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Alberto Monte

Travessia da Serra Fina - Camelos de Mochila - Julho de 2009

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Caros amigos. Resolvi compartilhar com vocês este "breve" relato da Travessia da Serra Fina, realizada pelo Grupo Camelos de Mochila em Julho de 2009.

Trata-se de um Relato Fotográfico com 61 fotos e informações relevantes para aqueles que pretendem fazer a travessia da Serra Fina pela primeira vez e também uma fonte de recordações para todos aqueles que já estiveram por lá.

Somos um grupo de amigos do Rio de Janeiro, apaixonados por Montanhismo e Cicloturismo e que de vez em quando se reúne pra fazer umas doideiras por aí.

 

Visitem o nosso site e entrem em nossa comunidade:

http://www.camelosdemochila.com

[email protected]

SERRA FINA

A SERRA QUE CHORA... E QUE FAZ CHORAR

As passagens estavam compradas, hotel reservado, mochila pronta e previsão do tempo na internet ameaçador..

Meu último email para o grupo foi as 22:00as de Domingo, sob muita tensão, já que a previsão do “Clima Tempo” dava tempo ruim para Segunda, pior para Terça, horrível para quarta e melhora apenas para quinta, com sol para Sexta. Ou seja, Serra fina debaixo de chuva, era a previsão ameaçadora e aterrorizante.

 

1º Dia – 13/09/2009 – Segunda-Feira – DÚVIDAS, PARTIDA E ALEGRIA

Acordei sem vontade de ir, mas, para minha surpresa, havia sol no Rio de Janeiro.

- Que nada, lá em MG deve estar a maior chuva e vamos nos ferrar.

Cheguei à rodoviária cedo, ainda as 9:15h, já que havia conseguido uma carona com um amigo do trabalho. A passagem estava marcada para as 10:30h.

Logo após, chegaram a turma de Magé – Dinho, Jackson e Jorginho – Me recuso a chamá-lo de Dauguinha (eita apelido ridículo...).

Café, papo, telefonema preocupado do Jamiu (pai do Jackson), telefonema de boa sorte do Carlos Papel e chegada do Alê e o Oteb.

 

Esse Oteb é um grande chapa. Estava lá para se despedir e nos desejar boa sorte.

Me senti o Leonardo de Cáprio entrando no Titanic, rumando para uma viagem sem volta.

 

 

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13/07/09, segunda-feira, 10:57as – Oteb; amigo inseparável, nos dando adeus. “Good bye Rose....”

 

Esse Oteb é um pé de coelho mesmo, pois quando estávamos saindo ele me afirmou que todas as previsões do tempo iriam errar na semana que iniciava, já que iria desenhar aquele já famoso sol no quintal de seu prédio.

Quem o conhece já sabe, que aquele solzinho é infalível. Foi responsável por três anos consecutivos de travessia Petrópolis/Teresópolis com tempo bom. Fiquei mais tranqüilo e confiante, afinal, aquela era a previsão do nosso Ogro de estimação.

Chegamos a Cruzeiro (SP) por volta das 14:15h e logo fomos comprar as passagens para P. Quatro.

Passagem comprada para 15:30h e longos 30 minutos de espera. Resolvemos almoçar...

Aquele almoço foi brabo, pois foram alguns minutos para procurar o pé sujo decente para comermos, outros minutos intermináveis para a senhora nos servir os PFs e apenas 10 minutos para engolir a comida, pagar, trocar a passagem extra que eu havia comprado por engano, embarcar e sair. Ufaaaaaaaaaa. No final, deu tudo certo. Estávamos a caminho de Passa Quatro (MG).

Após quase uma hora de viagem, entramos na cidade.

 

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13/07/09, segunda-feira, 16:30h - Chegando a Passa Quatro as 16:30h de 13 de Junho/09.

 

Aqui, vale abrir um parágrafo para descrever um pouco sobre esta maravilhosa cidade:

Remonta ao tempo da bandeira de Fernão Dias Pais em 1674 a origem dessa cidade encravada na Serra da Mantiqueira no sul do Estado de Minas Gerais. Situada logo após um marco geográfico bastante notável na Serra, a Garganta do Embaú, por onde passou a expedição liderada por aquele bandeirante, teve sua localização descrita em documentos que dão origem ao nome da cidade. Constam também expedições de Jacques Felix, fundador de Taubaté, e seu filho de mesmo nome, em expedições anteriores, datadas de 1646, pela região que podem ter dado origem ao povoamento mais antigo. Este caminho ficou conhecido, mais tarde, como Caminho Velho da Estrada Real. No caminho descrito por André João Antonil, consta o nome do Ribeirão do Passa trinta, logo após a descida da serra da Mantiqueira, mas segundo nota de Andrée Mansuy Diniz Silva, o nome atual desse afluente do Rio Verde é Passaquatro, ou Passa Quatro.[5]

 

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13/07/09, segunda-feira, 17:08as - Eu, na estação de Passa Quatro

 

Geografia

 

 

Cachoeira na Floresta Nacional em Passa-Quatro. Fonte: Wikpedia.

Apesar de não ser a cidade brasileira situada em altitude mais elevada, o município se encontra entre as regiões mais altas do país, apresentando o quarto maior pico brasileiro, a Pedra da Mina (2.798 m), localizado na Serra Fina e ponto culminante da Serra da Mantiqueira e do Estado de São Paulo, com o qual o município faz fronteira. Aliás, nos limites do município também se encontra o Pico dos Três Estados, marco geodésico da divisa entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e muitos outros picos elevados a mais de dois mil metros de altitude, tornando-a uma localidade onde se pratica o montanhismo. O relevo montanhoso é presente em 90% do município, sendo considerado ondulado em 8% e plano somente 2%, onde se encontra a maior parte do centro urbano.[7]

O município é cortado pelo Rio Passa Quatro e pelo Rio das Pedras que são parte integrante da bacia do Rio Grande.

Inúmeras paisagens cênicas naturais, como cachoeiras e matas nativas, além das montanhas, preenchem a região que se encontra praticamente equidistante (cerca de 270 km) dos dois principais pólos geradores de fluxo turístico do Brasil, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Por este motivo, atualmente, a cidade tem apresentado forte desenvolvimento no setor turístico, notadamente com o ecoturismo, o que vem mudando sua vocação tradicionalmente agrícola e de criação de gado leiteiro.

Fonte: Wikpedia.

 

Voltemos para o que interessa:

Chegamos à cidade já eram quase 17:00h e corremos para nos acomodar.

Logo em seguida encontramos o Rodrigo Cury, que já havia chegado à cidade há algumas horas.

O restante do dia foi só turismo e preparação para a nossa jornada do dia seguinte.

 

 

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13/07/09, segunda-feira, 17:37as - Os Camelos e a Igreja. Buscando forças para a aventura que viria.

 

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13/07/09, segunda-feira, 17:30h - Só alegria na véspera da grande aventura do ano.

 

 

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13/07/0 , segunda-feira, 18:21h - Na pracinha à noite. Nosso hotel é este sobradinho à direita.

 

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13/07/09, segunda-feira, 18:5h - Alê, Rodrigo e eu, curtindo o friozinho da noite.

 

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13/07/09, segunda-feira , 19:59h - A turma toda tomando um café antes de se recolher. Da esquerda para a direita: Alê, Alberto (eu), Rodrigo, Jorginho, Jackson e Dinho.

 

 

Aqui vale abrir outro parágrafo que para relatar um fato que seria de suma importância para a nossa excursão.

Já íamos nos recolher, quando estávamos entrando no hotel e, de repente um homem em uma bicicleta nos interpelou perguntando se éramos do grupo que iria fazer a S. Fina no dia seguinte.

Confirmamos e ele se apresentou como sendo o Guto – guia local que iria também fazer a S. Fina no dia seguinte com um ciente de S. Paulo.

Conversamos um pouco e ele nos deu algumas dicas sobre o nosso resgate e outras coisas, além de dizer que iria sair um pouco mais tarde que nós.

 

 

2º Dia – 14/07/2009 - Terça-Feira – COMEÇA A AVENTURA RUMO AO CAPIM AMARELO

 

 

Acordamos as 6:00as e fomos tomar nosso café.

 

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14/07/09, terça-feira, 6:27h – Tomando café da manhã antes da partida para a Serra Fina. Observe pela janela, que ainda é noite na cidade e o frio é intenso.

 

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As 7:00as já estávamos embarcando na Kombi do Celso – nosso resgate –e a caminho da tocado Lobo.

 

FOTO 11 (NO SITE DOS CAMELOS)

14/07/09, terça-feira, 7:16h - A turma embarcando na Kombi, rumo à Toca do Lobo.

 

O dia estava maravilhoso, limpo e sem chances aparente de chuva. A mandinga do Oteb havia dado certo, mais uma vez.

Abastecemos-nos com 4 lts de água cada um, pois sabíamos que a próxima fonte de água seria apenas no Vale do Ruar, apenas na Quinta-feira. Ou seja; água para dois dias de caminhada.

A minha mochila era a maior, pra variar, e parecia que pesava uns 30kgs com aquela carga adicional de água.

 

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14/07/09, terça-feira, 8:15h - Abastecemos as garrafas na Toca do Lobo. Foram mais 4kg de carga em cada mochila.

 

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14/07/09, terça-feira, 8:10h - Ainda na Toca do Lobo. Observe a esquerda da foto uma pequena gruta. Ela é bastante rasa, mas deu o nome ao local.

 

Cruzamos o Riacho e começamos a subir por uma trilha pouco marcada, ao contrário do que havia lido nos relatos.

Uma hora depois, a trilha abriu e a navegação ficou mais fácil.

 

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14/07/09 , terça-feira, 9:01h - Após uma hora de caminhada, a vegetação começa a mudar sua característica para a forma tradicional de montanha.

 

A essa altura do campeonato, nosso maravilhoso, fabuloso, fantástico e excepcional GPS, já estava me apresentando suas credenciais – margem de erro média de 10 metros, com céu claro.

Imediatamente coloquei nosso “batedor” (Jackson) na vanguarda da coluna e segui logo atrás, navegando, ou melhor, tentando navegar com o nosso trombolhudo GPS (GARMIM LEGEND = NÃO COMPREM).

Após o primeiro trecho, meio confuso, a trilha se apresentou até tranqüila, apesar da subida ser sempre constante. Os visuais não tardaram a aparecer e alguma hora depois estava no Quartzito a mais de 2.000m de altitude.

 

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14/06/09 , terça-feira, 9:00h – Eu e Dinho rumo ao Quartzito. Seria um dia muito difícil para o meu amigo.

 

Foi então que a S. Fina começou a se mostrar em todo o seu esplendor e magnitude.

Caminhamos sobre a crista das montanhas, em um incessante descer e subir, com o Monte do Capim Amarelo Ameaçadoramente a nossa frente.

 

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14/07/09, terça-feira, 10:44h – Foto tirada do quartzito. Grandiosidade que imagens não são suficientes para expressar. É preciso estar lá para sentir.

 

A cada pequena descida, sucedia uma subida maior ainda e neste ritmo fomos ganhando altura, até que chegamos à base do Capim Amarelo.

A essa altura do campeonato, o Dinho já estava “estragado” e se tivesse na Tropa de Elite, ele ia “pedir pra sair”. É sempre assim. No primeiro dia ele sempre demora a metabolizar e fica ruim.

 

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14/07/09, terça-feira, 11:40h – A caminho do Capim Amarelo, o Dinho estava quebradão. Ruim de marrédessí.

 

Por outro lado, o Alê disparou na frente, já que a trilha estava muito bem demarcada. Logo, ele havia sumido da nossa vista.

O restante da turma ia bem e pra variar, os garotos (Jackson e Jorginho) estavam loucos pra seguir o Alê. Coisas da idade e da saúde em excesso.

A subida do Capim Amarelo foi duríssima.

 

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14/07/09, terça-feira, 13:46h – A caminho do Capim Amarelo. Um dos muitos trechos em que tivemos que utilizar as mãos para escalaminhar.

 

O interessante é a diferença singular entre o PARNASO e a Mantiqueira.

No PARNASO, após uma determinada altitude a vegetação passa a ser composta de capim de anta baixo, com pequenas áreas de vegetações maiores, entre uma montanha e outra.

Já da Mantiqueira, a coisa é diferente. No meio de uma subida com uma vegetação tradicional de campo de altitude, a gente acaba se deparando, em plena subida, com uma mata bastante densa, de árvores altas, bem parecidas com aquela mata da subida da Pedra da Gávea, via Estrada das Canoas, próxima à Geladeira.

Neste ponto, tivemos, eu, Jackson e Jorginho, que parar pra esperar o Dinho, que estava muito ruim lá atrás. O Rodrigo, que estava sobrando e cheio de gás, acompanhou o Alê e seguiu.

Após a chegada do Dinho, descansamos um pouco e seguimos.

Subida dura, com uso freqüente das mãos para vencer a vegetação densa e a lama escorregadia e constante.

Quase caí. O Jackson, que estava atrás de mim, presenciou e levou um susto. Escorreguei em uma subida de mais de 70 graus de inclinação e me segurei com a mão esquerda em uma raiz.

Esta manobra me custou uma luxação no ombro que iria me perturbar silenciosamente por toda a travessia.

Logo após, encontramos os dois vanguardistas (Alê e Rodrigo) e descansamos um pouco mais.

Energético, granola, água (sempre contida), papo, fotos e seguimos para o último esforço no intuito de vencer o Capim Amarelo.

Após seis horas e meia de caminhada, chegamos ao cume do Capim Amarelo.

Quando chegamos lá, o Alê já havia montado a sua barraca. O cara deu um gás inacreditável no final. Comemoramos muito, pois certamente havia sido o maior esforço de subida que eu havia feito nesses meus nove anos de montanhismo.

O Alto do Capim Amarelo:

 

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A direita está o Quartzito e caminhando pela crista, lá no canto superior esquerdo, o Pico do Capim Amarelo, com o interminável sobe e desce até chegar ao seu cume. Fonte Wikpedia

 

São 2.500m de altitude encravado na Serra da Mantiqueira.

O seu cume é plano, coberto de capim de anta com dois metros de altura.

No meio destes capins existem diversas clareiras excelentes para montar acampamento, tornando todo este capim do entorno, uma ótima proteção dos ventos cortantes do local.

O visual é esplêndido e logo tratamos de montar nosso acampamento e preparar o almoço/jantar.

 

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14/07/09, terça-feira, 14:58h – No alto do Capim Amarelo. Enfim, acampados e descansando.

 

Logo depois chegaram o Guto e o seu cliente (André).

A partir deste momento, o Guto nos “adotou” como caronas e se tornou fundamental para o sucesso de nossa expedição.

Logo ele nos deu a primeira dica, que eu jamais havia lido em qualquer relato sobre a Serra Fina.

Existe na Serra Fina uma praga de ratos silvestres:

Pois é, podem acreditar: Todos os picos da Serra Fina, freqüentados por montanhistas, estão infestados de pequenos camundongos silvestres que chegam perto da gente, sem a menor cerimônia, assim que começamos a esquentar a comida.

Eles já estão acostumados conosco e ficam aguardando a gente dar bobeira ou dormir, para assaltar nossos alimentos.

O Guto recomendou que colocássemos os alimentos dentro de sacos plásticos e dentro da mochila fechada, para não exalar cheiro, pois eles são capazes de roer a barraca, roer a mochila e pegar a comida no meio da noite.

A saída é deixar um “suborno”, ou seja, um pouco de comida, ou embalagens usadas a certa distância da barraca, para que eles se fartem de comer e nos deixem em paz.

Assim eu fiz. Deixei uma lata de feijão suja a uns 5 metros da barraca e acordei várias vezes durante a noite com o barulho da bendita lata sendo revirada e, pela manhã, a mesma estava brilhando de lustrada e cheia de coco de rato.

Que M.....!!!

Depois disso, todas as noites foram um misto de cansaço, dor no corpo, torpor e alerta, para que os ratos não furassem minha preciosa barraquinha Manaslú, comprada com tanto sacrifício.

A vítima dos ratos, no nosso grupo foi o André (o paulistano), que teve sua barraca furada por um desses “Jerris” famintos.

Deixando os ratos de lado, e voltando para o Alto do Capim Amarelo, assistimos a um por do sol esplendoroso e um nascer do sol fantástico.

 

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14/07/09, terça-feira, 16:21h – Visual do alto do Capim Amarelo. Observem no centro da foto, dentro daquilo que parece uma cratera, uma formação rochosa parecendo uma caveira. Chama-se Pedra da Caveira. A direita da foto há um pequeno ponto branco e brilhante que se destaca. Trata-se de destroços de um bimotor que se chocou com a montanha. Piloto e co-piloto morreram com a colisão.

 

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14/07/09, terça-feira, 16:25h – Eu, Rodrigo e Dinho, contemplando a beleza do lugar. Recompensa merecida após um dia de muito esforço.

 

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14/07/09, terça-feira, 18:07h – Jackson apreciando o belo por do Sol no Capim Amarelo.

 

Segundo alguns relatos, o primeiro dia, até o Capim Amarelo, é o pior, com a subida mais exaustiva.

Isso me confortava e eu coloquei esta observação para o grupo, principalmente para animar o Dinho, que já alimentava a idéia de voltar pela rota de fuga do Paiolinho.

A verdade é que eu estava enganado, pois os desafios estavam apenas começando...

 

3º Dia – 15/07/2009 – Quarta-Feira – RUMO À PEDRA DA MINA

Tomamos nosso café e partimos animados, por volta das 9:00h, em direção à Pedra da Mina; o 4º maior pico do Brasil ficando atrás apenas do Pico da Neblina, Monte Roraima e Pico da Bandeira.

 

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15/07/09, quarta-feira, 8:53h - A caminho da Pedra da Mina. Turma reunida no Alto do Capim Amarelo, pronta pra partida. Da esquerda para a direita: Em pé: Alê, Jorginho, Rodrigo, André e Guto. Agachados: Eu (Alberto), Jackson e Dinho

 

Ocorre que o acesso a Pedra da Mina é infinitamente mais difícil do que o Pico da Bandeira, conforme iríamos sentir na pele.

Neste dia, fomos logo cedo apresentados ao famoso Capim de Anta de mais de dois metros e aos insuportáveis e quase intransponíveis bambuzais da Serra Fina.

Foi uma sucessão infinita de desce e sobe, por um terreno que oferece aos amantes do Treking, uma variedade enorme de dificuldades, que coloca o PARNASO no nível de um parque de diversões.

As 10:20h demos uma parada em um local descampado chamado Maracanã e o Guto pediu que aguardássemos ali. Ele sumiu no mapa e voltou, logo depois, com um punhado de mantimentos.

É que os guias costumam ter os seus locais secretos, onde armazenam mantimentos para o caso de emergências.

Isso me lembrou o Arones lá nas matas de Magé, com os seus depósitos secretos de mantimentos e tralhas.

 

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15/07/09, quarta-feira, 10:22h – Este local é chamado de Maracanã. Ponto de repouso e ótimo lugar para acampar. Paramos por quinze minutos e seguimos.

 

Voltamos logo para a trilha e logo caminhávamos entre touceiras de capim de anta, bambuzais, mata fechada e trepa pedras, quando de repente, a Serra Fina resolveu dar o ar da graça.

Este lugar pode ser comparado a uma misteriosa e volúvel mulher:

Por alguns momentos o explorador tem a sensação de estar caminhando nas nuvens, tamanha a sua beleza.

Quando menos se espera, estamos embrenhados em uma floresta fechada ou quase escalando trechos completamente inesperados, pelo seu grau de dificuldade e beleza recompensadora.

Em outros momentos, cruzamos extensos campos de capim de anta, que nos cobrem até a cabeça, nos massageando e arranhando ao mesmo tempo, como uma mulher repleta de volúpia e pronta a nos devorar até a nossa essência.

Quando acreditamos que temos o domínio da situação, ela se revela, em toda a sua plenitude, aridez e crueza, nos dominando e subjugando, para provar que tem todo o domínio da situação e quem manda é ela.

Foi assim que a Serra Fina se comportou neste dia...

Paramos para lanchar as 11:00h e de repente o Guto nos aconselhou a colocar os agasalhos e, num piscar de olhos, as nuvens se aproximaram com uma velocidade espantosa, carregadas com um vento forte e agonizante, nos empurrando para o lado oposto do que caminhávamos.

 

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15/07/09, quarta-feira, 11:08h – Nesta parada, o Guto nos preveniu para o tempo que iria virar dali em diante. Observem o “russo” subindo entre eu e o Guto (de camiseta preta).

 

A neblina tomou conta de tudo e caminhar exigia um enorme esforço.

As 14:00as, chegamos a uma pequena queda d’água chamada Cachoeira Vermelha.

Não nos abastecemos, porque a água é intragável, pelo alto grau de minério de ferro na sua composição.

Tiramos algumas fotos e seguimos.

 

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15/07/09, quarta-feira, 14:04as – Parada em frente à Cachoeira Vermelha. Observem atrás de minha mochila uma pequena queda d’água. É ela! A água não é boa, pois tem muito minério em sua composição.

 

Chegamos à base da Pedra da Mina e nos abastecemos, depois de mais de 36 horas do último abastecimento na Toca do Lobo.

Valeu à pena, pois a água deste riacho é pura e cristalina.

Fartamos-nos de beber e enchemos as nossas reservas, que já estavam em um nível crítico.

Mais pesados, em virtude da carga de água, retomamos a subida e o ataque final ao Cume da Pedra da Mina.

Não preciso dizer que a subida foi terrível.

O vento açoitava as capas das mochilas, de forma que elas pareciam velas de navios.

A neblina era densa e fria e nossas forças, cada vez menores.

 

 

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15/07/09, quarta-feira, 15:16as – Último ataque à Pedra da Mina. Os totens de lá, são sempre amigos.

Observem o tempo fechado. Pena que a foto não registrou a ventania.

 

Finalmente, depois de mais de 8 horas de caminhada muito pesada, chegamos ao topo da Pedra da Mina, em meio a muita emoção, gritos de entusiasmo e euforia.

Foi uma subida e chegada inesquecível.

Tocar aquele marco com a indicação geodésica da Pedra da Mina foi um momento de muita emoção para todos nós.

Assinamos o livro do cume e tiramos muitas fotos.

 

 

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15/07/09, quarta-feira, 16:11as – A poucos metros do cume da Pedra da Mina. Momento de emoção e glória pessoal para todos.

 

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15/07/09, quarta-feira, 16:16as – Emoção da chegada após três anos de planejamento. O Dinho tinha que estar comigo nessa. Valeu amigo!

 

 

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15/07/09, quarta-feira, 16:16as – A emoção da garotada também foi grande. Grandes garotos!

 

 

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15/07/09, quarta-feira, 16:16as – Marco geodésico do IBGE na Pedra da Mina.

 

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15/07/09, quarta-feira, 16:22as – Jorginho assinando o Livro de Cume. Não reparem na meleca congelada, nem nos dentes imundos hehehe.

 

Não preciso dizer, que dormir no cume seria impossível, em virtude do mal tempo e do pouco espaço para montar barraca.

Só há um pequeno ponto abrigado e com espaço, onde só cabe uma barraca pequena.

O restante do espaço é composto de terreno rochoso e irregular.

Mais uma vez, por intervenção do Guto, descemos uns 10 minutos até um local chamado Cratera, onde o vento não batia e havia muitos pontos excelentes para se montar barracas.

Acampamos, comemos e ficamos na expectativa de como o tempo iria se comportar, pois havia grande possibilidade de termos que retornar pelo Paiolinho, caso o tempo continuasse ruim.

Por falar nisso, o nosso guia emprestado (Guto), iria retornar à Toca do Lobo, de qualquer forma, pelo Paiolinho no dia seguinte, pois já havia tratado com o André, em virtude de um compromisso com a sua filha no dia seguinte.

Com isso, um grande dilema pairou sobre o grupo e fiquei com a responsabilidade de definir se seguiríamos ou não, no dia seguinte.

A situação, ao final do dia era a seguinte:

• O Dinho estava quebrado e estava pensando em retornar com o Guto pelo Paiolinho.

• O Rodrigo queria seguir de qualquer jeito, mesmo caindo tempestade.

• O Alê estava cauteloso, porém, queria seguir.

• O André queria seguir conosco, mas estava muito preocupado, já que não nos conhecia bem e duvidava da nossa capacidade de navegação.

• Os garotos – Jackson e Jorginho – estavam sobrando no grupo e queriam é mais.

• O Guto voltaria de qualquer maneira pelo Paiolinho.

• Eu estava:

o Quebrado e cansado, com uma puta distensão no ombro e uma dor insuportável.

o Com um GPS que não funcionava bem, nem com tempo bom. O que não dizer com tempo fechado.

o Às vésperas de encarar o pior trecho de navegação da travessia (Vale do Ruar). Sem GPS, sem guia e com um monte de malucos comigo.

o Desapontado, com a possibilidade de ter que abortar esta travessia, planejada durante três anos e sem nenhuma vontade de retornar, em caso de fracasso.

Só nos restava orar e esperar o amanhecer.

No meio da noite, veio a boa notícia.

O Dinho acordou para ir ao banheiro e ficou comemorando, pois o céu estava limpo e estrelado, anunciando um lindo dia.

Aquilo me animou e nem saí da barraca para ver, pois naquele momento, tive a certeza de que iríamos concluir a travessia da Serra Fina.

Dormi que nem uma pedra!

 

4º Dia – 16/07/2009 – Quinta-Feira – RUMO AO PICO DOS TRÊS ESTADOS ENFRENTANDO O TEMIDO VALE DO RUAR

 

Acordamos cedo e muito felizes, pois o dia estava favorável.

O sol voltou a brilhar e os ânimos se acenderam.

Dinho estava recuperado, otimista e pronto para seguir.

Eu estava melhor, em virtude da virada positiva do tempo.

O restante da rapaziada estava afiando os cascos e prontos para seguir.

Subimos pra ver o nascer do sol e ficamos eufóricos com o visual e o tempo bom. Tiramos muitas fotos e descemos para a cratera, a fim de levantar acampamento.

 

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16/07/09, quinta-feira, 7:10h – Amanhecer no topo da Pedra da Mina. Enfim, tempo bom de novo

 

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16/07/09, quinta-feira, 7:12h – Comemoração e euforia, celebrando o novo dia que chegou

Lanchamos, colocamos o equipamento para secar, levantamos acampamento e nos despedimos do Guto, que estava retornando pelo Paiolinho, conforme previsto.

 

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16/07/09, quinta-feira, 7:34h – A cratera da Pedra da Mina. Ótimo ponto de camping, protegido das intempéries do topo e com o chão macio e plano

 

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16/07/09, quinta-feira, 9:06h – Eu e Rodrigo nos despedindo do Guto, que iria retornar pelo Paiolinho, em virtude de um compromisso familiar. Agora era por nossa conta e risco apenas

 

Agora era por nossa conta e risco.

Embora o Guto tivesse passado dicas preciosas do caminho a seguir, nos apontando a rota, do cume da Pedra da Mina, a apreensão era visível, já que sabíamos que não poderíamos mais contar com o GPS, principalmente, se o tempo resolvesse virar.

Mas não havia retorno para nós e resolvemos seguir.

O Guto havia nos instruído a descer por 40 minutos pela pedra e, ao Chegar ao Vale do Ruar, deveríamos encarar a “floresta de Capim de Anta”, sem trilha, procurando a direção de um cânion que ficava entre duas montanhas.

Ao achar um córrego, deveríamos pulá-lo e segui-lo, mantendo-o a nossa esquerda, até que o Vale começasse a fechar entre duas montanhas.

Daí então, deveríamos quebrar 90º à direita e procurar um único Tóten localizado no cume de uma montanha próxima. Achado o Tóten, deveríamos seguir ziguezagueando o capim de anta, já que é impossível encará-lo de frente, até o tal Tóten, que nos indicaria a saída do Vale do Ruar.

A teoria parecia fácil, mas, pra variar, se mostrou muito diferente na prática.

Partimos as 9:15h, com uma hora de atraso. Porém, era preciso, pois necessitávamos secar o equipamento.

A descida até o vale do Ruar foi previsível. Bastante íngreme, porém, sem maiores dificuldades.

Logo estávamos de frente a uma imensa floresta de capim de anta com mais de 2m de altura e quase sem trilha.

Logo achamos o córrego e tratamos de pulá-lo, conforme instrução do Guto.

 

 

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16/07/09, quinta-feira, 10:52h – Guto se preparando para decolar e pular o córrego no Vale do Ruar

Daí em diante, nossos problemas começaram, pois, de repente, a trilha que já era ruim, desapareceu e perdemos a referência do Rio.

Neste ponto o grupo se dividiu, pois o GPS marcava o caminho pela direita, subindo diretamente por um morro com o capim de anta muito fechado. O Rodrigo insistia que deveríamos quebrar para a esquerda e procurar o rio, conforme indicação do Guto, mas eu, em um ataque de liderança desenfreada, achei que deveríamos seguir as instruções do maldito GPS.

Ainda vinha em minha cabeça a experiência na Serra dos Órgãos a dois anos atrás, quando não confiamos no GPS e acabamos tendo que descer uma ribanceira de pedra, que quase nos levou a um acidente.

Eu estava errado, pois o caminho por mim escolhido era impossível de seguir, além de nos levar, caso insistíssemos a ficar sem água e fora da rota.

Parei, refleti, dei razão ao Rodrigo, que a essa altura já estava puto e me chamando de teimoso, com razão, por sinal e propus ao grupo, se dividir em dois.

Enquanto fiquei parado no local, mais elevado, com parte do grupo, o Rodrigo seguiu com o Dinho e o André em busca do Riacho.

Não demorou e eles nos comunicaram pelo rádio que haviam achado o caminho e seguimos felizes até eles, enfrentando o capim de anta pelos peitos

Seguimos flanqueando o córrego pela nossa esquerda até que a cânion se fechou.

 

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16/07/09, quinta-feira, 11:22h – Último ponto de água da travessia. Fica no Vale do Ruar. A água mais pura que já bebi em minha vida. Água agora, só no final da travessia

 

Abastecemos-nos de água. E quebramos para a direita a procura do tóten em cima do morro.

Mas qual morro? A neblina, de repente, tomou conta do Vale e mais uma vez não se via nada!

E agora? Não preciso dizer que o GPS não marcava nada, com sua margem de erro média nunca menor do que 25 metros.

Saímos peitando aquele insuportável e quase intransponível capinzal, procurando subir o morro, completamente sem referência.

Cabe aqui, abrir mais um parágrafo para falar sobre o Jackson.

São nas horas difíceis que os heróis se apresentam e desta vez não foi diferente.

Antes de iniciarmos o dia, havíamos traçado uma estratégia para enfrentar o Vale do Ruar.

Como o terreno prometia ser muito difícil, sem trilhas e com muitos buracos, com poças escondidas de até dois metros de profundidade, conforme os relatos lidos e confirmados pelo Guto, acertei com o Jackson, que, como eu teria que navegar (ou tentar) pelo GPS, não poderia olhar a trilha. Assim ele iria um metro na minha frente, de olho no chão, enquanto eu ficava com os olhos grudados no GPS instruindo a sua direção.

Esta fórmula deu certo, parcialmente, já que o GPS não ajudou muito, ou quase nada.

O fato é que o Jackson enfrentou toda a situação como um adulto e liderou o grupo por todo o Vale do Ruar.

Quando chegamos ao cânion e a situação piorou, o garoto encarou o capim de anta pela frente, liderando o grupo, até que, numa “janela” na neblina o André visualizou o Tóten e a coisa ficou melhor, pois daí em diante, teríamos um farol para nos indicar a saída daquele lugar.

Saímos! Foi muito duro, exatamente como todos os relatos nos indicaram, Muito difícil e sofrido este trecho do Vale do Ruar.

Paramos ao lado do desejado, maravilhoso e amigo Tóten e descansamos.

 

Foi então que o Jackson mostrou a extensão de seu sofrimento, dignidade e valentia, pois suas mãos estavam todas cortadas e sangrando, em virtude de sua luta com aquele capinzal.

 

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16/07/09, quinta-feira, 12:15h – Esse garoto é um Leão. Liderou a travessia do Vale do Ruar e terminou com as mãos inchadas e com sangue. Observem a expressão de seu semblante. Grande garoto!

 

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16/07/09, quinta-feira, 12:15h – Final da travessia do Vale do Ruar. Embora não pareça, esta foto foi tirada de cima do morro logo após o Vale do Ruar. Observem o Tóten por cima da mochila do Jorginho e lá embaixo, toda a imensidão do temido Vale do Ruar, atrás do Rodrigo,com sua floresta de Capim de Anta. Embora pareça um gramado, o Rodrigo está na beirada do morro e aquela visão atrás dele está a uns 20 ou 30 metros para baixo

 

Outro parágrafo importante que preciso abrir é para falar sobre a maior dificuldade que encontrei e vocês observarão a seguir. A falta de água.

Em toda a travessia da Serra Fina existem quatro pontos de abastecimento, sendo que apenas dois estão no meio do caminho e muito próximos um do outro.

São eles:

1. Toca do Lobo, no início da trilha;

2. Base da Pedra da Mina, só no final do segundo dia;

3. Base oposta da Pedra da Mina, no Vale do Ruar, ou seja, muito perto do ponto anterior. O que causa uma falsa sensação ao montanhista, que não precisará de muita água para o restante da travessia. Este foi o meu maior erro!

4. No final do quarto dia, já próximo ao Sítio do Pierre.

Como vocês podem observar, na prática, são apenas dois pontos de reabastecimento muito próximos um do outro.

Durante estes dias, o montanhista sofre muito com a escassez de água, já que as subidas são inúmeras e a necessidade de água é muito grande.

Como não podemos atender a esta necessidade, o corpo sofre com a desidratação e o rim começa a reclamar.

A urina fica muito amarela, viscosa e com um odor muito forte.

Nos relatos lidos por mim, recomendava-se que nos abastecêssemos a cada vez, com quatro litros de água, mas a experiência mostrou-me, que, ao menos para mim, que o ideal seriam seis litros por vez.

Acreditem. O esforço em carregar um excesso de peso será muito recompensado no final.

Durante o abastecimento no Vale do Ruar, subestimei minhas necessidades e me abasteci apenas com 3 litros de água. Foi um grande erro, que me faria sofrer no dia seguinte.

Após o Vale do Ruar, descansamos um pouco e seguimos por um interminável sobe e desce de montanhas.

Eram tantas que o GPS marcava pico um, pico2, pico3, etc.

Durante este trecho nos deparamos com um grupo de “montanhistas” que vinham em sentido oposto. Parecia ser um grupo muito heterogêneo, com alguns casais e composto por pessoas bastante jovens.

Eles pareciam estar meio perdidos e o seu “líder” nos informou que haviam pernoitado no Pico dos Três Estados e pretendiam pernoitar naquele dia na Pedra da Mina e descer pelo Paiolinho no dia seguinte.

Aquilo me preocupou, pois já era tarde e eles não tinham referência, apenas um GPS, sem os tracklogs marcados, ou seja, o mesmo que um relógio sem ponteiros.

Estavam perdidos e não sabiam que ainda enfrentariam o Vale do Ruar em pleno cair de tarde no meio da neblina.

Não deve ser nada agradável dormir no Vale do Ruar, pois dizem que é o ponto mais frio e certamente úmido da Serra Fina.

O André, pacientemente deu algumas dicas e seguimos o nosso caminho.

Daí em diante, encaramos um sobe e desce interminável e, quando o tempo permitia, altos visuais das Agulhas Negras. Até que as 14:00h demos uma parada para o lanche.

 

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16/07/09, quinta-feira, 14:11h – A caminho dos Três Estados, demos uma breve parada para descanso. Já estávamos muito cansados

 

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16/07/09, quinta-feira, 14:12h – Companheiros inseparáveis. Minas botas e chapéu

Embora este dia seja muito sofrido, em decorrência do esforço, valeu muito à pena, pois os visuais e a sensação de caminhar sempre pela crista das montanhas causam um sentimento de liberdade imenso.

 

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16/07/09, quinta-feira, 14:57h – A caminho dos Três Estados. Caminhando sempre pela crista e seguindo o sol

 

 

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16/07/09, quinta-feira, 15:00h – Rodrigo, sempre sorridente e com disposição de sobra

 

 

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16/07/09, quinta-feira, 15:02h – Finalmente eles sentaram. Não se cansam estes dois

 

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16/07/09, quinta-feira, 15:19h – A bromélia e a montanha no caminho até os Três Estados, com o André ao fundo. Mais uma descida com um “morrinho” à frente para ser vencido

 

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16/07/09, quinta-feira, 15:25h. Observem que na foto anterior, estávamos em um campo de altitude, descendo uma encosta. Seis minutos após, já estávamos encarando este bambuzal. Este é o encanto da Serra Fina. Terreno completamente imprevisível

 

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16/07/09, quinta-feira, 16:01h – Apenas 36 minutos após a foto anterior, já estamos de volta à crista da Serra Fina, contemplando o maravilhoso visual das Agulhas Negras e Prateleiras ao fundo

 

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16/07/09, quinta-feira, 16:22h – Rodrigo maravilhado com o visual chegando a mais uma crista

 

Por volta das 17:30as chegamos finalmente no Pico dos Três Estados. Cansados e felizes por ser o último pernoite na montanha.

Montamos o acampamento e fomos logo comer, pois estávamos todos muito extenuados.

O interessante nos Três Estados, é que lá, os ratinhos são mais abusados. Eles não esperam a gente dormir para atacar. Enquanto preparávamos a refeição, eles já iam chegando sorrateiramente para pegar o suborno deles.

A topografia do Pico dos três Estados, é muito parecida com o do Capim Amarelo. Capim de Anta alto com clareiras protegidas do vento. Muito legal e com um solo confortável e plano.

A noite nos Três Estados não foi muito agradável. Não sei se foi pela ansiedade da última noite, se foi o receio dos terríveis ratinhos, ou se foi a sede interminável que me forçava a dar pequenos goles durante a noite, a fim de poupar água. O que sei é que não dormi quase nada.

Fato curioso é que em dado momento da madrugada, acordei para fazer o número um. Como estava muito frio, resovi depositar o líquido em uma de minhas garrafas que já estavam vazias.

Até aí tudo bem. Até que eu vi o resultado na manhã seguinte...

 

5º Dia – 17/07/2009 – Sexta-Feira – ULTIMO DIA. QUEM DISSE QUE IRIA SER FÁCIL?

 

Acordamos ainda em tempo de ver o nascer do sol. Posso lhes assegurar que é muito difícil escolher a melhor vista da Serra Fina, pois em todos os picos que pernoitamos, o visual era alucinante.

 

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17/07/09, sexta-feira, 7:07as – Lê, eu e Dinho curtindo o nascer do Sol no Pico dos Três Estados.

 

Quase ninguém conseguiu dormir direito naquela noite, apesar do tempo ter colaborado e o terreno ser bem plano e macio.

Em determinado momento, o Dinho foi a minha barraca pegar alguma coisa e me perguntou se eu havia feito suco. Quando olhei, e a minha garrafa de xixi, que para meu espanto tinha uma urina com um aspecto viscoso e com cor de mostarda.

Fiquei assustado, pois tinha certeza de que aquilo era fruto de quatro dias de racionamento e meus rins já estavam dando sinais de que não iam muito bem.

Vocês se lembram que eu havia me reabastecido com apenas três litros de água no dia anterior?

Pois é. Agora só me restava um litro de água para um dia inteiro de caminhada.

Coloquei-a no meu Camelback e preparei meu equipamento para a partida.

 

 

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17/07/09, sexta-feira, 8:13as – Levantando acampamento no Pico dos Três Estados para o último dia de caminhada. Observem a ventania, apesar do céu azul. Isso voando é o toldo da minha barraca.

 

Partimos dos Três Estados por volta das 8:30as e seguimos em direção ao Alto dos Ivos.

Teoricamente, pelos relatos anteriores, este dia seria o mais tranqüilo de todos, pois O Ivos seria o último grande pico da travessia e após ele, teríamos só descida e a volta pra casa. MENTIRA !!!

Some-se o cansaço de três dias de caminhada extenuante aliado a um racionamento severo de água, o que proporciona um mal funcionamento generalizado do organismo, além de maximizar a fadiga muscular. Some tudo isso, com o desejo enorme de concluir o desafio. Nesta conjuntura, o quarto dia, pelo menos para mim, pareceu ser o mais duro de todos.

Iniciamos com uma série de descidas e subidas constantes, em direção ao Ivos, com um terreno completamente inóspito. Descidas enormes variando entre pedras, lama, capim de anta e bambuzais.

Chegamos à base do Ivos e encaramos uma subida super-hiper pesada e chegamos ao seu cume por volta das 12:00as. A esta altura do campeonato, minha água havia acabado e ainda nos restavam quase cinco horas de caminhada.

 

 

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17/07/09, sexta-feira, 11:10as – A caminho do Alto dos Ivos. A saída é por aí...

 

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17/07/09, sexta-feira, 12:38as – Descendo o Alto dos Ivos.

 

Teríamos ainda mais quatro horas de caminhada pela frente.

Após chegarmos ao Alto dos Ivos, encaramos uma descida muito difícil e somando-se à falta d'água, que já estava me causando uma desidratação terrível, não fui capaz de fazer mais nenhum registro visual, dado o meu estado de debilidade. Se arrependimento matasse, eu ficaria por lá, mortinho da silva, pois foi justamente aquele único litro de água que eu não abasteci lá no Ruar, que estavam fazendo toda a diferença.

Foi uma pena eu não ter conseguido tirar mais fotos, pois neste ponto do trecho, encaramos os piores bambuzais da travessia. Aqueles que o pessoal diz nos relatos que o montanhista tem que tirar a mochila e rastejar.

Para nossa surpresa, a trilha, neste ponto já está bem batida e, com o passar dos montanhistas, não foi preciso rastejar para vencer o bambuzal, porém a dificuldade foi imensa, pois tínhamos que nos contorcer e agachar a todo o momento para passar por aqueles terríveis bambus que se entrecruzavam como uma teia de aranha em nosso caminho.

Imagine fazer contorcionismo e se agachar depois de quatro dias na montanha, sem água e com mais de 20kg nas costas. A impressão que me dava a todo o momento é que a Serra Fina não queria nos deixar, pois foram muitas as vezes em que, após vencer um obstáculo de bambu, eu me via jogado pra traz por um bambuzinho agarrado à minha mochila, causando aquele efeito do elástico que me jogava para traz como quem diz: “Volta seu corno. Volta que daqui você não sai!”.

Agora vou abrir o último parágrafo deste “breve” rsssss relato para falar da amizade e da solidariedade:

As últimas quatro horas da travessia para mim, foram terríveis, principalmente pela falta de água, que me causou uma desidratação que tirou minhas forças neste trecho.

Eu ia na coluna atrás do Alê, olhando uma garrafinha de Gatorade que ele havia deixado do lado de fora da sua mochila, com uns 300ml de água. Provavelmente era a última água dele. De vez em quando ele sacava daquela garrafinha, caminhando sem parar, e dava aquele precioso golinho.

Aquela visão me dava um desespero terrível e a minha boca parecia que estava cheia de areia. Automaticamente, ao ver aquela cena que se deu repetidas vezes, me dava uma vertigem danada e a vontade era de sentar e ficar por ali mesmo, até que o carro pipa chegasse. Como o carro pipa não iria chegar mesmo, eu seguia em frente, com a boca cheia de areia mesmo.

O Dinho que vinha atrás de mim, notou a minha dificuldade, pois eu não havia falado pra ninguém que a minha água havia acabado, já que o erro havia sido meu em não me abastecer com os quatro litros mínimos de água lá no Ruar. Por isso, eu achava que deveria me punir por isso e não espalhar pra turma.

Mas, amigos se conhecem e aquilo não passou despercebido pelo Dinho. Foi aí que ele, também com pouca água, ficou insistindo para que eu bebesse a água dele, falando:

_ Você ta querendo dar uma de herói cara.

_ Herói morto não tem valor.

_Bebe essa água logo.

_etc, etc, etc.

Pois bem; fiz uso da sua água por três preciosas ocasiões, dando um total de seis goles, que foram a minha salvação.

Não fosse isso, teria problemas ainda maiores. Valeu Dinho. Você é irmão.

De repente e lentamente, a trilha começou a abrir e a vegetação a ficar mais densa, transformando-se gradativamente em uma estradinha apertada e com uma matinha rala, cercada por uma vegetação mais densa.

Encontramos logo uma pequena nascente, e não consigo dizer que nos esbaldamos de tanto beber água. Meus rins, se tivessem boca, estariam gargalhando naquele momento.

Bebi muuuuita água.

Além disso, enchi meu camelback com mais dois litros e termine todo o trecho com aquela mangueirinha conectada à minha boca bebendo e me hidratando. Renasci! Agora eu estava pronto pra fazer a Travessia pelo caminho oposto. Brincadeirinha hehehe.

Chegamos finalmente ao Sítio do Pierre. Super bonito, porém abandonado. Parece que aquilo já foi uma pousada, porque tem quadra, uma série de construções e uma piscina seca. Tudo abandonado. Que desperdício.

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:00as – Acabamos de chegar ao Sítio do Pierre. Observem que a trilha termina naquele mourão à direita da foto.

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:02as – Descendo pela estrada que nos levará à Garganta do Registro. Ainda estamos no Sítio do Pierre e são mais 3,5km de caminhada.

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:20as – A caminho de casa. Aquela Pedra ao Fundo chama-se Pedra do Tucum e foi nosso farol desde o Alto dos Ivos. O Guto disse que este Toten natural, serviu de farol aos primeiros viajantes no período colonial.

 

Ao chegarmos à porteira do Sítio do Pierre, único local aonde vimos sinal de humanos, havia uma casinha pequena parecendo-se a casa dos caseiros. Lá havia duas crianças bonitinhas que nos receberam com um largo sorriso perguntando se gostaríamos de tirar uma foto deles. Tiramos a foto, e para nossa surpresa, o garotinho (era um casal) foi na direção do Alê pedindo o pagamento pela foto, que foi prontamente atendido com um saquinho de amendoim. É mole? Mercantilismo na Serra Fina.

Eles eram profissionais e queriam nos explorar. O moleque estava cobrando pedágio. Hehehe

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:48as – Na porteira do Sítio do Pierre encontramos estas duas gracinhas que queriam nos cobrar por esta foto.

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:55as – Alegria, alegria. Acabamos de encontrar o nosso resgate na Garganta do Registro. O Celso (nosso motorista) já estava nos esperando desde as 15:00as, com aquela paciência de mineirinho. Forrou um paninho na grama e deu aquele cochilo até a nossa chegada.

 

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17/07/09, sexta-feira, 16:59as – Fim de uma aventura inesquecível que deixará saudades. Eu e meu amigo e irmão Dinho, nos preparando para entrar na Kombi.

 

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17/07/09, sexta-feira, 21:59as – Comemoração merecida, regada a pizza e vinho no Hotel Serra Azul. Vitória e muita história para contar.

 

Depois foi só comemorar, com um demorado banho quente, um Prato Feito caprichado na Pensão da Filó em Passa Quatro e pizza e vinho com um bom bate papo a noite no Hotel Serra Azul.

O dia seguinte foi todo reservado para o retorno cansativo pra casa.

É isso amigos. Espero que este “breve” relato atenda a expectativa do pessoal que teve a paciência de esperar por exatos 30 dias para que eu tivesse tempo de escrevê-lo.

Agradeço a Deus por ter nos protegido durante toda a excursão, permitindo que a semana transcorresse na maior harmonia e segurança, sem que ninguém sofresse nenhuma lesão grave, pois foram muitas as possibilidades de acidentes na Serra.

Agradeço a minha esposa e minhas filhas que tiveram a paciência de me esperar por seis dias em casa, sem saber se eu estava bem e tocando a rotina doméstica enquanto eu estava aproveitando a natureza.Não vou me esquecer disso e darei a compensação assim que for possível

Agradeço aos meus amigos que me acompanharam nesta excursão, pela solidariedade, companheirismo e principalmente paciência, durante os meus rompantes de síndrome da “chefite” aguda. Em alguns momentos eu passo dos limites. Mas peço que vocês mais novos relevem este meu excesso. É tudo levado pela preocupação com a segurança de vocês. Coisas de velho mesmo.

Agradeço aos amigos Camelos de Mochila, que não foram conosco, mas ficaram aqui torcendo muito pelo nosso sucesso. Mesmo que por interesse, pois assim poderemos guiá-los com segurança no ano que vem. Não é Oteb? Kkkkkkkkkkk

Um agradecimento especial ao Fábio (Muito Doido). Amigo sincero das horas difíceis, por sua dedicação e companheirismo. Sempre pronto a ajudar e me resgatar na rodoviária, depois de uma semana intensa nas montanhas.

Para finalizar este “Brrrrrrrrrrreeeeeve” relato, gostaria de transcrever duas mensagens para meus queridos e pacientes leitores amigos, extraídos do livro Deus Contigo de Cesar Braga Said:

“Valorize suas amizades oferecendo aos amigos o calor da sua presença.

Visite-os quando possível, telefone, escreva uma carta, mande um recado, demonstrando o quanto você se importa com eles.

Não espere pelas ocasiões especiais para externar o seu carinho. Torne especiais e únicos todos os momentos ao lado deles.

Abrace ainda hoje alguém e deixe transparecer toda a alegria de estar ao lado dessa pessoa.”

 

“Solte o pássaro da alegria que está engaiolado em seu peito, privado da alegria de cantar e de voar.

Descubra o mar profundo do seu coração, onde se escondem tesouros capazes de torná-lo muito feliz.

Vislumbre o céu azul que existe em sua consciência, sem que você já o tenha divisado.

Trabalhe as dimensões do seu ser que ainda não foram despertadas. Encontre prazer em desvendar seu mundo íntimo.

Ilumine seu rosto com um sorriso e, clareando os caminhos com a sua própria luz, contagie os que se acercarem de você com a sua alegria de viver”

 

Abraços Fraternos.

 

Alberto Monte

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Olá Alberto, excelente "breve" relato!! Tenho muita vontade fazer a Travessia da Serra Fina, mas isso ainda não é p/ mim...

Eu fiz minha primeira travessia no feriado de 09 de julho, Fiz Itaguaré- Marins, debaixo de muita chuva e muito perrengue. Mas é só quem já esteve num lugar desse para saber o quanto é maravilhoso!!! Abraço, e boas travessias!!

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A cada relato novo da Serra Fina que aparece por aqui eu me encanto mais com as impressões que as pessoas trazem dela.

Um belo relato o seu.

E ano que vem , se tudo der certo, ela nao me escapa.. rs

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Fui pra trás não sei quantas vezes, sentindo o mato na cara! Show, Alberto, Ótimo relato!

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Obrigado Fabinho. Realmente a Mantiqueira é muito braba com tempo ruim. Tem que ter coragem.

::putz::

É isso aí Negrabela. Toma coragem e pé na trilha ano que vem. Quem sabe a gente não se encontra lá.

:oops:

Obrigado Cacius. Realmente aqueles bambuzinhos não são mole não. Parecem garras nos puchando para tráz. :roll:

Valeu Haole. Pô cara. Depois de três dias na Serra, os dentes e o nariz passam a ser secundários né? O Pior de tudo é a cueca. ::lol4::

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Rs...pior que é mesmo...

Rapaz...se ficar mais dias é capaz até de ter limo...

 

Acima de tudo, ficou írado... :D

Abraço

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Parabens pela trip, relato e fotos. Ate deu uma certa nostalgia da primeira vez q fiz a SF, no inverno de 2003.. mas deu pra sacar q algumas coisas mudaram desde entao. Entretanto, se tiver disposicao, garra e tempo vc pode enveredar por travessias mto mais dificeis, selvagens e perrengosas qto essa da mantiqueira, aqui nas proximidades. E nao tao divulgadas qto a SF, pra sorte nossa. Recomendo fazer a Serra Fina Transversal (ou Trilha do Rio Branco), q faz a SF parecer passeio no bosque.Tem tb a da Garganta da Bocaina, do Vale da Ilusao, Ciri-Graciosa, entre outras..

http://www.brasilvertical.com.br/antigo/m_trek13.html

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Boaaa guerreirooo

Eu tbm, cada relato q eu leio de lá, fico querendo ir na hora!!!!

Ano que vêm, se tiver companhia pra ir, irei certoooo

 

E uma barraca 4estações que me disseram necessáriooo!

 

vlwww

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    • Por Renato37
      Bem, sei que há trocentos relatos sobre essa clássica travessia, então aqui vai mais um....
       
      Álbum, com todas as fotos da travessia estão em:
      https://photos.app.goo.gl/gh3c4PJaBMSHoF887
       
      Travessia realizada entre dias 12 a 15/06/2014.
       
      Eram 3:55h da manhã de uma fria madrugada de quinta-feira qdo saltei do ônibus na minúscula e pacata rodoviária de Passa Quatro (MG), que mais parecia um galpão qualquer. Após pegar meu chum...ops, cargueira do bagageiro do busão, Vivi, Marcão e alguns amigos do Sandro já se encontravam no local a minha espera e dos demais. Michel também já estava no local, mas só foi aparecer meia hora depois, pois se encontrava no mundo dos sonhos dentro de seu carro.
       
      Feitas as devidas apresentações, ficamos aguardando os demais do grupo chegarem. A madrugada na pacata cidadezinha localizada em um vale no meio das imponentes montanhas da Mantiqueira estava gelada, como é comum em cidades de altitudes elevadas (acima dos 1.000 metros). O céu estava com poucas nuvens, o que indicava que o dia seria bem aproveitável nesse primeiro dia. Os 2 resgates contratados já se encontravam no local e ficamos aguardando o resto do pessoal chegar.
       
      Tão logo isso ocorreu (embora alguns que disseram que viriam, deram para trás e sequer avisaram, mas felizmente a maioria apareceu), as 5:30h partimos rumo ao inicio da trilha, onde chegamos por volta das 6h20, na chamada "Fazenda Santa Amélia" (Toca do lobo) na cota dos 1.570 metros de altitude. A fazenda parecia estar abandonada e uma placa verde já bem gasta pela ação do tempo nos dava as boas-vindas com algumas orientações, dicas e o mapa com os picos, pontos de acampamento e de água.
       
      1º Dia - Toca do Lobo (1.570 m) ao Pico do Capim amarelo (2.491m)
       

      Mapa ilustrativo da travessia com os pontos de acampamento, água e os principais picos
       

      A placa bem gasta, já não dava para visualizar quase nada, infelizmente....
       
      Após ajeitarmos as cargueiras e alguns alongamentos básicos, iniciamos a caminhada por volta das 6:40. O trecho inicial da fazenda até a Toca do Lobo já começa logo de cara com uma subida, dando uma idéia do que nos aguardara nesse primeiro dia, rumo ao Pico do Capim amarelo. Após o primeiro lance de subida (que foi boa para aquecer os músculos e espantar o frio da manhã), a estradinha nivela, vira trilha e segue margeando a encosta esquerda de um morro, passando a descer levemente em direção a um pequeno vale. Passo por uma trifurcação, onde pego o caminho mais batido a esquerda.
       

      Galera ajeitando as cargueiras
       

      A simpática e discreta fazenda Santa Amélia
       

      Inicio da trilha
       
      Os primeiros raios de sol coloriam o topo das montanhas ao redor, indicando que o dia seria igualmente aproveitável e com visão total do percurso e do entorno. Nesse trecho inicial, algumas aberturas no meio da mata fechada revelavam os picos do entorno, por onde iria passar, dando uma ideia do que me esperava pela frente....
       

      Janelas em meio a mata fechada, revelavam alguns picos
       
      Não demora muito e as 7:10, chego no 1º ponto de água da travessia ao lado de uma pequena gruta conhecida como "Toca do Lobo", que realmente lembra uma toca. Lá, encontro parte da galera que havia saído minutos antes de mim na frente, fazendo seu primeiro pit stop no local e também faço o mesmo. A água de um rio que corre bem do lado direito é corrente e de boa qualidade, mas sabendo que havia outro ponto de água mais acima, optei por deixar para abastecer os cantis mais acima, entre os morros do Cruzeiro e Quartzito, a cerca de 1 hora de caminhada trilha acima, economizando no peso da cargueira.
       

      Toca do Lobo
       

      1ºponto de água ao lado da Toca
       
      Depois de atravessar o rio, sigo pela trilha a direita e passo por mais um trecho de mata fechada, que não dura muito tempo e logo dão lugar aos primeiros trechos de campos de altitude, formado inicialmente por gramídeas e capim ralo, com trilha bem aberta, possibilitando as primeiras visões dos picos ao redor por onde ainda irei passar. Pouco a pouco, o pessoal vai se afastando uns dos outros, devido ao ritmo variado de cada um e nisso, vou seguindo pela trilha, que vai subindo meio que em zig-zag, sem maiores dificuldades....As primeiras vistas nesse trecho inicial de subida já são de impressionar, inclusive com as primeiras visões do Pico do Capim amarelo bem lá no alto imponente, a esquerda.
       

      Primeiras vistas logo que sai da mata fechada
       

       

       

      Pico do Capim amarelo lá no alto, bem distante ainda
       

       
      Passados 30 minutos desde a Toca, chego no alto do morro do Cruzeiro na cota dos 1.783m, onde já é possível visualizar parte dos trechos por onde a trilha segue em direção ao próximo morro, o do Quartzito. Após alguns cliques e uma curta parada para descanço, retomo a pernada, descendo levemente o morro, para então iniciar a primeira subida forte em direção ao Quartzito.
       

      Subida do morro do cruzeiro,se não me engano...Subidinha ainda "tranquila"
       
      A trilha segue galgando a crista em zig zag, com a visão do entorno e o percurso da trilha bem demarcada a frente que são um atrativo a parte. Quanto mais você vai avançando, mas te dá vontade de parar e ficar apreciando aqueles belos contornos serranos e as finas cristas que dão nome a Serra fina.
       

      Belíssimas vistas do vale do Paraíba durante a subida
       
      Mas a subida ainda está só no começo e logo visualizo bem a frente, o paredão íngreme do próximo morro, o do Quartzito, pronto para ser escalaminhado, ao mesmo tempo que ouço um barulho de água de um riachinho do lado direito. Mais 15 minutos após passar pelo alto do Cruzeiro e 45 minutos desde a Toca, chego ao segundo e último ponto de água desse 1º dia as 8:40, onde uma discreta bifurcação a direita sugere que o acesso ao riachinho é por ali.
       
      É a partir desse ponto que deve-se encher todos os cantis para os próximos 2 dias, pois o próximo ponto de água será somente no rio claro, no final do 2ºdia, nas nascentes da base da Pedra da Mina.
       

      Chegando ao 2º e último ponto d´agua desse 1º dia de Travessia. É aqui que acaba a moleza da cargueira mais leve e deve-se encher os cantis para 2 dias.
       

      2º ponto d´agua
       
      Encho os cantis com 3 litros de água e ainda tinha mais 1 de gatorade que foram mais que suficientes para mim.
      Com os cantis cheios, inicio a subida em direção ao Quartzito. Com a mochila mais pesada do que nunca, a moleza acaba e é o bicho iria pegar para valer, pois é a partir do segundo ponto de água que se inicia a primeira subida pirambeira em direção ao morro do Quartzito. E vamos que vamos.
       
      Esse primeiro trecho é bem íngreme e com a cargueira mais pesada ainda, foi bem complicado, dando uma idéia do que ainda teria pela frente. As 9:15, chego ao topo do Morro do Quartzito (na cota dos 2.020 metros de altitude) para um merecido, mas breve descanso. Aproveito a pausa para apreciar as belas paisagens do entorno, com os picos do Marins, Marinzinho e Itaguare bem ao fundão, se destacando no horizonte.
       
      É nesse trecho que se passa pela parte mais bonita da subida e também onde se visualiza o trecho da foto "clássica" da trilha descendo e contornando o topo da crista até a base do enorme paredão do Capim Amarelo. Aqui a subida dá uma tregua e a caminhada segue no plano, com uma leve descida pelo alto de uma fina crista logo após passar pelo alto do morro do Quartzito. O Topo do Capim amarelo aparece bem imponente lá no alto e a frente, parecendo estar próxima, mas ainda resta uma longa subida pirambeira até lá. Aqui encontro alguns vestígios de acampamento, mas como o local é exposto aos ventos, é arriscado acampar aqui.
       

      Alto do morro do Cruzeiro visto do alto do Quartzito
       
      Do alto do Quartzito, se tem a visão de todo o trecho percorrido e também todo o traçado da trilha demarcada pelo alto das cristas. É um capitulo a parte e rendeu vários clicks. O grupo de 12 pessoas se dividiu em grupos menores, onde cada grupo foi seguindo em seus ritmos, com os mais rápidos mais acima, eu no intermediário e os mais lentos logo atrás de mim, o que gerou belas fotos da galera em diferentes ângulos. Em uma travessia como essa, é quase impossível todo mundo ficar juntos em um mesmo ritmo.
       

      Picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré bem ao fundão....
       

      Chegando ao trecho da foto "classica"
       

      Caminhar pela fina crista é uma sensação única...
       
      Após descer levemente o morro do Quartzito, passando pela crista com 2 grandes vales a direita e a esquerda, chego definitivamente no "paredão" da base do Capim e é a partir de agora que as pernas serão postas a prova máxima de resistência e superação. As 10:15, começo a longa e exaustiva subida que vai ficando cada vez mais íngreme e com alguns lances de escalaminhada, onde o auxilio das mãos passam a ser necessários para impulso nas pedras e troncos.
       
      A subida é árdua, o sol castiga muito e nisso, acabo parando várias vezes para retomar o fôlego. As 11:00 chego ao alto de um morro, conhecido como "Cotovelo" onde a subida dá uma leve trégua e aproveito para fazer uma pausa. Olho para cima e vejo a nebulosidade aumentando sobre o topo do Capim amarelo.
       

      Vista do alto do morro do Cotovelo
       
      Subindo de cocoruto em cocoruto, vou seguindo em direção ao morro do camelo em trilha bem demarcada e com vários lances de escalaminhada. O Grupo está bem dividido e a minha frente vejo os mais rápidos mais acima e os mais lentos lá embaixo. A pirambeira não dá trégua e parecia não ter fim. Só de olhar para cima, cansava até a vista. Vou ganhando altitude rapidamente e quase 3 horas desde o Quartzito lá embaixo, chego a um ombro do Capim Amarelo, conhecido como "Camelo" na cota dos 2.380 metros de altitude.
       
      A principio, achei que era o topo do capim, mas não era. Enquanto isso, a neblina foi ficando ainda mais densa e nisso, a visão ficou prejudicada. Descanso por algum tempo aqui e pouco antes das 13h00, volto a caminhada.
       

      Alto do morro do "Camelo" um ombro do Capim amarelo, com o pico do Capim mais acima ainda, encoberto pelas nuvens
       
      Segui mais um pouco até chegar a uma parte mais plana onde a trilha passa por 2 descampados bem protegidas no meio de enormes tufos de capim elefante. Olhando para baixo (aproveitando algumas janelas em meio a neblina), consegui visualizar o Michel e os demais bem lá embaixo ainda, enquanto a Vivi, Marco e Fábio dispararam na frente e imaginei que a essa hora, já haviam chegado no topo. O relógio marcava 13:00hs e eu ainda não fazia ideia de qto tempo iria levar até o topo do capim.
       
      Após passar pelas áreas de acampamento, visualizo bem a frente outro paredão no meio da neblina, com a trilha indo na direção dele. A subida volta a ficar ainda mais íngreme e com alguns trechos enlameados e pirambeiros, acabo parando mais algumas vezes para recuperar o fôlego. Em alguns pontos, havia cordas estrategicamente instaladas para auxilio nos trechos mais complicados da subida e que foram muito bem-vindas. O ataque final ao cume é de matar com mais lances de escalaminhada e trepa-pedra. Com o peso da cargueira e uma noite praticamente sem dormir, não foi nada fácil vencer esse trecho.
       
      As pernas e braços já pediam arrego, mas continuar era preciso. E se já estava ruim com a falta de visibilidade, ficou pior qdo começou a chover fraco, o que me deixou apreensivo....O Topo parecia estar bem próximo e finalmente, as 13:20 chego nele, onde sou recepcionado por parte da galera da turma do Roger, Marco e da Vivi que já haviam chegado lá entre 30 minutos a 1 hora antes de mim e já tinham até montado seus respectivos "aposentos"....rsrs
      Mas ainda faltavam o Michel, Mariana e outros que estavam atrás de mim e só chegaram cerca de 40 minutos depois.
       

      Enfim, barraca montada e o merecido descanso no topo do Capim amarelo
       
      O Cume do Capim é bem plano e com várias clareiras para 1 ou 2 barracas, todas bem protegidas por conta dos enormes tufos de capim elefante que formam uma ótima proteção contra os fortes ventos. Como ainda havia muitas clareiras disponíveis, pude escolher o melhor ponto para montar a barraca. Na subida final a chuva havia parado, mas voltou no exato momento que estava montando a barraca. Não foi fácil montar a barraca por causa da chuva, pois tive que monta-la as pressas, mas felizmente era apenas uma chuvinha passageira e logo parou, não chegando nem a molhar direito o chão.
       

      Descampados entre os tufos de capim elefante
       
      Após montada a barraca, explorei as laterais do topo e depois fui preparar meu almoço, ficando o resto da tarde de boa com o pessoal. Fui deitar por volta das 19h30 e logo peguei no sono. De madrugada, acordei com o teto da barraca mais clara e ao botar a cabeça para fora, vi que a neblina havia dissipado, o céu estava com poucas nuvens e a lua brilhava forte. Com isso pude apreciar as cidades em volta todas iluminadas e com a lua cheia iluminando todo o topo. E ainda pude me presentear com a bela visão dos picos da Serra fina ao redor, com a Pedra da Mina em destaque a leste. A temperatura não caiu muito de madrugada e ficou em torno dos 04ºC.
       
      Continua no post abaixo....
    • Por PedrãodoBrasil
      Expedição Extreme e Serra Fina
       
       
       
       
       
       
      Serra Fina 4 dias    16 a 19 Maio 2019
      Saida de Vitória no dia 15 de Maio e nos Hospedamos no
      Harpia Hostel Pousada Hotel,
      Do Amigo Alessandro (35) 98894-0533  (Hostel e Transfer)
       R. Ângelo Dalessandro - Centro, Passa Quatro – MG
       
      Participantes
      Idealizador da Trip
      https://www.facebook.com/pedraodobrasil  
      27 99805 8885
      Participantes
       
      https://www.facebook.com/bruno.languer.9
      https://www.facebook.com/patrick.martinscastelo
      https://www.facebook.com/rosa.natura.rosa
       
       
       
      1°dia
      16/05/2019
      Início 9 hs
      Fim 16 hs

      -Toca do Lobo, Quartizito e campi amarelo
      -Local do Camping : Capim Amarelo (Acampamento 1)
      *Entre toca do lobo e capim amarelo tem o último ponto de agua do dia a direita no quartizito.
      -Capim Amarelo. 2491mt de altitude.
      Muita subida, escalaminhada, muitas cordas.
      Enfim se vc é nutela não vá .
       
      2°dia
      17/05/2019
      Inicio 08 hs,
      termino 17 hs
      -Capim amarelo
      -Maracanã
      -Cachoeira vermelha
      -Base da pedra da mina (Acampamento 2)
      *Ultimo Ponto de agua do dia na base da Pedra da Mina.
      Chegamos neste ponto estava um bento muito forte e chovendo muito e estava muito frio, resolvemos acampar neste local (Base da Pedra da Mina). Isto por volta das 17:00 hs.
      Os ventos, tempestades e raios se intensificaram.
      Ficamos na barraca por 20:00 hs, pois durante o dia ficou feia a coisa.
      Saímos por volta das 14:00 hs do outro dia, devido tempestades e raios.
       
       
       
      3°dia
      18/05/2019
      Inicio 14:00 h
      Término 18:00 h
      Saímos da base da Pedra da Mina ainda com chuva e ventos fortes, atingimos o topo da Pedra da Mina com seus 2797 Metros de altitude.
       
      Os ventos lá em cima eram muito fortes, além do frio.
      Descemos e atingimos o vale d Rhuá.
      Encontramos uns caras que passaram um perrengue durante a noite.
      Seguimos pelo vale sempre a direita do rio.
      Passar pelo vale do Rhuá e uma coisa única, um belo vale com capins amarelos bem alto e muita lama.
      No final do vale foque sempre o V no final do vale.
      Pegamos agua para o dia seguinte, é importante pegar no mínimo 6 litros de água, pois até o ponto de água seguinte.
      Saímos do vale e dormimos num camping acima. Agora sim fomos agraciados por um por do sol maravilhoso. (Acampamento 3)
       
       
       
      4º dia
      19/05/2019
      Inicio 08:00hs
      Término 18:30 hs.
      Saída do Camping acima do vale do Rhuá e seguimos em frente, hoje porem deu um nascer do sol lindo, indicando que o dia ia ser aberto, pois os dias anteriores não foram de um bom tempo.
      Passamos Pelo Mirante do Vale das Cruzes, Pelo cume do Cupim de Boi, Pico dos três estados 2656 mt altitude, Ombro dos 3 estados, Cume Bandeirante, Alto Dos Ivos, entroncamento com a garganta do Registro, Ponto de água antes do Sitio do Pierre, Sitio do Pierre e Asfalto, onde o resgate nos aguardava.
      Volta ao Hostel, dormimos e fomos embora na segunda feira, finalizando assim a trip, que foi umas das mais HARD que já fiz.
      A Serra Fina para Mim é considerada uma das mais difíceis e pesadas do Brasil.
       
      Use sempre Protetor Labial.
       

      Dicas
      Mesmo fazendo a travessia no final da temporada de montanha, bambus e Capim Elefante são uma constante. Luvas e blusa de manga longa é boa pedida.
      O desespero em saber que a travessia oferece pouca água, não deve ser considerado algo extremo, lembre-se que o corpo necessita de liquidos, não somente água. Eu particularmente, levei sucos prontos, e água de coco e só abasteci a garrafa de água mesmo no terceiro dia. Os dois primeiros só bebia nos pontos de água. Mas isso claro, vai de pessoa para pessoa.
      Quando fizer paradas próximo ao Capim Elefante, a presença dos ratinhos deve ser considerada e não deixe a mochila aberta de forma alguma. Nos cumes, nada de comida fora da barraca e se possivel, longe dos cantos para evitar o cheiro.
      Protetor solar e chapeú que cubra o rosto e pescoço é ótimo, pois o bambuzal deixa muito matinho caindo pelas costas. Bandanas também são muito uteis, principalmente nos cumes para não ficar com o nariz vermelho pelo frio.
       
       
       
       































    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.
    • Por E.Samuel
      Olá Mochileiros, como vão? Espero que bem, aqui estou eu novamente escrevendo meu segundo relato do ano de 2018. Ano passado fizemos a travessia da Serra Fina em 17h, se quiserem ler o relato segue o link: 
      O propósito para esse ano seria fazê-la em 2 dias para podermos aproveitar mais a montanha e o companheirismo da turma. Como de costume, o Nandão plantou a ideia de fazer a travessia em 2 dias e nós aceitamos de cara. Nosso parceiro Breno deu ideia de fazermos a travessia ao contrário, pois assim passaríamos no Vale do Ruah à tarde e não de madrugada. Escolhemos uma data que fosse melhor para todos e reunimos a turma. 
      Aquele medo de fazer a Serra fina já não era tão grande como foi da primeira vez, o medo agora era de tentar terminá-la com o peso da mochila. 
      Como sabíamos da dificuldade da travessia, treinamos por vários meses e, depois de adiarmos o passeio por 2 vezes por conta do tempo, nos dias 18 e 19 deu tudo certo. Confesso que torci para chover novamente porque estava com muito medo de fazer a Serra fina, ainda mais no sentido inverso, mas como eu havia prometido aos meus amigos que eu iria, eu fui.
      Estávamos em 5 pessoas: Samuel (eu), Nandão, Breno, Zé Renato (Fotógrafo oficial) e Jonas (primeira vez na SF). Saímos da Cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG às 23h com o nosso motorista oficial Edson, chegamos até a entrada do Sítio do Pierre às 2:20 da manhã, fizemos uma oração e partimos rumo ao nosso objetivo.
      Passamos pela trilha, chegamos no primeiro ponto de água e já atacamos o Alto dos Ivos. Chegamos lá por volta de 7h14min, onde esperamos nosso companheiro Jonas que demorou cerca de 1h para chegar. Enquanto isso, deu pra fazer um café para dar uma aquecida - o café saiu sem açúcar porque nosso companheiro Breno esqueceu de trazer...hehe, mas faz parte.


      Saindo do Alto dos Ivos fomos direto para o Pico dos Três Estados. Até antes de chegar nesse pico eu estava animado e pensei “Até que o meu treino fez efeito, estou me sentindo muito bem”. Doce ilusão, mal sabia que a subida dos 3 Estados era difícil e ao contrario mais difícil ainda. Subindo aquela montanha enorme pensei em abortar a travessia, mas segui firme até o pico. Zé Renato e Nandão como sempre subiram primeiro, esses dois sem sombra de dúvidas são de outro planeta. Quando eu e o Breno chegamos os dois já estavam dormindo e nós aproveitamos para também tirar um cochilo e esperar o Jonas (esse cochilo rendeu viu?!).
      Chegada nos 3 Estados 10h21

      Saindo dos 3 Estados, fomos para o Cupim do Boi. Lá tiramos algumas fotos, paramos para fazer um lanche e esperar o Jonas...rsrs. Nesse momento, nosso amigo Zé Renato deu a Ideia de criarmos uma #cadeojonas...hehe, e não é que pegou?!
      Logo depois disso, partimos para o Vale do Ruah.
      Chegada no Cupim do Boi 12h58.


      O caminho até o Vale do Ruah é relativamente mais tranquilo, a única coisa que enche o saco são os Capins Elefantes que seguram, dificultando a caminhada. Lá pegamos água, molhamos os pés e fomos atacar a Pedra da Mina.
      Chegada no Vale do Ruah 14h51


      A subida da Pedra da Mina é muito cansativa, quando eu a vi lá debaixo bateu um desanimo, é muito alta. Quem já fez a travessia ao contrário sabe do que eu estou falando, é uma subida que não tem fim. Eu várias vezes sentei e comentei com o Breno que queria chorar e abortar a travessia. Sentamos umas 3 vezes para descansar e toda vez que sentávamos cochilávamos por um tempo. Quanto mais a gente subia, mais cansado a gente ficava e nunca chegava, sinceramente, nesse momento eu queria ter um amigo rico, mais bem rico com um helicóptero pra eu poder ligar e ele vir me buscar..rsrs
      Depois de todo o sofrimento, chegamos no topo. Ufa! Pensei que não chegaríamos. Montamos nossa barraca, fizemos aquela feijoada ao som de Sorriso Maroto e Thiaguinho (créditos ao Nandão), comemos e fomos dormir. Dentro da barraca eu tive vontade de chorar, pensei que no outro dia não daria conta, mas dormimos. Na madrugada fez -4°C, nossa barraca congelou.
       

      gelo.MP4 No outro dia levantamos para ver o sol nascer - que espetáculo gente! Coisa linda demais. É um espetáculo da natureza ver o sol subir por cima do Agulhas Negras. Vejam as imagens:

      Depois do espetáculo, arrumamos as coisas, assinamos o livro e partimos com o objetivo de terminar a travessia. Nosso ânimo estava renovado e, apesar da noite mal dormida, estávamos todos bem, nesse momento esquecemos dos problemas do dia a dia e demos várias risadas pelo caminho. Isso me fez lembrar de uma frase que o grande Maximo Kausch (Gente de Montanha) disse na entrevista com o Danilo Gentili “Quando a gente está na cidade a gente segura uma máscara tentando ser outra pessoa e quando estamos na montanha, longe do conforto do dia a dia, você realmente vê quem é quem”. Eu particularmente gostei dessa frase e ela retrata muito bem os amigos que eu fiz na montanha, eles são demais.

      Descemos a Pedra da Mina e paramos no primeiro ponto para pegarmos água. O Sol estava bem quente e teve um parceiro nosso que queria ir de cueca, pois já não aguentava mais. Pedimos pelo amor de Deus para que ele não fizesse isso, por fim, todos reabastecidos, fomos rumo ao Camping Maracanã.
      Camping Maracanã às 09h44.
      Passamos rapidamente pelo Camping e paramos um pouco acima para comermos. tirar umas fotos e esperar o Jonas. #cadeojonas

      Descemos um pouco mais e logo depois avistamos o Pico do Capim Amarelo - o último pico dessa travessia. Que felicidade gente! Nem acreditava que não teríamos que subir outra montanha. Apertamos o passo, chegamos lá em cima às 12h43min e Zé Renato fez um time lapse animal lá de cima.

      time capim.mp4 A subida até o Capim Amarelo é pesada.

      subida capim.MP4


      Nesse momento ligamos para a pessoa que iria nos resgatar e a mesma disse que iria nos buscar às 17h30min da tarde, pois estava saindo para fazer outro resgate, detalhe que nós havíamos conversado com ela anteriormente e cantamos a pedra que chegaríamos na Toca do Lobo por volta de 15h30min – 16h. Nesse momento lembrei do Sr. Edinho (uma ótima pessoa que todos que fazem a travessia já devem ter ouvido falar dele) e na mesma hora ele disse que iria nos resgatar, isso foi um alívio.
      Esperamos o #cadeojonas chegar e descemos às 13h30min do Capim Amarelo, rumo à Toca do Lobo. Estávamos ansiosos para passar no Caminho dos Anjos, pois na primeira vez que fizemos a travessia, não deu para tirarmos fotos, pois estava de madrugada ainda. Chegamos lá e as fotos ficaram incríveis (Creditos José Renato).

       
      Gostaria aqui de fazer uma pausa no relato e falar de uma pessoa que realmente é nota 10: José Renato Ribeiro - ele é uma pessoa que não mede esforços para tirar uma fotografia. Além de ser um ótimo profissional e humilde, ele é feliz fazendo o que gosta. Carregando a mochila pesada, cheia de acessórios, ele é capaz de ir na frente da turma e parar em um certo lugar só pra tirar fotografias da galera e das belas paisagens. Sinto-me privilegiado de conhecer essa grande pessoa e ser seu amigo. Além disso, agradeço ao Nandão por ter nos apresentado a ele. Obrigado por tudo Zé.
      Os créditos pelas fotos desse relato é seu.

      Chegamos na Toca do Lobo às 16h, tiramos mais algumas fotos, tomamos um meio banho na cachoeira pra tirar o cheiro de urso e fomos ao encontro do Sr. Edinho.

      Considerações finais: a travessia da Serra Fina no sentido normal já é bruta, no sentido inverso ela fica mais bruta ainda. Pensei em desistir várias vezes, mas a vontade de terminar, o encorajamento dos amigos e o desejo de não desistir falaram mais alto e isso me fez criar forças para concluir essa travessia tão linda e ao mesmo tempo tão dificultosa.
      É difícil colocar em palavras o quão difícil é subir uma montanha. Às vezes as pessoas acham que estamos exagerando e que não é tão difícil assim, pra essas pessoas eu digo e sempre vou dizer: vá lá e veja como é.
      A briga com o psicológico é constante, mas com um jeitinho e incentivo de todos a gente chega lá, lembrando que quando eu digo “eu”, eu me refiro ao grupo todo.
      Gostaria de agradecer de coração aos que foram nessa mega aventura - Nandão, Breno, Zé Renato, Edson (nosso motorista oficial, que todo ano está com a gente e dessa vez não foi diferente), Jonas (mesmo sofrendo para andar e acompanhar a turma, concluiu a travessia e foi até o final #cadeojonas).
      Muito obrigado a todos, espero que ano que vem nós possamos fazer outras travessias. Apesar de difícil ela se tornou extremamente divertida por conta de vocês. Estava lendo um blog um tempo atrás e vi uma frase que não sei se é da blogueira, mas eu achei que essa frase faria todo o sentido para terminar esse relato, que ficará marcado nas nossas memórias por um bom tempo.
      “E então é o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair do lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.”
      Até a próxima.
      1º dia: 18,2km
      Ganho de elevação: 1.972m
      Tempo: 14h21m
      2º dia: 11,6km
      Ganho de elevação: 531m
      Tempo: 8h 5m
      Elevação maxima: 2798m
      Dados do Strava.
    • Por eleonardo
      SERRA FINA
      CAMINHANDO ENTRE GIGANTES
       
      Texto por Alan S. Kronemberg
       
      NA MANHÃ de uma quinta-feira, 27/09, Eleonardo Louvain e eu descíamos do ônibus em Passa Quatro, pequena cidade do sul de Minas, com 50 Kg de víveres e equipamentos nas costas. Tínhamos pela frente uma longa e difícil jornada: a travessia da Serra Fina. Após cruzarmos a pracinha local admirando ao longe as montanhas, nosso breve destino, chegamos à pousada São Rafael onde um quarto nos aguardava para algumas últimas horas de conforto. Era nosso plano partir no dia seguinte.
      O maciço da Serra Fina fica numa região isolada e de difícil acesso da Mantiqueira. Posto nos mapas pela primeira vez em 1923 pelo engenheiro Álvaro da Silveira, esse lugar fora durante muito tempo esquecido, ofuscado pelas montanhas do outro planalto próximo e mais famoso, o Itatiaia. A situação começou a mudar apenas em 2000, quando uma nova medição feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, anunciou o maior cume desse maciço, a Pedra da Mina, como sendo o 4º mais alto do Brasil, com 2.797 m. Esse fato fez a gente de Passa Quatro se acostumar a ver tipos mochilados como nós perambulando na região. Naquele fim de semana, porém, éramos os únicos na cidade dispostos a partir rumo àquelas montanhas.
      A carta que possuía comigo conseguida junto ao IBGE mostrava bem o descaso ao qual me referi sobre a Serra Fina. Datada de 1974, era a única existente da região. Não tinha sequer o nome ‘Serra Fina’ escrito nela, além de mostrar a Pedra da Mina com a altitude antiga de 2.770 m. Esse mapa e uma bússola eram tudo o que dispúnhamos até, por sorte – quando entrávamos num armarinho para comprar camisa para o lampião –, conhecermos Taia e seu filho, Davi. Os dois, experientes guias locais, nos deram informações valiosas sobre o caminho e um croqui da trilha mostrando os pontos de acampamento e abastecimento de água.
      Fora os conselhos, ouvimos com atenção as histórias sobre resgates vindas das montanhas no horizonte próximo. Eram muitas. Impressionou-me o caso de um senhor de mais de setenta anos que, depois de subir a serra e ser pego de surpresa por um temporal, passou três dias e três noites sem água e comida, tendo que beber a própria urina para sobreviver. Segundo os guias, o mau tempo na Serra Fina representa um risco considerável por causa dos ventos fortes, da neblina cegante e do frio excessivo. Outrora, no inverno, chegou-se a medir na região a temperatura de -17ºC.
      O maior obstáculo da travessia, no entanto, chama-se Á-G-U-A. Em todo o percurso de quase 40 Km, somente existem quatro pontos para o reabastecimento, o que obriga cada viajante a levar consigo pelo menos 4 L. No caso dos mais sedentos, um litro a mais se torna indispensável na mochila.
      A navegação em alguns trechos da travessia também exige muita precisão devido ao capim-elefante. Essa vegetação, de altura maior que um homem, ocupa campos extensos da Serra Fina e encobre a visão do horizonte e da trilha já aberta. Taia alertou-me para estar atento principalmente ao chegar no traiçoeiro Vale do Ruah após a descida da Pedra da Mina.
      Pelo fim da tarde, retornamos ao hotel para nos certificarmos de que não faltava nada para a partida no dia seguinte. Seu César, dono do São Rafael, aproveitou uma brecha entre os seus afazeres e nos levou a uma esfirraria famosa da cidade, a Monte Líbano, a fim de prosearmos um pouco.
      Aos goles de uma cervejinha bem gelada e escorados sobre um balcão rústico de madeira, conversamos sobre a Serra Fina, que Seu César definiu como a mais difícil travessia do Brasil. Falamos ainda sobre a vida em Passa Quatro. Com 15.000 habitantes, esse município é uma estância hidromineral repleta de fontes d´água espalhadas pelas suas praças e jardins. A cidade conserva casarões do início do século XX e sua rua principal é a antiga Estrada Real por onde aventureiros e bandeirantes passavam a caminho dos sertões das Gerais. A propósito, a cidade teve sua origem em 1674 na passagem do bandeirante Fernão Dias pelas terras altas da Mantiqueira. Achei interessante a origem de seu nome. No passado, aos paulistas que procuravam um lugar sossegado para pouso nessas bandas, Fernão Dias deixara o seguinte recado: “Saindo da Capitania de São Paulo, segue o rio Paraíba do Sul, terás ao norte uma grande cordilheira, a Mantiqueira. Ao encontrares nela uma garganta profunda é o Embaú, a única passagem tranqüila para o Sertão das Gerais, então galga a serra e passa quatro vezes o rio que se escorrega por um verde e espaçoso vale, chegarás assim a um pouso...”. Dessa expressão, surgiu Passa Quatro. Dela, bandeirantes modernos partem, hoje, em busca de aventuras nas montanhas que circundam a Pedra da Mina.
       
      O BATISMO NAS MONTANHAS
       
      A TRAVESSIA COMEÇA, de fato, um pouco longe de Passa Quatro, num local chamado Toca do Lobo. Para se chegar nele, é preciso percorrer alguns quilômetros da rodovia e entrar numa estrada de terra, seguindo por mais uns 10 Km. Pagando-se em torno de cem reais, se consegue um transporte 4x4 até esse lugar em Passa Quatro, mas, como nosso dinheiro era curto, na manhã seguinte, nos restou aproveitar a carona de Seu César até o começo da estrada de chão batido e, nesse ponto, arrumar outra carona do caminhão de leite para o alto da serra. Essa baldeação nos valeu chegar a 8 Km da tal toca. O restante passou a já fazer parte da travessia.
      Após um banho na cachoeira gelada da Toca do Lobo, que preparou o corpo e o espírito para a trilha, subimos morro acima ganhando altitude até a cachoeirinha, no Quartzito, primeiro ponto de água. Aí, adentrávamos a linha dos 2.000 metros, pela qual seguiríamos cada vez mais alto nos próximos dias. Nesse ponto também, começamos a conhecer a verdadeira face daquelas montanhas.
       
       
      Como já estava um pouco tarde e uma nuvem escura caminhava em nosso encalço, julgamos que não tardaria a chover. Preferimos, por isso, montar ali o acampamento. Para sermos mais rápido, dividimos as tarefas: Eleonardo foi pegar água, enquanto eu comecei a arrumar a barraca amarela, chamada por mim de Tempestade I. Não bem tinha esticado a capa de chuva sobre ela e um trovão varreu os céus da serra anunciando o que acabávamos de prever.
      No CABRUUUUUUUUM seguinte, os pingos d´água começaram a cair e rapidamente o horizonte ficou tomado de nuvens brancas. Era a certeza do temporal vindouro. Felizmente, Eleonardo já vinha com os cantis.
      Esforcei-me para deixar a barraca preparada para uma chuva forte - coloquei pedras esticando sua capa ao máximo. Quando pulei para dentro dela, enfim, o céu desabou. O vento começou a chacoalhar a barraca e a zunir tanto que mesmo uma conversa a alguns centímetros era difícil. A Serra Fina rugia.
      Há tempos, a região enfrentava uma seca tremenda que chegara a ocasionar um vasto incêndio no vizinho Itatiaia. Quando deixamos o Rio de Janeiro rumo à Passa Quatro, a meteorologia previa chuvas esparsas no final de semana em razão da primavera. Eu chegara a pensar que seria bom chover um pouco, pois a secura poderia tornar mais difícil a travessia devido ao calor e à pouca umidade. Vendo minha barraca balançar, tive outro julgamento. Imaginei que estávamos somente começando a subir. Se naquela altitude, as coisas na Serra Fina se comportavam de tal maneira assustadora, como seria mais acima aonde iríamos?
      Estando com fome e não havendo como deixar a barraca, a solução foi prepararmos alguma refeição dentro dela mesmo. Sacamos as canecas, preparamos um achocolatado com biscoitos e ficamos aguardando pacientes pelo fim do temporal. Cerca de duas horas depois, a chuva deu uma trégua. Ao sairmos para ver a situação, uma surpresa! Dessa vez uma nuvem gigantesca vinha na direção do Quartzito, embranquecendo tudo sob ela. Parecia um enorme monstro branco jogando suas presas sobre as colinas. Uma visão impactante.
      Acompanhei a chegada da nuvem até bem próximo da barraca, de pé. Quando vi um lampejo sair do seu interior, minha reação foi correr para dentro de Tempestade. Um trovão estrondoso ecoou no céu. Vi Eleonardo deitado na posição fetal – segundo ele, para não atrair os raios. Logo depois disso, houve um clarão enorme, seguido de outro trovão pavoroso e resolvi fazer o mesmo, por precaução. O relâmpago, dessa vez, pareceu passar ao lado da barraca!
      Lá pelas tantas da noite a chuva cessou e, em seu lugar, um manto de estrelas cobriu o céu. Do mirante onde estávamos, podiam-se ver as luzes de Passa Quatro e de algumas fazendas espalhadas pelo horizonte. A Lua brilhava com todo o seu vigor, cheia e prateada. À luz do lampião, acendemos o fogo e preparamos uma mistura reforçada de alimentos. Até um champingon que havíamos levado foi junto. Tudo para matar a fome e nos deixar prontos para o outro dia. Aquela sexta valera como o batismo na Serra Fina.
       
      RATOS
       
      SÁBADO, 10 h. Após abastecermos todos os cantis – dali para frente só encontraríamos água perto da Pedra da Mina, a dois dias de viagem – arrumamos as mochilas e partimos. Deixamos o Quartzito tarde, pois nosso plano era subir apenas o Capim Amarelo, primeira grande montanha da travessia, com 2.491 m.
      A subida levou algumas horas. O tempo se manteve nublado, dissipando ao fim da tarde. Logo que chegamos, arrumamos o acampamento num dos muitos espaços abertos para pouso, preparamos a espiriteira, acendemos o fogo e fizemos a comida: macarrão com molho de tomate recheado de orégano. Ótimo paladar! Senti-me em casa.
      O Capim Amarelo é chamado dessa maneira por causa do tom amarelado que o capim-elefante possui nesse local. É tamanha a incidência dessa vegetação nesse cume que a vista fica comprometida. De lá, pudemos ver pela primeira vez, ao longe, a Pedra da Mina. Descobrimos, também, que não estávamos sós na travessia. A noite nos revelou um importuno invasor.
      Enquanto a comida era feita, um pequeno rato aproximou-se das panelas. Nessa hora, eu estava na barraca e pude apenas ouvir Eleonardo gritando Sai! Sai! e batendo com os pés no chão.
      – Foi um rato? – perguntei. Taia nos advertira sobre ter cuidado com esses animais no alto do Capim.
      – Sim. E era grande – respondeu Eleonardo.
      Mais tarde, quando já havíamos deitado para dormir, ouvi um barulho estranho perto da barraca. Suspeitei de um rato estar tentando rasgar o pano para entrar.
      Acordei Eleonardo e apanhei a lanterna. Acendi a luz, o barulho cessou. Abri a porta. De dentro da barraca, não via nada lá fora. Passando as mãos entre as coisas amontoadas perto do meu lado de deitar – de onde suspeitava vir o som – não encontrei coisa alguma. Achei melhor examinar direito.
      Quando afastei minha mochila, logo pude ver um buraco no pano da barraca. Constatei que estava enganado: o rato não queria entrar; ele já estava dentro. Retirei a mochila de ataque e vi o rabinho mexendo que denunciava o invasor. Ao tirar a panela, flagrei o animal comendo sem titubear o miojo. Quando pus a luz da lanterna em seu rosto, ele nem ligou, continuando sua refeição. Só quando mexi as coisas perto dele que resolveu sair pelo mesmo buraco por onde entrara.
      Resultado da noite: levamos alguns miojos para longe da barraca, junto com as panelas sujas de alimento, para podermos ter um sono tranqüilo enquanto o ratinho e seus parentes faziam um banquete.
       
      PEDRA DA MINA
       
      APESAR DO incidente com o rato, na manhã seguinte, a lembrança viva em minha mente era do instante em que, de madrugada, havia saído da barraca para ver como estavam nossas coisas. Guardo comigo a visão colossal da Pedra da Mina iluminada pela Lua cheia, com um mar de nuvens cinza aos seus pés. Senti-me no paraíso naquele momento e agradeci aos céus por poder contemplar aquela fotografia que nossas câmeras não eram capazes de capturar, apenas meus olhos.
      Fazia silêncio. O que se ouvia era apenas a suave brisa sobre o capim, a balançar o mato devagar. A silhueta escura do gigante de rocha dominava o horizonte e sua imponência impunha um respeito a toda a natureza ao seu redor. Nada era mais alto do que ele. Não se podiam enxergar os vales escondidos debaixo das nuvens de uma brancura contrastante. Tive a impressão de ser possível caminhar sobre o mar de algodão formado por elas, espesso o bastante para suportar o peso de até um exército de aventureiros que nele quisessem passar rumo à Pedra da Mina. Do caminho que tomaríamos no dia seguinte, somente os trechos mais altos, como a Serra Fina, eram contemplados. Tudo isso emoldurado pela Via-Láctea e pela abóbada de estrelas do céu, onde a Lua, radiante, surgia como um farol a iluminar aquela vasta paisagem.
      Olhando para a Pedra da Mina, soberana daquelas terras, refleti sobre a vida do explorador. Em quanto ela é solitária e cansativa, mas também recompensadora. Definitivamente, as mais belas paisagens do nosso mundo, assim como os maiores mistérios, estão em locais afastados dos grandes centros. Nos extremos, encontramos nossas origens e nos deparamos com a natureza selvagem, muitas vezes amiga, outras vezes inimiga. Lá, não diria que somos meros coadjuvantes; não acredito nos que dizem que o homem seja nada diante dela. É certo que o poder da natureza em muito supera a força humana, mas o ímpeto que carregamos dentro de nós é tamanho que mesmo ela, em sua grandeza, nos deixa passar. Até os gigantes nos permitem transpor suas coroas.
      Assim, com essa imagem na retina, deixei o alto do Capim Amarelo atrás de Eleonardo. Ele teve mais sorte para encontrar o começo da trilha que descia a montanha.
      Na descida do Capim, encontramos o primeiro sinal de alguém que passara por aquelas terras: um bastão de trekking quebrado. Desde que havíamos partido da Toca do Lobo, na sexta de manhã, não cruzávamos com ninguém.
      O caminho começou a ficar mais fechado e traiçoeiro em alguns trechos de capim-elefante. Eu mantinha os olhos atentos à minha bússola, na sua agulha apontada para o norte, que, ao longo do percurso, se mantinha às oito horas de nós. Horas depois, após subirmos e descermos diversos morros e vales, atravessamos a crista da Serra Fina. Esse conjunto de colinas, responsável por dar nome a todo o maciço, é uma linha de montanhas altas por sobre as quais se marcha num caminho desenfiado e estreito, que leva aos pés da Pedra da Mina. O nome “Fina” não é por acaso. Há espaço para somente uma pessoa de cada vez passar na sua crista. O viajante segue o tempo todo admirando a serra da Bocaina no horizonte sul e os campos de Minas no leste.
       
       
      Naquele dia, um domingo de bastante sol, acampamos na base da Pedra da Mina, no local conhecido como cachoeira Vermelha. Essa queda d´água de uns quinze metros serve de guia para os viajantes que, ao descerem o morro do Melano, podem vê-la de longe. A água aí é rica em ferro – razão de ela ser avermelhada – o que a deixa com um gosto diferente, mas facilmente bebível para quem chega de uma jornada de horas com a garganta seca.
      Dela, seguimos, na segunda-feira pela manhã, para o ataque à Pedra da Mina. O gigante, mais próximo do que nunca, lançava seu olhar sobre nosso caminho, o tempo todo a nos instigar. Cruzamos a nascente do rio Claro com os cantis parcialmente cheios, certos de que do outro lado da montanha, no Vale do Ruah, acharíamos água. Enfrentamos duas horas de subida sob um sol forte, de totem em totem, fitando com os olhos o topo mais esperado.
       
       
      Por volta de 14h, passamos pelo gigantesco totem montado por montanhistas e, logo em seguida, chegamos! Tocamos a marcação recente do IBGE, datada de 2004, e o livro que sela o nome de todos que alcançaram o cume da Pedra da Mina. Deixamos lá nossos nomes, a 2.798 m de altitude.
       
       
      O VALE DO RUAH
       
      PASSADOS trinta minutos admirando o horizonte no topo da Mantiqueira, seguimos adiante para o trecho considerado por muitos o mais difícil da travessia. Do alto da Pedra da Mina, a visão do Vale do Ruah é fan-tás-ti-ca! Uma região do tamanho de quatro campos de futebol, tomada de capim-elefante.
      Enquanto descíamos, era possível ver o rio Verde do lado oposto a onde cairíamos no vale. Tínhamos que rumar até ele e depois margeá-lo até a Brecha, um monte uns dois quilômetros à frente no qual começa a subida para o pico dos Três Estados, a décima maior montanha do Brasil. Eu sabia que, dentro do vale do Ruah, não enxergaria mais nada, por isso, tinha que do alto traçar o azimute certo.
       
       
      Nosso ritmo de marcha durante a descida da Pedra da Mina fora comprometido devido às dores intensas que Eleonardo começou a sentir no joelho. No dia anterior, ele havia tido uma entorse e vinha caminhando suportando a dor e com certa dificuldade. Foi necessário parar algumas vezes. Chegamos a cogitar a possibilidade de acampar no Ruah, hipótese descartada depois que nuvens negras começaram a se avolumar sobre nossas cabeças.
      Entre as moitas de capim-elefante, a trilha certa exigia olhos de águia. Há picadas no Ruah para todos os lados e direções, abertas por viajantes que perderam o caminho. Com a visão comprometida devido à altura da vegetação, caminhamos mata adentro nos guiando pela bússola e pelo som do rio Verde. Quando era possível, olhava por sobre o capim e avistava o colo para onde eu sabia correr esse rio, local aonde nós também deveríamos seguir.
      Dessa forma, conseguimos atingir o rio Verde. Abastecemos nossos cantis para mais um longo trecho sem ver água e continuamos lado a lado com o seu curso. Foi quando começou a chover granizo.
      Já era quase noite, quando tomamos uma direção para fora do Ruah, galgando novas alturas. Estava feliz por ter vencido a parte dita a mais difícil da travessia e com frio devido à chuva que não parava. No topo da Brecha, havia um bom local para acampar. Com presteza, montamos o acampamento e, cansados, adormecemos logo após entrarmos na barraca. Despertamos lá pelas 11 h da noite. Não chovia mais. Preparamos uma suculenta sopa de feijão com legumes e macarrão para matar a fome. Se tudo corresse como prevíamos, aquela seria nossa última refeição na Serra Fina.
       
      TRÊS ESTADOS E O RETORNO PARA CASA
       
      O DIA AMANHECEU com uma bela manhã de sol, propícia para secar nossos equipamentos. Outra vez, cada um tomou sua caneca de chocolate e, levantado o acampamento, partimos rumo ao pico dos Três Estados.
      O caminho seguiu pela crista das montanhas até o topo da elevação chamada Cupim de Boi devido à semelhança que possuí com essa parte do bovino. Dela, descemos um vale profundo dominado por uma mata de bambus e por isso de difícil passagem, após o qual, derramava-se a encosta do Três Estados.
      Durante a subida dessa montanha, a natureza revelou-se benévola conosco. A chuva do dia anterior havia depositado gelo entre os tufos de capim-elefante e com isso, pudemos encher os cantis.
      O pico dos Três Estados, a 2.665 m, é repleto de capim-elefante e possui um triângulo de ferro já bem enferrujado indicativo das direções dos estados que se encontram naquele ponto. Aliás, essa uma particularidade dessa montanha. Em qualquer mapa do Brasil que possua as divisões interestaduais, pode-se identificar o local exato de seu cume. Lá, um mastro marca o último grande desafio da travessia da Serra Fina para quem chega da Toca do Lobo. Aos que vem pelo outro sentido e iniciam a jornada, o fato de ele estar sem a bandeira brasileira serve de sinal da força dos ventos e da natureza naquela região inóspita.
      Após o Três Estados, o Alto dos Ivos é a última altitude a ser vencida antes do começo da descida da serra. De seu topo, avista-se ao longe o maciço de Itatiaia e o grandioso Agulhas Negras. Lá, eu e Eleonardo despedímo-nos da Serra Fina por onde caminhamos cinco dias seguidos sem a companhia de ninguém, apenas dos gigantes.


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