Há alguns meses recebi uma mensagem do Peter Tofte, dizendo que se mudaria para Brasília e me convidando pra um trekking. Sempre fui fã dos relatos do Peter e gostei muito da ideia de caminhar ao lado de alguém que tenho como referência no trekking aqui no fórum. Lógico que aceitei a proposta no mesmo instante!
Primeiramente pensamos em fazer a Travessia Leste na Chapada dos Veadeiros, mas devido ao tempo necessário para esta travessia, optamos por fazer algo menor.
Sugeri a Travessia da Serra da Aranha, mais curta, mas por um terreno bastante irregular e sem água, ou a Travessia dos Pirineus, saindo de Cocalzinho de Goiás, passando pela Cidade de Pedra, Cachoeiras dos Dragões, Serra do Macaco, Cachoeiras do Coqueiro e da Garganta e cortar o Parque Estadual dos Pirineus sentido Cocalzinho, num total aproximado de 62km, segundo o Google Earth. Escolhemos a dos Pirineus. O Peter sugeriu esticarmos a pernada até a Cachoeira do Rosário, aumentando o trajeto em alguns quilômetros e eu topei. Tentar fazer uma trilha de aproximadamente 70km em terreno desconhecido e onde não há trilha demarcada, foi um pouco de ousadia, principalmente pra mim, que vivo fora de forma e enferrujado pelo longo tempo de sedentarismo.
Marcamos o início do trekking pro dia 18/08/2012 num posto de gasolina no cruzamento da BR-070 com a BR-414, 2km ao norte de Cocalzinho. O encontro seria entre 06:30 e 07:00 horas da manhã. Cheguei às 07:05h e o Peter já me aguardava. Comemos umas bananas, usamos o banheiro, e às 07:30 já estávamos na trilha.
O início é bem monótono, passando sempre por pastagens ou seguindo a estrada. Entramos numa estrada vicinal e acabamos chegando numa casa com alguns cachorros. Como a casa estava fechada, passamos pelo quintal, atravessamos um córrego e subimos por uma alta pastagem até uma plantação de eucaliptos ainda bem jovens. Cruzamos essa plantação e voltamos à estrada principal.
Peter preparado pro trekking
Eu na mesma situação
Atravessando uma pastagem
Após 10km de caminhada, pegamos a bifurcação em direção à Gruta dos Ecos, mas como o nosso tempo era curto, não sabíamos a localização exata da gruta e achamos que a visita não valeria a pena, logo pegamos uma trilha à esquerda, cortando um campo limpo com uma vereda na baixada. Infelizmente, nessa época do ano, não havia nem sinal de água. Resolvemos descansar e comer um pouco. Poucos minutos depois, continuamos a pernada. Passamos próximos a uma bonita fazenda, com um enorme curral e duas represas no fundo. Mais uns poucos minutos de caminhada e chegamos a um local de extração de Pedra de Pirenópolis, que acabei de descobrir no google se tratar de um mineral chamado quartzito micáceo. Haviam dois senhores descansando, cumprimentamo-nos e seguimos viagem. Passamos por uma imensa área de mineração até chegarmos à casa do Nivaldo, que também trabalha na extração mineral, onde abastecemos os cantis e aproveitamos para descansar. O Nivaldo foi bastante educado, conversamos um pouco, e ele nos disse que a Cidade de Pedra ficava a uns 5 ou 6 km e apontou pra uma grande pedra no alto de uma serra dizendo que era lá.
Zarpamos rumo à serra saindo da estrada para pegar uma trilha de gado que atravessava um campo limpo. Mais à frente, onde retornamos à estrada, encontramos um grupo de ciclistas que também iriam para a Cachoeira do Rosário. Às 13:00 horas paramos para comer e descansar. Comemos um delicioso pão em folha com salame e queijo e mais algumas guloseimas levadas pelo Peter. Eu já estava um pouco cansado, já o Peter, andando tranquilo, nem parecia que havia caminhado quase 20km. Subimos a trilha pra Cidade de Pedra e podemos ver de perto algumas formações. Notamos que em algumas rochas há vias de escalada, pela presença de chapeletas e grampos fixados às mesmas.
Seguimos uma trilha que contorna a Cidade de Pedra e segue até uma casa abandonada à beira da estrada, que nesse ponto já está num estado bem ruim, tornando-se quase uma trilha.
Campo com a Serra de São Gonçalo ao fundo, onde se localiza a Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Como a impressão do nosso mapa não estava boa e já havíamos andado bastante, sem nem sinal do campo que atravessaríamos, sugeri que pegássemos uma trilha à direita. Ledo engano, quando a trilha começou a seguir o sentido note, percebemos que havíamos errado o caminho, então, entramos num vara-mato a oeste afim de encontrar o caminho certo. Descemos uma pequena encosta até uma nascente que aliviou nossa sede. Foi a única coisa boa de ter errado o caminho. Nesse momento, eu me encontrava exausto. A subida pra sair da nascente foi sofrível.
Trilha errada
Nascente que saciou nossa sede
Alcançamos a estrada ao lado de uma porteira e seguimos por ela por mais uns 2km até uma segunda cancela. Ali, mesmo muito cansado, ainda consegui rir do Peter tentando algumas vezes abri-la pro lado errado. Abri a porteira e seguimos mais um pouco até um campo que nos levou até as nascentes do riacho que acompanharíamos até as Cachoeiras dos Dragões. A hora já estava bastante adiantada e o sol começava a se pôr. A vereda estava brotando verdejante, após uma queimada ainda bem visível. É impressionante o quanto as pessoas do Centro-Oeste ainda usam o fogo como forma de renovar as pastagens. Presenciamos um lindo pôr do sol e resolvemos arrumar lugar para acampar, pois não seria fácil achar o caminho num vara-mato noturno, afinal, não encontramos nem sinal de trilha.
Como estava escuro, acampamos no primeiro lugar mais ou menos que encontramos, às margens de um riacho, num capinzal de terreno bastante irregular.
Depois de tomar banho gelado numa “banheira natural”, fomos preparar a janta. O Peter comeu salsicha com lentilhas e eu fui fazer panqueca de queijo (receita do cozinha na mochila, muito boa) e estrogonofe de carne da Liofoods (por sinal, bem sem gosto).
Depois da janta, ficamos numa laje de pedra olhando as estrelas. Fui pra barraca e desmaiei. Mesmo com um monte de “caroços” embaixo da barraca, dormi o sono dos mortos, literalmente. Acordei às 06:00 horas, ainda estava um pouco escuro, arrumei meu café, enquanto aguardava meu colega acordar, notei que tinha um machucado na cintura, provavelmente, o cinto forçou contra a barrigueira da mochila. O Peter acordou tarde, reclamando que não dormiu bem por causa do chão irregular. Disse que mal entrei na barraca, comecei a roncar. Mostrei o ferimento ao Peter e ele fez um curativo com silver tape, dizendo que eu era o homem remendado. Depois de arrumar nossas coisas descemos acompanhando o riacho e vimos quantos bons lugares havia pra montar acampamento alguns metros à baixo de onde tínhamos montado o nosso. Num capim alto, o Peter caiu dentro de um buraco, mas não tive tempo de sacar a máquina, na mesma velocidade que caiu, ele saiu do buraco.
O rio forma inúmeras piscinas naturais, cada uma mais convidativa que a outra, e às suas margens, alguns jardins florescem magníficos. Como estávamos bastante atrasados, somente apreciamos a vista. Depois de certo tempo, saímos da margem do rio em direção noroeste até chegarmos à beira de uma grota bem profunda. Como atravessá-la seria muito difícil e cansativo, fomos acompanhando-a e por sorte e sem querer encontramos uma trilha que nos levou às Cachoeiras dos Dragões.
Fazendo panqueca
Acampamento
Banheiras
Preparando meu café
A caminho das cachoeiras
Piscinas naturais a caminho das cachoeiras
Jardins
O complexo é formado por oito cachoeiras, das quais duas estavam completamente secas, restando apenas os poços, a 5ª e a 7ª, que são formadas pelo mesmo córrego. De cima do paredão da 5ª cachoeira, vimos um casal de urubus rei. Desde a Serra da Bocaina não via um bicho desses na natureza.
Conhecemos todas as cachoeiras e fomos nos refrescar na 1ª Cachoeira dos Dragões. Almoçamos por ali e decidimos retornar pra Cocalzinho, pois já eram 13:00 horas e não conseguiríamos fazer o restante da travessia proposta a tempo. Afinal, segunda-feira, teríamos que trabalhar.
Borda da 5ª Cachoeira dos Dragões, completamente seca
Piscina natural da 8ª Cachoeira dos Dragões
Enchendo o cantil na 8ª Cachoeira dos Dragões
Atravessando uma pinguela pra 6ª Cachoeira dos Dragões
Piscina natural da 6ª Cachoeira dos Dragões
6ª Cachoeira dos Dragões
4ª Cachoeira dos Dragões
3ª Cachoeira dos Dragões
2ª Cachoeira dos Dragões
1ª Cachoeira dos Dragões
Seguimos a trilha, que é bem demarcada e sinalizada até o Mosteiro Budista, lá conversamos com o Sr. Valdeir, que nos informou que no local há hospedagem e práticas de meditação. O Peter descobriu que eles cobram uma taxa de R$ 25,00, para a visitação das cachoeiras. Como entramos pelo mato e não dissemos que usufruímos de nada, saímos sem pagar. Perguntamos onde era a estrada pra Cocalzinho e ele apontou um trieiro à esquerda e disse que a estrada estava à uns 100 metros. Perguntei qual era a distância e quase chamei um taxi quando me disse que eram 37km. É, a vida não é mole não.
Detalhe da construção do mosteiro com as pedras da região
Cansado, com uma lesão na cintura e muitas dores musculares, seguimos o caminho indicado. Acho que por uns 5 ou 6km seguimos por uma subida leve, e no final meus pés já davam o alarme, senti que uma bolha estava se formando no meu calcanhar direito. Mais uma vez, precisei dos serviços do Dr. Peter, que fez um curativo com gaze e silver tape e, definitivamente transformei-me no homem remendado.
Continuamos a caminhada e meu pé não doeu mais, mas a cintura estava incomodando bastante, acabei colocando o gorro para servir de almofada e diminuir um pouco o atrito. O Peter seguia sempre solícito, me incentivando. Quase sempre, ele olhava pra trás e dava um sorriso como se dissesse: Vamos, você consegue! Difícil um companheiro como ele.
Diminuiu o ritmo para que eu pudesse acompanhá-lo e em algumas ocasiões ofereceu-se para passar um pouco de coisas da minha mochila pra dele. Como achei que não mudaria nada, carreguei minhas tranqueiras. Mais à frente, vimos uma ema na estrada.
Nesse ritmo, chegamos à Cidade de Pedra, comecei a sentir o adutor da coxa direita e já pensei que ao chegarmos à casa do Nivaldo iria oferecer um pouco de dinheiro para que me levasse de moto até a cidade, então eu viria resgatar o Peter. Ao chegarmos lá, que decepção, um rapaz chamado Davi, informou-nos que o Nivaldo tinha ido à cidade. Ofereceu-nos água gelada e disse que se a moto dele tivesse lá, ele nos levaria à cidade, mas que estava à pé. Ficamos ali conversando sobre o lugar mais próximo pra arrumar um transporte enquanto a noite começava a cair, quando de repente, ouvi um barulho de moto. O Davi foi até a estrada e parou a o motociclista. O rapaz se prontificou a me levar pra Cocalzinho! Montei na moto, mas antes de sair o Davi me intimou a não voltar lá sem um litro de cachaça. Deixei o Peter me aguardando e fui com o Alex até Cocalzinho. Depois de 14km em cima da moto desci parecendo o Robocop, completamente duro. E nessa situação ainda tive que caminhar mais de 2km até onde estavam os veículos. Comprei a cachaça e voltei pra resgatar o Peter.
No caminho de volta o Peter me disse que o Davi falou que poderíamos deixar os veículos na casa dele numa próxima vez que voltarmos lá. Vale a pena, pois a caminhada até lá não tem nada muito interessante, então economiza tempo e passadas pra aproveitar em outros lugares da travessia.
Voltamos até o posto e comemos coxinha com uma coca bem gelada, não sei se pela fome, estava uma delícia! Despedimo-nos já falando sobre uma próxima vez.
Quem sabe a Travessia Leste na Chapada dos Veadeiros, ou um retorno aos Pirineus, não é Peter?
Trilha de volta pra Cocalzinho
Campos com os Picos dos Pirineus ao fundo na volta pra Cocal
Há alguns meses recebi uma mensagem do Peter Tofte, dizendo que se mudaria para Brasília e me convidando pra um trekking. Sempre fui fã dos relatos do Peter e gostei muito da ideia de caminhar ao lado de alguém que tenho como referência no trekking aqui no fórum. Lógico que aceitei a proposta no mesmo instante!
Primeiramente pensamos em fazer a Travessia Leste na Chapada dos Veadeiros, mas devido ao tempo necessário para esta travessia, optamos por fazer algo menor.
Sugeri a Travessia da Serra da Aranha, mais curta, mas por um terreno bastante irregular e sem água, ou a Travessia dos Pirineus, saindo de Cocalzinho de Goiás, passando pela Cidade de Pedra, Cachoeiras dos Dragões, Serra do Macaco, Cachoeiras do Coqueiro e da Garganta e cortar o Parque Estadual dos Pirineus sentido Cocalzinho, num total aproximado de 62km, segundo o Google Earth. Escolhemos a dos Pirineus. O Peter sugeriu esticarmos a pernada até a Cachoeira do Rosário, aumentando o trajeto em alguns quilômetros e eu topei. Tentar fazer uma trilha de aproximadamente 70km em terreno desconhecido e onde não há trilha demarcada, foi um pouco de ousadia, principalmente pra mim, que vivo fora de forma e enferrujado pelo longo tempo de sedentarismo.
Marcamos o início do trekking pro dia 18/08/2012 num posto de gasolina no cruzamento da BR-070 com a BR-414, 2km ao norte de Cocalzinho. O encontro seria entre 06:30 e 07:00 horas da manhã. Cheguei às 07:05h e o Peter já me aguardava. Comemos umas bananas, usamos o banheiro, e às 07:30 já estávamos na trilha.
O início é bem monótono, passando sempre por pastagens ou seguindo a estrada. Entramos numa estrada vicinal e acabamos chegando numa casa com alguns cachorros. Como a casa estava fechada, passamos pelo quintal, atravessamos um córrego e subimos por uma alta pastagem até uma plantação de eucaliptos ainda bem jovens. Cruzamos essa plantação e voltamos à estrada principal.
Peter preparado pro trekking
Eu na mesma situação
Atravessando uma pastagem
Após 10km de caminhada, pegamos a bifurcação em direção à Gruta dos Ecos, mas como o nosso tempo era curto, não sabíamos a localização exata da gruta e achamos que a visita não valeria a pena, logo pegamos uma trilha à esquerda, cortando um campo limpo com uma vereda na baixada. Infelizmente, nessa época do ano, não havia nem sinal de água. Resolvemos descansar e comer um pouco. Poucos minutos depois, continuamos a pernada. Passamos próximos a uma bonita fazenda, com um enorme curral e duas represas no fundo. Mais uns poucos minutos de caminhada e chegamos a um local de extração de Pedra de Pirenópolis, que acabei de descobrir no google se tratar de um mineral chamado quartzito micáceo. Haviam dois senhores descansando, cumprimentamo-nos e seguimos viagem. Passamos por uma imensa área de mineração até chegarmos à casa do Nivaldo, que também trabalha na extração mineral, onde abastecemos os cantis e aproveitamos para descansar. O Nivaldo foi bastante educado, conversamos um pouco, e ele nos disse que a Cidade de Pedra ficava a uns 5 ou 6 km e apontou pra uma grande pedra no alto de uma serra dizendo que era lá.
Zarpamos rumo à serra saindo da estrada para pegar uma trilha de gado que atravessava um campo limpo. Mais à frente, onde retornamos à estrada, encontramos um grupo de ciclistas que também iriam para a Cachoeira do Rosário. Às 13:00 horas paramos para comer e descansar. Comemos um delicioso pão em folha com salame e queijo e mais algumas guloseimas levadas pelo Peter. Eu já estava um pouco cansado, já o Peter, andando tranquilo, nem parecia que havia caminhado quase 20km. Subimos a trilha pra Cidade de Pedra e podemos ver de perto algumas formações. Notamos que em algumas rochas há vias de escalada, pela presença de chapeletas e grampos fixados às mesmas.
Seguimos uma trilha que contorna a Cidade de Pedra e segue até uma casa abandonada à beira da estrada, que nesse ponto já está num estado bem ruim, tornando-se quase uma trilha.
Campo com a Serra de São Gonçalo ao fundo, onde se localiza a Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Cidade de Pedra
Como a impressão do nosso mapa não estava boa e já havíamos andado bastante, sem nem sinal do campo que atravessaríamos, sugeri que pegássemos uma trilha à direita. Ledo engano, quando a trilha começou a seguir o sentido note, percebemos que havíamos errado o caminho, então, entramos num vara-mato a oeste afim de encontrar o caminho certo. Descemos uma pequena encosta até uma nascente que aliviou nossa sede. Foi a única coisa boa de ter errado o caminho. Nesse momento, eu me encontrava exausto. A subida pra sair da nascente foi sofrível.
Trilha errada
Nascente que saciou nossa sede
Alcançamos a estrada ao lado de uma porteira e seguimos por ela por mais uns 2km até uma segunda cancela. Ali, mesmo muito cansado, ainda consegui rir do Peter tentando algumas vezes abri-la pro lado errado. Abri a porteira e seguimos mais um pouco até um campo que nos levou até as nascentes do riacho que acompanharíamos até as Cachoeiras dos Dragões. A hora já estava bastante adiantada e o sol começava a se pôr. A vereda estava brotando verdejante, após uma queimada ainda bem visível. É impressionante o quanto as pessoas do Centro-Oeste ainda usam o fogo como forma de renovar as pastagens. Presenciamos um lindo pôr do sol e resolvemos arrumar lugar para acampar, pois não seria fácil achar o caminho num vara-mato noturno, afinal, não encontramos nem sinal de trilha.
Como estava escuro, acampamos no primeiro lugar mais ou menos que encontramos, às margens de um riacho, num capinzal de terreno bastante irregular.
Depois de tomar banho gelado numa “banheira natural”, fomos preparar a janta. O Peter comeu salsicha com lentilhas e eu fui fazer panqueca de queijo (receita do cozinha na mochila, muito boa) e estrogonofe de carne da Liofoods (por sinal, bem sem gosto).
Depois da janta, ficamos numa laje de pedra olhando as estrelas. Fui pra barraca e desmaiei. Mesmo com um monte de “caroços” embaixo da barraca, dormi o sono dos mortos, literalmente. Acordei às 06:00 horas, ainda estava um pouco escuro, arrumei meu café, enquanto aguardava meu colega acordar, notei que tinha um machucado na cintura, provavelmente, o cinto forçou contra a barrigueira da mochila. O Peter acordou tarde, reclamando que não dormiu bem por causa do chão irregular. Disse que mal entrei na barraca, comecei a roncar. Mostrei o ferimento ao Peter e ele fez um curativo com silver tape, dizendo que eu era o homem remendado. Depois de arrumar nossas coisas descemos acompanhando o riacho e vimos quantos bons lugares havia pra montar acampamento alguns metros à baixo de onde tínhamos montado o nosso. Num capim alto, o Peter caiu dentro de um buraco, mas não tive tempo de sacar a máquina, na mesma velocidade que caiu, ele saiu do buraco.
O rio forma inúmeras piscinas naturais, cada uma mais convidativa que a outra, e às suas margens, alguns jardins florescem magníficos. Como estávamos bastante atrasados, somente apreciamos a vista. Depois de certo tempo, saímos da margem do rio em direção noroeste até chegarmos à beira de uma grota bem profunda. Como atravessá-la seria muito difícil e cansativo, fomos acompanhando-a e por sorte e sem querer encontramos uma trilha que nos levou às Cachoeiras dos Dragões.
Fazendo panqueca
Acampamento
Banheiras
Preparando meu café
A caminho das cachoeiras
Piscinas naturais a caminho das cachoeiras
Jardins
O complexo é formado por oito cachoeiras, das quais duas estavam completamente secas, restando apenas os poços, a 5ª e a 7ª, que são formadas pelo mesmo córrego. De cima do paredão da 5ª cachoeira, vimos um casal de urubus rei. Desde a Serra da Bocaina não via um bicho desses na natureza.
Conhecemos todas as cachoeiras e fomos nos refrescar na 1ª Cachoeira dos Dragões. Almoçamos por ali e decidimos retornar pra Cocalzinho, pois já eram 13:00 horas e não conseguiríamos fazer o restante da travessia proposta a tempo. Afinal, segunda-feira, teríamos que trabalhar.
Borda da 5ª Cachoeira dos Dragões, completamente seca
Piscina natural da 8ª Cachoeira dos Dragões
Enchendo o cantil na 8ª Cachoeira dos Dragões
Atravessando uma pinguela pra 6ª Cachoeira dos Dragões
Piscina natural da 6ª Cachoeira dos Dragões
6ª Cachoeira dos Dragões
4ª Cachoeira dos Dragões
3ª Cachoeira dos Dragões
2ª Cachoeira dos Dragões
1ª Cachoeira dos Dragões
Seguimos a trilha, que é bem demarcada e sinalizada até o Mosteiro Budista, lá conversamos com o Sr. Valdeir, que nos informou que no local há hospedagem e práticas de meditação. O Peter descobriu que eles cobram uma taxa de R$ 25,00, para a visitação das cachoeiras. Como entramos pelo mato e não dissemos que usufruímos de nada, saímos sem pagar. Perguntamos onde era a estrada pra Cocalzinho e ele apontou um trieiro à esquerda e disse que a estrada estava à uns 100 metros. Perguntei qual era a distância e quase chamei um taxi quando me disse que eram 37km. É, a vida não é mole não.
Detalhe da construção do mosteiro com as pedras da região
Cansado, com uma lesão na cintura e muitas dores musculares, seguimos o caminho indicado. Acho que por uns 5 ou 6km seguimos por uma subida leve, e no final meus pés já davam o alarme, senti que uma bolha estava se formando no meu calcanhar direito. Mais uma vez, precisei dos serviços do Dr. Peter, que fez um curativo com gaze e silver tape e, definitivamente transformei-me no homem remendado.
Continuamos a caminhada e meu pé não doeu mais, mas a cintura estava incomodando bastante, acabei colocando o gorro para servir de almofada e diminuir um pouco o atrito. O Peter seguia sempre solícito, me incentivando. Quase sempre, ele olhava pra trás e dava um sorriso como se dissesse: Vamos, você consegue! Difícil um companheiro como ele.
Diminuiu o ritmo para que eu pudesse acompanhá-lo e em algumas ocasiões ofereceu-se para passar um pouco de coisas da minha mochila pra dele. Como achei que não mudaria nada, carreguei minhas tranqueiras. Mais à frente, vimos uma ema na estrada.
Nesse ritmo, chegamos à Cidade de Pedra, comecei a sentir o adutor da coxa direita e já pensei que ao chegarmos à casa do Nivaldo iria oferecer um pouco de dinheiro para que me levasse de moto até a cidade, então eu viria resgatar o Peter. Ao chegarmos lá, que decepção, um rapaz chamado Davi, informou-nos que o Nivaldo tinha ido à cidade. Ofereceu-nos água gelada e disse que se a moto dele tivesse lá, ele nos levaria à cidade, mas que estava à pé. Ficamos ali conversando sobre o lugar mais próximo pra arrumar um transporte enquanto a noite começava a cair, quando de repente, ouvi um barulho de moto. O Davi foi até a estrada e parou a o motociclista. O rapaz se prontificou a me levar pra Cocalzinho! Montei na moto, mas antes de sair o Davi me intimou a não voltar lá sem um litro de cachaça. Deixei o Peter me aguardando e fui com o Alex até Cocalzinho. Depois de 14km em cima da moto desci parecendo o Robocop, completamente duro. E nessa situação ainda tive que caminhar mais de 2km até onde estavam os veículos. Comprei a cachaça e voltei pra resgatar o Peter.
No caminho de volta o Peter me disse que o Davi falou que poderíamos deixar os veículos na casa dele numa próxima vez que voltarmos lá. Vale a pena, pois a caminhada até lá não tem nada muito interessante, então economiza tempo e passadas pra aproveitar em outros lugares da travessia.
Voltamos até o posto e comemos coxinha com uma coca bem gelada, não sei se pela fome, estava uma delícia! Despedimo-nos já falando sobre uma próxima vez.
Quem sabe a Travessia Leste na Chapada dos Veadeiros, ou um retorno aos Pirineus, não é Peter?
Trilha de volta pra Cocalzinho
Campos com os Picos dos Pirineus ao fundo na volta pra Cocal
Olha como ficou minha cintura e meu pé