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TRAVESSIA SACO DAS BANANAS 360 - Ubatuba-SP


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TRAVESSIA SACO DAS BANANAS 360

Quase 25 anos atrás, quando pisei pela primeira vez na Travessia do Saco das Bananas, eu ainda era um jovem iniciante, pesava quase meio quilo a menos do que peso agora, num tempo em que internet inexistia e as fotografias eram em maquinas yashica de 36 poses. O mundo era outro, a atividade de aventura era renegada a meia dúzia de esforçados, gente que foi ganhando conhecimento aos poucos, meio que na tentativa e erro, transformando frustações em experiências. Essa tal travessia era só conhecida pelos caiçaras e poucos locais, num litoral isolado e desprovido de gente. Na época, tive como companhia, minha esposa, a irmã dela e mais 2 amigos de infância e levamos dois dias para cruzá-la, partindo da pouco conhecida na época, Praia da Ponta Aguda. Depois disso, ganhei o mundo em centenas de trilhas, caminhadas e viagens expedicionárias e nunca mais voltei para refazer essa travessia, mas esse ano estava decidido que era hora de retornar, hora de reviver um passado encantador, quando saíamos sem rumo, sem gps, sem mapas, apenas caminhado ao sabor do vento.

No final do ano, me mudei para uma barraca de camping na Praia da Ponta Aguda. Claro que não era mais a mesma praia deserta de outrora, mas ainda continuava com seus encantos. Nos juntamos em família e na companhia de amigos, aqueles acampamentos onde se leva tudo, transformando o lugar num camping das Arábias. Aproveitamos para desfrutar de todas as prainhas paradisíacas que tem em volta da Ponta Aguda, mas estava difícil achar alguém que se dispusesse a me acompanhar numa travessia pelo Saco das Bananas em um só dia. Até entendo que poderia ser uma furada dos infernos para quem não está acostumado a longas caminhadas, mas até minha filha se recusou a me seguir nessa empreitada, alegando que estava de férias e queria apenas sossego.

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Uma semana se passou, minha filha e outros amigos retornaram para Sumaré no interior Paulista e com a chegada de novos amigos, me acendeu a esperança de achar um trouxa (opssss, um amigo) que se dispusesse a me acompanhar e entre conversas e churrascos, o Anderson Rosa se apresentou como voluntário, mas o tempo foi passando e nada da gente tomar uma decisão, até que, não tendo mais como fugir, marcamos a então esperada caminhada justamente para o último dia do ano, prometendo voltar cedo a fim de nos programar para a virada.

Antes de descrever essa linda caminhada, que partiu da Praia da Ponta Aguda, vou me dar ao trabalho de descreve-la por completo, para que quem leia esse relato, possa aproveitar toda a caminhada, muito porque, eu mesmo 25 anos atrás, nem tinha me dado conta da existência dessas outras prainhas que completam a Travessia do Saco das Bananas e até hoje, a grande totalidade de quem caminha nessa travessia, não inclui essas praias no seu roteiro, o que chega a ser quase um crime.

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Partindo da Rio-Santos, bem em baixo do Portal que divide Caraguatatuba com Ubatuba, vamos pegar a rua entre a adega e o supermercado, quando chegarmos ao final, vamos seguir para direita e caminharmos por cerca de 1500 metros até onde ficam estacionadas as caçambas de depósito de lixo e ali interceptar a esquerda, uma estradinha de terra que vai nos levar em direção a Ponta Aguda. Vamos caminhar por mais uns 3 km e entrar a direita no caminho que nos levará para incrível Praia da Figueira, onde levaremos outros 10 minutos para lá chegar e aí então daremos início a nossa TRAVESSIA.

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A FIGUEIRA é uma praia deserta e selvagem, com mar calmo e encantador, do seu lado direito, uma toca serviria muito bem para um abrigo de emergência, mas nosso caminho segue para a esquerda, onde interceptaremos uma trilha depois que passamos a foz de um pequeno córrego. A trilha vai subir ao alto, onde teremos uma vista espetacular da própria praia, depois vai entrar na mata e em 15 minutos, estaremos desembocando na própria praia da Ponta Aguda, com um camping gigante.

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A PONTA AGUDA é outra praia de sonhos, mesmo com um número considerável de frequentadores, se mantem muito agradável, com um rio de águas cristalinas fazendo a festa da criançada. Vamos atravessar toda a sua extensão e exatamente como a praia anterior, vamos cruzar a foz do riacho e imediatamente subir uma trilha que se lança mata à dentro. A trilha sobe ao alto em 10 minutos e em mais outros 10 minutos nos leva para a pequena e também selvagem PRAIA MANSA, uma prainha cercada pela floresta, onde alguns barcos costuma ancorar por ser protegida das ondulações do mar, formando piscinas naturais nas suas extremidades.

Cruzamos toda praia até seu fim e ganhamos uma trilha aberta que segue na mata, subindo entre palmeiras espinhudas por uns 15 minutos, talvez menos, até que ela se bifurca, mas nosso caminho segue para a esquerda, porque para a direita a trilha vai finalizar bem na ponta que entra mar a dentro e esse não é nosso caminho.

Pegando, portanto, para a esquerda, vamos seguir em nível por outros 10 minutos até que chegamos a um mirante onde é possível apreciar mais abaixo a impressionante Praia da Lagoa. Passamos com cuidado, nos apoiando em uma corda e descemos mais outros 10 minutos até a areia da praia, deserta, silenciosa, selvagem.

A PRAIA DA LAGOA é outra joia dessa parte do nosso litoral paulista, uns 500 metros de areia grossa e inclinada no seu lado direito, cercada por vegetação mais baixa. Na sua extremidade esquerda, uma grande lagoa de águas quentes nomeia a praia, onde peixes nadam tranquilamente. Com mar calmo, em dias de sol intenso, parte da praia se transforma em uma grande piscina de águas transparentes.

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Aqui preciso fazer um parêntese: Poderíamos assim que saltamos no início da praia, pegarmos uma trilha a esquerda que daria continuidade a nossa travessia, mas seria um pecado não ir a sua extremidade conhecer a lagoa. Estando na lagoa, nem precisamos voltar pela areia da praia, apenas pegamos uma trilha larga na vegetação e vamos seguir em paralelo a própria praia até que uns 15 minutos depois, a trilha se curva para a direita, vai adentrando novamente em mata alta, passa por um atoleiro e uma meia hora depois de partirmos da lagoa, desembocamos na estrada de terra, que acaba justamente ali. Se seguirmos para a esquerda, poderíamos voltar novamente para o nosso camping na Ponta Aguada, mas nosso caminho, nossa travessia segue para a direita, cruza imediatamente uma porteira e já intercepta a esquerda, uma placa indicando o caminho para a Praia do Simão, exatamente onde oficialmente se iniciaria a travessia tradicional.

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Acima está a descrição de parte da travessia, fiz isso para que todos que acompanhem esse relato, tenha uma caminhada incrível, tendo tudo que esse roteiro nos permite, mas como nós já estávamos acampados na Ponta Aguda e já havíamos feito todas essas praias durante mais de uma semana que ali estávamos, nos restou apenas nos organizarmos para partirmos direto da nossa barraca e tentarmos fazer a travessia em apenas 1 ÚNICO DIA, ao invés de 2 dias, como é o tradicional.

Na noite dia 30 de dezembro, arrumamos nossa mochilinha com os equipamentos de segurança e quando o último dia do ano raiou ( 31/12/2020), nos pusemos de pé e fomos ganhar o mundo. Partimos eu e o Anderson Rosa e uns 15 minutos antes das 07 da manhã, deixamos o acampamento da Ponta Aguda e ganhamos a estradinha e logo mais, na bifurcação, pegamos para a direita, mesmo porque, para a esquerda é o caminho que nos levaria de volta para a Rio-Santos, coisa que não nos interessa. Agora vamos seguindo pela estradinha embarreada, passamos por uns ranchos e deixamos a civilização definitivamente para trás. Cruzamos 2 rios que abastecem a vilinha da Ponta Aguda e em mais 10 minutos descemos a estrada até o seu final, juntamente na porteira, onde ela se encontra com a trilha que vem lá da Praia da Lagoa.

Passamos pela porteira e interceptamos a trilha a esquerda, onde uma placa indica o caminho para a Praia do Simão, que alguns também chamam de Brava do Frade. Já de cara a trilha larga e consolidada entra na mata onde árvores gigantes desfilam enormemente, atravessamos um riacho de águas claras e viramos para o leste, desprezando mais à frente uma trilha para a direita, que provavelmente deve vir lá da fazenda. Logo a trilha vai virar para o sul, mas sempre dentro da mata fechada, sempre subindo até ganhar o topo da serra e começar a descer definitivamente para a praia. Vários riachos são cruzados, o que evita que carreguemos muita água e então já começamos a ouvir o barulho das ondas do mar e logo a frente viramos a direita numa bifurcação, descemos numa ribanceira enlameada e alguns minutos depois desembocamos na gigante PRAIA DO SIMÃO.

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Gastamos cerca de pouco mais uma hora desde o acampamento, uma velocidade absurda nessa manhã de quinta-feira. Na Praia do Simão encontramos meia dúzia de barracas espalhadas e é surpreendente como essa praia ainda se mantém selvagem, talvez a praia mais selvagem de Ubatuba. Aqui o mar é sempre bravo, o que dificulta até para a entrada de barcos, mas hoje, surpreendentemente o mar está quase uma piscina. Na chegada a areia, ao invés de seguirmos para a esquerda, pegamos para a direita e fomos tomar uma ducha numa pequena cachoeirinha no extremo. Não era nada de mais, só que como o calor estava grande já logo pela manhã, aproveitamos a água com temperatura agradável para nos refrescar.

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Retomamos nossa caminhada para o outro extremo da praia (esquerda), mas ao chegarmos a metade, caímos para o meio do bosque sombreado até chegarmos na grande bica e lá nos matamos de tanto beber água e abastecemos nossos cantis. No fim da praia, quando a areia acaba, entramos em outra trilha em direção à praia do Saco das Bananas. A trilha vai subindo e logo saímos no aberto com um espetacular mirante da Praia do Simão. Começamos a nos enfiar numa floresta de jaqueiras, aliás, carregadas de jacas e vamos subindo até começarmos a descer em meio aos bananais que dão nome a essa travessia. Descartamos uma estradinha a direita e quando chegamos nas ruinas da antiga escolinha, nos detemos por um instante para uma foto e um descanso.

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A ruína da Escolinha traduz bem o que deveria ser isso há muito tempo atrás. Aquela vilinha de caiçaras hoje está também em ruínas e somente uma ou outra casa se mantém com algum morador, mas o silêncio ali é tão grande que mais parece um lugar fantasma.

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Vamos descendo por uma escadaria que vai se enfiando em direção à praia, numa pequena baia até que alguns minutos nos leva ao mar. Na praia, apenas um casal e um barquinho boiando nas agás calma e verdes. E é mesmo um cenário de sonhos que encontramos. QUE COISA LINDA! É um grande prazer poder pegar a praia daquele jeito, já que quase 25 anos atrás, pegamos um mar revolto e escuro. Agora sim, agora aquele mar fazia jus à fama daquele lugar surpreendente. Subimos nas pedras e ganhamos o canto direito, onde piscinas naturais me tirou da terra e me jogou ao mar.

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A água está numa temperatura excelente e eu nadei até não aguentar mais, enquanto o Rosa aproveitou para se refrescar numa sombra e comer alguma coisa. E eu estava certo quando ficava inquieto querendo fazer essa travessia e não poderia ter escolhido um dia melhor, porque será difícil existir outro dia com tanta beleza na PRAIA DO SACO DAS BANANAS.

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É com uma imensa dor no coração que abandonamos aquela praia, mas a travessia tinha que continuar. Subimos de volta à escolinha e mesmo antes de alcançá-la, cortamos caminho por um roçado e interceptamos a trilha principal, que vai nos levar em direção a prainha da Raposa. Ela adentra na mata pontilhada por jaqueiras gigantes, nos leva ao alto, onde uma casa abandonada nos tira do nosso caminho. Nós havíamos recebido uma informação de um lugar encantador e o caminho muito provavelmente partiria dos fundos dessa casa, mas me pareceu que teríamos que varar um mato descendo a encosta até o mar, e como notei que o Rosa estava um pouco cansado devido ao colar intenso, resolvi abortar essa descida e voltar para trilha, mas logo à frente, quando o caminho sai novamente no aberto, me arrependi amargamente de não ter descido ao Saco do Morcego, uma piscina natural de tamanho grandioso.

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Mais alguns minutos de caminhada e a trilha nos leva para o fundo do vale, onde um riacho de águas cristalinas já serve para matar nossa sede. Depois vamos subir novamente sem dó, até atingirmos um descampado em meio a um sapezal. O sol queima tudo, é um calor insuportável que beira fácil os 40 graus ali naquele pedaço de litoral e só nos animamos novamente quando o caminho entra novamente na floresta fechada e vai seguindo em nível e começamos a descer de vez, passamos por umas entradas de uns sítios e interceptamos a trilhinha que nos levaria em definitivo até a praia. E é uma trilha bem minúscula, protegida por algumas cordas que ajuda a não escorregar no barranco, mas não leva mais de 5 minutos para a gente desembocar na PRAIA DA RAPOSA, praia selvagem e encantadora, 4 km depois de partirmos do Saco das Bananas.

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A prainha me surpreende positivamente, parece ainda mais selvagem que 25 anos atrás, é uma solidão imensa, com o mar batendo um pouco mais forte que a praia anterior, com areias mais grossas e com a água mais mexida, mas apesar de tudo, não estava deserta de gente. Ao pisar na areia já me dirijo imediatamente para conversar com um único casal que estava deitado no centro da praia. Ando tranquilamente, olhando o mar e as belezas em volta, sem focar muito de quem estaria deitado na areia, chego perto, cumprimento os dois e só então, depois que os meus olhos se acostumam com a luminosidade é que me dou conta que OS DOIS ESTÃO COMPLETAMENTE NUS. ( kkkkkkkkkk) Fiquei desconcertado , não por encontrar um casal pelado, mas por eu não ter percebido e ter recuado, sem me dirigir para falar com eles. Mas por sorte, o Rosa veio para me salvar, já que eu não conseguia nem falar: - Boa tarde meu irmão, curtindo aí um naturalismo né? Nem sei o que o casal respondeu, saí de fininho, sem nem olhar para trás e fui me refugiar na sombra do lado direito da prainha.

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Cinco minutos depois, os peladões se mandaram, ganharam o costão e sumiram da nossa frente, voltaram pelo mesmo lugar que vieram, acho que nem sabiam que existia uma trilha mais curta de volta à civilização. O Rosa se contentou em ficar na sombra descansando, mas eu é que não ia sair dali sem dar um mergulho e mesmo com o mar um pouco mais agitado, pulei na água e por lá fiquei, me refrescando, até que num mergulho, localizei uma TARTARUGA quase que encalhada na areia. Duas braçadas me levaram ao animal e consegui captura-lo e não levou mais de um minuto, tempo suficiente para que o Rosa sacasse uma foto e eu já a devolvi para o mar, evitando qualquer tipo de estresse desnecessários e esse foi mais um encontro inusitado nessa prainha tão legal.

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Subimos novamente a trilha e interceptamos o caminho principal, quase uma estradinha, que vai subir por 10 minutos e descer por outros 10 até nos levar direto para a PRAIA DA CAÇANDOQUINHA, uma prainha mais reservada, mas agora sem o charme das praias desertas que passamos. Por ser véspera do ano novo, estava bem cheia, mas ainda suportável.

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No final, do lado esquerdo, uma outra trilha larga nos conduz em pouco mais de 5 minutos até a outra praia, onde primeiro temos que descer nos valendo de uma corda para ganhar sua areia. A PRAIA DA CAÇANDOCA é um antigo quilombo e é também uma bela praia, mas nessa época do ano parece a sucursal do inferno e hoje para ir ao mar, será necessário entrar na fila de tanta gente que tem. Eu e o Rosa passamos batidos e rapidamente ganhamos o extremo da praia, e já tratamos logo de sairmos vazados daquele antro em tempos de pandemia. No fim da praia, interceptamos outra trilha larga que sobe ao alto e uns 10 minutos depois, desemboca numa estrada, bem em frente a uma guarita que dá acesso a próxima e derradeira praia dessa travessia.

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Essa próxima praia é uma que ainda faltava no meu currículo, porque mesmo de outras vezes que por aqui estive, nunca a visitei. Quando chegamos à estrada, já localizamos a entrada para a praia, mas para lá chegar, é preciso passar por dentro de um condomínio de luxo, onde os ricos cagam dinheiro, com casas avaliadas em milhões de reais. Quando os guardas da guarita nos viram, já foram nos pedindo os documentos. Não sei se isso é de praxe ou se vendo as nossas caras de pobres, tentaram se resguardar, mas no fim, desistiram de anotar os RG, quando dissemos que passaríamos rapidamente pela praia, porque estávamos apenas fazendo a travessia. Aqui abro um parêntese: Ter que ficar dando satisfação para poder frequentar uma praia pública é o fim da picada e é claro que deveria ter uma passagem livre ali para qualquer pessoa sem ter que dar satisfação a seu ninguém, mas enfim, entramos e seguimos por uns 10 minutos até a areia.

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E é realmente como eu disse, uma praia voltada para a elite da elite, a tal ponto de a gente ver uma sala de uma das casas e pensar que era um grande restaurante. Aquilo era um absurdo tão grande, uma ostentação tamanha, que o Rosa ficou até revoltado e pediu para irmos logo embora de lá. Em frente as mansões, há jardins que devem necessitar de uns 10 funcionários só para cuidarem deles, verdadeiros palácios de sultões. As pessoas que ali estavam, pareciam recém-saídos da antiga revista “ CARAS”, num gramado impecável, sem quiosques ou qualquer outra coisa que lembrasse pobreza. A Praia era bem bonita, águas calmas com embarcações luxuosas. Atendendo aos pedidos do Anderson Rosa, nos dirigimos para a outra extremidade da praia, na tentativa de acharmos a trilha que nos levaria até um castelo no alto do morro e nos devolveria novamente à estrada, mas antes de lá chegarmos, fomos descobertos pelos 3 seguranças da PRAIA DO PULSO, que vendo que éramos os únicos pobres ali, vieram nos interpelar.

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Os seguranças foram educados, mas a intenção era clara de nos constranger, nos dizer que ali não era o nosso lugar, era preciso que a gente soubesse que ali tinha dono, e que não éramos bem-vindos, então nos indicaram a saída, como a nos dizer: vão embora e não voltem nunca mais.

Fizemos cara de paisagem, cagamos e andamos, mas não dissemos coisa alguma, recebemos a informação e assimilamos o golpe, muito porque, estávamos mais do que atrasados no nosso roteiro, então ao chegarmos no final da areia da praia, mandamos tudo aquilo a merda, ganhamos a trilha, passamos raspando no castelo, até alcançarmos novamente a estrada, onde passamos por mais uma guarita, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que seja.

Ganhando a estrada, vamos descendo sob um sol para cada um. A caminhada vai desenrolando vagarosamente, enquanto a gente vai suando em bicas e por quase uma hora, nos arrastamos até a RIO-SANTOS, desembocando bem em frente a um ponto de ônibus. Nossa intenção era ganhar a rodovia e caminhar por mais uma meia hora até o PORTAL que divide Ubatuba de Caraguá, mas fomos surpreendidos com um temporal avassalador e tentamos nos esconder dele no abrigo do ponto. A tempestade varreu o litoral, de tal maneira que tivemos que nos segurar para não sermos arrastados pelo vento e quando o ônibus apareceu, pulamos para dentro e demos graças por escaparmos vivos daquele aguaceiro todo.

Descemos no portal e antes de ganharmos o caminho de volta para Ponta Aguda, passamos no mercado para garantirmos o churrasco da virada de ano. Seguimos enfrente, debaixo de uma chuva fina, caminhando por uma estrada que não dava passagem nem para tatu de chuteira e quando chegamos ao mirante da Praia da figueira, ao invés de continuarmos pela estrada, resolvemos cortar caminho e interceptar a trilha que liga uma praia a outra e em mais 15 minutos, o caminho nos devolveu a Ponta Aguda, pouco depois das 4 horas da tarde, fim da travessia, estava cumprida a jornada que havíamos programado.

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Cansados, extenuados, mas extremamente satisfeitos com aquele fim de ano glorioso, num ano difícil, marcado por uma pandemia mundial e que dificultou muito a vida de todo mundo. Mas reviver essa caminhada incrível, quase 25 anos depois, foi algo gratificante, melhor ainda foi encontrar essa parte do litoral quase do mesmo jeito que a encontramos nessas mais de 2 décadas atrás, num pedaço de litoral de acesso difícil, mas encantador, com praias selvagens e natureza exuberante, um lugar destinado somente para os que tem coragem de se levantar da cadeira e meter os pés na trilha, para cruzar por um dos lugares mais bonitos do litoral do Brasil.

 

 
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    • Por Tadeu Pereira
      Trilha Saco das Bananas ou Trilha das 10 Praias Desertas - Caraguatatuba x Ubatuba - SP 
      Praias: Praia da Tabatinga, Praia da Figueira, Praia da Ponta Aguda, Praia da Lagoa, Praia do Simão, Praia Saco das Bananas, Praia da Raposa, Praia da Caçandoquinha, Quilombo Caçandoca, Praia do Pulso, Praia da Maranduba e Praia do Sape.
      Dificuldade: Moderado
      Distância: 28 km
      Salve salve mochileiros!
           Segue o relato desta trilha fantástica situada entre Caraguatatuba e Ubatuba no litoral Norte de São Paulo, iniciada na Praia da Tabatinga a aproximadamente 20 Km da cidade de Caraguatatuba e finalizada na praia do Sape. A trilha é de nível médio com subidas e descidas mostrando belas paisagens e diversas praias. A maioria das praias são quase que desertas com pontos de água potável.  
      Partida - 17/11/20 - Ida 7:30am - São Paulo x Caraguatatuba -> BlablaCar R$45,00 - Caraguatatuba x  Praia da Tabatinga -> Ônibus R$4,65
           Partimos do bairro do Butantã em São Paulo capital onde combinamos com o motorista do aplicativo BlablaCar para sair às 7:30am. Saímos no horário marcado e fomos em 4 pessoas no carro. A viagem foi tranquila, segura, todos de máscaras pela pandemia e com duração de duas horas e meia até chegarmos ao Terminal Rodoviário de Caraguatatuba onde pegamos um ônibus do transporte público com sentido a cidade de Ubatuba. Depois de aproximadamente 35 minutos descemos no último ponto da praia da Tabatinga próximo ao Mercado Prime onde fica o início da trilha pela rua à direita do mercado. Compramos mais alguns mantimentos e água e iniciamos por volta das 11:00am a Trilha do Saco das Bananas ou Trilha das 10 praias desertas.   
       
           A trilha teve início na rua ao lado direito do Supermercado Prime pela Rua Onze onde seguimos por ruas com um terreno muito acidentado com muitos buracos e lama até chegar na entrada para a Praia da Figueira. Resolvemos não entrar nesta praia pois o tempo não estava ajudando muito e então seguimos em frente. Alguns metros a frente chegamos no Mirante da Praia da Ponta Aguda de onde se tem uma bela vista da Praia da Figueira e da Praia da Ponta Aguda.
         
                                                 (Entrada Praia da Figueira)                                                        (Estrada)
       

      (Mirante da Praia Ponta Aguda) - (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)
           Passando o mirante a trilha começa a adentrar a mata mais fechada passando por diversos pontos d'água. Andamos por mais ou menos mais 1 hora e chegamos em um casarão abandonado com várias bananeiras ao redor. Não sei a história desta casa mas parecia ser bem antiga. Neste ponta a trilha se divide em duas, para a esquerda se segue a trilha para a Praia do Simão, e para a direita se chega na Praia da Ponta Aguda. Descemos uns 15 minutos de trilha passando por um descampado até chegar na Praia da Ponta Aguda. 
       

       (Praia da Ponta Aguda) 

       (Praia da Ponta Aguda) 
            Ficamos pouco tempo na Praia da Ponta Aguda pois estávamos correndo contra o tempo que a todo momento mostrava que podia desabar com muita chuva. Retornamos pela mesma trilha que chegamos na praia e continuamos a trilha seguindo as placas rumo a Praia da Lagoa. 
       

          (Praia da Lagoa) 
           A Praia da Lagoa que faz jus ao nome contém uma lagoa que desagua no mar situada do lado esquerdo da praia. Retornamos pela mesma trilha e seguimos as placas para a Praia do Simão que a princípio iríamos pernoitar e seguir no dia seguinte.  
       
           Apesar da placa de proibido resolvemos seguir em frente e caminhamos por mais ou menos umas 2 horas neste trecho. A trilha estava muito molhada pela chuvas do dia anterior tornando o trecho escorregadio e muito difícil de render a caminhada. O tempo até que estava colaborado pois só tínhamos pego chuviscos durante o caminho, até que chegando próximo da Praia do Simão o tempo simplesmente resolveu dizer qual seria o nosso destino pelos próximos 3 dias ahahauhauhauha. 
       
           Começando com um chuva bem fina, toda aquela água que estava acumulada durante o dia resolveu cair bem na hora que estávamos chegando na Praia do Simão ahuahuah e não parou mais. Depois de vários escorregões e tombos passando por alguns trechos que sem chuva até seriam fáceis, mas com toda aquela água caindo do céu com a trilha encharcada e muito escorregadia ficaram bem complicadas. E depois de algumas horas chegamos na Praia do Simão ou Praia Brava do Frade.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)


      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Segundo moradores a Praia Brava do Frade possui este nome pois a um tempo atrás morou um frade na praia por muitos anos, razão do nome original. A praia é bastante procurada também por surfistas que buscam tranquilidade em uma praia deserta longe da badalação, mas neste dia não tinha ninguém na praia. 
           Chegamos e já montamos acampamento no meio das inúmeras árvores pensando em obter alguma sombra pra caso no dia seguinte o sol desse as caras ahuahuah. A praia tem mais ou menos 1 km de extensão com mar de águas agitadas, areia clara, praia de tombo, aparentemente com muitas correntes de retorno. Também ficamos próximos ao um ponto de água potável que fica no meio da praia formando uma pequena lagoa que com a forte chuva virou uma grande cachoeira que corria até o mar. A pernoite estava garantida, mas a chuva não parou mais aquela noite e nem no outro dia. Choveu forte, com trovoadas e muito vento o tempo todo.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
       

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Acampamento)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
      (Bica d'água)
           Acordar em uma praia deserta certamente é um desejo de muitas pessoas, mas acordar com a praia deserta e com muita chuva também foi uma experiência muito boa com sentimento de frustração e agradecimento. Ficamos por três dias nesta praia por causa da chuva, as barracas viraram nossos lares naquele paraíso por alguns dias ahuahua. A chuva não deu trégua no segundo dia, choveu por várias horas de manhã até o meio da tarde. Tivemos que esperar por horas pra sair da barraca pra poder conhecer aquele paraíso, mas quando a chuva deu uma trégua nós saímos para desbravar e conhecer a praia. 

            Do lado direito andando pela praia existe um paredão de pedra que dependendo do volume d'água é um bom ponto para um banho de cachoeira, mas neste dia apesar de toda a chuva estava com volume baixo.  
       
      (Cachoeira)
            A chuva começou novamente e retornamos para o camping e por ali ficamos. Fizemos toda nossa comida dentro da barraca. Uso o modelo QuickHiker 2 Quechua que tem duas portas e dois grandes avanços possibilitando usar o fogareiro sem nenhum problema. Choveu o resto do dia e toda a noite. 

       
            Dormimos cedo com muita água ainda caindo, e por volta das 4:30am da madrugada a chuva resolveu finalmente parar. Resolvi sai da barraca assim que amanhecesse para ir ao banheiro e me deparei com um nascer do sol sensacional saindo lá longe no horizonte do mar. E depois de tanta chuva tive uma sensação de euforia, alegria, minhas energias se renovaram e todo aquele cenário de frustração por causa de toda aquela chuva mudou imediatamente ao ver os primeiros raios de sol naquele dia ahuahua, foi muito emocionante. Bom Diaaaaaaaaaaa!


       




      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Com toda aquela animação já preparei um belo café da manhã e comecei a desmontar acampamento para seguir em frente pois além de toda aquela chuva que estava caindo antes, o mar também estava um pouco revolto e impossibilitou a travessia pela praia para poder continuar a trilha. E naquela manhã tudo isso estava ao nosso favor para poder continuar a travessia, então tomamos um café reforçado, desmontamos todo acampamento e seguimos para o lado esquerdo no final da praia onde fica a continuação da trilha. 

           No final da praia havia um acampamento fixo montado com barracas, panelas, talheres, pia, agua encanada hauahuahua. Depois de todo o perrengue que passamos com a chuva, aquele acampamento iria ser muito útil pra nós. Mas como não tivemos muito tempo de desbravar a praia, só encontramos esse acampamento quando estava saindo do Simão. Um morador local que encontramos na trilha nos disse que são de surfistas que se juntam e passam alguns dias neste local.  

       
           A continuação da trilha fica atrás deste acampamento. Neste trecho existe uma subida até chegar em um mirante que se vê toda Praia do Simão. E é neste trecho da trilha que se faz jus ao nome Saco das Bananas. Caminha-se por diversas plantações de bananas revelando belas paisagem. 


      (Mirante - Praia do Simão ou Brava do Frade)

             A caminhada neste trecho foi um pouco cansativa pois existem algumas subidas e descidas que desgastam um pouco por causa do peso da mochila. Caminhamos por uma hora e meia mais ou menos até chegarmos nas ruinas de uma escola abandonada, a Escola do Saco das Bananas construída em 1973 que atendia por volta de 25 crianças fechando em 1993 por falta de alunos. Ao lado esquerdo da escola segue a trilha para praia da Raposa e para o lado direito fica a trilha que chega na próxima praia da travessia, a Praia do Saco das Bananas. 

      (Escola E. P. G. Saco das Bananas)

           Seguindo a trilha da escola até a Praia do Saco das Bananas começamos a perceber o quanto ela é histórica com a frequente presença da Comunidade Quilombola existentes em algumas ruinas da época da escravidão. Levaram 10 minutos de descida até a praia e chegando encontramos um casarão de frente para o mar, que provavelmente seria dos donos de toda aquela plantação de bananas, encontramos uma praia pequena de aproximadamente 55 metros de largura, areias amareladas, águas cristalinas, com algumas pedras enterradas nas areias e cercada pela Mata Atlântica.

      (Praia Saco das Bananas)

      (Praia Saco das Bananas)

            Na Praia Saco das Bananas encontramos com alguns moradores que nos informaram que a praia era como um porto para os barcos levarem os produtos que os moradores cultivavam e que na sua maioria eram e é até hoje as bananas. Chegamos bem na hora que eles tinham colhido vários cachos. Nos contaram também que a trilha Saco das Bananas em alguns trechos, foram estradas construídas de pedra com intuito de facilitar o transporte de mercadorias cultivadas no roçado como: cana, mandioca, banana e outras especiarias. A praia guarda muitas histórias e muitos mistérios de sofrimento do período escravocrata e ainda sofrem até hoje com a especulação imobiliária. 

      (Praia Saco das Bananas)
           Ficamos por uma hora nesta praia contemplando e logo seguimos para a próxima praia que seria a Praia da Raposa. Retornamos até a escola e na bifurcação da trilha principal fomos para a esquerda. Neste trecho existem algumas subidas de tirar o fôlego, mas que nos proporcionaram vistas fantásticas das praias. 
       




       



           Caminhamos por uma hora e meia neste trecho até que chegarmos na entrada da Praia da Raposa, mas por causa do tempo ruim decidimos seguir em frente e não passar por esta praia. A entrada pra praia fica em uma trilha pequena onde existe uma corda para ajudar na descida ingrime. A entrada é bem pequena e fica à direita pra quem vem da Praia Saco das Bananas. Caminhamos mais alguns minutos e chegamos na Praia de Caçandoquinha. 

      (Praia da Caçandoquinha)

      (Praia da Caçandoquinha)
       
      (Rio de água doce)
           Chegando na Praia da Caçandoquinha se vê um casarão de fazenda do período escravagista mas que, por ser privada, não é aberta ao público. É uma praia de mar calmo, areias claras, muitos borrachudos, do lado direito da praia existe um riacho de água doce e contém algumas árvores centenárias propiciando ótimas sombras para ficar a beira mar. Hoje a Caçandoquinha guarda uma história de riqueza branca e sofrimento escravo, amenizado com o reconhecimento e regularização do Primeiro Reduto Quilombola do litoral norte do Estado de São Paulo.
        
      (Praia da Caçandoquinha)
           Ficamos um tempo nesta praia para descanso e aproveitamos para fazer um lanche embaixo das sombras de umas das grandes árvores centenárias que têm de frente para o mar. Ao contrario da sua vizinha, Caçandoca, esta praia é muito tranquila, não existe nenhuma estrutura para o turismo, não se chega de carro, e é pouco frequentada. Do lado esquerdo da praia existe uma trilha que leva ao Quilombo Caçandoca, nosso próximo destino. 
           Caminhando por uns 10 minutos já se chega no costão onde existe uma corda para a descida até a Praia da Caçandoca. A praia é fantástica, um paraíso quase que intocado sem construções e com uma enorme história.  De areias claras, mar calmo o lugar tem um deslumbrante vista da baía do Mar Virado, Maranduba e algumas ilhas. Esta praia por ter acesso de carros pelo km77,5 da rodovia Rio-Santos já tem um pouco mais de estrutura como alguns campings e alguns quiosques a beira mar, mas tudo bem simples.
            A região do Quilombo Caçandoca tem muita história, faz parte de uma área legalizada como pertencente aos Quilombolas remanescentes das comunidades da época do período de escravidão contando com 890 hectares.  O Quilombo Caçandoca é o mais antigo do litoral norte de São Paulo e encontra - se em um dos lugares mais belos do Brasil. A escravidão só teve um "fim" em 1888 através da Lei Áurea, mas muito tempo antes os negro já lutavam por sua liberdade. A história como a dos remanescente de Quilombos, como a da antiga Fazenda Caçandoca, mostra que a luta foi árdua, mas foi vencida, e esta parte da história é passada de pai para filho, netos e bisnetos, mantendo sempre acesa a memória da Comunidade Quilombola. 
       
      (Praia da Caçandoca)
       
           Assim que chegamos já fomos atrás de um camping pois o tempo estava fechando novamente mostrando que iria chover novamente. Sentamos no Quiosque Pastel da Vó e conversando com alguns locais, nos recomendaram o Camping do Jango que fica do outra lado da praia no canto esquerdo. Fomos até lá e fechamos por R$25,00 Reais pra cada por uma noite com banho quente. Montamos a barraca e retornamos para o quiosque Pastel da Vó para curtir o resto do dia com sol enquanto tinha.
       
         (Quiosque Pastel da Vó)
           Retornamos ao camping onde tomamos um bom banho quente, fizemos um rango reforçado e dormimos pois a chuva não deu trégua no começo da noite. No dia seguinte o sol prevaleceu no céu o dia todo, o que nos proporcionou ver o quanto aquele lugar é maravilhoso mostrando belas paisagens. Decidimos ficar mais um dia e seguir para próxima praia somente no dia seguinte.
       
      (Camping do Jango)

      (Igreja)

      (Praia da Caçandoca)

      (Praia da Caçandoca)

           (Praia da Caçandoca)

           Passamos quase que o dia todo no Quiosque Pastel da Vó, pois além do tratamento maravilhoso, a cerveja tava muito gelada e ainda nos deram o valioso repelente que os locais usam para parar os borrachudos. Uma mistura de óleo de cozinha com vinagre de álcool. A mistura funcionou e lambuzamos o corpo. Bye bye Borrachudos! huahauhau 

       (Praia da Caçandoca)

       
           Foi o dia mais quente da travessia com uma temperatura de quase 30 graus. Almoçamos pela praia mesmo, comemos porções e pasteis da Vó e tomando uma merecida gelada. Até que os preços estavam de boa, nada abusivo. Retornamos ao camping por volta das 19:00pm horas, fizemos mais um rango reforçado e descansamos para poder seguir bem cedinho para as próximas praias. 

      (Praia Quilombo Caçandoca)
                  Desmontamos acampamento por volta das 6:00am horas da manhã com um nascer do sol sensacional que fomos presenteados naquela linda manhã de Domingo.

      (Praia Quilombo Caçandoca)
           Tomamos um café da manhã reforçado, contemplamos por mais alguns minutos aquele momento e aquele lindo lugar e logo seguimos para a próxima praia, a Praia do Pulso. A trilha fica no canto esquerda da praia da Caçandoca muito próximo do camping que ficamos. .

           Caminhamos por uns 15 minutos até que chegamos em uma guarita com um guarda que nos informou como passar pela Praia do Pulso. A praia de acesso restrito tem na sua maioria acesso por condôminos. Descemos mais alguns minutos e chegamos em uma praia com um extenso gramado comunitário, areias fofas amarelas, enormes árvores proporcionando uma grande sombra em dias ensolarados, mar calmo de águas claras, porém o que chamou mais atenção foram as enormes casas chegando quase que nas areias da praia.  Não existe nenhuma estrutura para turismo, ambulantes, quiosques.

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)
           Comtemplamos por alguns minutos e seguimos até o canto esquerdo da praia onde fica a continuação da trilha. Neste trecho a trilha foi um pouco cansativa pois o sol estava bastante quente e as subidas deste trecho nos castigaram bastante. Durante a trilha vimos diversos mirantes com vistas espetaculares passando pelos fundos das casas até chegarmos aos fundos da famosa Igreja de Nossa Senhor de Fátima ou também conhecido como o Castelo dos Arautos. Uma fantástica construção de 9 mil m² parecido com castelos medievais com obras de Aleijadinho e com uma vista fantástica da Ilha do Pontal, Ilha e Praia de Maranduba e ao longe uma parte da Trilha das Sete Praias.

      (Praia do Pulso)
       


           Após passar pelo Castelo dos Arautos caminhamos por uma estrada chamada Estrada da Caçandoca até a rodovia BR101 Rio-Santos, onde seguimos por alguns quilômetros até a praia de Maranduba.

           Procuramos logo por um camping e encontramos o Camping Toa Toa que fica entre as Praias de Maranduba e Praia do Sapé. Fechamos por R$35,00 Reais e ficamos por uma noite. O Camping Toa Toa é bastante estruturado com banheiros amplos, com chuveiro quente, uma grande área gramada com vários pontos de energia, churrasqueiras, cozinha comunitária e com entrada tanto para praia quanto para rodovia Rio-Santos BR101. Montamos acampamento e saímos logo para procurar algum lugar pra almoçar e depois conhecer o local.   


      (Praia do Sapé - Ilha do Pontal)
           A Praia de Maranduba e do Sape são praias mais voltadas para banho, crianças, família. Tem uma ampla estrutura comercial e turística como quiosques, pousadas, hotéis, mercados e restaurantes. Como estávamos passando por praias quase que desertas sem ninguém a alguns dias já, esta praia foi meio que um choque pois estávamos voltando para a cidade.

      (Camping Toa Toa)

      (Praia de Maranduba)
           Desmontamos acampamento e mais uma vez o sol nos presenteou com mais um lindo nascer. Mochila feita e café tomado fomos para a rodovia Rio-Santo aguardar o ônibus para retornar a Caraguatatuba. Aguardamos por alguns minutos até prgar o ônibus sentido Caraguatatuba por R$4,65 e em 40 minutos chegamos na rodoviária. Almoçamos em um restaurante ali próximo do terminal e fechamos com um BlablaCar pra algumas horas depois por R$48,00 Reais de Caraguatatuba até São Paulo. E assim acaba mais uma trip e eu só tenho a agradecer! 
      GRATIDÃO  
      Retorno - 23/11/20 - Volta 9:00am  - Maranduba x Caraguatatuba -> Ônibus R$4,65- Caraguatatuba x São Paulo ->BlablaCar R$40,00
       
       
       
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    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado no Hostel Rock, acomodação econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por Gregório Miranda
      Após muito tempo lendo relatos e participando de discussões esporádicas sobre equipamentos, decidimos trazer um relato para o fórum. O circuito é muito exigente e foi feito em dupla em janeiro de 2021 por duas pessoas relativamente experientes e relativamente preparadas. Quer dizer, foi parcialmente feito, porque houve uma pequena trapaça no final e passamos um dia descansando em Martim de Sá ao invés de fazer à pé o trecho até Ponta Negra e vila Oratório de volta.

      Vista do Cume da Pedra da Jamanta
      O relato foi escrito por mim e o Jhonatan e o planejamento foi baseado principalmente em duas tracklogs presentes no Wikiloc: (1) a do Luís Felipe (Circuito Mamanguá (Via Jamanta) x Juatinga (com Farol da Juatinga)) e (2) a do Angelone (Circuito Cumes da Juatinga).
      Em contato por e-mail, o Luís Felipe sugeriu que registrássemos pontos e informações que pudessem complementar a track. Como não vimos tanto como acrescentar informação, visto que ela já está bastante completa, achamos que nossa contribuição poderia ser um relato mais detalhado com nosso ponto de vista sobre o trajeto. Esperamos que possa ajudar a quem faça o caminho no futuro.
      Vale a pena mencionar desde já que o passo do Luís Felipe é completamente absurdo e não serve tanto como parâmetro de comparação a não ser que você tenha um preparo físico excelente ou sobrehumano. O que, percebi a duras pe(r)nas, não é exatamente o meu caso. Uma ótima ideia para seres humanos normais é fazer o trajeto colocando mais dias de descanso e curtição no caminho. É o que pretendemos fazer na próxima vez.
      Visão geral
      O circuito é extremamente variado em paisagem, vegetação, variação de altitude, proximidade com o meio selvagem/urbano e dificuldade de terreno. O único aspecto constante é que tudo é maravilhoso e vale a pena conhecer.
      O trajeto começa e termina na praia do Sono e dá a volta em toda a Reserva da Juatinga, passando pelo saco do Mamanguá, enseada da Cajaíba, Martim de Sá, Cairuçu das Pedras e Ponta Negra, nessa ordem. Pode ser dividido em duas partes bastante diferentes entre si:
      1. Subida e descida do Cume da Pedra da Jamanta
      É sem dúvidas o trecho mais difícil e que justifica a tracklog estar (corretamente) assinalada como "só para experientes" no Wikiloc. Envolve uma subida e uma descida íngremes de 1.092m, com muito vara mato e navegação dificultada pela vegetação. O uso de GPS é essencial e o sinal pega mal nas matas que ocupam boa parte do caminho, pelo menos usando o celular como fizemos.
      Os relatos do Luís Felipe e Angelone são muito claros em relação a isso, mas ainda assim ficamos surpresos com a dificuldade. O começo da descida é ainda mais difícil, pois você precisa vencer a vegetação em uma descida técnica por pedras e sem conseguir enxergar muito bem o que tem à frente (e abaixo). Descobrimos tardiamente que seria muito bom ter levado luvas e alguma jaqueta ou blusa mais grossa, pois terminamos o trecho com muitos cortes nas mãos e braços. Um facão também pode ser de grande ajuda.
      O trecho pode ser evitado fazendo uma trilha bastante mais plana (ainda que também difícil e sem trilhas marcadas) encontrada na track do Angelone ou, essa sim uma opção mais fácil, pegando um barco de Paraty-Mirim e iniciando o circuito na praia do Cruzeiro.
      2. Restante do circuito
      Ainda descendo do cume e aproximando da Cachoeira do Rio Grande você encontra uma trilha larga e muito bem marcada. A partir desse ponto, se retorna à civilização e põe-se fim ao rasgar mato no peito e checar o GPS o tempo todo. Durante todo o restante do circuito, para o bem e para o mal, as trilhas são nítidas e usadas pela população local e turistas.
      Há ainda dois trechos exigentes, entretanto (assinaladas pelas setas amarelas na imagem abaixo. Uma subida intensa com 428m de elevação entre a praia do Engenho e a Praia Grande de Cajaíba e outra mais dura ainda com 550m de altura entre Cairuçu das Pedras e Ponta Negra. Por isso, fazer tudo em dias seguidos pode ser bastante exaustivo. Soma-se a isso a beleza, malemolência e deliciosidade das praias no caminho e você tem bons motivos para incluir alguns dias de descanso no roteiro.

      Ali, ó.
      Em todo esse trecho mais urbano você encontra restaurantes no caminho, o que pode aliviar bastante o peso que se carrega nas mochilas. Ficamos surpresos em descobrir que na maior parte dos locais, inclusive em Martim de Sá, onde não chega energia elétrica ou sinal de celular, é possível pagar com cartão. Mas, claro, sempre convém levar dinheiro em espécie para garantir. Por falar em celular, é possível conseguir rede aqui e ali, mas em geral de forma bastante precária e intermitente.
      O relato
      Dia 0 – Viagem de carro BH – Vila Oratório
      Como partimos de Belo Horizonte (a mais de 600 km de distância), descobrimos que nossa ingênua ideia inicial de fazer a viagem de carro e começar a trilha no mesmo dia era completamente descabida e infundada. Ainda bem, porque foi melhor assim.
      Saímos de BH de madrugada, por volta de 3h e chegamos por volta de 16h na Vila Oratório, contando com o tempo perdido errando o caminho (vocês sabiam que Laranjeiras é o nome do condomínio que dificulta a entrada à Vila Oratório E o nome de um bairro do Rio de Janeiro, capital?). Deixamos o carro em um estacionamento terreno baldio de um local que nos cobrou R$ 25,00 a diária e pegamos a trilha para a Praia do Sono, onde acampamos por R$ 40,00/pessoa.

      Pessoas com mais sanidade física e mental se contentariam com uma semana nessa calmaria.

      Dia 1 – Metade da subida ao Cume da Jamanta
      Por algum motivo que hoje nos escapa à compreensão, julgamos que poderíamos dedicar a manhã do primeiro dia para um delicioso banho de mar na Praia do Sono e assim fizemos. O resultado foi conseguir chegar apenas em uma espécie de clareira aos 480m de altitude que as tracklogs carinhosamente chamam de área de camping.
      O caminho começa suave, mas aos poucos se torna uma subida bastante íngreme, em mata fechada e os trechos com trilha vão se tornando cada vez mais raros até sumirem completamente. Aqui você começa a se questionar sobre suas escolhas de vida, se lembra das pessoas nadando alegre e preguiçosamente na praia do Sono, mas toca o barco e a caminhada.
      As muitas plantas com espinhos começam a dar as caras e vão nos acompanhar durante toda a subida e descida da Pedra da Jamanta. Também fomos introduzidos aos cipozinhos da região. Inofensivos à primeira vista, vão se mostrando um obstáculo insistente que acaba reduzindo bastante o ritmo de caminhada. É difícil representar isso em uma foto, mas segue uma tentativa abaixo. Essa é parte significativa do “visual” do primeiro e segundo dia.

      Ali, consegue ver a trilha? Pois é.
      Chegamos na clareira no fim da tarde e decidimos montar acampamento por ali mesmo. Isso coincidiu com o início da chuva e por isso improvisamos um teto com uma das tarps que acabou servindo para coletar a água que caia. Insight bom que o Jhonatan teve ao ver a água acumulando em nossa gambiarra e que evitou que tivéssemos que passar por outro vara mato para coletar água de um riacho, em um ponto marcado nas tracks. A água foi o bastante para cozinhar e hidratar à noite, mas admito que durou menos do que imaginávamos na subida ao cume no dia seguinte.

      Confortável beliche de redes em mata semifechada, tratar aqui.
      Dia 2 – Cume da Jamanta e acampamento na toca dos caçadores
      O segundo dia já começou com subida intensa, mas, para nossa surpresa, logo logo encontra-se uma trilha bem marcada que facilita muito a ascensão. Sem as árvores e cipós no caminho, o fôlego é o único obstáculo. A track do Luís Felipe inclui um ponto muito útil, mas, como ele mesmo descreveu, muito desgastante de coleta de água próximo ao cume. Chegamos lá já desidratados e administrando as últimas gotas do dia anterior.

      Vista para o Saco do Mamanguá, para onde segue a trilha.
      O cume da Jamanta, como era de se esperar, é sensacional, com vista para a Praia do Sono, Ponta Negra, Saco do Mamanguá e até a região onde fica Martim de Sá e Cairuçu das Pedras. Com sol escaldante e sabendo que ainda tínhamos muito chão pelo caminho, acabamos não ficando tanto tempo ali. Descansamos um pouco, conseguimos pegar um pouco de sinal, que foi útil para baixar a tracklog no segundo celular após o GPS que levamos nos deixar na mão e seguimos a caminhada.
      O início da descida, como mencionado, é um absurdo. Uma descida íngreme pelas pedras cobertas por um samambaial denso e recheado de capim navalha esporadicamente. É algo que você não deseja para ninguém, sabe? Felizmente, esse calvário não é tão extenso e logo dá lugar a uma descida intensa, mas com vegetação espaçada e bons trechos com trilha.
      Nesse dia, também não rendemos tanto e acampamos em frente à toca dos caçadores, local bom para acampamento e próximo do rio. Administrar durante a noite as mochilas acampando com redes é sempre um desafio. Dormir com elas na rede é um estorvo e deixar no chão ou em árvores traz o risco de que molhem caso chova. A toca pareceu perfeita para isso, pois poderíamos deixar as mochilas em segurança e dormir nas redes armadas ali por perto. O raciocínio se mostrou um erro grave quando, em meio ao temporal que caiu de madrugada, fui buscar algo na mochila e vi elas embaixo de uma “goteira” que mais parecia uma minicachoeira.

      A tal da toca.

      Por falar em caçadores, uma preocupação constante no segundo dia foram as armadilhas descritas pelo Angelone, que conta inclusive em seu relato que um amigo quase tomou um tiro de uma delas, acionada sem querer. Por sorte, não encontramos nenhuma armadilha, mas vale registrar o aviso. A toca continha algumas garrafas e objetos que indicam que continua sendo usada, por isso acreditamos que o risco ainda existe.
      Dia 3 – Caminhada até a praia do Cruzeiro
      No dia seguinte, após nos perdermos um pouco (por que não?), descemos seguindo a tracklog até encontrar uma trilha ampla e muito bem marcada que praticamente dispensava o uso do GPS. Não demorou muito para chegarmos na Cachoeira do Rio Grande, com uma árvore imensa tombada sobre o rio. Local bom de descanso e que faz parte da trilha: você precisa cruzar o rio para seguir o caminho pelas praias.

      Cachoeira do Rio Grande, maravilhosa.

      Nesse dia, pegamos mais leve que nos anteriores: nadamos e conversamos com um local na cachoeira que nos disse que a subida para o cume é bem melhor partindo de Ponta Negra. Chegamos na comunidade do Cruzeiro ainda cedo, por volta de 15h, mas paramos para almoçar um peixe muito bem preparado em um restaurante (por que não?), por R$ 30,0 o PF, e acabamos decidindo acampar por ali mesmo.
      Aqui fica evidente a completa desproporcionalidade com o ritmo de caminhada do Luís Felipe, nosso guia astral virtual. Se você ler o relato dele, vai ver que ele amanhece no cume da Jamanta e simplesmente dá toda a volta pela Cajaíba e dorme em Martim de Sá no mesmo dia. Um brinde à saúde desse rapaz.
      A praia do Cruzeiro é um lugar simpático e acolhedor. Acampamos no camping do Seu Orlando, senhor nascido e criado na região e hoje ajudado pelo filho Jaime. Orlando teve alguns AVCs no ano passado e por isso conversa um tanto devagar. Mas foi ir dando corda que a conversa foi longe. Saímos de lá no dia seguinte incumbidos de levar um abraço seu para dona Dica, sua prima, que tem um restaurante na Praia Grande de Cajaíba.
      Da praia do Cruzeiro você pode fazer uma trilha até o alto da pedra do Pão de Açúcar, com vista para todo o Saco do Mamanguá, mas acabamos preferindo poupar as energias. Outra opção que nos contaram é alugar um Caiaque e remar até o mangue. Enfim, é um lugar que merece mais tempo em uma próxima vez.
      Dia 4 – Cruzeiro – Martim de Sá
      Caminhamos muito nesse dia, expiando os pecados do dia anterior. A caminhada começa leve, mas esquisita. A trilha, agora na maior parte pavimentada de concreto, serpenteia entre mansões até a praia do Engenho. Literalmente “entre” em alguns casos, como um em que a trilha termina na praia e nós, confusos, fomos guiados por uma funcionária da casa, atravessamos a área de serviço e fomos guiados a continuar a trilha que seguia pelos fundos. Aparentemente os magnatas que se apossaram dessas praias não tem muito pudor em se apropriar também da trilha que liga as comunidades.

      Moradora local tomando um solzinho.

      Após a praia do Engenho, a brincadeira começa a ficar séria e o caminho tutelado dá lugar a uma trilha bem marcada e faz uma subida longa e inclinada atingindo 480 de altitude e culminando na Praia Grande de Cajaíba. Chegamos lá exauridos e fizemos uma longa pausa para almoço no restaurante da dona Dica, entregando o abraço-encomenda enviado pelo Sr. Orlando.
          
      O relato do Luís Felipe já anuncia isso e pudemos verificar de fato: a enseada da Cajaíba é a parte “pop” da reserva. Já na praia grande encontramos vários barcos de passeio, algumas lanchas opulentas e uma barulhenta turma de jetskizeiros. Haja paciência.
      Para não ficar só no aspecto negativo, vale mencionar que há também praias tranquilas e comunidades mais tradicionais e interessantes como Toca do Carro, Itanema, Calhaus e IItaoca. A partes mais baladas e turísticas ficam no início e no final da enseada: Praia Grande e Pouso da Cajaíba.
      Chegamos no Pouso por volta de 17h e após um período para descanso e reflexão, decidimos seguir no mesmo dia para Martim de Sá. Sabíamos pela leitura dos relatos que a trilha envolve uma subida longa, mas suave, e uma moradora local confirmou que o caminho é tranquilo e usado com frequência. Demoramos cerca de 1h40 e montamos acampamento já em Martim de Sá.
      Dia 5 – Martim de Sá e só
      O planejamento inicial desse dia era seguir a trilha para Ponta Negra / Praia do Sono, vencendo um novo morro de 550m de altura logo após Cairuçu das Pedras, mas, sinceramente, eu não tinha condições para isso. A exaustão acumulada dos dias anteriores já havia reduzido muito o rendimento na trilha e o ritmo de caminhada nessas condições seria um pouco mais lento que o de uma lesma. Como só tínhamos mais um dia de viagem, acabamos decidindo ficar por ali mesmo e pegar um barco no dia seguinte.
      A descrição do site da reserva é um ótimo resumo sobre a praia:

      Enfim, Martim.

      Dia de descanso em Martim de Sá, de preguiça e nadar na praia. O único arrependimento foi não poder ter ficado mais dias ali. De lá, há trilhas para o Poção (um poção delícia de água doce, pelo que nos contaram), o Pico do Miranda, Cairuçu das Pedras, praia da Sumaca e o Farol na Ponta da Juatinga. Afinal, acabamos fazendo um total de nenhuma dessas atividades por motivos de cansaço e preguiça, mas estão marcados para uma próxima ida.
      O camping custou R$ 30,0 por pessoa/dia, não tem luz elétrica e nos pareceu bem equipado e estruturado. Há cozinha comunitária com fogão à lenha, banheiros com ducha fria e vários sanitários. Tudo limpo e organizado. Dizem é comum que na virada do ano o camping fique lotado (e há muito espaço para barracas) e a coisa deve ficar um tanto diferente.
      Dia 6 – Barco até a vila Oratório e viagem de volta
       
      Pegamos o barco de Martim de Sá às 7h. Quer dizer, pegaríamos, se o terceiro integrante não houvesse esquecido o horário e feito todo mundo (nós, o barqueiro e seus ajudantes) esperar por mais de uma hora enquanto ele tomava banho (!) e seu nutritivo café da manhã (!!). Ao partir, infelizmente, o barco acabou atravessando de cheio uma onda grande molhando a todos e especialmente o coleguinha perfumado, que estava com o celular na mão. Coincidentemente, esse também foi um dos momentos em que se podia ver o barqueiro sorrindo largamente numa demonstração simples, mas perfeita, do que é a verdadeira felicidade. Sem qualquer rancor no coração, assim também nos sentimos.
      O traslado de barco custou R$ 400,00 dividido pelos passageiros, cabendo quatro no máximo. Como éramos três, ficou em cerca de 130,0 para cada. O mar estava agitado e por isso o barco ia navegando por grandes ondas se formando. Nada extremamente perigoso, mas aquela dose bacana de adrenalina para começar o dia. O barco nos deixou em um pequeno cais no condomínio Laranjeiras, onde é preciso esperar por uma van que nos leve à vila Oratório. Todo o cuidado para que os donos do pedaço não se misturem com a gentalha, é inacreditável. Após atravessar esse pequeno enclave distópico, pegamos o carro e seguimos nossa longa viagem de volta. Dessa vez, escolhemos voltar à BH pela via 040 e ficamos satisfeitos com a escolha. A viagem fluiu melhor em uma estrada mais conservada (na maior parte).
      Chegamos, enfim, cansados mas renovados por essa constante passagem entre o selvagem e o urbano. A região toda da Juatinga é incrível e a única certeza é a obrigação de voltar e conhecer mais e melhor a infinitude de praias, cachoeiras, picos, pessoas e costumes.
       
       
    • Por divanei
      TRAVESSIA CANASTRA ..........“Na vida, as coisas parecem acontecer no seu devido tempo. Tinha que ser ali, naquele lugar, justamente quando nada esperávamos, justamente quando a história já parecia ter sido encerada. O momento era para ser aquele, um fim glorioso para uma jornada perfeita e o destino escolheu que estivéssemos juntos, pai e filha numa viagem que beirou a perfeição, numa travessia selvagem que transcendeu qualquer expectativa. De cima daquela colina, com os olhos voltados para o vale mais abaixo, era difícil acreditar no que víamos, na verdade, procurávamos soluções para desacreditar nossos cérebros, como a tentar enganá-lo, como a lhe dizer que aquilo não estava acontecendo. Num primeiro momento a gente nega, nega para nós mesmos, porque é da nossa natureza desacreditar no INACREDITÁVEL, porque simplesmente a gente tende a duvidar de tamanha sorte, nem sei se merecíamos tanto”................
      O Plano era claro! Passar cerca de 15 dias na Serra da Canastra, explorando sua porção mais selvagem a bordo de um 4x4 e longe dos olhares dos turistas enfarofados, pelo menos na maioria dos lugares. Mas, como planejamento, também me organizei para fazer uma travessia selvagem, jogando a mochila nas costas e partindo montanha acima atrás do que há de mais espetacular no cerrado brasileiro. Era uma missão um tanto complicada porque estaríamos somente eu e a Júlia, minha filha de 20 anos, num ambiente hostil e longe da civilização, varando mato, por vezes sem trilha e sem a possibilidade de socorro, caso algo viesse a nos acontecer, então eu tinha que ir preparado, juntar na minha mochila os equipamentos necessários para que nossas vidas fossem preservadas caso algo viesse a dar errado.

      (Travessia linha rosa )
      A viagem de Sumaré, no interior Paulista, levou cerca de 6 horas, num ritmo lento e descontraído até Delfinópolis-MG, mas assim que atravessamos a balsa do Rio Grande, preferimos ficar nos arredores da cidade porque o sol já havia se esvaído e eu não pretendia pegar a estrada esburacada até o Vale da Gurita no escuro, então resolvemos dormir num camping até que o dia voltasse a dar as caras.

      No dia seguinte, botamos o velho NIVA para destruir as estradas, coisa que ele sempre fez com maestria e logo pela hora do almoço, atravessamos quase toda a Gurita até estacionarmos no Camping Cafundó, que por ser lá num fim de mundo perdido, faz jus ao nome. Nosso objetivo era acampar lá e logo de madruga, partir para a GRANDE TRAVESSIA e para isso já viemos com a mochila pronta, só carecendo de alguns ajustes. Montamos nossa barraca e para finalizar o dia, fomos nos refrescar no Poço do Melado, uma atração ali mesmo do camping.

      Antes das Cinco da Manhã, o relógio nos avisa que é hora de levantar, mas eu já estava de pé desde as quatro da manhã, ansioso, mal consegui dormir. Não tive como esconder a cara de decepção quando a minha filha também se levantou. Estávamos diante de um tempo extremamente nublado, com nuvens negras rodopiando de lá para cá, principalmente encima da muralha do qual seria nosso objetivo. Estamos emersos no centro do Vale da Gurita, cercados por duas imensas “cordilheiras”, uma atrás de nós e outra à nossa frente, que é a que iríamos subir, donde cachoeiras gigantes despencam para dentro do vale. É uma espécie de submundo da Serra da Canastra, formada por várias cadeias de montanhas, verdadeiros paredões abruptos.
      Vendo a minha cara de preocupação, a Julia já tratou de levantar o astral, sabia ela que a minha preocupação sobre o tempo, seria por causa dela, porque eu me sentia responsável por levar aquela travessia adiante, mesmo com um templo inclemente, com riscos iminentes de temporais. Respirei fundo, botei tudo para dentro da mochila, tomamos um café reforçado no restaurante do camping e antes das sete da manhã, partimos com a esperança de voltar em no máximo quatro dias e deixamos avisados para o proprietário, que também fez a gentileza de guardar nosso veículo enquanto estivéssemos fora.
      Dando Adeus ao Cafundó, tomamos a estradinha que liga o camping até a estrada principal e por ela caminhamos cerca de 1500 m e viramos à direita e agora pela principal, vamos seguir por mais 1500 metros até passarmos por um mata-burro. Estávamos seguindo um esboço de um traklog (caminho feito com gps) que foi nos fornecidos por uns amigos, mas demos bobeira e acabamos passando uns 200 metros do lugar onde teríamos que sair. Mas, passando o mata-burro, metros depois, uma saída a esquerda, que mais parece um caminho de água, é o nosso caminho. É uma trilha imperceptível, quase um vara-mato no que me pareceu ser parte de um pasto e entre perde e acha, vamos sempre no sentido norte por 1 km, até desembocarmos no sensacional Rio Santo Antônio, um rio largo, com águas cristalinas, mas que nesse ponto tem águas que não passam da altura da cintura, hora de parar, tirar as botas e se dar ao desfrute de um banho logo pela manhã, muito porque, o tempo melhorou e o astro rei já queima tudo ao seu redor.

      Atravessando o rio, vamos margeá-lo por uns 5 minutos e aí viramos nosso rumo todo para noroeste, novamente atravessando campo aberto, nos valendo de trilhos de vaca ou até do que nos pareceu ser um pedaço de caminho mais largo. Um quilometro depois nos deparamos com uma floresta fechada, um fundo de vale, onde nos perdemos. Tentamos passar mais acima, seguindo o terreno mais fácil, mas ele nos levou completamente fora da rota, então, para desespero da julia, enfiamo-nos num vara-mato espinhudo e emergimos do outro lado, novamente em campo aberto. Estamos navegando com o celular e já é sabido que sempre há um deley (atraso) na recepção do satélite, então era óbvio que de vez enquando sofreríamos para seguir o caminho estipulado, mas sempre era possível corrigir a rota.
      O calor estava de matar, mas essa passagem por esse vale anterior nos deu a oportunidade de enchermos nossos cantis. Seguimos por uns 15 minutos no sentido oeste e agora viramos em definitivo em direção a grande muralha até estarmos de frente com uma grande fenda descomunal. Uns 800 metros depois desse mirante da fenda, vamos atravessar um grande capão de mato, descer ao fundo do vale e subir um grande barranco e sairmos novamente em campo aberto, andar mais 200 metros e começarmos a subir a parede definitivamente.

      A subida é penosa, demorada, numa cascalheira que insiste em te jogar de volta. O objetivo é alcançar o cume de um morrote mais acima. Vou à frente, vagarosamente ganhando terreno e incentivando a julia, que vem logo no meu encalço, parando vez ou outra para tomar fôlego, até que se junta a min, num patamar entre essa montanha que subimos e outra muito mais alta. É um lugar fascinante, deserto e silencioso, um campo aberto de mato ralo, onde nem o vento ousa dar as caras.

      O caminho a seguir é para a direita, vamos galgar até o cume da montanha nos valendo de uma fenda que vai subindo em zig-zag, ganhando altura lentamente para a esquerda até que uma meia hora depois, talvez um pouco mais, atingimos o platô , que vamos seguindo para leste até podermos achar uma passagem entre dois vales que nos leve para outra cadeia de montanha, descendo a um vale e voltando a subir até o cume de outro platô, pegando agora para esquerda no sentido leste em direção definitiva para o Rio da Maria Concebida.
       
      Já passa das 11 da manhã, a gente vinha torrando a mais de 4 horas, mas é preciso aguentar firme a ansiedade de dar um mergulho, porque ainda temos uma cadeia de montanhas para seguir até o rio. E é mesmo um caminho bonito, pontilhado de várias canelas de emas e tantas outras flores do cerrado. Perdemos altitude vagarosamente, galgando a meia altura entre um vale e outro, até que ao meio dia o nosso destino nos leva as margens do rio, calmo, cristalino, deslumbrante, irresistível. Estamos no alto da Cachoeira da Maria Concebida, poderíamos ter tentado subir já pela fazenda de onde se visita a própria cachoeira, mas ela se encontra interditada depois que houve um acidente com uma das pontes que leva até lá.
      Batemos no rio, mas ao invés de subirmos, como seria o caminho natural da travessia, vamos atravessá-lo e descer até perto de onde o rio despenca no abismo, pouca coisa, o suficiente para que a gente possa se jogar num grande poção, junto a uma cachoeirinha, afinal de contas, foi para isso que viemos, então já estava mais do que na hora de inaugurarmos o divertimento, o desprendimento, que seria a tônica daquela travessia e de toda aquela viagem pela Serra da Canastra.

      Nadamos até não aguentar mais e quando cansamos de nadar, pulamos mais uma vez para termos certeza de que sairíamos de lá refrescados. Agora não haveria erros, nosso caminho vai seguir subindo o rio, quase pela margem, vamos percorrer a Rio da Concebida até quando ele se transformar num córrego manso e sem cachoeiras. Partindo no sentido norte, vamos comendo mato ralo, entre vegetação baixa de cerrado, mas não muito perto das margens do rio, como esperávamos. Aliás, a própria Julia se mostrou incomodada de estarmos passando tão longe do rio, então larguei o caminho traçado pelo gps e fui em direção a sua margem esquerda (de quem sobe) , mas logo demos com os burros n’água porque um floresta densa se formou e o rio começou a ficar emparedado, ai fomos obrigados a meter o pé de lá, varar mato para bem longe da margem e reencontrar o cominho traçado.
      A fome já havia batido e a gente ainda estava preso longe do rio. A Julia já estava arrastando a língua no chão, pedindo para a gente parar um pouco, mas eu segui vidrado, de olho num monstro de cachoeira que se apresentou à nossa frente, mas sem a mínima chance de descermos até ela. Sem perceber, perdi o caminho, nos levei para fora da “trilha” e fiz a gente comer mais mato, subir uma paredinha íngreme e com pedras soltas. O calor vai dando cabo no resto das nossas energias e eu tento manter o moral elevado, mas a julia faz cara de poucos amigos diante do calor infernal. Descemos desescalando em direção ao fundo de um vale e teríamos que subir até um outro patamar, mas logo notei que a trilha ou o caminho marcado no gps nos levaria direto para o alto da grande cachoeira sem passar no pé dela, então paramos imediatamente.

      Sinceramente eu não via proposito naquele roteiro, ou os caras não passaram na queda da cachoeira ou deixaram as mochilas aqui encima e desceram lá sem marcar a trilha. Nem pensei muito, apontei meu nariz para o rio e fui varando maro, escorregando nas pedras, me valendo de uma canaleta de água e a Julia veio atrás, até que desembocamos em definitivo no rio e ali cairmos prostrado diante daquela maravilha despencando de cima da pedra, onde um poço gigante nos convidava para um mergulho, então jogamos nossas mochilas ao chão e fomos nos afogar de tanto beber água.

      Quando estávamos enfiados dentro do mato, ouvimos barulho de gente ao longe e agora víamos claramente que havia gente no topo da cachoeira, mas só saberíamos de quem se tratava, quando lá chegássemos. Aproveitamos para descansar e cozinhar um almoço e enquanto a panela ronronava no fogareiro, nos demos ao desfrute e fomos mergulhar no grande poço profundo, um cenário de sonhos, onde a GRANDE CACHOEIRA se jogava de uns 30 ou 40 metros.

      Descemos para explorar mais abaixo e tentar encontrar as outras cachoeiras que havíamos visto lá de cima da montanha. Nos deparamos com uma sequência de pequenos poços e descemos até os pés de uma cachoeira menor, mas com um poço de respeito e mais abaixo dela, um pequeno cânion foi parada obrigatória para um mergulho memorável. Infelizmente não houve como descer mais, porque o vale se fechou num abismo gigante, de onde outra cachoeira de tamanho considerável, se jogava no precipício, fim da linha para nós, mas já estávamos satisfeitos com a nossa exploração, hora de voltarmos para a continuação da nossa travessia.

      Retornamos pelo mesmo caminho que havíamos descido para a queda da cachoeira, mas ao invés de reencontrarmos o caminho mais acima, decidimos cortar na diagonal e alcançar o topo da montanha escalando. E foi uma ideia completamente cretina, a subida extremamente exposta nos levou a ficar no fio da navalha, tentando nos segurarmos nas canelas de emas já frágeis pelos incêndios de alguns meses atrás. Em um certo momento, vendo que a julia corria perigo, pensei em sacar a corda e tentar fazer uma segurança, mas ela se agarrou em tudo que era raiz e passou, bem a tempo de eu dar-lhe a mão e puxa-la para cima, aí foi ganhar a continuação da montanha e ir perdendo altitude até o topo da cachoeira.

      Sobre nossas cabeças, uma nuvem preta e espessa, estacionou. Quando chegamos de volta ao rio demos de cara com 4 nativos da região, aquele tipo de gente que não sabia nem o que estaria fazendo ali. Gastaram 2 dias de caminhada porque trouxeram todas as bebidas do mundo, equipamentos inúteis e desnecessários, um amontoado de bugigangas e tranqueiras de acampamento, mas tirando isso, eram gente boa, como todos os moradores da Canastra. Mal tivemos tempo de cumprimentar os dois casais e já recebemos o aviso de que o caldo iria entornar. Ainda não era nem 4 da tarde quando um estrondo deu início ao pesadelo: o vento varreu o vale e as nuvens pretas despejaram água, mas foi tanta água que mal tivemos tempo de reação. A tempestade desabou com uma intensidade, que mal conseguíamos parar em pé. Tivemos a ideia estúpida de tirar a barraca da mochila e tentar montá-la, mas o vendaval quase nos jogou com barraca e tudo para dentro do rio. Pior ainda, um rio correu da montanha para dentro do vale e a enxurrada fez outro rio surgir onde estávamos, com mais de 20 cm de altura. Nos deitamos no chão, tentando nos proteger de possíveis raios, mas isso não foi nada.
      A temperatura baixou de tal forma que nem nos mexer conseguíamos mais, tremíamos feito vara verde. Eu olhava para Julia e me cortava o coração, mas eu mesmo estava num sofrimento pessoal e não conseguia fazer nada por mim e nem por ela. Mas como nem tudo é tão ruim que não possa piorar, nós já de joelhos, recebemos a pancada final em forma de pedras de gelo. A tempestade de granizo veio para valer e perdurou de uma tal forma que, para não nos machucarmos, colocamos nossos capacetes e ficamos ali, deitados no chão recebendo pedradas do céu, como a pagar pelos nossos pecados. Foi meia hora de puro terror no alto daquela montanha isolada do mundo e eu não acreditava no que estávamos passando, não era justo expor minha filha àquela situação. A água passou por cima da barraca desmontada no chão, entrou por dentro das mochilas, só não molhou os sacos de dormir e os equipamentos eletrônicos porque estavam todos protegidos no saco estanque e quando achei que a vaca já iria de vez para o brejo, o sol apareceu, surgiu do nada, dando risadas e galhofando da nossa cara. SOBREVIVEMOS !
      A chuva passou, a tempestade se foi, o sol voltou a queimar tudo, mesmo beirando as 17 horas. Montamos nossa barraquinha e colocamos todas as nossas coisas para secar. Aproveitamos o final de tarde para batermos papo com os nativos, que nos convidaram para ir ver o pôr do sol no local onde a grande cachoeira despencava no vazio. Fomos descendo os degraus encachoeirados até a borda infinita junto a uma piscina natural e uma meia hora depois, um dos nativos gritou que a cachoeira dos degraus parecia estar aumentando de tamanho. Nesse momento eu estava bem na beira do precipício, com os pés a balançar no despenhadeiro. Levantei-me calmamente para não cair, olhei para o rio e sem titubear gritei: - “ Corre cambada, uma cabeça d’água “! . Arrastei a julia imediatamente, enquanto o rio crescia perigosamente. Escalamos o mais depressa que pudemos, enquanto eu insistia para que os nativos se apressassem em deixar o leito do rio. Quando chegamos mais acima, quase não conseguimos cruzar para a margem onde estava nossa barraca, segurei no braço da julia e passamos e logo que os nativos passaram, o rio já era um mar.

      Aquele foi um dia cheio, cheio de aventura, beleza e emoção e quando a noite chegou, estávamos exaustos, mas felizes por no final tudo ter dado certo. Fizemos a janta e ficamos lá fora contemplando as estrelas, mas antes de dormirmos, ainda tirei um tempinho para cuidar dos pés da julia que haviam ficado destruídos e com bolhas e feridas por todos os lados, então saí de cena o pai e entra o enfermeiro de campanha, hora de pôr em pratica os aprendizados em primeiros socorros em áreas remotas, aprendidos na internet e na escola da trilha ( rsrsrsrsrsrss).

      O dia seguinte nasceu ensolarado, como todos os dias ali na Canastra. Desmontamos tudo, tomamos um café e partimos, mas dessa vez sempre beirando o rio, bordejando sua margem esquerda, pontilhado de pequenos poços e piscinas naturais, até uma meia hora acima já avistarmos outra grande cachoeira com umas 3 quedas. Seguimos hipnotizados por ela, mas antes de lá chegarmos, nos detemos no POÇO DO CORAÇÃO, um incrível laguinho que mesmo com as tempestades do dia anterior, ainda se matinha bonito.

      Largamos as mochilas no poço do coração e subimos o rio escalaminhando pedras, pulando de uma rocha para outra, nos segurando em pequenas paredes até ficarmos em baixo de mais uma cachoeira, com um poço profundo.
      Nessa parte o rio ficou escuro devido as chuvas, muito provavelmente a correnteza deve ter levado muito sedimento, mas em tempos sem chuva, a água é de uma transparência peculiar, mesmo assim, para marcar nossa passagem por ali, mergulhamos no poção de águas um pouco frias por ser muito cedo, mas não estávamos nem aí, ficamos ali, fazendo festa até cansarmos e quando achamos que era hora de partir , partimos satisfeitos.
      Voltamos ao poço do Coração, apanhamos nossas mochilas e partimos para ganhar o alto da Cachoeira das 3 Quedas. A trilha segue pela esquerda, mas um pouco afastada do rio, tentando se valer de uma rampa natural até atingirmos a altura da cabeceira e voltarmos para o rio em definitivo.

      A visão geral do topo da Cachoeira é algo encantador, avistando paredões gigantes, montanhas esquecidas e isoladas do mundo. Continuamos seguindo por dentro do rio, ignorante pequenas cachoeirinhas até que o rio se afunila dentro da mata e volta a ficar com águas cristalinas. Deixamos o rio e ganhamos uma trilha plana, num bonito descampado, tentando encontrar o local onde serviria para acampar e, mas eu ainda estava achando estranho acamparem num lugar onde o rio parecia não ter mais nenhum atrativo, mas logo fui obrigado a me retratar, assim que tropeçamos naquele poço incrível, que marquei no mapa como POÇO DA DESPEDIDA.


      Mal passava das 11 da manhã quando lá chegamos, muito cedo para acampar e muito tarde para partirmos para a segunda metade da travessia, então sem tomar nenhuma decisão, jogamos as mochilas ao chão e fomos almoçar e nos deliciarmos naquele poço verde, uma maravilha perdida no topo da serra. Por mais de uma hora nos entregamos ao ócio, a arte de não fazer nada até que chamei minha companheira de aventura e propus que deveríamos tentar chegar ainda hoje na cachoeira do Zé Carlinhos, mas se caso não desse tempo, provavelmente teríamos que amargar um acampamento sem água e sabe-se lá em que condições.

      A Julia me perguntou sobre a continuação, a altimetria do terreno. Disse que não haveria grandes montanhas para subir, mas era um caminho longo sob um sol de matar mula. Mesmo assim recebi o aval dela, então atravessamos o rio e tomamos o rumo leste, cruzando campos abertos, nos livrando dos cupinzeiros e canelas de emas, em meio a um jardim florido, repleto de belezas.

      A sequência do caminho muda de leste para sudeste, vamos nos deslocando suavemente, num sobe e desce de colinas floridas, avançando sem trilhas, tendo uma grande cadeia de montanhas do nosso lado direito e outra do lado esquerdo até que uns 2 km depois, achamos uma passagem para cruzar para o outro lado da cadeia de montanhas a nossa direita, uma outra rampa, uma espécie de selado que divide 2 vales.
      Estamos em campos de altitude, um mato ralo e praticamente desprovido de nenhum arbusto e vamos seguir por esse terreno no rumo sudeste/sul por mais outros 2 km até nos depararmos com uma ILHA DE PEDRA, forrada de canelas de emas e formações rochosas interessantes. A nossa frente um vale incrível se apresenta, mas é fácil de identificar por onde passaremos, já que pela direita temos outro selado que cruza para o outro lado. Por mais um km vamos continuar descendo, passando por outro selado e iniciarmos uma descida alucinante para o fundo do vale.

      Agora vamos começar a descer uma parede gigante, descer quase que escorregando, nos enfiando em canaletas que vão ziguezagueando, tendo como pano de fundo, uma cadeia de montanhas sensacional, parecendo que estamos em solo lunar, com pedras espalhadas para todo canto. E é realmente uma paisagem deslumbrante, num canto perdido da Canastra. O sol está impiedoso, mas eu e a julia continuamos firme no propósito de atingir nosso objetivo antes do anoitecer.

      Sigo à frente procurando o melhor trajeto, sabendo que o único caminho é ir em direção ao vale gigante e quando lá chegamos, viramos para a esquerda e vamos descendo sem trilha, nos valendo de uma canaleta de água. Hora ou outra parece que estamos em uma trilha, mas logo ela some e temos que voltar a varar mato no peito, até que seguindo a direção dada pelo gps, somos obrigados a cruzar a canaleta para a direita e subir por um amontoado de pedras, passando por uma bonita passagem entre enormes formações rochosas até finalmente nos posicionarmos de frente com o mirante de onde se descortina o grande vale do RIO DAS POSSES.

       
      Apesar do dia já estar se aproximando do seu fim, às 17 horas, o sol ainda reinava soberano, sem nenhuma nuvem no céu. Por isso mesmo, por causa do calor intenso e o fato de estarmos expostos sem um palmo de sombra para nos aliviar o calor, eu e a julia caminhávamos a passos lentos e modorrentos, com todo cuidado para não despencar da parede que tínhamos que descer para atingir mais um vale, o derradeiro antes de nos enfiarmos na última crista de volta para a civilização. Eu ia à frente, olhos grudados no chão, mãos firmes nas rochas laterais, enquanto eu ia tentando me livrar de mais uma canaleta de pedra. Levantei a cabeça e sem pretensão, fixei os olhos no grande gramado no fundo do vale, cerca de uns 100 metros de distância de onde estávamos, minha cabeça girou, me segurei sobre as pernas, a voz embargou.
      Os olhos enxergaram, mas o cérebro se recusou a processar a informação, ficou bugado, procurando no arquivo, respostas convincentes para a imagem que se apresentou à minha frente: O objeto da minha alucinação se movia grandiosamente pelo vale e eu não conseguia acreditar e só fiz tentar procurar me iludir, achar explicações onde não havia. Não sei porque, associei a imagem há alguns animais da Canastra, seria um lobo guará? Um tamanduá bandeira? Uma raposa do campo? Mas, minha nossa senhora, não era nada daquilo, quem eu estava tentando enganar, aquilo tinha nome, mesmo que eu não acreditasse no que estava vendo, era real, era mais do que real, era um sonho que levou 25 anos para se realizar. Mas tinha que compartilhar, mas alguém teria que me dizer que eu não estava vendo coisas e por sorte não havia ninguém do qual eu teria mais prazer em fazer isso.
      -JULIA, minha filha, olha lá embaixo no vale.
      Ela levantou a cabeça, os olhos se abriram, as pupilas se dilataram, a testa se enrugou, os dentes saltaram para fora, o rosto jovial parecia ter ganhado uma luz própria e se iluminou.
      - Meu Deus do céu, pai, é um ONÇA. É uma ONÇA PRETA, pai!
      Nós acompanhamos o caminhar do DEUS NEGRO, primeiro mansamente, depois, subitamente ela correu, rapidamente, velozmente, como um grande gato, desfilou diante de nós, que assistíamos a cena em silêncio, estupefatos, sem dizer uma palavra, apenas deslocando nossas cabeças, não havia nada a dizer. Pai e filha se deram conta do momento único que estavam vivento e muito provavelmente nunca mais em suas vidas terão a oportunidade de vivenciarem tal espetáculo, aquele acontecimento que se tem uma vez só em toda uma vida.

      (foto net)
      A onça preta deixou a cena, deixou o palco e entrou na floresta de fundo de vale, desapareceu do mesmo jeito que surgiu. Eu e minha filha nos olhamos, um de frente para o outro, com olhos radiantes de felicidade, sem acreditar na sorte que se apresentou à nossa frente e ficamos ali, por um tempo, esperando a ficha cair.
      Essa cena antológica não durou mais que meio minuto, uma eternidade para o tamanho do prazer que ela nos causou, mesmo assim, não foi suficiente para que pudéssemos tirar uma mísera foto, não houve tempo e nem vontade para olhar a vida por de trás de uma câmera, mas ficou a cena na memória, para a vida toda.
      Passado a euforia, nos lembramos que tínhamos que apressar o passo para não chegarmos a noite no local de acampar, mas a julia deu uma recuada, queria saber se não teríamos problema em um possível cruzamento com a ONÇA no fundo do vale. Mesmo ressabiada, teve que confiar em mim, que garantiria sua integridade, mesmo eu não tendo essa certeza toda, coragem não me faltava. Fomos descendo a parede, nos deslocando para a direita, de olho na trilha que corria de oeste para leste.
      Ao adentrarmos o vale, vamos nos mantendo em nível e ao invés de descermos com quem vai em direção ao fundo do Rio das Posses, ganhamos a última crista, a derradeira descida final. Lá de cima já era possível avistar as casinhas e os sítios que antecediam a chegada na Cachoeira do Zé Carlinhos e também toda a extensão da Serra, num cenário de montanas que era de outro mundo. A trilha na crista vai caindo para a direita, até fazer uma curva bem acentuada e cair dentro da floresta, onde num trecho, pegamos uma saída errada e tivemos que varar mato, tendo como referência a estradinha que estava sempre visível, até que desembocamos nela, mais ou menos às 18 horas da tarde, cansados, com sede, mas felizes por termos cumprido nosso objetivo.
      Na estradinha, poderíamos pegar para a direita e caminharmos por mais umas 2 ou 3 horas de volta para o nosso alojamento, mas essa não era a programação, ainda tínhamos a exploração dos Rios das Posses. Então, pegamos para a esquerda e interceptamos uma trilha que descia por uma escadaria de concreto até nos devolver ás margens do rio, bem de frente com a CACHOEIRA DO ZÉ CARLINHOS.
      Uma placa nos indica que para chegar na cachoeira seria preciso atravessar o rio, mas nossa intenção era outra, queríamos mesmo era acampar na Cachoeira das Posses, uns 20 minutos acima, então tomamos a trilha que sobe a montanha e nos pomos a caminhar barranco acima. E é uma trilha mesmo íngreme, com paredes expostas e potencialmente perigosa para turistas, mas logo quando chega ao alto, nos proporciona uma vista deslumbrante de cima de um mirante, um cenário que por si só já valeria qualquer passeio na Canastra.

      Descemos até o rio e mesmo se aproximando das sete da noite, ainda tínhamos muita luz. A cachoeira estava linda, num lugar de encantamentos, mas o rio me pareceu um pouco cheio e temi não conseguir atravessá-lo para acamparmos do outro lado, junto a praia de areia. Tirei a roupa e fui me segurando, tentando não ser levado pela correnteza, mas a água não passou da cintura e cheguei ao outro lado em segurança. Voltei, peguei minha mochila e a Julia e passamos de volta.
      Acampar ali era proibido, ou pelo menos achamos que poderia ser, mas não vimos ninguém para pedirmos autorização, então combinamos de montar nossa barraquinha e desmontá-la logo que o sol nascesse para evitarmos aporrinhações pelo proprietário e também ficamos torcendo para que ninguém aparecesse por lá para nos enxotar para fora, coisa que seria difícil, pelo horário e pelo isolamento.
      Estamos num grande banco de areia formado pela vazão do rio, mas é um banco de areia com uns 2 metros de desnível acima do rio, mesmo assim, avaliei bem a possibilidade de virmos a ser pegos por uma cabeça d’água a noite e concluí que era seguro, muito porque, não havia possibilidade de chuvas iminente. Montamos a barraca e fomos tomar aquele banho e cozinhar aquela janta gostosa, um banquete para comemorar nossa última noite na travessia.

      Fomos dormi cedo, estávamos cansados, mas as 3 da manhã, me levantei para me certificar de que o rio ainda estava no mesmo nível, pensando que poderia cair alguma chuva longe dele, talvez em alguma nascente distante, mas ele estava incrível, mais baixo, mais transparente e iluminado por uma lua sensacional. Quando o sol surgiu, nos levantamos e desmontamos tudo, tomamos café, guardamos tudo na mochila e partimos, mas não de volta para a estradinha, escalamos ao lado da Cachoeira das Posses e quando viramos a curva do rio, escondemos nossas mochilas no mato e seguimos subindo até o grande poço, de onde outra cachoeira despencava. Escalamos também essa cachoeira, mas para continuar seguindo rio acima, teríamos que nadar, então decidimos voltar, já estávamos satisfeitos com nossa exploração.

      De volta à cachu das Posses, aproveitamos para um último mergulho, atravessamos o rio, agora muito mais baixo, subimos o morro, passamos pelo mirante e descemos de volta para o rio, bem onde se atravessa para ir até a Cachoeira do Zé Carlinhos. Deixamos as mochilas antes do rio e o atravessamos com a água pela canela até darmos de frente com a cachoeira.
      A Cachoeira do Zé Carlinhos é outra bem bonita, mas um pouco mais turística pelo acesso fácil, mas por estarmos numa segunda-feira, está vazia e silenciosa, somente eu e a julia estávamos lá, donos absolutos do lugar e aproveitando a exclusividade e o calor incremente, aproveitamos para um bom mergulho e logo em seguida, voltamos para nossas mochilas, apanhamos nossas cargueiras, subimos a escadaria e fomos devolvidos para a estradinha de terra novamente.

      Ganhamos a estrada e passamos silenciosamente por uma casa amarela, não queríamos levantar suspeitas e termos que ficar dando explicações. Caminhamos por 1,5 km até que deixamos a estrada para cortar caminho e ganha outra estrada mais a nossa direita, muito porque, se continuássemos, sairíamos na sede de uma fazenda onde poderíamos ter problemas, então para evitar chateações, usamos esse corte de caminho pelo pasto e nos afastamos em definitivo dos problemas.
      O sol não tem dó da gente. Vamos subindo a passos de tartarugas até que a estrada principal vira completamente para a direita e começa a descer e por um meia hora vamos segui-la no sentido oeste até que ela vira para a esquerda e se transforma num caminho impassível para carros e desemboca nas margens do Rio Santo Antônio, onde o cruzamos por cima de uma fantástica ponte pênsil, ganhamos o outro lado e em mais 15 minutos , pulamos uma porteira e saímos novamente na estrada principal do Vale da Gurita, que aliás, tem esse nome por causa de uma guarita que por ali existia no passado, mas o dialeto mineiro já tratou de dar cabo , transformando a palavra guarita em gurita, coisas do regionalismo .

      Virando à direita na estrada principal, vamos nos arrastar por mais uns 40 minutos até o camping do cafundó e para nosso azar, quando lá chegamos, o restaurante estava fechado, mesmo assim, ali encerramos nossa jornada a pé, pegamos nossa jeep e fomos procurar um lugar para comermos até não aguentarmos mais, fomos comemorar o sucesso daquela empreitada em grande estilo, uma travessia para entrar para história das nossas vidas.
      E foi mesmo uma travessia incrível, cheio de reviravoltas, de perrengues memoráveis a paisagens desconcertantes, tempestades avassaladoras, cachoeiras deslumbrantes, caminhadas sob um sol destruidor, mas com um jardim florido de encher os olhos, subidas intermináveis, mas com paisagens que não ficam devendo nada a lugar nenhuma. E o avistamento da ONÇA PRETA, só foi para coroar nossa jornada, para presentear nossa astúcia, nossa coragem de abandonar o conforto e nos jogarmos num mundo selvagem em busca de uma vida plena, muito porque, a nossa viagem seguiu, por mais uns 15 dias, nos enfiando em tudo que é lugar, dezenas de caminhadas a cachoeiras perdidas, pai e filha em sintonia, numa das mais espetaculares férias de todos os tempos.
      Novembro/2020

    • Por divanei
      VALE DO GUAXINDUBA
       
                Naquela madruga choveu. Choveu como há tempos não chovia e eu estava feliz por estar numa cama quentinha, abrigado em baixo das cobertas e ficava pensando quem seria trouxa de sair para fazer trilha com um tempo daqueles, mas não demorou muito para a realidade ser jogada na minha cara.
                - Diva, acorda, já passa das 4 da manhã, hora de partirmos.
                Levantei-me imediatamente. Pulei para dentro da minha calça e da minha bota e me pus pronto para a aventura, mesmo sabendo que com aquele tempo horrível, teria sido melhor ter continuado dormindo. Mas bastou um gole de café, para que minha alma voltasse novamente para o corpo e eu me visse de novo eufórico para a missão da qual eu fui tirado do interior Paulista e levado para o litoral Norte.
                Quando o plano foi me apresentado pelo Thiaguinho, quase tomei um susto. A ideia era subir um rio em Caraguatatuba atrás de uma imagem de satélite que possivelmente pudesse nos levar até uma cachoeira de tamanho considerável. Analisei meio por cima e realmente parecia algo muito interessante, ainda mais que aquele rio havia me passado batido nas minhas explorações cartográficas, verdade mesmo que nunca havia dado muita bola para aquela região, com exceção do Rio Juqueriquerê, que eu havia descido em 2015. Mas pelo sim pelo não, fui procurar para ver se não havia uma trilha que pudesse nos levar até ela, afinal de contas, não estava tão longe da civilização assim.
                Vasculhei o quanto deu e tudo que encontrei foram uma meia dúzia de traclogs( caminhos marcados com GPS) que atingia no máximo 250 a 270 metros de altitude e não passava disso . Minha conclusão seria mais do que obvia: aquele ponto deveria ser o lugar onde os turistas poderiam chegar, era muito provável que ali se fecharia numa garganta alta onde só aqueles mais tarimbados conseguiriam ir adiante, mas eram pura suposições, era preciso pagar para ver, botar os pés no rio e ir conferir pessoalmente.
                A chuva não dava trégua, mas mesmos assim jogamos nossas mochilinhas com o necessário no porta malas do carro e partimos para o bairro Canta Galo, um amontoado de casas junto às margens do Rio Guaxinduba.  Quase 2 km depois de sairmos da Rio-Santos passamos em baixo  do viaduto gigante que fará parte da duplicação da Tamoios e em mais 1 km de estrada desembocamos enfrente à uma estação de tratamento de água da Sabesp, mas logo notamos que nosso caminho ficava uns 300 m antes, uma estradinha entrando na mata. Paramos o carro em uma clareira porque nossa jornada motorizados acabara de chegar ao fim.
                Jogamos as mochilas nas costas e partimos. Ainda chovia um pouco, mas nossa euforia fazia com que desprezássemos esse sofrimento e então nos adiantamos a passos largos, firmes e decididos. O Thiago à frente, esbanjando toda vitalidade dos seus trinta e poucos anos e eu, é claro, tive que me manter firme, consumindo litros de oxigênio para me manter colado nele e não tentar demonstrar as fraquezas dos meus 50 anos nas costas. Minutos depois a estradinha acaba junto a algumas casas e entra numa trilha onde um riacho faz barulho de água boa, mas já estávamos abastecidos e só fizemos seguir atropelando metros e metros. Passamos por um bonito descampado, que rapidamente também é deixado para trás, até nos embrenharmos definitivamente na floresta sombreada.
                Quando entramos nessas trilhas não encontramos nenhuma placa de que o acesso fosse proibido, tão somente havia algo dizendo ser uma área em recuperação e como era uma trilha bem larga, supomos ser bem usada pelos nativos ali da região. E é realmente uma trilha encantadora, com árvores gigantes que nos surpreendem a cada metro percorrido, por ainda estarem de pé tão perto da civilização. A trilha apesar de bem larga, vez ou outra se bifurca e confundi a nossa cabeça e alguns perdidos nos leva às margens do rio, muito provavelmente serviria para acessar algum poço ou cachoeirinha mais turística, mas como o rio está bufando, não nos pareceu valer a pena descer para conferir, então retornávamos e seguíamos por onde nos parecia ser a direção correta, mas bem menos de 1 km depois de começarmos a caminhar, fomos obrigados a nos determos por um instante para prestarmos continência a um espetáculo que a natureza nos reservou : Um exemplar de uma árvore gigante faz com que nossos queixos despenquem das nossas caras. Eu não saberia dizer que árvore seria aquela, não sou botânico e sinceramente não tenho lá grande conhecimento a respeito desse assunto, mas me pareceu ser uma Figueira Brava ou uma Samaúma, mas é puro chute, então se alguém souber o nome que me corrija, mas o certo é que não é possível passar diante de um monstro desse e não sair de lá encantado.
       
                Nossa caminhada segue a passos cada vez mais firmes, alternando pequenas descidas e subidas, mas nada em excesso e uns vinte minutos depois, um clarão surge no meio da floresta verde e junto a um afluente do rio, tropeçamos numa cachoeira enorme que nem esperávamos encontrar. E era realmente grande, uns 20 metros de queda, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas o simples fato dela cruzar o nosso caminho, já foi motivo de uma comemoração pelo prazer de tê-la encontrado , tão alta e em tão pouca altitude  e sem saber o nome ainda, mas muito provavelmente ela deve ter um, como referencia vou chamá-la de CACHOEIRA DO PAREDÃO até que eu descubra o verdadeiro nome. E esse nome fictício só me veio à cabeça porque logo à frente, pouco antes de desembocarmos definitivamente no rio, somos apresentados a numa parede gigante, uma muralha de pedra deslumbrante.

                Abandonamos, portanto a cachoeira e passamos raspando na parede e em um minuto caímos no Rio Guaxinduba, mas agora em definitivo. O rio está cheio, mas a chuva quase cessou por completo. Estamos agora bem de frente de outra CACHOEIRA, não tão grande como a anterior, mas com um volume grande, confinado num tubo que forma um salto para dentro de um poço profundo, com a água um pouco escura, mas ainda assim muito limpa. Aqui é mais ou menos a cota 260 de altimetria e é o lugar onde a trilha acaba em definitivo, mesmo porque, agora estamos diante de uma garganta que fecha o rio num amontoado de rochas gigantes, fim da linha para os turistas, daqui para frente é só quem se atreve a botar a faca nos dentes , num caminho incerto, perigoso, é o lugar que separa os homens dos meninos, é hora de aceitar o convite para a aventura.

                Nossa aposta de que esse seria o lugar onde o rio estaria bloqueado foi um acerto um tanto óbvio pela nossa experiência nesses longos anos de exploração selvagem. Num primeiro momento, eu e o Thiago trocamos ideia sobre a possibilidade de escalarmos as grandes rochas, mas era uma subida um tanto exposta com a pedra molhada pelas chuvas recente. Até daria para dar um bote de cima de uma grande rocha e se agarrar à outra, mas um erro de calculo e o escalador seria jogado para dentro da fenda e ali seria moído pela rocha áspera. Então a decisão sensata era, depois de atravessar o rio, ganhar uma canaleta do lado direito e abrir uma passagem para o alto e estando mais acima, varar mato de volta para o rio. E foi isso que fizemos e em poucos minutos retornamos à parte alta dessa primeira cachoeira, justamente de frente para uma cachoeira bem peculiar, onde a água despencava no meio de grandes pedras suspensas e ao nos aproximarmos  dela , um colônia de andorinhas barulhentas nos deu as boas vindas e por também não sabermos o nome, resolvemos marcá-la no mapa como CACHOEIRA DAS ANDORINHAS, mesmo não sendo um nome muito original, foi o que pensamos na hora.

                Paramos por um tempo para apreciar a cachoeira e tomar um gole de água. Uma analise fria já nos diz que escalar a cachoeira não é possível e muito menos viável cruzar para a margem esquerda do rio, então só nos restava a velha tática de varar mato. Também do lado direito foi que descobrimos uma abertura que nos levou rapidamente até o pé de uma parede íngreme, mas que surpreendentemente formou uma escada de raízes no barranco, onde apoiávamos primeiro as mãos e depois os pés até nos elevarmos a parte superior da Cachoeira das Andorinhas, varando um mato cheio de espinhos e descendo desescalando pedras lisas até o rio. Estávamos bem de frente a uma ilha no meio do rio e do outro lado nos pareceu haver mais uma grande cachoeira e para la chegarmos , tivemos que desenrolar uma travessia de meio rio, antes mesmo de pularmos para o meio da ilha, onde bem perto , mais uma cachoeirinha despencava.
                Cruzamos o rio nos valendo de algumas partes mais rasas, mas mesmo assim com a água quase pela cintura até ficarmos bem de frente com a cachoeira maior que buscávamos. Não era tão alta, mas despencava de forma bem peculiar, com um pequeno tobogã encima que fazia com que ela se transformasse num chuveiro e ao seu lado o rio saltava em mais um cachoeirinha, formando um cenário agradável  e mais uma vez, sem saber se existia um nome, vou marcá-la como CACHOEIRA DO CHUVEIRÃO, nome não muito bonito, mas deve servir de referência.

                Pensei em continuar nossa jornada atravessando para o lado esquerdo do rio, porque me pareceu que seria fácil passar, mas logo o Thiago me avisa que mais à frente o rio se enfia num pequeno cânion, onde poderíamos ter problemas e insiste em nos mantermos no lado direito. Pulamos para a ilha e começamos a escalar algumas pedras íngremes até voltarmos para o rio, onde ariscamos passar numa parte profunda nos valendo de um apoio ao lado de uma parede do rio, cairmos novamente numa língua de mato e voltarmos para o rio na tentativa derradeira de chegarmos ao nosso objetivo principal.
                Não eram nem nove da manhã quando à nossa frente um clarão branco despencando de um paredão nos ofuscou os olhos. Ainda em meio às árvores e rochas, que nos fechava o caminho, essa visão ia se alternando entre ficar visível e sumir. Eu e o Thiaguinho nem conversamos sobre o assunto, apenas nos mantemos focados em escalar matacões gigantes, numa tentativa desesperada de ganharmos terreno o mais rápido possível. A chuva se foi, milagrosamente a água deixou de cair do céu e adentramos numa toca que era mais apertada quem o útero das nossas mães, mas passamos, encolhendo a barriga, mas passamos e emergimos do outro lado, aos pés de uma grande rocha. O Thiago foi à frente, abrindo caminho na quiçaça até se ver numa fenda entre duas pedras. Ele se equilibrou sobre um tronco de árvore podre, enquanto eu o avisava para que tomasse cuidado. Assim que ele passou, dei um salto e ganhei também o outro lado, e juntos, de cima daquela pedra escorregadia, saltamos para a gloria final, sobre um platô, de frente para o Objeto da nossa conquista pessoal.
                Diante nos nossos olhos, em toda sua magnitude e esplendor, muito mais bela do que poderíamos imaginar, um turbilhão de água saltava de cima da  parede, primeiro vindo de um tobogã de uns 200 metros , depois caindo no vazio de uma altura mais ou menos de uns 30 ou  35 metros no total. Uma cachoeira se espalhando sobre a parede, onde parte do seu véu se ocultava atrás de uma grande rocha. Recebendo suas águas, um laguinho se esparramava até onde estávamos e mesmo com o rio cheio pelas chuvas recentes, ainda assim a água continuava bonita e bem apresentável. A força da água se jogando da montanha formava uma névoa sobre nós e o vento balançava a vegetação ao nosso redor, nos fazendo sentir um pouco de frio, mas pouco nos importava, a cachoeira GRANDE DO GUAXINDUBA  era nossa, apenas dois aventureiros abobados, inebriados, testemunhas oculares de um espetáculo e se mesmo sabendo ser provável que não sejamos os primeiros a pisar ali, felizes estávamos por termos certezas que era uma visão presenciada por não mais de meia dúzia, então não nos restou outra coisa, senão  nos abraçarmos e comemorarmos o sucesso daquela empreitada.

                   O Thiaginho estava eufórico, um menino hipnotizado pela descoberta bem no quintal de casa. Eu fiquei ali, parado , estático, sentindo aquele momento e feliz por ter me levantado daquela cama quentinha hoje pela manhã. Mas é preciso contar o resto desta história e não deixar passar nada do que presenciávamos ali naquele momento. Se já não bastasse aquela cachoeira, que fechava o vale com uma beleza inenarrável , ao lado dela, despencando de um afluente do lado esquerdo, outra queda d'água formava o cenário perfeito, uma união de dois acidentes geográficos numa obra de arte da natureza que não precisava de retoques. Nossas cabeças rodopiava entre um cenário e outro , mas antes de perdermos o foco diante de tão deslumbrante cenário, nos sentamos para não cair e aproveitamos para comermos algo , ali mesmo ao lado dessa outra queda, que aqui temporariamente chamo de PEQUENA DO GUAXINDUBA e assim marcamos no mapa, mais uma na nossa lista de lugares perdidos no Lado Escuro da Serra do Mar Paulista.

                Chegamos no lugar onde havíamos deslumbrado chegar, mas sendo ainda muito cedo, resolvemos esticar ainda mais a aventura. Decidimos por escalar o grande paredão para tentarmos chegar ao alto da Cachoeira Grande. Analisamos o terreno e era fácil supor que pela direita seria impossível passar, diante de uma parede de quase  noventa graus de inclinação, então só nos restava fazer um ataque pela esquerda, não da cachoeira grande, mas ao lado da pequena , a cachoeira do afluente. Usando nossa técnica inovadora de nos segurarmos em tudo e qualquer coisa que aguentasse nosso peso, nos pomos a nos elevar parede acima até ganharmos o alto do afluente e transpor suas águas, ganhando terreno lentamente, varando mato, escalando outros tantos de pedras escorregadias até firmarmos uma diagonal e voltarmos novamente para o leito do rio principal, bem acima de onde as águas se jogavam no vazio.

                Estamos agora encima do olho do furacão, uma rampa inclinada de impressionantes cerca de 200 metros, um tobogã descendo numa pedra lisa com não mais de dois palmos de água, mas numa velocidade "maior que a da luz". Eu e o Thiago até deslumbramos a possibilidade de poder descer em uma parte da rampa, onde o rio se projeta em um poço, mas a velocidade era tamanha que poderia nos jogar não para fora do poço, mas para fora da via láctea, então deixamos quieto. Lá do alto, era possível avistar paisagens a beira mar, montanhas e formações rochosas, mas por causa do tempo instável, não conseguimos ver o oceano dessa vez . 

                Chegamos aos 500 metros de altimetria, poderíamos ter seguido subido o rio, mas nos demos por satisfeito, ainda mais porque não estávamos preparados para passar a noite com conforto, então antes das 10 da manhã, resolvemos optar pela volta, havíamos cumprido o objetivo que havíamos traçado quando nos levantamos da cama quente pela manhã e enfrentamos tempo ruim atrás de mais uma aventura autentica. Por sorte a chuva parou, o tempo abriu e quando retornamos para o pé da CACHOEIRA GRANDE DO GUAXINDUBA, ela estava ainda mais deslumbrante e o Thiago resolveu fazer as honras da casa, se jogando para debaixo dela, lavando a alma, enquanto eu o observava lá de fora, contente pela felicidade do amigo.

      Quando o Thiago se cansou de tomar banho de cachoeira, apanhamos nossas mochilas e partimos de volta, mas dessa vez, num ritmo muito maior, ainda porque, o rio estava um pouco mais baixo e já conhecíamos as passagens chaves. Fizemos uma pequena parada na Cachoeira das Andorinhas para um breve lanche, ganhamos novamente o vara-mato que nos levou de volta a trilha, assim que atravessamos novamente o rio para sua margem direita, agora de quem desce e aceleramos o passo, num perde e acha até que subitamente desembocamos na estrada, junto a clareira onde havíamos deixado nosso veículo, missão cumprida.

               
                Antes das 14 horas, estacionamos nossos corpos na Praia do Capricórnio em Caraguatatuba, foi uma caminhada linda, deslumbrante. Eu e o Thiago imprimimos um ritmo de gente grande, voamos rio acima, fomos comendo mato e destruindo altimetria como nunca e levamos 7 horas de caminhada entre ir e voltar. Na manga, mais uma descoberta, numa serra que não para de nos surpreender, lugares onde poucos pés humanos ousaram tocar, um paraíso reservado a um seleto grupo de exploradores , onde a natureza cercou e pela dificuldade de acesso, continuará lá , preservado por muito tempo, sendo mais uma entre tantas outras nessa SERRA DO MAR PAULISTA, a serra que tem cheiro de aventura.
               
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