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Travessia da Serra Fina Full em 3 dias


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Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
– conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
real beleza que veríamos.
Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,

ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
dela e partiríamos assim que possível.
Primeiro dia
A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.

Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
dia que nascia.
Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
base da cachoeira vermelha, às 8h.
Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha

Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
12h.
Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.

Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
até a parede quase vertical do acampamento base.
Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.

Segundo dia
Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
e a PM compensava o desconforto.
Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
explorando os arredores da trilha tradicional.
Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos

camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
passagem, na travessia full anterior.
Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição

bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
para cima.
Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
agua até o final da tarde do dia seguinte.
Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas

águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
isolante “casca de ovo”.
Terceiro dia
Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
“safar a onça”.
Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a

posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
“nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
com o sol rachando tudo e a todos.
Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
do grupo em que estava.

O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
generosos goles.
Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.

Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
algumas passagens.
Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!

 

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    • Por rafael_santiago
      Siete Picos
      Início: Cercedilla
      Final: Cercedilla
      Duração: 5 dias
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Dificuldade: média para quem está acostumado a trilhar com mochila cargueira. Há muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 1227m (4º dia) e 1435m (1º dia).
      A Serra de Guadarrama se localiza a cerca de 70km a norte-noroeste de Madri e é avistada tanto dessa cidade quanto da cidade de Segóvia. Para proteger seus recursos naturais foi criado o Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama.
      Esse parque nacional é bastante novo, criado em junho de 2013, mas ele veio para ocupar áreas já pertencentes a dois outros parques: o Parque Natural de la Cumbre, Circo y Lagunas de Peñalara, de 1990, e o Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares, de 1985.
      Há vários roteiros possíveis de caminhada pelo parque nacional, com duração de um ou vários dias. Eu escolhi fazer um trajeto de forma circular a partir da cidade de Cercedilla que percorresse seis dos cumes mais altos da serra: Peñalara (2427m), Cabeza de Hierro Mayor (2376m), Bola del Mundo ou Alto de las Guarramillas (2254m), La Maliciosa (2219m), Siete Picos (2117m) e Peña Águila (2011m). Essas altitudes parecem bastante modestas, inclusive se comparadas às montanhas mais altas do Brasil, porém todos esses picos ficam cobertos de neve no inverno, o que obriga ao uso de equipamentos apropriados. 
      A maior parte desse meu trajeto acontece dentro da área do parque nacional, com uma pequena parte dentro da área atual do Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares, porém não há nenhuma sinalização nas trilhas indicando os limites desses parques. Por não ter essa informação exata, prefiro não mencionar no texto onde possivelmente entro e saio deles.
      QUANDO IR
      Para trekking o verão, para esqui o inverno. Como nos meses de férias de verão há muita procura por essa região, o guia Lonely Planet recomenda o trekking nos meses de junho e setembro. 
      CAMPING SELVAGEM
      O camping selvagem é proibido em toda a Espanha. Ou permitido com muitas restrições em algumas comunidades e parques. Vamos detalhar isso um pouco.
      Primeiro é preciso falar da pequena confusão que existe na Europa entre os termos "camping selvagem" e "bivaque". No Brasil entendemos ambos os termos como pernoitar em um local não estruturado, não destinado a esse fim, escolhido ao acaso. A diferença para nós é que o "camping selvagem" pressupõe montar uma barraca ou alguma cobertura, e o "bivaque" é simplesmente dormir a céu aberto, com um saco de dormir ou saco de bivaque apenas.
      Na Europa nem sempre o entendimento é dessa forma. No caso da Espanha, segundo os sites consultados, os conceitos são os seguintes:
      . acampada libre: montar a barraca e permanecer vários dias com ela montada num local não estruturado
      . acampada nocturna ou pernocta con tienda: montar a barraca ao anoitecer e desmontar ao amanhecer, típico de uma caminhada de longa duração
      . vivac: dormir sem barraca ou outra cobertura montada
      Já em outros países, como a França, os dois conceitos acima de "acampada nocturna" e "vivac" são chamados de "bivouac", ou seja, para os franceses bivacar é passar uma noite num local não estruturado, com ou sem barraca. Já a "acampada libre", a ideia de permancer vários dias com a barraca montada, na França se chama "camping sauvage".
      Como estamos tratando da Espanha nesse relato, vamos colocar esses termos tal como os espanhóis os entendem.
      A "acampada libre" (pernoite com barraca montada por vários dias) é proibida em toda a Espanha, inclusive em todos os parques nacionais e regionais. Algumas comunidades autônomas a permitem, mas com muitas restrições (ver abaixo). Já a "acampada nocturna" é permitida em três dos dez parques nacionais da Espanha continental (Ordesa y Monte Perdido, Picos de Europa e Sierra Nevada), com restrição de horário para montar e desmontar a barraca e somente acima de determinada altitude. O "vivac" (pernoite sem barraca) é permitido apenas nos três parques citados e aqui no Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. A questão fica nebulosa quando a normativa do parque proíbe explicitamente a "acampada libre" mas não fala nada sobre a "acampada nocturna" e o "vivac".
      Quando o trekking é feito fora das unidades de conservação o que vale é a legislação do município e da comunidade autônoma. Fontes de consulta sobre as normas das comunidades autônomas são este site e este site. Neles vemos que a maior parte das 17 comunidades autônomas proíbe a "acampada libre" e a "acampada nocturna", ou as permite com muitas restrições como: distância mínima de cidades e estradas, número reduzido de barracas e pessoas, tempo máximo de permanência, exigência de permissão das autoridades locais. Mas a legislação do município é superior à da comunidade autônoma, o que torna ainda mais difícil saber se o acampamento (com ou sem barraca) é permitido em determinado local.
      Este trekking atravessa duas unidades de conservação: o Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares e o Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. Em ambos a "acampada libre" é proibida (veja aqui e aqui). Como mencionei, o "vivac" (dormir sem barraca montada) é permitido no Guadarrama, mas somente no núcleo Peñalara e acima de 2100m de altitude (veja aqui). Nos arredores desses parques vale a legislação das comunidades autônomas de Madri e Castela e Leão. Ambas também proíbem a "acampada libre" (veja aqui e aqui), sem referência nos textos oficiais à "acampada nocturna" e ao "vivac".
      O que fazer durante uma longa travessia então?
      Se você for adepto do bivaque (dormir apenas com saco de dormir, sem barraca) não deverá ter problema algum. Se quiser montar a barraca, escolha um local bem discreto e afastado, fora do caminho e bem longe de estradas e casas. Monte a barraca ao anoitecer e desmonte ao nascer do sol. Deixe o local exatamente como o encontrou, as regras de mínimo impacto devem ser sempre seguidas (veja aqui). Para quem gosta de fazer fogueira, é melhor esquecer.
      REABASTECIMENTO DE COMIDA
      Há mercados em Cercedilla (1º e último dias) e Manzanares El Real (onde pretendia ficar no Camping El Ortigal no 3º dia). Puerto de Cotos (1º e 2º dias) tem o bar-restaurante Venta Marcelino, além do restaurante do Refugio de Cotos. Puerto de Navacerrada (4º dia) tem restaurantes e um pequeno comércio, mas encontrei tudo fechado.

      Vista do Pico Peña Águila
      1º DIA - 17/06/19 - de Cercedilla a Puerto de Cotos com subida do Pico Peña Águila
      Duração: 8h05 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2011m no Pico Peña Águila
      Menor altitude: 1140m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: nesse dia encarei as primeiras subidas da caminhada com desníveis de 871m desde Cercedilla ao Pico Peña Águila, depois 149m até Puerto de la Fuenfría e 415m da rodovia CL-601 até Puerto de Cotos
      Na estação Chamartín, em Madri, tomei às 8h10 o trem Renfe com destino à pequena cidade de Cercedilla, aonde cheguei às 9h20. Demorei algum tempo para encontrar o início da trilha para o Pico Peña Águila pois não havia indicação e o caminho não era nada óbvio. O trajeto é o seguinte: saindo da estação do trem deve-se descer a rua à esquerda (sudoeste) por 100m até sua guinada para a esquerda (sudeste), onde ela passa por baixo da linha férrea através de um túnel - não é pelo túnel o caminho. Exatamente nessa guinada deve-se cruzar a ponte (Rio de la Venta) e o estacionamento em frente (ainda sentido sudoeste) para encontrar sob as árvores uma trilha com placas de Sendero Ródenas (toda pichada) e Camino Puricelli (com mapa). Outra alternativa é caminhar a partir da plataforma da estação ao longo da linha férrea para sudoeste e encontrar a mesma trilha num ponto acima das citadas placas.
      A partir das placas a trilha sobe em zigue-zague até uma rua de terra que deve ser tomada para a direita, subindo em direção norte (a trilha que sai à direita antes de alcançar a rua não serve). O casarão bem nesse encontro da trilha com a rua de terra funcionava como Albergue El Colladito, mas agora é uma escola infantil (o que não deixa nenhuma opção barata de hospedagem na cidade). Dali já avistei os Siete Picos, o Pico Bola del Mundo (Alto de las Guarramillas é o nome verdadeiro) e Pico La Maliciosa, meus objetivos para os próximos dias nesse trekking, todos a nordeste. Eram 10h20.
      Caminhei 640m por essa rua de terra (ignorando um caminho que sai para a direita logo no início dela) e às 10h32 entrei numa trilha à direita (norte) onde há uma placa de Parque Regional de la Cuenca Alta del Manzanares. É um atalho que me levou a caminhar entre muros de pedra e subir a uma clareira alta com a primeira visão ampla para as serras, com destaque para os Siete Picos. Caminhando na direção de uma casa vazia à esquerda (oeste) reencontrei a estrada de terra e segui nela para a direita (norte), mas por apenas 200m pois entrei na trilha à esquerda (noroeste), subindo entre pinheiros. Ali há um cocho de pedra com água corrente. Nas árvores há marcações de PR (Pequeño Recorrido = Percurso Pequeno; es.wikipedia.org/wiki/Pequeño_Recorrido), que são duas faixas horizontais, uma branca acima e outra amarela abaixo.
      Às 11h55 cruzei uma estrada de terra (com círculos vermelhos pintados nas árvores) e continuei subindo pela trilha. Alcancei enfim às 12h09 a crista da serra e nela uma bifurcação em T, onde fui para a direita (norte). Nesse ponto estou entrando na famosa e longa trilha GR 10, que vai de Valência a Lisboa (as marcações em tinta branca e vermelha vão aparecer mais acima). Para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido. Não cruzo o muro de pedra da crista por enquanto. Deixo para trás a floresta de pinheiros e continuo paralelamente ao extenso muro de pedras. Já avisto o cume do Pico Peña Águila, com as encostadas tomadas pelo tapete amarelo das flores piorno. A trilha cruza finalmente o muro de pedras apenas 140m antes do cume, aonde cheguei às 13h17. Visão espetacular num dia de céu limpíssimo: La Pinareja e Montón de Trigo ao norte (cumes da Serra Mujer Muerta); Peñalara a nordeste; Siete Picos, Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, Bola del Mundo (esses três em Cuerda Larga) e La Maliciosa a leste. Altitude de 2011m e desnível de 871m desde Cercedilla. O vento estava forte e bem frio e usei o muro de pedra como proteção para tomar meu lanche.

      Pico Peña Águila com piornos floridos
      Às 14h iniciei a descida no sentido oposto ao que cheguei (nordeste) e em 12 minutos caí numa estradinha de terra muito chata. Caminhei por ela até um portão de ferro que cruzei às 14h42 e fechei com atenção seguindo a recomendação da placa (para o gado não fugir). Ali passava uma estrada tediosa de terra, mas procurei por trilha e encontrei uma no sentido nordeste, não muito óbvia no começo. A ela entroncou uma outra vindo da direita chamada Camino Viejo de Segovia. Atravessei uma ponte de madeira (água boa), outra ponte (quase sem água) e à direita surgiu a trilha conhecida como Calzada Romana. A Calzada Romana faz uma curva para a direita e eu preferi me manter no Camino Viejo de Segovia por ser mais direto, por isso segui à esquerda. Porém 190m depois fui à direita e passei a caminhar pela larga Calzada Romana, mas por menos de 100m pois alcancei uma estrada de terra às 16h06. Esse é um importante cruzamento de caminhos, inclusive de uma das rotas do Caminho de Santiago: Puerto de la Fuenfría.
      Observação: se tivesse caminhado à esquerda na estrada tediosa teria continuado na GR 10 e chegado a esse mesmo lugar. A partir dali a GR 10 toma a direção sul.
      Um dos significados da palavra puerto em espanhol é "paso entre montañas" ou "collado de montaña", portanto os puertos costumam ser lugares altos que dão passagem de uma vertente a outra da serra/montanha. Após a subida até esse puerto iniciaria uma suave descida.
      Há diversas placas nesse local indicando e explicando os muitos caminhos que por ali passam. Tantas placas que levei algum tempo para encontrar qual seria a continuação do meu caminho em direção a Puerto de Cotos. Mas era só continuar no meu sentido nordeste por uma estradinha de terra entre pinheiros. Um cocho de pedra tinha água corrente. Na primeira bifurcação fui à direita e na segunda, à esquerda. Às 16h44 a estradinha vira trilha e passo a caminhar pelo Carril del Gallo (sem placa mostrando essa informação). Às 17h41 cheguei a uma grande clareira usada como pasto e parei para descansar por 17 minutos com uma vista bastante ampla e bonita.
      Continuei no sentido sul (e depois leste) e reentrei na mata de pinheiros. Cruzei uma ponte de troncos e 130m depois alcancei uma estrada de terra, que tomei para a esquerda (norte) (aqui fui explorar uma alternativa à estrada mas não deu em nada, a trilha fechou; gastei 40min nisso). Desprezando as trilhas que nasciam dessa estradinha, às 19h11 cheguei ao asfalto da CL-601, exatamente num local chamado Las 7 Revueltas. Cruzei a cancela e desci à esquerda (nordeste) pela rodovia por 730m até uma cancela igual (à direita), onde entrei numa estradinha de asfalto entre pinheiros. Altitude de 1409m. Parei para descansar por 22 minutos. Nas bifurcações continuei no asfalto até encontrar às 20h35 uma estradinha de terra à direita (leste) com placa de Puerto de Cotos a 3,2km. Passei por quatro riachos e alcancei as casas de Puerto de Cotos às 21h33, ainda com luz do dia (o sol estava se pondo às 21h45). Altitude de 1824m (desnível de 415m desde o asfalto da CL-601). 
      Puerto de Cotos não chega nem a ser uma vila, o lugar se resume a uma estação de trem onde funciona um refúgio de montanha (El Refugio de Cotos), o Centro de Visitantes do Parque Nacional Sierra de Guadarrama e um bar-restaurante (Venta Marcelino). Como é proibido acampar de forma livre e não há camping pago busquei hospedagem no refúgio, onde fui o único hóspede da noite já que era uma segunda-feira (no final de semana estava lotado). Lá fui atendido pelo Carlos, que me preparou um saboroso jantar. O único problema ali foi o banho pois a água não esquentava de jeito nenhum. 
      Além do trem há ônibus ligando Puerto de Cotos a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Laguna de los Pájaros
      2º DIA - 18/06/19 - Pico Peñalara 
      Duração: 5h20 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2427m no Pico Peñalara 
      Menor altitude: 1816m na estação de trem de Puerto de Cotos
      Resumo: circuito passando pelo cume do Pico Peñalara a partir de Puerto de Cotos num desnível de 611m
      Após o café da manhã no Refugio de Cotos e uma boa enrolação saí às 11h36 para subir o Pico Peñalara com mochila de ataque apenas. Meu plano era subir pela crista do lado sul-sudoeste e descer pelo lado norte-nordeste, retornando pela face leste do pico. Passei pelo Centro de Visitantes Peñalara do Parque Nacional Sierra de Guadarrama para pegar informações e continuei no sentido nordeste por 370m. Logo após a curva do Mirador de la Gitana continuei pela trilha principal, a RV2, à esquerda (voltaria pela trilha da direita, a RV8). Após vencer um desnível de 611m desde o refúgio, com trechos em zigue-zague e grandes manchas de neve próximas ao caminho, alcancei o cume do Pico Peñalara às 13h34. Ele é o ponto mais alto da Serra de Guadarrama e das províncias de Madri e Segóvia. Dali se avistam Cabeza de Hierro Mayor, Cabeza de Hierro Menor, La Maliciosa e Bola del Mundo ao sul; Siete Picos, Peña Águila, Montón de Trigo e La Pinareja a sudoeste; Segóvia a noroeste.
      Iniciei o retorno às 14h46 seguindo a crista no sentido norte-nordeste. Cerca de 540m depois, num trecho com grandes blocos de pedra, desci pela face direita da crista, mas estava errado, o caminho foi sumindo e a descida se complicando. Voltei e desci pelo lado oposto, à esquerda da crista, onde havia uma trilha mais fácil. Observei depois que algumas pessoas continuavam pelo alto da crista, mas pelo que vi é preciso saltar grandes blocos de pedra bastante expostos. 
      Desci por trilha bem marcada e alcancei às 16h45 a Laguna de los Pájaros, onde uma placa alerta para a proibição de banho e a permanência a menos de 3m da margem para evitar a mortalidade de anfíbios, entre outros motivos (porém poucos minutos depois encontrei vacas pastando livremente às margens de outras lagoas). Ali tomei a trilha da direita (sul) e efetivamente iniciei o retorno a Cotos. Cruzei com um grupo grande com mochilas cargueiras que pretendia bivacar no Peñalara sem nenhum medo do vento frio da noite. Às 18h13 parei para fotos no Mirador de Javier e tomei o atalho que sai à direita dele para alcançar em 12 minutos a Laguna Grande de Peñalara, que é cercada com um cabo de aço para evitar a aproximação.
      Saindo da Laguna Grande às 18h54 desci por uma passarela de madeira e depois trilha até a casinha de vigilância e continuei na trilha em frente (ignorando as trilhas da direita e da esquerda). Reentrei na mata, passei por uma bica e reencontrei a trilha da ida (RV2) às 19h38. Passei pelo Centro de Visitantes, pela Venta Marcelino (fechada) e estava de volta ao refúgio às 20h10.

      La Pedriza
      3º DIA - 19/06/19 - de Puerto de Cotos a La Pedriza
      Duração: 7h50 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2376m no Pico Cabeza de Hierro Mayor
      Menor altitude: 1478m no acampamento em La Pedriza
      Resumo: subida de Puerto de Cotos ao cordão montanhoso Cuerda Larga num desnível de 560m e descida ao "parque" rochoso de La Pedriza num desnível de 898m
      Há dois caminhos possíveis para subir à crista de Cuerda Larga a partir de Puerto de Cotos. Um deles sai diretamente para o sul e passa próximo ao Albergue El Pingarron, o outro sai para leste e é 1,3km mais longo, porém foi o que escolhi (talvez tenha menos sobe-e-desce).
      Saí do refúgio às 10h53 no sentido leste e atravessei todo o estacionamento que fica ao longo da rodovia M-604. No final do estacionamento desci uma escada de madeira e encontrei na mata a trilha que me levaria a Cuerda Larga. Porém ao sair da mata, apenas 170m depois, a trilha sumiu. Cruzando o campo na direção sudeste, entrei em outra mata e reencontrei a trilha junto a uma pequena ponte de tábuas. Uma outra trilha entroncou nessa vindo da rodovia também. Um círculo amarelo pintado nas árvores confirma o caminho. Tomo o rumo sul e depois sudeste, direções que manterei por algum tempo. Cruzo um riacho pelas pedras e desemboco numa estrada, na qual vou para a esquerda, descendo. Atravesso a ponte sobre o Arroyo de las Cerradillas. Encontro outra estrada às 12h01 e desta vez vou para a direita, subindo por um vale com o Arroyo de las Cerradillas à direita. Surgem caminhos à esquerda que exploro tentando evitar a monotonia da estrada, mas foi só perda de tempo (apesar dos sinais vermelhos pintados nas árvores). Felizmente logo a estrada vira trilha (na bifurcação vou à direita), cruzo três pontes, a trilha dá uma guinada para o norte e chego a uma bifurcação com placas às 14h34. Da direita vem a trilha do Albergue El Pingarron, o outro caminho de Cotos. Eu sigo para a esquerda retomando o rumo sul.
      Cruzo quatro riachos em sequência, formadores do Arroyo de las Cerradillas. Alcanço o limite das árvores (1825m) e passo a subir por entre moitas de piornos floridos. Depois vem a parte mais inclinada da encosta da serra com a dificuldade de caminhar por um terreno chamado de canchal (em espanhol) ou scree (em inglês), uma ladeira de pedras desmoronadas. Cruzo um riacho para a direita às 15h26 e essa será a última água até descer para a outra vertente no final do dia. 

      La Pedriza
      Às 16h40 alcanço enfim a crista de serra conhecida como Cuerda Larga. Desnível de 505m desde as placas. Dali avisto as formações rochosas de La Pedriza, a cidade de Manzanares El Real, meu objetivo deste dia, e bem distante no horizonte a capital Madri. Sigo para a esquerda (nordeste) na bifurcação em T às 17h02. O Pico Cabeza de Hierro Menor (2374m segundo a Wikipedia), segundo mais alto de Cuerda Larga, fica apenas 300m à direita dessa bifurcação, mas não fui até ele.
      Seguindo pela crista (PR-M 11), um desvio de apenas 40m à esquerda me leva ao cume mais alto de Cuerda Larga, o Pico Cabeza de Hierro Mayor, com 2376m de altitude pelo meu gps. Ele é o segundo em altitude da Serra de Guadarrama, perdendo apenas para o Peñalara. Avisto lá do alto o estacionamento de Puerto de Cotos onde iniciei a caminhada desse dia e também as montanhas: Peñalara ao norte; La Pinareja, Montón de Trigo, Siete Picos, Peña Águila e Bola del Mundo a oeste; La Maliciosa a sudoeste; La Pedriza e Manzanares El Real a sudeste; e ao sul-sudeste os prédios de Madri. Desnível de 560m desde o refúgio em Puerto de Cotos. 
      Continuando pelo sobe-e-desce da crista no sentido leste passo pelos outros cumes de Cuerda Larga: às 18h08 pela Loma de Pandasco (2247m, segundo a Wikipedia, não fui medir cada um), às 19h06 por Navahondilla (2234m) e às 19h15 por Asómate de Hoyos (2242m). Nesse trajeto tive o primeiro contato com as cabras montesas e estavam em grande número, mas são mansas e ariscas. Cerca de 310m após o último cume sigo os totens e faixas pintadas à direita e abandono a crista de Cuerda Larga, que segue para nordeste, em favor de uma crista secundária a sudeste que me leva ao "parque" rochoso de La Pedriza. O lugar é incrível, com formações fantásticas de granito, algumas lembrando o nosso Parque Nacional de Itatiaia. Há inúmeros caminhos em La Pedriza, muitos deles usados por escaladores para acesso às pedras e suas vias. Vários outros levam ao vale do Rio Manzanares, o qual eu deveria percorrer para alcançar o Camping El Ortigal, a caminho da cidade de Manzanares El Real.
      Dos muitos caminhos ao Rio Manzanares optei pelo mais direto, passando pelo Refugio Giner de los Rios (PR-M 2). Após descer 330m (de altura) desde a crista de Cuerda Larga pela PR-M 2, às 21h02 chego a uma bifurcação em T em Collado del Miradero e vou para a esquerda (ainda PR-M 2), reentrando no bosque de pinheiros cerca de 100m depois. Voltam a aparecer as fontes de água e com elas os locais propícios para o bivaque para quem se aventura escalando as muitas pedras do entorno. Já estava começando a anoitecer (quase 22h) e o camping ainda estava muito longe, então parei no primeiro local plano que encontrei, na altitude de 1478m, para pernoitar. 

      Sierra de los Porrones
      4º DIA - 20/06/19 - de La Pedriza a Puerto de Navacerrada
      Duração: 8h10 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2254m no Pico Bola del Mundo
      Menor altitude: 1027m na ponte sobre o Rio Manzanares
      Resumo: descida de La Pedriza ao Rio Manzanares, em seguida subida aos picos La Maliciosa e Bola del Mundo e descida a Puerto de Navacerrada. Diferença de 1227m entre os pontos mais alto e mais baixo do dia.
      Esse dia e o dia seguinte são de escassez de água. É preciso reabastecer os cantis nas poucas fontes encontradas no começo desse dia para durarem até a tarde do dia seguinte (a menos que se consiga água em Puerto de Navacerrada, que não foi o meu caso). 
      De manhã fui explorar o entorno do local onde acampei e encontrei um lajedo com pedras de diversos formatos e tamanhos, uma miniatura do Lajedo do Pai Mateus de Cabaceiras(PB). É bom lembrar que o acampamento selvagem é proibido em quase todos os parques nacionais da Espanha, inclusive neste, mas eu montei a barraca já à noite, desmontei logo cedo e não deixei nenhum vestígio do meu pernoite no local.
      Comecei a caminhar às 8h18 ainda descendo. Apenas 340m depois do local de pernoite, aos 1433m de altitude, encontrei um cruzamento de trilhas mas fui em frente pois era o caminho mais rápido ao Refugio Giner de los Rios e depois ao Rio Manzanares. Continuo na PR-M 2. Aos 1256m encontrei a primeira água do dia. Às 9h28, na altitude de 1179m, uma placa aponta para o refúgio à esquerda, num desvio de 150m da trilha principal. Cruzei uma pequena ponte e depois uma clareira para subir ao refúgio, que encontrei em bom estado porém trancado. A bica ao lado estava quase seca. A clareira tem espaço de sobra para acampar porém logo cedo já começam a passar os trilheiros e escaladores uma vez que há um estacionamento a 2km dali. Voltei à trilha principal às 10h08.
      Às 10h39 cheguei ao Punto de Información Canto Cochino, mas estava fechado (só abre de sábado, domingo e feriado das 9h às 17h). Esse é o ponto de convergência de pelo menos quatro trilhas que descem de La Pedriza e as placas indicam esses caminhos. Foi também o local onde vi mais gente. Dali tomei a direção sul por um calçamento e cruzei às 10h58 a ponte sobre o Rio Manzanares, encontrando do outro lado uma estrada e um pequeno estacionamento. Essa ponte é o ponto de menor altitude do dia e de todo o trekking (1027m) e a última água do dia.
      A estrada quebra para a direita e ao fazer uma curva para a esquerda encontro dois grandes estacionamentos e um ou dois bares (se fosse ao Camping El Ortigal teria que tomar a direção sul aqui). Ao final dos estacionamentos cruzo o asfalto e entro na trilha em frente (oeste). Na bifurcação uns 35m depois vou à esquerda (pois a direita morre no asfalto mais à frente). Cerca de 1,1km depois da bifurcação chego às 11h31 a um cruzamento de trilhas, onde vou para a esquerda, quase voltando. Meu objetivo é subir à crista da Sierra de los Porrones e descer à cidade de Puerto de Navacerrada para pernoite. 

      Sierra de los Porrones
      Não percebi uma trilha saindo para a direita e subi até um muro de pedras que fui contornando para a direita até reencontrar a trilha no sentido oeste novamente. Às 12h21 cruzei uma estrada de terra e parei para descansar e me refrescar do forte calor. Os insetos também estavam incomodando um bocado. Nesse ponto há algumas placas e uma delas apontava para o Pico La Maliciosa, meu destino. Faixas amarelas e brancas pintadas indicam ser uma rota de Pequeño Recorrido, nesse caso a PR-M 16. Havia um cocho de pedras mas as bicas estavam secas. Às 13h05 retomei a caminhada agora subindo bastante. Nessa subida pela encosta norte da Sierra de los Porrones tive de fazer mais algumas paradas longas porque o calor estava me tirando a energia. Às 15h53 atingi a crista da serra e fui à direita na bifurcação, subindo, pois a trilha da esquerda desce pela vertente sul da serra. Às 17h22 avistei uma grande formação rochosa à frente e uma nítida trilha subindo ao seu cume: era o Pico La Maliciosa, uma dura subida ainda a enfrentar. As árvores desaparecem.
      Alcancei o cume de La Maliciosa às 18h57 e havia mais duas ou três pessoas. Conversei com um rapaz de Madri que veio fazer um bate-e-volta desde a capital até esse pico e já ia retornar! La Maliciosa é o pico mais alto da Sierra de los Porrones, com 2219m, e dali se avistam: Bola del Mundo e Pico Peñalara ao norte; Cabeza de Hierro Mayor e Cabeza de Hierro Menor a nordeste; La Pedriza a leste; Manzanares El Real e o reservatório Embalse de Santillana a sudeste; Madri ao sul-sudeste; Navacerrada a sudoeste (não é Puerto de Navacerrada, que fica mais acima e não se vê dali); Peña Águila e Siete Picos a oeste.
      Retomei a caminhada às 19h18 em direção a Bola del Mundo e suas horríveis antenas parecendo três foguetes prestes a ser lançados. Continuei pela crista da serra por mais 520m no sentido noroeste e tomei a direita (norte) na bifurcação onde a esquerda desce a vertente sul em direção à cidade de Navacerrada. Desci por um caminho de pedras com bifurcações mantendo a direita e cruzei na parte mais baixa uma outra trilha que corria no sentido leste-oeste. Subi a encosta oposta por caminho largo e cheguei a Bola del Mundo, ou Alto de las Guarramillas, às 20h32. Aqui retorno ao cordão montanhoso Cuerda Larga já que esse pico é o mais ocidental dele, com altitude de 2254m. Mas aquelas antenas causam tanto incômodo que não parei, segui para oeste, agora por estradinha concretada (350m a leste de Bola del Mundo se situa o Ventisquero de la Condesa, local onde nasce o Rio Manzanares, mas não fui até lá para conferir se seria fácil coletar água abaixo do nevado). 
      Desci 850m pela estradinha e cheguei a um bar-restaurante que deve funcionar somente no inverno, quando a pista de esqui da face oeste da montanha entra em atividade. Ao lado do bar-restaurante fica a chegada do teleférico que parte de Puerto de Navacerrada, mas a inclinação e o terreno de pedras soltas dificultam a descida direta por ali. Tive de descer pela estradinha de concreto mesmo, com todas as suas curvas e zigue-zagues. Às 21h35 cruzei a cancela ao lado do ponto de partida do teleférico e com mais 5 minutos cheguei a Puerto de Navacerrada, cortada pela rodovia M-601. Altitude de 1862m. Procurei hospedagem no Albergue Peñalara, mas estava fechado. O único lugar aberto e funcionando era o Hotel Residência Navacerrada, porém a mulher fez uma cara de assustada quando me viu entrar de mochila cargueira nas costas e foi logo dizendo que o hotel estava lotado. Já era noite. A única saída era acampar. Procurei o início da trilha do dia seguinte, desviei para dentro da mata com lanterna e encontrei um lugar plano, espaçoso e muito discreto para montar a barraca a menos de 300m da rodovia. 
      Há trem e ônibus ligando Puerto de Navacerrada a Madri (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      5º DIA - 21/06/19 - de Puerto de Navacerrada a Cercedilla
      Duração: 6h05 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2117m no Pico Somontano, em Siete Picos
      Menor altitude: 1149m na ponte do Rio de la Venta, em Cercedilla
      Resumo: subida de Puerto de Navacerrada aos Siete Picos num desnível de 255m e descida a Cercedilla num desnível de 968m
      Desmontei acampamento e voltei à rodovia para ver se havia algum lugar aberto para tomar um café da manhã, mas continuava tudo fechado. Iniciei a caminhada do dia às 8h45 entrando na trilha sinalizada como "Sendero Arias" e "Estacion Ferrocarril" localizada entre o Hotel Residência Navacerrada e o estacionamento dos restaurantes/cafeterias mais acima. Após uma plataforma de teleférico à esquerda o caminho trifurca e fui para a direita. Cruzei uma cancela de ferro e subi à direita e depois esquerda na bifurcação. Cheguei a uma cerca de troncos finos que delimita uma pista de esqui pequena (talvez para iniciantes) e parei para tomar meu desjejum. Às 9h41 continuei subindo pela floresta de pinheiros e alcancei uma grande clareira com outro teleférico. À frente (oeste) já avisto toda a extensão dos Siete Picos. 
      Percorro no sentido sudoeste por 230m um caminho largo que vem do teleférico mas o abandono para tomar um outro um pouco mais estreito à esquerda que me leva à formação rochosa com a pequena estátua da Virgen de las Nieves. Dali se avistam o Pico Peñalara, Bola del Mundo, Puerto de Navacerrada e La Maliciosa. A trilha continua a partir dali e corre paralela ao caminho largo que abandonei. Às 10h48 chego a uma grande clareira gramada onde caberiam muitas barracas, ainda com um lindo mirante uns 100m depois (porém não há água). Retomo às 11h07 o caminho largo que havia abandonado e ele começa a se estreitar ao cruzar uma outra trilha - continuo em frente (noroeste) e tomo a esquerda na bifurcação 45m depois. Começo a subir em direção aos cumes de Siete Picos. Nos 2109m de altitude vou à esquerda numa bifurcação em T e 165m depois já estou no ponto mais alto, o pico conhecido como Somontano, de 2117m, às 11h44. Desnível de 255m desde Puerto de Navacerrada. Porém uma forte neblina havia tomado conta do lugar, mal me deixando ver a formação rochosa do pico, o mais oriental do conjunto.

      Piornos floridos
      Às 12h12 continuo pela trilha da crista, que se divide em várias, mas tento sempre me manter na mais alta. Passo por mais um dos cumes, ainda com muita neblina, e às 12h38 surge uma bifurcação em que se deve continuar à esquerda pois a direita desce a vertente norte da montanha. Na bifurcação seguinte vou para a esquerda e passo por mais um dos cumes. A neblina começa a se dissipar e o dia volta a ficar perfeito para fotos. Paro por 46 minutos para almoçar e curtir o visual. Antes de descer a encosta sul da montanha faço um desvio de uns 50m para alcançar mais um dos cumes às 14h37.
      A partir desse ponto inicio a descida e aos poucos reentro na mata de pinheiros. Na altitude de 1906m saio da trilha principal para subir (escalaminhar) o Pico de Majalasna (1935m), o mais ocidental dos cumes de Siete Picos e um tanto afastado dos outros que se encontram na crista. Do seu alto, às 15h36, avisto La Maliciosa e Peña Águila (as nuvens não me deixam ver mais que isso). Só retomo a caminhada às 16h33. Continuando a descida passo por duas fontes de água mas com muito pouca vazão. Essas fontes são a primeira água que encontro desde o Rio Manzanares, na manhã do dia anterior. Às 17h46 cruzei uma estrada de terra com diversas placas e seguindo 120m para oeste encontrei uma bica com mais água sob um abrigo de pedras (Refúgio del Aurrulaque). Parei para descansar e beber bastante água. Ao cruzar essa estrada de terra estou cruzando novamente a GR 10.
      A partir do abrigo tomei às 18h35 a Vereda Alta: desci no rumo noroeste, cruzei outra estrada de terra e na bifurcação abaixo fui à direita (à esquerda um X pintado numa árvore). Às 18h59 parei em mais uma fonte de água. Surgem trilhas vindo da direita e sigo por 115m um muro de pedras, mas ele continua à direita numa bifurcação em que vou para a esquerda. Às 19h41 chego a uma clareira com muitos caminhos para todos os lados. Fica até difícil descrever em detalhe o que fiz, para resumir tomei a direção sudoeste e alcancei o Caminho del Agua, uma trilha bem larga em que há um cano semi-enterrado. Às 20h13 vou à direita numa bifurcação e já começo a marcar algum lugar discreto para acampar em caso de necessidade, porém logo encontro um portão de ferro e depois algumas casas. Às 20h30 chego à periferia de Cercedilla. Primeiro cruzo uma rua e continuo na trilha em frente. Mais abaixo a trilha termina no asfalto da M-966, onde vou para a esquerda. Com mais 290m, às 20h47, estou na estação ferroviária de Cercedilla, onde tudo começou cinco dias atrás. 
      Ainda havia trens e ônibus para Madri mas eu não tinha reservado nenhum hostel lá e ia chegar muito tarde (o trem sairia 21h33 e deveria chegar a Madri às 22h37). Procurei hospedagem em Cercedilla mas só encontrei lugar caro. O jeito foi me meter na floresta de novo e encontrar um lugar afastado para montar a barraca. No dia seguinte peguei o trem das 8h30 e cheguei às 9h35 à estação de Chamartín, em Madri. Há opções de ônibus também (veja nas informações adicionais). 

      Siete Picos
      Informações adicionais:
      . site oficial do Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama: www.parquenacionalsierraguadarrama.es/es
      . mais informações em:
      www.comunidad.madrid/servicios/urbanismo-medio-ambiente/parque-nacional-sierra-guadarrama

      www.miteco.gob.es/es/red-parques-nacionales/nuestros-parques/guadarrama
      . parques nacionais da Espanha: www.miteco.gob.es/es/red-parques-nacionales/nuestros-parques
      . trens na Espanha: www.renfe.com
      . ônibus 680 - Madri-Cercedilla-Madri: 
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__680___.aspx
      . ônibus 684 - Madri-Cercedilla-Madri: www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__684___.aspx?origen=2
      . ônibus 691 - Madri a Puerto de Navacerrada e Puerto de Cotos
      www.crtm.es/tu-transporte-publico/autobuses-interurbanos/lineas/8__691___.aspx
      . Refúgio em Puerto de Cotos: 32 € o quarto coletivo com café da manhã e jantar, banheiro no corredor. Mais preços no site elrefugiodecotos.com.
      . roteiro adaptado a partir das informações do guia Lonely Planet Walking in Spain, 3ª edição, 2003
      Rafael Santiago
      junho/2019
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

      Percurso completo da travessia na imagem do satélite
    • Por rafael_santiago
      Laguna de los Caballeros
      Início: Cuevas del Valle
      Final: Tornavacas
      Duração: 11 dias
      Maior altitude: 2394m em Pico La Covacha
      Menor altitude: 611m em Jarandilla de la Vera
      Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há grandes subidas e descidas quase todos os dias, com desníveis positivos (subidas) que chegam a 995m.
      A Serra de Gredos se situa na porção central da cordilheira chamada Sistema Central da Península Ibérica e se estende no sentido leste-oeste por cerca de 120km. Fica 150km a oeste de Madri e está inserida nas comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura (comunidades autônomas na Espanha são mais ou menos como estados no Brasil). Ela está dividida em Maciço Oriental, Maciço Central e Maciço Ocidental. Nesse trekking eu percorri de ponta a ponta o Maciço Central, que vai de Puerto del Pico a Tornavacas. Do 1º ao 9º dia eu caminhei dentro dos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos.
      QUANDO IR
      O único problema dessa minha caminhada foi a época escolhida. Em final de junho e início de julho o calor chega próximo dos 40ºC, o que é bastante desgastante e inapropriado para o trekking. No início de junho há o risco de ainda haver bastante neve nos picos mais altos. Creio que a melhor época seja o outono (setembro a início de outubro), antes das neves do final de outubro.
      CAMPING SELVAGEM
      O camping selvagem é proibido em toda a Espanha. Ou permitido com muitas restrições em algumas comunidades e parques. Vamos detalhar isso um pouco.
      Primeiro é preciso falar da pequena confusão que existe na Europa entre os termos "camping selvagem" e "bivaque". No Brasil entendemos ambos os termos como pernoitar em um local não estruturado, não destinado a esse fim, escolhido ao acaso. A diferença para nós é que o "camping selvagem" pressupõe montar uma barraca ou alguma cobertura, e o "bivaque" é simplesmente dormir a céu aberto, com um saco de dormir ou saco de bivaque apenas.
      Na Europa nem sempre o entendimento é dessa forma. No caso da Espanha, segundo os sites consultados, os conceitos são os seguintes:
      . acampada libre: montar a barraca e permanecer vários dias com ela montada num local não estruturado
      . acampada nocturna ou pernocta con tienda: montar a barraca ao anoitecer e desmontar ao amanhecer, típico de uma caminhada de longa duração
      . vivac: dormir sem barraca ou outra cobertura montada
      Já em outros países, como a França, os dois conceitos acima de "acampada nocturna" e "vivac" são chamados de "bivouac", ou seja, para os franceses bivacar é passar uma noite num local não estruturado, com ou sem barraca. Já a "acampada libre", a ideia de permancer vários dias com a barraca montada, na França se chama "camping sauvage".
      Como estamos tratando da Espanha nesse relato, vamos colocar esses termos tal como os espanhóis os entendem.
      A "acampada libre" (pernoite com barraca montada por vários dias) é proibida em toda a Espanha, inclusive em todos os parques nacionais e regionais. Algumas comunidades autônomas a permitem, mas com muitas restrições (ver abaixo). Já a "acampada nocturna" é permitida em três dos dez parques nacionais da Espanha continental (Ordesa y Monte Perdido, Picos de Europa e Sierra Nevada), com restrição de horário para montar e desmontar a barraca e somente acima de determinada altitude. O "vivac" (pernoite sem barraca) é permitido apenas nos três parques citados e no Parque Nacional de la Sierra de Guadarrama. A questão fica nebulosa quando a normativa do parque proíbe explicitamente a "acampada libre" mas não fala nada sobre a "acampada nocturna" e o "vivac".

      Pico La Covacha (2394m), ponto mais alto do trekking
      Quando o trekking é feito fora das unidades de conservação o que vale é a legislação do município e da comunidade autônoma. Fontes de consulta sobre as normas das comunidades autônomas são este site e este site. Neles vemos que a maior parte das 17 comunidades autônomas proíbe a "acampada libre" e a "acampada nocturna", ou as permite com muitas restrições como: distância mínima de cidades e estradas, número reduzido de barracas e pessoas, tempo máximo de permanência, exigência de permissão das autoridades locais. Mas a legislação do município é superior à da comunidade autônoma, o que torna ainda mais difícil saber se o acampamento (com ou sem barraca) é permitido em determinado local.
      Este trekking atravessa duas unidades de conservação: o Parque Regional de la Sierra de Gredos e a Reserva Natural Garganta de los Infiernos. No primeiro a "acampada libre" é proibida, sem fazer menção à "acampada nocturna" e ao "vivac"; no segundo as três formas de pernoite são proibidas (veja aqui e aqui). Nos arredores desses parques vale a legislação das comunidades autônomas de Castela e Leão e Extremadura. Ambas também proíbem a "acampada libre" (veja aqui e aqui), sem referência nos textos oficiais à "acampada nocturna" e ao "vivac".
      O que fazer durante uma longa travessia então?
      Se você for adepto do bivaque (dormir apenas com saco de dormir, sem barraca) não deverá ter problema algum. Se quiser montar a barraca, escolha um local bem discreto e afastado, fora do caminho e bem longe de estradas e casas. Monte a barraca ao anoitecer e desmonte ao nascer do sol. Deixe o local exatamente como o encontrou, as regras de mínimo impacto devem ser sempre seguidas (veja aqui). Para quem gosta de fazer fogueira, é melhor esquecer.
      REABASTECIMENTO DE COMIDA
      O único mercado ao longo de todo esse trekking está na cidade de Jarandilla de la Vera, por onde passei no 10º dia. O Refúgio Elola (3º dia) serve refeições. A cidade de Bohoyo (7º dia) tem um restaurante e dois bares. O Camping La Guilera (8º dia) tem restaurante. Algumas pequenas cidades do caminho têm mercearia ou padaria mas é melhor não contar pois fecham para a siesta por várias horas durante o dia.
      Nas duas pontas desse trekking:
      1. Cuevas del Valle tem restaurante e mercearia
      2. Tornavacas tem mercearia
      Como esse pequeno comércio pode estar fechado, é recomendável trazer a comida de uma cidade maior, como Madri.

      Serra de Gredos
      1º DIA - 25/06/19 - de Cuevas del Valle à crista da Serra de Gredos
      Duração: 4h (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 1839m na crista da Serra de Gredos
      Menor altitude: 844m em Cuevas del Valle
      Resumo: nesse dia encarei a subida inicial da Serra de Gredos a partir da cidade de Cuevas del Valle, com desnível de 995m desde essa cidade à crista da serra
      Na Estacion Sur em Madri tomei o ônibus da empresa Samar às 11h para a cidade de Cuevas Del Valle. Desci do ônibus às 13h52 e aproveitei que havia um restaurante a poucos metros para uma última refeição decente antes de entrar na trilha. Altitude de 844m. Iniciei a caminhada às 15h05 cruzando o asfalto da N-502 e depois a cidadezinha de Cuevas del Valle no sentido norte. Como era hora da siesta, o lugar estava completamente deserto. O calor ajudava a manter as pessoas dentro de casa, longe daquele sol forte. Há uma bica de água fresca num largo logo à entrada da cidade para abastecer os cantis já que não haverá muitas fontes nesse dia. Passei à direita da Capela de Nossa Senhora das Angústias e na bifurcação seguinte tomei a direita, subindo e seguindo a sinalização da GR 293 em direção a Puerto del Pico (para mais informações sobre as trilhas GR: es.wikipedia.org/wiki/Sendero_de_Gran_Recorrido). Esse caminho é chamado de Calzada Romana.
      Mas logo tive de fazer a primeira parada na sombra, por 30 minutos, pois o sol estava fritando. Continuando a subida, fui à direita na bifurcação e encontrei um cocho com água corrente, mas cheio de lama ao redor. Às 16h08 cruzei a N-502 e continuei subindo pelo calçamento de pedras da Calzada Romana. Parei mais três vezes na sombra. Às 17h34 cruzei mais uma vez a N-502 e 17 minutos depois parei na última água do dia para completar todos os cantis. O caminho faz um zigue-zague e já se avista Cuevas del Valle bem abaixo. Passo pelas ruínas do Portazgo (posto de pedágio do século 13) às 18h07 e 10 minutos depois termina a Calzada Romana junto à rodovia (altitude de 1371m). Esse lugar se chama Puerto del Pico (puerto em espanhol significa passo entre montanhas) e aqui entro nos limites do Parque Regional de la Sierra de Gredos. Puerto del Pico é o limite natural entre os maciços central e oriental da Serra de Gredos.
      Continuo por caminho paralelo à N-502 com a extremidade oriental do Maciço Central da Serra de Gredos à minha esquerda esperando para ser "escalada". Entrei no primeiro asfalto à esquerda e caminhei apenas 70m até um portão de ferro com mata-burro ao lado. Não cruzei o portão, entrei na trilha à esquerda antes dele às 18h25. Uns 170m depois entroncou uma outra trilha vindo da esquerda e a segui até encontrar uma cerca. Acompanhei a cerca subindo para a esquerda e ao final dela a trilha desapareceu por alguns metros. Segui os totens e a reencontrei. Já estava subindo a encosta da Serra de Gredos. Do outro lado de Puerto del Pico, a leste, avisto bem marcada a trilha de ascensão ao Pico Torozo, este pertencente ao Maciço Oriental da Serra de Gredos.
      A subida pareceu ter fim aos 1622m, às 19h28, mas continuou. Procurei me manter à direita para chegar logo à crista. Novamente a subida pareceu ter fim aos 1749m, às 20h19, porém só atingi mesmo a crista da Serra de Gredos às 20h43, aos 1839m. Logo surgiu um aceiro vindo da direita e o tomei para a esquerda. Em 200m cheguei a uma estrada de terra bem no alto da serra (!?) e resolvi parar às 21h17 num lugar plano, abrigado do vento e sem tantas pedrinhas para montar a barraca. A primeira impressão da Serra de Gredos foi empolgante, com ampla visão em 360º. Há muitas formações rochosas de formatos curiosos, com grandes pedras equilibradas umas sobre as outras. Dali do alto também pude contemplar um belo pôr-do-sol às 21h45. Altitude de 1814m.

      Serra de Gredos
      2º DIA - 26/06/19 - pela crista da Serra de Gredos até o Pico Peña del Mediodía
      Duração: 6h35 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2221m em Peña del Mediodía
      Menor altitude: 1810m
      Resumo: caminhada para oeste pela crista da Serra de Gredos, porém quase não há trilha definida. Procurar o caminho (ou abrir caminho) entre as moitas de piorno foi cansativo.
      Do local onde acampei na crista podia avistar toda a paisagem dos vales ao norte da Serra de Gredos e a continuação da serra para oeste, meu destino nos próximos dias. 
      Deixei o acampamento às 10h42 e voltei a caminhar pela estrada no sentido oeste, mas quando ela fez uma curva para a direita (norte) subi à esquerda sem trilha seguindo totens para me manter na crista da serra. Às 11h39 um amontoado de rochas com uma coluna no topo me chamou a atenção e subi para conferir o que havia ali. Trata-se do cume La Fría, onde foi instalado um vértice geodésico. A visão para oeste se amplia bastante.
      Na continuação, me deparei com um grupo de cabras montesas que imediatamente fugiu, porém um filhote ficou para trás, no alto de uma pedra, apavorado com a minha presença. Ele saiu bem na foto, rs. A encosta norte da serra nesse ponto tem várias estradas de terra e há mais em construção, o que tira todo o "clima" de montanha do lugar. 
      Às 12h25 cruzei uma fileira de mourões sem cerca (ainda) e 32 minutos depois encontrei uma bica de água quase seca, apenas um fio escorria, mas consegui coletar mais abaixo e bebi o máximo que pude pois as fontes são muito raras nessa serra (essa foi a única água desse dia). Um marco de madeira fincado tem uma plaquinha "Senda Puerto del Arenal". Continuei às 13h55 e 190m depois cheguei a uma placa em que se lê: Puerto del Arenal - Ruta Navarredonda-Puerto del Arenal PR-AV 45 (mais informações sobre as trilhas PR em es.wikipedia.org/wiki/Peque%C3%B1o_Recorrido). Nesse ponto chega uma trilha que vem da localidade de El Arenal pela vertente sul da Serra de Gredos e que serve como rota de fuga ou início alternativo a esse trekking. Já vinha avistando El Arenal lá embaixo no vale desde o Pico La Fría.
      Às 16h11 outra placa: Puerto de La Cabrilla - PR-AV 44, que é outro caminho de El Arenal a Navarredonda de Gredos. A partir daqui a serra começa a se mostrar mais florida pois surgem os grandes campos de piorno, que dá flores amarelas em abundância. A dificuldade era abrir caminho entre os piornos já que não encontrava trilha definida e contínua.
      Às 20h05 alcanço a maior altitude do dia no Pico Peña del Mediodía, de 2221m, também com uma coluna e um vértice geodésico. A partir desse pico aparece uma trilha ininterrupta, antes só pedaços de trilhas. Continuando para oeste, 400m depois do pico desvio alguns metros à direita até um marco de granito para fotos. A partir do marco a trilha inicia uma longa descida a um outro "puerto". Desconfiei que seria difícil encontrar um lugar plano para a barraca, então procurei nas imediações do marco, onde o terreno era plano e as moitas de piorno me davam alguma proteção contra o vento. Altitude de 2211m.

      Cabra montesa e ao fundo os picos Almanzor e La Galana
      3º DIA - 27/06/19 - do Pico Peña del Mediodía ao Refúgio Elola
      Duração: 8h30 (descontadas as paradas e erros)
      Maior altitude: 2262m
      Menor altitude: 1948m na Laguna Grande
      Resumo: continuação pela crista da Serra de Gredos passando por dois refúgios em ruínas e descida ao Circo de Gredos, com a Laguna Grande e o Refúgio Elola
      Iniciei a caminhada do dia às 9h10, passei pelo marco de granito e comecei a descer ao Puerto del Peón. A decisão de acampar lá no alto se mostrou muito acertada pois encontrei um grupo enorme de jovens bivacando cerca de 300m antes do puerto. Como é proibido montar barraca eu teria no dia anterior que caminhar bem mais e me afastar deles para poder acampar. Às 9h42 passei pela placa que indica o Puerto del Peón, local que marca uma travessia no sentido sudeste-noroeste da Serra de Gredos e que provavelmente era o roteiro daquele grupo pois não os vi mais.
      Na continuação para sudoeste, a trilha cai por algum tempo para a vertente norte da serra e depois obriga a subir à crista outra vez. Cruzo mais campos de piornos floridos mas em seguida chego a uma região mais árida da serra, um local praticamente só de pedras, e ali, às 11h14, me deparo com as ruínas do Refúgio Los Pelaos, todo de pedras. Há bons espaços para pernoitar protegido do vento desde que você não se impressione com as paredes prestes a desabar. O local também é rota de uma travessia no sentido norte-sul da Serra de Gredos. Uma caminhada alternativa seria subir ao Pico La Mira, de 2343m (desnível de apenas 91m desde as ruínas), mas não encarei. O mais importante: tem água.
      Às 12h33 prossegui na trilha para oeste e 190m após as ruínas atinjo a maior altitude do dia, 2262m (alcançarei outra altitude igual ainda nesse dia). No horizonte a oeste já avisto uma cordilheira com os picos Almanzor, La Galana e o passo Portilla del Rey, pelo qual passarei entre a Laguna Grande e as 5 Lagunas. A trilha volta a cruzar o tapete amarelo de flores e a crista continua o seu sobe-e-desce. Caminho por alguns trechos com calçamento de pedras. Às 15h05 fui à esquerda (sudoeste) numa bifurcação seguindo os totens, sem trilha definida (à direita teria descido a um estacionamento chamado La Plataforma).

      Campos de piorno
      Às 15h21 avistei a oeste o Refúgio del Rey, ainda bem distante. Desci e ao subir ao topo da colina seguinte visualizei a trilha à frente e abaixo. Desci novamente e a encontrei às 16h29. Com mais 8 minutos cheguei ao Puerto de Candeleda (com placas indicando ser a PR-AV 46), outra rota que cruza a serra de norte a sul. Parei para descansar e comer, e para meu espanto apareceu um outro louco solitário fazendo a travessia da serra com um enorme mochilão com não-sei-quantos litros de água. Conversamos um pouco e ele seguiu na frente. Às 17h22 continuei na direção oeste numa longa subida, percorrendo depois uma crista para o norte. Às 18h06 fui à direita numa bifurcação para ver de perto as ruínas do Refúgio del Rey. Ao lado fizeram um cercado com as pedras desabadas que serve como abrigo do vento para um bivaque. Perto do refúgio encontrei água quase parada mas 80m à frente (norte) havia uma ótima bica. Continuei para o norte por uma trilha larga às 18h55. 
      Às 19h17 cheguei a uma cabeceira de vale com capim bem verde e bastante água, ao contrário da secura que vinha enfrentando até aqui. Seguindo os totens cruzei o riacho e subi por um caminho construído com pedras, passando por pequenas lagoas. Às 19h52 uma bonita visão para a esquerda (oeste) das montanhas pontiagudas próximas à Laguna Grande, meu destino nesse dia. Porém a laguna estava bem longe ainda e a descida direta para oeste não se mostrou animadora pela inclinação e ausência de trilha. O jeito foi continuar para o norte, dando uma volta bem grande, mas por trilha bem marcada e segura. Aqui atinjo também a maior altitude do dia, 2262m. Fui à esquerda na bifurcação e comecei a descer. Às 20h33 cheguei a uma bifurcação em T e continuei descendo para a esquerda. À direita se vai à Plataforma e esse é um caminho bastante usado para chegar ao Refúgio Elola em cerca de 5h. Passei por uma fonte de água e continuei no rumo sudoeste até as margens da Laguna Grande. Contornei toda sua margem leste e sul para enfim chegar ao Refúgio Elola às 21h36, quase no pôr do sol. Esse local é conhecido como Circo de Gredos.
      Este refúgio foi o único que encontrei guardado, ou seja, com guardiões, que aliás estavam jantando e por sorte sobrou alguma janta para mim também. Dentro do refúgio deve-se usar apenas chinelos ou crocs, disponíveis em prateleiras na entrada. Há armários com chave. Os quartos são coletivos e têm beliches bem largas onde dormem muitas pessoas uma ao lado da outra, por sorte havia pouca gente e não precisei dormir espremido. A reserva costuma ser obrigatória mas pelo número pequeno de hóspedes não houve problema em não tê-la feito. O banheiro não tem vaso sanitário e sim uma peça de metal com buraco no chão, como no Nepal. Altitude de 1958m.
      Talvez o principal destino dos montanhistas que procuram esse refúgio seja o Pico Almanzor, o mais alto da Serra de Gredos, com 2591m.
    • Por Marco_AV
      Fala pessoal! 
      Faz um tempo desde minha última postagem.. pandemia postergou várias viagens planejadas, mas aqui estamos para mais um relato! Apesar de já ter feito algumas trilhas e escaladas em algumas viagens, como por exemplo a Table Mountain na África do Sul e o Monte Etna na Itália, essa foi a primeira viagem que fiz especificamente para isso, portanto, merece um relato mais detalhado, principalmente para aqueles que, assim como eu, são aventureiros de primeira viagem. Sem mais delongas, vamos ao relato! 
      Bom, eu e mais um amigo, após descobrir sobre o Parque Nacional do Itatiaia (1° parque nacional do Brasil que abrange três estados do Brasil, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), ficamos ansiosos para fazer as trilhas do parque. Alguns pontos aqui.. Eu achei muito mal explicado as coisas no site do parque, tive que caçar diversas fontes de informações pra conseguir ir certinho. Pela lista de guias do site, fechamos com o guia Ian, da agência Bem da Terra, e acabamos acertando em cheio.. o guia era super gente boa e atencioso! Ficou R$ 450,00 para duas pessoas para irmos na segunda-feira ao Pico das Agulhas Negras. É necessário também ingresso para entrar no parque, que estava incluso nesse valor, e pedimos ao guia para comprar um dia a mais de visitação, o que nos poupou um tempo extra de ter que fazer isso na hora. Um casal de amigos meus foram ao parque recentemente e me recomendaram a Pousada Bululu, onde ficamos também. O dono, Bululu é um cara muito simpático e fez toda diferença durante nossa estadia.. a pousada fica à 20 minutos da entrada da estrada que vai pro parque e cerca de 5 minutos do centro da cidade. Pagamos R$ 260,00 a diária para duas pessoas com café da manhã incluso.. destaque para a pousada: 

      Vista da pousada acima.. passa um riozinho bem do lado. 
      Escolhemos o feriado de 7 de setembro, saímos no sábado, com retorno previsto para a terça-feira. Existem algumas maneiras de chegar no parque.. como saímos de Campinas, fomos pela Dom Pedro / Dutra.. escolha errada. Pegamos muito trânsito, mesmo saindo no sábado, levando em torno de 6 horas pra chegar em Itamonte (Aqui vale uma ressalva.. o parque é muito grande, então dependendo do atrativo que você quiser visitar, é recomendado ficar na cidade mais próxima e, no nosso caso, Itamonte era essa cidade.. que fica em Minas Gerais). Chegando na cidade, passamos no mercado para comprar comida para os dias do parque (coisas pra lanches, frutas, água, castanhas, etc.). 
      1° Dia - Prateleiras
      Bom, como tínhamos um dia longo pela frente na segunda-feira, queríamos conhecer o parque e fazer alguma trilha mais tranquila e menos cansativa no domingo. Saímos da pousada às 9 horas e fomos em direção ao parque.. após 20 minutos na estrada, a entrada do parque fica à 15 km em uma estrada muito (MUITO!) ruim.. leva em torno de 1 hora para percorrer esses 15km.. é triste de ver a situação precária da estrada, considerando que é uma BR. O desprezo é um espelho do que acontece em várias áreas do país.. mas, enfim. Chegamos na entrada do parque por volta das 11 horas (quase sempre pega-se fila pra entrar no parque, precisa preencher alguns termos, dizer qual atrativo você vai, etc.), estacionamos logo na entrada.. outro ponto a ressaltar aqui. O parque é muito grande.. da entrada do parque até o Abrigo Rebouças que é o mais próximo das trilhas dá em torno de 3km, ou seja, pra ir e voltar pra entrada são 6km que você terá a mais além do percurso da trilha, então, procure parar o mais próximo possível do começo da trilha que você for fazer. Acabamos optando pelo Pico das Prateleiras, onde à princípio iriamos até a base dela, pois até o cume precisaria de guia e seria mais exaustivo também. A ida até a base é bem tranquila.. leva em torno de 1 hora.. porém, chegando lá, quisermos ir um pouco mais, e desse pouco mais, acabamos indo até o cume 😬, pois nos enturmamos com um pessoal que estava com guia e acabamos indo junto.. Valeu todo o esforço que não tínhamos planejado (e que não foi pouco!). A vista de lá era surreal! 
       
      Ao longo da trilha.


      Há alguns trechos como esse, onde você tem que passar por dentro das rochas. 

      Vista do cume. Observação para a caixa metálica, onde contém um livro que as pessoas que sobem podem assinar, deixar alguma mensagem, etc.
      Na volta do cume, o pessoal ia fazer um rapel em um dos pontos e nos seguimos sem eles.. quando chegamos na base, a gente não conseguia encontrar o caminho de volta e aqui fica um adendo.. o Prateleiras é muito mais simples do que o Agulhas Negras, mas, sempre optem por um guia, ou alguém que já conheça o percurso para evitar se perderem igual aconteceu com a gente. Por sorte, tinham algumas pessoas lá que nos auxiliaram na volta.. Todo esse percurso, até o carro que estava quase na portaria 😪 levou em torno de 5/6 horas, mais 1h30 até a pousada, chegamos em torno das 18:30. Resumindo, tínhamos um longo dia pela frente na segunda e chutamos o balde no domingo, rs. Mas, valeu todo o esforço! E um check em um dos atrativos mais visitados no parque. Chegando na pousada, jantamos e logo fomos dormir.. tínhamos que estar na entrada do parque as 7 horas da manhã para encontrar o guia 😬.
      2° Dia - Pico das Agulhas Negras
      Acordamos as 04:30 da manhã para conseguir chegar ao parque as 7hrs. Ponto positivo para a pousada, que deixou preparado o café da manhã mesmo nesse horário. Como eles estão acostumados com o pessoal saindo cedo, bastou falar para o Bululu que ele já se dispôs a fazer essa gentileza pra gente. Bom, nos reunimos com o pessoal que ia junto com a gente para a trilha, e fomos em 11 pessoas (2 guias). Eu acho que foi mais gente do que deveria, para esse tipo de trilha, considerando que tem vários trechos com rapel, demora muito para todo mundo caminhar junto.. acredito que um grupo de 4 a 5 pessoas seja o ideal. Enfim, seguimos do Abrigo Rebouças em direção ao Pico das Agulhas Negras, sendo que o trajeto todo, subindo e descendo duraria em torno de 8/9 horas. Até a base do pico é bem tranquilo, caminhada sem muitos esforços.. à partir da base é que a coisa começa a complicar (bem mais do que o Prateleiras). A diferença entre as duas é que o Agulhas tem muitos mais trechos de pedra e o esforço com os joelhos e com os braços é muito maior..

      Primeiro trecho de rapel.

      Eu, Gui e Ian (nosso guia) no segundo trecho de rapel, à 10 minutos do cume.

      Vista do cume das Agulhas Negras (na verdade esse cume é o que chamam de cume "falso", pois existe um ao lado, que é preciso fazer 1 rapel de descida e mais um de subida, e é o verdadeiro cume, onde também fica localizado o livro para assinar. Obviamente que fomos, mas nem todos os guias levam até lá, e também nem todas as pessoas vão, pois é um pouco mais complicado e exige mais, psicologicamente e fisicamente).

      Foto do cume do Agulhas Negras, à 2791m de altitude 🤘
      Como tinham algumas pessoas lá, demorou mais do que o previsto para descermos, sendo que começamos o retorno em torno de 13:30hr, o sol estava estralando! No retorno, na parte do segundo rapel, há uma possibilidade de fazer o rapel por um outro trecho, com 18 metros de altura.. foi muito massa!

      Segundo trecho do rapel, no retorno.
      A volta exige bem mais do que a ida.. uma por já estar cansado, e outra pelas pedras, que te fazem usar muito os joelhos e os braços.. Após um dia muito limpo, com muito sol, chegamos de volta no abrigo rebouças por volta das 17:30hr, e o tempo lá muda demais.. as 18hrs já estava fazendo 7, 8° graus.. ou seja, é sempre bom levar uma blusa reforçada, além de que, no cume das montanhas venta demais, e eu sempre ficava tirando e colocando a blusa..

      Na ponte do abrigo, com o pico das Agulhas Negras ao fundo, iluminado pelo sol já se pondo.
      Não preciso dizer que nosso retorno foi muito cansativo.. acumulando os dois dias de trilha, estávamos exaustos, mas de mente aberta e havíamos superado nossos medos de altura, rs. No retorno a pousada, só nos restou tomar um belo banho quente, jantar e preparar para o retorno no dia seguinte. Optamos por voltar por Minas, a estrada é de maioria pista única, mas o caminho é bem bonito, então valeu a pena! Espero fazer outras trilhas em breve, me despertou um sentimento muito bom, de superação e aventura.. e, espero ter ajudado também os montanhistas de primeira viagem, assim como eu!
      Obrigado e até a próxima!

    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado POA CENTRAL - Acomodação Econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por ariane_peabiru
      O meu relato de hoje é sobre uma experiência única de imersão em um deserto. Andar quilômetros descalça na areia, dormir em uma rede sob a luz das estrelas e ter uma visão única de um dos Parques Nacionais mais lindos do Brasil. A travessia dos Lençóis Maranhenses vai muito além de uma paisagem surreal, com suas dunas e piscinas naturais. 
      Nesse relato vou contar como foi fazer a minha primeira travessia sozinha com a Peabiru! Esse roteiro combina aventura com turismo de experiência e já está disponível lá no site. Abaixo vou dar algumas dicas extras que podem te ajudar a tornar essa aventura inesquecível.
       
      Lençóis Maranhenses e a infinitude de um deserto
      O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é o maior campo de dunas do Brasil. Seu diferencial são as mais de 7 mil lagoas que se formam entre as dunas, cada uma com a sua particularidade. São vários tamanhos, colorações e composições. Algumas são perenes e outras secam em determinada época do ano, uma vez que toda a água das lagoas é provenientes das chuvas. 
      Segundo o ICMBio, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses fica inserido no Cerrado, mas apresenta forte influência da Caatinga e da Amazônia. São 155 hectares (quase a mesma área da cidade de São Paulo!) que abriga ecossistemas frágeis, como a restinga, o manguezal e o campo de dunas.
      Cerca de ⅔ do parque é coberto pelas dunas de areia livre que se deslocam diariamente há  mais de 5 mil anos. Segundo estudos, elas podem se deslocar até 10 centímetros em um dia de vento forte, que pode chegar a 70 km/h. Na época de chuva, quase não ocorre deslocamento, as intensas chuvas são absorvidas pela areia, elevando o lençol freático e enchendo as lagoas temporariamente. 
      Certamente esse foi um dos fenômenos que mais me marcou nessa experiência, sentir na pele e ver com meus próprios olhos a formação e evolução das dunas. Em vários pontos da travessia o Geovanne indicou cajueiros, casas e comunidades que foram cobertas pelo avanço e movimentação das dunas dos Lençóis Maranhenses. Ele também contou sobre a formação dos cemitérios de florestas, onde toda a vegetação foi coberta pelas dunas de areia, as plantas morreram e agora a migração das dunas deixam em evidência diversos galhos secos e já sem folhas.
       
      Quando ir
      Embora muitos guias e sites indiquem a visita de Junho a Setembro, quando as lagoas estão mais cheias, eu acredito que cada época do ano traz uma vivência diferente nos Lençóis. 
      Viajei para fazer a travessia dos Lençóis Maranhenses em Outubro, já no final da temporada. Muitas piscinas naturais já estavam mais secas, mas ainda assim tinham muitas paradas para mergulhar e pude conhecer lagoas incríveis. Em vários pontos foi possível passar “por dentro” de lagoas secas, o que torna o trekking um pouquinho mais curto e cria uma visão linda de cemitérios de florestas. 
      Fiz a travessia em Outubro de 2020, durante a semana (quarta a sexta-feira) e tive o parque praticamente só para mim!
       
      Turismo de base comunitária e a vida nos Lençóis Maranhenses
      Existem vários tipos de passeios para visitar os Lençóis Maranhenses, mas sem dúvida a Travessia é o melhor atrativo. Os passeios tradicionais de 4×4 não podem acessar a zona primitiva do parque, onde está a maior diversidade de vegetação e aves.
      Os roteiros podem chegar até 7 dias, mas o mais comum são as Travessias de 3 a 4 dias. A visitação deve ser feita seguindo as regras de mínimo impacto e obrigatoriamente com guia cadastrado no Parque (fonte: ICMBio). 
      Aqui na Peabiru temos dois condutores cadastrados no Parque, Geovanne (que foi meu guia nessa aventura) e Marcelo. Eles são amigos de longa data e trabalham juntos em muitas ocasiões. Cada um tem sua pegada e forma de vivenciar os Lençóis de uma maneira diferente.
      Cerca de 30 famílias residem nos dois Oásis, Queimada dos Britos e Baixa Grande. Durante a travessia, dormimos em verdadeiros em redes nas casas de moradores de comunidades locais. Lá somos recebidos com refeições simples, mas muito bem preparadas, sendo uma excelente experiência de interação com a comunidade tradicional. 
      Uma das coisas que mais me marcou foi o carinho pelo qual o Geovanne era recebido em cada casa que visitamos. Deu para perceber que ele faz parte da família. Em cada lugar eles também perguntavam carinhosamente sobre o Marcelo. O Marcelo e sua família contribuíram muito para o desenvolvimento das comunidades locais. Eles ajudaram as famílias a estruturarem os espaços para receber visitantes, incentivando a renda das famílias através do turismo de base comunitária.
      Alimentação
      A alimentação nos oásis é simples, tem galinha caipira, peixe frito, macarrão, arroz e feijão. Se você quiser comer uma comida local, pode pedir para o guia solicitar carne de bode. Grande parte da comida vem ali mesmo do quintal dos moradores. No café da manhã tem cuscuz, tapioca, ovos e café, tudo incluso na diária.
      A travessia termina em Betânia, onde tive a oportunidade de comer a comida que mais me encantou em Lençóis Maranhenses: peixe com caju no leite de coco. Esse prato não estava no cardápio, mas é conhecido por todos os moradores locais. O Geovanne conversou com os donos do restaurante e conseguiu que eles fizessem especialmente para nós! Estava simplesmente sensacional!
      Se você é vegetariano ou vegano é importante avisar o guia com antecedência. Os anfitriões são flexíveis e podem preparar algo especial, mas precisam ser avisados o quanto antes para programar as compras e o cardápio.
        Roteiro e Dificuldade
      Se você nunca fez uma travessia, mas tem vontade, recomendo muito começar por essa!
      O ideal é levar uma mochila cargueira, pois ela se adequa e distribui melhor o peso. Mas a mochila vai quase vazia, pois a  rede e as principais refeições são fornecidas nas comunidades locais. Na mochila você precisa levar apenas água, lanterna, kit de higiene pessoal, lanchinhos para a trilha, uma troca de roupa para dormir e um casaco, porque a noite costuma esfriar. 
      Eu acabei levando também meu tênis, pois não sabia se sentiria dores no pé. Vi muitos relatos de pessoas com calos ou bolhas, mas eu tive sorte e não tive problema nenhum. Caminhei quase todo o percurso descalça mesmo e alguns trechos apenas de chinelo. O tênis foi um peso desnecessário que eu acabei carregando
      Um ponto importante é que a aventura deve ser feita em um único sentido: saindo de Atins e indo para Santo Amaro. Dessa forma, você sobe sempre as dunas na sua face mais suave e desce pelo chamado facão. Confesso que fiquei com medo nas primeiras descidas, pois era bem íngreme, mas a cada passo minha perna deslizava até o joelho dentro da areia, fazendo uma deliciosa massagem nos pés e na panturrilha. As descidas se tornaram um momento delicioso e divertido da caminhada.
      Eu imaginava que a areia seria super quente, mas não é. Devido a sua composição de quartzo, ela reflete o sol sem esquentar tanto. Também não sentimos muito calor porque o vento sopra constantemente. Claro que mesmo com o vento, o sol pega forte e é preciso tomar muito cuidado com a hidratação e a proteção. Em muitos momentos eu usei até a canga para proteger o meu rosto do sol.
      Outro ponto importante é que acordamos cedo todos os dias. A jornada começa antes do sol nascer, assim podemos caminhar com sol mais ameno, o que torna a caminhada menos cansativa. Também chegamos na casa dos nativos cedo, para aproveitar o almoço e depois temos a tarde para aproveitar o rio, as redes e o incrível pôr-do-sol nas dunas.
       
      Diário de bordo
      1° Dia – Passeio pelo Rio Vassouras e 8 km de caminhada
      A travessia começa em Atins, mas o Geovanne já organiza todo o percurso para chegar lá. Partimos de Barreirinhas às 9h, em um passeio pelo rio Preguiças de voadeira, que são barcos motorizados. 
      Nossa primeira parada foi Vassouras, onde vi a primeira lagoa. Um lugar lindo e muito conhecido pelos macacos que ficam soltos e pegam coisas dos turistas. Confesso que me senti um pouco mal de ver as pessoas alimentando os animais e incentivando o comportamento, apesar de os guias avisarem o tempo todo para as pessoas não fazerem isso e guardarem bem os seus pertences.
      Depois disso, paramos em Mandacaru, onde conhecemos o farol e tomamos uma água de coco. Almoçamos na praia do Caburé e, enquanto esperávamos o almoço, fomos ver o mar, do outro lado da estreita faixa de areia. Após o almoço partimos para Atins, onde fomos recebidos por um quadriciclo que iria nos levar até o início do trekking. 
      Uma dica interessante é dormir em Atins nesse dia e começar a travessia no dia seguinte. Como eu tinha pouco tempo, não consegui conhecer essa vila que dizem ser muito aconchegante. Dizem que o Camarão do Antônio é algo imperdível!
      Começamos nossa caminhada era umas 16:00 e chegamos no Oásis Baixa Grande após o pôr-do-sol, pois decidimos parar para apreciá-lo. Nesse primeiro dia são cerca de 8 km caminhando, mas eu estava tão empolgada para começar que nem senti!
      Pernoitamos no redário da Dona Loza, uma senhora muito simpática e animada que fez um peixe delicioso. Não havia nenhum turista naquela noite, assim pude conhecer e tomar uma cerveja com alguns moradores de Barreirinhas que estavam ali para visitar as comunidades. 
      Ali conheci o Índio, guia nativo que estava acompanhando uma amiga com suas filhas. Apesar de trabalhar durante a sua vida inteira como guia para os passeios tradicionais, ele nunca tinha feito a travessia. Como estávamos só nós 2, ele pediu para o Geovanne se poderia ir junto e, claro, topei na hora! O Índio foi uma companhia incrível e tirou as minhas melhores fotos!
      No final da noite o Geovanne fez uma pequena fogueira em uma área protegida e ficamos vendo o céu estrelado. Não olhei a hora, mas devo ter ido dormir às 21h. Foi a primeira noite que dormi na rede e achei super confortável.
      2° Dia – 12 km pelo deserto
      No segundo dia acordamos umas 6:00 da manhã, o Geovanne tinha visto que eu caminho bem e deixou a gente acordar um pouco mais tarde. Tomamos café da manhã bem reforçado e começamos a nossa caminhada rumo ao Oásis Queimada dos Britos. 
      Chego a ficar emocionada ao lembrar do sentimento de imensidão que eu senti caminhando pelas areias naquele dia, sem ver uma pessoa além do nosso grupo. Para cada lado que eu olhava era uma luz incrível, um movimento incrível e uma sensação de vida no deserto. Paramos em 2 lagoas para banho, sempre no momento exato que o corpo pedia um descanso e um refresco.
       
      Chegamos no horário do almoço na Queimada dos Britos e a comida já estava pronta para nos servirmos. Depois do almoço, descansei um pouco de baixo da árvore, na beira do rio que corta aquele Oásis. Um sentimento de paz e calma estar ali cercada de tanta vida.
      No final do dia fomos ver o pôr-do-sol e na volta paramos para tomar uma cerveja e uma Tiquira na casa de Seu Raimundo. Depois voltamos para jantar e dormir. 
      Durante o trekking o Geovanne havia comentado várias vezes como gostava de dormir de baixo da árvore ali na Queimada dos Britos, mas eu não havia me animado ainda. Quando chegamos a noite para montar a rede vi que tinha MUITAAAAA barata no redário e fiquei em pânico. Decidi que dormir ao ar livre seria melhor que dormir ali onde eu tinha certeza que tinha muitas baratas.
      O Geovanne montou a rede para mim na beira do Rio e lá fui eu dormir sob o céu estrelado. Confesso que acordei muitas vezes durante a noite, com cada barulhinho. Em um dado momento, escutei até o jegue que foi pastar ali perto. Apesar disso ainda achei uma experiência inesquecível, que me deu coragem para dormir fora da barraca na Chapada Diamantina depois (um dia conto mais sobre essa experiência de bivak).
      3° Dia – uma longa jornada de 19 km 
      Saímos da Queimada dos Britos às 4:00 da manhã, com nossas lanternas acesas, contemplando o céu estrelado, um pouco mais tarde que o habitual. Ver o sol nascer nos Lençóis foi uma aventura fantástica, o céu foi ganhando vários tons rosa e roxo, trazendo muitas emoções em cada momento.
      Nesse dia eu percebi o sol ainda mais forte e o corpo um pouco mais cansado. Foram mais momentos em silêncio e reflexão do que aquilo tudo representava. As paradas para banho traziam uma renovação de corpo e de espírito. 
      Acho que chegamos em Betânia umas 10:30 ou 11:00, onde a travessia do Rio Alegre marcava o final da nossa jornada caminhando. Uma nova energia e correntes de felicidade percorreram o meu corpo.
      Naquele dia ainda almoçamos o peixe com caju, que comentei antes e depois ainda demos muita sorte no transporte de volta. Pegamos um passeio tradicional de 4×4, onde tive a oportunidade de visitar mais duas lagoas. Elas estavam já bem cheias de pessoas e não era mais aquela paz que eu senti durante a travessia. 
      Vimos ainda o pôr-do-sol na saída do Parque em Santo Amaro. Embora tenha sido um lindo espetáculo e despedida do parque, a quantidade de carros e de pessoas tirando fotos e fazendo poses chegava a me incomodar. Foi uma despedida com chave de ouro, pois me deu a certeza que fazer a travessia é a única maneira de ter uma experiência autêntica nos Lençóis Maranhenses. 
       
      Outras Dicas
      Cuidados
      Eu fui sozinha fazer essa travessia, não tinha grupo e fui somente com o guia. Muitas pessoas ficaram preocupadas, e com razão. Infelizmente escutei diversas histórias de pessoas que se perderam e que foram com supostos guias que não conheciam o parque… Para uma mulher sozinha, isso se torna uma preocupação ainda maior.
      Vá com guias conhecidos e respeitados. Aqui na Peabiru você tem mais segurança, conhecemos pessoalmente os guias parceiros na Travessia dos Lençóis Maranhenses. Garantimos, dessa forma, uma experiência segura.
      Como chegar
      Eu fiquei em Barreirinhas, decidi ir para lá e fazer um voluntariado pela Worldpackers. Trabalhei durante 15 dias no Hostel Aquarela, foi uma excelente oportunidade para conhecer um pouco mais sobre turismo e a Bianca é uma excelente pessoa e gosta que os voluntários conheçam bem os Lençóis. Por isso ela super incentivou que eu fizesse a travessia e ainda me apresentou para o Marcelo, outro guia parceiro aqui da Peabiru. 
      Para fazer a travessia aconselho ter como base Barreirinhas, que fica a 256 km da capital São Luiz. Para chegar lá você pode alugar um carro, pegar o ônibus ou a van que leva cerca de 4h. Recomendo agendar a van com antecedência, para garantir um lugar e já combinar onde ela te busca em São Luiz e te deixa em Barreirinhas. 
      Existem outros passeios em Barreirinhas, inclusive dá para tomar banho no Rio Preguiças. Para isso vale a pena ir ao Centro Cultura da cidade, onde tem um bar com redes dentro do rio. Outro passeio gostoso é conhecer a casa de Farinha em Tapuio.
      Dicas Finais
      Leve apenas o essencial, você precisa de muito pouco nos Oásis Leve uma lanterna Leve dinheiro, você irá precisar para consumir bebidas na casa das famílias nativas Leve água e lanchinhos para as trilhas Traga todo o seu lixo de volta! Proteja-se do sol e da areia: use óculos de sol e dê-preferência para roupas de manga comprida, para não contaminar as lagoas com produtos químicos Use chapéu ou boné Leve um casaco ou fleece para a noite, pode esfriar bastante  

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