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Serra da Mantiqueira à pé - 1.100 kms pela Rainha dos caminhos (Jan/Fev 2018)


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  • Membros de Honra

Fizemos a maioria dos caminhos que passam pela Serra da Mantiqueira(Estrada Real, Caminho da Fé, Crer....), alguns mais de 1 vez.
É quase unanimidade entre os caminhantes que, indiscutivelmente, a Serra da Mantiqueira têm as mais bonitas paisagens e, nós concordamos integralmente. São caminhos que proporcionam lindas fotos,  clima agradabilíssimo, povo acolhedor e simpático, ingredientes que definiram esse roteiro.
Foram quase 50 dias e mais de 1.100 quilômetros de muitas alegrias, felicidade e paz,  poucas tristezas e decepções.
Começamos e terminamos na MAGNÍFICA cidade de Campos do Jordão-SP, depois de rever vários lugares (passei alguns invernos nesta bela cidade, quando eu era "bacana"). A cidade se transformou,  criaram vários roteiros turísticos, belas e caras casas dos novos e velhos "bacanas", ótimos restaurantes, atrações mil,  pousadas e hotéis de todo tipo e preço, tem até o refúgio do peregrino, comércio bom, povo hospitaleiro, clima perfeito e, ainda por cima fomos no verão,  baixa temporada,  onde com facilidade encontramos boa hospedagem com preços menores que muitas hospedagem em cidades pequenas.

Outra coisa que pesou em escolher fazer essa travessia é que a região se assemelha muito com um projeto que temos em mente, que é a travessia entre Punta Arenas x Arica no Chile,  então serviu como treinamento.

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  • Membros de Honra

Chegando ao "início"  dia 02.01.2018 - Terça-feira 

Estávamos em dúvida por onde começar, tinha que ser próximo da cidade de São Paulo,  pensamos em Extrema-MG, Bragança Paulista(onde começa a Mantiqueira). Aí veio Campos do Jordão-SP,  temos boas recordações daquele lugar.
Pegamos a Dutra e pouco tempo depois chegamos a São José dos Campos-SP, como era feriado de 01 de Janeiro, quase tudo fechado,   arrumamos um hotel próximo à Dutra muito bom por $60 por pessoa com café da manhã. Meu tênis que levei para fazer essa caminhada soltou parte do solado, então tive que comprar outro. Acordamos cedo dia 02 de janeiro, tomamos café da manhã e aguardamos o shopping abrir.
Foi o grande ERRO da viagem: Sempre compro o mesmo modelo de Tênis e mesmo número,  experimentei o n° 39 ficou apertado,  pedi o n° 40 e calcei só o pé direito,  como ficou ok, comprei. Pqp, paguei um alto preço logo no primeiro dia de caminhada.

Chegando em Campos do Jordão-SP, lendo a relação das pousadas credenciadas pelo Caminho da fé, escolhemos a Pousada Primavera, vi que a avaliação dela no Booking era ALTA: 9. Como assim, pousada no centro da cidade(uns 200 metros do teleférico),  novíssima, super confortável, com tv de plasma, ar condicionado, ótimo café da manhã. COMO ASSIM, nunca tinha visto isso no Caminho da fé. Chegando lá expliquei ao proprietário SR TADEU,  que faríamos uns 1.000 kms na Mantiqueira e alguns trechos do Caminho da Fé, então o proprietário abriu uma exceção para nós e entramos como peregrinos. Aí surgiu outro problema: onde deixar o carro.
Perguntamos a ele se tinha algum estacionamento na cidade,  ele disse:  tem! mas é muito caro!
Outra surpresa: ele ofereceu para deixarmos o carro no estacionamento da pousada,  como estava em reforma,  disse que não,  pois prejudicaria a pousada dele, ele concordou.
Então, ele conseguiu um lugar para deixar o carro numa boa.
Começamos muito bem!
Ficamos dois dias em Campos do Jordão acertando os últimos detalhes. Como estávamos de carro, fizemos alguns passeios pela cidade.

Hospedagem: Pousada Primavera, fone: 012 3663-1023 e 99676-7435, atendimento nota 10,  camas excelentes(King), wifi, tv a cabo com alguns canais, frigobar, ar condicionado, cofre eletrônico, banheiro privado, muito limpo e confortável, varanda com lindas flores. Tem até elevador apesar que são só 2 andares. Preço: $130 casal com ótimo café da manhã. SUPER RECOMENDO!
Obs.:  confirmar valor para não peregrino.
O refúgio dos peregrinos estava cobrando $150 por casal em quarto e banheiro compartilhado.
Para quem vai fazer o caminho das Pedrinhas é a melhor opção,  visto que o ônibus para o Horto florestal tem ponto quase na porta da pousada. A distância entre a pousada e o horto é  mais ou menos 10 quilômetros.

Portal de Campos do Jordão, pena que esse carro atrapalhou a foto. 

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Linda Construção na montanha - caminho para pico itupeva 

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  • Membros de Honra

Onde o grande erro deu as caras.
Primeiro caminho: Caminho de Aparecida 

1° dia - 04.01.2018  -  Quinta-feira

Saída da portaria do horto florestal de Campos do Jordão e chegada a Wenceslau Braz Mg.
+-32 kms em aprox. 07:20hrs

Nossos pesos:

Eu: 69,50kgs(02.01.2018) e 66,40kgs(28.02.2018)
Ela: 64,50kgs(02.01.2018) e 62,30kgs(28.02.2018)

Acordamos cedo, tomamos excelente café da manhã,  gentilmente servido pela Pousada bem antes do horário.
Andamos uns 20 metros e aguardamos o ônibus($3,50 p pessoa), que passou pontualmente às 07:45hrs(o primeiro horário dele é 06 da manhã e depois de hora em hora, sempre 15 minutos antes da hora cheia), fomos até dentro do horto(abre às 09 horas, mas autorizaram nossa entrada às 07:15hrs).
A primeira parte é bem tranquila,  um bom trecho em reta e depois uma subida longa, sem atropelos chegamos a divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais em aprox. 03 horas, ali era o topo(1850  msnm).
Depois da divisa pegamos uma longa descida até o charco  (algumas casas mas, sem apoio, somente uma pousada), logo a seguir começa uma subida curta, após descida fortíssima até estrada asfaltada, viramos à esquerda  e  um quilômetro depois  chegamos a pousada Castelinho.
Tomamos um banho e já fomos ao restaurante almoçar($17 por pessoa ) excelente comida.
Obs.: A região de Wenceslau Braz é  servida somente pela operadora  Vivo. Neste trecho somente em algumas partes que pega celular.

Aqui o efeito do tênis novo deu os primeiros sinais  (bolha no dedinho do pé esquerdo), muita dor e descoforto. Parecia que meu pé esquerdo estava dentro duma lata de sardinha. 

Wenceslau Braz Mg: 1020 msnm
Pequena cidade, tem somente supermercado e mercearias /bares/padaria e uma lotérica, uma pousada.

Hospedagem: Pousada Castelinho,  035 99833-6220, perto da matriz,  beliches com colchões finos,  banheiro privado limpo,  ventilador, cozinha, preço  $45 por pessoa com café da manhã simples. RECOMENDO
Obs.: a refeição deve ser encomendada a Patrícia, dona da pousada, é servids num restaurante próximo.
 

Lindas hortensias no horto florestal de Campos do Jordão.  Início da travessia 

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Árvores com tronco vermelho,  raro.

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Divisa entre Minas Gerais e São Paulo 

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Charco, lindas casas coloridas 

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  • Membros de Honra

O sofrimento continua....

Outro caminho: Caminho de Frei Galvão 

2° dia - 05.01.2018  -  Sexta-feira

Saída de Wenceslau Braz e chegada em Delfim Moreira Mg
+- 20 kms em aprox. 04:30hrs
Acumulado: 52 kms

A Patrícia gentilmente serviu o café da manhã às 06 horas. Saímos rapidamente e pegamos rodovia asfaltada com chuva fraca e pouco movimento de veículos,  caminhamos morro acima  cerca de uns 16 kms em aprox. 03:10hrs  (topo com +-1400msnm), aqui tive que tirar o tênis do pé esquerdo e coloquei sandália Havaianas, pois a dor estava infernal. Caminhei alguns quilômetros desse jeito.
Viramos à esquerda numa estrada de terra aprox. 3kms, atravessamos outra estrada asfaltada e continuamos em outra estrada de terra, uns 2 kms chegamos no centro da cidade.

Delfim Moreira: 1210 msnm pequena cidade com boa estrutura, vários supermercados, lojas,  farmácias. Tem lotérica e agência do Banco Itau e caixa eletrônico do Bradesco. Algumas pousadas e um hostel.

Hospedagem: Hotel São João fone:  035 3624-1133          , próximo à matriz,  simples   muito limpo, camas boas, banheiro privado, wifi,  preço  $60 por pessoa com café da manhã.
Obs.: o hotel fornece refeição a $15 o prato feito e $20 comercial.

Rodovia asfaltada sem acostamento com muitas curvas e chovendo - atenção redobrada

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Erro fatal,  caminhando com sandália

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  • Membros de Honra

Resolvendo o problema radicalmente! 

3° dia - 06.01.2018  -  Sábado

Saída de Delfim Moreira e chegada a Marmelopolis Mg
+-20 kms em aprox. 04:15hrs
Acumulado: 72 kms

Essa noite deixei o tênis para amaciar, mas ficou do mesmo jeito. Então, neste dia caminhei 20 kms com sandálias nos dois pés.
O hotel só disponibiliza café da manhã a partir das 07 da manhã.
Saímos debaixo de uma chuva fina,  são 3 opções para chegar em Marmelopolis: estrada de terra do lado esquerdo da rodovia, na verdade é um atalho que começa depois de 10 kms da rodovia asfaltada ;  saindo de DM após igreja à direta começa estrada de terra que é mais longe;  como estava chovendo, decidimos ir pela rodovia asfaltada, com pouco movimento de veículos.
Para resumir: é basicamente 1 subida forte de 10 kms(topo 1670msnm) com muitas curvas e 10 kms de descida forte. Essa estrada não tem acostamento, trecho com linda vista das montanhas e dos vales.

MARMELOPOLIS: 1275 msnm, base para o pico do Marins, cidade pequena,  não vi banco,  tem lotérica, várias pousadas, comércio bom.

Hospedagem: Pousada das Flores fones: 035 99852-1406 e 011 99743-0029, centro, novo e limpo, camas boas, tv aberta, wifi, banheiro privado. Preço  $60 por pessoa com café da. RECOMENDO
Obs. : comemos um excelente Self-service à vontade por  $20 por pessoa, tinha PF a $18.


Chegando a Marmelopolis mg

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Solução radical 

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Rodovia asfaltada sem acostamento com muitas curvas. 

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  • Membros de Honra

Caminhando na chuva..

4° dia - 07.01.2018  -  Domingo

Saída de Marmelopolis e chegada a Virgínia Mg
+-23 Kms em aprox. 05:00hrs
Acumulado: 95 kms

Ficamos atentos a previsão do tempo, pois no dia anterior  teve alerta amarelo para região.
Acordamos 05 da manhã, o tempo estava firme,  tomamos o café da manhã rapidamente e saímos, depois de uns 10 minutos começou uma chuva fina que foi até o final.
Atravessamos toda a cidade, entramos numa estrada de terra com muito barro e com pouco movimento de veículos.
Esse trecho mescla subidas e descidas médias,  com lindo visual de montanha e dos vales, uma linda cachoeira na beira da estrada. No topo do trecho a altitude chega a +-1400  msnm.
Muitas plantações de pêssego, Ameixa, figo, marmelo, eucalipto, milho, criações de gado de leite.
Vimos uma caminhonete parada e um senhor agachado procurando algo, aproximamos e percebemos que estava com dificuldade em localizar a chave dela que caiu numa poça d'agua,  resolvemos auxiliá lo, depois de uns 20 minutos encontramos, para alívio geral.
Até agora o mais belo trecho.
Chegamos com tudo molhado, sorte que embalamos tudo dentro da mochila,  a capa não resolveu nada.
Já Almoçamos um Self-service próximo a praça matriz $13 por pessoa à vontade. Ótima comida.

VIRGÍNIA(960msnm): cidadezinha encravada no meio de montanhas, povo hospitaleiro e simples,  tem agência da Caixa Econômica Federal, não vi outros bancos ou caixa eletrônico.  Tem comércio pequeno,  na cidade tem 2 pousadas  (uma bem simples  ($30 por pessoa) e outra mais confortável  ($60 por pessoa) além da pousada 13 lagos, a uns 4 kms da cidade, sentido São Lourenço.

HOSPEDAGEM: Pousada Bela Vista, fones: 035 3373-1700 e  99865-7609, camas ótimas, tv aberta, wifi, banheiro privado. Limpo. Preço:  $60 por pessoa com café da manhã  (serve à partir das 08 da manhã,  mas pode preparar um pouco mais cedo). RECOMENDO

Lindo visual de montanha 

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Idem

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Muita neblins

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Entrocamento com muito barro

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Cachoeira 

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Revendo o caminho dos anjos..

5° dia - 08.01.2018 - Segunda-feira

Saída de Virgínia e chegada a Passa Quatro mg
+-27 kms em aprox. 05:40hrs
Acumulado: 122 kms

Novamente a previsão do tempo estava sinalizando chuva, embalamos tudo, colocamos capas nas mochilas. Gentilmente a pousada providenciou café da manhã na noite anterior (deixaram café pronto e frutas), saimos pouco depois das 06 horas.
Pegamos uns 2 kms de asfalto e viramos à direita entrando numa estrada de terra (só seguir as setas amarelas) até Passa Quatro.
Como choveu muito na madrugada o piso tinha muita lama e barro, para nossa sorte não choveu nada.
Esse trecho é muito bonito, grandes e lindos vales, visual de montanhas num verde exuberante.
Algumas retas no início, depois começa uma longa subida até o topo (+-1250msnm),  logo a seguir descida bem forte até uma grande fazenda criadora de gado leiteiro.
Começa novamente outra longa subida,  próximo de PQ inicia descida média até o centro da cidade.
Fomos até próximo da rodoviária comer no mesmo restaurante dos anos anteriores  (aquele da leitoa de leite), $35,90 o quilo ou $15 o PF.

PASSA QUATRO: 910 msnm, a maior cidade até agora,  algumas pousadas, hotéis e hostel.  Bancos e comércio estruturado.

Hospedagem: Hostel Harpia,  035 98894-0533 em frente a agência dos correios, estrutura bem antiga(casarão), cama velhas(beliches), cozinha, banheiro compartilhado. Preço: $65 por pessoa com café da manhã simples. 
 

Saindo de Virgínia 

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Verde exuberante 

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Montanhas 

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Subidas leves

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Chegando a Passa Quatro

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Chegando a terra do parmesão

6° dia - 09.01.2018 - Terça-feira

Saída de Passa Quatro e chegada a Itamonte Mg
+-22 kms em aprox. 05:00hrs
Acumulado: 144 kms

O pessoal do hostel deixou cafezinho pronto, comemos algumas frutas e saímos pouco depois das 06 da manhã.
Uma forte neblina encobria a cidade,  tempo bem agradável para caminhar.
Seguimos até trevo da cidade, atravessamos estrada asfaltada e entramos numa estrada de asfalto, que logo a seguir virou de Barro.
Chegamos num entrocamento e viramos à esquerda sentido Paolinho, estradinha com muito barro, pois choveu muito ontem à noite(foi complicado demais), subida longa e forte, chegamos no entrocamento e viramos novamente à esquerda. Aí complicou de vez, tivemos muita dificuldade devido a quantidade de barro, escorregava demais.
Depois foi muito tranquilo, somente algumas subidas e descidas médias. Esse foi o primeiro dia que pegamos sol no trecho. Trecho com muitas sombras, e um pequeno trecho ao lado do rio verde.

ITAMONTE: Cidade pequena, 933msnm, com comércio bom, muitos hotéis e pousadas, alguns bancos.

Hospedagem: Hotel Thomaz,  Fone: 035 3363-1717, na beira da rodovia, camas boas, tv aberta, ventilador, frigobar, wifi, limpo, preço: $60 por pessoa com café da manhã.  Embaixo do hotel tem restaurante: $17,40 Self-service à vontade.
 

Praça em Passa Quatro

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Tempo frio 

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Até parece um vulcão 

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Excelente visual de montanha 

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Uns 2 quilômetros de barro escorregadio numa descida ..

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Chegando perto do céu
Mais um caminho: caminho Cem

7° dia - 10.01.2018 - Quarta-feira

Saída de Itamonte e chegada a Pousada dos Lobos mg
+-32 kms em aprox. 07:50hrs
Acumulado: 176 kms

Acordamos às 04:30hrs, o hotel gentilmente preparou café da manhã para nós. A previsão do tempo informou que poderia chover na parte da tarde, para nossa sorte eles acertaram, pois caiu uns pingos de chuva quando já estávamos dentro da pousada.
Talvez esse foi o trecho de subida mais longa que já fizemos até hoje: uns 28 kms. Obs.: resolvemos ir pela rodovia asfaltada(tem outro caminho, como a chuva poderia cair, resolvemos ir pelo asfalto).
Saímos pouco depois das 05 da manhã, depois da cidade já pegamos trecho de subida com muitas curvas fechadas, estrada tem acostamento somente em poucos quilômetros, apesar dela ser bem estreita e com muito movimento de caminhões e veículos leves. No trecho até a garganta do registro tem alguns bairros, vi algumas pousadas. Lindíssimos mirantes de toda região,  vimos muitas cobras venenosas mortas na beira da estrada.
Depois de 04:45hrs de caminhada chegamos a divisa entre São Paulo e Minas Gerais,  tem restaurante e venda de doces e queijos em alguns quiosques, segundo uma placa estávamos a 1699 msnm.
Apesar do sol forte, não sofremos muito; pois a estrada tem muitas árvores altas na beira, o que formavam sombras em quase todo o percurso.
Paramos e compramos 05 doces e pegamos estrada que um dia deve ter sido asfaltada,  nas está totalmente destruída,  pegamos mais 8 kms de subida forte até o topo (cerca de 2170msnm no Brejo da Lapa) logo a seguir viramos à esquerda e pegamos 4kms de descida forte com muita pedra e buracos até a pousada dos lobos. Esse trecho pegamos sol forte, não tinha tantas árvores igual ao trecho anterior.

Hospedagem: Pousada dos lobos, fica a 1750msnm,  reservas: 035 3332-2779 e 99983-5277. Camas ótimas, tv aberta coletiva, banheiro compartilhado, limpo. Preço  $100 por pessoa com café da manhã e almoço ou jantar.
Obs.: o preço era $130 por pessoa,  mas a cozinheira não foi trabalhar neste dia,  e quem preparou uma comida simples para nós, foi a Solange, que mora na pousada com o marido e são os zeladores.
Obs.: neste trecho todas as pousadas cobram $130 por pessoas até as bem simples.
Esse trecho é lindo, um pouco distante da cidade,  mas $130 por pessoa num quarto onde tem somente uma cama e um beliche, acho muito caro.

 

Rodovia asfaltada sem acostamento 

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Chegada a divisa Minas Gerais x São Paulo 

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A maior altitude que pegamos nesta viagem

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Virada para a pousada, depois daqui pegamos descida forte e sol forte

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Muita mata

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Chegando a Pousada dos Lobos 

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Seguindo a rota dos tropeiros com muita chuva e perigos. .

Outro caminho: Rota do parmesão  (tropeiros mineiros que levam mercadorias para comercialização em Visconde de Maua-RJ)

8° dia  -  11.01.2018  -  Quinta-feira

Saída da Pousada dos Lobos e chegada a Maromba RJ
+-27 kms em aprox. 07:15hrs
Acumulado: 203 kms

Acordamos mais tarde, tomamos café da manhã e saímos um pouco antes das 08, nossa intenção era dormir na Pousada da Soninha, para no outro dia partir para Maromba.
Passamos no tropeiro Gezuel(tropeiro que encontramos a alguns anos atrás em Maromba) ele tem um restaurante e da pousada Tropeiro do parmesão(035 99173-1773) a uns 5 kms de onde saímos(cobra $130 por pessoa meia pensão), quarto simples.
Depois do Gezuel vira a direita no entrocamento. Segue descendo passa a primeira ponte e vire a esquerda. ..passa outra ponte de madeira e pega subida forte....sempre para cima.
Paramos numa casa para perguntar onde ficava a pousada da soninha,  era a casa do João, outro tropeiro que conhecemos a uns anos atrás  (ele lembrou de nós,  o Gezuel não), depois de uma boa prosa, ele nos ensinou o caminho dos tropeiros até Maromba,  então ali mesmo resolvemos ir direto para lá.
O CAMINHO:(depois da casa do João)
Quando chegar em 2 casas com curral de cavalo vira a esquerda e a esquerda novamente.
Continua subindo, vai ver a sua direita uma casa de madeira abandonada,  pouco acima chega numa casa do lado esquerdo  com hortensias na porta,. ..vira a direita. .vai ver placa caminho da maromba ...suba alguns metros e logo tem um colchete à direita, entre nele (tinha uma placa para maromba).. seguindo reto(tem outro colchete) chega no topo e encontra o caminho da direita.
Algum tempo depois atravessamos uma porteira, seguindo sempre na encosta da montanha com lindo visual de toda região  (a casa do sr João lá  embaixo)...chegamos noutro colchete, atravessamos viramos à esquerda. Sempre subindo.
Logo a frente vimos um colchete à esquerda do caminho  (o encontro daquele outro caminho )..
Continuamos subindo...um tempo depois entramos num descampado com lindo visual, inclusive da serra do papagaio, andamos um bom tempo.
Após algumas descidas com muitas pedras e outras com muito barro. Antes do Passa Um tem uma bica dagua(potável). Ali encontramos um solitário Francês que estava fazendo o caminho inverso do nosso (ele não tinha mapa, demos algumas dicas para ele).
Atravessamos o PASSA UM, começou a chover fraco, colocamos capas nas mochilas e logo começou a chover forte com alguns trovões. Foi complicado, pois o caminho ficou escorregadio e cheio de água.
Obs.: pela primeira vez deparei com uma Urutu cruzeiro, minha parceira passou a uns passos dela e, vi de longe ela fugindo da gente, muitoooo linda! Mas foi um sufoco (até agora não sei quem ficou mais assustado..nós ou ela!)
Apertamos o passo e descemos o mais rápido possível, apesar do barro.
Chegamos na casa branca, atravessamos as 2 pontes e logo chegamos à Maromba, todos molhados e sujos.

MAROMBA: Pequeno distrito, 1175msnm, tem 2 mercearias , muitas pousadas,  alguns restaurantes,  não vi caixa eletrônico.

Hospedagem: Pousada Águas Claras,  Fones: 024 3387-1241/ 3387-1365 e 99815-3339, quarto pequeno simples, um pouco antigo, cama boa, tv pequena antiga, frigobar, ventilador, wifi, banheiro privado.
Preço: $60 por pessoa com café da manhã. Obs.: pediram $75 por pessoa. Não negocie com a dona,  mas com os filhos dela.
Na rua atrás da igreja tem um restaurante da merendeira da escola,  que serve uma ótima comida.  Comercial com contra filé para duas pessoas sai a $45.


Estrada entre pousad dos lobos e bifurcação para rota do parmesão 

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Depois de duas casas chega nesta casa abandonada. Logo a frente vira à direita 

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Tivemos que pular essa porteira

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Subida fortíssima com lindo visual de montanha 

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Grandes valas 

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Descampado, à frente armando o maior toró

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Bica antes do Passa Um

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Lindo visual de montanha, ao fundo o pico do papagaio que passamos depois de alguns dias 

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Linda mata

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Muita neblina

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      Barreirinhas é uma cidade não muito grande, mas é o local mais movimentado da região, bem às margens do Rio Preguiças e é junto às dezenas de barcos, que somos desovados pelas vans, e ainda cabeceando de sono, ficamos por ali, tentando nos localizarmos, tentando compreender melhor a geografia do lugar, enquanto alguns agentes de viagens tentam nos vender algum pacote, algum passeio, mas queremos mesmo é achar uma hospedagem para podermos descansar e traçar um plano.
      Fazer a GRANDE TRAVESSIA DOS LENÇOIS MARANHENSES, era um sonho antigo, mas o fato de conseguir tirar férias somente no verão, inviabilizava qualquer projeto, já que no fim do ano, as lagoas já estão secas e a data fica quase imprestável. Por isso fomos sempre adiando e me parece que cada coisa tem seu tempo, já que agora, além de conseguir féria em final de junho, ainda teria a possibilidade de viver esse sonho com a minha filha, mas para isso era preciso montar uma estratégia, uma logística quase perfeita e que nos desse a possibilidade de viver uma das mais extraordinárias jornadas das nossas vidas.
      Uma coisa era certa e disso a gente não abria mão: Queríamos fazer a travessia independentes, sem a necessidade de um GUIA. Não que a gente não achasse importante o profissional, mas no estágio que havíamos chegado, depois de 25 anos de andanças pelo Brasil e fora dele, não me via mais com a necessidade de um, para caminhar em nenhum lugar desse país, se não fosse obrigado. Outra coisa, era que, por decidir não depender de ninguém, também queria estar autosuficiente, desejava andar com todos os equipamentos de segurança para poder resolver os problemas, sem vir a ter que recorrer a nenhuma ajuda.
      Mas para andar com um nível de segurança pleno, ainda mais estando responsável por carregar minha filha, teria que escolher os equipamentos a dedo, mesmo que isso me custasse andar com uma cargueira cheia. Consultando alguns amigos que lá estiveram, fui aconselhado a não levar blusas, sacos de dormir e deixar a barraca em casa, já que os pernoites seriam feitos nos chamados OÁSIS, lugarejos perdidos no meio do deserto. Os sacos de dormir e as blusas, até cheguei a tentar persuadir minha filha a deixá-los, mostrando para ela que a previsão no deserto estava por volta de 26 graus à noite, mas não teve jeito, ela não arredou pé, segundo ela, não queria correr nenhum risco num fim de mundo novo, desconhecido até então para ambos. Já a barraca, essa foi eu mesmo quem se recusou a deixá-la, porque se algo acontecesse, queria ter uma proteção sobre nossas cabeças, seria nosso porto seguro, seja lá em que lugar fosse. Para caminhar, decidimos que usaríamos as papetes, sandálias de couro, inclusive, cagando e andando para o que iriam pensar, embarcamos com elas até dentro do avião, feito uns molambos, foda-se. E para completar, levamos fogareiro a álcool, panelas, e todos os utensílios de cozinha necessários, além de comida reserva para quando tudo falhasse, além dos equipamentos básicos de primeiros socorros, lanternas, capas de chuva, enfim, estávamos pronto para sobreviver no deserto , como se fosse nas nossas expedições pelas grandes montanhas e florestas do Brasil.
      De volta à Barreirinhas , conseguimos uma hospedagem barata e depois fomos nos perder pela cidade, comer uma comidas típicas e apreciar a cultura local. O que nos chamou a atenção, foi o número absurdo de motocicletas, onde capacete não existe e famílias inteiras se penduram numa só moto, inclusive carregando recém-nascidos, algo inimaginável para nossa cultura aqui do Sudeste. Fomos até o píer comprar a passagem que nos levaria para ATINS no dia seguinte, lugar onde oficialmente começa a travessia a pé. E há vários jeito de se chegar lá : a pé , por quase um dia de caminhada pelas estradas de areia, de carro , balançando numa espécie de pau de arara de luxo , pegando o barco e navegando pelo rio Preguiças direto para o litoral( Atins) ou pelo melhor jeito , que é o passeio completo , também pelo Rio Preguiças, mas parando em tudo que é vilarejo, uma experiência incrível que vai lhe introduzir nos PEQUENOS LENÇOIS, uma prévia sensacional do que virá.
      DE BARREIRINHAS ATÉ CANTO DOS ATINS
      Compramos o passeio completo por 70 reais, não sei se é barato ou caro, muito porque , depois de Barreirinhas quase tudo é inflacionado e rola uma espécie de cartel até entre os nativos dos oásis. Às nove da manhã, nos apresentamos no lugar marcado, com nossas cargueiras, contendo tudo que tínhamos para 15 dias de viagens, tudo que havíamos trazido de São Paulo estava com a gente, o que usaríamos na travessia e o que não usaríamos. No porto, não encontramos ninguém que iria fazer a travessia a pé, só uma multidão de turistas indo para todos os lados. O Barco partiu e já ganhou a curva para o norte em direção ao litoral, deixando para trás, uma grande duna de areia que ameaça engolir parte da cidade.
      O Rio PREGUIÇAS é extremamente lindo e a navegação vai nos surpreendendo o tempo todo, com paisagens muito parecidas com a Floresta Amazônica, qualhado de buritis e todo tipo de palmeiras, até que o piloto faz um atalho e nos diz que aquele caminho, que corta uma grande curva do rio, foi talhado a mão. Não demora muito, somos surpreendidos pela lancha do Instituto Chico Mendes em conjunto com a Marinha do Brasil e logo nos vemos com uma metralhadora apontada para nossa cara. O fiscal faz um teatro danado quando o condutor do barco diz que não estava com os documentos da embarcação, mas logo percebemos que o tal fiscal era amigo do piloto e fez o teatro para impressionar, dizendo que ele teria que aportar mais à frente e só poderia seguir depois que fosse trazido todos os documentos, estava blefando, claro.
      A nossa primeira parada é simplesmente mágica, é quando você é apresentado oficialmente aos Lençóis Maranhenses, na verdade, aos Pequenos Lençóis, uma prévia do que a gente vai encontrar pela frente. Mas ao desembarcar, antes mesmo de ver a primeira lagoa, as boas-vindas são dadas pelos inúmeros macacos prego, que vão fazer de tudo para tentar abocanhar alguma comida, caso você esteja com uma, apesar das placas dizendo para não os alimentar. Estamos no lugarejo conhecido como VASSOURAS, tão minúsculo que eu não consegui enxergar mais que duas ou três casas. Mas se o cenário parece um tanto bucólico, com aquelas atrações onde deixa transparecer o clichê de que no Brasil, macaco anda na rua, não se engane, quando se sobe as dunas, atrás do vilarejo, seu queixo vai despencar na areia. Lagoas incríveis se apresentam, com dunas gigantes no horizonte, esse é o primeiro contato real com o paraíso, aprecie essa beleza, mas lembre-se de que coisas grandes é o que viemos buscar.

      Retomamos a viagem de barco e logo descemos em Mandacaru, na margem esquerda do rio. Um vilarejo pobre, formado por pescadores, onde a sua maior atração é o FAROL PREGUIÇAS, que infelizmente estava fechado para subir, mas ainda com acesso livre à visitação. O farol é bem bonito, um dos mais belos que já visitei, mas foi uma visita rápida, uma foto e já estávamos voltando para o barco que em mais 15 minutos nos levou para o vilarejo de CABURÉ.
      Em Caburé é onde se para na hora do almoço, mas os preços não são nada convidativos, coisa de 110 reais para duas pessoas por pratos simples, então eu e a Julia decidimos que não comeríamos ali, aproveitaríamos o tempo para conhecer a praia e as cabanas de pescadores. E foi realmente uma decisão muito acertada, porque é um espetáculo aos olhos o passeio na praia com as Usinas EÓLICAS de cenário e os ranchos de buriti , feitos para abrigar os pescadores por dias, enquanto esperam que os peixes caiam nas suas redes. Os ranchos tem uma construção próprias, feitos para abrigar do vento e do sol, com algumas tarimbas e poços para retirar água doce da areia da praia, uma engenharia bonita de se ver e como todos estavam vazios, pudemos entrar e conhecê-los, um passeio e tanto.
      A última e derradeira parada é o vilarejo de ATINS, mas antes de lá chegar, vamos nos deslumbrando com as gigantes construções das usinas Eólicas, grandes pás girando com a constância do vento que nunca para de soprar, nesse momento, somos D. QUIXOTE sem cavalo, absorvidas pelos gigantes que nos fascina.

      Pouco depois das 2 da tarde, encostamos perto do vilarejo de ATINS e para nossa surpresa, não vimos nada, nem casa, nem vila e muito menos um porto para desembarcarmos. A descida do barco é feita ali, de qualquer jeito, parecendo que éramos clandestinos tentando entrar ilegalmente em algum lugar. Na areia, várias caminhonetes com bancos tipo pau de arara, esperavam para levar para alguma pousada, todos os turistas que ali desembarcavam, vindos com a gente, no nosso barco e também de outras embarcações. Mas nós não, nós ficamos como cachorros que caem do caminhão da mudança, perdidos, sem saber nem qual direção seguir, com uma cargueira enorme nas costas, pés na areia, sol na cabeça, apreensão no coração. Tomamos um rumo que achávamos coerente, mas antes de darmos meia dúzia de passos, liguei meu GPS, anotei nosso ponto de partida e a partir de agora, estávamos oficialmente iniciando nossa TRAVESSIA e por 6 dias, somente um meio de transporte nos levaria ao nosso destino, o melhor meio de transporte que se pode ter, o único capaz de nos levar a qualquer lugar sobre a face da terra, NOSSAS PERNAS.

      Com o estomago nas costas, viramos à esquerda na primeira rua que vimos junto a praia ou foz do rio Preguiças, passamos por um córrego de águas escuras e vendo que a rua de areia não tinha saída, viramos à direita e interceptamos o que nos pareceu ser a estrada principal, uma rua mais larga, igualmente de areia fina, num lugar meio desolador, num sol escaldante, já que dentro desses vilarejos, costuma ventar pouco. Andamos umas 2 centenas de metros e descobrimos um pequeno restaurante aberto com Prato feito a 25 reais e como a fome já estava de matar, jogamos nossas mochilas ao chão e nos deleitamos com o banquete simples, que não passou de arroz, feijão, peixe frito e uma saladinha de tomate e um guaraná Jesus, porque a fome é o melhor tempero.
      Com a barriga cheia e diante de um calor infernal, a Julia ficou questionou se valeria a pena enfrentar quase 3 horas de caminhada até o próximo destino, já que a tarde já ia alta, mas eu bati o pé, queria aproveitar aquele resto de dia para adiantar a travessia. Então jogamos as mochilas às costas e partimos, deixando para trás as casas do vilarejo, adiantando passo nas ruas de areia, que por vezes eram cruzadas por rios que tinham que ser atravessados com a água pela cintura. De olho no mapa, fomos avançando, até que sem percebermos, fugimos da estrada principal e acabamos por pegar algumas alternativas que parecia que nos devolveria de novo ao tronco certo da estrada. E foi mesmo uma sorte ter errado o caminho, já que acabamos colando nas dunas dos Lençóis, onde uma placa nos avisa que é proibido adentrar naquela área com carros particulares e somente carros cadastrados são permitidos, mas como não falava nada de pessoas caminhando, demos de ombros e seguimos, um pé a frente do outro, numa caminhada linda, uma planície cheia de pequenas lagoas rasas, margeadas por dunas gigantes de areia.
      O sol baixou e o cenário ficou bucólico, não conseguíamos enxergar onde estaria essas tais casas que deveríamos achar. Resolvemos então, cortar caminho e seguir nossa intuição, até que interceptamos a estrada principal e por ela seguimos, até que vimos surgir a nossa frente, um amontoado de meia dúzia de casas espalhadas e numa delas, do outro lado de uma lagoa, uma mulher veio nos atender e sem ouvir nada do que ela dizia, atravessamos a lagoa até adentrarmos no portão e nem precisava perguntarmos onde estávamos, a placa já denunciava ser ali o RESTAURANTE E REDÁRIO DA LUZIA, um dos pontos de apoio em CANTO DOS ATINS, um fim de mundo a meio caminho entre o litoral e as dunas.

      A área do restaurante é enorme, mas o redário não passava de uma cobertura mequetrefe, sem paredes, onde a chuva poderia surpreender caso viesse com vento. Os preços são extremamente salgados pela estrutura oferecida, inclusive, como eu havia dito, há um cartel e todos cobram o mesmo preço: São 50 reais pela rede com café da manhã e mais 50 reais pelo prato feito, talvez o PF mais caro do mundo, mas não se engane, você vai pagar com gosto depois de um dia inteiro de caminhada. Mas ainda não era o nosso caso e como vimos que o tempo estava para chuva, resolvemos optar por um quartinho fuleira que custava 10 reais mais caro, mas poderíamos descansar bem, para no dia seguinte poder pular da cama bem sedo.
      As instalações eram bem ruins, mas não estávamos ali atrás de luxo nenhum, ao contrário, fomos buscar simplicidade. Se pouco ligamos para as instalações ruins, muito nos aborreceu o atendimento. A D. Rita não estava e o estabelecimento foi deixado a cargo de um pessoal mais jovem, mas com uma má vontade incrível de fazer as coisas, mal respondia o que perguntávamos. Como tínhamos almoçado tarde, tentamos descolar algo para comer que não fosse propriamente uma janta completa, mas a má vontade das pessoas nos fez optarmos por fazermos uma jantinha básica dentro do quarto mesmo. Eu de uma próxima vez, trocaria essa opção pela do seu Antônio, que é bem ao lado, talvez tivéssemos mais sorte.
      DE CANTO DOS ATINS ATÉ O ACAMPAMENTO SELVAGEM
      Combinamos de tomar café às 4:30 da manhã e você tem essa opção de escolher os horários em qualquer lugar, mas as 4 horas desabou uma tempestade que não víamos a muito tempo. E choveu e trovejou e relampeou. Acabamos saindo da cama somente as 7:30, tomamos café (servido com uma má vontade de espantar) e partimos. O nosso caminho começa por logo sedo, atravessar a lagoa, que agora, depois da tempestade, havia virado um oceano. Passamos entre as duas casas, se valendo de uma rua de areia, viramos à esquerda, logo a direita e fomos curvando novamente para esquerda até nos vermos meio que paralelos ao mar, que só ouvíamos o barulho das ondas ao longe, sem poder enxergá-lo.
      A caminhada é paralela ao mar, mas sem ainda conseguir botar os olhos neles, talvez pelas pequenas dunas que nos trava olhares mais distantes, mas 2 km depois de partirmos do abrigo, talvez uma meia hora, nos chama atenção uns ranchos de pescas e abandonamos nosso caminho para investigar. É realmente uma maravilha essas construções, esses ranchos e sinceramente, ao invés de dormir lá no alojamento, de uma próxima vez eu dormiria nesses ranchos, secos , bem construídos e que colocaria uma charme maior nessa travessia. Vinte minutos depois já estamos com o mar sob nossos olhares e ao invés de ser uma caminhada enfadonha, acaba se transformando numa paisagem bem bonita. Vamos cruzando incontáveis rios e riachos, margeando lagoas e vegetação rasteira, até que uma elevação nos chama a atenção e o que nos pareceu ser uma construção, não passava de uma formação rochosa, uma pedra furada.

      Uns 6 km após partimos do Alojamento, fomos obrigados a parar para analisar nossa saída do litoral e programar nossa entrada definitivamente para o interior do deserto. Essa parte do litoral, a turistada faz contratando um 4 x 4 e vai até um lugar, acho que um RANCHO que chamam de BONZINHO, mas eu não faço a mínima ideia de onde seja, muito porque, é necessário tocar mais uns 5 km pela praia e encurtar o caminho até Baixa Grande, o próximo destino de todo mundo. Mas o nosso roteiro está longe de seguir esse caminho, minha intenção era a partir dali, virar à esquerda e nos enfiar definitivamente no vazio, o que nos proporcionaria uma experiência jamais vivida, esse era o plano, essa era a estratégia, talvez um pouco ousada porque jamais havíamos tido contato com esse tipo de terreno, mas eu não abria mão disso, para isso havíamos discutido o projeto, para isso estávamos com uma cargueira enorme nas costas, havia chegado a hora de nos despedirmos da civilização, mas ainda tínhamos que alcançar o último ponto habitado ou com vestígio de moradia, que era um grande RANCHO DE PESCA, uns 200 metros afastados da praia, onde ao longe já enxergamos um bode pastando.
      No rancho, não encontramos ninguém, mas era um rancho com sinal de que pessoas passavam por ali constantemente, já que um gato tomava conta do local, mesmo que ninguém tomasse conta dele como deveria. Com dó do bichinho, abrimos a porta do rancho e pegamos um pouco de água para abastecê-lo e ficamos com o coração partido por não termos nada de comida pronta para deixar para ele, torcendo que o morador esporádico, voltasse logo.

      Agora seríamos somente eu e a Julia, pai e filha numa jornada solitária, se apegando um ao outro pelos próximos 5 dias. Apontei minha bussola e meu nariz para SUDOESTE, jogamos as mochilas nas costas e partimos, com a alma livre e o coração preso, fomos em busca de uma vida de aventuras, fomos fazer história, não para o mundo, que nem sabe que existimos, mas a nossa própria história de vida, história essa que compartilho a seguir com quem possa interessar.
      Nos despedimos do gato e do bode, atravessamos um riacho, onde atolamos até a canela e já ganhamos as areias das dunas e não levou 15 minutos para a gente ser definitivamente apresentados às lagoas da travessia. Era dia 25 de junho, uma sexta feira de inverno, mas o sol brilhava como nunca, com uma temperatura de 32 graus e vento soprando de leste, nos trazendo uma sensação muito agradável. A lagoa de aguas levemente amareladas pelas algas presentes no fundo, contrastava com a branquidão das dunas ao redor. As mochilas foram jogadas ao chão e delas retirados alguns petiscos, mas as roupas continuaram no corpo e foi com elas que nos atiramos para dentro da água, que mesmo ainda sendo pouco mais de 10 horas da manhã, estava quente, numa temperatura agradável, estava inaugurado o primeiro de centenas de banhos daquela travessia.

      Tínhamos um objetivo claro, como todos que partem para essa travessia, seja lá que caminho acabem pegando: chegar ainda hoje no OÁIS DE BAIXA GRANDE, mas, porém, entretanto, todavia, não tínhamos compromissos com o tempo, aliás, não tínhamos compromisso com coisa nenhuma, tempo era o que tínhamos de sobra. A caminhada vai seguindo, enquanto vamos tentando nos adaptarmos com o novo e desconhecido terreno, vendo o que é preciso ajustar nas cargueiras, testando o que melhor funciona, andar descalço ou com as papetes (chinelas de couro). Minha filha prefere se manter calçada, mas eu já havia pendurado as chinelas, achei que era menos atrito para os pés, mas não tinha certeza se seria mesmo uma boa ideia andar com os pés nus, era questão de tempo para ver o que seria melhor.
      No meu celular, um caminho previamente marcado para nos dar sempre um norte , uma direção, mesmo porque, o deserto do ano passado, não é mais o desse ano, as dunas mudam de lugar, as lagoas enchem ou esvaziam, novas surgem e outras desaparecem.
      Menos de 15 minutos depois, tropeçamos em outro lago, dessa vez com águas esverdeadas, ainda mais bonita que a anterior. Por enquanto, estávamos numa espécie de vale, um corredor entre grandes dunas que avistávamos ao longe e para lá fomos nos guiando, sempre cruzando por algumas pequenas lagoas, descendo ao fundo de algum vale que ligava uma lagoa à outra.
      Esperávamos uma caminhada dura, até meio enfadonha, subindo várias dunas até que uma ou duas horas depois, poderíamos aproveitar alguma lagoa, mas estávamos REDONDAMENTE ENGANADOS. Começamos a notar, que não se passava nem 15 minutos para que estivéssemos com o corpo, os pés e até o pescoço chafurdado dentro da água. A ficha começou a cair aos poucos, principalmente quando ao subirmos a encosta de uma grande duna, ela despencou vertiginosamente para dentro de uma lagoa do tamanho do mundo, donde bodes selvagens corriam de um lado para o outro, que ao notarem nossa ilustre presença, fugiam assustados. Eram lagoas não muito fundas, com muita vegetação, um jardim de possibilidades que iam transformando tudo que pensávamos a respeito dos Lençóis. O mundo não era só de areia e água como imaginávamos. Quanto aos bodes, ficamos sabendo que tinham donos, mas nasciam muitos sem o contato com humanos, ficavam lá, seres do mundo e seres do mundo não costumam ter donos, o mesmo que buscávamos nessa viagem, não ter donos, não sermos guiados por ninguém, seríamos viajantes ao sabor do vento, da água e da areia.

      Uma lagoa prateada é cruzada, uma verde-azulada deixada para trás, uma duna subida, para logo em seguida, um mundo de mais areia e água fazer com que a gente nos detivéssemos novamente. Aquilo era algo que nunca imaginávamos existir e por mais fotos e vídeos que tenhamos vistos dos Lençóis Maranhenses nesses últimos anos, nos custava acreditar naquilo que nos passava à frente dos olhos. Era o nosso cérebro tentando se adaptar a algo que lhe era estranho. O corpo parecia querer se aprumar para melhor compreender o que ali se passava e a cada passo que dávamos rumo ao interior do DESERTO MAIS MOLHADO DO MUNDO, nossa cabeça tendia a recalcular as mensagens recebidas.
      Com a caminhada deslanchando, começamos a ver que a dinâmica era sempre a mesma: Depois de uma lagoa, subíamos uma duna que era penteada com o vento, deixando suas costas duras e fáceis de subir, para em seguida, despencar para dentro de alguma lagoa, nenhuma igual a outra, cada uma com um cenário único, cada uma com uma cor própria. Eram lagoas rasas, fundas, grandes, pequenas, secas, com vegetação, com bode, sem bode, com alga, sem alga, era uma infinidade de possibilidade que em nenhum momento a caminhada se quer passava perto de ser monótona, pelo contrário, eram os adjetivos para classificar cada lagoa que iam escasseando do vocabulário.

      Ao meio dia e mais de 20 km de travessia desde que partimos lá de ATINS e umas 4 horas de caminhada de Canto dos Atins, paramos para um breve almoço junto a uma lagoa esverdeada com algas lindíssimas. Apesar do calor intenso, uma coisa é muito legal nos Lençóis, além de ventar um pouco, o que deixa o clima agradável, o próprio vento não deixa com que a areia fique muito quente a ponto de queimar os pés. Outro fenômeno que é incrível, é que a água não chega a ficar quente a ponto de incomodar, pelo mesmo fenômeno do vento que acaba resfriando-a um pouco e mantendo a areia do fundo da lagoa quentinha, então é a sensação mais incrível de bem-estar que se possa ter ao adentrar uma lagoa dessas. Você entra e se não se der conta, vai ficar lá para o resto da vida.
      O dia vai passando, as lagoas vão sendo cruzadas e são tantas e tão diferentes que fica difícil narrar aqui uma por uma. Depois das 13 horas resolvemos ir gastando nosso tempo em brincadeiras memoráveis, aqueles que largamos as mochilas e despencamos dunas à baixo , explodindo nas lagoas fundas. Aqueles eram momentos de pura diversão, de puro desapego , éramos dois perdidos no ócio, ligando pra coisa nenhuma , mas chega uma hora que é preciso começar analisar o tempo e a distância do oásis de Baixa Grande e percebemos que se quiséssemos dormir nele, precisaríamos parar e acelerar um pouco.
      Antes das 14 horas, um lago mais seco acaba marcando nossa virada definitivamente para OESTE, foi quando a Julia achou que daríamos conta de cumprir o roteiro completo do dia, mas eu já não tinha essa certeza toda não. Grandes dunas vão surgindo, o cenário vai ficando cada vez mais impressionante, o horizonte vai se pontilhando de lagoas para todos os lados e mesmo quando temos que descer até alguma mais seca, rios atravessassem grandes baixadas, num cenário de sonhos. Por vezes, encontramos lagoas mais profundas, que tinham que ser contornadas, mas eram raras as vezes que usávamos esse artifício, porque eu sempre procurava cruzar por dentro, carregando até a mochila da Julia quando pressentia que ela poderia ter problemas, deixando-a livre para nadar, caso fosse preciso.
      Mas, mesmo a areia não sendo muito fofa, chega uma hora que o corpo já começa a dar sinais de desgaste, afinal de contas, as 15 horas já fazia mais de 7 horas que estávamos envoltos em pernadas intensas, então tentamos apertar o passo com o objetivo de chegar há algum lugar onde pudéssemos vislumbrar a possibilidade de um camping. Cada passo que dávamos, cada lagoa que cruzávamos, não encontrávamos nada que nos deixasse satisfeito. Claro, poderíamos colocar nossa barraquinha em qualquer lugar plano, porque água não ia faltar, mas pretendíamos encontrar um lugar bem abrigado do vento, mas quando esse lugar era encontrado, era dentro de uma lagoa seca, então passávamos reto e seguíamos em busca do lugar perfeito.
      A gente começou a cruzar por cristas de dunas, onde algumas, com lagoas secas, parecia bocas de vulcões. Todas nos pareceu abrigadas, mas nós ainda buscávamos alguma com água dentro. Não que faltasse lagoas cheias, longe disso, não se passavam 15 minutos sem trombarmos com uma, mas nenhuma delas nos oferecia abrigo que esperávamos, até que numa curva de uma crista de areia branca, o lugar perfeito nos saltou aos olhos e nem precisou que consultássemos um ao outro sobre a possibilidade, nós dois sabíamos que aquele lugar era o mais perfeito possível. Uma duna gigante, uma lagoa rasa e de águas cristalinas, bem abrigada, num lugar lindíssimos, era tudo que eu sonhei quando resolvi planejar aquela travessia com uma cargueira nas costas, era aquele momento que eu esperava. Jogamos as mochilas ao chão e demos por encerrada nossa jornada naquele dia mágico. Eu estava no limite da minha capacidade emocional, mais um pouco e eu aumentaria aquela lagoa com lagrimas.

      Passava da 4 da tarde e o sol já estava nos preparativos para logo mais ir se deitar a oeste. Antes de mais nada, aproveitamos para tomar um belo de um banho, o centésimo quadragésimo terceiro daquele dia. Logo depois, aos pés da duna gigante, montei nossa barraquinha com a porta voltada para oeste, a fim de evitar que a areia das dunas entrasse pela porta.
      Me organizei para fazer uma boa de uma janta, mas antes, joguei para dentro da barraca nossos sacos de dormir, um trambolho inútil que serviu apenas para forrar o chão, já que a temperatura era extremamente agradável. Para cozinhar, levamos uma espiriteira (fogareiro a álcool), optamos por ele porque não é possível carregar gás no avião e não teríamos tempo de procurar em São Luís. O vento atrapalha um pouco, mas safo como sempre fomos, já tratamos de fazer uma cobertura com uma toalha e resolver a contenda. Enquanto o arroz cozinhava lentamente, minha filha foi tomar o derradeiro banho do dia e eu subi a duna para apreciar o pôr do sol.

      Do alto daquele monstro de areia, sentei-me confortavelmente e fui acompanhando o cenário ao meu redor. O sol derramava uma luz cintilante, deixando a lagoa mais abaixo, toda prateada. Dentro da lagoa, minha filha se esbaldava com a água quentinha e ao lado dela, nossa morada provisória insistia em me informar que estávamos prestes a passar a noite num dos lugares mais isolados do Brasil, longe de qualquer lugar habitado. O acaso, o destino, havia nos levado até ali e as chuvas da madrugada, que caíram torrencialmente e nos fez começar tarde aquela caminha, fazendo com que não tivéssemos tempo de atingir o oásis, acabou apenas por se tornar uma grande desculpa. Verdade mesmo, é que já tinha a intenção de viver essa experiência única no deserto com a minha filha e quando o tempo foi se esvaindo pelos dedos, por dentro eu fui comemorando a possibilidade de podermos acampar.

      O dia se foi, a noite caiu, jantamos e nos pinchamos para dentro da barraquinha. A temperatura continuou agradável e uma leve brisa continuou a soprar a noite, jogando fragmentos de areia na nossa casa. Por incrível que parece, alguns mosquitinhos apareceram, nada demais e foi só fechar o mosquiteiro para nos sentirmos confortáveis. A Julia apagou imediatamente, mas eu ainda fiquei um tempo remoendo emoções vividas . Dormi umas 7 da noite e lá para a 11, saí da barraca para apreciar uma lua cheia de encher os olhos. O deserto iluminado pela lua é qualquer coisa de sensacional, acho que essa é uma cena que nunca mais vou esquecer em toda minha vida.
      DO ACAMPAMENTO SELVAGEM ATÉ BAIXA GRANDE
      Foi uma noite de sono incrível. Às 6 da manhã, estávamos em pé, desmontando nossa barraca, enquanto nosso fogareiro fervia uma água para o café. O dia amanheceu quente, como amanheceria todos os outros e nuvens no céu não havia, somente um azul de encher os olhos. Partimos às sete e para variar, não deu 10 minutos para a gente ter que negociar a descida para uma baixada, com uma imensa lagoa de águas mirradas, mas com um cenário encantador, onde uma vegetação rasteira, cruzada por inúmeros fragmentos de rios, e ia nos dizendo que foi muito acertada a nossa decisão de ter acampado antes, já que ali era bem desprotegido, sendo varrido por ventos constantes, nada de mais, mas que poderia ter atrapalhado um pouco nosso sono.
      O cenário vai se modificando radicalmente, as dunas vão crescendo de tamanho e parece querer engolir tudo ao nosso redor, principalmente onde não havia lagoas e sim baixadas com aguas rasas e vegetações rasteias. É impossível narrar como são as infinitas lagoas nesse percurso, mas o que marcou, foram as areias mais consistentes, que nos fazia avançar rapidamente para os cumes das dunas, mas por outro lado, também tínhamos que despencar mais vezes nas areias fofas que desabavam para dentro de lagoas profundas, onde tínhamos que atravessar com a água acima do peito. Não que isso fosse problema, na verdade, era uma enorme curtição.

      Ao longe, uma lagoa rasa e com vegetação rasteira, abriga um grupo de BODES SELVAGENS, que ao menor sinal da nossa ilustre presença, fogem apressados para as dunas. Atravessar essas lagoas, requer um cuidado para não atolar a perna até os joelhos e perder suas chinelas ou, acabar machucando os pés em algum graveto maroto.
      Por volta das 10 horas da manhã, conseguimos avistar ao longe, a vegetação do oásis de Baixa Grande e essa é a primeira vez que vemos uma árvore em quase um dia e meio. São florestas de cajueiros, que nessa época do ano, estão sem frutos. O aparecimento de algo que nos remeta à civilização nos anima a apertar o passo e vamos caminhando, decididos a chegar na hora do almoço. Pelo caminho, vamos deixando inúmeras lagoas, atravessando a nado ou rodeando, quando assim desejamos, parando vez ou outra para um bom banho demorado, afinal de contas, somos passageiros do ócio, não temos muito compromisso com o tempo, mesmo porque, nosso almoço é quando a gente quiser.

      Às onze da manhã, somos obrigados, pela força da beleza, a parar, jogar nossas mochilas ao chão e apreciar uma LAGOA VERDE CLARA, onde uma árvore seca a transforma numa atração imperdível. Com águas extremamente transparentes e quentes, por lá ficamos, extasiados pelo momento, como se pedíssemos para o tempo parar e para nos congelar ali mesmo.


      O oásis estava perto, mas não víamos nenhum sinal de habitação humana. A barriga já estava roncando, mas resolvemos que nosso almoço seria no povoado, então aceleramos. Os cajueiros foram aparecendo, mas a gente se enroscou para conseguir achar as trilhas que adentra definitivamente e rodamos um pouco, perdendo e achando trilhas. Adentramos no oásis, margeando um rio e só depois de cruzarmos para o outro lado, foi que percebemos uma estradinha/trilha de areia que nos levou para o centro da vegetação, saindo bem em frente a casa do seu Moacir, finalmente no OÁSIS DE BAIXA GRANDE.

      Já passava do meio dia. Bodes, porcos e galinhas, circulavam livremente ao redor do que mais me pareceu com uma aldeia indígena, do que com uma habitação. Mas logo somos recebidos pelo seu Moacir, que deitado na sua rede, embaixo de um barracão de folhas de buriti, nos convida para ficar . O preço por uma rede no redário é o mesmo, 50 reais com café da manhã. Mas naquele momento, nosso interesse era mesmo em um bom almoço e mesmo que a gente carregue comida e que possa cozinhar nosso próprio rango, não nos furtamos em pagar outros 50 reais por um prato feito, porque nós merecíamos.
      No deserto, as opções não são muitas e só havia frango, para gente, mais do que suficiente, ainda mais porque serviram muita comida, e sabedores de que tudo ali era escasso, tratamos logo de guardar o excesso para janta. Seu Moacir é um dos filhos do saudoso BRITO e nos disse que seu pai era o fundador de tudo aquilo, sendo dono de milhares de bodes, resolveu distribuir a família para cuidar do rebando e assim nasceria os povoados no meio do deserto.

      QUEIMADA GRANDE é um oásis no meio do nada e a casa do seu Moacir está um pouco afastado do vilarejo, que nem chegamos a conhecer. Umas casas simples, feitas de materiais simples, na sua maioria de folhas de palmeiras, mas o redário é bem construído, melhor que o alojamento de Cantos dos Atins. Com a pandemia, o turismo decaiu muito, segundo seu Moacir, tanto que praticamente ninguém havia chegado lá nesse mês de junho e eu e a Julia éramos os únicos hospedes deles. Internet não havia, estava com problemas há muito tempo. A luz vem de painéis solares, instalados há pouco tempo também. Como não tenho muita paciência para ficar só dormindo, levantei e fui passear pelas dunas ao redor, tomar banho num rio local, onde encontrei seu Moacir e a menina que trabalha com eles, lavando as redes. Acontece que, não os reconheci, porque o seu Moacir tinha tirado a barba e a mulher estava com um lenço na cabeça. Fiquei lá, fazendo perguntas sobre o povoado e ouvindo quase as mesmas coisas que já tinham me falado e quando resolvi falar que estava hospedado numa casa ali perto, seu Moacir saiu da moita: - Eu seu, sou o dono da casa e foi eu quem recebeu vocês. E a moça: -E foi eu quem cozinhou para vocês. ( hahahahahahahahahha). Passeio como doido, mas ainda sai no lucro ( rsrsrsrsrsrssrr)
      À noite, jantamos a sobra do almoço e fomos dormir sedo e deixamos combinado o café para 6:30 da manhã, porque achamos que não deveríamos madrugar, porque nosso próximo destino não estaria muito longe e pretendíamos alcança-lo lá pela hora do almoço. Dormimos muito bem, já que estávamos acostumados em dormir em redes, coisa que fazemos muito nas expedições à Serra do Mar de São Paulo.
      DE BAIXA GRANDE ATÉ QUEIMADA DOS BRITOS
      O dia amanheceu agradável, espetacularmente quente, mesmo sendo alto inverno, aliás, enquanto nos esbaldávamos com o calor nordestino, nossos conterrâneos do centro sul do pais, quase congelavam por causa de uma massa de ar polar. Tomamos café e partimos pontualmente às oito da manhã, passando por uma minúscula lagoa e já subindo do meio do oásis para as dunas, recomeçando nossa travessia, agora rumo ao oásis de Queimada dos Britos.
      Nossa jornada pelos Lençóis Maranhenses, já havia consumido quase 40 km de caminhada na areia, desde o povoado de ATINS. Oficialmente esse era o início do quarto dia de travessia e mesmo tendo optado por caminhar com cargueiras nas costas, ainda nos sentíamos muito bem, estávamos alegres e muito dispostos, ainda maravilhados com a paisagem. A Julia veio se comportando direitinho, sem reclamar e ao meu ver, parecia também muito envolvida com a empreitada, sem reclamar de coisa nenhuma, sempre uma companheira de primeira linha, atenta a tudo e palpitando na condução do roteiro, dando suas opiniões quando precisávamos decidir para que lado seguir, como cruzar as lagoas ou a melhor maneira de ganhar terreno sobre as dunas.
      E logo pela manhã, assim que subimos a primeira duna, já nos deparamos com uma grande baixada, onde um rio atravessava o nosso caminho. Esses rios são rasos, cruzam por dentro de grandes depressões, as vezes ligando uma lagoa à outra. A água varia muito, mas quase sempre são cristalinas ou assumem as cores das algas no fundo, num cenário muito bonito de ver e prazeroso de cruzar, com areia fininha. Aliás, as areias das dunas vão se alternando entre branca e branca feito neve, as vezes dura e compacta, outras vezes fofinha.

      Cruzar lagoas e subir dunas, vai sendo a tônica daquele dia, como seria a de todos os outros dias, mas não se engane, monotonia não existe e antes das nove da manhã, paramos para um descanso, que no caso se resume a ficar correndo sem mochila e se jogando de cima das dunas para dentro das lagoas, que hora são verdes, hora são azuladas, algumas mais rasas e outras profundas, emolduradas por plantas aquáticas, numa paisagem de sonhos.
      As vezes ficamos encantados e abismado com a capacidade da natureza de criar cores para as lagoas, que cansadas de serem só azul ou verde, começam a combinar com vermelho e amarelo e de repente, vira uma lagoa de múltiplas cores, um arco-íris de beleza, emolduradas por areias desenhadas pelo vento. Vamos perdendo a capacidade de achar adjetivos para homenageá-las, vamos embaralhando sentimentos, já perdemos noção do que é belo e do que é extraordinariamente belo e nossos olhos não se cansam, é um condutor de emoções, é através deles que vamos ampliando nosso arquivo de felicidade.

      Diferentemente dos dias anteriores, desde muito cedo, quando iniciamos a nossa caminhada, sempre tivemos ao longe a visão do nosso próximo objetivo, que sempre pareceu perto, mas só pareceu, porque no deserto, as distancias enganam muito. Mas às 10 horas da manhã, já vislumbramos a nossa chegada ao OÁSIS, mas antes de lá encostarmos, um trecho do caminho vai nos surpreender novamente: Uma mistura de rios, lagoas, baixadas e pântanos, vão nos fazer cair o queixo diante de um mosaico colorido impressionante. Aguas de todas as cores vão se juntando, mas dessa vez um rio na sequência de outro , com areias coloridas e algas, que vão formando outro mosaico , aquilo era bonito, aquilo parecia ir além das belezas , eu e a Julia estávamos novamente extasiados diante de tamanha diversidade.

       
      Havia chegado a hora de adentrarmos definitivamente no oásis, mas as coisas foram se complicando. Ao longe, vimos um grupo de pessoas sobre uma duna, calculamos uns 3 km da gente, mas como estávamos com o esboço da entrada da trilha no nosso gps, ignoramos a direção e começamos a navegar para dentro da vegetação, mas uma infinidade de rios começou a cruzar nosso caminho. Tentávamos escapar para todos os lados, mas as vezes éramos barrados por rios profundos ou com terrenos pantanosos. Sem desgrudar os olhos no gps , fomos nos perdendo para todos os lados, atravessando caminhos batidos, mas que no fim, não nos levaram há lugar nenhum. Tentei forçar a passagem pela vegetação, mas foi impossível passar, porque os cajueiros não estavam a fim de facilitar nossas vidas. O tempo foi passando e a gente preso num labirinto de vegetação rasteira, onde jardins de plantas carnívoras acabavam nos alegrando os olhos, até que achamos uma passagem entre uma duna e outra, que nos levou para uma estradinha de areia.

      Achar o caminho de areia foi realmente um alívio, mas estava longe de nos levar para dentro da Queimada dos Brito. Por um tempo até que achávamos que nossa missão estaria cumprida, mas logo tivemos que rever nossa euforia. A estradinha começou a atravessar uma lagoa atrás da outra. Atravessávamos meio que pelo rumo, com a água pela cintura, sempre tentando encontrar a sua continuação do outro lado. Mas às vezes era angustiante estar dentro de uma lagoa enorme, de águas turvas e não saber para onde ir e como nem tudo é ruim que não possa piorar, perdemos completamente a direção e nosso caminho se enfiou num oceano, fim da linha para a gente.

      Fizemos uma pausa para analisar o mapa e a trilha protada no gps, mas nosso caminho não mais existia. Estava claro que na época das chuvas o terreno muda, rios e lagoas tomam conta de tudo e o que outrora fora uma estradinha, hoje não mais existia e agora jaz no fundo das aguas. Vasculhei ao redor, tentei forçar passagem novamente pelo mato, mas não havia mesmo sinal de caminho. À nossa frente, uma ”lagoa oceânica” e sobre o topo de uma duna, 500 metros de onde estávamos, uma casa nos acenava como vestígio de civilização. Não havia o que fazer, havia chegado a hora de por em pratica alguma ideia estúpida e quando olhei para minha filha, com cara de deboche, ela já sabia que íamos nos enfiar em encrencas.
      Apesar da situação complicada, estávamos como ótimo estado de espírito e fazíamos piadas sobre a possibilidades de cobras e jacarés. A julia se segurou na minha mochila e fui nos guiando, tentando nos manter sempre com a cabeça fora da água, mas orientando a Julia sobre a possibilidade de soltarmos as mochilas e nadarmos. A temperatura da água estava excelente e mantive o foco, sempre mirando a casinha no alto de uma duna, do outro lado da lagoa. Avançamos bem e teríamos cruzado por dentro d’água, mas uma saída à direita conseguiu nos levar de volta para uma trilha de areia, que margeava a lagoa e surpreendentemente nos desovou bem em frente a uma casa, onde nos pareceu ser um alojamento, já que mais parecia uma maloca de índios, com alguns redários e foi aí que descobrimos ser ali a casa do seu Raimundo e da D. Joana, enfim QUEIMADA DOS BRITOS.

      Seu Raimundo era irmão do seu Moacir lá da Baixa Grande, portanto filho do seu Brito, o fundador de tudo aquilo ali. Quando lá chegamos, encontramos um casal de turistas que haviam chegado ali de quadricículo, vieram para uma expedição fotográfica junto com um guia e mais uma vez, não encontramos ninguém fazendo a travessia a pé, eu e a Julia éramos os únicos e claro, causamos espanto em todos quando souberam que estávamos por conta própria e com uma mochila gigante nas costas.
      O alojamento ali era bem estruturado e bonito, ainda que extremamente simples e os preços eram os mesmo de todos os outros, os mesmos 50 reais para rede e para a comida. Novamente decidimos não cozinhar, estávamos varados de fomo, com o estomago lá nas costas e nos demos esse presente, já que a comida também era agradável, mesmo que não passasse de um peixinho frito, arroz, feijão e uma saladinha.
      Havíamos enfrentado um dia difícil, complicado em termos de navegação, mas estávamos ali, sentados à mesa e com uma comida quentinha a nos alegrar a alma. Foi um dia incrível, com paisagens de sonhos e eu estava imensamente satisfeito de estar ali com a minha filha, num fim de mundo , no centro selvagem do deserto mais molhado do mundo e a minha felicidade transbordava, eu estava justamente onde queria estar, fiz tudo para estar ali, a vida me trouxe até ali , não tinha o direito de reclamar de nada, mas tinha o direito de chorar, extremamente emocionado pelo momento único.
      Depois do almoço saímos para conhecer o povoado de QUEIMADA DOS BRITOS e também já ir nos familiarizando com o caminho que nos levaria para fora do oásis no dia seguinte. Seu Raimundo nos contou que as dunas estavam avançando e que mais uma vez teriam que se mudar de lá, mas que já estavam acostumados. O povoado em si não tem muitas casas, talvez uma dúzia ali nos Britos e mais uma dúzia 1 km à frente, que é onde se diz ser a Queimada dos Paulos, mas o seu Raimundo diz que é invenção do povo e que tudo aquilo pertence a queimada dos Britos e que não tem nada de Paulo não.
      Nossos aposentos no alojamento da D. Joana (mulher do seu Raimundo), não passou de uma rede, instalada cuidadosamente numa espécie de oca circular, feita de troncos de cajueiro e palha de Buriti, um charme rustico. Além dessa espécie de oca, ainda há um grande galpão que serve de redário, que é justamente onde estão o casal de turistas e o guia. Aliás, o guia quis tirar uma casquinha, oferecendo para levar nossas mochilas no quadricículo, para o próximo destino, para o próximo oásis, mas recusei imediatamente, mesmo vendo que minha filha já estava com os pés bem machucados e que o dia seguinte seria o maior trecho que teríamos de percorrer. Talvez fosse um pouco de orgulho, mas tinha em mente atravessar o deserto com minhas próprias pernas, carregando minhas próprias coisas e não ia fraquejar agora, quando só nos faltavam 2 dias, nem que eu tivesse que carregar duas mochilas nas costas.
      DE QUEIMADA DOS BRITOS ATÉ BETÂNIA
      Às cinco da manhã, nos pomos de pé, tomamos café e partimos às seis, quando o sol deu as caras. Pegamos um atalho para fugir do rio, que nessa época do ano tomou conta da estradinha de areia, nos fazendo cruzar por uma ponte de troncos, que nos leva diretamente para o centro da aldeia. A estradinha cruza no meio das casas, onde ajudamos um bode a se livrar de uma rede de pesca. À frente, passamos pela escola que homenageia o seu Manoel de Brito e logo em seguida pelo pequeno cemitério. Um km depois, adentramos em QUEIMADA DOS PAULOS, onde está o caminho que vai nos devolver novamente para o deserto de areia, primeiro seguindo por um caminho sinalizado para algum veículo eventual, mas logo o abandonamos e nos enfiamos em definitivo no mar de dunas e lagoas, estávamos novamente envoltos a nossa própria solidão.
       
      Nesse quinto dia de caminhada, teríamos pela frente nada mais nada menos que 20 km de dunas , areia e lagoas e estávamos plenamente conformados de que seria um dia duro, talvez o mais duro de toda a travessia, mesmo assim, havia qualquer coisa de mágico no ar , porque havíamos ouvido falar que esse trecho era o mais bonito de todo o roteiro, mas não conseguíamos imaginar como poderia ser isso, já que na nossa cabeça , estava difícil pensar que ainda teria algo para nos surpreender, tamanha a beleza que já tínhamos presenciado nesses 4 longos dias.
      Logo de cara, uma lagoa gigante se apresenta. Não era uma lagoa muito fundo, mas daquelas que requer cuidado porque poderia haver algum buraco e como a Julia ficou com receio de atravessar e se dar mal, coloquei a mochila dela na cabeça e passei com as 2 mochilas, mas não foi algo fácil, já que era uma lagoa com uns 500 metros e andar dentro da água com 2 mochilas não é lá algo muito confortável, além do mais, tinha sempre que fazer um esforço enorme para não afundar e acabar sofrendo risco de afogamento. Poderíamos ter dado a volta, mas isso nos custaria tempo e mais esforço numa areia extremamente fofa. Para diminuir o trecho e tomar um fôlego, fomos usando as ilhas no meio da lagoa como porto seguro, para descansar e enfrentarmos o próximo trecho.
      As dunas vão crescendo de tamanho e como nada no deserto parece não ser insuperável, a areia foi mudando de cor e se transformando em um branco de doer os olhos, num fenômeno impressionante, a tal ponto da gente perder a noção de distância e profundidade e quase acabar despencando várias vezes em verdadeiras bocas de vulcões, poços de areia sem água. A cada duna subida, a cada lagoa atravessada, a paisagem ia se agigantando, como se as montanhas de areia quisessem engolir o mundo.

      O dia vai passando e é impossível contar quantas lagos diferentes testemunharam nossos pés, quantas dunas de areias foram subidas por nós, muito porque , dizem haver 36 mil delas espalhadas por um território tão grande que caberia toda a gigante cidade de São Paulo e ainda sobraria espaço e como eu havia dito, era impossível que se passasse mais de 15 minutos sem termos que cruzar uma lagoa, seja com a água pela canela, seja com a água no pescoço ou mesmo com algumas confinadas em verdadeiros poços, o que as tornam um espetáculo à parte.
      Esse quinto dia estava excepcionalmente mais quentes que os outros, talvez fosse impressão nossa, já que esse era um dia longo, com um desgaste um pouco maior, mas no horizonte, nuvens negras já pairavam sobre nossas cabeças, anunciando que a tarde não escaparíamos de uma boa chuva. Por isso mesmo, puxei a fila, apertei o passo, não poderíamos dar bobeira. Mas o dia vai passando e mesmo que já tenhamos o próximo oásis na nossa visão, temos plena consciência de que ele ainda se encontra numa distância considerável.
      Outro fenômeno que vai nos chamando a atenção, são os pássaros que ao nos ver, vão dando rasantes sobre nossas cabeças, na tentativa desesperada de proteger filhotes e ninhos. Essas pequenas coisas vão nos distraindo, vão fazendo o tempo correr e mesmo que estejamos apreensivos com uma possível tempestade no final de tarde, nunca nos furtamos de nos enfiarmos de cabeça nas lagoas transparentes e lá ficarmos, até acharmos que é hora de partir para outra lagoa, num ciclo que se repete a cada 15 minutos, fazendo com que estejamos sempre de bom humor , sempre felizes pela oportunidade que a vida estava nos dando, mas uma hora foi preciso descer para o mundo real, porque o nosso maior pesadelo veio sorrir para a gente.
      Estávamos há menos de 2 horas de caminhada da entrada do próximo oásis, quando o vento começo a urrar, soprar velozmente, levantando poeira para todos os lados. No horizonte, nuvens negras ameaçadoras faziam derramar uma atmosfera de água, a coisa começou a ficar feia. Atravessamos uma grande baixada, onde uma lagoa rasa era pontilhada por pequenos arbustos mortos. Não havia tempo para mais nada e infelizmente, eu nem mesmo sabia o que fazer diante da situação ameaçadora que se apresentava à nossa frente. Não havia para onde correr, éramos apenas espectadores passivos de um show de horrores, onde uma guerra de raios era travada no céu. Não havia tempo nem para montarmos nossa barraca e minha única ação foi tirar nossas capas de chuvas da mochila e esperar que a sorte fizesse com que passássemos ilesos pela tempestade. A água caiu com gosto, mas surpreendentemente não durou mais que 10 míseros minutos e do mesmo jeito que veio, foi embora, desapareceu na imensidão do deserto e nos deixou novamente com nosso companheiro de jornada e nós três, eu , a julia e sol, descemos e subimos mais algumas dunas até nos posicionarmos numa montanha de areia bem alta e ter certeza de que a terra prometida, ao menos daquele dia, já estava ao nosso alcance , o OÁSIS DE BETÂNIA já quase poderia ser tocado com nossos pés.

      Lá embaixo, duas lagoas de águas transparentes nos convidam para ficar. O sol tomou conta de tudo e não havia nenhum vestígio da chuva. Como o oásis estava ali, a não mais que uns 30 minutos de caminhada, jogamos nossas mochilas no chão e nos entregamos mais uma vez ao ócio e só fomos embora porque nossas barrigas começaram a roncar. Do nosso lado esquerdo, uma área alagada nos chama atenção e por um momento quase pensamos estar no PANTANAL. Avistamos uma prainha de rio, onde muitos veículos 4x4 estavam estacionados, os tais pau de arara de luxo e aí começamos a entender que esse oásis é onde os turistas conseguem chegar motorizados. Pois bem, para entrar no povoado é preciso que se atravesse o grande rio ALEGRE, pagando-se uma pequena quantia que deve girar em torno de uns 10 ou 15 reais, como haviam nos dito, mas antes mesmo de chegarmos no lugar onde se pega uma canoa, fomos interceptados por um pequeno barquinho a motor que nos ofereceu uma carona até o RESTAURANTE E REDÁRIO NOVO HORIZONTE.
      Esse estabelecimento fica um pouco afastado do povoado, não muito, mas como estamos na época das cheias, tudo em volta parece estar embaixo d’água e como eu disse, se você não se situar bem, vai pensar que está dentro do Pantanal. Já passava das três da tarde e a maioria dos turistas que foram ao restaurante, já haviam se mandado, mas ainda havia comida e mandamos ver um “PF” de peixe e camarões gigantes, com custos muito menor que a comida dos oásis anteriores, chegando a pagar 35 reais, mas como ali há muitas opções, era só procurar para achar preços ainda melhores, afinal de contas, o cartel estava quebrado pela concorrência e até as redes conseguimos alugar por 40 reais, num lugar tranquilo e aconchegante.

      DE BETÂNIA ATÉ SANTO AMARO DO MARANHÃO
      BETÂNIA, como os outros povoados é minúsculo, mas a gente nem chegou a ir no meio das casas, como eu disse, tudo alagado e também aproveitaríamos o barco do restaurante que nos levaria de volta sem nenhum custo. O Percurso Britos x Betânia é sem dúvida um dos mais duros e longo dessa travessia. A Julia estava com os pés em frangalhos, além das bolhas, sentia muitas dores por causa da repetição de movimentos, como se você ficasse o tempo todo dando pequenas batidinhas na areia dura e isso durante 5 dias seguidos, chega uma hora que o pé vai colapsar. A grande maioria que faz essa travessia, chega em Betânia e contrata uma das dezenas de caminhonetes que passam por lá todos os dias trazendo e levando turistas e poderíamos tranquilamente ter feito o mesmo, mas a gente se recusava a sair dali motorizados, nem que tivéssemos que nos arrastar de joelhos na areia até o final.
      Eram pouco mais de sete horas da manhã, quando o barquinho nos deixou em terra firme, bem do outro lado do rio, em frente à entrada ou saída do vilarejo. Tomamos a larga trilha de areia e em alguns minutos já estávamos novamente na mesma prainha onde ficam estacionados os jipes e caminhonetes 4x4. Passamos por eles, sob o olhar incrédulo dos turistas que por lá estavam, como se eles quisessem nos perguntar, para onde diabos iríamos com uma cargueira enorme nas costas. Deixamos definitivamente a civilização para trás e nos metemos nos caminhos dos jipes, descendo e subindo dunas, voltando a nos maravilharmos com lagoas cada vez mais espetaculares, mas numa curva do deserto, se é que deserto tem curva, fomos obrigados a logo pela manhã, pinchar nossas mochilas na areia e aplaudir de pé, mas as vezes aplaudíamos de cabeça para baixo, quando escorregávamos para a LAGOA AZUL E VERDE.

      Aquela lagoa ia além da nossa capacidade de achar as coisas bonitas. Não importa quantas lagoas havíamos visto, não importa que havíamos nos deslumbrados com centenas de paisagens incríveis, não sei porque, mas a gente ficou hipnotizado por ela, talvez nem fosse a mais bela do roteiro, mas estávamos fragilizados por ser o último e derradeiro dia daquela travessia. Era uma lagoa um pouco mais funda, principalmente na borda, onde a duna despencava para dentro d’agua e aí não teve jeito, ficamos brincando de correr e se jogar para dentro dela, duas crianças brincando no parque de diversão.
      Nesse último dia de travessia, como sabíamos que era um trecho curto, resolvemos não nos preocuparmos com o tempo. Decidimos apenas caminhar, apenas andarmos, um pé à frente do outro, fomos curtindo cada metro de areia, quando nos dava na telha, parávamos por um longo tempo e ficávamos imersos nas lagoas. Quando queríamos ganhar terreno, usávamos os caminhos dos jipes, sempre tomando cuidado para não sermos atropelados por um, já que as vezes caíamos em pontos cegos nas dunas, onde ninguém via ninguém. Aliás, toda vez que um jipe passava lotado de turistas, nós éramos a atração, ficavam apontando o dedo para gente, dois minúsculos pontos vagando pelo deserto ou éramos reverenciados, como símbolos de persistência e determinação. E não era de se estranhar mesmo tal comportamento, já que em quase uma semana, jamais vimos outro grupo fazendo esse roteiro a pé e tão pouco encontramos outros caminhantes por onde passamos e dormimos e olha que estávamos na alta temporada dos Lençóis.
      As lagoas vão se sucedendo, enquanto o sol vai se posicionando no meio do céu. Eu e a Julia vamos nos arrastando, vagarosamente. A julia mais ainda, devido as dores nos pés e conforme o tempo vai passando e vamos comendo quilometragens, parece que o corpo vai desacelerando, sabendo que o fim está próximo. Continuamos alternando o caminho dos jipes e a rota das lagoas, muito porque, o caminho dos jipes também passava por lagoas espetaculares, só não havia a necessidade de termos que cruzar por dentro delas, mas como passava colado, não nos furtávamos em nos jogar para dentro da água e lá ficávamos até a pele descolar dos ossos.
      Como essa parte da travessia passa pelas bordas dos Lençóis, vamos encontrando pelo caminho, placas que vão sinalizando, além do lugar onde devem passar os jipes, (já que podem despencar facilmente de uma duna de uns 50 metros de altura), mas também algumas lagoas turísticas, as poucas com nomes, das mais de 36 mil que existem por lá. Ao longe, uma antena nos indica que Santo Amaro já está na nossa mira, mas ainda muito distante, onde um vai e vem de veículos aparecem e desaparecem sobre as grandes dunas e vão nos dando a direção a seguir, nos facilitando a vida e nos fazendo planejar atalhos, que encurtam nossa jornada.
      Miramos a Antena e traçamos uma rota para ela, cruzando baixadas alagadas, subindo outras tantas dunas, dando tchauzinho para a turistada motorizada que passavam constantemente por nós, até nos desviarmos do caminho em favor de uma placa que marcava uma lagoa famosa. Às 11:30 estávamos na PISCININHA, uma lagoa incrível, não muito funda, mas com uma transparência única. Largamos tudo e corremos para dentro dela, sabedores que essa seria nossa última parada, oficialmente nosso último mergulho, nossa despedida final. E por lá ficamos, imersos, curtindo o que de melhor essa vida pode nos proporcionar.
      Nos levantamos e partimos, agora imbuídos de chegar, sem pressa, mas com determinação. Uma lagoa profunda se apresenta à nossa frente, mas bastou margeá-la para encontrar uma passagem, virar à esquerda e ganhar o km final, até tropeçarmos numa placa que marca a ENTRADA PARA DOS LENÇOIS, no nosso caso, a SAÍDA. Ganhamos a rua de areia, atravessamos um riacho e já demos de cara com uma BASE MUNICIPAL que fiscaliza os veículos 4x4 para saber se são cadastrados, CHEGAVA AO FIM NOSSA JORNADA PELOS LENÇOIS MARANHENSES, o mundo feito de DUNAS, AREIAS E AGUAS, acabava de ficar para trás.
      Antes de começarmos esta travessia, ainda em São Paulo, tentamos angariar informações sobre a necessidade ou não de sermos obrigados a contratar um guia ou sobre as restrições de se acampar no meio do deserto. Não encontramos nada e nem ninguém que nos dissesse o contrário, mas mesmo assim, ficamos preocupados o tempo todo de sermos barrados, não no meio do deserto, mas no início ou no final da caminhada. Então, quando vimos a base, ficamos receosos de sofrermos alguma sanção, mas com a cabeça firme e o olhar confiante, chegamos até a base e lá encontramos uma mulher, que mal olhou na nossa cara, quando demos um sonoro, BOA TARDE. Passamos ilesos e não demos outras satisfações, mas alguns metros depois, encontramos uma placa que nos esclareceu todas as nossas dúvidas: Na placa do próprio Parque Nacional, um monte de ícones nos dão aval para caminhadas, travessias , mergulho, fotografia, canoagem e acampamentos e só restringem fogueiras, jipes e motos não credenciadas , portanto, toda a nosso jornada estava dentro da lei , mas se o mundo de areia chegou ao fim às 13 horas da tarde, ainda nos faltava mais de uma hora de caminhada até o centro da cidade.

      Aquele era um dia quente, talvez o mais quente de todo a nossa travessia. A Julia capengava, quase não conseguia mais andar e até eu comecei a sentir uma cólica de rim, consequência de uma pedrinhas mal tratadas. Ganhamos o calçamento empoeirado. As ruas quase desertas, de um povoado meio que beirando um fim de mundo, ainda que um tanto grande. No caminho, tentávamos achar uma birosca para nos hospedar , mas não encontramos nada que nos interessasse e depois de perambular por mais de uma hora, ganhamos o que nos pareceu ser a avenida principal e ao vermos uma placa de restaurante, viramos a direita antes da praça central e quando lá chegamos, descobrimos que além de um lugar para se comer alguma coisa, também servia de alojamento e aí não tivemos dúvidas, encerramos nossa travessia oficialmente, SANTO AMARO DO MARANHÃO havia sido conquistado, MISSÃO CUMPRIDA.
      Almoçamos e fomos até o centrinho da cidade para comemorar nossa travessia com muito sorvete a base de frutas locais, além de agendar a volta para São Luís. E é preciso mesmo ficar atendo a isso, porque quase não há lugares disponíveis nas vans que partem geralmente uma vez ao dia e quase sempre de madruga, tipo quatro ou cinco da manhã. À noite, ficamos de bobeira, apenas descansando e curando as feridas, mas ainda extasiados com a aventura vivida nessa última semana e como no outro dia teríamos que acordar com o cantar do galo, fomos dormir sedo e se a caminhada havia terminado definitivamente, ainda sabíamos que nossa jornada por terras maranhenses estava apenas no começo, hora de conhecer a capital do Estado e dar um pulo na histórica Alcântara, mas essa é uma outra história, um longa e deliciosa história.
      Nessa vida, já tive a oportunidade de conhecer grande parte dos Estados do Brasil. Subir quase todas as grandes montanhas, viajar por quase todo o litoral. Já me enfiei em quase todas as Chapadas brasileiras, fui há lugares onde poucos já estiveram, pelo acesso difícil e complicado. Estive em dezenas de Parques Estaduais e Nacionais. Viajei por vários países da América do Sul, desde o norte da Patagônia, passando pelos desertos do Chile, altiplano boliviano, Cordilheira Branca no Peru, lugares históricos e de relevância mundial e apesar de serem lugares deslumbrantes e diferenciados, nenhum deles conseguiu me cativar quanto os Lençóis Maranhenses, mas tem um, porém, essa beleza toda tem que ser sentida, vivida intensamente, é preciso que a pessoa se desapegue das comodidades da vida moderna e se lance numa das mais incríveis caminhadas do Brasil. Será necessário sair da zona de conforto e se organizar para poder atravessar um dos desertos mais molhados do planeta, para sentir o quão isolado um ser humano pode estar, para sentir a essência do vazio espacial, mergulhar num mundo feito de areia e água, mas com uma diversidade inigualável e só assim poderá descobrir a grandiosidade dessa caminhada, que faz dos LENÇÓIS MARANHENSES, a mais SENSACIONAL travessia do nosso continente.
       
       
       
       
       
       
    • Por Renato37
      Travessia feita entre os dias 27 a 29/09/2013.
       
      Album completo com todas as fotos da travessia no link abaixo:
      https://photos.app.goo.gl/X6M4hGU39KwJ3uxF7
       
      1º Dia
       
      Já passavam das 5:00h qdo lá estava eu, saltando do metrô com destino a area de embarque/desembarque do terminal rodoviário do Tietê, onde encontrei o Clovis e o Idolo já a minha espera. As 5:25h nos vemos ganhando a Ayrton Senna em uma viagem que levaria cerca de 4 horas até o acampamento Base Marins, local onde deixaríamos o carro e onde se inicia a trilha que sobe o pico dos Marins.
       
      Após uma viagem tranquila, chegamos em Piquete por volta das 7:30, onde fizemos uma rápida parada para um café da manhã reforçado e tb encontramos o Michel, conforme combinado previamente. Ele iria vir no carro do David e nos encontraria direto na base do Marins, mas que por conta de imprevistos de última hora, o David abortou a travessia e o Michel teve que vir de ônibus até Cruzeiro e depois pegar outro até Piquete. Para a sorte dele, havia uma vaga sobrando no carro do Clovis...
       
      Feitas as devidas apresentações e após degustar nosso desejum, partimos serra acima, em meio de uma manhã fria e totamente encoberta de 11ºC com uma leve garoa, que dava a impressão que o tempo não iria abrir. Lero engano. Bastou terminar a sinuosa subida da serra em direção a Delfim Moreira que as nuvens e a garoa rapidamente deram lugar a um belo céu azul com o astro-rei brilhando com força total, para a alegria de todos. Na verdade, as nuvens haviam ficado embaixo. Porém, como nem tudo é flores, fomos parados numa blitz policial, onde nos revistaram da cabeça aos pés como se fossemos suspeitos, pegaram os documentos do Clovis e eu tive a leve impressão que pareciam estar procurando algum motivo para nos enquadrar.
       
      Porém, bastou o clovis entregar seu documento da OAB junto com a CNH, que os policiais rodoviários logo mudaram o tom da abordagem, nem pediram para abrir as cargueiras (eu achava que iriam querer abrir as cargueiras, ai iria levar mto tempo para arrumar tudo depois), mas felizmente não o fizeram e logo fomos liberados. Vantagem de estar acompanhados de um advogado, rs
      Sem perder tempo, saimos rasgando dali e num piscar dos olhos, adentramos a estrada de terra que leva a fazenda saiqui.
       
      Passamos por um mata-burro e tocamos em frente em direção ao acampamento base Marins. E após chacoalhar por quase 50 minutos, chegamos ao acampamento base as 8:55h, onde o Marco já nos aguardava. Curiosamente, não havia ninguém no acampamento base, só nós. Nem o Milton estava lá. Após ajeitarmos as cargueiras, alongar aqui, ali e acolá, pusemos pé na trilha pontualmente as 10:00.
       

      Pessoal no acampamento base Marins
       
      A subida até o morro do careca foi rápida, eu e o Marco chegamos lá por volta das 10:28h e os demais chegaram logo depois. No pit stop, nos presenteamos com a bela visão do colchão de nuvens no vale do Paraíba a qual deixamos para trás e após vários cliques, iniciamos a dura subida em direção ao chapadão, que fica na base do Pico dos Marins, local onde fariamos nosso 1º pernoite.
       

      No morro do careca
       
      Alguns minutos de caminhada do morro do careca, se chega a um descampado onde se encontra uma placa que indica as altitudes e que ali é o inicio "oficial" da trilha para o pico dos marins. Água está localizado seguindo por uma bifurcação a esquerda ao lado da placa e é a única de toda a subida. O ideal é pegar pelo menos de 2 a 3 litros, dependendo do consumo de cada um.
       

      Na placa que indica o inicio oficial da trilha para o Marins e a travessia. É, a caminhada até aqui era só um leve aquecimento, a trilha começa para valer mesmo a partir dessa placa....
       
      Cantis carregados e mochilas nas costas, passamos a placa e iniciamos "oficialmente" a trilha. Após passarmos por um curto trecho no frescor da mata fechada, logo emergimos definitivamente nos campos de altitude, onde o sol passou a nos cozinhar. É a partir dai que a moleza acaba e inicia-se a primeira longa subida rumo ao pico, que eu considero o trecho mais puxado de toda o trajeto até a base do Marins, principalmente por conta da trilha ser mto erodita ali. A subida é ardua, o sol já estava castigando, e só de olhar a pirambeira ingreme logo a frente, cansava até a vista.
       

      Subida em direção ao 1ºmaciço
       

      trecho de escalaminhada e trepa-pedra
       
      Embora tenha bem piores, como o Corcovado e a Pedra da mina (sem contar as subidas fortes da travessia da serra fina), a subida do Marins pode parecer uma subidinha de morro qualquer, mas mesmo assim, debaixo de sol forte não é brinquedo não....
       
      Com ritmos diferentes, o pessoal foi aos poucos, se distanciando uns dos outros. O Marco disparou na frente e eu estava logo atrás dele, enquanto os demais iam ficando para trás.
      Clovis trouxe 1 par de Walk-talks para nos comunicarmos, e disse que eu poderia seguir em frente e que não era preciso parar para esperar ele e os demais, se não quiser.
       
      Mas por conta de alguns trechos confusos como o labirinto, optei por fazer paradas mais longas para esperar e guiar o pessoal até passarmos pelo trecho onde a navegação é confusa e mais complicada, pois de todos, apenas eu e o Michel já haviamos subido o pico dos Marins antes.
       
      Nisso, o Marco já havia me avisado que continuaria seguindo na frente e foi questão de 20 minutos de paradas para aguardar os demais, que eu o vi bem distante, já lá em cima, virando a esquerda no trecho do 2º maciço em direção ao "funil".
       
      Depois de muita escalaminhada e subidão desgastante, as 14:35 finalmente cheguei ao trecho do chapadão, onde montei barraca numa area de acampamento na 1º base do Marins (e também referência para a bifurcação para a travessia) para o então merecido descanço. Nesse tempo, vi o Marco subindo em direção ao cume do Marins já de ataque, pois havia chegado lá meia hora antes de mim.
       
      Após montar minha barraca e forrar o estomago com um belo almoço regrado a arroz, feijão, purê de batata e atum, me limitei a permanecer ali descançando e aguardando os demais, que só chegaram bem depois, por volta das 16:20.
       
      No final do dia, só eu e o Clovis fomos ver o por-do-sol em um morro próximo a area de acampamento. Após todos estarem mais descançados, ficamos apreciando a bela noite estrelada e contemplando o prazer de donos absolutos do lugar, já que não havia mais ninguém ali e eramos os únicos acampados no local. Após as 21:00hs, todos se recolheram as suas respectivas barracas e logo capotaram, afinal, descançar era preciso, pois o dia seguinte seria bem mais puxado. A noite foi tranquila com frio ameno em torno de 04ºC e assim como os outros, logo peguei no sono.
       
       
      2ºDia
       
      O Sábado amanheceu com céu azul e livre de qualquer vestígio de nuvens, o que indicava que o dia seria igualmente aproveitavel com visão total de todo o entorno e do trecho da travessia. Com o cansaço do dia anterior, ninguém levantou para ir ver o nascer do sol no cume dos marins. Após um belo café da manhã, barracas desmontadas e mochilas nas costas, iniciamos a travessia para o Itaguaré as 7:55h. Pelo roteiro, tinhamos que sair da base do Marins até no máximo 8:00hs, por conta do tempo de percurso até o Itaguaré levar cerca de 7 a 8 horas em um ritmo relativamente forte e a ausência de pontos de água em todo o percurso.
       
      Aproveitamos para recarregar nossos cantis com a água na nascente que fica do lado do inicio da subida para o Marinzinho (no chamado "morro da baleia"). E novamente 3 litros são mais do que suficiente para todo o trecho.
       

      O trecho inicial da travessia sobe por esse morro em formato de "baleia".
       
      Iniciamos a subida do morro da baleia nos orientando por diversos totens pelo caminho até chegarmos a um trecho plano para então iniciar uma curta descida até uma area de "charco" em um pequeno vale, onde a trilha reaparece. Após passarmos pelo charco, iniciamos a ingreme subida do paredão do Marinzinho pela sua encosta esquerda nos guiando pelos totens.
       
      A trilha cruza obrigatóriamente pelo topo do Marinzinho . Durante a subida, vestígios de trilha vão aparecendo pelo caminho e fazendo um certo zig-zag para contornar os enormes rochedos que compõe o maciço do marinzinho até chegar ao primeiro cocoruto. De lá, se tem a 1ºvista do topo do marinzinho e ao chegar no topo, somos presenteados com a belissima visão do entorno e todo o trecho da travessia a percorrer até o Itaguaré.
       

      Subida do Marinzinho
       

       

      Area de "charco" na subida do Marinzinho
       

      Pico do Marinzinho a esquerda, Pedra redonda mais abaixo no centro e Itaguaré bem ao fundo
       
      Esse trecho não apresenta maiores dificuldades de navegação e após passarmos por uma area de acampamento (para cerca de 3 barracas) na base do Marinzinho, as 8:40 chegamos ao cume do ponto mais alto de toda a travessia, o Pico do Marinzinho na cota dos 2.432 metros de altitude. Ao chegarmos lá, aproveitamos para fazer nosso 1º pit stop para mastigar umas barras de cereais, molhar a goela e obviamente, cliques e apreciação da belissima vista de 360 graus e também do Marins visto de outro ângulo, que são de tirar o fôlego.
       

      Base do Marins vista da subida do morro da baleia (trecho inicial da subida do Marinzinho)
       

      Area de acampamento na base do Marinzinho
       

      Cume do Marinzinho
       
      O Pico do Marinzinho é o 1º pico da travessia sentido Itaguaré que se cruza e o último para quem vem no sentido contrário. No topo, há 2 placas indicando os caminhos e também a bifurcação para a pousada do Maeda. Se tiver problemas durante a travessia, pode abortar descendo por ali, que é uma rota de fuga.
       
      Após o pit stop, retomamos a pernada agora caminhando pela crista do cume do marinzinho, que é composto por enormes rochedos. Pouco antes de iniciar a descida em direção a pedra redonda, a trilha se enfia no meio de 2 enormes rochedos, o que nos obriga a passar engatinhando por baixo deles. Em meio de outras 2 rochas, há um local plano onde é possivel bivacar.
       

      Uma das belas vistas do topo do Marinzinho
       

      Pedra redonda em destaque, visto do cume do Marinzinho
       

      Trilha se enfia por baixo dessas 2 enormes rochas e continua do outro lado....
       

      Placa no cume do Marinzinho
       
      Após iniciar a descida, chegamos a borda leste do marinzinho, onde visualizamos o enorme vale que iremos descer e logo em seguida a subida e o trecho da crista até a Pedra redonda na sequencia, que parece estar perto, mas está a cerca de 2 horas de caminhada ainda. Continuamos a descida e ao chegarmos numa area de paredão, encontramos cordas estratégicamente instaladas p/ auxílio na descida.
       
      Há cerca de 4 cordas postas ali, a de cor vermelha é a mais nova. Dei uma testada nelas para ver se estavam bem firmes e ai comecei a descer. Vencido esse trecho, temos uma descida forte até o fundo do vale entre o Marinzinho e a Pedra redonda, que são de lascar. É que a partir desse ponto, os bambuzinhos aparecem e começam a enroscar na mochila, portanto, se estiver carregando isolante e barraca pelo lado de fora, tente coloca-los para dentro da mochila ou proteja-os de outra forma, senão os bambuzinhos e o capim elefante irão acabar com eles.
       

      Vista do enorme vale entre o Marinzinho e a Pedra redonda
       

      As cordas fixas para auxilio na descida do marinzinho
       

      Pico dos Marins visto do topo do Marinzinho
       
      Após atravessar o pequeno vale, iniciamos a subida em direção a crista da Pedra redonda. Porém, percebi que um dos membros do grupo estava em um ritmo mto menor que os demais, o que me deixou preocupado qto ao tempo que iriamos levar até o Itaguaré. Eu e o Marco estavamos na frente, enquanto outros 2 do grupo, ficaram acompanhando 1 dos rapazes que estava mais lento. Assim como no dia anterior, o grupo foi se distanciando uns dos outros, por conta do ritmo variado. Marco para variar, disparou e dessa vez, permaneci logo atrás dele, e após a subida do vale, as 11:40 já estavamos na crista, bem próximos da pedra redonda que já era visivel logo a frente.
       

      Descidão nervoso do Marinzinho....
       

      Caminhada na crista da pedra redonda com o marinzinho ficando para trás....
       

      Seguindo pela crista em direção a Pedra redonda
       

      Enfim, chegando a pedra redonda, que representa a metade do caminho...
       
      As 12:06 finalmente cheguei a Pedra redonda, só para constatar que na verdade, a pedra redonda não é redonda e sim uma enorme pedra rochosa em cima de outra maior com uma rachadura que parecem estar se equilibrando no topo a meio caminho. Fiquei mais tempo do que normalmente ficaria ali para aguardar um dos rapazes que estava mais lento e mesmo após 30 minutos ali, nada dele aparecer. Pelo roteiro, teriamos que chegar até a Pedra redonda com no máximo 3 horas e meia de caminhada a partir da base do Marins.
       
      Enquanto isso, encontramos com um grupo que estava fazendo a travessia só de mochila de ataque e haviam iniciado a subida as 7 da manhã no milton e pretendiam fazer a travessia no modo "light and fast", ou seja, de uma vez só, chegando no acampamento base Itaguaré no final do dia. Aproveitamos para trocar idéias com eles, enquanto descançavamos.
       

      Jararaca tomando sol na trilha
       

      Pico dos Marins visto da Pedra Redonda
       
      O papo estava bom, mas o tempo estava passando, o relógio já marcava 12:45 e com o tempo estourado em quase 1 hora, eu e o Marco conversamos e decidimos que seguiríamos em ritmo forte na frente porque vimos que só tinhamos água suficiente para chegarmos ao Itaguaré. Eu estava com pouco mais de 1 litro de agua + 500 ml de gatorade e o Marco com menos de 1 litro apenas. Avisamos os demais e seguimos em frente, mas tivemos que apertar muito o passo para recuperar o tempo perdido.
       
      A partir da pedra redonda, se inicia um longo trecho de descida em meio a enormes tufos de capim elefante. Tivemos alguns perdidos em alguns trechos da descida, pois em alguns pontos, a trilha torna-se invisivel e é preciso abrir caminho no meio dos tufos para visualizar a picada e assim, continuar seguindo em frente.
       

      Deixando a pedra redonda
       

      O trecho a percorrer visto da pedra redonda
       
      Nesse trecho o gps do Marco ajudou bastante, mas foi o farejo de trilha que mais fez diferença, pois quase não precisamos recorrer ao gps, o que nos economizou um tempo precioso. Eram 12:56 e a nossa frente viamos o Itaguaré e o pico das grutas parecendo estar próximos, mas ainda havia uma longa caminhada com 2 descidas e subidas de vales que nos separavam deles. Terminado a descida da pedra redonda e passado o trecho onde o capim é mais alto, a trilha fica mais visivel novamente o que tornou a navegação mais tranquila.
       
      Após subirmos um leve morrinho e passarmos por um trecho plano, a trilha fica mais demarcada e passa a seguir pela crista a esquerda, mas ainda com uma discreta descida (quase plana) em direção a base da Pedra redonda.
       

      Caminhando pela crista em direção ao Itaguaré
       
      Após chegarmos na base, passarmos pelo primeiro descampado para umas 3 barracas. A partir desse ponto, o terreno nivela de vez e a caminhada fica mais tranquila. A trilha segue em frente, porém com alguns trechos um pouco confusos, por conta de algumas bifurcações que não levam a nada. Caso entre em alguma dessas bifurcações, basta retornar e pegar o outro caminho.
       

      Uma das areas de acampamento na base da Pedra redonda
       
      Com o tempo bom e a maior parte da navegação no visual, eu e o marco fomos seguindo em frente a passos fortes até que as 13:50, passamos por outra area de acampamento desde a pedra redonda, essa bem maior que a anterior, que deve caber pelo menos umas 6 ou 7 barracas. Nesse ponto, era possivel ver todo o trecho de descida percorrido desde a Pedra redonda.
       

      o "pontinho" da Pedra redonda no alto (a esquerda) ficando para trás....
       
      Em alguns instantes, parava para olhar para trás para ver se conseguia ver os demais descendo pela encosta da pedra redonda, mas não conseguia ver, o que me fez supor que ainda estavam lá no topo aguardando...
       
      1 hora desde a Pedra redonda, passamos por outro descampado menor, para cerca de 4 barracas, porém com o problema de ser um pouco exposto aos ventos e como os demais, não ter água próxima. Após passarmos por esse último descampado, visualizamos logo a frente, os 2 vales que teriamos que vencer para alcançarmos o pico das grutas com o Itaguaré bem imponente a frente parecendo que estava "logo alí", mas ainda havia muito chão pela frente.
       

      Chegando na primeira descida de 2 grandes vales, que só de olhar, impressiona...
       
      Chegamos ao inicio da descida do 1º dos 2 vales e pensei: num creio, qdo olhamos do alto do Marins ou do Itaguaré, a gente não vê esses 2 vales e imagina que todo o caminho é feito pela crista com poucos trechos de subida e descida. Bem, a 1ºvez a gente sempre se surpreende mesmo. A vista dos 2 vales é muito bonito, mas o buracão é de impressionar ao mesmo tempo que só de olhar as 2 subidonas logo a frente cansava até a vista. Mas como as aparências enganam, tão logo iniciamos a ingreme descida do 1ºvale, a mesma não durou mto e já nos vemos subindo o outro lado.
       

      Após ter subido o primeiro dos 2 vales maiores entre a Pedra redonda e as grutas
       
      A subida, embora curta, era íngreme, com alguns lances de escalaminhada e alguns trepa-pedra, o que me fez parar algumas vezes para recuperar o folego. Em compensação, a trilha é bem demarcada nesse trecho e por isso, nosso avanço foi mais rápido. Nesses poucos minutos entre as 2 paradas, o marco disparou na frente e eu tive um outro perdido na subida do 1º vale, pois deixei passar uma bifurcação a esquerda que era a continuação da trilha. A que eu estava virou a direita e terminou em um enorme paredão sem continuação, o que me fez perder um certo tempo até me dar conta que deveria ter passado alguma bifurcação que era a continuação da trilha.
       
      Procura aqui, ali, acolá e nada....Na hora pensei: como uma trilha bem demarcada termina no nada assim? Provavelmente a bifurcação é discreta, por isso passou batido. E ainda um pouco preocupado por conta do horário e o cansaço da subida, joguei a cargueira no chão e resolvi descer um pouco a trilha para procurar melhor a bifurcação, com mais calma e sem o incomodo do peso nas costas. As pernas estavam um pouco bambas por conta de termos andado com relativa pressa afim de otimizarmos tempo, mas bastou um breve descanço e reencontrar o caminho para logo retomar a caminhada afim de alcançar o marco.
       
      Após a subida do primeiro vale, a trilha segue bem demarcada pela lateral esquerda de um cocoruto, onde vou contornando pelos rochedos evitando ganhar altitude. O trecho plano é curto e logo iniciei a descida do 2º vale, onde vi de longe o Marco terminando a subida. Durante a descida, tive outro perdido. A trilha vira para a direita e termina no nada, mas uma outra discreta bifurcação a esquerda sugere que o caminho é por ali, em curtos zig-zags. Por isso, se estiver sem gps, é importante ficar bem atento.
       
      Nos vales, o capim elefante e bambuzinhos, se misturam com vegetação mais típica de mata atlantica, o que me proporciona um alivio temporário no frescor da sombra da mata, antes de retornar ao alto da crista. A subida do 2º vale embora curta, não dura muito e logo me vejo emergindo de dentro da mata para o sol voltar a cozinhar minha testa novamente.
       
      As 14:55, estou novamente na crista já próximo da base do pico das grutas, no trecho final antes do Itaguaré. A partir dali, a caminhada fica mais leve e tranquila, pois as subidas e descidas de vales finalmente acabaram. Do alto, tive a bela visão dos 2 vales vencidos e da crista percorrida desde a Pedra redonda. E para meu alivio, visualizo o pico das grutas bem a minha frente e o Marco me aguardando sentado em uma enorme rocha junto com a galera que tava só de mochila pequena de ataque. Fiquei sabendo depois que ele os alcançou e ainda ultrapassou eles.
       

      Agora sim, Pico das grutas a vista e Itaguaré bem próximo....
       

      Pico das grutas e olha lá o Marco de boa me esperando (quem manda ser mais lento e ainda perder a trilha lá atrás? rsrs)
       
      Com o terreno nivelado e trilha demarcada, voltei a apertar o passo e as 15:18, passo por mais uma area de acampamento para cerca de 5 a 6 barracas na base do Pico das grutas, mas sem água próxima. Nisso, aproveito para tirar algumas fotos das enormes rochas que compõe o cume das grutas, e agora mais próximo do Itaguaré, reduzo o ritmo, pois sei que estou bem perto do final e pelo horário, havia recuperado o tempo perdido na primeira metade da caminhada até o Pico da pedra redonda.
       
      Do descampado, se tem uma bela visão do Itaguaré bem a frente, agora sim, bem perto, o que acabou dando um folego extra. Mais 10 minutos e alcanço as primeiras rochas do cume das grutas, onde reencontro o Marco, que já estava ali a quase 30 minutos me aguardando. Ah, se não fosse aquele maldito perdido lá atrás.....:quilpish::
       

      Clareira na base do pico das grutas
       
      Do pico das grutas até o acampamento na base do Itaguaré leva em torno de 50 minutos, então não me preocupo e resolvo fazer um pit stop mais longo para molhar a goela e apreciar a bela vista de todo o trecho percorrido com a Pedra redonda em destaque e o Marinzinho logo acima, com o Marins a esquerda bem distante. O pico das grutas é um cume composto por várias e enormes rochas que parecem que foram empilhadas umas nas outras.
       
      Em alguns trechos, tivemos que saltar de uma rocha a outra por conta de alguns buracos, mas nada demais. As 16:20 nos vemos descendo o último e curto vale em direção a base do Itaguaré e ainda teriamos um trecho chato da travessia para vencer.
       

      Enfim, chegando a base do Itaguaré
       
      Na última subida antes de chegar a area de acampamento do Itaguaré, chegamos a um trecho entre enormes rochedos, onde foi necessário tirar as mochilas e se arrastar junto com elas por dentro das fendas até o outro lado. Algumas setas indicam o caminho e ali lembra um pouco a bat caverna. Após emergimos do outro lado, continuamos a subida e chegamos a outro trecho onde agora a bola da vez foi içar as mochilas por cima das rochas e novamente se arrastar por baixo delas até o outro lado.
       
      Nessa parte, o Marco literalmente trepou a enorme rocha e conseguiu alcançar a parte de cima sem precisar se arrastar por debaixo delas. Eu não me arrisquei e optei por ir por baixo mesmo. Passado esse último trecho e mais 10 minutos, finalmente chegamos a bifurcação onde a direita sobe para o cume do Itaguaré, e a esquerda, desce até as areas de acampamento na base.
       
      Na bifurcação, existe uma seta apontando a direita indicando "Marins". Nesse ponto, já se avista as areas de acampamento e o pequeno valezinho logo abaixo, onde está o tão desejado e precioso líquido. O marco estava um pouco a frente e como não conhecia o caminho, pegou uma bifurcação errada e acabou subindo um pouco o morro, enquanto eu peguei a correta por já conhecer o local e logo me vi descendo rapidamente o vale. Vi ele lá em cima e dei um grito para orienta-lo qto ao caminho correto, pois as trilhas se confundem nesse trecho (se ele continuasse a direita, iria parar em um precipício)
       

      Passando pela bifurcação com a seta indicando "Marins"
       
      Então, as 16:50 alcanço o riachinho do Itaguaré e aproveito para recarregar meu cantil que estava quase vazio (só tinha cerca de 400 ml de água apenas). Marco chega logo em seguida e após nos fartamos do precioso líquido (a dele inclusive já havia acabado), retomamos o caminho e finalmente as 17:05 com 8 horas cravados de travessia desde a base do Marins, chegamos ao enorme area de acampamento na base do Itaguaré para literalmente, desabarmos ali. E para a nossa alegria, não havia ninguém acampado no local.
       
      Com isso, fomos donos absolutos do lugar. Nem precisamos dizer que comemoramos o sucesso da empreitada, afinal, mesmo com o tempo estourado, conseguimos chegar ao Itaguaré no horário limite previsto e ainda com sol. Pelo roteiro, nosso objetivo era chegar entre 16:00 e 17:00h, para ter tempo de montar as barracas com calma e ainda ir ver o por-do-sol.
       

      Enfim, no discreto riacho na base do Itaguaré, coletando o precioso liquido
       

      E finalmente, Marco e eu na base do Itaguaré para o merecido descanço
       
      O duro ali foi montar as barracas, pois as rajadas de vento estavam muito fortes naquele fim de tarde, o que de certa forma, já era o prenuncio de que o tempo iria virar naquela noite. Com isso, deu um certo trabalho para montar as barracas, mas sem grandes problemas. Os últimos raios do dia coloriam o alto do Itaguarezinho e o frio de altitude já se fazia presente, me obrigando a colocar uma blusa de moleton. Barracas montadas, marco literalmente desabou dentro da dele e nem foi ver o por-do-sol no cume do Itaguaré. Se bem que nem eu fui tb, estava exausto e como já havia visto em outras 2 ocasiões que ali estive, só pensei em comer algo.
       
      Mas mesmo assim, subi um morro do lado para ver se conseguia ver o pessoal vindo pelo alto do pico das grutas, mas nem sinal algum deles. Meia hora depois, começou a escurecer e imaginei que eles haviam decidido acampar em alguma das areas de acampamento entre a base da Pedra redonda e o das grutas. Só fiquei imaginando em qual deles. Então, desencanei e resolvi ir até o cume do Itaguarezinho para curtir o visual das cidades do vale do paraíba e também para ver se havia alguém acampado por lá, mas também não havia ninguém.
       
      Já mais descançado, fiquei só curtindo o céu estrelado e as luzes das cidades lá embaixo, no vale do paraíba. Já havia passado das 20:00hs e nisso, vi alguns relampagos bem distantes, o que era um prenuncio que estava vindo um temporal daqueles. E nessa hora eu só dava graças a deus por já estar no Itaguaré. Depois de curtir o local, desci até a base, preparei minha janta e fiquei fazendo hora dentro da barraca, enquanto a comida esquentava. Marco já havia capotado, os fortes ventos haviam cessado e o silêncio havia tomado conta de vez daquele belissimo vale na cota dos 2.260 metros de altitude.
       
      Mas nem tudo foi calmaria: Ao retirar alguns doces da mochila para pegar o feijão, arroz e a salada de atum, um camundongo (ratinho de altitude) veio fazer sua refeição. Pegou um pedaço de bolo que eu havia deixado de lado de fora e nisso, acabo sendo obrigado a joga-lo fora. Outro camundongo apareceu na sequencia com o mesmo objetivo e eu dei uma rasteira na grama, afim de assusta-los, o que deu certo, pois fugiram para dentro da mata e não voltaram mais, mas percebi que estavam na moita.
       
      Depois desse incidente, tomei alguns cuidados e guardei todos os alimentos bem embalados e dentro da mochila que estava dentro da barraca, fechando o ziper logo em seguida. Com isso, não tive mais nenhum incidente desde então.
       
      Após uma janta farta com direito a arroz, feijão, salada de atum, ervilha e batada com um belo sucão e alguns doces como sobremesa, entro na barraca, me enfio dentro do saco de dormir e logo pego no sono, mas que infelizmente dura pouco tempo, pois por volta das 22:30h, acordo com o barulho de trovões próximos e ao enfiar a cabeça para fora a barraca, vejo tudo encoberto e a visão totalmente prejudicada, com os primeiros pingos de chuva começando a cair. Então, volto para dentro do saco de dormir e em 10 minutos, a chuva veio forte, mas como já estava dentro da barraca, estou bem protegido e nem me preocupo, apenas fico aguardando os trovões pararem para então voltar a dormir.
       
      A chuva foi rápida e com o afastamento dos trovões, o silêncio logo voltou e ai então consegui pegar no sono novamente, imaginando que o resto da noite prometia ser tranquila. A maior parte até foi, mas no final da madrugada a calmaria foi quebrada por uma nova pancada de chuva, que veio mais forte que a anterior e me acordou de vez. Mas ainda assim, consegui dormir mais um pouco, pois ainda estava muito cansado do dia anterior e só queria ficar deitado.
       
       
      3º dia
       
      O Domingo amanheceu totalmente encoberto e chuvoso, ventava bastante e eu tive que ficar atento para possiveis infiltrações no interior da barraca com a chuva que havia começado as 4:30 e não havia parado até então. Eram 6:30 e a chuva estava mais fraca, mas ainda constante. Para os ventos, havia colocado rochas enormes em cima das estacas, afim de dar um reforço extra as mesmas.
       
      Como a previsão do tempo indicava, o tempo realmente virou no sábado para o domingo, então resolvi tomar meu café da manhã dentro da barraca mesmo, e já ir arrumando as coisas, afim de iniciar a descida tão logo desmontasse a barraca. Após tudo pronto, fiquei de boa dentro da barraca só com o isolante e até dei uma rapida cochilada, qdo o marco me chamou dizendo que a chuva havia parado, mas perguntando se eu iria descer agora ou se esperaria os demais chegarem. Isso porque, só nós estavamos acampados lá.
       

      Face oposta do Itaguaré
       

      A imponente serra fina vista do alto do cume do Itaguarezinho
       

      Acampamento na base do Itaguaré visto do alto do Itaguarezinho
       
      A chuva havia dado uma trégua, as nuvens estavam bem mais acima e por isso, não tivemos a visão prejudicada pela neblina. Mesmo sem o sol, pudemos nos fartar de fotos com direito até a subir o Itaguarezinho, afim de observar a bela vista do vale do paraíba com outras nuvens mais abaixo de nós, cobrindo boa parte das cidades. Eram nuvens em cima e embaixo, visão única e diferenciada.
       
      Descemos até o vale e resolvemos fazer um pouco de hora ali, para esperar os demais. Subi parte do Itaguaré, para ver se conseguia avistar o pessoal vindo. E após algum tempo, os vi bem distantes, emergindo na crista antes da base do Pico das grutas. Gritei para sinalizar e eles responderam. Mas ainda estavam muito longe, a cerca de 2 horas de caminhada de onde eu estava.
       

      Vale do Paraíba visto do alto do cume do Itaguarezinho
       

      O amplo cume do Itaguarezinho, um dos 2 picos menores que compõem a base do Itaguaré
       

      A esquerda, Itaguarezinho, a direita vista do vale do Paraiba sentido Rio
       
      Desci e avisei o marco que avistei o pessoal, mas que estavam muito longes ainda. Como já havia passado das 10:00h e havia combinado com o resgate para nos esperar entre 12:00 e 14:00h, aliado ao fato de que estava começando a chover de novo, resolvemos descer na frente. Para esse trecho final da travessia, 1 litro de água é o suficiente (e que já havia pego no dia anterior), então nem me preocupei, pois sei que lá embaixo, há 3 pontos de água potavel.
       

      Trecho final da travessia visto da base do Itaguaré. Destaque para o Pico das grutas a direita
       
      No inicio da caminhada ainda pela crista, o vento voltou a ficar forte o que dificultou bastante a caminhada, ainda mais com chuva fraca, mas assim que desescalaminhamos a enorme pirambeira da rocha que compõe o pico menor, logo mergulhamos na floresta, onde os campos de altitude deram lugar a mata atlantica e a descida passou a ser feita por trilha bem larga e batida em meio a mata fechada. Nisso, a chuva parou e a descida pela trilha até o acampamento base foi bem tranquila.
       
      As 11:00h, fizemos um pit stop debaixo de um enorme rochedo para um lanche rapido (no local há 2 locais ótimos para acampar, bicavar e até se proteger da chuva). Após o lanche, descemos rapidamente e as 12:15 alcançamos o acampamento base Itaguaré, onde nosso resgate já nos aguardava.
       

      No acampamento base Itaguaré
       
      Depois de comemorar o fim da travessia e batermos algumas fotos na placa que indica o fim, logo adentramos na Kombi e voltamos até o ponto de partida, o acampamento base marins, onde chegamos as 13:20. Depois voltamos na caminhonete do Marco para buscar os demais que já estavam nos aguardando assim que chegamos. Com todos reunidos novamente no acampamento base marins, e após nos despedirmos do Marco e do Michel, eu, Idolo e o Clovis estacionamos em um restaurante em Piquete e mandamos ver um belo de um PF com uma coca geladona afim de comemorarmos o sucesso da empreitada.
       
      De estomago forrado e revigorados, retomamos a viagem de volta a SP, onde chegamos por volta das 22:30h, cansados, mas felizes.
       
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      Como chegar ao Pico dos Marins
       
      - Pra quem vem de SP ou Rio, via Dutra:
       
      Pela Rodovia Presidente Dutra (BR 116) saída 51, seguir pela BR 459, passar por Piquete e logo em seguida (800 metros) virar à direita para a Estrada Viscinal José Rodrigues Ferreira que dá acesso à Vila dos Marins. Quando chegar ao fim do asfalto, que é na saída da Vila dos Marins, suba à esquerda até o final da serra, passe o portal do município de Marmelópolis na divisa SP-MG, entre à direita e logo em seguida você chegará ao Acampamento Base Marins.
       
      Outros detalhes e maiores informações aqui:
       
      http://www.marinzeiro.com/como_chegar.html#sprj
       
      -> Água se encontra no acampamento base e no morro do careca (a cerca de 50 minutos de caminhada do acampamento em uma bifurcação a esquerda ao lado da placa que indica o inicio da trilha). Depois só no topo, em uma nascente afluente do riacho passa quatro no trecho de chapadão. A nascente está escondida e fica praticamente do lado do inicio da subida do pico do marinzinho, bem a leste.
       
      -> Se for fazer a travessia para o Itaguaré, saia da base do Marins até no máximo 7:30. Em um ritmo relativamente forte, leva-se entre 7 a 8 horas da base do Marins até a base do Itaguaré já incluindo as paradas para descanço pelo caminho e também nos picos da Pedra redonda e Grutas. Então, se quiser chegar no Itaguaré ainda de dia para poder montar a barraca com calma e ainda curtir o por do sol, esteja subindo o pico do Marinzinho antes das 8:00. Com isso, você estará chegando na base do Itaguaré entre 16:00 e 17:00hs.
       
      -> Na descida do pico do Marinzinho em direção a pedra redonda, há algumas cordas fixas para auxilio da descida. A corda mais recente que colocaram lá é a vermelha. Teste ela e as demais para ver se está bem firme antes de utiliza-la. Use as demais para prender e descer a cargueira, se for o caso. No geral, dá para descer tranquilamente ali, mas em caso de ventos fortes, mta atenção ali, pois o vento pode te desequilibrar. No horário que passei ali, o vento estava mto forte e o equilibrio ficou prejudicado, por isso optamos por tirar as cargueiras e desce-las utilizando uma das cordas, por medida de segurança.
       
      -> Procure chegar na Pedra redonda em um tempo máximo de 3 horas e meia desde a base do Marins. Se levou mais tempo que isso, terá que apertar o passo, exceto se acampou na base do Marinzinho ou iniciou a travessia bem cedo mesmo (antes das 6:30h). Ainda assim, fique atento ao tempo de caminhada, se não quiser chegar ao Itaguaré no escuro.
       
      A trilha entre o pico das grutas e a base do Itaguaré tem trechos confusos e onde é necessário saltar de uma pedra a outra. Há um trecho inclusive que é necessário tirar as mochilas para passar por uma fenda e uma outra que precisará tirar novamente a mochila e iça-la por cima das rochas, para então ter que se arrastar por baixo delas até o outro lado. Se não quiser ter que passar por tudo isso a noite, mantenha um ritmo bom ou acampe em uma das clareiras na base da Pedra redonda ou grutas, terminando a travessia no dia seguinte.
       
      -> Não há água em todo o trecho da travessia, só no sopé do morro da baleia (inicio da subida do Marinzinho) e na base do Itaguaré. Atente-se a isso. O riacho da base do Marins (que fica mais a direita e é caminho para quem sobe até o cume do Marins, não é confiável e está poluída, portanto não recomendo beber dessa água nem com clorin)
       
      Eu levei 2 litros + 1 de gatorade para a travessia da base marins até o Itaguaré. Na subida do Marins, pode-se economizar no peso subindo com 2 litros e e deixar para recarregar nos poções da pequena nascente que fica a poucos metros do inicio da subida do morro da baleia, esse que compõe a subida em direção ao Pico do Marinzinho. Essa nascente é afluente daquele riacho na base do Marins que está poluído, mas nesse trecho ele está bem acima e a água é de boa qualidade. No 1º pernoite, se for utilizar essa água para lavar as mãos, panelas e etc, colete a agua necessária e lave as panelas ou as mãos longe da fonte, para não contaminar a nascente.
       
      -> Não se preocupe em procurar o local onde fica a água na base do Itaguaré. A trilha passa obrigatóriamente pelo vale onde fica a nascente. E a mesma fica próxima da area de acampamento, então não tem erro.
       
      -> No cume do Itaguarezinho (morro que fica a direita para quem vem da travessia), há vários locais de acampamento protegidas e é um ótimo lugar para acampar e ver o nascer do sol logo pela manhã. Há uma trilha bem aberta que sai da principal entre a area de acampamento e o riachinho que leva diretamente até o cume. Em menos de 10 minutos, se atinge o cume.
       
      -> No cume do Itaguaré não há areas de acampamento e a trilha da travessia não passa por ali. Apenas há uma bifurcação que sobe até o cume e interliga com a da travessia, que vem bordejando a encosta direita do Pico.
       
      -> Combine previamente com o responsável no acampamento base Marins como será feito o resgate na base do Itaguaré, se optar por ir de carro e deixar lá.Caso optem por ir de onibus ou queiram voltar por Passa quatro/Cruzeiro, acrescente mais 4 a 5 horas de pernada pela estrada de terra até a rodovia, onde há linhas de ônibus regulares para essas cidades.
    • Por mcolzani
      Eu e minha esposa Magali decidimos em setembro de 2020 fazer a travessia. Começamos a planejar e nos preparar desde então. Definimos que a melhor data seria na semana santa pois seria mais fácil de conciliar férias, folga etc e ainda daria uma margem de segurança maior caso fosse necessário estender a travessia.
      Fomos com o objetivo de caminhar no mínimo 35km/dia mas tentar fazer 40km/dia, que reduziria em um dia a travessia.
      Inicialmente iríamos seguir no sentido sul (Rio Grande x Barra do Chuí), porém na semana que antecederia nosso início a previsão indicava maior incidência de vento sul e optamos em inverter, saindo da Barra do Chuí no sentido norte.
      Saímos de Itapema/SC de carro até a rodoviária de Pelotas/RS no dia 27/03 onde deixamos nosso carro e pegamos o ônibus até Chuí. Chegando em Chuí levamos 20min até conseguir um taxi para a Barra do Chuí (lá não existe Uber/99 etc).
      Pernoitamos em um Airbnb lazarento, mas enfim, a ideia era ficar bem próximo da praia para conseguir começar a caminhada cedo.
      Obs: não conseguimos sinal de celular na Barra do Chuí.
      Dia 01
      Iniciamos a caminhada as 06:00 do dia 28/03/2021 com vento sul moderado. Nossa ideia inicial era fazer uma parada a cada 10km, porém preferimos tocar direto até Hermenegildo e nos abrigar do vento.
      Foram aproximadamente 13km até essa primeira parada. Aproveitamos para comunicar os familiares.
      Trocamos as meias e seguimos a caminhada. Logo ao passar Hermenegildo começou uma chuva leve. Vestimos a capa de chuva e continuamos.
      Poucos km a frente a chuva engrossou, porém não havia local para abrigo e continuamos a caminhada por mais 5km até encontrar um barraco de pescador onde nos abrigamos por aproximadamente 1 hora até a chuva passar.
      Ao longo do dia o sol ia e vinha. 
      Como era domingo, vários moradores de Hermenegildo passavam de carro.
      Estávamos aproximadamente no KM 38, totalmente secos quando uma chuva torrencial nos atingiu. Sem possibilidade de abrigo, seguimos até completar 40km e montamos acampamento em meio as dunas (agora sem chuva).
      Nessa noite ventou pouco, porém a chuva recente e o orvalho que se formou acabou gerando um pouco de condensação no interior da barraca.
      Jantamos, cuidamos dos pés e eu percebi a primeira bolha inesperada (bolha nos mindinhos eu já esperava).
      Distância: 41km (areia fofa)
      Dia 02
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento. Eram aproximadamente 6:45 quando começamos a caminhar com as roupas e tênis molhados.
      Decidimos racionar a água para reabastecer na casa do Sr. Ricardo que possui poço e atingiríamos entre 10 e 11 horas da manhã.
      Faltando 1 km da casa do Sr. Ricardo, avistamos uma vaca deitada na beira da praia. Minha esposa achou que ela estivesse morta, mas eu percebi movimentos de orelha. Estávamos a 50mt dela quando nos observou e levantou assustada. Virou-se contra nós e avançou em nossa direção. Nesse momento tentei chamar atenção para mim e me afastei da minha esposa. Imediatamente empunhei os bastões como se isso fosse resolver alguma coisa. A vaca recuou e virou da direção da Magali quando pedi para ela ficar parada e fui até ela. A vaca ameaçou novamente e juntos erguemos os bastões lentamente até que a vaca recuou e se afastou pelo outro lado. Lentamente nos desviamos e seguimos nosso rumo. A adrenalina subiu bastante nessa hora e o susto foi enorme. Melhor que nada aconteceu e ficou apenas por isso.
      Chegamos na casa do Sr. Ricardo e chamamos por ele. Não estava, enchemos nossas garrafas e tratamos com cloro. Enquanto isso, aproveitamos a sombra para um descanso e para trocar as meias.
      Descobri uma nova bolha se formando em baixo do outro pé.
      Quando estávamos para sair chegou um veículo com 3 homens que estavam construindo uma nova casa para o Sr. Ricardo mais aos fundos (pois a atual está quase sendo tomada pelas dunas). Conversamos um pouco e seguimos nossa caminhada.
      Por ser 2a-feira, nesse dia praticamente não tivemos contato humano. Nesse dia encontramos o único caminhante que veríamos ao longo da nossa caminhada. Nos cumprimentamos, conversamos rapidamente e cada um seguiu seu destino. Nós querendo seguir e ele querendo terminar logo.
      No meio da tarde pegamos chuva novamente. Decidimos proteger os tênis com o saco que usávamos para atravessar os arroios pois não queríamos andar novamente com os pés molhados.
      Esse foi o pior dia e a pior noite, o dia todo foi um misto de "chega, vamos desistir, etc", por sorte não passou ninguém oferecendo carona. 
      Quando paramos para acampar, ventava sudoeste e então montei a barraca abrigado por dunas nesse lado. Só havia abertura pequena para o leste e foi ai que começou nossa pior noite. Já estávamos dormindo (aproveitamos 21:30) quando o vento virou leste com chuva forte.
      Vacilei ao não reforçar o estaqueamento da porta que estava exposta ao leste e aconteceu o óbvio, o speck soltou e essa lateral "caiu". Fiquei sentado encostado no bastão para a lateral ficar de pé. Quando estiou sai à procura de algo para ancorar essa porta e achei um barril cortado que coloquei sobre o speck e enchi de arreia.
      Nessa noite continuou ventando muito e chovendo diversas vezes.
      Distância: 40km (areia fofa com bem pouca área firme)
      Dia 03
      Despertador tocou as 5:00, estava chovendo e botei o soneca para + 15min. Continuava chovendo e seguimos dormindo até aproximadamente 6:15 quando parou de chover, então comemos e saímos para caminhar já eram 8:00.
      Decidimos que 30km estaria bom para esse dia.
      Seguimos +/- a ideia do dia anterior e racionamos a água para reabastecer no Farol Albardão que estava a 7-8km de distância.
      Fomos muito bem recebidos no Albardão onde bebemos água e reabastecemos todas nossas garradas. A água lá é potável, então não tratamos nem filtramos.
      Nesse dia percebemos que uma parada a cada 10km não era sustentável e decidimos parar a cada 7km. Nesse dia comecei a sentir fortes dores na junção do fêmur com o quadril e comecei a "mancar" para não estender a perna e doer mais. Assim foi praticamente até o final da travessia.
      Outro dia que tivemos pouco contato humano e com pouco vento, dessa vez sentido leste.
      Apenas no final do dia quando chegamos na área de reflorestamento que avistamos 2 caminhões saindo de uma área indo no sentido norte.
      Quase no final do dia, avistamos um morador indo recolher sua rede. Perguntamos se conhecia algum lugar bom para acampar na região querendo ouvir um "pode acampar no lado da minha casa" mas veio um "lá naquela baleia tem uma base do reflorestamento, talvez consiga lá". A tal baleia estava a uns 3-4 km e já estava começando a anoitecer. Deveríamos nos arriscar a andar toda essa distância e chegar lá de noite correndo o risco de nem achar a base? 
      Preferimos seguir mais 1km e acampar em meio as dunas altas. Dessa vez ancorei muito bem praticamente todos os lados da barraca para não ter surpresas.
      Novas bolhas para cuidar.
      Dormimos magnificamente bem. Como todas as noites anteriores, choveu bastante durante a noite.
      Distância: 35km (areia fofa)
      Dia 04
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Nesse dia acreditamos que seria difícil manter o ritmo e terminar em 6 dias. Já aceitamos que precisaríamos de 7 dias. Porém mantivemos o desejo de fazer os 35km.
      O dia foi bastante movimentado, muitos caminhões, ônibus, etc. Sabíamos que agora a água viria apenas dos arroios, porém perto das 11:00, quando devíamos ter apenas 1 litro de água, vimos um quadricíclo vindo em nossa direção. Pedi para parar e perguntei se sabia de algum ponto de água pela frente. Conversamos um pouco e o Mauro, funcionário da empresa de reflorestamento, se ofereceu para ir pegar água na base deles. Deixamos nossas 4 garrafas de 1,5lt com ele. Uma hora depois ele passou por nós e falou que deixou as garrafas em uma placa mais a frente para que não precisássemos carregar todo o peso. Caminhamos uns 2km até chegar nas garrafas, tratamos e filtramos. Ficamos absurdamente contentes, não tinha como ficar mais contente.
      Próximo das 15:00 uma caminhonete branca nos intercepta. São funcionários da empresa de reflorestamento. Conversamos um pouco e eles falam (se pedirmos) que iriam trazer água para nós quando voltassem. Ganhamos o dia e agora não tinha mais como melhorar mesmo.
      Uma hora depois passa outra caminhonete igual (também da empresa) e pergunta se queremos algo (água, comida, fruta etc). Respondo que aceitamos qualquer coisa, mas principalmente água. Ele diz que na volta trará algo para nós.
      Continuamos a caminhada e com o sol de pondo resolvemos achar um local para acampar. Enquanto montava a barraca a esposa ficava nas dunas de olho se vinha alguma caminhonete.
      Quando terminei de montar a barraca, avistei um veículo vindo e como já estava escuro sinalizei com a lanterna.
      Dois santos que caíram do céu. Nos trouxeram 4 litros de água tratada e gelada (com pedaços de gelo ainda). Não só isso, trouxeram duas marmitas e frutas. Estávamos nos sentindo reis.
      Só então percebemos que montávamos acampamento praticamente na entrada de uma base deles e nos falaram que o movimento de caminhões ali seria a noite toda pois a operação deles é 24hrs. Nos ofereceram ficar em um alojamento vago.
      Agora certamente não tinha como melhorar. Decidimos aceitar o convite pois o local onde estávamos era de dunas baixas e o vento provavelmente iria incomodar. Caminhamos quase 2km até chegar na base e nos deparamos com o inimaginável, além de tudo que já tinham nos oferecido, poderíamos tomar um banho quente em chuveiro a gás.
      Nossa energia se renovou absurdamente nessa noite. Decidimos dormir uma hora a mais nessa noite pois não precisaríamos arrumar muita coisa pela manhã.
      Agradecemos ao pessoal que nos recebeu e principalmente ao Rodrigo (encarregado). Pegamos seu contato para agradecer novamente quando concluíssemos.
      Nesse dia outras bolhas surgiram e algumas antigas começavam a parar de incomodar.
      Distância: 42km (enfim, areia firme)
      Dia 05
      Despertador tocou as 6:00, comemos, organizamos as coisas, reabastecemos nossa água, nos despedimos do pessoal e começamos a caminhada.
      Pela distância percorrida no dia anterior, decidimos que esse dia seria de luxo, 35km bastaria.
      Saímos dá área do reflorestamento e começamos a avistar as torres geradoras de energia eólica. Que visão horrível. Você começa a enxergar elas a 20-25km de distância, então caminha, caminha, caminha e caminha ainda mais e nunca chega.
      Esse dia foi um dia caminhando olhando apenas para baixo, pois era desmotivador. Esse foi o 1o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      O vento estava moderado a forte no sentido leste, o que fez com que a maré estivesse acima do normal, nos forçando a subir para areia fofa em vários momentos.
      Ao final do dia, chegamos em um trecho de dunas baixas e já bateu aquela sensação ruim para achar um local bom para acampar. 
      Nós não queríamos ter que andar 500-700 metros para chegar nas árvores, querendo ou não é uma distância que pode fazer a diferença e em terreno ruim.
      Atravessamos o primeiro grande arroio e achamos um ponto menos exposto. Ancorei bem a barraca e dormimos igual reis.
      Distância: 38km (alternando entre areia firme e fofa)
      Dia 06
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Esse seria o primeiro dia para captar água nos arroios. Estávamos com 1 litro de água e a esperança era conseguir água com quem passasse, afinal era feriado e teríamos movimento. Passou o primeiro carro e nada de água. Logo chegamos a outro arroio grande e decidimos captar água ali e garantir. Pegamos 4,5 litros, tratamos e filtramos.
      Esse dia estava puxado, o vento resolveu querer dificultar e virou norte moderado. Foi o dia todo contra o vento, mas nada nos seguraria. Muitos arroios pela frente, já estávamos exaustos de colocar e tirar a sacola nos pés, mas assim o fizemos durante todo o dia.
      No 4o ou 5o arroio a Magali não olhou bem o terreno e entrou em uma arreia movediça, ficando com os 2 pés enterrados até acima do tênis. Falei para não tentar sair, fui até ela e puxei ela pela cargueira. Saiu fácil mas encharcou os pés e os tênis.
      Andamos, andamos, andamos e a quilometragem não andava. Parecida que estávamos em uma esteira, andava sem sair do lugar.
      Dia bem movimentado, carros, motos, ônibus, bicicletas e o primeiro cachorro de toda travessia. Esse foi o 2o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      Enfim chegamos a praia do Cassino, mas ainda tínhamos 13 km pela frente. Parece que foi a parte mais longa da travessia. A praia estava muito movimentada devido ao feriado. Às 16:30, enfim, chegamos aos molhes. Ficamos sem reação, apenas sentamos e aproveitamos o momento.
      Decidimos pegar um Uber até Pelotas e retornar direto para casa.
      Distância: 34km (areia firme)
      Distância total: 230,74 km

      Equipamentos que levamos:
      Murilo Magali Se alguém querer, posso passar também a relação dos alimentos levados.
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    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Em tempos complicados nos colocamos na estrada. Foram 26 horas dentro do ônibus. A lotação praticamente vazia, nem 15 pessoas, uma série de protocolos para evitar ao máximo qualquer contaminação. Depois de todo esse trajeto ficaríamos sós, isolados, quase uma quarentena. Sete dias completos e muitas surpresas, superações e no final um evento triste que poderia estragar toda uma viagem, mas deixa pra lá. As pessoas de boa índole não merecem que seja despendida grande atenção para os intrépidos.
      Dia 1
      Ficamos meio período na cidade de Rio Grande, um local de muita história, 9 museus (fiquei sabendo) todos fechados, muita arquitetura e praças dignas de um povo desbravador.

      Ao meio dia pegamos o circular que vai até a Barra. Descemos no último ponto antes do retorno. Recebeu-nos um aguaceiro danado. Enquanto encapávamos a cargueira e colocava a capa de chuva, tomamos o primeiro banho. Só não foi maior porque fugimos para uma varanda ali do lado. Não demorou para o proprietário aparecer. Depois de algumas curiosidades sanadas, seguimos firmes pelo asfalto até o molhes. Já na chegada encontramos um bugue, nele um homem desesperado. Pedindo ajuda. Seu filho, um amigo e o tio haviam seguido pelo molhes mar adentro. O mar enfurecera e subiu rapidamente. O homem fugiu com o carro mas os outros nem sinal, o molhes já estava praticamente tomado de água. O mar quebrava com força, rajadas de ondas cobriam metros acima do monumento. Orientei o a correr na Barra e chamar o bombeiro ou qualquer coisa (nesse momento eu não havia visto a situação do mar ainda). Quando chegamos no molhes, padre mio... Olhei para trás e lá vinha o homem, não tinha ido atrás do bombeiro ainda. Quando peguei o telefone para fazer a ligação um casal que estava em um trailer ali do lado gritou - Lá, estou vendo alguém. Guardei o telefone, os três vinham com dificuldades entre as ondas. O pai desabou em prantos, e xingamentos. Horas mais tarde fui refletir: ele não ligara para o socorro temendo a notícia horrível que receberia. No final todos ficaram bem.
      Para nós, vida que segue. Primeiro não conseguimos chegar no molhes, o mar tinha tomado toda a praia. Desviamos pela direita e saímos nas dunas. Dali seguimos com dificuldades contra o vento e sobre as dunas. Para ter uma ideia os banheiros químicos que ficam na praia estavam todos tombados. Mas não se apavoremos, toda essa situação se devia a um ciclone que estava sobre o oceano nesses dias.

      Caminhamos os 8 km até o Balneário Cassino, durante o trajeto traçamos vários planos B. Se a tempestade não passasse teríamos de esperar alguns dias, em último caso desistir. Pernoitamos num Hostel. Ventava muito. Passei a noite monitorando o ciclone e os ventos pelo app wheater. De madrugada os ventos começariam a se afastar e no sábado já estaria tudo calmo.

       
      Dia 2
      Acordamos cedo, o vento ainda soprava forte, mas o céu já estava melhor. Partimos. Na praia o mar tinha recuado um pouco, apesar do vento sul. Logo na primeira hora, depois da garoa um arco íris pintou sobre o parque eólico. Isso é um bom sinal.

      Seguimos firmes, 3 horas depois o parque eólico ainda estava às vistas. Chegamos no Naufrágio Altair. Pera lá! Chegamos perto dele, as ondas tomavam a ruína. O mar já avançara sobre a praia novamente, muitos dos canais de água se tornaram bancos de areia movediça engolindo os pés. Paramos para almoçar no Hotel Netuno, único lugar abrigado do implacável minuano (vento).

      Voltamos a marcha, agora pelas dunas. A praia estava alagada. Não demorou muito até que a Bruna fosse engolida até a cintura na areia movediça. Com muita luta conseguimos resgatá-la. Um misto de apreensão, medo e comicidade tomou conta dos dois. Às 15:00 demos por vencidos, depois de 30 km, tomamos o rumo da mata, em meio a um novo parque eólico, as poucas árvores restantes serviram de guarida.
       
      Dia 3
      Saímos cedo, ansiosos por descobrir o que o mar reservara. Pelo menos o vento já reduzira pela metade. Com a praia larga a caminhada fluiu bem. Logo cedo avistamos o Farol Sarita. Mais um desafio psicológico. Caminhamos 25 km dos 30 km, avistando o luminoso, e nada de chegar. Parecia que o negócio tinha rodinhas. Logo depois do almoço o mar voltou a complicar. A caminhada voltou a ser pela duna. Em poucos quilômetros encontramos um homem todo esfarrapado, com uma faca e olhar desafiador. Com receio, me aproximei a tentar um diálogo. Não entendi nenhuma palavra que ele disse, tratava-se de um hermitão que vive nas dunas, provavelmente.

      Enfim às 15:00 chegamos no farol, e logo à frente tentamos ir para a mata acampar. Caminhamos 3 km circulando o mangue alagado até que decidimos acampar embaixo de um arbusto na duna mesmo (sei que é burrice, mas depois do hermitão, fiquei um pouco abalado, não com medo de ser atacado, mas vai que ele se sentisse invadido...). Depois de lavar as partes no alagado, deitamos na barraca e nem lembramos mais do hermitão ou de qualquer coisa. Nessa hora o vento já havia cessado. Durante o dia, manhã, encontramos muitos carros e motos fazendo a travessia, a penas um grupo de motocross parou e falou que acampariam perto do Farol Verga, que deveríamos passar lá. Também encontramos um leão marinho e muitas, muitas tartarugas mortas.

      Dia 4
      Começamos cedinho na tentativa de fugir das dunas no período da tarde. O dia estava lindo, céu azul, vento leve, areia fina, mar calmo. Encontramos muitos carros fazendo a travessia nesse dia, também um grupo de ciclistas, que inclusive nos deram água. Logo avistamos a primeira carcaça de Jubarte, no segundo dia tínhamos visto uma Beluga morta. Mais à frente um naufrágio recente ainda bastante visível apesar das ondas.

      Logo que retomamos do almoço encontramos novamente a galera do motocross. Nos disseram que tinham feito um churrasco e esperado por nós, mas... No fim o seu Zeca falou que seria um bom lugar para acampar, e foi o que fizemos. Durante a caminhada da tarde percebemos que algumas caminhonetes iam e vinham pela praia, só não entendi o motivo. Como o mar tinha acalmado e a praia estava larga aproveitamos. Debaixo do sol forte das 14:00 uma das caminhonetes parou, um simpático senhor nos ofereceu um suco de limão, oh glória. Pensa num negócio bom, agradecidos seguimos em frente. Já eram passadas 15:00 quando chegamos no local de acampar. Definitivamente não chegaríamos a tempo de almoçar. Nesse dia alcançamos a marca importante dos 100 km andados.

      Dia 5
      Foi o dia que começamos mais cedo. Logo nas primeiras horas avistamos um senhor maltrapilho, descalço, caminhando com dificuldades. Ainda lembrando do hermitão, me aproximei. Ele com a mão dentro da bermuda, eu com cautela. Surpreendentemente entendi sua fala. Se chamava Paulo, recusou um sapato que tinha minha mochila, recusou comida, apenas aceitou água. Como tínhamos avistado um pouco antes um acampamento de trabalhadores na mata de pinus, orientei o senhor que caso precisasse chegasse lá. Nesse ponto já estávamos no Farol Verga.

      Saindo do Verga avistamos no horizonte um veículo gigante que saiu na areia e rumou para o sul. Não demorou, encontramos um carro parado com adesivos "Pet Free", não sei o que fazia ali. Uma hora depois aponta no horizonte o gigante, eram um caminhão de carregar toras, carregado. Vinha a todo vapor na areia. Passou por nós, buzinou e sumiu no norte. Paramos para almoçar quando encontramos uma carreta parada na areia. Sentamos à sombra e logo o dono dela apareceu. Curiosamente ele tinha o mesmo nome do senhor dos sucos. Conversando, explicou-nos que têm frentes de trabalho que ficam acampadas na floresta de pinus (chegam a 150 trabalhadores). Ele estava com a carreta-casa esperando um ônibus que traria o pessoal de Rio Grande e Pelotas. Quando falei do seu Paulo ele disse que já havia visto o mesmo homem andando de bicicleta na areia, de certa forma me senti aliviado por saber que ele se virava por aquelas bandas.

      Pouco depois de deixar a carreta, encontramos outra Jubarte, essa bem mais conservada. Ao tirar foto da baleia, olhamos para trás e lá estava o ônibus, descendo uma galera.

      Às 14:00 o reflorestamento que nos acompanhara acabou. Percebemos que seria possível chegar no Farol Albardão ainda naquele dia, ele já se desenhava no horizonte. Com 40 km, exaustos, com chuva, chegamos no farol. Já não esperávamos dormir lá devido a pandemia. Montamos acampamento do lado de fora do pátio da Marinha. Como o vento já rugia, fiz algumas ancoras com sacos cheios de areia que, enterrei e amarrei a barraca neles. Fomos dormir assustados com o vento, mas a amarração deu conta.

       
      Dia 6
      Acordamos de madrugada com trovões, vento e muita chuva. O dia clareou e a chuva castigava, meu maior medo não era se molhar, eram os raios. Pensamos em fazer um dia de descanso caso não passasse. Eram 07:15 quando as nuvens começaram a ceder, fizemos um desjejum e partimos, já 08:10. A chuva sumiu, mas as dunas estavam todas alagadas.

       
      Assim que começamos a caminhar começaram aparecer os problemas. Os passos de água que, até então eram raramente fundos, agora pareciam rios de desgelo. E para piorar se multiplicaram, cruzamos em média 5 por km nesse dia. Nessa manhã observamos uma infinidade de caravelas azuis na areia, assim como raízes e galhos que devem ter saído das dunas com a enxurrada (não as caravelas, que, devem ter vindo do mar).

      Só atingimos os 30 km às 17:00, quando avistamos um pedaço de mata, onde nos escondemos à noite. Além de atingir os 150 km nesse dia, tomar água muito boa drenada das dunas, encontrar um bom local para acampar, acompanhamos o segundo pôr do sol nas dunas (o primeiro havia sido no Albardão), tomamos banho fresco na água da chuva acumulada nas dunas e dormimos em meio a algazarras dos periquitos que aninham nas árvores ali.

       
      Dia 7
      Sabíamos que seria um dia longo, faltavam mais de 40 km para chegar no Balneário Hermenegildo onde teria um camping. Partimos às 06:40. O mar tinha recuado muito, as enxurradas formaram muitos canais (já secos). O chão irregular castigou os pés a manhã toda, quando ficava mais plano o conchal tornava os passos mais pesados. Nesse trecho muita vacas vigiam a praia, é grande também o número de ranchos nas dunas. Lá pelas 09:00 encontramos um negócio motorizado, feito em madeira, puxando uma carretinha cheia de entulho, com rodas largas que parecia um rolo compressor, apinhado de gente. Ainda de manhã avistamos mais dois naufrágios quase submersos na areia e no mar, um hotel destruído e um leão marinho começando a putrefação.

      Na hora do almoço se chegamos à sombra de um rancho na areia. Descansamos, aliviamos os pés e retomamos a marcha. O número de veículos que encontramos cresceu exponencialmente, muitas pessoas pescando de molinete. A praia agora alternava em trechos terríveis de irregular e outros menos, mas os pés doem até a alma. O alento é que já avistamos o Hermenegildo. No final foram 45km caminhados, além de bater os 200km. Valeu a pena. Chegamos no Camping Pachuca, o dono (incrivelmente tinha o mesmo nome dos dois outros homens que conversamos na praia nos dias anteriores) nos recebeu muito bem. Ofereceu a garagem para montar a barraca, nos trouxe pão com queijo e mortadela e ainda disse que seria cortesia da casa. Depois do banho, de barriga cheia, e diga-se de passagem a musica no rádio incrível, dormimos feito criancinhas.

       
      Dia 7
      Se demos o luxo de acordar mais tarde e sair só às 08:00. Diga-se de passagem que amanheceu chovendo. E ventando, mas o vento agora era norte e empurrou nos para o molhes. Na praia novamente, não demorou para dois cachorros, muito brincalhões nos acompanharem.

      Foram 15 km tranquilos. Com muitos passos de água, alguns fundos, inclusive. Mais um negócio estranho aconteceu, eram umas 10:00 quando passou uma patrola por nós. O maquinista ainda ofereceu carona, dispensamos numa boa. Chegamos no molhes da Barra do Chui às 11:50. Fomos recebidos por um bombeiro, todo empolgado que nos revelou estar pronto para fazer a travessia nos próximos dias. Descansamos algum tempo refletindo nosso feito.

      Tomamos as ruas do balneário até encontrar um buffet, onde fomos à desforra. De barriga inchada pegamos o ônibus para o Chui, chegamos lá a então a palhaçada. Como o ônibus para Porto Alegre era só às 22:00 ou às 12:00 do dia seguinte, fomos procurar um local para tomar banho e descansar, quem sabe passar a noite.
      Fomos em um posto Ipiranga que segundo o dono da rodoviária tinha chuveiro para os caminhoneiros. Fomos muito mal recebidos, e mesmo oferecendo para pagar fomos recusados. Segunda tentativa, uma pousada. O velhote que nos atendeu, primeiro fez cara de nojo por que talvez não estávamos muito bem trajados, segundo ele estava lotado, sei. Terceira tentativa, outra pousada. O homem que nos viu nem a porta abriu direito, após nos analisar, disse em tom ríspido que não tinha vaga e deveríamos procurar outro local. Respondi pra ele que não adiantaria procurar, o problema não era vaga, era preconceito. Nossa última investida foi um hotel de uma rede, Turis Firper, apesar de não muito barato (afinal não passamos a noite), fomos muito bem recepcionados.
      Às 22:00 tomamos o ônibus para passar 29 horas viajando até nossa terrinha. A maior dificuldade acabou sendo o chão irregular dos últimos dias, e a batalha psicológica do terceiro e quarto dias. Agora vamos descansar que a temporada de montanhas se avizinha.









       
    • Por Caçadordeviagem
      No dia 14 de Junho de 2019 foi inaugurado o Caminho de Nhá Chica, inspirado no Caminho de Santiago de Compostela e no Caminho da Fé, a rota se inicia na cidade de Inconfidentes/MG e vai até o Santuário de Nhá Chica em Baependi/MG, são cerca de 260 km cruzando as belíssimas paisagens montanhosas da Serra da Mantiqueira, é todo sinalizado com setas e placas, para mais informações há um grupo no Face com o nome "Caminho de Nhá Chica" ou visite o site: www.caminhodenhachica.com
      1° Dia: Inconfidentes/Borda da Mata (21 km).
      Eu percorri em Setembro de 2019, o 1° trecho, entre Inconfidentes e Borda da Mata, é o mesmo do Caminho da Fé, após Borda os caminhos se separam, o da Fé vai pra Tocos do Moji e o de Nhá Chica vai para Congonhal...
      2° Dia: Borda da Mata/Congonhal (25 km).
      Trecho muito bonito após uma fazenda com um haras, muito pitoresco, na metade do trecho há uma torneira ao lado da Igrejinha no bairro das Almas, o topo da Serra das Almas e Cachoeira das Almas são os destaques desse trecho...
      3° Dia: Congonhal/Espírito Santo do Dourado (26km).
      Trecho magnífico, logo de cara tem que superar a Serra de São Domingos, ainda na Serra, no km 07 tem fonte de água potável e mais uns 7 km depois tem o Santuário da Obediência, com estrutura de água e lanchonete, a paisagem é linda, com lindas araucárias e várias plantações de brócolis e morango, um dos trechos mais bonitos do caminho...
      4° Dia: Espírito Santo do Dourado/Silvianópolis (20 km).
      Trecho muito bonito e ermo até a rodovia MG-179, chegando nessa rodovia, a uns 100 mts tem uma barraca de frutas e doces mineiros onde adquiri bananas e doces, os últimos 3 quilômetros são em asfalto até Silvianópolis...
      5° Dia: Silvianópolis/Careaçu (20 km).
      Trecho plano e tranquilo perto dos anteriores, na saída de Silvianópolis há um belo lago chamado Lago dos Bandeirantes, próximo a Careaçu o caminho coincide com o Caminho de Aparecida até a cidade, paramos no bar da ponte para beber alguma coisa e seguimos para a belíssima Pousada Castelo...
      6° Dia: Careaçu/Heliodora (24km).
      Saindo de Careaçu por baixo da Fernão Dias, chegasse na Comunidade Rainha do Brasil, ali o monge Bernardo ofereceu café e batemos um papo, deixando o local passa-se por umas 3 porteiras e uma pequena trilha até pegar a estrada de terra novamente, a partir dali caminha-se por lugares muito ermos e bonitos até o km 16, ali há um comércio para abastecer e depois seguir pelos 8km finais pelo asfalto visualizando lindas montanhas...
      7° Dia: Heliodora/Natércia/Conceição das Pedras (24km).
      Entre Heliodora e Natércia há uma grande inclinação a ser vencida, ou seja; vai ter que subir muito e descer tudo até Natércia, lá de cima tem uma bela vista de ambas cidades, em Natércia me abasteci com víveres e segui rumo a Conceição das Pedras em meio a belíssimas paisagens, o destaque nesse trecho é a bela Cachoeira da Usina, eu aconselho a ficar em Natércia pois a pousada lá é muito boa e serve janta e a de Conceição das Pedras fica atrás de posto de gasolina, sem janta...
      8° Dia: C. das Pedras/Cristina (36km).
      Mais um dia com uma serra a ser vencida, talvez a maior inclinação do trecho, porém esse trecho é o mais belo do caminho, passa por mata nativa, pelo bairro Sertãozinho e Vargem Alegre onde há muitas plantações de banana e café, em Vargem Alegre (km18) há uma pousada, seguindo adiante, o caminho até Cristina revela-se magnífico com suas belas paisagens, Cristina é uma cidade turística e charmosa, a mais bela do caminho...
      9° Dia: Cristina/Carmo de Minas Carmo de Minas (20km)/ Soledade de Minas (16km).
      Pretendia fazer os 36km mas entre Cristina e Carmo de Minas é por uma rodovia movimentada e sem acostamento, portanto peguei uma carona até Carmo e de lá iniciei os 16 km até Soledade, o trecho é por terra e plano, não tem a beleza dos trechos anteriores mas é bonito, ali já estamos caminhando pela famosa Estrada Real, Soledade de Minas é uma cidade bem pequena, há um trem turístico que vem de São Lourenço até lá...
      10° Dia: Soledade de Minas/Caxambu/Baependi (30km).
      Pra sair de Soledade é necessário subir uns 4 km de asfalto (trecho movimentado) até a estrada de terra que leva a Caxambu, alguns km depois encontra a Estrada Real e segue até a cidade por trechos tranquilos, com matas preservadas, consegui ver alguns saguizinhos nas árvores, ao chegar em Caxambu segue pela rua de cima da rodoviária rumo a Baependi, terra de Nhá Chica, devido a proximidade das cidades, os 7 km finais não tem muita beleza, com alguns lixos no meio da estrada mas ali o importa é chegar ao Santuário de Nhá Chica e agradecer pela jornada perfeita, conhecer o local, comprar lembranças, carimbar e pegar o certificado, foi o que fiz depois segui para um hotel p/ descansar e voltar pra casa no dia seguinte...
      POUSADAS QUE PERNOITEI: Preços em 2019...
      Santa Varanda: Inconfidentes: $50 Tem janta 👍
      Nossa Senhora de Fátima: Borda da Mata: $60 Tem janta 👍
      Hotel Silva: Congonhal: $50🙁 sem janta (é melhor ficar no JS).
      Pousada do Adão: Espírito Santo do Dourado: $50🙁sem janta (Na verdade é ponto apoio onde vc pousa, não tem outra opção por enqto).
      Hotel Luciana: Silvianópolis: $50👍 Tem janta no comércio embaixo do hotel.
      Pousada Castelo: Careaçu: $50👍 Tem janta na praça da Matriz.
      Hotel Vilarejo: Heliodora: $50😒 (Única opção na cidade, tem o suficiente, conseguimos janta mas não sei se é sempre que consegue).
      Natércia: Pousada do Juliano: $?👍Tem janta, eu não fiquei lá mas vi que é bonita.
      Conceição das Pedras: Pousada da Dona Fininha ☹️ $50 sem janta, fica atrás de um posto de gas.
      Bairro rural Vargem Alegre: Zé Toco $?( Por ser casa de família, provavelmente serve janta, eu não fiquei lá).
      Cristina: Pousada Casarão: 👍🤑$100 (belíssima pousada mas é cara e não oferece janta, é melhor ficar na Pousada Real, do Célio, $50 + janta).
      Carmo de Minas: Hotel São Lucas:👍$? (Não fiquei mas vi que o hotel é muito bom).
      Soledade: Solar das Montanhas: 👍$60(boa mas não serve janta).
      Caxambu: Hotel São Francisco 👍$80 não oferece janta.
      Baependi: Pousada Instituto Nhá Chica: 👍$? (não fiquei, não sei se serve janta, a pousada é bonita).
       
      Se quiserem um relato bem detalhado visite o site abaixo:
      http://www.oswaldobuzzo.com.br/Home/caminho-de-nha-chica
       
       
       
       
       
       
       
       
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