no quarto e descansar até o horário de retorno do nosso ônibus que era 1h da manhã, por isso eu indico os serviçosdele.
O RELATO
17/06/2024 - segunda-feira
Chegamos na pequena rodoviária de Passa Quatro por volta das 18h após uma longa jornada de ônibus saindo do Tietê em São Paulo, parando em diversas cidades no meio do caminho. Passamos no mercado para garantir uma janta e fomos a pé até o hostel do Will que é cerca de 1,5km do centrinho da cidade – bem prático.
Pudemos usar a cozinha pra fazer nosso macarrão e nos preparar para o dia seguinte.
18/06/2024 - terça-feira
Acordamos as 6h e o Will serviu nosso café e logo em seguida partimos rumo ao início da Travessia. Tivemos alguns imprevistos para chegar lá por conta do carro, mas nada muito grave, iniciamos a caminhada provavelmente umas 8h30. Logo no começo me dei conta que esqueci de algo bem importante: todos os frios que tinha comprado pro lanche/ almoço de trilha ficaram na geladeira do hostel. Por sorte, tinha levado Salamitos e uma maionese e foi isso que recheou nossos 3 almoços.
Preenchemos o formulário na entrada da trilha e começamos. Primeira parada depois de poucos minutos de caminhada é o riachinho na frente da Toca do Lobo pra abastecer a água e botar mais peso na mochila. Aliás, essa foi de longe a mochila mais pesada que eu carreguei até hoje, não sei quantos kg, mas acho que pelo menos uns 15kg deve ter chegado quando os 3,5L de água tavam completos. A do Rubens levando a barraca junto, deve ter chegado em 17kg. Andando por mais uns 30 minutos (sempre subindo, claro) eu peguei um pauzinho pra usar de bastão de caminhada e fiz algum ajuste na mochila que já tava me puxando pra baixo. Foi coisa rápida, logo seguimos. As 10:48 passamos pelo cume do Quartzito, primeira montanha da travessia.
Esse primeiro dia, são mais de 1000 metros de desnível, sendo a subida mais longa da Serra Fina. No entanto, como eu tava ansiosíssima pra conhecer a famosa crista do Capim Amarelo, de fato, nem liguei. Tudo pra mim era incrível nesse dia. Fizemos apenas duas paradas curtas e uma mais longa pra comer. Chegamos no cume do Capim Amarelo por volta das 14:30 da tarde. O Will tava bem cansado porque tinha acabado de sair de uma travessia, logo montou barraca e foi se recolher. Eu e o Rubens ficamos que nem duas crianças olhando em volta e esperando ansiosos o pôr-do-sol que foi incrível. A vista do Marins e do Itaguaré dali também é linda demais.
Só mais incrível que o pôr-do-sol foi ver a noite abarrotada de estrela e as luzes das cidades no horizonte. Eu tava emocionadíssima. A janta do primeiro dia foi um strogonoff de lombinho que o Will preparou q tava uma delícia, chato é que na montanha a comida esfria extremamente rápido.
Enfim, hora de dormir. Deitamos acho que eram umas 20h, mas eu com a minha bexiga nervosa, ainda tive que levantar algumas vezes. Infelizmente tive muita dificuldade pra dormir. O meu saco de dormir é NTK para conforto –1,5Cº (aquele baratinho mesmo que você tá pensando), e eu tava com segunda pele mais dois fleeces. Não tava tão frio assim do lado de fora, depois o Will comentou que fez uns 3 Cº, ou seja, nada tão absurdo.Outra coisa que não ajudou foram os ratinhos da montanha arranhando nossa barraca de forma constante – pessoal, não deixem comida encostada na parede das barracas, os ratos podem arranhar até rasgar. Inclusive, invadiram a mochila do Rubens que tava do lado de fora da barraca com capa de chuva e dentro de uma sacola e rasgaram o saco de pão.
Bom, o Rubens teve a ideia de juntar os sacos de dormir, nunca tínhamos feito isso antes e achava até que faria mais frio. Ainda bem que eu me enganei, eu só consegui dormir o mínimo nessa primeira noite porque fizemos isso, nada como o calor humano.
Vista do Marins e do Itaguaré da Crista do Capim Amarelo
A crista do Capim
Todas do cume do Capim Amarelo
19/06/2024 - quarta-feira
Por causa da noite mal dormida, acordei daquele jeito = zoadassa. Tomamos café e saímos do acampamento por volta de umas 7h30-8h. A descida do Capim Amarelo e de detonar o joelho de qualquer ser humano.Em alguns trechos já era possível ver gelo acumulado da noite. Chegamos no cume do Melano as 11:19. Descendo, uma paradinha pra apreciar a grandiosa Pedra da Mina imponente ao fundo.
Sobe e desce, sobe e desce, 13h10 eu tava esgotada e pedi pra parar um pouco. Respira. O Will vendo minhas condições, disse que podíamos acampar na Florestinha ao invés de subir a Pedra da Mina naquele dia. Ainda disse que por ser entre as árvores, era um acampamento mais quentinho e não tinha ratos. Ele até mostrou o ‘bigodinho’ mais verde escuro na encosta da Pedra da Mina. Era pra lá que estávamos indo. Eu já tava completamente esgotada, mas ainda teríamos que abastecer completamente a água antes de encarar os 15 minutinhos de subida pro acampamento.
Chegando, armei a barraca, tomei um banho com lenço umedecido e dormi. Até perdi o pôr-do-sol esse dia, que raiva. Mas pelo menos o céu estrelado foi garantido, além de uma lua quase cheia. A janta foi macarrão com linguiça e graças a Deus, nesse dia, eu dormi. Dormi bem.
Descida do Campim Amarelo
Cume do Melano
Pedra da MIna ao fundo
Aproximação da Pedra da Mina
Acampamento da Floresta Encantada
Noite no acampamento da Floresta Encantada
20/06/2024 - quinta-feira
Acordei umas 5h30 pra ir ao banheiro e tive a infeliz surpresa de estar com o intestino levemente desrregulado. E na montanha, já sabe, quanto mais cc pra fora, mais peso no shit tube (no meu caso, shit bag – usamos uma bolsa estanque pra guardar as cacas e foi bem útil e fácil). E eu tava responsável por levar o banheiro, já que o Rubens tava com a barraca. Bom, nem deu tempo de voltar pro saco de dormir porque todo mundo já tava acordado. Foi tomar café da manhã e começar a subir a Pedra da Mina, isso era 7:10.
Convenhamos, apesar de ter dormido bem, descobrir uma dor de barriga logo cedo e ter a quarta montanha mais alta do Brasil na sua frente pra subir não é muito animador. Minha cara certamente não tava lá aquelas coisas. Chegamos no topo 8:15 e lá, eu e o Will tivemos uma conversa – foi cogitado desistir da travessia descendo pela via do Paiolinho. Ele julgou a minha cara naquele momento e o meu péssimo desempenho do dia anterior e fez uma certa ‘pressão’ pra gente sair porque ainda haveria muitas montanhas enormes pela frente. Eu sei que ele não fez por mal, mas meu corpo nem tinha aquecido direito. Fiquei com um misto de raiva, preocupação e lá no fundo um pensamento “eu tô cansada, mas não tô morta, eu consigo terminar essa travessia”. Psicológico é quase tudo nessa vida amores, assim decidi seguir. Infelizmente, por causa desses contratempos, acabei não curtindo muito o pico da Pedra da Mina e ESQUECI DE ASSINAR o livro de cume. Isso me doeu.
Bom, descendo a Pedra da Mina, já conseguimos ver o belíssimo Vale do Ruah. As 8:55 estava de frente pra Placa indicando e ENORME desvio do vale. Caso ainda não saibam, a Associação de Proprietários da Serra Fina bloqueou a trilha ali pra preservar a nascente de água que estava ficando contaminada por causa do pessoal tomando banho, cozinhando, lavando, etc, etc. Resultado: a gente troca 1km plano e tranquilo de trilha por 2,5km de sobe e desce dos infernos pra desviar.
As 11h terminamos o desvio e chegamos no ponto de água pra abastecer. As 13h47 chegamos no alto do Cupim do Boi – que foi uma das cristas mais bonitas de subir depois da do Capim Amarelo. Lá de cima já dava pra ver todo o Itatiaia, coisa linda.Ali, tivemos outra conversa com o guia: tínhamos a opção de acampar na base do Três Estados caso estivéssemos muito cansados ou subir e acampar no topo. O Will falou que podia demorar até 1h30 pra subir o Três Estados – mas mesmo que fôssemos mais devagar que isso, ainda chegaríamos num bom horário.
Falei com o Rubens e chegamos à conclusão que, ainda que chegássemos 17h no acampamento, era melhor encarar aquela montanha ali naquele momento do que na manhã seguinte, como tinha acontecido naquela manhã. Decisão tomada, começamos a descer o Cupim do Boi, passamos pelo bambuzal pra logo em seguida começar a subir de novo. Foi uma subida muito difícil, um pé atrás do outro, devagar mas constante, porém com uma persistente sensação de ‘não aguento mais’. Fazíamos apenas curtas paradas de segundos pra retomar o fôlego e seguir.
Chegamos no cume dos Três Estados por volta das 15h30 – um excelente horário pra quem tava morrendo. Eu fiquei tão feliz que até chorei de felicidade. O acampamento era tão lindo quanto o do Capim Amarelo, porém, mais infestado de ratos. Mas nada disso tirou a minha alegria, eu tava em êxtase. Assinei o livro com gosto enquanto via a enorme sombra da montanha logo a frente e o Agulhas Negras e o Prateleiras na minha esquerda. Atrás, o sol se punha. Que momento lindo de viver!
A janta desse último dia foi arroz, feijão com linguiça e farofa. Olha, o Will arrasou nas jantas, disso não posso reclamar em absolutamente nada. Nessa última noite, acho que tive alguns sintomas de desidratação, sabe quando se bebe e bebe água, mas parece que a boca não molha? Então, eu tava assim. De qualquer forma, arrumamos tudo pra fazer uma barreira ‘anti-ratos’, colocamos uma mochila em cima do capim e outra o Will guardou dentro da barraca dele. Dormi como um baby essa última noite.
Pedra da Mina, sem emoção.
Vale du Ruah e indicação do desvio
Panorama do Cupim do Boi + Três Estados com o Itatiaia atrás
No Cupim do Boi
No pico Três Estados, sombra da montanha no vale
21/06/2024 - sexta-feira
Acordamos as 6h e vi outra imagem que não sairá tão cedo da memória: a lua tava se pondo atrás da Serra Fina enquanto o sol nascia atrás do Itatiaia. Nessas horas eu me lembro porque eu sofro tanto. Minha cara tava ultra inchada, o Will disse que foi a noite a mais fria da travessia, que chegou a zerar. Eu, porém, não senti nada - mas a minha cara sentiu.
Começamos a descer o Três Estados umas 7h45. Este último dia é o mais leve em termos de subidas e descidas, porém, é o mais longo. Passamos pelo morro do camelo e pela última montanha da travessia, o Alto dos Ivos. Depois dali, é praticamente só descida, sendo os últimos quilômetros uma trilha bem plana e agradável. Nesse trecho mais tranquilo, o Will se distanciou bastante da gente, eu tava indo devagar porque tava sentindo bastante o meu dedão do pé, quase andando de lado.
Chegamos na portaria do parque as 12h07, porém, o Will explicou que se cobra R$50,00 pra deixar o carro passar pela porteira e subir até lá, por isso, tínhamos que descer até a estrada (que ele disse que seriam mais 2km, mas vi numa placa que eram 3km). Faltavam poucos minutos para as 13h quando avistamos o rei das estradas logo abaixo, o Uno, vindo nos resgatar.
Eu ainda tava com o pauzinho que eu tinha pegado no primeiro dia pra usar de bastão, fiquei tão apegada que levei junto. Tá aqui em casa inclusive, melhor lembrança que poderia ter da Serra Fina. Enquanto estávamos no carro, eu e o Rubens nos olhávamos ainda sem acreditar que a gente tava sentado num CARRO e que tínhamos acabado de vencer uma das travessias mais difíceis do Brasil.
Voltamos para o hostel onde pudemos tomar um bom banho e descansar. Descobri que a unha de um dos meus pés tinha levantado e a outra estava completamente roxa, por isso estava sentindo tanta dor na parte suave final da trilha (hoje faz 6 dias que sai da Serra Fina, os dedos não doem mais, mas ainda estão bem feios, tô tratando muito bem porque em outubro tem outra DAQUELAS).O Will ainda saiu de bike (!!!!!!!!!!!!!) com a mulher dele pra almoçar e trouxeram um marmitex pra gente, o que foi um baita quebra-galho. Nosso ônibus sairia quase a 1h da manhã, ainda pudemos dar uma cochilada antes disso. Ter esse tempo pra descansar fez absoluta total diferença nos serviços prestados pelo Will e por isso indico fortemente fecharem o pacote com ele se este for o seu perfil.
Descendo o Três Estados, Will na frente
Pico Alto dos Ivos
Finalizando a Travessia na estrada
CONCLUSÃO ou só um blá blá blá final (?)
PÔ, DIFÍCIL PRA CARAMBA HEIN. Não tô muito feliz com meu desempenho, mas tô feliz de ter concluído. Quando a gente saí de lá, o pensamento é “nunca mais”, mas agora, pra variar, eu fico pensando como eu gostaria de voltar e fazer melhor, fazer bem, assinar aquele maldito livro da Pedra da Mina, acampar lá em cima. Tomar vergonha na cara e ir pra uma academia a bonita não quer né. Nada explica a cabeça do trilheiro. Nossa sorte foi ter conseguido o clima PERFEITO os 3 dias, sem chuva, sem nuvem, quase sem vento - coisa linda. Parece que não é sempre que a gente tem azar. Coração cheio de gratidão, que venha a próxima!
Editado por rafa_con correções de português, concordância, etc
PEQUENA INTRO
Olá pessoal, como já dividi aqui com vocês algumas das minhas iniciações no montanhismo, desde as primeiras trilhas no Itatiaia, depois a Petrô X Tere e Marins Itaguaré, vou dar continuidade contando minha experiência na Serra Fina. É uma forma de analisar como subir pouco a pouco de dificuldade. Fizemos a Travessia da Serra Fina clássica em 4 dias/ 3 noites, nos dias 18 a 21 de junho de 2024. Perdoa que dessa vez não fiz muito breve não, o misto de sentimentos foi maior. E desculpa que as fotos subiram todas deitadas, ô desgraça!
GUIA E CUSTOS
Eu, Rafaela, NÃO FAÇO TREKKING SEM GUIA (pelo menos até o presente momento). Se você faz tudo auto guiado, parabéns.
O guia contratado foi o @willmantiqueira - WhatsApp: (35) 9201-1357. O valor dele foi o mais atrativo que achei: R$1.490,00 por pessoa, incluindo hospedagem em Passa Quatro/MG, transfer in/out da montanha, café da manhã e jantar na montanha, locação de barraca dupla (nossa barraca é tripla e não é mais aceito pelo RUAH), banho pós-trilha. Esse foi o valor que ele me passou em fevereiro e, além disso tudo, incluía também as taxas do parque. Porém, quando voltei a falar com ele, ele disse que estava tendo problemas pra comprar os ingressos para os participantes, por isso eu comprei os ingressos no site da RUAH e descontei o valor do pacote. Ficou assim, pra duas pessoas:
Taxas do RUAH: R$345,80 (notar que fomos em meio de semana)
Pago pro Guia: R$2.634,00
Importante: este guia NÃO é carregador. Nós levamos nossa barraca e dividimos o peso da alimentação jantar/ café da manhã. Ele ficou responsável por cozinhar para nós e levar os utensílios de cozinha. Ou seja, se você precisa de mais conforto na montanha, o melhor é buscar uma agência com mais estrutura (o que vai refletir num preço maior) e não o guia independente – como foi o nosso caso.
O Will é gente boa, mas senti que por saber nossa experiência prévia, deixou a gente pra trás em vários momentos. Aquela mãozinha em trechos de escalaminhada não rolou (embora não tivesse nenhum muito complicado). Enfim, é um guia pra quem tem mais experiência (não que eu tenha muita kkkkk). Outro ponto positivo é que ele tem muito contato com a RUAH e sabe de tudo que tá rolando na Serra durante a trilha, quem entra, quem sai, quantas pessoas, quais acampamentos. Nós por exemplo, ficamos sozinhos em todos os acampamentos que ficamos todos os dias.
De qualquer forma, a facilidade de ter a hospedagem da noite anterior inclusa foi muito bom. Além disso, pudemos deixar uma mochila pequena no hostel dele com uma muda de roupas limpas, toalhas e outros itens para tomar banho na volta e ainda ele nos deixou ficar no quarto e descansar até o horário de retorno do nosso ônibus que era 1h da manhã, por isso eu indico os serviços dele.
O RELATO
17/06/2024 - segunda-feira
Chegamos na pequena rodoviária de Passa Quatro por volta das 18h após uma longa jornada de ônibus saindo do Tietê em São Paulo, parando em diversas cidades no meio do caminho. Passamos no mercado para garantir uma janta e fomos a pé até o hostel do Will que é cerca de 1,5km do centrinho da cidade – bem prático.
Pudemos usar a cozinha pra fazer nosso macarrão e nos preparar para o dia seguinte.
18/06/2024 - terça-feira
Acordamos as 6h e o Will serviu nosso café e logo em seguida partimos rumo ao início da Travessia. Tivemos alguns imprevistos para chegar lá por conta do carro, mas nada muito grave, iniciamos a caminhada provavelmente umas 8h30. Logo no começo me dei conta que esqueci de algo bem importante: todos os frios que tinha comprado pro lanche/ almoço de trilha ficaram na geladeira do hostel. Por sorte, tinha levado Salamitos e uma maionese e foi isso que recheou nossos 3 almoços.
Preenchemos o formulário na entrada da trilha e começamos. Primeira parada depois de poucos minutos de caminhada é o riachinho na frente da Toca do Lobo pra abastecer a água e botar mais peso na mochila. Aliás, essa foi de longe a mochila mais pesada que eu carreguei até hoje, não sei quantos kg, mas acho que pelo menos uns 15kg deve ter chegado quando os 3,5L de água tavam completos. A do Rubens levando a barraca junto, deve ter chegado em 17kg. Andando por mais uns 30 minutos (sempre subindo, claro) eu peguei um pauzinho pra usar de bastão de caminhada e fiz algum ajuste na mochila que já tava me puxando pra baixo. Foi coisa rápida, logo seguimos. As 10:48 passamos pelo cume do Quartzito, primeira montanha da travessia.
Esse primeiro dia, são mais de 1000 metros de desnível, sendo a subida mais longa da Serra Fina. No entanto, como eu tava ansiosíssima pra conhecer a famosa crista do Capim Amarelo, de fato, nem liguei. Tudo pra mim era incrível nesse dia. Fizemos apenas duas paradas curtas e uma mais longa pra comer. Chegamos no cume do Capim Amarelo por volta das 14:30 da tarde. O Will tava bem cansado porque tinha acabado de sair de uma travessia, logo montou barraca e foi se recolher. Eu e o Rubens ficamos que nem duas crianças olhando em volta e esperando ansiosos o pôr-do-sol que foi incrível. A vista do Marins e do Itaguaré dali também é linda demais.
Só mais incrível que o pôr-do-sol foi ver a noite abarrotada de estrela e as luzes das cidades no horizonte. Eu tava emocionadíssima. A janta do primeiro dia foi um strogonoff de lombinho que o Will preparou q tava uma delícia, chato é que na montanha a comida esfria extremamente rápido.
Enfim, hora de dormir. Deitamos acho que eram umas 20h, mas eu com a minha bexiga nervosa, ainda tive que levantar algumas vezes. Infelizmente tive muita dificuldade pra dormir. O meu saco de dormir é NTK para conforto –1,5 Cº (aquele baratinho mesmo que você tá pensando), e eu tava com segunda pele mais dois fleeces. Não tava tão frio assim do lado de fora, depois o Will comentou que fez uns 3 Cº, ou seja, nada tão absurdo. Outra coisa que não ajudou foram os ratinhos da montanha arranhando nossa barraca de forma constante – pessoal, não deixem comida encostada na parede das barracas, os ratos podem arranhar até rasgar. Inclusive, invadiram a mochila do Rubens que tava do lado de fora da barraca com capa de chuva e dentro de uma sacola e rasgaram o saco de pão.
Bom, o Rubens teve a ideia de juntar os sacos de dormir, nunca tínhamos feito isso antes e achava até que faria mais frio. Ainda bem que eu me enganei, eu só consegui dormir o mínimo nessa primeira noite porque fizemos isso, nada como o calor humano.
Vista do Marins e do Itaguaré da Crista do Capim Amarelo
A crista do Capim
Todas do cume do Capim Amarelo
19/06/2024 - quarta-feira
Por causa da noite mal dormida, acordei daquele jeito = zoadassa. Tomamos café e saímos do acampamento por volta de umas 7h30-8h. A descida do Capim Amarelo e de detonar o joelho de qualquer ser humano. Em alguns trechos já era possível ver gelo acumulado da noite. Chegamos no cume do Melano as 11:19. Descendo, uma paradinha pra apreciar a grandiosa Pedra da Mina imponente ao fundo.
Sobe e desce, sobe e desce, 13h10 eu tava esgotada e pedi pra parar um pouco. Respira. O Will vendo minhas condições, disse que podíamos acampar na Florestinha ao invés de subir a Pedra da Mina naquele dia. Ainda disse que por ser entre as árvores, era um acampamento mais quentinho e não tinha ratos. Ele até mostrou o ‘bigodinho’ mais verde escuro na encosta da Pedra da Mina. Era pra lá que estávamos indo. Eu já tava completamente esgotada, mas ainda teríamos que abastecer completamente a água antes de encarar os 15 minutinhos de subida pro acampamento.
Chegando, armei a barraca, tomei um banho com lenço umedecido e dormi. Até perdi o pôr-do-sol esse dia, que raiva. Mas pelo menos o céu estrelado foi garantido, além de uma lua quase cheia. A janta foi macarrão com linguiça e graças a Deus, nesse dia, eu dormi. Dormi bem.
Descida do Campim Amarelo
Cume do Melano
Pedra da MIna ao fundo
Aproximação da Pedra da Mina
Acampamento da Floresta Encantada
Noite no acampamento da Floresta Encantada
20/06/2024 - quinta-feira
Acordei umas 5h30 pra ir ao banheiro e tive a infeliz surpresa de estar com o intestino levemente desrregulado. E na montanha, já sabe, quanto mais cc pra fora, mais peso no shit tube (no meu caso, shit bag – usamos uma bolsa estanque pra guardar as cacas e foi bem útil e fácil). E eu tava responsável por levar o banheiro, já que o Rubens tava com a barraca. Bom, nem deu tempo de voltar pro saco de dormir porque todo mundo já tava acordado. Foi tomar café da manhã e começar a subir a Pedra da Mina, isso era 7:10.
Convenhamos, apesar de ter dormido bem, descobrir uma dor de barriga logo cedo e ter a quarta montanha mais alta do Brasil na sua frente pra subir não é muito animador. Minha cara certamente não tava lá aquelas coisas. Chegamos no topo 8:15 e lá, eu e o Will tivemos uma conversa – foi cogitado desistir da travessia descendo pela via do Paiolinho. Ele julgou a minha cara naquele momento e o meu péssimo desempenho do dia anterior e fez uma certa ‘pressão’ pra gente sair porque ainda haveria muitas montanhas enormes pela frente. Eu sei que ele não fez por mal, mas meu corpo nem tinha aquecido direito. Fiquei com um misto de raiva, preocupação e lá no fundo um pensamento “eu tô cansada, mas não tô morta, eu consigo terminar essa travessia”. Psicológico é quase tudo nessa vida amores, assim decidi seguir. Infelizmente, por causa desses contratempos, acabei não curtindo muito o pico da Pedra da Mina e ESQUECI DE ASSINAR o livro de cume. Isso me doeu.
Bom, descendo a Pedra da Mina, já conseguimos ver o belíssimo Vale do Ruah. As 8:55 estava de frente pra Placa indicando e ENORME desvio do vale. Caso ainda não saibam, a Associação de Proprietários da Serra Fina bloqueou a trilha ali pra preservar a nascente de água que estava ficando contaminada por causa do pessoal tomando banho, cozinhando, lavando, etc, etc. Resultado: a gente troca 1km plano e tranquilo de trilha por 2,5km de sobe e desce dos infernos pra desviar.
As 11h terminamos o desvio e chegamos no ponto de água pra abastecer. As 13h47 chegamos no alto do Cupim do Boi – que foi uma das cristas mais bonitas de subir depois da do Capim Amarelo. Lá de cima já dava pra ver todo o Itatiaia, coisa linda. Ali, tivemos outra conversa com o guia: tínhamos a opção de acampar na base do Três Estados caso estivéssemos muito cansados ou subir e acampar no topo. O Will falou que podia demorar até 1h30 pra subir o Três Estados – mas mesmo que fôssemos mais devagar que isso, ainda chegaríamos num bom horário.
Falei com o Rubens e chegamos à conclusão que, ainda que chegássemos 17h no acampamento, era melhor encarar aquela montanha ali naquele momento do que na manhã seguinte, como tinha acontecido naquela manhã. Decisão tomada, começamos a descer o Cupim do Boi, passamos pelo bambuzal pra logo em seguida começar a subir de novo. Foi uma subida muito difícil, um pé atrás do outro, devagar mas constante, porém com uma persistente sensação de ‘não aguento mais’. Fazíamos apenas curtas paradas de segundos pra retomar o fôlego e seguir.
Chegamos no cume dos Três Estados por volta das 15h30 – um excelente horário pra quem tava morrendo. Eu fiquei tão feliz que até chorei de felicidade. O acampamento era tão lindo quanto o do Capim Amarelo, porém, mais infestado de ratos. Mas nada disso tirou a minha alegria, eu tava em êxtase. Assinei o livro com gosto enquanto via a enorme sombra da montanha logo a frente e o Agulhas Negras e o Prateleiras na minha esquerda. Atrás, o sol se punha. Que momento lindo de viver!
A janta desse último dia foi arroz, feijão com linguiça e farofa. Olha, o Will arrasou nas jantas, disso não posso reclamar em absolutamente nada. Nessa última noite, acho que tive alguns sintomas de desidratação, sabe quando se bebe e bebe água, mas parece que a boca não molha? Então, eu tava assim. De qualquer forma, arrumamos tudo pra fazer uma barreira ‘anti-ratos’, colocamos uma mochila em cima do capim e outra o Will guardou dentro da barraca dele. Dormi como um baby essa última noite.
Pedra da Mina, sem emoção.
Vale du Ruah e indicação do desvio
Panorama do Cupim do Boi + Três Estados com o Itatiaia atrás
No Cupim do Boi
No pico Três Estados, sombra da montanha no vale
21/06/2024 - sexta-feira
Acordamos as 6h e vi outra imagem que não sairá tão cedo da memória: a lua tava se pondo atrás da Serra Fina enquanto o sol nascia atrás do Itatiaia. Nessas horas eu me lembro porque eu sofro tanto. Minha cara tava ultra inchada, o Will disse que foi a noite a mais fria da travessia, que chegou a zerar. Eu, porém, não senti nada - mas a minha cara sentiu.
Começamos a descer o Três Estados umas 7h45. Este último dia é o mais leve em termos de subidas e descidas, porém, é o mais longo. Passamos pelo morro do camelo e pela última montanha da travessia, o Alto dos Ivos. Depois dali, é praticamente só descida, sendo os últimos quilômetros uma trilha bem plana e agradável. Nesse trecho mais tranquilo, o Will se distanciou bastante da gente, eu tava indo devagar porque tava sentindo bastante o meu dedão do pé, quase andando de lado.
Chegamos na portaria do parque as 12h07, porém, o Will explicou que se cobra R$50,00 pra deixar o carro passar pela porteira e subir até lá, por isso, tínhamos que descer até a estrada (que ele disse que seriam mais 2km, mas vi numa placa que eram 3km). Faltavam poucos minutos para as 13h quando avistamos o rei das estradas logo abaixo, o Uno, vindo nos resgatar.
Eu ainda tava com o pauzinho que eu tinha pegado no primeiro dia pra usar de bastão, fiquei tão apegada que levei junto. Tá aqui em casa inclusive, melhor lembrança que poderia ter da Serra Fina. Enquanto estávamos no carro, eu e o Rubens nos olhávamos ainda sem acreditar que a gente tava sentado num CARRO e que tínhamos acabado de vencer uma das travessias mais difíceis do Brasil.
Voltamos para o hostel onde pudemos tomar um bom banho e descansar. Descobri que a unha de um dos meus pés tinha levantado e a outra estava completamente roxa, por isso estava sentindo tanta dor na parte suave final da trilha (hoje faz 6 dias que sai da Serra Fina, os dedos não doem mais, mas ainda estão bem feios, tô tratando muito bem porque em outubro tem outra DAQUELAS). O Will ainda saiu de bike (!!!!!!!!!!!!!) com a mulher dele pra almoçar e trouxeram um marmitex pra gente, o que foi um baita quebra-galho. Nosso ônibus sairia quase a 1h da manhã, ainda pudemos dar uma cochilada antes disso. Ter esse tempo pra descansar fez absoluta total diferença nos serviços prestados pelo Will e por isso indico fortemente fecharem o pacote com ele se este for o seu perfil.
Descendo o Três Estados, Will na frente
Pico Alto dos Ivos
Finalizando a Travessia na estrada
CONCLUSÃO ou só um blá blá blá final (?)
PÔ, DIFÍCIL PRA CARAMBA HEIN. Não tô muito feliz com meu desempenho, mas tô feliz de ter concluído. Quando a gente saí de lá, o pensamento é “nunca mais”, mas agora, pra variar, eu fico pensando como eu gostaria de voltar e fazer melhor, fazer bem, assinar aquele maldito livro da Pedra da Mina, acampar lá em cima. Tomar vergonha na cara e ir pra uma academia a bonita não quer né. Nada explica a cabeça do trilheiro. Nossa sorte foi ter conseguido o clima PERFEITO os 3 dias, sem chuva, sem nuvem, quase sem vento - coisa linda. Parece que não é sempre que a gente tem azar. Coração cheio de gratidão, que venha a próxima!
Editado por rafa_con
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