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Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
– conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
real beleza que veríamos.
Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,

ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
dela e partiríamos assim que possível.
Primeiro dia
A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.

Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
dia que nascia.
Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
base da cachoeira vermelha, às 8h.
Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha

Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
12h.
Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.

Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
até a parede quase vertical do acampamento base.
Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.

Segundo dia
Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
e a PM compensava o desconforto.
Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
explorando os arredores da trilha tradicional.
Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos

camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
passagem, na travessia full anterior.
Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição

bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
para cima.
Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
agua até o final da tarde do dia seguinte.
Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas

águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
isolante “casca de ovo”.
Terceiro dia
Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
“safar a onça”.
Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a

posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
“nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
com o sol rachando tudo e a todos.
Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
do grupo em que estava.

O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
generosos goles.
Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.

Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
algumas passagens.
Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!

 

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    • Por rafael_santiago
      Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar
      Início: Namche Bazar
      Final: Pheriche
      Duração: 9 dias
      Maior altitude: 5643m no cume do Kala Pattar
      Menor altitude: 3313m na vila de Phunki Thenga
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 800m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Kongma La, de 5530m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha  (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36).
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      O trekking Namche Bazar-Campo Base do Everest é a segunda parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a terceira parte está descrita aqui . Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso dedicar alguns dias às caminhadas de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia".
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
      . Namche Bazar: NCell
      . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila)
      . Dingboche: só Everest Link
      . Chukhung: só Everest Link
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      . Lobuche: só Everest Link
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      O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". 
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. 

      Mirante próximo ao Hotel Everest View (da esq para a dir): Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam
      8º DIA - 31/10/18 - de Namche Bazar a Khumjung e Khunde (aclimatação)
      Duração: 5h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4050m
      Menor altitude: 3430m
      Resumo: como havia ultrapassado os 3000m de altitude, segui a recomendação de fazer caminhadas de aclimatação a partir de Namche Bazar. Nesse dia subi até o Hotel Everest View para fotos do Everest e outras montanhas em 360º, depois percorri as vilas de Khumjung e Khunde, e ainda subi ao mirante Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Voltei para dormir novamente em Namche.
      Saí do lodge às 7h03 e subi pela escadaria central da vila, passando à direita do Khumbu Resort. Mais acima a escada de pedra termina, o caminho quebra para a direita e se transforma numa ladeira com degraus espaçados. Na bifurcação sem placa fui à esquerda subindo. Mais acima fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Tyangbuche à esquerda e hotéis (e um museu) à direita. Cerca de 90m acima fui à esquerda na placa apontando Khumjung Khunde à esquerda e Tengboche Gokyo à direita (meu destino no dia seguinte). A subida continua por trilha estreita e em zigue-zague. Segui pela trilha principal até um hotel no alto, o Everest Sherpa Resort. Contornei-o pela direita e subi a um morrote às 7h59. Ali está a primeira visão do Everest para quem inicia a caminhada em Lukla (para mim a primeira visão do Everest foi em Phurtyang, no 4º dia de caminhada). Desse mirante se avistam muitas outras montanhas. Na sequência da esquerda para a direita a nordeste estão: Cholatse, Taboche, Nuptse (20º mais alto do mundo), Everest, Lhotse (4º mais alto do mundo), Lhotse Shar e o magnífico Ama Dablam. A leste estão o Kangtega e o Thamserku, a sudeste o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) e ao norte o Khumbila. 
      Dali poderia seguir pela trilha mais batida mas o Christopher (o austríaco) me sugeriu subir um pouco mais e caminhar por uma crista que dava visão para o outro lado, para a vila de Khumjung aos pés do Pico Khumbila. E foi o que fiz, saindo às 8h27. A trilha é estreita e pouco usada, mas se funde à principal ao descer da crista. Com mais 300m já estava no Hotel Everest View, às 9h05. Não se deve entrar no hotel pela escadaria (como eu fiz) para tentar acessar a frente dele e ter a melhor visão das montanhas, mas sim subir à sua direita até algumas antenas, onde a panorâmica de 360º é bastante parecida com a do mirante anterior. Porém a vista na direção do Everest é mais desimpedida e pode-se enxergar a vila de Phortse, por onde eu passaria no 17º dia, e a vila de Tengboche na crista de uma serrinha a 4,5km dali, com o caminho subindo até ela (passaria por ela no dia seguinte). Desse mirante das antenas, a 3886m de altitude, se avista também a Ponte Larja, a ponte dupla por onde havia passado no dia anterior. Parei para contemplar a paisagem mas quando começou a encher muito e ficar muito ruidoso o lugar, saí em direção a Khumjung, às 10h33. Os pousos e decolagens de helicópteros de voos panorâmicos ali são constantes (ou serão hóspedes vip chegando e saindo do hotel?). 
      Caminhei de volta ao hotel, desci a escadaria por onde cheguei e entrei na trilha sinalizada com "way to Khumjung" à direita. A trilha atravessa uma pequena mata e na descida para Khumjung desviei à direita até uma stupa para mais fotos. Essa stupa tem uma placa de dedicatória a sir Edmund Hillary, primeiro homem (junto com Tenzing Norgay) a atingir o cume do Everest, em 1953, e que dedicou sua vida a ajudar o povo sherpa através da organização Himalayan Trust, que ele fundou em 1960. Retomei a trilha principal mais abaixo e desci à vila de Khumjung. Atravessei-a toda e ao chegar a uma praça central com mais stupas entrei à direita seguindo a placa "Khumjung Gomba". Segui pelos caminhos cercados por muros de pedras e alcancei a gomba (monastério) Samten Choling às 11h46. Tirei fotos externas apenas pois havia uma taxa para entrar e eu já havia entrado em vários monastérios budistas. Havia duas rodas mani enormes ao lado. Sentei por ali para comer alguma coisa que trazia de lanche e às 12h02 me encaminhei à vila de Khunde. Voltei apenas 70m pelo mesmo caminho e na primeira bifurcação entrei à direita seguindo a placa. Esse é um caminho secundário de ligação entre as duas vilas, o caminho principal sai da praça central das stupas. 
      Alcancei a vila de Khunde às 12h23 e passei perto do Hospital Hillary, o único hospital do Khumbu (não espere um grande hospital, por fora parece mais um posto de saúde). Avistei o monastério de Khunde no alto, entre as árvores de uma colina, e fui na sua direção. Ao chegar ao pé da colina havia uma placa: Khunde Gomba (monastério) à direita e Gong Ri View Point à esquerda. Fui primeiro ao monastério e é linda a vista das duas vilas com seus telhados verdes e extensos muros de pedras contra as montanhas nevadas ao fundo. Desci de volta à placa e às 12h47 segui à direita para conhecer o Gong Ri View Point (ou Hillary Memorial View Point). Subi dos 3886m dessa placa até os 4050m do mirante em 24 minutos. Ao atingir a crista fui para a esquerda na bifurcação e cheguei a um mirante murado com vista para Namche Bazar bem abaixo, as vilas de Khunde e Khumjung a nordeste e o vale do Rio Bhote Koshi a oeste. As nuvens da tarde já estavam atrapalhando um pouco a visão das montanhas mais distantes, mas ainda estavam visíveis o Khumbila ao norte, o Ama Dablam a nordeste, o Kangtega e o Thamserku a leste, o Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sudeste. O Everest seria visível desse mirante também, não fossem as nuvens.
      Depois voltei à bifurcação e fui para o lado oposto, onde estão as três stupas brancas de pedra em homenagem a Sir Edmund Hillary, sua primeira esposa Louise e a filha do casal Belinda, ambas falecidas num acidente aéreo em Kathmandu em 1975. Ele faleceu em 2008 em Auckland, Nova Zelândia, sua cidade natal. O local para prestar essa homenagem a Edmund Hillary e família não poderia ser mais espetacular.
      Iniciei a descida de volta pelo mesmo caminho às 14h06 e em 17 minutos estava na placa próxima ao monastério. Dali voltei mais 130m pelo caminho da chegada e fui à direita na primeira bifurcação, depois caminhei na direção do portal da vila, ao sul. Na saída passei por uma grande stupa em reforma, atravessei o portal budista às 14h41, subi uma escadaria de pedras e iniciei a descida de volta a Namche Bazar. Às 15h06 entroncou à esquerda o caminho largo que vem da praça central de Khumjung. Passei pelo vilarejo de Syangboche (com uma pista de pouso de terra) e às 15h13 fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Thame e Thamo à direita. 
      Às 15h28 tive uma bonita visão de Namche Bazar do alto, em forma de anfiteatro. Desci mais, passei pelo monastério (gompa) de Namche e às 15h49 estava de volta à vila. Tratei logo de encontrar outro lodge para ficar já que fui "expulso" do Shangri La esta manhã. Procurei algum outro em que o quarto saísse de graça também, mas não encontrei. Resolvi ficar no Valley View Lodge por Rs100 (US$0,87) o quarto. O banheiro ficava dentro do lodge e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia um lavatório no corredor. 
      Saí para conhecer mais de Namche e comprar algumas coisas. Comprei por Rs1000 (US$8,68) um par de microspikes (pequenos crampons) para ter mais segurança na passagem pela geleira do Passo Cho La, no caminho entre o EBC (Campo Base do Everest) e Gokyo. Numa padaria tomei um chá de gengibre (Rs 150 = US$1,30) enquanto esperava recarregar o celular (de graça para quem consome alguma coisa). 
      De volta ao lodge tomei um delicioso banho quente na ducha aquecida a gás por Rs300 (US$2,60). No refeitório fiz amizade com um francês e uma americana que falava um pouco de português por ter amigos no Brasil. Ambos muito simpáticos. Ao contrário do Lodge Shangri La, este tem mais trilheiros independentes e é mais fácil fazer amizade. A comida e o banho são mais baratos também.
      Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.
      Altitude em Namche Bazar: 3430m
      Preço do dal bhat: Rs 490
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Monastério de Tengboche
      9º DIA - 01/11/18 - de Namche Bazar a Pangboche    
      Duração: 5h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3943m
      Menor altitude: 3313m
      Resumo: nesse dia percorri a vertente da margem oeste do Rio Dudh Koshi, cruzei esse rio para subir a Tengboche e em seguida passei a caminhar pelo vale do Rio Imja até a vila de Pangboche. 
      Saí do lodge às 7h25 pelo mesmo caminho do dia anterior subindo a escadaria central e indo à esquerda na placa Tyangbuche, porém logo acima fui à direita na placa Tengboche Gokyo. Logo encontrei com grupos e mais grupos indo na mesma direção. O caminho pela encosta da margem oeste do Rio Dudh Koshi é bem largo para comportar tanta gente. O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Venho acompanhando seu curso desde o 5º dia de caminhada, vou segui-lo nesse dia até o povoado de Phunki Thenga e depois no trajeto de Phortse a Gokyo, onde estão suas nascentes.
      Já era possível avistar a vila de Tengboche 4km à frente (em linha reta). Às 8h53 passei pelos lodges de Kyangjuma. Às 9h duas trilhas saem para a esquerda, mas em direções opostas. A da frente (nordeste) vai para Gokyo, subindo. A de trás (sudoeste) vai para Khumjung, também subindo. Eu fui em frente à direita, seguindo a placa de Tengboche.  
      Às 9h04 passei pela vila de Sanasa e às 9h25 pelo povoado de Tashinga (Lawishasa, Laushasa). Às 9h50, ao cruzar a ponte suspensa após a vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga), encontrei quem voltando? o Christopher, o austríaco ligeirinho. Porém não estava bem, seu joelho inchou e ele não podia seguir mais. Contratou um carregador para a sua mochila e ia voltar para casa. Uma pena... um amigo a menos para encontrar e reencontrar no caminho para o Everest. Atravessei a ponte (sobre o Rio Dudh Koshi) e tive uma surpresa não muito agradável: uma guarita ao lado da trilha onde se devia pagar a hospedagem nas próximas vilas (Tyangboche, Debuche e Pangboche) e no valor padrão de Rs500 (US$4,34). Ou seja, foi por água abaixo a negociação do quarto de graça se as refeições fossem feitas no próprio lodge, como tinha sido de Shivalaya até aqui (e foi no Langtang também).
      Após a ponte há mais lodges e restaurantes da vila de Phunki Thenga (Fungithang, Phungitanga). A altitude é a mais baixa do dia: 3313m. Parei ali na chautara (descanso dos carregadores) às 10h03 para comer alguma coisa que trazia na mochila. Ao sair sou logo parado no checkpoint na saída da vila para mostrar as permissões pagas em Monjo (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha). Ali começa uma longa subida em direção a Tengboche, em parte à sombra da mata de rododendros e pinheiros. Às 10h23 desprezei uma trilha subindo à esquerda e continuei em frente, mas parece que as duas trilhas se encontram mais acima. Nos trechos fora da mata era possível ter uma bonita visão dos picos Kangtega e Thamserku a sudeste. Alcancei Tengboche às 11h35 depois de um desnível de 533m desde a ponte do Rio Dudh Koshi. Ali visitei o maior monastério do Khumbu, caprichosamente decorado desde seu belo portal. Da grande praça central de Tengboche se avistam Ama Dablam, Khumbila, Taboche, entre muitos outros picos nevados. Também seria possível ver o Everest se as nuvens já não o tivessem encoberto.
      Parei para almoçar um veg fried rice e às 12h51 prossegui descendo pela mata de pinheiros e rododendros. Passei pela vila de Debuche às 13h05 (não visitei o convento) e Milinggo às 13h25. Às 13h37 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Imja e continuei acompanhando esse rio subindo pela margem direita verdadeira. O Rio Imja será meu companheiro pelos próximos dias. Após um portal budista (kani), fui à direita na bifurcação descendo (a esquerda leva à parte alta de Pangboche, onde está o monastério). Alcancei Pangboche às 14h18 e me instalei no Himalayan Lodge. Entreguei uma via do recibo de pagamento do quarto. O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com balde. Havia uma pia no corredor para escovar os dentes e se lavar. Tentei sinal da NCell e consegui apenas um sinal fraco perto da Hermann Bakery. Mais tarde no refeitório conheci um casal muito simpático que seria minha companhia por muitos dias ainda: Lando e Rosanne, holandeses. Na chegada a Pangboche à tarde havia conhecido três amigos russos muito legais também (e com um deles eu cruzaria várias vezes ainda).
      Altitude em Pangboche: 3943m
      Preço do dal bhat: Rs 600
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Campo Base do Ama Dablam
      10º DIA - 02/11/18 - de Pangboche a Dingboche
      Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Campo Base do Ama Dablam), 1h20 (descida do Campo Base do Ama Dablam), 2h (de Pangboche a Dingboche)
      Maior altitude: 4596m no Campo Base do Ama Dablam
      Menor altitude: 3910m na ponte do Rio Imja
      Resumo: de manhã fiz uma espetacular caminhada de aclimatação até o Campo Base do Ama Dablam com um desnível de 680m de altitude e à tarde segui pelo vale do Rio Imja até Dingboche
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,2ºC.
      Saí do lodge às 6h52 na direção nordeste, cruzei uma ponte metálica, subi as escadarias e na trifurcação seguinte desci em frente junto ao muro de pedra de um lodge. Cruzei a ponte de ferro sobre o Rio Imja às 7h16 e comecei a longa subida em direção ao Campo Base do Ama Dablam. O caminho é bem marcado e fácil de navegar, sempre subindo em direção às duas incríveis montanhas que formam o Ama Dablam. Parei muitas vezes para fotos e para curtir o incrível visual das montanhas ao redor (antes que as nuvens chegassem): Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Nuptse, Everest, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. A nordeste também se viam a vila de Dingboche e a subida para o mirante Nangkartshang. 
      Cheguei ao campo base às 9h33. Altitude de 4596m. No caminho o casal holandês (Lando e Rosanne) havia me alcançado e ficamos um bom tempo ali curtindo o lugar. Foi a primeira vez que pisei num campo base com as barracas das expedições ali montadas, é muito bonito de se ver. Escaladores esperando o melhor tempo para subir e outros já se preparando para ir embora. Uns brincando de boulder, outros simplesmente tomando sol. Entre tantos escaladores encontrei dois brasileiros, ele de Campinas e ela de São Paulo. Conversando com eles e com outros por ali me contaram que apesar do dia lindo e sem nuvens os ventos no alto da montanha estavam muito fortes para tentar uma escalada. Dali se destacam na paisagem, além do próprio Ama Dablam a leste, o Kangtega ao sul, o Khumbila a oeste e o Taboche a noroeste.
      Às 11h22 iniciei o retorno pelo mesmo caminho porém ao cruzar a ponte sobre o Rio Imja tomei a trilha à esquerda que subiu e terminou na escadaria de pedra próxima à ponte metálica. Na ida não percebi que havia uma trilha ali saindo à direita no meio da escadaria. Às 12h43 estava de volta ao lodge para almoçar e pegar minha mochila. As nuvens chegaram por volta de 13h e até o fim do dia a neblina tomaria conta de tudo. Nessa altitude é bastante comum isso, sol e céu limpo de manhã, muitas nuvens e até neblina à tarde. Por isso é bom sair para caminhar e fotografar as montanhas bem cedo. 
      Às 13h19 saí do lodge em direção a Dingboche. O caminho é o mesmo pela ponte metálica e a escadaria na direção nordeste porém na trifurcação toma-se a esquerda para percorrer a trilha na encosta da margem oeste do Rio Imja. Subindo passei pela vila de Somare às 14h e ali já fui parado numa guarita para pagar a hospedagem da próxima vila. De novo foram Rs500 (US$4,34) e a impossibilidade de negociar o valor do quarto diretamente com o dono/dona do lodge. Acredito que em breve toda a região do Khumbu (de Namche Bazar para o norte) deverá estar usando esse sistema de pagamento. 
      A partir desse povoado, a 4056m de altitude, as árvores desaparecem e fica só a vegetação rasteira. Com a ausência de lenha os moradores passam a recolher, secar e estocar esterco de iaque para usar nos aquecedores.
      Às 14h34 cheguei a uma bifurcação bastante importante porém sem nenhuma placa. É pra isso que a gente paga Rs 3000 (US$ 26,04) de ingresso... para caminhar num parque sem sinalização. À direita é o caminho que leva a Dingboche e Chukhung, mais utilizado pelos trilheiros que vão fazer o trekking dos 3 Passos; à esquerda o início da subida para Pheriche e Lobuche para quem vai diretamente ao EBC. Meu caminho seria para a direita. Ali eu estava a 4172m de altitude e havia já um trilheiro vomitando muito e outro andando feito um zumbi apesar da mochila pequena. Consequências da falta de aclimatação!
      Desci até a ponte de ferro sobre o Rio Khumbu (ou Rio Lobuche), afluente do Rio Imja, e a cruzei às 14h45. Dali encarei a subida final pela encosta da margem oeste do Rio Imja até Dingboche, aonde cheguei às 15h17 com neblina. Como já havia pago a hospedagem podia escolher o lodge que quisesse, somente prestando atenção aos preços do menu. Escolhi o Moon Light Lodge e o atendimento era razoável (podia ser bem melhor). Um aviso no quarto alertava para fazer as refeições ali mesmo, caso contrário o quarto custaria Rs1000 (US$8,68). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor e sobre ela um tambor com torneira (e uma água bastante suspeita).
      Altitude em Dingboche: 4294m
      Preço do dal bhat: Rs 550
      Preço do veg chowmein: Rs 500

      Pico Taboche (dir) visto da montanha Nangkartshang
      11º DIA - 03/11/18 - de Dingboche a Chukhung
      Duração (descontadas as paradas): 2h (subida ao Nangkartshang), 1h25 (descida do Nangkartshang), 2h (de Dingboche a Chukhung)
      Maior altitude: 5076m no Nangkartshang
      Menor altitude: 4294m
      Resumo: de manhã fiz uma bonita caminhada de aclimatação subindo a montanha Nangkartshang com um desnível de 780m de altitude e à tarde subi à vila de Chukhung pelo vale do Rio Imja 
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,2ºC. Às 5h50 da manhã estava 5,3ºC.
      De manhã com o céu limpo é que pude ver as montanhas ao redor de Dingboche: Lhotse, Lhotse Shar e Island Peak (Imja Tse) a nordeste, Ama Dablam a sudeste, Kangtega e Thamserku ao sul, Taboche e Cholatse a oeste.
      Depois de tomar o café servido com o maior mau humor por causa do horário (6h) saí do lodge às 6h42. Voltei 120m na direção da entrada da vila e peguei a trilha à direita que leva a uma stupa, logo iniciando a subida à montanha Nangkartshang. Inicialmente aparecem várias trilhas pois é possível começar essa subida pela outra extremidade da vila (ao norte), mas é só subir e subir que não há erro. Alcancei o cume, de 5076m, às 9h09 e só havia mais uma pessoa, um australiano. Logo começaram a chegar mais montanhistas e bem depois apareceram Lando e Rosanne, que haviam dormido esta noite em Pangboche. Do cume se avistam: Taboche e Cholatse e o Lago Chola Tsho (Cholatse Tsho) a oeste; Cho Oyu (6º mais alto do mundo) a noroeste; Island Peak e Makalu (5º mais alto) a leste; Ama Dablam a sudeste; Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste. Logo abaixo a sudoeste estão as vilas de Pheriche e Dingboche.
      Iniciei a descida às 11h09 e às 12h38 já estava de volta ao lodge para almoçar e pegar a mochila. Parti às 13h19 em direção a Chukhung ainda pela margem direita verdadeira do Rio Imja. Passei por 4 pontos de água limpa, mas que ainda assim deve ser tratada (mais detalhes no "Pequeno guia"). Parei nesse trecho por 19 minutos para um lanche. Por volta de 15h o Rio Imja se afasta para leste e eu passo a acompanhar um afluente seu que tem origem no Glaciar Lhotse.
      Após cruzar duas pontes, uma de troncos e outra de madeira com gelo nas laterais do rio, cheguei às 15h39 a Chukhung. Na entrada da vila passei por uma barraca de camping montada onde seria feito o pagamento do quarto, como nas duas vilas anteriores, mas estava com o zíper fechado e não havia ninguém. Percorri todos os 5 ou 6 lodges da vila e resolvi ficar num grande desta vez para ver como é. Escolhi o Chukhung Resort, o maior de todos. Os banheiros ficavam dentro do lodge, todos no estilo oriental. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada, mas eu preferia escovar os dentes com a água que eu pedia na cozinha.
      A cobrança das Rs500 (US$4,34) do quarto foi feita na hora da janta por uma pessoa da comunidade, não do lodge.
      Altitude em Chukhung: 4720m
      Preço do dal bhat: Rs 595
      Preço do veg chowmein: Rs 595

      Campo Base do Island Peak
      12º DIA - 04/11/18 - de Chukhung ao Campo Base do Island Peak (aclimatação)
      Duração: 2h40 na ida e 2h25 na volta (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 5105m
      Menor altitude: 4720m
      Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo ao Campo Base do Island Peak (Imja Tse) com um desnível de 385m de altitude. 
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,1ºC. Às 6h25 da manhã estava -0,4ºC.
      As montanhas que se vê da vila de Chukhung: Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche a oeste; Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Ama Dablam ao sul. 
      Saí do lodge às 6h57 tomando uma trilha na direção sudeste que em 4 minutos me levou a cruzar um riacho por uma ponte de madeira. Subi e passei a caminhar pela crista da moraina lateral sul do Glaciar Lhotse, mas não uma geleira branquinha de gelo puro e sim um vale cinzento coberto de pedras. Mais à frente, já na direção leste, desço pela vertente da moraina e reencontro o vale do Rio Imja, que acompanho de perto até uma bifurcação com placa, às 9h13. À direita o Passo Amphu Laptsa e à esquerda o Island Peak, para onde segui. O Lhotse, 4ª montanha mais alta do mundo, me acompanha o tempo todo, à minha esquerda.
      Numa curva para a direita já avisto as barracas do campo base, 1,6km distante ainda. Agora à minha esquerda deixo de ter o Glaciar Lhotse e passo a ter a encosta do Island Peak (Imja Tse). Alcancei o primeiro acampamento às 10h30. Demorei assim porque parei muitas vezes para fotos. O segundo acampamento estava 340m à frente, com altitude de 5105m. Ainda caminhei mais 300m para fotos do incrível Lago Imja Tsho, formado pela fusão de vários glaciares e que dá origem ao Rio Imja. A água não é tão bonita por ser leitosa e não cristalina, mas o lugar todo é impressionante pela grandiosidade. A montanha que se ergue ao norte é o próprio Island Peak (Imja Tse), os campos base estão exatamente aos seus pés. Parei para comer alguma coisa e ver o movimento de escaladores e carregadores chegando e saindo. Iniciei o retorno às 13h18 pelo mesmo caminho. Como sempre as nuvens vieram à tarde e nesse dia se formou de novo uma forte neblina. Cheguei ao lodge às 16h07.

      Cume do Chukhung Ri com o Cho Oyu (6º mais alto do mundo) à esquerda e Nuptse à direita
      13º DIA - 05/11/18 - de Chukhung ao Pico Chukhung Ri (aclimatação)
      Duração: 2h20 para subir e 1h25 para descer (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 5558m
      Menor altitude: 4720m
      Resumo: nesse dia fiz uma caminhada de aclimatação subindo a montanha Chukhung Ri com um desnível de 840m de altitude. 
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h10 da manhã estava -1,9ºC. Havia gelo no vidro da janela, coloquei o termômetro lá fora e estava -6,4ºC às 7h25, pouco antes de eu sair para a caminhada do dia.
      Não dormi quase nada essa noite... insônia é um dos sintomas do Mal da Montanha (AMS, em inglês). Saí do lodge às 7h44, atravessei toda a vila e continuei pela trilha na direção nordeste. Cruzei uma ponte de madeira e comecei a subir a vertente leste da montanha Chukhung Ri. O caminho é bem batido. Ao atingir um primeiro platô é magnífica a vista para o conjunto Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste. Às 9h48 atingi um falso cume com dezenas de totens a 5375m de altitude. Continuei subindo, agora pela crista, e aos 5433m a trilha virou um trepa-pedras um pouco chato. Cruzei com o russo que conheci em Pangboche e ele me recomendou caminhar pela crista dessa montanha de pedras e não cair para a direita pois o caminho iria piorar mais à frente. Assim cheguei às 10h42 ao cume de 5558m de altitude do Chukhung Ri e a panorâmica era de cair o queixo: Nuptse ao norte; Lhotse e Lhotse Shar a nordeste; Island Peak e Makalu a leste; Ama Dablam ao sul; Thamserku a sul-sudoeste; Karyolung, Khatang e Numbur a sudoeste; Taboche, Cholatse e o Passo Kongma La a oeste; Kongma Tse (Mehra Peak), Cho Oyu, Chumbu, Khangri Shar e Pumori a noroeste.
      Havia só mais um trilheiro solitário quando cheguei mas logo apareceram outros. Novamente chegaram mais tarde Lando e Rosanne, acompanhados de um americano. Todos desceram e eu fiquei um pouco mais ainda. Estava difícil aguentar o vento gelado lá em cima mesmo com roupas impermeáveis (que servem como ótimo corta-vento), luvas, gorro, capuz e pescoceira de fleece cobrindo o nariz e a boca. Todo esse ar gelado teve consequências: à noite comecei a sentir a garganta estranha, depois veio a famosa Tosse do Khumbu (que durou até o final de dezembro!) e para piorar tive uma infecção na garganta que teve de ser tratada com antibiótico em Kathmandu.
      Iniciei a descida às 13h12 e parei por 20 minutos no falso cume para mais fotos. Às 15h04 estava de volta à vila de Chukhung. Mais tarde fui ao lodge Yak Land conversar com o casal holandês e combinamos de cruzar juntos o Passo Kongma La no dia seguinte.

      Lago visto do Passo Kongma La com o pico Makalu (5º mais alto do mundo) à esquerda
      14º DIA - 06/11/18 - de Chukhung a Lobuche pelo Passo Kongma La
      Duração: 6h50 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 5530m
      Menor altitude: 4720m
      Resumo: nesse dia encarei o primeiro dos 3 Passos, o Kongma La, com 5530m de altitude, para descer em seguida à vila de Lobuche cruzando o Glaciar Khumbu, uma geleira coberta de pedras um pouco complicada.
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,3ºC. Às 7h da manhã estava 0ºC dentro do quarto e -4ºC fora, pouco antes de sair do lodge.
      De novo não dormi quase nada essa noite... apesar das muitas caminhadas de aclimatação meu organismo ainda não se adaptou completamente à altitude. 
      Logo cedo fui ao lodge Yak Land para encontrar Lando, Rosanne e o americano para irmos juntos para o Passo Kongma La. Saímos às 7h24 na direção norte e logo cruzamos uma ponte de madeira, tomando aos poucos a direção oeste. Havia sinalização. Deu logo para perceber que nossos ritmos eram bem diferentes, eu caminho mais devagar e paro muitas vezes para fotos e registros no gps. Eles andavam mais rápido e tinham que parar para me esperar. Tentei acompanhar o ritmo deles durante a subida e consegui por bastante tempo, mas isso me desgastou muito (principalmente por estar já há duas noites sem dormir) e às 10h50, aos 5429m, tive de parar para descansar por meia hora. Não adianta, cada um tem seu ritmo e não dá para acompanhar o ritmo do outro, seja para mais ou para menos. 
      Retomei a caminhada e em apenas 60m me deparei com um maravilhoso lago de águas verdes... se soubesse teria parado um pouquinho mais acima. Contornei-o pela direita e veio a subida final até o Passo Kongma La, de 5530m, aonde cheguei às 12h04. Os três ainda estavam me esperando lá, mas desceram logo. O passo é uma crista bem extensa e repleta de pedras soltas, onde não faltam totens, bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais, como nas outras montanhas que subi. Dali se avistam Nuptse, Lhotse e Lhotse Shar a nordeste, Island Peak e Makalu a leste, Ama Dablam ao sul-sudeste, Taboche e Cholatse a oeste, Cho Oyu e Chumbu a noroeste.
      Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas), tirei ainda muitas fotos e iniciei a descida às 12h55 primeiro por um caminho de pedras soltas, mais abaixo é que volta a ser trilha. Passei por uma cachoeira congelada à direita e logo o gelo estava tomando conta da trilha também, mas havia lugares seguros para pisar fora dele. Já desde o passo podia avistar a vila de Lobuche e o Glaciar Khumbu, um mar de pedras que teria que cruzar para chegar lá, e isso parece que me causava mais cansaço ainda. Parei para descansar e comer alguma coisa. 
      Terminei a descida do passo e subi em seguida a moraina lateral da geleira. Ao chegar ao topo da moraina às 15h22 e ver de perto o que teria de enfrentar sentei para descansar um pouco mais. Dali em diante segui pegadas, parei para estudar o caminho em alguns pontos e segui na direção de outros trilheiros que já estavam mais à frente para vencer o enorme glaciar. Foi um sobe-e-desce terrível por pedras soltas e sem um caminho marcado, com pegadas para vários lados. Lembrando que esse tipo de formação tem a aparência de um "mar" de pedras soltas mas embaixo de tudo aquilo é puro gelo, então é preciso ter cuidado onde pisa e para que lado ir. Pelo movimento e derretimento do gelo não é possível existir um caminho fixo e bem definido. O local é impressionante mas ao mesmo tempo aterrador. Às 15h58 tive de cruzar o rio principal que corre no meio da geleira e fiz isso exatamente onde duas pessoas já estavam fazendo. O lago formado abaixo do rio estava com a superfície congelada e era uma camada tão grossa que resistia a pedradas. Depois de mais sobe-e-desce consegui chegar a Lobuche às 16h44 mais morto que vivo. 
      Felizmente meus três amigos estavam me esperando e não precisei procurar hospedagem, eles já haviam feito isso e estavam instalados no Sherpa Lodge. Dividi o quarto com o americano. Não havia cobertor no quarto, tive de pedir mas não foi cobrado. O valor do quarto, que aqui é de Rs700 (US$6,08), o mais caro de todo o trekking, novamente foi cobrado mais tarde por uma pessoa da comunidade e não do lodge. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada.
      Altitude em Lobuche: 4916m
      Preço do dal bhat: Rs 850
      Preço do veg chowmein: Rs 700

      Everest e Nuptse vistos do Kala Pattar
      15º DIA - 07/11/18 - de Lobuche a Gorak Shep e Kala Pattar
      Duração (descontadas as paradas): 2h (de Lobuche a Gorak Shep), 1h10 (subida ao Kala Pattar), 1h05 (descida do Kala Pattar)
      Maior altitude: 5643m
      Menor altitude: 4916m
      Resumo: esse foi o grande e esperado dia de ver o Everest o mais próximo possível e em seu melhor ângulo, que é a partir da montanha Kala Pattar. De Lobuche a Gorak Shep o desnível foi de 245m e de Gorak Shep ao Kala Pattar de 480m. Dormi em Gorak Shep para ir ao Campo Base do Everest no dia seguinte.
      Às 7h da manhã a temperatura dentro do quarto era 3ºC.
      Não dormi quase nada pela terceira noite seguida, mas como não tinha nenhum outro sintoma de Mal da Montanha segui meu roteiro. Saí do lodge às 7h31 na direção nordeste e segui por trilha paralela ao Glaciar Khumbu. A visão dos picos Pumori, Lingtren, Khumbutse e Nuptse à frente é muito inspiradora e nos prepara para o grande momento que está chegando. Às 8h48 tive que cruzar o Glaciar Changri repleto de pedras também mas sem as dificuldades da geleira do dia anterior pois nessa pelo menos há um caminho bem marcado. Depois de algum sobe e desce por essa geleira alcancei Gorak Shep às 9h42 e de cara encontrei a guarita de cobrança do valor do quarto de Rs500 (US$4,34). Pago o quarto, fui percorrer os lodges da vila para escolher em qual ficar. Optei pelo Buddha Lodge. Fiz uma mochila de ataque rapidamente com roupa de frio e de chuva (nunca se sabe...) e saí para subir o Kala Pattar e ver o Everest de seu melhor mirante.
      Na saída encontrei Lando, Rosanne e o americano chegando. Eles continuavam hospedados em Lobuche e vieram somente para subir o Kala Pattar, não iam ao Campo Base. Precisavam abastecer as garrafas de água mas os lodges da vila não fornecem água da torneira por causa da escassez, é preciso coletar a água na base do Kala Pattar, que é o que eles fazem para abastecer o lodge. E foi o que nós fizemos, porém a água fica em poças, então tratá-la é primordial. Iniciei a subida na direção norte às 10h54 e não fiz nenhuma parada até o topo pois queria tirar fotos do Everest e seus vizinhos sem nenhuma nuvem, céu completamente azul. Alcancei o cume do Kala Pattar às 12h02 e tratei de tirar todas as fotos possíveis antes de as nuvens chegarem. A altitude é de 5643m, que passou a ser o meu recorde de altitude já atingida. O mirante Kala Pattar está numa crista que culmina no Pico Pumori. Dali se avista, entre outras montanhas: Ama Dablam, Kongma Tse (Mehra Peak), Kyashar, Kangtega e Thamserku ao sul; Taboche e Cholatse a sudoeste; Chumbu a noroeste; Khangri Shar e Pumori ao norte; Lingtren, Khumbutse, Changtse a nordeste; Everest e Nuptse a leste. 
      Meus três amigos desceram primeiro pois não estavam aguentando o vento gelado mesmo se abrigando atrás das pedras. Eu ainda fiquei um tempo para ter uma boa conversa com as montanhas. Esse era o momento mais esperado da viagem de dois meses no Nepal e um dos momentos mais esperados de toda a minha vida. A emoção foi bastante grande.
      Iniciei a descida às 14h06 e via no rosto das pessoas que subiam o mesmo esforço e a mesma expectativa que eu tive minutos antes. Todos querem coroar sua longa jornada ao Himalaia com esse instante sublime de estar diante da maior montanha de todas. Às 15h14 estava de volta a Gorak Shep. 
      No Buddha Lodge os banheiros ficavam dentro da casa e havia um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, mas a descarga sempre com balde (com a água congelada de manhã). Para escovar os dentes havia uma pia no corredor com um balde e uma torneira adaptada. Nesse lodge havia quartos de solteiro, com apenas uma cama, porém claustrofóbicos de tão pequenos. Havia um só cobertor para cada hóspede e o extra custava Rs300 (US$2,60). Tive de usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC).
      Às 20h15 a temperatura dentro do quarto era 1,6ºC e fora era -8,6ºC.
      Altitude em Gorak Shep: 5160m
      Preço do dal bhat: Rs 850
      Preço do veg chowmein: Rs 700

      Picos Changtse, Nuptse e no meio só a pontinha do Everest
      16º DIA - 08/11/18 - de Gorak Shep ao Campo Base do Everest e descida a Pheriche
      Duração (descontadas as paradas): 1h10 (ida ao EBC), 1h15 (volta do EBC), 4h15 (de Gorak Shep a Pheriche)
      Maior altitude: 5264m a caminho do EBC
      Menor altitude: 4265m
      Resumo: de manhã subi até o Campo Base do Everest e à tarde desci o máximo que pude (até Pheriche) para poder dormir novamente e descansar, abortando com muita dor no coração o Passo Cho La.
      A temperatura mínima durante a noite dentro do quarto foi -8,6ºC, a mais baixa que registrei. Às 6h da manhã estava 0ºC.
      Não dormi quase nada pela quarta noite seguida e decidi baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Com isso estava tomando a difícil decisão de abortar o Passo Cho La, o segundo dos 3 Passos, pois seguir para ele significava ficar mais algumas noites sem dormir. Mas não poderia deixar de conhecer Gokyo e seus incríveis lagos sagrados, por isso iria fazer um contorno enorme pelo sul, descendo muito para depois subir tudo de novo até Gokyo. Pelo menos nas duas noites em altitude mais baixa durante esse contorno eu poderia dormir e descansar para enfrentar possíveis novas noites de insônia. Se eu tivesse Diamox teria tomado para ver se me ajudaria na aclimatação e eu voltaria a dormir. Eu tinha Dramin mas não é nada recomendável tomar remédio que induz ao sono nessa situação de insônia por altitude.
      Saí do lodge às 7h48 na direção nordeste e a caminhada foi com pouco desnível até o Campo Base do Everest, de 5257m de altitude, aonde cheguei às 9h. Esse lugar eu só visitei por seu valor simbólico mas é um "ponto turístico" meio fake. O verdadeiro campo base se estende por uma área bem maior e não é fixo, muda de lugar a cada ano em consequência da movimentação da geleira que vem da Cascata do Khumbu. Outra: dali praticamente não se vê o Everest, apenas uma pontinha dele, o que frustra muita gente. Não havia nenhuma barraca pois a temporada de escalada da maior montanha do mundo ocorre em abril/maio.
      Iniciei o retorno às 9h47 pelo mesmo caminho e às 11h estava de volta ao lodge. Às 11h41 comecei a descer na direção de Lobuche e além. Cruzei todo o Glaciar Changri, parei no final dele por 22 minutos para comer e tentar sinal da NCell - consegui mandar algumas mensagens. Passei por Lobuche às 13h56 e às 14h16, logo antes de uma ponte, fui à esquerda na bifurcação em que à direita se vai ao Passo Cho La. Subi e passei por um conjunto de stupas que são memoriais aos que morreram nas montanhas da região. Dali seguiu-se uma longa descida pela moraina terminal que limita ao sul o Glaciar Khumbu. 
      Alcancei a minúscula vila de Thukla às 15h15 e tive de perguntar pelo caminho para Pheriche pois não era evidente. Desci uma rampa à esquerda e 35m adiante entrei numa trilha à direita, descendo. Ao chegar à margem do rio formado pelo Glaciar Khumbu tive de subir pelas pedras até uma ponte precária de madeira uns 140m rio acima. Cruzei-a às 15h27 e segui primeiro pela margem esquerda pedregosa, depois por uma trilha batida na encosta. Às 15h34 fui à direita numa bifurcação com placa em que a trilha da esquerda vai para Dingboche. Desci bastante em direção ao vale do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche) e passei por três pontos de água. 
      Às 16h35 alcancei a vila de Pheriche e arrisquei dar uma olhada no primeiro lodge, de nome Thamserku. Negociei o preço de Rs300 (US$2,60) com as refeições ali mesmo. Estava cansado (quatro noites sem dormir...) e com muito frio para ir a outros lodges procurar por melhor preço. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Nesta noite os hóspedes desse lodge eram apenas eu e um grupo de alemães com guias e carregadores, dois dos carregadores com 15 e 16 anos. 
      Altitude em Pheriche: 4265m
      Preço do dal bhat: Rs 700
      Preço do veg chowmein: Rs 450
      Às 20h35 a temperatura dentro do quarto era 2,2ºC. A mínima durante a noite dentro do quarto foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC.
      CONTINUA EM: www.mochileiros.com/topic/83278-campo-base-do-everest-etapa-33-de-pheriche-a-lukla-nepal-nov18
      Informações adicionais:
      Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com.
       
      Rafael Santiago
      novembro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
       
    • Por rafael_santiago
      Ponte Larja e o lindo Rio Dudh Koshi
      Início: Shivalaya
      Final: Namche Bazar
      Duração: 7 dias
      Maior altitude: 3536m no Passo Lamjura La
      Menor altitude: 1504m na ponte junto à confluência dos rios Dudh Koshi e Deku
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 1000m diários, ultrapassando os 3000m de altitude.
      Permissões: entrada do Gaurishankar Conservation Area Project (Rs 3000 = US$ 26,04), entrada do Parque Nacional Sagarmatha  (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36).
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      O trekking Shivalaya-Namche Bazar é a primeira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base do Everest e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A segunda parte está descrita aqui e a terceira parte aqui. A escolha de Shivalaya como ponto inicial teve vários motivos: 1. é o percurso histórico de conquista do Everest pelo neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o nepalês Tenzing Norgay (1914-1986) em 1953, 2. para evitar o caro e arriscado voo Kathmandu-Lukla (além disso um voo que é cancelado frequentemente por causa do tempo instável em Lukla) 3. conhecer o lado menos turístico e mais autêntico do trekking do Everest.
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
      . Shivalaya: NTC
      . Bhandar: NTC, NCell
      . Sete: NTC, NCell
      . Junbesi: NTC
      . Nunthala: NTC
      . Bupsa: NTC
      . Cheplung: NCell
      . Namche Bazar: NCell
      O cartão pré-pago de wifi Nepal Airlink funciona de Junbesi a Kharte, e em Phaplu. O cartão pré-pago Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não testei nenhum dos dois porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". 
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. 

      Monastério Pema Namding, em Kharikhola
      23/10/18 - ônibus de Kathmandu a Shivalaya
      No dia anterior (22/10) eu havia ido ao horrível e sujo terminal de ônibus do Ratna Park para comprar a passagem para Shivalaya. Na verdade havia tentado comprar com mais antecedência ainda mas não quiseram me vender, somente no dia anterior mesmo. 
      Nesse dia o ônibus partiu às 8h com vários lugares vagos mas nas paradas seguintes já começou a encher e durante a longa viagem lotou e esvaziou muitas vezes. Por volta de 10h50 houve uma parada para almoço e a partir daí a estrada passou a ser de terra com muitos buracos, pedras e poeira. Felizmente a estrada não era tão estreita e com abismos como na viagem entre Kathmandu e Syabrubesi (relato aqui), mas o ônibus pulava do mesmo jeito e era preciso tomar cuidado para não bater a cabeça no teto. Foi uma viagem horrível também, muito cansativa pelas condições da "estrada" e pelo tempo muito longo chacoalhando dentro do ônibus: 11h20 para percorrer apenas 215km!!! 
      O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo.
      Os únicos estrangeiros no ônibus além de mim foram um casal francês que subiu numa cidade do caminho e desceu em Jiri. Ele colocou tampões no ouvido para não escutar a trilha sonora nepalesa no último volume. Às 18h10 passamos por Jiri, já de noite (anoiteceu por volta de 17h40), e ainda rodamos mais 1h10 até Shivalaya no escuro, o que foi ainda mais emocionante pois o ônibus pulava o tempo todo e não era possível ver as ribanceiras onde a minha viagem poderia terminar. 
      Às 19h20 saltei desse ônibus em Shivalaya, recoloquei minha coluna e minha bacia no lugar e saí procurando uma hospedagem. No Amadablam Lodge, um dos primeiros da vila, o dono estava na frente e me chamou. Pelo cansaço que eu estava aceitei os Rs200 (US$1,73) que ele pediu sem pensar em negociar o quarto de graça. 
      Recomendo esse lodge pois toda a família era muito simpática. Conversei bastante com o dono (que fala bem inglês), que me disse que a vila foi arrasada nos terremotos de 2015 e eles tiveram de morar por 3 meses em barracas até a reconstrução do lugar. Quase todas as casas que eu estava vendo ali eram novas e todas reconstruídas em madeira.
      O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. 
      Altitude em Shivalaya: 1782m
      Preço do dal bhat: Rs 300

      Vila de Shivalaya, início do trekking
      1º DIA - 24/10/18 - de Shivalaya a Bhandar
      Duração: 4h50 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2709m
      Menor altitude: 1782m
      Resumo: nesse dia subi por uma serra alongada na direção leste-oeste, inicialmente pela crista e em seguida pela vertente sul até a cabeceira do vale na vila de Deurali (2709m). Em seguida desci a encosta oposta, a leste, até o povoado de Bhandar, a caminho do vale do Rio Likhu.
      Quando amanheceu é que pude ver melhor como era simpática a vila de Shivalaya. O lodge estava localizado num largo cercado de sobradinhos de madeira coloridos e com sacada.
      Saí do lodge às 8h56 subindo a rua de volta até a entrada do vilarejo. Ali continuei em frente (esquerda) pois à direita está a estrada por onde cheguei de ônibus na noite anterior. Porém dei poucos passos e fui parado pelo guarda do checkpoint do Gaurishankar Conservation Area Project. Eu não havia ido ao Tourist Service Center em Kathmandu para obter a permissão desse parque, então paguei ali na hora, aparentemente pelo mesmo preço (Rs 3000, US$ 26,04). Só mostrei o passaporte, não necessita foto. 
      Às 9h10 continuei pela mesma rua, que fez uma curva para a esquerda. Logo após a ponte segui para a direita, mas poucos passos depois abandonei essa rua e entrei num beco à esquerda. Logo estava caminhando por uma trilha e iniciando meu longo percurso em direção ao Everest. E também já surgiram as primeiras escadarias. Parei alguns minutos para tirar a blusa e passar protetor solar. À medida que subia ia se ampliando a visão da vila de Shivalaya encaixada no vale do Rio Khimti e cercada de morros bem verdes. Às 10h13 a trilha cruzou uma estrada e segui a placa de Deurali, subindo mais degraus. Comecei a notar fitas cor-de-laranja sinalizando a trilha. Isso me ajudou bastante em alguns pontos de dúvida mas depois soube que eram para uma competição, não eram mantidas permanentemente. Ou seja, a gente paga US$26 para caminhar por um parque que só existe no papel e que praticamente não tem sinalização...
      Às 10h19 cruzei a estrada de novo com uma placa de Deurali apontando a trilha que subiu até uma antena. Logo cruzei a mesma estrada e continuei seguindo as fitas laranja e a placa de Deurali. Às 10h34 quis cruzar a estrada novamente e subir a trilha na encosta mas estava errado - dessa vez deveria tomar a estrada mesmo, subindo à direita por 215m para em seguida entrar numa outra trilha na encosta à esquerda. Mais acima segui as fitas e subi a trilha à direita na direção de uma casa no alto. Passei pelo Sushila Lodge e às 10h54 pela escola de Sangbadanda. Cruzei a mesma estrada mas 45m depois passei a caminhar por ela para a direita, com placa e fita sinalizando. Nesse momento estava deixando a crista dessa serra e passando a percorrer a vertente sul dela.
      Caminhei pela estrada por 745m e antes que ela fizesse uma curva fechada para a esquerda abandonei-a em favor de uma trilha descendo à direita junto a uma casa, às 11h13. Dali iria caminhar por trilha até Deurali, na cabeceira do vale, passando por cinco pontos de água (parei em um deles para comer alguma coisa). Na única bifurcação, às 11h48, fui à esquerda seguindo a fita laranja. Subi até cruzar uma estrada às 13h05 e cair nessa mesma estrada 4 minutos depois, indo para a esquerda e chegando à vila de Deurali (2709m). Fui à direita na bifurcação e passei pelas extensos muros de pedras mani no centro do vilarejo. Há três lodges ali e um deles anuncia "edifício resistente a terremoto". O Lama Guest House vende queijo de iaque: 100g por Rs 150 (US$1,30), o melhor preço que encontrei (o mesmo de Ringmo, três dias depois). Havia já muitas nuvens nessa hora, mas com céu limpo seria possível ver o Passo Lamjura La, 16km a leste (onde passaria no 3º dia).
      Cruzei a vila sem fazer nenhuma parada e imediatamente comecei a descer a encosta oposta, a leste, em direção ao povoado de Bhandar. A parte mais alta dessa encosta está toda rasgada por uma sinuosa e poeirenta estrada de terra, mas felizmente há uma trilha que desce mais diretamente. Nos primeiros 4 minutos de descida a partir da vila não notei uma trilha abaixo à esquerda e continuei em frente, mas vi que as fitas haviam sumido e na dúvida voltei. Só então vi que a outra trilha abaixo tinha fitas e a tomei. Pelos próximos 34 minutos cruzei a estrada sinuosa e caminhei por ela o mínimo possível, tomando todas as trilhas/atalhos que encontrei. Depois continuei descendo pela trilha, que passou por diversas casas aqui e ali.
      Às 14h39 cruzei duas vezes uma estrada que fazia uma curva fechada à minha esquerda. Às 14h45 a trilha terminou num final de estrada com um monastério à esquerda que parei para fotografar. Na estrada fui para a esquerda e passei pelo primeiro lodge de Bhandar, o Shobha Lodge, às 14h54. Ainda desci mais por uma trilha para ver se havia outras opções de hospedagem mas não encontrei. No caminho de volta ao primeiro lodge conheci um casal da Hungria, Zita e Daniel, e eles estavam indo procurar outro lodge ainda mais abaixo ou talvez seguir para a próxima vila (distante ainda 3h, onde deveriam chegar no começo da noite). 
      Eu voltei ao Shobha Lodge e negociei com a dona o valor do quarto: acertamos por Rs100 (US$0,87) se eu fizesse as refeições ali mesmo. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar. No quarto havia tomada para carregar as baterias (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?). Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.
      Nessa noite se hospedaram dois casais franceses muito simpáticos com seu guia, carregadores e até um professor de ioga. Eles não iam para o Everest, iam na verdade subir o Pikey Peak, uma montanha de 4065m de altitude de onde se avistam Everest, Lhotse, Thamserku, Kangtega e muitas outras montanhas.
      Essa vila de Bhandar é o ponto final de um ônibus que sai diariamente do terminal do Ratna Park em Kathmandu às 5h30.
      Altitude em Bhandar: 2204m
      Preço do dal bhat: Rs 400
      Preço do veg chowmein: Rs 260

      Um agricultor no meio da plantação de cardamomo
      2º DIA - 25/10/18 - de Bhandar a Sete
      Duração: 5h45 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2516m
      Menor altitude: 1576m
      Resumo: nesse dia continuo a descida até o vale do Rio Likhu e inicio a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte. Minha direção foi basicamente leste.
      Depois da aula de ioga dos simpáticos franceses, saímos juntos do lodge às 8h45. Porém eles iam subir o Pikey Peak, então iríamos caminhar apenas algum tempo juntos. Mas valeu a pena pois eles eram muito curiosos e interessados em tudo o que viam, e perguntavam tudo ao guia. Eu aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre plantas, construções budistas, etc. 
      Saímos do lodge descendo na direção leste e cruzamos uma estrada de terra. Passamos por várias pequenas plantações, inclusive de chá, e por um muro de pedras mani. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas e rodar as rodas mani sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum".
      Cruzamos outra estrada, passamos pelas casas da parte baixa de Bhandar e fomos à direita numa bifurcação com placa apontando Kinza (Kinja). Descemos até uma ponte e a cruzamos às 9h20. Passamos a caminhar por uma encosta íngreme com o grande vale do Rio Likhu à nossa direita cada vez mais profundo. Às 9h54 passamos por uma pequena cachoeira à esquerda e 13 minutos depois paramos para fotos numa cachoeira ainda maior e mais bonita. Apenas 100m depois abandonamos o caminho mais largo e entramos numa trilha à direita, ainda sinalizada com as fitas laranja que havia seguido no dia anterior. Descemos bastante e às 10h39, numa outra bifurcação com placa apontando Kinza à esquerda, os franceses desceram à direita para ir ao Pikey Peak e eu fui à esquerda, seguindo as fitas laranja ainda.
      Passei por mais alguns pontos de água e às 11h43 a trilha terminou numa estrada de terra, onde fui para a esquerda (nordeste). Passei por um grupo de casas junto ao Rio Chari (menor altitude do dia: 1576m), atravessei esse rio e cruzei à direita a ponte suspensa sobre o Rio Likhu. Após essa ponte segui à esquerda acompanhando o rio e atravessei uma segunda ponte suspensa para a esquerda, mas desta vez sobre o Rio Kinja, um afluente do Likhu. Subi à direita e passei às 12h13 pelo portal de pedra da vila de Kinza (Kinja), com vários lodges. Parei no New Everest Guest House para almoçar. Às 13h retomei a caminhada, passei por mais alguns lodges e na bifurcação fui à esquerda. A trilha subiu bastante em zigue-zague com escadarias rústicas de pedra. Aqui inicio uma longa subida por uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte.
      Às 13h44 subi à esquerda numa bifurcação sem fita (perguntei na casa para confirmar). Às 14h19 parei para descansar num gramado à esquerda da trilha e ao lado de uma casa, mas fui surpreendido por uma inusitada chuva, a única de todo esse trekking. E não foi fraca, tive que me abrigar junto à casa e esperar. Às 15h18 prossegui e a 70m dali fui à direita numa bifurcação sem fita laranja. Às 15h32 passei pela escola de Chimbu. Mais acima passei por algumas casas e uma mulher me ofereceu haxixe! Em Kathmandu isso é bem comum mas na trilha foi a única vez. Às 16h25 a trilha terminou numa estrada de terra e fui para a direita. Caminhei apenas 100m e parei no primeiro lodge da minúscula vila de Sete, chamado Sun Rise. A simpática garota (de nome Chhotin) concordou que eu pagasse apenas as refeições e me instalei ali.
      Saí para conhecer um pouco mais do lugar e encontrei o casal húngaro que conheci em Bhandar (Zita e Daniel) no outro lodge, Solukhumbu Sherpa Guide. Só dois lodges estavam funcionando no vilarejo. Nessa noite fui o único hóspede da Chhotin e sua mãe e elas fizeram questão que eu jantasse na cozinha com elas. Conversamos bastante e fiquei surpreso como a garota aprendeu inglês sem ter aulas, apenas conversando com os hóspedes. 
      O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com caneca. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar.
      Altitude em Sete: 2516m
      Preço do dal bhat: Rs 495
      Preço do veg chowmein: Rs 380

      Casas acima da vila de Goyam
      3º DIA - 26/10/18 - de Sete a Junbesi
      Duração: 7h15 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3536m
      Menor altitude: 2516m
      Resumo: nesse dia continuei a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levou ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, o qual cruzei para descer à vila de Junbesi no vale do rio homônimo. Minha direção foi basicamente leste.
      Saí do lodge às 8h40 continuando para leste. Passei pelo lodge Solukhumbu Sherpa Guide e em seguida subi à esquerda (à direita está o lodge Sherpa Guide). Subi bastante e às 10h cruzei uma estrada e continuei subindo pela trilha entre casas e plantações. Ali fui alcançado pelo Christopher, um austríaco que planejava fazer o mesmo roteiro que eu: Campo Base do Everest e Três Passos. Conversamos um pouco mas ele era bem mais rápido e logo sumiu na frente. Na bifurcação logo após as primeiras casas fui à direita seguindo a placa "way to Junbesi" e atravessei a vila de Dakchu. Havia atingido a crista dessa serra e agora a visão se ampliava para o norte também. Ao fim da vila a trilha sai numa estrada, na qual segui para a esquerda, mas apenas por 40m e entrei no caminho à esquerda que virou uma estrada também. Quando ela fez uma curva para a direita e outra para a esquerda, não notei mas havia uma trilha subindo a encosta à esquerda. Ia passando direto mas alguém me alertou. Subi a trilha e entrei na mata. Subindo, cruzei uma estrada. Com mais 50m a trilha desembocou na estrada, onde fui para a direita. Com 100m subi uma trilha na encosta à esquerda.
      Às 10h51 passei pelas primeiras casas de Goyam, com dois lodges. Cruzei a estrada mais três vezes, depois caminhei por ela por 50m e entrei em outra trilha à direita que subiu a mais casas da vila de Goyam, às 11h29, onde há um lugar que vende queijo. Na estrada acima fui à direita. Mais uma vez subi a trilha à esquerda na encosta (com fita verde dessa vez). De novo saí na estrada e segui por ela à esquerda. Mais 55m e subi na trilha à esquerda na encosta. Cruzei a estrada mais três vezes e parei por meia hora para comer alguma coisa que tinha na mochila. Passei pelas ruínas de um lodge às 12h45 e 80m depois caí de novo na estrada, indo para a direita. Na curva da estrada entrei na trilha à esquerda. Na bifurcação fui à esquerda pois à direita havia uma árvore caída, mas acho que foi o pior caminho para alcançar a estrada acima, aonde fui para a esquerda. Nesse trajeto desde Dakchu entrei e saí da mata diversas vezes.
      Às 13h11 finalmente a estrada terminou de vez, virou uma trilha e 500m depois cruzei um vilarejo com lodges. Subi passando por uma stupa e às 13h54 cheguei ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, com muitas bandeirinhas de oração budistas. Era possível ver a vila de Deurali a oeste, onde passei no 1º dia, a 16km dali. Ao lado há um restaurante. Este é o ponto mais alto desse trekking de Shivalaya a Namche Bazar e os muitos aviões com destino a/partindo de Lukla passam numa altitude pouco acima.
      Às 14h15 iniciei a descida e em 6 minutos estava entrando numa floresta de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, num lindo espetáculo. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Na descida alternaram-se trechos com algumas casas e trechos de mata (com alguns pontos de água) ao percorrer o vale do Rio Taktor, afluente do Rio Junbesi. Passei por um monastério com stupa na vila de Taktor e a trilha virou uma estrada novamente às 16h16.
      Numa curva fechada da estrada para a esquerda entrei numa trilha à direita e desci, seguindo à esquerda na bifurcação 50m depois. A trilha acompanhou a curva da encosta para a esquerda e às 16h38 avistei Junbesi abaixo num bonito vale coberto de árvores com o Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Nas bifurcações a seguir fui à direita e à esquerda. Desci por escadarias de pedra, passei por um primeiro lodge ainda na descida e parei no Sherpa Guide Lodge, o primeiro na entrada do vilarejo, às 17h10. Parei ali por sugestão da sra Maya, do Lodge Sun Rise da vila de Sete. Ela disse que esse lodge era da sua irmã, mas eles costumam falar isso e nem sempre é verdade. Conversei com as donas e aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, mas "eu não devia contar isso pra ninguém". O banheiro ficava dentro da casa e tinha todos os confortos ocidentais: vaso sanitário com descarga acoplada e até lavatório, coisa muito rara!
      Em Junbesi é que soube da existência do cartão pré-pago Nepal Airlink, que dá acesso ao wifi dos lodges ali e em muitos outros vilarejos (mais informações no meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal").
      Altitude em Junbesi: 2704m
      Preço do dal bhat: Rs 400
      Preço do veg chowmein: Rs 360

      Stupa em Junbesi
      4º DIA - 27/10/18 - de Junbesi a Nunthala
      Duração: 7h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3058m
      Menor altitude: 2206m
      Resumo: nesse dia percorri, subindo e descendo de maneira mais suave, a extremidade sul de uma serra que se alonga na direção norte-sul. Após cruzar o Rio Dudhkund veio uma subida mais íngreme até o Passo Taksindu La (3058m) e depois a descida interminável até a vila de Nunthala.
      Junbesi foi talvez o vilarejo mais bonito e simpático desse trajeto de 7 dias até Namche Bazar. Sua localização no verdejante vale do Rio Junbesi é privilegiada. Há uma grande e bonita stupa na praça central que rende muito boas fotos. Para quem está com tempo sobrando há diversos monastérios para visitar nas redondezas. Se houver necessidade de saída pode-se fretar um jipe ($$$) na vila para ir a Phaplu ou Salleri, onde se pode tomar outro jipe, ônibus ou mesmo avião de volta a Kathmandu.
      Da porta do lodge via o cume do Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Saí às 8h37 e enquanto fotografava a stupa no centro da vila apareceu o Christopher acompanhado do casal húngaro Zita e Daniel. Começamos a caminhar juntos mas na ponte metálica sobre o Rio Junbesi já nos distanciamos pois parei para tirar mais fotos. Ao cruzar a ponte, adornada com bandeirinhas de oração budistas, caminhei 60m à direita pela estrada e entrei na trilha subindo à esquerda, entrando na floresta de pinheiros. Com 50m cruzei uma estrada. Estava iniciando a subida pela vertente oeste de uma serra que se estende na direção norte-sul.
      Continuei subindo, saí da mata, passei por algumas casas e reentrei na mata de pinheiros. Às 9h45 saí da mata e logo era possível ver o Passo Lamjura La a oeste, bem longe, além do bonito vale do Rio Junbesi bem abaixo. Às 10h46 alcancei a crista dessa serra. Ali uma surpresa: a primeira visão do Everest na extremidade esquerda de uma linda cadeia de montanhas que incluía também Thamserku, Kangtega, Kusumkangaru (Kusum Kanguru), Kyashar e Mera Peak. Porém todos muito distantes ainda (o Everest estava a cerca de 58km em linha reta). Reencontrei meus três amigos e gastamos um tempo tirando fotos. O local se chama Phurtyang (Phurteng) e o lodge ali não poderia ter outro nome: Everest View. A senhora vendia queijo de iaque. Às 11h09 retomei sozinho a caminhada porque os apressados já haviam ido embora. Até ali já havia passado por três pontos de água, mas dali até Ringmo passaria por mais de dez - água não faltou nesse dia! 
      Caminhando agora pela vertente leste da serra, às 11h28 alcancei uma stupa que me proporcionou uma visão ainda melhor do Everest. Ao sul era possível ver também a pista do aeroporto de Phaplu, além do bonito vale do Rio Solu. Passei pela vila de Salung às 11h56 e continuei descendo. Às 12h54, junto a uma ponte, parei para comer alguma coisa que trazia na mochila. Tive a sorte de avistar e fotografar alguns macacos próximos da trilha. Na ponte seguinte começaram a aparecer as pedras mani coloridas e até embaixo da ponte suspensa que veio a seguir havia várias pedras desse tipo ao lado do Rio Dudhkund.
      A partir do Rio Dudhkund (13h25) inicia a subida em direção ao Passo Taksindu La. A minha primeira parada nessa subida foi na vila de Ringmo, às 13h43, onde há uma fábrica de queijo de iaque com loja. O preço foi o melhor que encontrei (o mesmo de Deurali): Rs 150 (US$ 1,30) por 100g. Ali reencontrei Zita e Daniel. Há também um posto de saúde gratuito patrocinado por entidades da França e da Alemanha, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking.
      A trilha, que até então era vazia e tranquila, passou a ter um número crescente de pessoas. Muita gente chega de ônibus, jipe ou mesmo avião a Phaplu ou Salleri e inicia a caminhada por ali. 
      Retomei a caminhada às 13h58 e na subida ao Passo Taksindu La cruzei seis vezes uma estrada em zigue-zague, subindo por um caminho calçado de pedras à sombra da mata. O passo tem uma stupa, um lodge e um portal de pedras com rodas mani no interior. Altitude de 3058m. Passei por ele às 15h rapidamente porque ainda queria visitar o monastério que há na descida para Nunthala. Desci 190m e caí numa estrada, onde fui para a direita, mas andei nela apenas 40m e entrei na trilha à direita. Cheguei às primeiras casas da vila de Taksindu, onde a trilha deu uma guinada de 90º para a direita, e às 15h15 cheguei ao Monastério Takgon Seddrub Tharling. O lugar é bem grande e bonito, numa posição privilegiada com vista para as montanhas. Havia muitos monges, todos muito jovens, com suas roupas cor de vinho.
      Retomei a caminhada às 15h31 saindo pelo mesmo portão por onde entrei (parece que há outras saídas). Na bifurcação fui à direita para descer por trilha (à esquerda caminharia pela estrada). Na bifurcação em T abaixo fui à direita e já pude ver Nunthala, porém muito abaixo ainda. Essa descida pareceu não ter fim, com pedras soltas e um pouco de lama, e havia bastante gente nela, inclusive três russos com quem conversei um pouco. Passei por três pontos de água e apareceu outra estrada, que primeiro tangenciei e depois cruzei, sempre procurando pelos caminhos por trilha e evitando andar na estrada. Às 16h40 cruzei uma ponte suspensa bem alta com vale bem estreito, quase um cânion, no fundo. Às 16h58 saí numa estrada, fui para a esquerda, fiz a curva para a direita e entrei noutra trilha à direita na próxima curva. Às 17h07 a trilha terminou numa estrada já na vila de Nunthala - fui para a direita e depois esquerda na bifurcação logo em seguida, descendo (havia placa de posto de saúde à direita). Para minha decepção havia carros trafegando ali.
      Parei num dos primeiros lodges pois meus três amigos estavam lá, mas era bem pequeno e parecia já estar lotado. E devia haver opções bem melhores no centro da vila, mais abaixo. E havia muitas, todas vazias. Escolhi um dos últimos, o Danfe Lodge, e dei sorte pois a família era muito simpática e por ser o único hóspede jantei com eles. Eles aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, o quarto saiu de graça. O banheiro era no estilo oriental e ficava fora da casa, um problema para ir no meio da noite. Para escovar os dentes e se lavar não havia uma torneira fora da casa, como de costume, então era preciso usar a torneira do banheiro mesmo. Havia tomada (com interruptor) no quarto para carregar as baterias pela última vez nessa caminhada.
      Altitude em Nunthala: 2206m
      Preço do dal bhat: Rs 350
      Preço do veg chowmein: Rs 350

      Campos cultivados em Kharikhola
      5º DIA - 28/10/18 - de Nunthala a Bupsa
      Duração: 5h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2328m
      Menor altitude: 1504m
      Resumo: nesse dia a descida do Passo Taksindu La continua até o profundo vale do Rio Dudh Koshi, em seguida vem uma subida bastante desgastante até Kharikhola, uma descida bem suave até o Rio Khari e para encerrar uma subida dura até a vila de Bupsa.
      Logo cedo apareceram alguns personagens que iriam ser companhia constante (e irritante) nos próximos dias durante o trekking: as tropas de mulas, que podiam chegar a grupos de 20 ou 30, para desespero dos trilheiros. Elas ocupam todo o espaço da trilha e é difícil ultrapassar o grupo todo, enquanto isso você é obrigado a respirar a poeira que elas levantam e o próprio mau cheiro delas. O tropeiro que as conduz dá gritos muito estranhos. Por mais cedo que se comece a caminhar não se consegue escapar de tê-las à frente. Ao cruzar uma tropa a recomendação é sempre ficar do lado da encosta e não da ribanceira já que uma topada com a carga de uma mula pode jogar o caminhante morro abaixo.
      Com o céu limpo da manhã pude avistar da frente do lodge o Pico Kusumkangaru (Kusum Kanguru), muito bonito e imponente, a nordeste.
      Saí do lodge às 8h46 inicialmente na direção nordeste e continuei minha descida. Às 9h03 fui à esquerda na bifurcação em frente a uma casa, descendo. Às 9h19 fui à esquerda em outra bifurcação pois havia uma fita verde mas tanto faz. Cruzei três pontes de concreto e depois uma estrada junto a um lodge. Saí na mesma estrada, mas andei apenas 20m por ela para a direita e entrei na trilha à esquerda. Novamente cruzei a estrada. Às 10h23 entrei na mata e desci por ela até a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, com a vila de Chhirdi cerca de 100m antes.
      A essa altura eu já havia reencontrado os três russos com quem conversara no dia anterior, mas caminhamos pouco tempo juntos. Tivemos que esperar as mulas passarem pela ponte para atravessá-la, às 11h01. Dela se avista a confluência dos rios Dudh Koshi e Deku do lado esquerdo. Esse foi meu primeiro contato com o Rio Dudh Koshi, um dos principais rios da região, que acompanharei durante todo o trekking a Namche Bazar e depois a Gokyo, onde ele se origina. A altitude aqui é a mais baixa de todo esse percurso de Shivalaya a Namche Bazar, 1504m. E logo em seguida inicia a longa e cansativa subida até Kharikhola e seu monastério.
      Nessa subida, às 11h19 alcancei a pequena vila de Juving, com vários lodges. Subi mais e logo após o Quiet View Lodge, num local chamado Chyokha, subi uma escadaria à direita seguindo a fita verde. Subi rápido tentando escapar das mulas que já se aproximavam. Mas ao cruzar com outra tropa, uma mula desembestada e desgarrada da fila esbarrou na minha mochila, sem eu ter por onde escapar, quase me jogando ao chão. Às 12h33 finalmente cheguei ao alto, ao pé da escadaria para o monastério Pema Namding. Ali estavam Zita e Daniel. Deixei a mochila no chautaara (local de descanso dos carregadores) e subi até a stupa e mais um pouco até o monastério. Dali se avista a vila de Kharikhola a leste. O casal húngaro preparou uma sopinha rápida com o fogareiro, eu preferi comer algo mais substancioso no Hill Top Guest House ali ao lado. 
      Às 13h45, quando estava de saída, chegaram os três russos bastante cansados. Atravessei a vila de Kharikhola, bem extensa e com bastante comércio, com casas espalhadas desde o monastério até próximo da ponte suspensa sobre o Rio Khari. O Lodge Namaste oferece aulas de culinária e línguas (nepalês e sherpa). Fiquei interessado nas aulas de culinária... Cruzei a ponte suspensa do Rio Khari às 14h22 e veio a subida final até Bupsa, aonde cheguei às 15h18. Encontrei Zita e Daniel em frente ao Hotel Yellow Top e entrei para negociar o preço do quarto, que ficou de graça, só pagando as refeições.
      O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia uma torneira no quintal da frente. Já deu para perceber que escovar os dentes e se lavar é um ato público e não privado no Nepal.
      Saí para conhecer a vila e visitar a gompa (monastério) de 1892. Mais tarde, já anoitecendo, chegaram os três russos e se hospedaram ali também. Nessa noite Daniel tratou a minha água do dia seguinte com o Steripen dele - apenas 90 segundos para purificar 1 litro de água!
      Altitude em Bupsa: 2328m
      Preço do dal bhat: Rs 400
      Preço do veg chowmein: Rs 330

      Vale do Rio Dudh Koshi com Lukla à direita e o Pico Khumbila ao fundo
      6º DIA - 29/10/18 - de Bupsa a Cheplung
      Duração: 7h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 2876m
      Menor altitude: 2301m
      Resumo: nesse dia tomo finalmente a direção norte que me levará a Namche Bazar (no dia seguinte) pelo vale do Rio Dudh Koshi. Nesse dia caminho somente pela margem leste do vale (no dia seguinte cruzaria o rio quatro vezes), subindo até 2876m, descendo em seguida até 2301m na ponte de Surkhe e subindo novamente à vila de Cheplung (2687m).
      Saí do lodge às 7h inicialmente na direção nordeste seguindo o caminho pisoteado pelas mulas. Às 7h28 cruzei uma ponte de madeira sobre o Rio Kanre e às 7h41 alcancei a vila de Kanre (Kare), com lodges. Subindo mais, após o Sonam Lodge há bandeirinhas e lenços marcando o Passo Khari La, porém a medição do ponto mais alto do dia pelo meu gps foi quase 1km à frente, após a vila de Thamdada. Passei por Thamdada às 8h37 e pelo ponto mais alto, de 2876m, às 8h46. Dali a visão é espetacular nas direções noroeste e norte, onde estão diversas montanhas nevadas, entre elas o Karyolung (esq) e o Cho Oyu (dir).
      Às 9h30 cruzei uma ponte de madeira, em seguida uma ponte metálica sobre o Rio Paiya e logo cheguei à vila de Paiya (Puiya, Puyan, Poyan), com lodges e posto de saúde. Às 10h37 passei pela vila de Chhaubas, também com lodges, onde o Pico Karyolung domina a paisagem a noroeste. A visão do profundo vale do Rio Dudh Koshi à esquerda (sudoeste) vai ficando cada vez mais impressionante. Às 10h56, num mirante espetacular para a parte norte do Rio Dudh Koshi, tive a primeira visão de Lukla, com aviõezinhos pousando e decolando sem parar. Ao fundo, na direção de Namche Bazar, surge o imponente Pico Khumbila. A noroeste está o Karyolung e a nordeste se destaca o Kusumkangaru (Kusum Kanguru).
      Desci bastante e às 12h22 cruzei uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Surkhe, chegando à vila de Surkhe, onde parei para almoçar. Às 13h12 retomei a caminhada e às 13h28 cheguei a uma bifurcação com um muro de pedras mani e placa: à direita a escadaria que sobe para Lukla, à esquerda o caminho para Namche Bazar, para onde segui, cruzando a ponte. Às 13h46 cruzei uma ponte suspensa muito alta com cachoeiras formadas pelo Rio Handi à direita. Às 14h04 cruzei outra ponte de ferro com várias pedras mani bem grandes. Nesse momento estava exatamente abaixo da pista do aeroporto de Lukla. Às 14h24, na pequena vila de Musey (Mushe) conheci os muros de pedras mani com uma cobertura de cor vermelha em forma de telhadinho.
      Às 14h41 alcancei a vila de Chaurikharka, com vários lodges, muitos muros de pedras mani e três grandes stupas. Ali comecei a notar construções mais bonitas e bem acabadas, sinal de que estava entrando numa zona mais "turística". Parei para descansar e às 15h03 voltei a caminhar. Ali havia sinal da NCell, depois de 3 dias tentando sem sucesso, e pude mandar notícias para casa. Às 15h28 alcancei enfim a vila de Cheplung e a trilha principal que vai de Lukla a Namche Bazar. E já me espantei com o intenso trânsito de trilheiros para cima e para baixo.
      Termina aqui a primeira etapa dessa caminhada. Fiz em seis dias o que 99% dos trilheiros faz em 30 minutos de avião, mas valeu a pena cada paisagem, cada ladeira, cada família nepalesa que conheci e cada amigo novo que fiz, mesmo sendo passageiro. A partir daqui entraria no comboio de caminhantes, mulas e iaques em direção a Namche Bazar e depois o Everest. Porém, para manter os relatos de forma mais organizada, vou relatar ainda aqui a chegada até Namche Bazar e aos 3000m de altitude. 
      Exatamente na confluência das duas trilhas (a trilha pela qual cheguei e a trilha que vai de Lukla a Namche) simpatizei com o Lodge Sherpa Home & Kitchen. Conversei com a simpática garota e o quarto sairia de graça, bem como a carga das baterias. O banheiro era no estilo oriental, mas dentro da casa. Para escovar os dentes usava uma mangueira no quintal do fundo.
      Aproveitei ainda as duas horas de luz e fui conhecer o monastério da vila, bem no alto, incrustado no paredão de pedra. Saí do lodge na direção de Namche e logo após a ponte de concreto subi a escadaria de pedras à direita. Subi bastante e a trilha foi estreitando e sendo tomada pela vegetação, mas estava no caminho certo. Alcancei uma trilha mais larga acima e fui à direita na bifurcação já vendo o monastério logo acima. É impressionante a construção embutida numa enorme cavidade do grande paredão rochoso. Há ainda uma stupa, uma grande roda mani, todos os elementos de um monastério budista, além de uma bonita vista do vilarejo. Levei 14 minutos para subir a ele a partir do lodge e voltei por outro caminho, indo à direita na bifurcação logo abaixo, mas a trilha é mais confusa e mais longa. 
      Mais tarde no lodge apareceram Zita e Daniel e resolveram se hospedar ali também. Só nós três de hóspedes nessa noite e pudemos conversar com a garota sobre muitos assuntos do cotidiano deles ali. Ela nos mostrou seus livros e cadernos escolares. Morava com a sua tia nesse lodge e nos contou histórias terríveis de rejeição e comércio de meninas pela família, além do problema sério do alcoolismo.
      Altitude em Cheplung: 2687m
      Preço do dal bhat: Rs 400
      Preço do veg chowmein: Rs 300

      Vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo
      7º DIA - 30/10/18 - de Cheplung a Namche Bazar
      Duração: 6h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3430m
      Menor altitude: 2551m
      Resumo: nesse dia continuei percorrendo o vale do Rio Dudh Koshi sem grandes desníveis, mas após atravessar a famosa Ponte Larja (onde o vale desse rio vira um cânion) a subida final até Namche Bazar é longa e cansativa.
      Saí do lodge às 7h12 no sentido nordeste e continuei no caminho principal após a ponte de concreto (à direita a trilha/escadaria sobe para o monastério). De cara já percebi duas coisas bem diferentes do trekking que vinha fazendo até aqui: o grande fluxo de pessoas (como já disse) e o caminho bem mais largo (para comportar o número de pessoas que passam).
      Cruzei uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme, a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (menor altitude do dia:  2551m) e cheguei às 7h51 à vila de Thadokoshi. Às 8h05 passei pela vila de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas (como a maioria deles) e várias pedras mani. Às 8h22 passei pela vila de Chhuthawa. Às 8h37 ignorei uma ponte suspensa à esquerda e continuei em frente, entrando na vila de Phakding 3 minutos depois. Às 8h52 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, que divide a vila de Phakding, contornei os lodges pela esquerda e fui à direita na bifurcação em T. Estava agora na margem oeste desse rio.
      Às 9h14 passei por Zamphute, com lodges. Em seguida cruzei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e às 9h26 passei pela vila de Toktok. Uns 5 minutos depois passei por uma cachoeira à esquerda com três quedas sucessivas. Às 9h39 subi à esquerda na bifurcação e logo avistava a vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo, numa paisagem de cartão-postal. Às 9h55 cruzei uma ponte de concreto com uma cachoeira de duas quedas sucessivas à esquerda onde alguns iaques carregados queriam parar para beber água. Subi um pouco e na descida já estava entrando na vila de Benkar. Às 10h12 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi retornando à margem leste, onde volto a visualizar o Pico Khumbila ao norte. Às 10h30 passei pela vila de Chumoa. 
      Cruzei a ponte de ferro do transparente Rio Monjo e subi cerca de 130m até um checkpoint na entrada da vila de Monjo. Parei ali às 10h40 para pagar a permissão local (substituto do TIMS card para o Everest) no valor de Rs 2000 (US$17,36). Cerca de 400m à frente, depois de cruzar toda a vila de Monjo (com diversos lodges), parei às 11h03 na entrada do Parque Nacional Sagarmatha para pagar a permissão. Entrei na fila demorada e paguei os Rs3000 (US$26,04). Essa permissão pode ser obtida no Tourist Service Center, em Kathmandu, e somente apresentada aqui, num procedimento bem mais rápido. Às 11h32 me livrei dos pagamentos e, ao cruzar um portal budista, pude enfim pôr os pés nesse lugar tão aguardado: o parque nacional que abriga as maiores montanhas do mundo!
      No horizonte ainda se destaca o Pico Khumbila. Desci bastante e às 11h42 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, para a margem oeste de novo, e fui para a direita. Às 11h52 passei pela vila de Jorsale com os restaurantes todos lotados pois é o último vilarejo antes da longa subida a Namche Bazar. Mais à frente todos tivemos de esperar os iaques cruzarem a ponte suspensa Tawa sobre o Rio Dudh Koshi para poder atravessá-la. De volta à margem leste parei numa escadaria para comer alguma coisa que tinha na mochila e às 12h13 segui à esquerda pela trilha, acompanhando o rio, não subindo a escadaria.
      Às 12h47 parei próximo à confluência dos rios Dudh Koshi e Bhote Koshi, junto com muitas outras pessoas, para tirar fotos da famosa Ponte Larja, uma ponte dupla que aparece no filme Everest (de 2015). A ponte de baixo está desativada, todos passam pela ponte de cima, repleta de bandeirinhas de oração budistas. Ambas se estendem sobre o Rio Dudh Koshi, de águas azuladas. A linda cor do rio completava o cenário quase irreal das duas pontes muito altas na entrada do cânion. Um dos momentos mais emocionantes dessa caminhada!
      Dali da margem foi uma boa subida até a ponte de cima. Mas depois de cruzá-la, às 13h02, é que vem o aclive de verdade, saindo dos 2970m e subindo sem trégua até os 3430m do centro de Namche Bazar.  No caminho há banheiros e um checkpoint pelo qual passei direto. Felizmente toda a subida é feita na sombra da floresta. Quando cruzei a Ponte Larja voltei à margem oeste do Rio Dudh Koshi e oficialmente entrei na região conhecida como Khumbu. Na chegada a Namche, às 14h03, me deparei com uma grande escadaria subindo à direita e a trilha continuando à esquerda. Na dúvida fui para a esquerda (cada caminho aqui leva a uma parte diferente da vila). Fiz uma curva para a direita e lá estava diante dos meus olhos um lugar quase mítico para mim: Namche Bazar, com suas casas de 3 ou 4 andares dispostas em forma de ferradura ao longo da encosta da montanha. Visão inacreditável, principalmente depois de 7 dias de caminhada. Parei para contemplar aquela visão, descansar um pouco e me emocionar com aquele momento.
      Passei pelo portal budista e comecei a subir pela ladeira de acesso ao centro, com várias rodas mani bem grandes à direita movidas a água. Uma vez no centro comecei a subir as ladeiras de pedra pensando para que lado procurar hospedagem quando ouvi alguém me chamar: era o Christopher, o austríaco. Ele me indicou o lodge onde estava, de nome Shangri La Guest House, e fui para lá. A dona aceitou que eu pagasse somente as refeições, o lugar era bom, mas depois não gostei de algumas coisas e não recomendo esse lodge. O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada, ainda lavatório com espelho, era muito luxo! Mas houve algumas decepções como: é um lodge que trabalha com grupos grandes e no refeitório só dão atenção para esses grupos; foi o único lugar no Nepal onde acrescentaram 13% de imposto à conta final. Para completar, somente no café da manhã do dia seguinte é que a dona me falou que eu não poderia dormir mais uma noite ali porque havia reservas de grupos. Tive de arrumar a mochila correndo e deixar guardada para procurar outro lugar para ficar quando voltasse da caminhada de aclimatação no final do dia. 
      Altitude em Namche Bazar: 3430m
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 500

      Cachoeira na entrada da vila de Benkar
      CONTINUA EM: www.mochileiros.com/topic/82889-campo-base-do-everest-etapa-23-de-namche-bazar-ao-campo-base-do-everest-e-pheriche-nepal-nov18
      Informações adicionais:
      Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.
      Horários de ônibus:
      . Kathmandu-Jiri-Shivalaya: 6h e 8h 
      São 10h10 de viagem (para 197km) até Jiri e 11h20 de viagem (para 215km) até Shivalaya
      Em Kathmandu os ônibus saem do imundo terminal do Ratna Park
      Preço: Rs760 (US$6,60) até Shivalaya
      . Kathmandu-Bhandar: 5h30 (único horário)
      Em Kathmandu os ônibus saem também do horroroso terminal do Ratna Park
      Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com.
       
      Rafael Santiago
      novembro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
    • Por rafael_santiago
      Gokyo e o o terceiro lago, Gokyo Tso
      Início: Pheriche
      Final: Lukla
      Duração: 7 dias
      Maior altitude: 5409m no Passo Renjo La
      Menor altitude: 2545m em Thadokoshi
      Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida todos os dias, com desníveis de 380m a 1030m diários, sempre acima dos 3300m, o que exige aclimatação. O Passo Renjo La, de 5409m, impõe uma dificuldade a mais.
      Permissões: entrada do Parque Nacional Sagarmatha  (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$ 17,36).
      Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.
      O trekking Pheriche-Lukla é a terceira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A primeira parte está descrita aqui e a segunda parte aqui. Como esta etapa do trekking ocorre acima dos 3000m de altitude, foi preciso fazer previamente um processo de aclimatação. Para saber mais sobre a importância da aclimatação e os riscos de não fazê-la sugiro ler este tópico no "Pequeno guia".
      Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.
      No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".
      As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
      . Pheriche: só Everest Link
      . Pangboche: NCell (somente em alguns lugares da vila)
      . Phortse: NCell
      . Gokyo: só Everest Link
      . Namche Bazar: NCell
      . Lukla: NCell
      O cartão pré-pago de wifi Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não o testei porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia".
      Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).
      Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

      Pangboche com o Ama Dablam ao fundo
      17º DIA - 09/11/18 - de Pheriche a Phortse
      Duração: 4h30 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4293m
      Menor altitude: 3795m
      Resumo: nesse dia percorri os vales dos rios Khumbu (ou Lobuche) e depois Imja até a confluência deste com o Rio Dudh Koshi e a vila de Phortse
      A mínima durante a noite dentro do quarto em Pheriche foi -3,4ºC. Às 7h30 da manhã estava -1,4ºC.
      Por causa da insônia que me deixou quatro noites seguidas sem dormir (efeito do Mal da Montanha, AMS em inglês), em Gorak Shep tomei a decisão de abortar o Passo Cho La e baixar de altitude para poder dormir e me recuperar. Por outro lado, não poderia deixar de conhecer os belos lagos sagrados de Gokyo, então faria um contorno bem grande descendo para o sul para em seguida subir até Gokyo, aonde chegaria no 19º dia de caminhada.
      De manhã com o céu limpo, da frente do lodge Thamserku podia avistar as montanhas na cabeceira do vale do Rio Khumbu (ou Lobuche) e também o Taboche e o Cholatse a noroeste. A sudeste o Ama Dablam e ao sul estavam Kangtega e Thamserku.
      Saí do lodge às 10h08 na direção sul ainda pela margem esquerda do Rio Khumbu (ou Rio Lobuche). Cerca de 600m após as últimas casas de Pheriche passei para a outra margem desse rio atravessando uma ponte de ferro e seguindo para a esquerda. Subi até um memorial a escaladores às 10h55 (4293m, maior altitude do dia) e logo desci até aquela bifurcação sem placa do 10º dia. Naquele dia fui para a direita (que agora é esquerda) na direção de Dingboche, hoje vou para a direita, voltando a percorrer o vale do Rio Imja. Desse ponto até Pangboche refaço o caminho da ida ao contrário, na direção sul, e volto a caminhar abaixo do limite das árvores. Passei por Somare às 11h51 e parei em Pangboche às 12h42 para almoçar no Himalayan Lodge, onde me hospedei no 9º dia. Ali conheci um polonês que estava bem perdido, dei umas informações pra ele e ele me deu boas dicas sobre as montanhas Tatras, na fronteira do seu país com a República Tcheca.
      Voltei a caminhar às 14h13 e subi à direita na bifurcação bem ao lado do lodge, na direção do monastério (gomba). Duas coisas me detiveram por algum tempo para fotos nessa subida: a linda vista de Pangboche com o Ama Dablam ao fundo e o longo muro de pedras mani na trilha. Cheguei ao monastério às 14h40 e o visitei só por fora (entrada de Rs250 = US$2,17). Ele é do século 17 e é o mais antigo monastério do Khumbu. Continuei pela trilha na direção sudoeste, fui à direita na primeira bifurcação (com placa indicando um posto de saúde à esquerda) e à esquerda na trifurcação (sem placa) logo a seguir. Nesse ponto um cachorro estressado não parava de me perseguir e ameaçava me morder, mesmo atirando pedras na sua direção. Por fim me livrei dele. Passei por mais um longo muro de pedras mani na saída da vila. Deixei para trás o vilarejo de Pangboche Alto e continuei pela trilha na encosta da margem direita do Rio Imja. Passei por três bicas de água e subi até os 4084m, onde, às 15h48, avistei a vila de Tengboche e seu grande monastério. Depois de várias subidas e descidas, até com escadarias de pedra, cheguei a Phortse às 16h58 com neblina.
      Nessa vila não há o esquema de cobrança de preço único do quarto, como já vigora de Tengboche a Gorak Shep, então volta o método anterior de negociar o quarto desde que se façam as refeições ali mesmo. Perguntei em alguns lodges e fiquei no Namaste Lodge, onde o dono me fez o quarto de graça. O banheiro foi o mais esquisito de todos: uma casinha com um buraco no piso de madeira (sem a peça de louça) e uma montanha de folhas ao lado para jogar um pouco no buraco depois de fazer o número dois. Para escovar os dentes havia uma pia no corredor dentro da casa. Havia tomada no quarto mas a recarga de baterias era paga. Barganhei o máximo que pude e chegamos a Rs500 (US$4,34) para recarregar todas as baterias durante a noite inteira. Pedi um cobertor pois não havia no quarto (não foi cobrado), mas não era tão grosso e achei melhor usar o meu saco de dormir (Marmot Helium, temperatura limite -9ºC). Nesta noite nesse lodge havia apenas um grupo de alemães, mas era um grupo tão grande que lotava o refeitório.
      Continuo na minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.
      Altitude em Phortse: 3795m
      Preço do dal bhat: Rs 500
      Preço do veg chowmein: Rs 450

      Vila de Machermo
      18º DIA - 10/11/18 - de Phortse a Machermo
      Duração: 4h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4446m
      Menor altitude: 3603m
      Resumo: nesse dia saio do vale do Rio Imja e volto ao vale do Rio Dudh Koshi iniciando a longa subida (de dois dias) a Gokyo pela margem direita verdadeira deste rio
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 5,2ºC, não tão frio quanto eu esperava. Como na noite anterior, meu sono foi bom, conseguindo me refazer do cansaço dos dias anteriores quando fiquei quatro noites seguidas sem dormir por causa da altitude.
      A partir de Phortse os mapas indicam dois caminhos a Gokyo, um pela margem direita do Rio Dudh Koshi e outro pela margem esquerda. O guia Lonely Planet sugere ir a Gokyo pela margem direita e voltar pela margem esquerda. Porém conversei com várias pessoas nos últimos dias e todos desaconselhavam tomar o caminho da margem esquerda pois nele há deslizamentos e pedras que caem. O caminho da margem direita é mais seguro e muito mais usado pelos trilheiros.
      O Rio Dudh Koshi é um dos principais rios da região. Acompanhei seu curso do 5º dia de caminhada, em Chhirdi, até o 9º dia em Phunki Thenga e agora vou segui-lo até Gokyo, onde estão suas nascentes.
      Saí do lodge às 9h22 descendo as escadarias da vila na direção sudoeste e quebrando à direita na direção do Everest Lodge. Ao lado desse lodge uma grande stupa com placa indica o caminho para Dole descendo a trilha para o norte, na direção do Rio Dudh Koshi. Cruzei uma matinha e desci bastante, atravessando a ponte metálica sobre o azulado Rio Dudh Koshi às 9h56 (3603m, menor altitude do dia). Seguiu-se uma subida por um bosque com a trilha bem mais estreita até que alcancei a principal mais acima, onde fui para a direita (noroeste). Daqui até próximo de Gokyo vou caminhar pelas encostas da margem direita verdadeira do Rio Dudh Koshi.
      Às 10h21 fui parado num checkpoint para mostrar as permissões pagas em Monjo no 7º dia (permissão local e entrada do Parque Nacional Sagarmatha) e a surpresa foi encontrar o casal húngaro Zita e Daniel, ele visivelmente mais magro. Eles já estavam descendo de volta a Namche, não tiveram problema com a altitude, passaram pelos passos Kongma La e Cho La mas não quiseram encarar o terceiro passo, o Renjo La.
      Continuei subindo e às 10h29 cruzei uma ponte de ferro com uma cachoeira congelada à esquerda. Mas essa foi só a primeira delas pois em seguida cruzei mais três pontes com cachoeiras congeladas ao lado. Esse foi o primeiro dia cinzento do trekking desde Shivalaya, sem nenhum sinal de sol, o que fazia o dia ficar muito frio. Essas águas congeladas só aumentavam a sensação de frio. As nuvens estavam bem baixas e caíram cristais de neve quase o dia todo.
      Às 11h51, depois de subir 445m desde a ponte do Rio Dudh Koshi, alcancei a vila de Dole e parei para almoçar um dal bhat no Namaste Lodge. Dole está a 4049m e as árvores já começam a desaparecer acima dessa altitude. Às 12h56 continuei na direção oeste e logo desci para cruzar o Rio Phule por uma ponte de troncos precária. Subi novamente e passei por um lodge em Lhafarma às 13h44. As nuvens baixaram de vez e a neblina tirava a visão do caminho. Às 14h27 cruzei um riacho e passei por um lodge no vilarejo de Luza. Na bifurcação 90m depois do lodge fui à direita, cruzei outro riacho e atravessei alguns cercados de pedra.
      Subi até os 4446m (maior altitude do dia) e desci à vila de Machermo, aonde cheguei às 15h com neblina. Me hospedei no Himalayan Lodge, um lodge menor e mais modesto que os outros. O primeiro em que perguntei, o Tashi Dele, estava lotado, apesar de bem grande, ao passo que o Himalayan Lodge só tinha carregadores, apenas eu de estrangeiro. Pude novamente negociar o preço do quarto e o dono fez de graça, só cobrando as refeições. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Para escovar os dentes tinha que ser no quintal com uma caneca. A energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiro e corredores, necessitando usar a lanterna.
      Altitude em Machermo: 4393m
      Preço do dal bhat: Rs 500
      Preço do veg chowmein: Rs 400

      Longpunga Tso, primeiro lago de Gokyo
      19º DIA - 11/11/18 - de Machermo a Gokyo
      Duração: 3h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4754m
      Menor altitude: 4377m
      Resumo: nesse dia continuei a subida pela margem direita do Rio Dudh Koshi até a vila de Gokyo e seus incríveis lagos sagrados
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi -4,1ºC. Às 6h30 da manhã estava -3ºC. A minha água amanheceu congelada dentro da garrafa.
      Como não costumam acender o aquecedor do refeitório de manhã para economizar esterco de iaque, o dono do lodge foi muito gentil e serviu o meu café numa mesa do lado de fora, onde já batia o sol da manhã (mas ainda fazia muito frio).
      A vila de Machermo se espalha ao longo do vale do Rio Machermo, afluente da margem direita do Rio Dudh Koshi.
      Saí do lodge às 9h na direção noroeste e logo cruzei uma ponte de ferro sobre o Rio Machermo (4377m, menor altitude do dia). A partir dela há duas trilhas mais ou menos paralelas em direção a Gokyo: a da direita sobe menos, a da esquerda sobe mais e depois desce para encontrar a primeira. A da esquerda deve até ter uma vista mais panorâmica mas eu optei pela da direita. Ela sobe pela encosta, faz uma curva de mais de 90º para a esquerda e toma a direção noroeste, junto ao Rio Dudh Koshi, até se fundir com a outra trilha, que percorre até ali um nível mais alto na encosta. O Cho Oyu, 6ª montanha mais alta do mundo, já fica visível na cabeceira do vale.
      Ao me aproximar do povoado de Phanga tomei as trilhas da esquerda mas pode-se ir pela direita também. Cruzei essa vila às 9h53 e é muito bonita a visão das casas e muros de pedra com os picos Cholatse e Taboche ao fundo (leste). Após Phanga me aproximei um pouco mais do Rio Dudh Koshi e parei para fotos. Já podia avistar dali a longa subida que teria de encarar em seguida.
      Às 10h57 venci essa subida (cheia de gente) e cruzei a ponte de ferro sobre o rio que verte do primeiro dos lagos sagrados de Gokyo. Ufa, parece que estava quase no fim essa subida interminável desde o dia anterior, com desnível de mais de 1000m desde a ponte do Rio Dudh Koshi até aqui. Daqui até Gokyo à minha direita tenho a moraina lateral do Glaciar Ngozumba, que vem das montanhas Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang. Parei no primeiro lago, Longpunga Tso, às 11h03 para fotos com o Cho Oyu ao fundo e segui com o riacho que faz a ligação entre os lagos à minha esquerda. Cerca de 970m depois parei no segundo lago, Taujung Tso, muito maior que o primeiro, para descansar e comer o lanche que tinha na mochila. Continuei às 12h e em 45 minutos (com paradas) alcancei o terceiro lago, Gokyo Tso, ainda maior e mais bonito. Tirei algumas fotos e segui, chegando a Gokyo às 13h10. O lugar é tão bonito que parece uma pintura! O vilarejo ao lado do lago de águas esverdeadas brilhantes e cercado de montanhas e picos nevados - nem parece real! Ao fundo, ao norte, está o Pico Cho Oyu, 6º mais alto do mundo.
      Os lagos de Gokyo são sagrados para budistas e hindus. Durante o festival Janai Purnima, em agosto, centenas de nepaleses vão em peregrinação a Gokyo para banhar-se em suas águas geladas. Os lagos também contribuem na formação do importante Rio Dudh Koshi, que conheci no 5º dia de caminhada, em Chhirdi.
      Percorri alguns lodges e optei pelo Ngawang Friendship. Negociei o quarto e ficou de graça novamente, mas se o lodge lotasse eu teria que dividir o quarto com outra pessoa pois me deram (na primeira noite apenas) um quarto com duas camas. Os banheiros ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário, descarga com caneca. Como em Machermo, a energia era solar e não havia luz nos quartos, banheiros e corredores. Perguntei por curiosidade o preço da água mineral de 1 litro e custava a bagatela de Rs450 (US$3,90)!
      Almocei no lodge e o passeio da tarde foi abortado pois as nuvens tomaram conta do lugar. A visão das nuvens sobre o lago era bonita também, mas a minha intenção de subir até os lagos mais acima (4º e 5º) foi adiada.
      Altitude em Gokyo: 4754m
      Preço do dal bhat: Rs 700
      Preço do veg chowmein: Rs 700

      Everest visto da montanha Gokyo Ri
      20º DIA - 12/11/18 - de Gokyo a Gokyo Ri
      Duração (descontadas as paradas): 1h25 (subida ao Gokyo Ri), 1h05 (descida do Gokyo Ri), 48 min (de Gokyo ao 4º lago)
      Maior altitude: 5356m
      Menor altitude: 4754m
      Resumo: nesse dia subi a montanha Gokyo Ri num desnível de 600m desde a vila de Gokyo e visitei o Thonak Tso, o 4º lago
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi -1,9ºC. Às 6h30 da manhã estava 0,3ºC. Meu sono foi bem ruim de novo. Por causa da altitude passei a maior parte da noite acordado.
      Saí do lodge às 7h42 na direção noroeste, cruzei pela "ponte" de pedras o riacho que se abre antes de desaguar no Lago Gokyo Tso e comecei a subir o Gokyo Ri por trilha bem marcada e muito pisada. Alcancei o cume de 5356m às 9h12 e a paisagem é espetacular. Dali se avistam Cho Oyu (6º mais alto do mundo), Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; Everest, Nuptse (20º mais alto), Lhotse (4º mais alto) e Makalu (5º mais alto) a leste; Cholatse e Taboche a sudeste; Kangtega, Kyashar, Thamserku e Kusumkangaru (Kusum Kanguru) a sul-sudeste; Khumbila ao sul; Passo Renjo La a sudoeste. A visão de Gokyo com os lagos sagrados é uma das paisagens mais bonitas de todo esse trekking - realmente vale todo o esforço para chegar a esse lugar!
      Às 11h18 iniciei a descida e estava de volta à vila às 12h32. Saí 20 minutos depois para conhecer os lagos mais acima antes que as nuvens tomassem conta de tudo novamente. Caminhei pela trilha bem marcada até o 4º lago, Thonak Tso, aonde cheguei em 48 minutos, mas parei por ali pois o 5º lago estava 3,7km à frente por um caminho de pedras e se fosse "comum" como o 4º lago eu ia me arrepender de ter caminhado tanto. Se o 5º lago era bonito? Até hoje não sei. Talvez dependa da posição do sol para eles ficarem mais bonitos. Ali a altitude era de 4876m e eu tinha uma visão incrível do Cho Oyu, Ngozumba Kang e Gyachung Kang ao norte, na cabeceira do vale. Continuando ainda além do 5º lago estariam o 6º lago e o campo base do Cho Oyu. Voltei tomando uma trilha na crista da moraina do Glaciar Ngozumba, que passa bem ao lado da vila de Gokyo e é o último obstáculo para quem vem de Lobuche pelo Passo Cho La. O "mar" de pedras do glaciar é impressionante e quem já passou por um sabe a dificuldade que é.
      Descobri onde ficava o posto de saúde e fui lá pegar alguma informação mais confiável sobre como resolver o problema da minha insônia na altitude. Conversei com a médica sem ter que pagar a consulta e ela me disse que o Diamox é indicado para quem acorda no meio da noite com falta de ar. Não sei bem se era o meu caso, acordava espontaneamente, não necessariamente com falta de ar. Continua a dúvida se o Diamox me teria feito dormir.

      Passo Renjo La (5409m de altitude)
      21º DIA - 13/11/18 - de Gokyo a Lungden
      Duração: 6h (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 5409m
      Menor altitude: 4378m
      Resumo: nesse dia encarei o terceiro passo (para mim foi o segundo), o Renjo La, com 5409m de altitude e desnível de 655m desde a vila de Gokyo, para descer em seguida ao vilarejo de Lungden
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,5ºC. Às 6h10 da manhã estava 3,6ºC. Tive uma noite razoável de sono, não fiquei tantas horas acordado e consegui descansar para enfrentar esse dia bem puxado.
      Saí do lodge às 7h56 e tomei o mesmo caminho do dia anterior (noroeste), porém aos pés do Gokyo Ri peguei a trilha da esquerda (com placa apontando Renjo Pass), subindo suavemente a encosta e percorrendo a margem norte do Lago Gokyo Tso. Às 8h16 fui à direita numa bifurcação (a trilha da esquerda aparentemente vai até o final do lago). Às 9h cruzei um riacho e a subida se tornou bastante íngreme, em zigue-zague, com muitas pedras. Nessa ladeira havia pequenas quedas-d'água congeladas.
      Às 9h48 atingi um grande platô e olhando para trás vi que a neblina estava chegando bem mais cedo nesse dia. Numa bifurcação a 5261m fui à direita. Subi mais e alcancei o Passo Renjo La às 10h56, com muitas bandeirinhas de oração budistas e lenços cerimoniais. A altitude ali é 5409m e pode-se avistar as montanhas: Gyachung Kang a norte-nordeste; Chumbu, Pumori e Changtse a nordeste; vila de Gokyo, Everest, Nuptse, Lhotse e Makalu a leste; Cholatse e Taboche a sudeste.
      A neblina não foi tão forte quanto eu imaginava. Aos poucos foram chegando mais e mais trilheiros e reencontrei o russo que conheci em Pangboche. É muito legal reencontrar as pessoas depois de vários dias de caminhada e ver que continuamos "juntos", no mesmo ritmo. Comi alguma coisa (importante levar lanche e água por causa da distância entre as vilas - há uma pequena padaria em Gokyo) e às 13h38, quando quase todos já haviam saído, iniciei a descida para a vertente oeste do passo, em direção a Lungden.
      A trilha de descida do passo tem muitas pedras soltas e até escadas de pedra. Às 14h21 passei pelo Lago Angladumba Tso que já avistava desde o passo. A partir daí a neblina veio forte e começou a tirar a visão do caminho. Continuei descendo e às 14h57 passei à direita do Lago Relama Tso. Às 15h13 cometi um erro. Numa bifurcação sem placa e em meio à neblina olhei no gps e ele indicou o caminho da direita. A trilha era bem marcada e eu, acreditando que estava no caminho certo, não olhei mais o gps. Atrás de mim vinha um casal russo (Marina e Andrei). Eles confiaram na minha burrada e tomaram a direita também. Depois de descer muito por trilha marcada, começamos a ver que havia alguma coisa errada pois ela estava ficando indefinida, embora houvesse muitos totens (só para nos confundir). Vimos que o erro estava lá atrás e não quisemos subir tudo de novo. A neblina não deixava visualizar se aquele caminho também levaria a Lungden, talvez sim mas por um trajeto muito mais longo e difícil. Eles decidiram sair dessa trilha para a esquerda e caminhar pelas encostas sem trilha até reencontrar o trajeto correto. Dessa vez eu é que fui atrás deles para ver no que ia dar. O caminho foi bem ruim por deslizamentos cheios de pedras soltas e descidas muito íngremes. Conseguimos voltar à rota certa cerca de 800m antes da vila de Lungden, aonde chegamos às 16h51.
      Marina era quem espiava os lodges e conversava com os donos para decidir em qual ficar. Eles resolveram ficar no Lungden View Lodge e eu também pois o quarto não seria cobrado. Os banheiros desse lodge ficavam dentro da casa e era um no estilo oriental e outro com vaso sanitário. Descarga em ambos com caneca. Havia um grupo de franceses sem guia também e conversamos bastante no refeitório esperando pela janta. Perguntei a eles e ao dono do lodge sobre uma trilha alternativa a Lukla que sai de Thame e não passa em Namche Bazar, mas não recomendaram fazê-la porque há bem pouca hospedagem pelo caminho e um dos lodges é muito caro, sem outra opção próxima, segundo disseram.
      Marina também tinha pego a maldita tosse do Khumbu, como eu. Nós dois fazíamos uma sinfonia de tosses, principalmente à noite com o frio apertando.
      Altitude em Lungden: 4378m
      Preço do dal bhat: Rs 550
      Preço do veg chowmein: Rs 450
      Às 18h15 a temperatura fora do lodge era -3ºC.

      Stupa e roda mani na entrada da vila de Thameteng
      22º DIA - 14/11/18 - de Lungden a Namche Bazar
      Duração: 6h20 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 4378m
      Menor altitude: 3415m
      Resumo: nesse dia percorri o vale do Rio Bhote Koshi baixando 948m de altitude de Lungden a Namche Bazar
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi -0,3ºC. Às 7h50 da manhã estava 0,4ºC.
      Em Lungden tive meu primeiro contato maior com o Rio Bhote Koshi já que a vila fica em seu vale, na margem esquerda. Saí do lodge às 8h28 na direção sul percorrendo o restante do vilarejo. Cruzei um riacho congelado pelas pedras e às 9h11 passei pela vila de Maralung. Às 9h22 cruzei uma ponte metálica sobre o Rio Bhote Koshi, passando para sua margem direita. Fui à esquerda na bifurcação ao final da ponte. Ali fui alcançado por Marina e Andrei, que saíram depois de mim. A vila de Maralung continua depois da ponte e a trilha passa a percorrer a encosta da margem direita do Rio Bhote Koshi. Às 10h02 passei pelo povoado de Tarnga e seus inúmeros cercados de pedra. Cruzei às 10h29 a ponte de ferro sobre o Rio Langmuche. Às 10h53 fui à esquerda na bifurcação e logo cruzei um riacho pelas pedras. Cruzei mais dois riachos pelas pedras e no quarto riacho saía uma trilha à esquerda para o povoado de Yila Jung (essa bifurcação, apesar da placa, pode causar dúvida a quem está fazendo o percurso ao contrário). Às 11h20 passei por uma stupa com uma roda mani na entrada da vila de Thameteng. Ao final dessa vila há uma grande stupa à direita e uma infinidade de pedras mani à esquerda.
      Às 11h45 eu, Marina e Andrei chegamos a um mirante no alto da vila de Thame e resolvemos parar para almoçar. Descemos para procurar um lugar mas o vilarejo parecia fantasma, quase tudo fechado e deserto. Conseguimos almoço num lodge às 12h05. O banheiro desse lodge era diferente, era no estilo oriental mas com descarga.
      Nesse povoado de Thame, a 3792m, começam a reaparecer timidamente as árvores, mas elas voltam a ser mais frequentes mesmo só abaixo dos 3500m.
      Ao final do almoço o sol já havia sumido, encoberto pelas nuvens baixas. Saímos às 12h59 na direção sudeste pela encosta da margem esquerda do Rio Thame e descemos até uma ponte de ferro sobre um cânion formado pelo estreitamento do Rio Bhote Koshi. Após a ponte, no paredão rochoso há imagens pintadas de Tara Verde, Guru Rinpoche e Thangtong Gyalpo. Após essa ponte voltamos a caminhar pela encosta da margem esquerda do Rio Bhote Koshi e às 13h46 passamos pela vila de Samde. Na bifurcação ao final da vila fomos à direita, descendo. Às 14h11 alcançamos o monastério de Thamo, com o vilarejo logo abaixo. Bancas de artesanato demonstram que estamos voltando à zona mais "turística" do trekking.
      Passamos pelo povoado de Theso às 14h43 e cruzamos uma ponte de ferro sobre o Rio Thesebu (3415m, menor altitude do dia). Às 15h passamos pelo vilarejo de Samsing onde há uma imagem do Guru Rinpoche pintada numa grande rocha. A seguir cruzamos um bosque. Às 15h10 passamos pela vila de Phurte e paramos para descanso na stupa logo acima. Entramos na mata de pinheiros e às 15h36 fomos à direita numa bifurcação com placa indicando Khumjung e Khunde à esquerda. Cruzamos a mata e na descida já avistamos Namche Bazar e seu formato de anfiteatro mais abaixo. Passamos pelo monastério e chegamos a Namche às 16h10.
      Segui o casal russo de novo e fomos para o Family Lodge, que eles já conheciam. Na negociação, o quarto saiu por Rs100 (US$0,87). O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada e lavatório com espelho - muito luxo! O russo de Pangboche estava hospedado ali também com seus amigos.
      Eu precisava trocar mensagens com o dono da agência que me vendeu a passagem aérea Lukla-Kathmandu para adiantar a data do voo, mas a NCell não estava funcionando. Tive de ir a uma padaria consumir alguma coisa e usar o wifi gratuito. Consegui trocar a data para dia 16, às 9h, um pouco tarde (por causa das nuvens que costumam fechar o aeroporto) mas não havia horário vago mais cedo.
      Altitude em Namche Bazar: 3430m
      Preço do dal bhat: Rs 500
      Preço do veg chowmein: Rs 500

      Ponte Larja, a mais fotografada
      23º DIA - 15/11/18 - de Namche Bazar a Lukla
      Duração: 6h25 (descontadas as paradas)
      Maior altitude: 3430m
      Menor altitude: 2545m
      Resumo: nesse dia refiz ao contrário o percurso do 7º dia, percorrendo no sentido sul o vale do Rio Dudh Koshi e baixando 586m de altitude de Namche Bazar a Lukla, encerrando assim essa caminhada de 23 dias
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 2,2ºC. Às 7h30 da manhã estava 2,7ºC.
      Marina e Andrei resolveram ficar mais um dia em Namche. Saí do lodge às 8h50 na direção sul e parei na entrada de Namche para fotos da bonita stupa. Passei (sem parar) pelo checkpoint às 9h18 e 100m adiante entrei numa trilha à esquerda da principal. Essa trilha corre paralela à principal mas é bem mais estreita e mais vazia. Às 9h34 as duas se fundiram de novo e 240m depois passei pelos banheiros que há ao lado desse caminho. Às 9h58 cheguei à Ponte Larja, sobre o Rio Dudh Koshi. Parei um bom tempo para fotos. Continuei às 10h23 e tomei a direita na primeira bifurcação, descendo por uma trilha mais estreita com escadarias (o caminho em frente também serve mas aparentemente sobe para depois descer tudo de novo). Descendo na trilha à direita cheguei à margem do Rio Dudh Koshi e parei para mais fotos da Ponte Larja.
      Continuei descendo pela margem esquerda do Rio Dudh Koshi, cruzei a ponte suspensa Tawa sobre ele e passei por Jorsale às 11h19. Já era bem visível como a trilha estava mais vazia em relação ao dia em que passei na ida. Cruzei outra ponte suspensa voltando para a margem esquerda do Rio Dudh Koshi. Subi bastante e às 11h38 passei pela entrada do Parque Nacional Sagarmatha, onde tive de mostrar as permissões para registro da minha saída. Cruzando a vila de Monjo resolvi parar às 11h51 para almoçar no Mountain View Lodge. Atendimento muito simpático. Retomei a caminhada às 12h18 e parei no checkpoint da permissão local para carimbar a saída. Esses dois checkpoints estavam completamente vazios, ao contrário do dia em que passei na ida.
      Descendo cruzei a ponte de ferro sobre o transparente Rio Monjo e passei às 12h30 pela vila de Chumoa. Às 12h43 cruzei outra ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi e passei pela vila de Benkar. Cruzei a ponte de concreto com a cachoeira dupla à direita. Às 13h22 passei pela cachoeira tripla e 230m à frente cruzei a vila de Toktok. Atravessei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e passei por Zamphute às 13h37. Cheguei à vila de Phakding e aqui é fácil errar se não estiver atento: deve-se tomar o caminho que sai em 90º à esquerda passando no meio dos lodges, e não seguir em frente (como fizeram Marina e Andrei). Indo à esquerda se cruza mais uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi para em seguida passar pelo "centro" de Phakding. Uns 3 minutos após as últimas casas, deve-se desprezar uma nova ponte suspensa que vai para a direita e seguir em frente.
      Às 14h24 passei pela vila de Chhuthawa e 290m depois pelo povoado de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas. Às 14h51 passei por Thadokoshi e cruzei a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (2545m, menor altitude do dia). Estava difícil ultrapassar um grupo de iaques e aproveitei para parar e descansar um pouco. Às 15h15 passei por uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme. Às 15h46 cruzei uma ponte de concreto e passei pela vila de Cheplung, onde dormi na 6ª noite. Em seguida veio a longa e dura subida até Lukla, aonde cheguei às 16h36 com chuva fina. Cruzei toda a vila e fui diretamente ao aeroporto tentar adiantar o horário do voo do dia seguinte, mas os balcões estavam todos fechados (pura ingenuidade minha, mal sabia eu o caos que enfrentaria no dia seguinte).
      Voltei ao centro de Lukla e comecei a procurar hospedagem - todos os lodges estavam lotados por causa do mau tempo que obrigava muita gente a esperar o dia seguinte para embarcar. Finalmente consegui um quarto no Monte K2 Lodge por Rs200 (US$1,74). O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental, e não era um primor de limpeza.
      Altitude em Lukla: 2844m
      Preço do dal bhat: Rs 650
      Preço do veg chowmein: Rs 400
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 7,5ºC. Às 7h15 da manhã estava 7,8ºC.

      Pista curtinha do aeroporto de Lukla
      16/11/18 - tentativa de embarque no voo Lukla-Kathmandu
      Meu voo estava marcado para 9h. Tomei o café da manhã e cheguei ao aeroporto às 7h50. O saguão do check in parecia o fim do mundo. A multidão se acumulava na frente dos pequenos guichês das companhias aéreas, que são Nepal Airlines, Tara Air (a minha), Sita Air e Summit Air. Porém os guichês não têm funcionário o tempo todo como nos outros aeroportos, eles só vêm quando vai ser aberto o check in do próximo voo, e nessa hora a confusão é total, com a multidão estendendo papéis e celulares mostrando a reserva, na esperança de embarcar no próximo voo pois todos já estão atrasados. O funcionário pega só algumas das reservas dos passageiros desesperados, confere numa listagem (não há computador), manda pesar a bagagem e em seguida desaparece. Mais meia hora ou uma hora ele reaparece e começa toda a balbúrdia de novo. Um espanhol com quem conversei no meio desse caos tinha passagem com a Tara Air também às 9h, como eu. Ele foi chamado, embarcou e eu fiquei. No entanto, duas garotas estavam nesse sufoco de não conseguir embarcar desde o dia anterior às 7h da manhã. Eles não seguem a ordem cronológica das reservas, é tudo aleatório. A cada vinda do funcionário para o guichê o tumulto e a correria se instalavam, isso em todos os guichês pois nas outras companhias era a mesma coisa. Conclusão: não fui chamado para os voos seguintes e por volta de 13h os funcionários não voltaram mais ao guichê, nem para avisar se haveria outros voos ou não naquele dia. Total falta de respeito! A essa altura já tinha feito amizade com algumas outras pessoas na mesma situação que eu. Concluímos que os voos haviam sido cancelados por causa da mudança do tempo. Descobrimos onde era o escritório da Tara Air (dentro do aeroporto mesmo, no corredor à esquerda de quem entra) e fomos confirmar isso e remarcar o voo para o dia seguinte. Voltei ao mesmo lodge, almocei um dal bhat e enrolei a tarde toda.
      A mínima durante a noite dentro do quarto foi 6,9ºC. Às 7h20 da manhã estava 7,4ºC.

      Himalaia visto do avião entre Lukla e Kathmandu
      17/11/18 - finalmente sucesso no embarque no voo Lukla-Kathmandu
      Meu voo estava marcado para 9h. Cheguei ao aeroporto às 8h30. Mas nesse dia foi diferente pois na confusão do dia anterior eu e os parceiros na mesma situação aprendemos algumas coisas que vão como dica importante aqui para não passar por tanto sufoco. Pelo menos para a Tara Air isso é válido. Ao chegar ao aeroporto é importante ir ao escritório da companhia e pedir (ou mesmo exigir) que eles informem o número do voo em que está previsto o seu embarque. Não é o número do voo dado na hora da reserva, é um número sequencial que eles criam no dia do embarque. Sim, a coisa é pra lá de confusa! Com esse número na mão não é preciso correr para o guichê e se matar junto com os outros passageiros toda vez que o funcionário aparecer para fazer um check in. Basta perguntar a ele: qual é o número desse voo? Se for o seu, basta entregar a reserva e o passaporte, se não for espere a próxima aparição dele. Isso aprendemos a duras penas! E sempre torcer para as nuvens não chegarem e os voos serem todos cancelados.
      Nesse dia fiz o check in às 10h e consegui decolar de Lukla às 13h, chegando ao aeroporto de Kathmandu às 13h29. Algumas pessoas no avião estavam passando mal de tão nervosas mas o voo foi ótimo, sem nenhuma turbulência. O que assusta é o tamanho da aeronave, um Dornier 228 de apenas 12 lugares, e a pista curta e inclinada de Lukla que termina num precipício.
      Um alerta a quem pensa em comprar a passagem Lukla-Kathmandu com a empresa Summit Air: muitos voos dessa empresa não chegam a Kathmandu, embora os passageiros paguem o mesmo valor (ou mais) que os outros que desembarcam em Kathmandu. O avião pousa em algum aeroporto menor no caminho e o restante da viagem é feito de ônibus. Como as estradas no Nepal são péssimas soube de viagens que estavam levando de 4h a 7h!!! Quer dizer, você paga US$179 por uma passagem aérea para viajar 15 minutos num avião e depois 7h num ônibus!
      Informações adicionais:
      . Somente essas quatro companhias aéreas fazem o trajeto entre Kathmandu e Lukla:
      .. Nepal Airlines: www.nepalairlines.com.np (clique em Domestic Flight)
      .. Tara Air: www.yetiairlines.com
      .. Sita Air: sitaair.com.np
      .. Summit Air: www.summitair.com.np
      . O posto de saúde de Gokyo tem palestras diárias e gratuitas sobre aclimatação e Mal da Montanha às 15h
      . Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com.

      Rafael Santiago
      novembro/2018
      https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br
    • Por Trip-se!
      Pessoal, alguém tem indicação de guia que faz a travessia a pé nos Lençóis Maranhenses?
      Muito obrigada.
    • Por Mayki Pole
      Bom dia pessoal !   Estamos indo para serra fina dia 16 de março de 2020!   Se alguém conseguir ajustar as datas pra ir junto seria legal, por enquanto vamos em três pessoas, eu e minha namorada e  mais um amigo nosso! 
      Faremos no formato clássico de 4 dias, podemos nos encontrar em Passa Quatro-MG.
      Se alguém quiser embarcar conosco nessa aventura, será muito bem vindo!!
      Meu número é 45 99961-3741    Mayki 🙏


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