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EXPEDIÇÃO VALE DO BRACINHO: A joia da Serra do Mar Paulista.

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                                                             EXPEDIÇÃO BRACINHO

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(Anderson, Dema , Trovo , Divanei , Decio e Régis )  

 ......................“Aquilo parecia mesmo ser uma estupidez. Não que eu já não tenha feito uma infinidade de coisas estupidas nesses quase 25 anos de aventuras, mas com a idade a gente começa a tentar ficar longe dessas ações que possam nos levar a um acidente do qual talvez não tenhamos mais como nos recuperar. O Daniel Trovo, mestre das insanidades aquáticas, já havia inaugurado o salto, despencando no poço gigante sem jamais ter estado lá, o Dema também confiou nele e se jogou sem nem pensar e até o tio Décio, olha só, já se encontrava no fundo do poço. Nem me pareceu tão alto em um primeiro momento, mas olhando bem da beirada da cachoeira, me deu uma embrulhada no estômago, mesmo assim os meus medos não advêm da altura, mas da possibilidade do que poderia se esconder no fundo do poço. Jogo minha mochila que explode na água e ao longe vejo o sorriso dos outros dois companheiros de expedição (Rosa e Régis) que optaram pela sensatez e desescalaram as paredes da queda d’água e foram fazer as fotos bem longe daquela loucura. Tomo distância, dou uma corrida e paro imediatamente. Melhor não, melhor deixar pra lá, mas lá de longe a plateia grita freneticamente para eu não desistir, então resolvo que tentarei saltar usando o patamar 1 metro mais abaixo, não muda nada, mas as condições psicológicas me diz que poderá ser menos pior, mas ao me aproximar ainda mais a fim de baixar para esse patamar é que observo uma língua de pedra que se estende da parede em direção ao poço. DEUS ME LIVRE! Se eu escorregar o pé de apoio vou me esborrachar naquelas pedras lá embaixo. Um misto de ansiedade toma conta de mim, eu quero ir, mas o medo me puxa para trás, faço menção de desistir de vez, mas a plateia grita pula, pula e eu já perdi o rumo, com o corpo tomado pela adrenalina que já invadiu cada centímetro do meu corpo. Quer saber de uma coisa: FODA-SE, LÁ VOU EU!”..................

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         ( rio Bracinho e sua água incrivelmente transparente)

          Poucos lugares são tão incríveis nesse país quanto a Serra do Mar de São Paulo, não só por conter uma das florestas mais exuberantes do mundo, mas pelo fato de estar muito perto de uma das maiores cidades do planeta e ainda esconder no seu interior selvagem uma infinidade de biodiversidade que talvez não se encontre em nenhum outro lugar do Brasil. Por incrível que pareça, são lugares desconhecidos até mesmo de pesquisadores, moradores locais e exploradores modernos, lugares que passaram despercebidos justamente pelo seu isolamento e pela dificuldade para serem penetrados. Já há mais de meia década que a gente vem se dedicando a revelar esses paraísos perdidos, principalmente rios intocados, onde o ser humano ainda não espezinhou e até mesmo os famigerados caçadores e palmiteiros, mal conseguiram aranhar, justamente pela dificuldade técnica de acesso, mas ultimamente até parte do nosso grupo vinha tendo uma certa resistência porque as expedições acabaram por ter que se distanciar cada vez mais, se enfiar cada vez mais num mundo desconhecido e sem a certeza de que poderia nos revelar algo que realmente interessasse para parte do grupo , que sempre ia em buscas das grandes cachoeiras perdidas nos rio selvagens. Depois de 2 expedições que revelaram o interior de grandes rios de uma certa região, meus olhos acabaram por se voltar para alguns rios menores, rios com desníveis bem inferiores aos anteriores como o Lourencinho, o Itariru , mas a descida do Pedreado ,ocorrida esse ano, me disse e me ensinou que se valer de desnível de rio para saber se vale a pena ou não empreender uma expedição era uma grande bobagem, mesmo porque o PEDREADO( Braço Grande) nos surpreendeu positivamente, mas mesmo assim, uma grande parte do grupo, que obviamente se recusou a encarar o rio citado acima, ainda não havia se convencido que tanto esforço e perigo poderia mesmo valer a pena.

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         ( Rio Pedreado)

          O Vale do Rio Bracinho levou alguns anos até para ser localizado no mapa devido ao seu isolamento por baixo da grande floresta e das grandes montanhas que o cercava e o espremia, era quase impossível saber aonde realmente começava a sua nascente e só depois de eu recorrer a diversos mapas e cartas antigas foi que aos poucos ele foi se revelando e juntamente com o Décio Marques, fomos juntando um quebra-cabeças até que conseguimos chegar a um consenso e nos pôr a planejar a expedição para valer.

          O rio apresenta duas nascentes distintas em forma de “Y”, sendo a nascente da direita (de quem desce o rio) a menor e a esquerda a maior, as duas se convergindo para formar o “Grande Bracinho”. Pois bem, saber por onde corre essas duas nascentes era o “x” da questão, porque era um emaranhado no meio de uma floresta gigante e longe, muito longe de qualquer lugar habitado e com acesso motorizado. Os estudos nos levaram a escolher 2 pontos de acesso, uma em cada ponta dessas nascentes, sendo a nascente mais curta distante uns 20 km de Juquitiba e a mais longa uns 30 km. No final chegamos à conclusão que pelas condições da estrada, a vertente mais curta poderia ser a mais interessante porque nos daria a possibilidade de fazer esse caminho usando um transporte que nos deixaria a pelo menos umas 4 horas de caminhada do rio varando mato, não era nada animador, mas era o que tínhamos , era ao que poderíamos nos apegar se quiséssemos realmente tentar colocar aquele rio no mapa.

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         ( inicio Bracinho em amarelo)

          A única maneira de termos uma chance da expedição dar certo, era irmos antes lá e tentarmos primeiro achar o rio e só depois montarmos uma equipe e para isso tracei uma linha no mapa me valendo das curvas do terreno para podermos chegar ao rio com um esforço o menor possível. Traçada a estratégia inicial, coube ao Décio e aos meninos Régis, Potenza e Rafael, a missão de inaugurar os trabalhos e num sábado qualquer, se dirigiram para a região e depois de rodarem por mais de 10 km, abandonaram o carro num sítio à beira do caminho e seguiram a pé, desvendando tudo que podiam e cinco ou seis horas depois de se lascarem num mato sem cachorro, conseguiram avançar muito, chegando quase nas bordas da serra, a menos de 2 km de atingirem a calha do rio. Fizeram um excelente trabalho, mesmo não conseguindo descobrir o rio, porque marcaram todo o caminho no gps e agora era chegado a hora de montar o time, encostar alguns caras na parede e força-los a sair de cima do muro definitivamente.

          Feito o convite às pessoas que sempre confiávamos que dariam conta da empreitada, não tardou para aparecer os desdenhamentos em relação a qualidade técnica do Rio e quando citei que o Décio Marques era presença garantida na expedição, foi aí que o grupo se desmanchou feito uma torre de cartas. O Décio sempre foi uma pessoa querida de todos, mas era considerado um pé frio, onde ele pisava era certeza de fracasso, ou chovia demasiadamente, ou perdíamos a trilha, ou aconteciam trombas d’água que beiravam tragédias, enfim, absolutamente todas as empreitadas que ele se fazia presente haviam dado errado, mas claro, essa era mais uma entre várias outras desculpas que fizeram com que parte do grupo pulasse fora, mas como eu sempre digo, mais vale um grupo com pouca experiência motivado do que gente sem tesão pela exploração e foi assim que o grupo foi se formando, por gente engajada no projeto e verdadeiramente comprometida em ir lá naquele vale desconhecido fazer história .

          Partindo de Sumaré, no interior Paulista, eu e o meu velho amigo Prof. Dema, que há muito tempo não nos acompanhava nessas expedições, desembarcamos na capital do Estado a fim de nos encontrarmos com o grupo na estação Faria Lima do Metrô e assim que todo mundo chegou, começamos a via sacra interminável para chegar à Juquitiba, onde uma kombi já nos esperava para nos levar por uns 15 km , lugar que a estrada acaba ou fica quase que intransitável e só as pernas é que servem de meio de transporte. Depois de deixar Juquitiba, nosso veículo retorna e volta pela Br, sentido norte (SP) e uns2 km depois deixa a rodovia e entra a direita na Estrada Amélia Correia F. Guimarães e vai seguir sem pegar nenhuma bifurcação até que essa estrada passa a se chamar Estradas das Senhorinhas e quase 4 km depois passa por cima da ponte do Rio Juquiá, segue sentido sul sempre pela principal e quase 9 km depois o caminho acaba, hora de saltar do veículo e nos pormos a caminhar.

 

          A madrugada já ia alta e o feriado da República já se fazia presente e não deu nem 15 minutos de caminhada para abandonarmos a então estradinha e nos enfiarmos à direita num caminho estreito que outrora fora também uma estrada e que hoje não passava de uma trilha que ligava uma estrada à outra e que se metia dentro de uma floresta de reflorestamento e ia subindo até 20 minutos depois cruzar por cima de um riacho e desembocar numa outra estrada com ares de abandono e virarmos para esquerda para aí então caminhar por mais meia hora e adentrarmos à direita numa casa abandonada à beira do caminho, casa que foi apelidada pela primeira incursão de reconhecimento como CASA DAS BOSTAS por causa dos excrementos de animais que ali encontraram.

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          Da Casa das Bostas fizemos nosso lar pelo resto daquela madrugada, uns amarraram suas redes nas velhas pilastras e outros resolveram se espalhar pelo chão da varanda com seus sacos de dormir já que o interior da casa, em ruinas, não gerava confiança, parecendo que o forro desabaria há qualquer momento. Foram meras 4 ou 5 horas de sono, tempo insuficiente para um descanso merecido, mas como a jornada era longa, tivemos que pular logo cedo e dar início àquela expedição. Oito da manhã as pernas já foram postas em movimento e menos de meia hora depois já nos vimos diante do Braço Grande (Rio Pedreado), justamente o rio que havíamos descido por 4 dias na última expedição, mas ali ele era mansinho e inofensivo e sem demora nos convidou para um gole d’água e como ninguém estava a fim de molhar as botas logo pela manhã, tratamos de passar nos equilibrando sobre uma árvore que havia caído, formando uma ponte de um lado à outro do lindo rio.

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         Rio Braço Grande ( Pedreado)

          Atravessado o rio, o que seria uma estradinha, se transforma em trilha, mesmo que o corte aparente no barranco ainda não tenha desparecido por completo. Agora vamos seguindo mais ou menos paralelo às suas margens, aproveitando a curvas suaves do terreno em meio a floresta fechada e vez por outra vão surgindo alguns vestígios de antigas construções que a mata não tarda em tragar por completo. Essa é uma área praticamente desabitada e somente uma única habitação junto ao rio é que parece ser frequentada vez enquando, mesmo assim alguns rabos de trilha ainda sobrevivem na região, fruto deveras de caçadores e palmiteiros que infelizmente ainda deitam e rolam na periferia dessa selva fascinante. A caminhada vai se seguindo, sempre tentando acompanhar o traklog feito pela primeira investida, que por sorte conseguiram localizar essa antiga trilha que nos levaria praticamente bem perto das bordas da descida da calha do Rio Bracinho. Algumas bifurcações vão sendo descartadas porque não seguia na direção desejada e cada vez mais nos víamos afundados dentro da floresta e quando a trilha acabou definitivamente, foi hora de começarmos a nos preparar para varar mato no peito, acabou a moleza.

 

          Nas discussões fervorosas antes da expedição, havíamos chega à conclusão de que ao nos posicionarmos no ponto onde estávamos, conseguir descer até o Vale do Bracinho seria tranquilo, era só ganhar uns 500 metros de montanha varando mato e já começar a descer, mas de repente começamos a rodar em círculos e quanto mais andávamos mais nos víamos perdidos no meio da floresta, mesmo com dois gps em operação. Acontece que quando ganhávamos um terreno favorável nos empolgávamos e esquecíamos de ir acompanhado a progressão no gps e quando víamos já havíamos andado muito para o lado errado. Corrigíamos a direção e voltámos a nos empolgar, tanto que em um certo momento caímos na calha de um afluente e demos como certo ser um tributário do Bracinho e fomos descendo feitos umas bestas cegas até que alguém gritava que novamente estávamos indo para o lado errado e tínhamos que corrigir o rumo novamente, ás vezes tendo que voltar a escalar os barrancos e enfrentar bambus no peito para desespero do Décio que já arrastava 100 m de língua no chão. O tempo foi passando e a previsão de alcançar o rio principal antes do meio dia já havia se esgotado faz tempo. Mais um morro foi subido e a tal da bandeirinha(plotada no mapa) que assinalava a descida para o rio nunca que era encontrada O Décio continuava como cu de tropa e de longe xingava a mãe de todo mundo, “Pitoco véio”( apelido que eu chamava carinhosamente um dos integrante) só fazia dar risada, ainda que ele fosse o desgraçado também responsável pela navegação, eu e Trovo que seguíamos de perto o outro navegador, tentávamos ajudar, mas teve uma hora que tivemos que dar uma basta porque já havíamos rodado mais que pião da casa própria , então nos juntamos com o Anderson Rosa e decidimos não desgrudar o olho do gps até que a bandeirinha dos infernos fosse localizada e quando a encontramos foi hora de dar uma parada para respirar um pouco e esperar que todo o grupo se juntasse novamente, comesse alguma coisa para a cartada final.

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          Menos de 2 km nos separava do nosso grande objetivo e agora com os nervos no lugar e os olhos grudados no gps, ganhei a dianteira e fui arrastando mato no peito, procurando com os olhos o melhor caminho e sempre atento aos rumos dado pelo nosso navegador e quando ganhamos uma grande calha de onde um córrego nascia e ia se enfiando nas pirambeiras, foi aí que tivemos certeza que o caminho não teria mais volta. Fomos desescalando o riachinho que aos poucos foi crescendo e se avolumando, tanto que foi necessário passar por grandes desníveis e tomar cuidado para não escorregar e pontualmente às 14 horasnossos olhos se maravilharam com o RIO BRAÇINHO, a lenda , o mito, estava finalmente descoberto, hora da comemoração e do alivio pela primeira conquista da expedição.

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           Durante todo o estudo do projeto eu havia cantado a bola de que aquele rio selvagem seria formado por águas incrivelmente cristalinas por nascer totalmente isolado dentro da floresta e por receber outros tantos de afluentes igualmente isolados, mas ver a materialização de todos os estudos se transformar em realidade é realmente gratificante. Logo de cara somos apresentados a um rio que mais parecia um espelho, não muito grande por ser apenas um dos grandes braços formadores, mas o sorriso no rosto de cada integrante daquela equipe traduzia o quão feliz estávamos e cada um demonstrava sua satisfação de um jeito, mas uma coisa não foi diferente, todos largaram suas mochilas quando o Trovo que, havia subido por 20 metros até uma curva, gritou que havia uma cachoeira linda um pouco mais acima. Era a primeira surpresa que o rio iria nos proporcionar durante os próximos 4 dias de expedição e aquela queda d’água foi o estopim para que a gente se unisse de vez, lavasse a alma, esquecesse os perrengues passado no acesso ao rio e tivéssemos a certeza de que a aventura agora estava pronta para começar.

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          Alguns não se aguentaram e já se jogaram nos poços junto as duas cachoeiras, outros acharam que ainda não era hora de ficar com a roupa encharcada e logo que todos estavam satisfeitos, juntamos o grupo para uma repassada final no seguimento da expedição. Tirando o Décio que estava visivelmente com uma mochila muito acima do que deveria, os outros pareciam estar nos conformes e então combinamos de tentar interceptar o grande afluente ainda naquele dia e tentar acampar na sua junção quando os dois rios dão vida ao GRANDE BRACINHO. No início é um riacho raso e até meio bucólico, correndo dentro da floresta sombreada com pequenas cascatas decaindo em singelos degraus e vez por outra algum poço mais fundo era cruzado pela cintura, mas logo ele voltava a ficar com pedras expostas. A medida que avançávamos o rio ia ganhando mais alguns pequenos afluente pelo caminho. É um caminhar gostoso, descompromissado, onde a gente vai conversando descontraidamente e não tarda para descobrirmos as pegadas enormes de antas nas prainhas de areia que se formam às margens e também as marcas deixadas por grandes felinos, onças que devem desfilar sossegadas por esses vales encantadores.

          

          A caminhada vai seguindo sem maiores problemas, as primeiras quedinhas vão aparecendo e logo à frente um pequeno cânion estreito nos dá as boas-vindas, nada que pudesse nos custar grandes esforços para ser transposto , mas como eu ainda não estava a fim de me molhar, optei logo por testar minhas habilidade de “grande escalador” de paredes lisas na serra do Mar e me agarrei no barranco do lado esquerdo e fui cravando minhas unha nas agarras que me saltavam às vistas e logo o que eu temia aconteceu, uma agarra podre não aguentou o meu peso e despenquei feito jaca podre , indo parar no fundo do poço, mas antes quiquei numa pedra exposta e bati violentamente com o tornozelo nela. Na hora, meio assustado com a queda inesperada, não senti nenhuma dor, mas passado um certo tempo depois, mal estava conseguindo caminhar e tive que arrastar perna a base de anti-inflamatório até o fim daquela expedição. Depois desse mergulho sem querer, estava também inaugurada definitivamente o molhaceiro nessa travessia, porque a partir daí todos já foram logo se jogando em tudo que é poço e a farra aquática se faria presente até o final do dia, onde outras infinidades de pequenos poços foram nadados e pequenas cachoeiras transpostas, mas acontece que nesse primeiro dia , sem dormir quase nada na noite anterior, pouco depois das 16 horas da tarde já tratamos logo de caçar um lugar decente para acampar, já que vimos que seria mesmo impossível cumprir o plano de tentar acampar na confluência dos rios.

          Nessas expedições devido às incertezas, sempre optamos em usar redes com toldos para os acampamentos e discutimos isso durante vários meses, mas o Décio ainda achou melhor carregar uma barraca trambolhuda, então tivemos que ficar à mercê de arrumar um lugar que pudesse comportar também uma barraquinha e por sorte nessa travessia, foi possível sempre conseguir lindas áreas de camping e foi numa dessas áreas, plana e com várias árvores grossas à disposição, que jogamos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado àquele dia de atividades intensas , hora de tirar a roupa molhada e ir cuidar da janta e da montagem das nossas camas de mato.

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          Quase 12 horas de sono tem o poder de revigorar uma equipe que no dia anterior estava meio destroçada e por incrível que pareça, a noite foi tranquila e sem chuvas, aliás, a previsão do tempo era de chuvas intensas para os 4 dias de expedição e até o momento nenhuma gota de água havia caído do céu e se o sol não foi intenso, pelo menos as temperaturas se mantiveram altas durante o dia anterior. Levantar da rede depois de uma noite bem dormida não é problema, mas ter que logo pela manhã vestir roupa molhada é algo que dá uma chacoalhada na gente, mas também pouco importa porque a primeira coisa, nos primeiros metros de caminhada, já somos obrigados a nos jogar na água fria do rio e sentir o poder da nossa audácia de querer desbravar rios selvagens, faz parte do ofício e o sofrimento inicial já transforma o dia logo pela manhã numa resiliência a ser suportada.

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          Nesse segundo dia os poços vão se sucedendo de uma tal maneira que vão faltando adjetivos para usar. Logo de cara o rio estreita e uma nova garganta tem que ser cruzada, descida até um ponto em que a gente consiga se jogar de cima dela para dentro de mais um poço profundo em meio as suas corredeiras e sair nadando rapidamente para escapar das águas ainda geladas, por sorte, praticamente todo mundo está servido de coletes e isso ajuda muito na flutuabilidade e numa segurança maior, mas algumas vezes o capacete acaba por ser empurrado pela mochila, colocando alguns em dificuldades, melhor mesmo soltar a mochila ou tirar o próprio acessório  da cabeça depois que já se posicionou em segurança dentro do poço. O rio vai alternando entre ser mais raso e mais profundo quando afunila um pouco e quando chegamos a outro grande poço de águas incríveis, cruzamos nos valendo de troncos, onde alguns passaram arrastando a bunda até que, sem poder se equilibrar, acabam indo parar no fundo do rio e nem dá para ficar chateado por ter sido incompetente para passar sem cair porque logo a seguir não há como fugir e é chegar no próximo poço profundo e já se pinchar de novo e para não perder o costume, a sequência é mais do mesmo quando chegamos a uma cachoeirinha. Os mergulhos são divertidíssimos e sair nadando numa água daquelas vai dando uma sensação de prazer gigantesco, é um salto e um orgasmo prolongado.

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          Depois dessa sequência de diversão aquática o rio arrefece um pouco e volta a ser mais raso e se estabiliza e já vai dando indício de que estamos bem perto do seu grande afluente, a outra perna que vai dar corpo e alma ao Bracinho e numa curva do caminho, um grande poço, um poço sensacional nos dá as boas-vindas e marca nosso encontro definitivo e os ponteiros do relógio já marcavam quase onze horas da manhã.

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          Aquele era mesmo um lugar incrivelmente belo, mas nos chama atenção uma clareira com um vestígio de acampamento de caçador ou de palmiteiros. É claro que não vieram pelo rio, muito provavelmente alguma trilha antiga poderia ter dado acesso até ali, mas também estava claro que há muitos anos ninguém pisava naquele barraco de lona devido ao seu abandono. A dúvida é saber de onde partiria a trilha, mas uma coisa era certa, o abandono já indicava que seria uma caminhada muito dura até chegar ali e talvez essa trilha nem mais existisse, o certo é que a partir dali a expedição iria entrar numa região selvagem, mais selvagem ainda , estávamos prestes a ficar cercado por montanhas altíssimas dentro de um vale do qual não haveria a menor possibilidade de escapar caso algum acidente acontecesse , estávamos por nossa conta, ninguém do mundo externo saberia do nosso paradeiro, entravámos num portal sem volta, rumo ao desconhecido mundo selvagem da Serra do Mar Paulista.

          

          Abandonamos o encontro do rio a sua própria sorte e seguimos nossa labuta, que para variar já nos levava para mais grandes poços profundos e de águas esverdeadas. Mais à frente outra queda d’água é vencida tendo que usarmos nossos freios traseiros para conseguir passar sem se esborrachar ou cairmos dentro das marmitas que se formavam na queda da cachoeira. A sequência é formada por uma infinidade de outros poços e aí a gente vira criança e deixa que o rio nos carregue como bem entender, somos passageiros sem controle, vamos vendo a vida passar nas belezas daquela floresta exuberante e quando o rio cansa de nos dar carona, somos lançados imediatamente dentro de um grande lago e lá ficamos por um bom tempo para reabastecer o estômago e tomarmos folego.

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          Nesse segundo dia o terreno começa a ficar com um desnível maior e as pequenas gargantas não tardam em aparecer e deixar o rio novamente afunilado e quando as águas resolvem saltar de cima das pedras, lá vamos nós nos precipitando  para dentro do rio e essa brincadeira de jogar a mochila e saltar atrás faz a festa da “molecada” e deixa o clima da expedição divertido, fazendo com que o tempo passe sem nem percebermos. Essa Cachoeira da qual saltamos não era muito alta, mas aos seus pés um poço dourado nos deixa de queixo caído. Aquilo era impressionante, era algo de uma beleza estonteante, mesmo depois de anos e anos de exploração selvagem, poucas vezes havíamos visto um poço com tamanha formosura, então nos sentamos à sua beira e apreciamos seu espetáculo, para nunca mais esquecer aquelas imagens.

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          O dia vai passando numa velocidade impressionante e quando todos já estavam inchados de tanto nadar, grandes quedas apareceram e aí tivemos que parar e analisar qual seriam nossos próximos passos. Aquela era uma bela cachoeira, mais belo ainda era o poço que se formava na sua base de águas escuras e provavelmente muito profundo e tínhamos duas escolhas à fazer: tentar desescalar pelo lado direito, mesmo com um gasto de energia grande ou simplesmente dar um salto alucinante. Eu já havia passado a mão nas minhas tralhas e já estava me dirigindo para acompanhar o Rosa e o Régis que mal olharam para a possibilidade de saltar, já que notaram logo que aquilo era meio insano, mas quando o Trovo chegou tive que recuar para ver que sandice ele iria aprontar dessa vez. Não era muito alto, mas pular de quase 10 metros em um lugar que jamais havia visto na vida, sem saber o que se encontrava no fundo do poço,  já beirava a irresponsabilidade. É, mas ele saltou! Jogou a mochila lá de cima e pulou e foi vendo ele não chegar nunca na água que nos deixou mais agoniados e quando ele explodiu lá embaixo e sumiu por um tempo, aí só ficamos aliviados quando ele submergiu dando aquela gargalhada de sempre. Depois disso não teve jeito, o Dema também se lançou atrás e não demorou muito, o Décio também já estava despencando para o fundo do poço, mas eu não, eu não estava a fim de participar daquilo, ia mesmo apanhar minha mochila e varar mato, mas o grito da platéia que já havia se posicionado nas pedras do outro lado do poço, acabou por mexer com meu brio. Não que eu já não tenha pulado de lugares muito mais alto, mas quando a gente chega a uma certa maturidade começamos a analisar melhor nossos atos e a perceber que se um acidente acontecer naquele vale, longe, muito longe de qualquer lugar habitado e sem a possibilidade de algum socorro, faz com que a gente sempre opte pelo bom senso. Mesmo assim resolvi que iria saltar. Fui até a borda da cachoeira e aí vi que era mais alto do que imaginava, mas atirei minha mochila e dei aquela corrida para pegar impulso, mas refuguei, me senti o próprio Baloubet du Rouet. Analisando melhor, vi uma língua de pedra que se estendia da parede em direção ao poço e pensei: se meu pé de apoio escorregar nessa merda, vou me esborrachar lá embaixo e não vai ser bonito de ver, melhor enfiar o rabo entre as pernas e deixar isso para lá. Mas foi aí que a multidão (na verdade dois desgraçados que arregaram, rsrsrs) ficaram me instigando a pular e no impulso dei aquela corrida e deixei que a força “g” fizesse seu papel e quando meu corpo explodiu para dentro do poço, me senti um míssil adentrando na escuridão aquosa até que outra força me jogasse de volta para a superfície. Estou vivo, agora é nadar para longe da cachoeira até atingir as margens do lago e com um sorriso enorme no rosto, apanhei minha mochila e dei várias braçadas até me sentir em segurança, feliz da vida com o andamento daquela aventura.

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          Depois de descermos por mais uma garganta estreita e escorregadia, num estudo rápido, já percebemos que descer pela esquerda poderia ser o caminho mais ideal, mas foi uma descida um tanto exposta e quando chegamos aos pés delas alguns não aguentaram e tiveram que ir se banhar perto da sua queda, uma cachoeira com salto bonito que depois corria por uns 80 metros até cair em mais um poço esverdeado e profundo e para não perder o costume, sr. Trovo , um espécie de Aquaman tupiniquim já inaugurou mais um salto de cima da queda e foi parar de novo no fundo do rio e como ninguém queria ficar fora da diversão, um a um fomos nos livrando das nossas mochilas e pulando também: Meu Deus, a vida poderia ser feita só de saltos !

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          O dia já ia escapando pelos dedos e a gente não conseguia ficar seco, quando pensávamos que o rio daria um tempo sem termos que pular em algum poço, logo aparecia outro e mais outro e cada um mais bonito que o outro, mas as 16 horas, talvez um pouco mais, a gente já começou a procura um lugar para acampar e numa margem plana, junto a uma prainha de areia, vislumbramos a possibilidade de montarmos ali nossas redes e depois que todos deram o aval, cada qual foi cuidar de preparar sua casa. Agora éramos um grupo muito diferente daquele do primeiro acampamento na noite anterior, estávamos muito mais descansados e muito mais alegres pelo dia altamente produtivo que tivemos, porque foram cerca de 8 km dentro do rio, um recorde, jamais havíamos feito um percurso tão grande em nenhum outro rio.

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          No acampamento acabamos meio que nos juntando para compartilhar coisas, Eu o Dema e o Anderson dividimos o fogareiro e cozinhamos juntos, isso serviu para que otimizássemos o peso, inclusive eu e o Dema também dividimos o toldo que cobriu nossas redes, montando-as em estilo de beliche, usando apenas duas árvores para as duas redes. O Décio como já é sabido, trouxe barraca e teve que se contentar em montá-la na beirada do rio sobre uma prainha de areia, ainda bem que foi mais uma noite sem chuvas senão o nosso amigo teria corrido o risco de navegar rio abaixo dentro dela. Jantamos e fomo dormir muito cedo, bem antes das sete da noite e foi realmente uma noite incrível, mas quando me dei conta ao amanhecer, meu corpo estava coberto por umas 300 picadas de carrapatos e enquanto escrevo esse relato, ainda me coço todo, lembranças de um paraíso guardado por todos os bichos inimagináveis, inclusive esses indesejáveis.            

          Todos prontos para mais um dia de aventuras, deixei uma capsula de registro pendurara numa árvore com o nome de todos os expedicionários e já fomos obrigados a nos enfiarmos dentro do rio para mudarmos de margem e sem muita demora, nos enfiamos em mais uma garganta estreita e sem ter como escapar pela margem pulamos na correnteza e fomos arrastados por um bom pedaço, chacoalhando como se dentro de lavadora de roupa estivéssemos. Às vezes eu não sei porque fazemos isso, principalmente quando não controlamos mais nosso destino, mas quando tudo dá certo e somos devolvidos são e salvos, damos muita risada e queremos repetir, mas num certo momento a adrenalina deu lugar para o medo logo quando caímos numa sequência violenta onde as quedas eram um pouco mais altas e o refluxo teimava em levar a gente para o fundo do rio para depois cuspir a gente para fora feito fumo vencido.

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          Essas sequências de corredeiras foram realmente incríveis e por isso mesmo, por estarmos sempre envolvidos com algo que nos fazia perder a noção do tempo, começamos a perceber que o dia ia passando numa velocidade inimaginável. Quando aquela sequência de corredeiras deram um tempo e o rio voltou a se estabilizar por um tempo, foi a vez de mais poços esverdeados aparecerem e mesmo com o rio um pouco mais lento, parte da galera resolveu poupar energia e seguiram boiando nas aguas claras porque mesmo sem aquele sol exuberante, a temperatura se mantinha muito agradável e as chuvas previstas pareceriam cada vez mais distantes. Os cenários eram os mais belos possíveis e quando parecia que a paisagem não mudaria, logo éramos surpreendidos com tonalidades de águas diferentes, ás veze tão transparentes que o fundo dos poços parecia conter pouco centímetros quando na verdade eram metros de profundidade e numa curva demos de cara com uma rampa e a descemos pela esquerda e essa rampa nos jogou diretamente para mais um poço, dessa vez com quase uns 100 metros de tamanho , um gigante profundo que fez com que tivéssemos que nadar por um bom tempo.

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          A gente apostava que os desníveis do rio haviam acabado e até o final enfrentaríamos apenas leves corredeiras e a caminhada seguia tranquila e serena, hora parávamos para beliscar alguns petiscos, hora apenas nos sentávamos à beira dos grandes poços para apreciar suas belezas e quando não esperávamos ela cruzou o nosso caminho : O rio começou a ficar rápido novamente e várias pequenas cascatas iam dando as caras e de repente o rio deu em salto no vazio e nos revelou uma grande queda que ia de um lado ao outro, quase como um pequena Catarata se jogando num lago profundo. Ficamos boquiabertos, era realmente uma grande surpresa encontrar uma cachoeira daquela. O Trovo e o Dema já lançaram suas mochilas de cima das cataratas e saltaram em meio as turbulências e se perderam no fundo das águas, os outros desceram pela esquerda aproveitando uma canaleta escorregadia mais fácil de descer e vendo que o pulo era seguro, parte do grupo deixou sua mochila sobre as pedras e também foi brincar de pular de cima da queda d’água.

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          Depois dessa cachoeira nada mais pareciam nos surpreender, o rio se transformou novamente em uma grande garganta e entre descidas memoráveis, escalávamos as paredes laterais e nos pendurávamos nas bordas escorregadias e se algo desse errado, era mais um corpo a despencar dentro dos poços profundos e aí o expedicionário virava vítima de piadas e tiração de sarro. Às vezes cansados de tanto nadar, recorríamos para alguma margem mais plana, mas quando isso nos aborrecia por causa dos bambuzinhos, voltávamos para o rio e nos lançávamos novamente na água porque já éramos praticamente anfíbios. Mas quando as corredeiras violentas voltavam, aí a gente se divertia como se estivéssemos a brincar num parque de diversões aquático e foi em um tobogã natural que o Trovo quase se lascou todo. Eu e o Regis iamos à frente nessa parte do rio, mas quando vimos que o negócio ficou perigoso, resolvemos sair da água e tentar analisar melhor antes de nos jogarmos num paradeiro incerto, mas o Trovo vindo em seguida, logo pergunta se dá para descer e o Régis sem pensar direito disse:” Manda bala “. E lá veio o Trovo desembestado feito um tronco sem rumo e quando o Regis resolveu recuar e tentar avisá-lo que a descida era insana, não deu mais tempo e só vimos o Trovo dar tchauzinho para câmera e despencar feito pica-pau sem barril.  

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          O Trovo escapou ileso, mas foi por pura sorte mesmo. A fúria da correnteza o jogou violentamente contra a parede lateral e antes que sua cabeça rachasse ao meio nas rochas, a mochila o salvou colidindo primeiro. Foi um grande susto para todo o grupo e mais uma vez ficou provado que usar capacete nunca sairá de moda e infelizmente o Trovo é o único do grupo que ainda não aderiu ao equipamento de segurança, confiança que poderia ter lhe custado a vida ou ao menos um acidente grave. Aliás, capacete, colete e perneira, eram itens que já há muito tempo vinham fazendo parte das nossas vestimentas, justamente por causa de outros acidentes ou quase acidentes que havíamos enfrentado em todos esses anos de expedições selvagens.

          O rio arrefece um pouco e as quedas vão dando lugar a pequenas cascatas precedidas por poços gigantes e corredeirinhas mais suaves e aí vamos aproveitando para poupar energia, nos deixando ser carregado pelas águas que nos servem de transporte. Aquele cenário é de uma beleza fora do comum, as praias infestadas de pegadas de onças, antas, pacas e uma infinidade de pássaros e nas matas, pés de palmeiras Jussara indicam que aquele é um lugar realmente ainda intocado pelo homem e a gente se sente uns privilegiados de podermos estar num lugar daqueles.

 

          A caminhada segue num ritmo tranquilo e a boiação parece nunca terminar e aproveitamos para conversar, mas a cada curva era de praxe voltar a elogiar a qualidade das águas do rio e a capacidade que ele tinha de nos surpreender e ficamos pensando nos companheiros que fizeram corpo mole para não vir porque achavam que o rio não valeria a pena, tanto que vez ou outra, alguém mandava um recadinho maroto para dar uma alfinetada em quem havia desdenhado. O final do dia já se aproximava, mas ainda achamos que 16 horas era um tanto cedo para acampar e para nossa surpresa, o terreno que até então havia se estabilizado, acabou dando lugar para uma garganta enorme, aliás, a maior garganta de todo o percurso. Uma grande cachoeira despencando no vazio e arrastando um turbilhão de água para dentro de um cânion. Não havia como descer por dentro do rio desescalando pedras, então a única maneira foi nos embrenharmos no mato por um breve momento, ganhar altura e voltarmos a descer na diagonal até interceptarmos o fundo do vale onde a cachoeira finalizava seu curso se jogando em mais um poço fenomenal, onde mais uma vez nos jogamos de cima das pedras e fomos nos deleitando sobre suas águas, nadando e vendo a pedras passarem no seu fundo transparente.

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          O rio resolve ficar raivoso novamente e a gente já começa a pensar seriamente em achar um lugar para acampar, mas não demora nadinha para as águas resolverem se rebelar de vez e saltarem de cima de uma grande laje para dentro de mais um impressionante poço. Anderson Rosa, Régis e Décio já não aguentam mais tanta água, mas o incansável Daniel Trovo nem pensa muito, atira a mochila de cima do barranco e se joga e atrás vamos eu e o Dema para mais um salto memorável, aproveitando o ingresso do parque aquático para brincar em todos os brinquedos. Seguimos agora por um rio mais afunilado, saltando sobre grandes pedras e quando dava, tentávamos caminhar pela margem na expectativa de localizarmos uma área mais favorável para montarmos nossas redes e numa dessas saídas do rio, caímos em um patamar com árvores frondosas espalhadas num terreno plano e aí não tivemos duvidas, atiramos nossas mochilas ao chão e demos por encerrado aquele dia intenso de aventuras, aliás, foram 11 km de descida de rio em um único dia, um recorde absoluto até então, algo que já jamais havíamos feito em nenhum outro rio.

          Realmente foi um dia daqueles e a gente estava muito feliz por tudo estar dando certo até aquele momento, as chuvas passaram muito longe da previsão e o grupo se manteve unido o tempo todo. A montagem das redes é uma coisa que mesmo trabalhosa, acaba por ser divertida por fazer parte do processo da expedição, um aprendizado que vai se construindo pouco à pouco. A confraternização é um daqueles momentos únicos nessas expedições, serve para afinar o grupo, rever alguns erros cometidos e repassar os momentos incríveis passados durante o dia. Mas pela atividade intensa, mal terminamos de jantar e todo mundo já foi se esticar na sua rede, alguns desmaiam rapidamente, outros ainda ficam jogando conversa fora durante algum tempo. Enquanto eu também não apago, fico pensando como vales como aquele ainda conseguem se manter longe dos olhos humanos durante tanto tempo, mesmo estando nas barbas da maior cidade do Brasil, lugares onde naquele exato momento poderia estar sendo vigiado por onças incríveis e outros animais sensacionais e aí transbordo de felicidade de poder fazer parte de algo único na vida, ter a honra de poder fazer parte de uma expedição como aquela.

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          O dia amanhece lindo e parece que logo pela manhã o sol já vai dar as caras e esse seria o nosso último dia de expedição e esperávamos não nos demorar muito para interceptarmos vestígio de civilização. Levantar da rede muito cedo não foi difícil, mas colocar roupa molhada é sempre algo que me aborrece, mesmo sabendo que os primeiros passos já serão por dentro do rio e de suas águas frias. Cada um tenta atravessar molhando o menos possível, mais tem logo uns tontos que desequilibram e vão para no fundo do rio e como dessa vez não fui um deles, me alegro de chegar apenas com a água perto da cintura, mas essa alegria não dura nem uma curva e logo o pelotão da frente já acha que deve se atirar no rio de cima de uma cachoeirinha para evitar a fadiga de ter que escalar paredes lisas para se manter ainda um pouco seco. Alguns de nós insiste em testar seus dotes de subidores de paredes e se equilibrando na ponta da unha, vão fugindo da água gelada e eu fui um deles, mas quando o caminho acabou e foi preciso trepar no barranco para rasgar mato no peito, toquei o foda-se e mergulhei nas profundidades do grande poço e já que estava no inferno, abraçar o capeta era o que estava tendo para hoje, nadei o mais rápido que pude, alternando entre longas braçadas e cachorrinho até me ver novamente as margens secas, são e salvo das baixas temperaturas matinais.

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          Aquele era mais um poço impressionante, como todos outros que passamos nessa expedição e logo um tronco chama atenção por parecer muito com a estátua O PENSADOR, famosa de Alguste Rodim  e aí não teve como não batizar aquele queda d’água como CACHOEIRA DO RODIM , nome dado , aliás, pelo Daniel Trovo. E essa cachoeira marca definitivamente a entrada da expedição na área já menos selvagem, mas nem por isso habitada. Ao Lado do grande lago, uma clareira abandonada há vários anos nos mostra que estamos mais perto da civilização e se tivéssemos nos apressado mais um pouco no dia anterior, talvez umas 2 horas, poderíamos ter acampado nessa clareira com um abrigo ainda em condições de ser usado. Dessa clareira saia uma trilha e foi por ela que seguimos por um bom tempo até localizarmos outro vestígio, um barraco destruído e sem uso também há vários anos pelo seu aspecto de abandono. A trilha se foi e o rio voltou a se tornar novamente nosso caminho e quando chegamos perto do que outrora fora uma ponte de troncos e que hoje também se encontra destruída, demos de cara com outra habitação, o BARRACO DO ESPANTALHO, esse sim parecendo ser ocupado de vez enquanto e por um golpe do destino, logo mais saberíamos quem seria o seu dono, de antemão não passam mesmo de rústicos casebres de madeira usados por caçadores locais.

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          Até tentamos seguir por uma trilha que partia dessa choupana, mas logo ela se perdeu no mato e voltamos novamente para o rio por onde andamos por um bom tempo, arrastando nossas botas no areião e quando tentamos interceptar um casebre que eu havia marca no mapa de satélite, demos com os burros n’água e tivemos que bater em retirada, varando uns bambus e uns cipós quase que intransitáveis. Um olhar atento nos levou para outro rabo de trilha e a seguimos até que ela se transformou numa estradinha abandonada em meio a uma plantação de bananas igualmente esquecidas na floresta. Essa estrada nos devolveu novamente ao rio e o cruzamos novamente para interceptar a continuação do caminho e nos agarramos a ele por mais de uma hora até que finalmente perto das 13 horas demos de cara com a sede da FAZENDA BRACINHO, na verdade um amontoado de algumas casas simples, mas em um lugar muito bonito. Dessa casa surgiu o caseiro, que sem querer muita conversa, nos indicou o caminho para fora da fazenda e essa foi a primeira pessoa com quem conversamos em 4 dias de expedição selvagem.

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Agora tínhamos uma missão ingrata de caminhar por uma estradinha de terra por mais de 7 km, debaixo de um sol para cada um e antes mesmo que essa penitência começasse, ” tio Décio”, aquele das tralhas inúteis, sacou do fundo da mochila uma peça de salame e foi imediatamente ovacionado pela “multidão” ali presente que já sem comida há muito tempo, deram muitas vivas e juraram amor eterno ao nobre expedicionário. Pouco mais de 1 km nos leva até um amontoado de casas e ao passar por um laguinho, ouvimos o chamado de um casal que do alto de sua habitação queriam saber que diabos aquele monte de gente estranha, com roupa esquisita estava fazendo por aquelas bandas e enquanto contávamos nossa história, uma travessa de torresmo, pão, café e refrigerantes nos foram servidos e por causa disso resolvemos transformar o então breve conto em um romance Homérico até que cada buraco do estômago fosse preenchido.

          Para pôr fim àquela travessia um pouco mais cedo, já sabendo que a volta para casa seria uma via crucies, voltamos para a estradinha enfadonha a fim de alcançar logo a Rodovia Régis Bitencourt no meio da Serra do Cafezal para tentar algum transporte até Juquitiba ou o para qualquer lugar que nos deixasse o mais próximo possível de São Paulo e foi aí que, logo depois da ponte que atravessa por cima do próprio Rio Bracinho, uma esticada de dedo totalmente descompromissada fez uma caminhonete parar imediatamente. Dela desceu um homem meio desconfiado, mas a sua curiosidade não o deixou seguir em frente e quando contamos rapidamente de onde vínhamos, seu Flávio arregalou os olhos sem acreditar no que acabara de ouvir. Rapidamente deu um jeito de acomodar todo mundo no veículo, alguns dentro e outras na carroceria. Seu Flávio é um fazendeiro plantador de bananas ali da região e costuma caçar ali nas cercanias do Bracinho e quando soube que havíamos descido o rio das nascentes até quase sua foz, seus olhos brilhavam e seu espanto foi ainda maior quando soube que passamos pelo vale selvagem sem portarmos nenhuma arma para nos defendermos das onças e porcos selvagens.

          Ao chegarmos perto da Rodovia, fez questão de passar num boteco empoeirado para nos mostrar à outros amigos ali da região e ao sabermos que ele estava indo para capital, não nos furtamos em angariar uma carona pelo menos para os que moravam muito mais longe, no caso meu e do Dema que residimos no interior e para outros que teriam que trabalhar na segunda- feira. Infelizmente acabou sobrando para o Décio e para o Rosa a tarefa ingrata de voltar para São Paulo pegando uma infinidade de ônibus, mas para nós que conseguimos a carona, acabou por ser uma viagem tranquila e divertida e às cinco da tarde já estávamos embarcando na rodoviária do Tietê para Sumaré, enquanto isso, Daniel Trovo e Régis já foram se perder para outros fins de mundo ali mesmo naquela cidade gigantesca.

          O Rio BRACINHO ganhou um nome ingrato por acharem ser ele um mero afluente, tributário menor do Rio São Lourencinho, que por sua vez era um importante afluente do Rio Juquiá, um grande rio da bacia do Ribeira do Iguape. O Bracinho se mostrou gigante, não só no seu comprimento, mas na sua importância dentro de uma região ainda inexplorada e selvagem, um vale até então totalmente desconhecido, no máximo arranhado em sua porção mais próximo à civilização. Quando resolvemos nos jogar na tal aventura, esperávamos encontrar um lugar selvagem, mas jamais poderíamos prever que esse rio se transformaria em um dos maiores achados de todos os tempos da Serra do Mar e o grupo que atravessou aquele vale, na sua maioria formado por senhores já de meia idade, saíram do outro lado com pelo menos uns 10 anos de idade a menos porque se entregaram ao deleite de voltarem a ser crianças para aproveitar esse grande parque de diversões natural. Para a geografia do Estado é mais um rio que foi acrescentado ao mapa e mesmo que passe muitos e muitos anos para que outro grupo resolva atravessá-lo, ele ainda figurará muito tempo longe das vistas destruidoras da raça humana, simplesmente pela sua dificuldade de acesso, como todos os outros rios que compõem o LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA.

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                                                                                                                                                           Divanei Goes de Paula- novembro/2018

         

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    • Por rafael_santiago
      Pico Hårteigen
      Início: Odda
      Final: Finse
      Duração: 7 dias
      Maior altitude: 1508m
      Menor altitude: 0m em Odda
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Alguns dias apresentam subidas e descidas mais longas. O único grande desnível é o do 1º dia (1445m).
      Hardangervidda é o maior platô de montanha do norte da Europa (vidde = platô). Nesse lugar tão singular foi criado em 1981 o Parque Nacional Hardangervidda, que é o maior da Noruega e refúgio de um dos maiores rebanhos de rena selvagem do mundo. O parque se situa ao sul da famosa estrada de ferro Oslo-Bergen, numa distância aproximada (em linha reta) de 180km de Oslo e 120km de Bergen. 
      Essa caminhada foi planejada para durar 10 dias, cobrindo, além do Hardangervidda, também o Parque Nacional Hallingsskarvet e o Cânion Aurlandsdalen, porém a chegada da chuva me fez interromper o percurso no 7º dia. A previsão do yr.no acertou e choveu ainda mais dois dias. Retomei a caminhada no dia 01/08 (relato em elaboração).
      O problema do trekking na Noruega (e na Suécia) é justamente o alto índice de chuva. Pelo menos para nós brasileiros, que não estamos acostumados a caminhar vários dias embaixo de chuva, porém para os noruegueses isso não tem a menor importância. Eles vão para a trilha com chuva ou sem chuva. Eu tive cinco dias seguidos de sol nesse trekking e isso foi uma tremenda sorte.
      A melhor época para o trekking nos parques da Noruega é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio) e menos neve pelo caminho. Justamente nessa época os refúgios do tipo staffed permanecem abertos. No início de junho deve ainda haver neve do último inverno dificultando a caminhada. O guia Walking in Norway, de Connie Roos, sugere fazer a travessia do Parque Nacional Hardangervidda depois de 10 de julho.
      Outro fator que dificulta o trekking por lá é a quantidade de pedras pelo caminho, às vezes são áreas extensas só de pedras, o que é bastante cansativo e obriga a caminhar com mais atenção para evitar uma queda ou torção. 

      Lago a 1194m de altitude no 6º dia de caminhada
      Em toda a Noruega, a DNT (Den Norske Turistforening = Associação Norueguesa de Trekking) (english.dnt.no) é a associação responsável pela manutenção das trilhas, pontes e refúgios de montanha. Os refúgios da DNT são de três tipos: self service, staffed ou no-service. Além dos refúgios da DNT há refúgios particulares.
      1. Nos refúgios self service você pode utilizar a cozinha para preparar as refeições, comprar a comida disponível se não tiver a sua própria e dormir nos beliches em espaços compartilhados. Antes de sair deve deixar tudo em ordem (lavar, secar, arrumar tudo, varrer o chão) e preencher o formulário de despesas. A conta será enviado para o seu e-mail tempos depois. Visitas diurnas (day visit) para descansar, comer ou apenas se aquecer devem ser pagas.
      A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 390 (US$ 47,14) e o day visit até 18h custa NOK 90 (US$ 10,88). Após 18h a visita deve ser paga como uma hospedagem. Sim, tudo na Noruega é muito caro!
      Os refúgios self service podem ter guarda ou não na alta temporada. Eu conheci nove refúgios nesse trekking, apenas dois deles eram não-guardados. Nesses vale ainda mais a confiança de que o hóspede está pagando por tudo o que utilizou.
      A DNT tem uma chave (fornecida somente aos membros) que abre a porta dos refúgios não-guardados, mas nesse trekking eu não encontrei nenhum refúgio trancado.
      2. Os refúgios staffed (com funcionários) são hotéis de montanha. Neles você tem café da manhã e jantar disponíveis e não é permitido usar a cozinha. De comida para vender costumam ter apenas lanches de trilha básicos, como chocolates.
      A hospedagem para não-membros neste tipo de refúgio custa NOK 286 (US$ 34,57) em dormitório. Consulte english.dnt.no/routes-and-cabins para outros preços.
      3. Os refúgios no-service são do mesmo estilo dos self service porém não têm comida. Não cheguei a conhecer nenhum refúgio desse tipo nos trekkings que fiz na Noruega.
      Os refúgios particulares são também hotéis de montanha e têm tabelas próprias de preços.
      Para quem está com barraca, nos parques da Noruega vale mais ou menos a regra do "allemannsretten" ou direito de andar (ou direito de acesso), que diz que é permitido acampar em qualquer lugar a mais de 150m de uma casa, desde que não seja uma área cultivada ou haja uma placa de proibição. Digo 'mais ou menos' porque vi isso valer apenas nos refúgios self service; nos refúgios da DNT do tipo staffed eles pediam para acampar (gratuitamente) bem longe, fora da visão do refúgio. Acampar perto do refúgio DNT staffed custa NOK 100 (US$ 12,09) e dá direito de usar o banheiro e a sala de estar. Para mais informações sobre o "allemannsretten": www.visitnorway.com/plan-your-trip/travel-tips-a-z/right-of-access
      O uso do banheiro para quem está acampando (ou apenas de passagem) é livre nos refúgios self service e costuma ser cobrado nos refúgios DNT staffed e particulares (ou gratuito se consumir alguma coisa). Nos self service o banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. Muitas vezes o assento e a tampa são de isopor e há uma outra tampa de madeira para colocar por cima. Costumam ter papel higiênico. Nos staffed é um banheiro normal e interno.
      Não há problema de escassez de água nesse percurso e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos.
    • Por rafael_santiago
      Laguna de los Caballeros
      Início: Cuevas del Valle
      Final: Tornavacas
      Duração: 11 dias
      Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha
      Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há grandes subidas e descidas quase todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 995m.
      A Serra de Gredos se estende no sentido leste-oeste cerca de 130km a oeste de Madri e está inserida nas comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura (comunidades autônomas na Espanha são mais ou menos como estados no Brasil). Ela está dividida em Maciço Oriental, Maciço Central e Maciço Ocidental. Nesse trekking eu percorri de ponta a ponta o Maciço Central, que vai de Puerto del Pico a Tornavacas. Do 1º ao 9º dia eu caminhei dentro dos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. O único problema dessa caminhada foi a época escolhida. Em final de junho e início de julho o calor chega próximo dos 40ºC, o que é bastante desgastante e inapropriado para o trekking. No início de junho há o risco de ainda haver bastante neve nos picos mais altos. Creio que a melhor época seja o outono (set, out), antes das neves do final do ano.
      É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas em todo o percurso eu montei a barraca no cair da noite (ou quase), desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.

      Serra de Gredos
      1º DIA - 25/06/19 - de Cuevas del Valle à crista da Serra de Gredos
      Duração: 4h (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 1839m na crista da Serra de Gredos
      Menor altitude: 844m em Cuevas del Valle
      Resumo: nesse dia encarei a subida inicial da Serra de Gredos a partir da cidade de Cuevas del Valle, com desnível de 995m desde essa cidade à crista da serra
      Na Estacion Sur em Madri tomei o ônibus da empresa Samar às 11h para a cidade de Cuevas Del Valle. Desci do ônibus às 13h52 e aproveitei que havia um restaurante a poucos metros para uma última refeição decente antes de entrar na trilha. Altitude de 844m. Iniciei a caminhada às 15h05 cruzando o asfalto da N-502 e depois a cidadezinha de Cuevas del Valle no sentido norte. Como era hora da siesta, o lugar estava completamente deserto. O calor ajudava a manter as pessoas dentro de casa, longe daquele sol forte. Há uma bica de água fresca num largo logo à entrada da cidade para abastecer os cantis já que não haverá muitas fontes nesse dia. Passei à direita da Capela de Nossa Senhora das Angústias e na bifurcação seguinte tomei a direita, subindo e seguindo a sinalização da GR 293 em direção a Puerto del Pico (para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido). Esse caminho é chamado de Calzada Romana.
      Mas logo tive de fazer a primeira parada na sombra, por 30 minutos, pois o sol estava fritando. Continuando a subida, fui à direita na bifurcação e encontrei um cocho com água corrente, mas cheio de lama ao redor. Às 16h08 cruzei a N-502 e continuei subindo pelo calçamento de pedras da Calzada Romana. Parei mais três vezes na sombra. Às 17h34 cruzei mais uma vez a N-502 e 17 minutos depois parei na última água do dia para completar todos os cantis. O caminho faz um zigue-zague e já se avista Cuevas del Valle bem abaixo. Passo pelas ruínas do Portazgo (posto de pedágio do século 13) às 18h07 e 10 minutos depois termina a Calzada Romana junto à rodovia (altitude de 1371m). Esse lugar se chama Puerto del Pico (puerto em espanhol significa passo entre montanhas) e aqui entro nos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. Puerto del Pico é o limite natural entre os maciços central e oriental da Serra de Gredos.
      Continuo por caminho paralelo à N-502 com a extremidade oriental do Maciço Central da Serra de Gredos à minha esquerda esperando para ser "escalada". Entrei no primeiro asfalto à esquerda e caminhei apenas 70m até um portão de ferro com mata-burro ao lado. Não cruzei o portão, entrei na trilha à esquerda antes dele às 18h25. Uns 170m depois entroncou uma outra trilha vindo da esquerda e a segui até encontrar uma cerca. Acompanhei a cerca subindo para a esquerda e ao final dela a trilha desapareceu por alguns metros. Segui os totens e a reencontrei. Já estava subindo a encosta da Serra de Gredos. Do outro lado de Puerto del Pico, a leste, avisto bem marcada a trilha de ascensão ao Pico Torozo, este já pertencente ao Maciço Oriental da Serra de Gredos.
      A subida pareceu ter fim aos 1622m, às 19h28, mas continuou. Procurei me manter à direita para chegar logo à crista. Novamente a subida pareceu ter fim aos 1749m, às 20h19, porém só atingi mesmo a crista da Serra de Gredos às 20h43, aos 1839m. Logo surgiu um aceiro vindo da direita e o tomei para a esquerda. Em 200m cheguei a uma estrada de terra bem no alto da serra (!?) e resolvi parar às 21h17 num lugar plano, abrigado do vento e sem tantas pedrinhas para montar a barraca. A primeira impressão da Serra de Gredos foi empolgante, com ampla visão em 360º. Há muitas formações rochosas de formatos curiosos, com grandes pedras equilibradas umas sobre as outras. Dali do alto também pude contemplar um belo pôr-do-sol às 21h45. Altitude de 1814m.

      Serra de Gredos
      2º DIA - 26/06/19 - pela crista da Serra de Gredos até o Pico Peña del Mediodía
      Duração: 6h35 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2221m em Peña del Mediodía
      Menor altitude: 1810m
      Resumo: caminhada para oeste pela crista da Serra de Gredos, porém quase não há trilha definida. Procurar o caminho (ou abrir caminho) entre as moitas de piorno foi cansativo.
      Do local onde acampei na crista podia avistar toda a paisagem dos vales ao norte da Serra de Gredos e a continuação da serra para oeste, meu destino nos próximos dias. 
      Deixei o acampamento às 10h42 e voltei a caminhar pela estrada no sentido oeste, mas quando ela fez uma curva para a direita (norte) subi à esquerda sem trilha seguindo totens para me manter na crista da serra. Às 11h39 um amontoado de rochas com uma coluna no topo me chamou a atenção e subi para conferir o que havia ali. Trata-se do cume La Fría, onde foi instalado um vértice geodésico. A visão para oeste se amplia bastante.
      Na continuação, me deparei com um grupo de cabras montesas que imediatamente fugiu, porém um filhote ficou para trás, no alto de uma pedra, apavorado com a minha presença. Ele saiu bem na foto, rs. A encosta norte da serra nesse ponto tem várias estradas de terra e há mais em construção, o que tira todo o "clima" de montanha do lugar. 
      Às 12h25 cruzei uma fileira de mourões sem cerca (ainda) e 32 minutos depois encontrei uma bica de água quase seca, apenas um fio escorria, mas consegui coletar mais abaixo e bebi o máximo que pude pois as fontes são muito raras nessa serra (essa foi a única água desse dia). Um marco de madeira fincado tem uma plaquinha "Senda Puerto del Arenal". Continuei às 13h55 e 190m depois cheguei a uma placa em que se lê: Puerto del Arenal - Ruta Navarredonda-Puerto del Arenal PR-AV 45 (mais informações sobre as trilhas PR em es.wikipedia.org/wiki/Peque%C3%B1o_Recorrido). Nesse ponto chega uma trilha que vem da localidade de El Arenal pela vertente sul da Serra de Gredos e que serve como rota de fuga ou início alternativo a esse trekking. Já vinha avistando El Arenal lá embaixo no vale desde o Pico La Fría.
      Às 16h11 outra placa: Puerto de La Cabrilla - PR-AV 44, que é outro caminho de El Arenal a Navarredonda de Gredos. A partir daqui a serra começa a se mostrar mais florida pois surgem os grandes campos de piorno, que dá flores amarelas em abundância. A dificuldade era abrir caminho entre os piornos já que não encontrava trilha definida e contínua.
      Às 20h05 alcanço a maior altitude do dia no Pico Peña del Mediodía, de 2221m, também com uma coluna e um vértice geodésico. A partir desse pico aparece uma trilha ininterrupta, antes só pedaços de trilhas. Continuando para oeste, 400m depois do pico desvio alguns metros à direita até um marco de granito para fotos. A partir do marco a trilha inicia uma longa descida a um outro "puerto". Desconfiei que seria difícil encontrar um lugar plano para a barraca, então procurei nas imediações do marco, onde o terreno era plano e as moitas de piorno me davam alguma proteção contra o vento. Altitude de 2211m.

      Cabra montesa e ao fundo os picos Almanzor e La Galana
      3º DIA - 27/06/19 - do Pico Peña del Mediodía ao Refúgio Elola
      Duração: 8h30 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2262m
      Menor altitude: 1948m na Laguna Grande
      Resumo: continuação pela crista da Serra de Gredos passando por dois refúgios em ruínas e descida ao Circo de Gredos, com a Laguna Grande e o Refúgio Elola
      Iniciei a caminhada do dia às 9h10, passei pelo marco de granito e comecei a descer ao Puerto del Peón. A decisão de acampar lá no alto se mostrou muito acertada pois encontrei um grupo enorme de jovens bivacando cerca de 300m antes do puerto. Como é proibido montar barraca eu teria no dia anterior que caminhar bem mais e me afastar deles para poder acampar. Às 9h42 passei pela placa que indica o Puerto del Peón, local que marca uma travessia no sentido sudeste-noroeste da Serra de Gredos e que provavelmente era o roteiro daquele grupo pois não os vi mais.
      Na continuação para sudoeste, a trilha cai por algum tempo para a vertente norte da serra e depois obriga a subir à crista outra vez. Cruzo mais campos de piornos floridos mas em seguida chego a uma região mais árida da serra, um local praticamente só de pedras, e ali, às 11h14, me deparo com as ruínas do Refúgio Los Pelaos, todo de pedras. Há bons espaços para pernoitar protegido do vento desde que você não se impressione com as paredes prestes a desabar. O local também é rota de uma travessia no sentido norte-sul da Serra de Gredos. Uma caminhada alternativa seria subir ao Pico La Mira, de 2343m (desnível de apenas 91m desde as ruínas), mas não encarei. O mais importante: tem água.
      Às 12h33 prossegui na trilha para oeste e 190m após as ruínas atinjo a maior altitude do dia, 2262m (alcançarei outra altitude igual ainda nesse dia). No horizonte a oeste já avisto uma cordilheira com os picos Almanzor, La Galana e o passo Portilla del Rey, pelo qual passarei entre a Laguna Grande e as 5 Lagunas. A trilha volta a cruzar o tapete amarelo de flores e a crista continua o seu sobe-e-desce. Caminho por alguns trechos com calçamento de pedras. Às 15h05 fui à esquerda (sudoeste) numa bifurcação seguindo os totens, sem trilha definida (à direita teria descido a um estacionamento chamado La Plataforma).

      Campos de piorno
      Às 15h21 avistei a oeste o Refúgio del Rey, ainda bem distante. Desci e ao subir ao topo da colina seguinte visualizei a trilha à frente e abaixo. Desci novamente e a encontrei às 16h29. Com mais 8 minutos cheguei ao Puerto de Candeleda (com placas indicando ser a PR-AV 46), outra rota que cruza a serra de norte a sul. Parei para descansar e comer, e para meu espanto apareceu um outro louco solitário fazendo a travessia da serra com um enorme mochilão com não-sei-quantos litros de água. Conversamos um pouco e ele seguiu na frente. Às 17h22 continuei na direção oeste numa longa subida, percorrendo depois uma crista para o norte. Às 18h06 fui à direita numa bifurcação para ver de perto as ruínas do Refúgio del Rey. Ao lado fizeram um cercado com as pedras desabadas que serve como abrigo do vento para um bivaque. Perto do refúgio encontrei água quase parada mas 80m à frente (norte) havia uma ótima bica. Continuei para o norte por uma trilha larga às 18h55. 
      Às 19h17 cheguei a uma cabeceira de vale com capim bem verde e bastante água, ao contrário da secura que vinha enfrentando até aqui. Seguindo os totens cruzei o riacho e subi por um caminho construído com pedras, passando por pequenas lagoas. Às 19h52 uma bonita visão para a esquerda (oeste) das montanhas pontiagudas próximas à Laguna Grande, meu destino nesse dia. Porém a laguna estava bem longe ainda e a descida direta para oeste não se mostrou animadora pela inclinação e ausência de trilha. O jeito foi continuar para o norte, dando uma volta bem grande, mas por trilha bem marcada e segura. Aqui atinjo também a maior altitude do dia, 2262m. Fui à esquerda na bifurcação e comecei a descer. Às 20h33 cheguei a uma bifurcação em T e continuei descendo para a esquerda. À direita se vai à Plataforma e esse é um caminho bastante usado para chegar ao Refúgio Elola. Passei por uma fonte de água e continuei no rumo sudoeste até as margens da Laguna Grande. Contornei toda sua margem leste e sul para enfim chegar ao Refúgio Elola às 21h36, quase no pôr do sol. Esse local é conhecido como Circo de Gredos.
      Este refúgio foi o único que encontrei guardado, ou seja, com guardas, que aliás estavam jantando e por sorte sobrou alguma janta para mim também. Dentro do refúgio deve-se usar apenas chinelos ou crocs, disponíveis em prateleiras na entrada. Há armários com chave. Os quartos são coletivos e têm beliches bem largas onde dormem muitas pessoas uma ao lado da outra, por sorte havia pouca gente e não precisei dormir espremido. A reserva costuma ser obrigatória mas pelo número pequeno de hóspedes não houve problema em não tê-la feito. O banheiro não tem vaso sanitário e sim uma peça de metal com buraco no chão, como no Nepal. Altitude de 1958m.
      Talvez o principal destino dos montanhistas que procuram esse refúgio seja o Pico Almanzor, o mais alto da Serra de Gredos, com 2591m.
    • Por Cyndell Floresta
      Queridos mochileiros, 
      Esse relato é da minha primeira travessia, já havia feito trilhas difíceis e longas, mas uma trilha de dias de duração, foi a primeira. No ano novo de 2012/2013 fui de Trindade até Ponta Negra, acampando na Praia do Sono. Foi então que, encantada com a paisagem selvagem da região inserida em uma Unidade de Conservação, em 2015 eu e mais duas amigas resolvemos ir de Trindade até Pouso da Cajaíba. Gostaria de aproveitar e agradecer os relatos que li aqui no fórum, nos ajudaram muito nessa travessia, posso garantir que não nos perdemos nenhuma vez. Obrigada a todos que colaboram nessa rede. 
      Saímos de São Paulo bem cedo no dia 26/12/2015  de ônibus, rumo a Paraty-RJ. Pedimos ao motorista para nos deixar na entrada da Vila de Trindade, lá esperamos o ônibus Municipal de Paraty para descer até a vila. 
       

      Ponto de ônibus na beira da Rio-Santos, entrada da Vila de Trindade.
      Na foto da esquerda para a direita: Eu, ainda estudante na graduação de Engenharia Florestal, Angela, chilena, na de medicina e a Nara também na florestal.  
      Pegamos o ônibus e descemos no último ponto, a Vila do Oratório. É lá que inicia-se a trilha para a Praia do Sono. Um sol forte, mesmo já tendo passado das 14:00, nos deixou bastante ofegantes, mas a trilha é bem demarcada e fácil. Chegando lá, nos aconchegamos num camping mais ao fim da praia, a fim de ficarmos próximas da trilha para a Praia dos Antigos, seguiríamos bem cedo no dia seguinte
      .  
      Nem começou e já deu uma canseira kkkk.

      Na praia do Sono, depois de desarmar nosso camping.
      De manhã, como combinado, fomos rumo a Praia da Ponta Negra. A primeira parada foi na Praia dos Antigos, lá tem uma pequena queda d'água que desemboca na praia, ficamos lá um bom tempo, estava extremamente quente e o mar era um convite irrecusável nesse paraíso.

      Subida íngrime entre a Praia do Sono e a Praia de Antigos, já de manhã o sol castigava nossas cabeças!
       

      Como podem ver, a Angela resolveu levar seu violão para a viagem!
        
      No cantinho com sombra na praia, passamos um bom tempo curtindo a Praia dos Antigos.

      Paraíso, sem mais.
      Chegando a Praia de Ponta Negra, acampamos no Camping da Branca, resolvemos dormir cedo, pois no dia seguinte faríamos a trilha para a Cachoeira do Saco Bravo, a ideia era passar o dia lá e dormir novamente em Ponta Negra, para só então no outro dia seguir em frente na travessia para a Praia de Cairuçu das Pedras.

      A caminho da Cachoeira do Saco Bravo

      Ponta Negra vista de cima.

      Vista linda da trilha.

      Suando muito, mas tudo muito bem compensado com essa vista verde a perder-se no horizonte. É uma satisfação enorme ver a Mata Atlântica assim S2.

      Minhas queridas!

      Curtindo muito fazer a trilha sem o peso dos mochilões!

      A cachoeira do Saco Bravo é incrível, fiquei realmente impressionada com o lugar. A cachoeira fica no costão rochoso, desaguando portanto no mar. A única forma de acesso é por trilha, não há como ir de barco.

      Reparem na proporção, o tamanho da pessoa lá embaixo.

      Mais uma desse pico incrível. 


      Na volta da trilha, nos deparamos com flores lindas na mata.


      Chegamos no fim da tarde em Ponta Negra, tomamos um banho, jantamos e fomos dar uma volta para se despedir do pico.

      Bateu uma saudade essa foto! Vista linda da Praia da Ponta Negra.
      Partimos pela manhã para Cairuçu das Pedras, a trilha é longa, mas escolhemos ir devagar e parando para curtir a trilha, demoramos cerca de quase 5 horas, com toda certeza dá pra fazer em menos tempo. Porém paramos para comer, curtir algum curso d'água que estivesse pelo caminho e cantar muito com o violão!

      Nessa foto, estamos ainda em Ponta Negra com mochilão e violão!

      Flor extraterrestre.

      Pelo caminho, só as belezas da Mata Atlântica. Reparem nessa bromélia!
      Chegamos em Cairuçu das Pedras ainda de dia. A praia é lindíssima e as águas límpidas. Acampamos no quintal dos caiçaras que nos receberam super bem, o camping fica no alto. De lá, a vista da praia com o céu estrelado é um show e serviu de palco para muitas canções com o violão na única noite que passamos por lá. 

      Uma das fotos mais lindas da viagem!!

      No deck em frente a Cairuçu.

      Mais uma nessa praia maravilhosa.

      Nos munimos de banana para seguir viagem, agora, rumo a Martim de Sá para passar a virada de ano!

      Olhem a vista de Cairuçu!!!
      Bem cedinho, partimos para Martim de Sá, nosso objetivo era passar a virada de ano lá e também ficar alguns dias (mas acabamos estendendo até o dia 12 de janeiro). A trilha foi tranquila,  quando chegamos lá, nos deparamos com o camping bem lotado. Depois de dar várias voltas, conseguimos achar um cantinho legal para armarmos nosso acampamento. Martim de Sá tem uma vibe e energia únicas, é fácil fazer amizades e logo todo mundo vira uma grande família. Nossa estada lá foi i-nes-que-cí-vel, é um verdadeiro paraíso na Terra. 

      Parada para refrescar a caminho de Martim de Sá.

      Impossível não parar a trilha para curtir essa água doce transparente no meio da mata! A trilha também é atração principal, tanto quanto o destino final!
      Martim de Sá tem muita coisa pra fazer, não dá pra ficar entendiado! Tem o Encontro dos Rios, a cachoeiras, além de estar num local estratégico para ir até Cairuçu, Praia da Sumaca e Pouso da Cajaíba num tempo de trilha relativamente curto.
      O ano novo foi demais, foi feita uma fogueira na praia e todo mundo do camping se reuniu para celebrar a passagem do ano, vibe indescritível da galera, o céu "estralando" de estrelas, o clima perfeito!


      Curtindo a praia de Martim de Sá antes da grande virada.

      Um pouco do clima de Martim de Sá!

      Goró na mão pra não passar em branco! kkkk

      Feliz, feliz, feliz.....

      É disso que to falando! S2!

      Fogueira e música.
      Os dias transcorreram com muita alegria e aventura, como disse, acabamos ficando até o dia 12 de janeiro. Nesses dias fomos conhecer a Praia da Sumaca, voltamos a Cairuçu e íamos frequentemente para Pouso da Cajaíba para pegar mais comida e bebidas e dar um alô para nossa família. O camping, assim como em Cairuçu, é bem roots, o que pra mim não é problema algum, lá não tem energia elétrica e nem sinal de celular, é uma experiência única ficar REALMENTE desconectado do mundo moderno, posso afirmar que você curte sua viagem de maneira diferente e com certeza mais intensa. A conexão com a natureza nesse lugar é muito forte e logo começa a transparecer no nosso corpo físico. Eu me sentia extremamente bem lá, sempre disposta e com muita energia! Nosso mental/emocional fica muito ZEN e você se vê sendo gentil, amável e sociável com todas as pessoas. Lugar mágico!

      Cachu em Martim de Sá.


      Em dia de chuva em Martim, era comer e tocar violão.

      Camping esvaziando após a virada de ano.

      Um pouco mais do camping.

      Sossego em Martim.

      Eu no canto direito de Martim de Sá, por onde parte a trilha até o Encontro dos Rios.


      Bica no meio da praia Martim de Sá.

      Cachoeira do escorrega, mais conhecido como escorreguinha. 10 minutos de trilha.

      A caminho da Sumaca.

      Trilha para a Praia da Sumaca, já estávamos próximas.

      Na descida para finalmente chegar a Praia da Sumaca

      Morrendo de calor, mas estamos aí!
      Praia da Sumaca



      A Praia da Sumaca é ma-ra-vi-lho-sa. Dá para acampar também. Assim como em Martim, mora apenas uma família caiçara no local que dispõe de uma área para camping, também sem energia elétrica e sinal de celular: Roots!

      Eu e a praia da Sumaca S2
      Outra grande atração de Martim de Sá é o Encontro dos rios. Um grande curso d'água que deságua direto no mar, para chegar até lá, basta pegar uma trilha rápida no canto direito da praia.

      Angela no Encontro dos Rios.

      Pescaria.

      Na dúvida de pular ou não!
       
      Vai que vai!

      Vários protelando o momento do salto!
      Com tantos dias em Martim, aproveitamos e retornamos num bate-volta até Cairuçu das Pedras com toda a turma do camping!

      Turma reunida para a foto, que lembrança! 
      Após o bate volta para Cairuçu, começava a chegar a hora de partir de Martim de Sá. Aproveitamos nossos últimos dias no paraíso para então levantar acampamento até Pouso da Cajaíba, onde pegaríamos o barco para Paraty.

      Eu e minha irmãzinha Nara aproveitando os últimos dias em Martim.

      Hang Loose!

      Angela, mandando bem nos malabares.

      Abacaxi!

      Em Pouso da Cajaíba, aguardando a saída do barco até Paraty.

      Depois de muitos dias, tomando um guaraná geladíssimo!

      Pouso é uma delícia também, na próxima, pretendo acampar um dia lá antes de ir para Martim de Sá.
      Chegando em Paraty descobrimos que só tinha passagem para dali 2 dias, então aproveitamos duas noites super agitadas na cidade. O bom é que a despedida foi gradual, seria muito abrupto sair daquele lugar tão isolado, rodeado pela natureza, e já ir direto para São Paulo!
      Espero que tenham gostado do relato dessa odisseia. Recomendo muito esta aventura, estou a disposição para tirar dúvidas! Aliás, foi ótimo relembrar a viagem através desse breve relato, é o meu primeiro, então pode não estar bem estruturado, mas tentei passar um pouco da minha experiência com as fotos e os textos breves!
      No inicio deste ano (2019), fiz uma viagem de uma semana para a Praia do Puruba em Ubatuba, lugar mágico! Em breve farei o relato dessa trip! 
      Abraços, mochileiros! 
       
       
       



    • Por dji_pedro
      PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas
      Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas.  É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. 
      Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem.  A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion.  É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. 
      Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis.  Rodamos a madrugada inteira.  Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade.  À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! 
      À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia.
      30 de Junho – 1º DIA (domingo)
      O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí.  Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. 
       

       
      Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas.
      Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes.
      Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa!
      Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! 

       

      No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking.
      Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. 
      Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada.  Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati.  É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati.
       

      Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava.

      Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. 

       
      Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez.

      01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira)
      Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados.
      O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo.  Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir.  
       

      Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio.  Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero.  Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! 
       

      O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. 

      Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez.  Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo.  
       
      Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo.  1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. 
      Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia.  A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado.

       
      A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 
      02 de Julho – 3º DIA (terça-feira)
      Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. 
       
      Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante.  A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. 

      Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos.
      Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu.  E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos.  O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros.


      Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto.  A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. 

      O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo.  Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa.  A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos.  Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. 

      Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira.  Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina.
      No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa.  Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale.
      A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos.

      03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira)
      Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso!
      Agora temos forte subida.  Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.


      Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo.  Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! 

      Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata.  De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. 

      Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo.  

      Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas.  Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer.
      O Morro do Castelo é colossalmente bonito.  O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso.


      Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. 

      Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. 
      Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa.  Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo.  Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera!
      Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati.
      04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira)
      Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.

      Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras.  Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata.

      Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo.  Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto.  Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem.  Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha.

      Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda!
      As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais.  Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis!
       

       























































      Pati_Selvagem_-_Uma_Aventura__-_31_-08.docx


    • Por rafael_santiago
      Siete Picos
      Início: Cercedilla
      Final: Cercedilla
      Duração: 5 dias
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia).
      A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Há vários roteiros possíveis de caminhada pela serra, com durações que vão de um a vários dias, porém o acampamento selvagem é proibido no parque (bem como em toda a Espanha), sendo permitido apenas o bivaque acima dos 2100m e somente por uma noite. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos dessa serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todas ficam cobertas de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados.

      Vista do Pico Peña Águila
      1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila
      Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila
      Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos
      Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e a trilha não era nada óbvia. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda por 100m até sua guinada para a esquerda, onde passa num túnel por baixo da linha férrea - exatamente na guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente para encontrar sob as árvores a trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para oeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas. 
      A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo (a trilha que sai à direita antes da rua não serve). O casarão bem em frente à trilha funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil. Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20. Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita, mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda, subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo. Para mais informações: es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido.
      Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche. 

      Pico Peña Águila com piornos floridos
      Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría.
      Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul.
      Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida.
      Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita. Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda até uma cancela igual (à direita), onde tomei a estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). 
      Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. 
      Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Laguna de los Pájaros
      2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara 
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos
      Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m
      Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste.
      Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. 
      Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação.
      Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10.

      La Pedriza
      3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza
      Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor
      Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza
      Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m
      Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce).
      Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul.
      Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. 

      La Pedriza
      Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele.
      Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. 
      Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real.
      Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. 

      Sierra de los Porrones
      4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada
      Duração: 8h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia.
      Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). 
      De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem nos parques da Espanha é proibido, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.
      Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08.
      Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia.
      A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. 

      Sierra de los Porrones
      Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem.
      Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste.
      Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). 
      Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. 
      Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla
      Duração: 6h05 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos
      Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m
      Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. 
      Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto.

      Piornos floridos
      Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37.
      A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10.
      A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. 
      Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      Informações adicionais:
      . trens na Espanha: www.renfe.com
      . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: 
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx
      . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2
      . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx
      . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 euros o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003
      Rafael Santiago
      junho/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br


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