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E.Samuel

Travessia Marins x Itaguaré boas vindas aos novos.

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Bom dia, boa tarde, boa noite. Não sei em qual horário vocês irão ler esse relato mas, enfim, no Domingo, dia 08/04/2018, realizamos pela segunda vez a travessia Marins x itaguaré.

O objetivo de termos feito novamente essa travessia foi estreitar nossos laços de amizade e também nos preparamos para fazer outras travessias ou projetos que temos em mente.

Fomos em 9 pessoas, 3 delas nunca haviam feito uma travessia de montanha mas ansiavam em fazer. Com o grupo focado e devidamente treinado partimos para a cidade Marmelópolis para recrutarmos o último integrante e de lá fomos rumo à base do Marins. Às 5:48 começamos nossa aventura rumo ao morro do careca.

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Da esquerda para a direita: Breno, José Rodrigo, Éder,  Nandão, João, Samuel, Cotonete, Carlos e Zé Renato.

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Logo após algumas fotos, atacamos a subida até chegarmos à fenda.

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Segue um vídeo de demonstração de uma escalaminhada.

Paramos para tomar um fôlego e bater algumas fotos. Logo em seguida iríamos atacar o Marinzinho - as imagens falam por si só:

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No topo do Marinzinho, avistamos a Pedra Redonda, que seria nossa próxima parada. Antes disso, teríamos que descer pela corda, nessa hora a adrenalina subiu um pouco, principalmente nos novatos, mas todos tiraram de letra.

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Chegamos na Pedra Redonda e lá fizemos uma parada mais longa, cerca de 20’. Nosso fotógrafo profissional, Zé Renato, arrasou nas fotos. Confiram:

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Às 10h50min chegamos na Pedra do Picolé e de lá fomos direto ao Portal, onde paramos para descansar e encher nossas garrafas de água.

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Às 13h20min chegamos na base do Itaguaré, porém, não subimos - isso ficará para uma próxima aventura. De lá começamos a descida sem fim, rumo ao Campinho, onde o motorista da Kombi nos aguardava para nos levar embora.

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Considerações finais: a Travessia Marins x Itaguaré é uma travessia muito bonita, digo isso agora porque da última vez que fizemos essa travessia estava nublado e não pudemos enxergar quase nada, mas dessa vez o tempo colaborou e a vista foi maravilhosa. Gostaria de agradecer a todos que foram nessa travessia - Breno, Nandão, Éder, Zé Renato e João,  e elogiar os 3 integrantes que começaram nessa empreitada e deram conta do recado - José Rodrigo, Carlos e Wellington(Cotonete). Não é fácil chegar ao topo da montanha, é preciso muito esforço e encorajamento, nosso grupo mais uma vez mostrou que é unido e isso faz toda a diferença. Esperamos vocês na nossa próxima aventura, que será um mega desafio: fazer a Serra Fina invertida. Até lá, bom treino a todos e, como é de costume, segue uma frase que sempre carrego comigo: “Não importa quão curto nosso passo pode ser. Caminhar nesse mundo que diariamente nos puxa para trás só deixa nossas pernas mais fortes.”

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    • Por rafacarvalho33
      Antes de começar o relato, gostaria de salientar que ocorre uma discussão a respeito dessa trilha,  se ela deve ser feita ou não e vou tentar explicar o porque desse debate. 

      A trilha de fato é ilegal, ela fica dentro de uma propriedade privada (a empresa MRS Logística) e a Sub prefeitura de Paranapiacaba não reconhece a trilha como oficial, além desses dois importantes fatores, não é anormal que ocorram a fiscalização para pegar os infratores na entrada da trilha, podendo gerar uma multa (que varia dos R$300 a R$500) e ate detenção por invasão a propriedade privada.

      Por outro lado, a trilha se dá ate Cubatão, passando pela Serra do Mar, com paisagens exuberantes, com fauna e flora muito rica e diversificada, além das cachoeiras pelo caminho, há também toda a importância histórica e cultural do trajeto, juntando esses fatores com o fato de Paranapiacaba estar próximo a cidade de São Paulo, é comum que dezenas de pessoas durante os finais de semana se arrisquem e realizem a travessia, ou pelo menos, parte dela. 
       
       Paranapiacaba recebe centenas de turistas nos finais de semana. 


      Por muitos anos, me recusei a fazer essa trilha, porque além de ela ser ilegal, ela também é perigosa, mas esse ano conheci duas pessoas que já fizeram esse trajeto mais de 05 vezes cada um, sendo conhecedores do local de olhos fechados, assim me senti mais seguro.

      Antes de mais nada, na minha opinião, acredito que a melhor solução para esse assunto seria a empresa cobrar uma taxa de entrada, e com esse dinheiro, aplicar na manutenção da trilha, deixando ela mais segura para os amantes de aventura, assim, todos ganhariam, a empresa, nós e Paranapiacaba, que assim, poderia receber mais turistas. 

      O fato de proibir por proibir sabendo que existem pessoas que ate acampam no local, da a sensação que as autoridades junto com a empresa tem preguiça de lidar com a situação, pois ao mesmo tempo o acessos a trilha e a saída dele são fáceis de identificar, se de fato quisessem proibir, não seria difícil fazer isso, ao meu ver parece que eles apenas buscam fugir da responsabilidade caso alguma coisa aconteça.


       
       Vagão de trem abandonado logo no começo da trilha
       
       
      Bom, dito tudo isso, vamos falar um pouco mais sobre a Trilha Funicular, a travessia até Cubatão tem 15 km, passando por 16 pontes e 13 túneis, as pontes estão a 50/60 metros de altura do chão, a trilha muitas vezes passa por mata fechada, tendo muitos espinhos, aranhas e até cobras, por isso é recomendável usar camisa manga longa e calça larga, e caso veja uma cobra pelo caminho, só precisa ter calma e deixar ela seguir seu trajeto em paz, recomendo o uso de lanterna para ajudar a atravessar os túneis. 
       
      A trilha é plana e tranquila de se fazer, não requer muito esforço físico, agora as partes que atravessam a ponte, essas não são tão simples, primeiro porque sempre dá aquele medo, então é comum muitas pessoas travarem na hora e não conseguirem, segundo, as pontes estão bem danificadas, já que elas foram construídas e postas em operação no ano de 1867 e foi desativada entre 1970 a 1980, então a conservação da ponte esta comprometida, a parte de madeira esta podre e em alguns locais, o ferro que da a sustentação, esta bem gasto. 
       
       A situação das pontes não são das melhores. 


      No caminho, atravessamos por 05 pontes na ida, a primeira foi a mais cansativa, por ter todos esses problemas que citei acima, mas conforme você vai fazendo, você vai pegando confiança e segurança, na quarta e quinta ponte já fazia em pé, sem precisar me apoiar em nenhum lugar. 

      A nossa volta, passamos por duas pontes e cortamos caminho para chegar ao novo sistema funicular, dando a oportunidade de ter a visão das pontes de longe.


       
       

      Além das pontes e trilhas, no caminho tem estruturas diversas, como as Casas das Máquinas, esses lugares geralmente são para as pessoas que querem acampar a noite, fazer alguma comida ou dar aquela descansada. 

      Começamos a trilha as 09:00h da manhã e voltamos a cidade as 15:30h da tarde, já que estava ameaçando chover, nosso trajeto foi até a segunda casa das máquinas, que fica depois da quinta ponte, lá tem um ótimo lugar para tirar fotos e apreciar a Serra do Mar, chegando a ver Cubatão ao fundo, muitos vão até a terceira ponte, onde tem a primeira casa das máquinas e um ótimo lugar para tirar fotos também, os mais corajosos vão ate Cubatão. 

       
       Dando aquela pausa na segunda casa das máquinas.


       
      A imponente Serra do Mar ao fundo 
       

      Recomendo que caso você tenha interesse em realizar a travessia ou parte dela, que busque algum guia local ou pessoas que já fizeram e que possam ter ajudar durante a trilha, é de extrema importância ter um apoio, se eu fizesse ela sozinho, sem ter ao meu lado duas pessoas experientes, a situação seria muito mais complicada do que foi. 


      Espero que tenham gostado do relato, para qualquer dúvida só mandar mensagem pelas minhas rede sociais, estou presente no Instagram no rafacarvalho33 e no Facebook no Follow The Portuga.


      **** Aos amigos do blog que vão viajar e reservar sua hospedagem, peço para usarem minha caixa de pesquisa na página inicial do site, assim o Booking repassa uma parte da comissão para mim, ajudando eu a seguir com o trabalho aqui no blog, isso não gera nenhum custo adicional para você. Valeu =] ****


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    • Por divanei
      De Biritiba-Mirim à Bertioga-SP
      “     Chafurdados no pântano até o pescoço, cinco criaturas se arrastam na lama, se esgueirando entre camas de jararacas e casas de jacarés do papo amarelo, tentando fugir das desgraças aquáticas proporcionada pela aquela EXPEDIÇÃO que havia partido do Planalto Paulista três dias atrás. A tarde já vai pela metade e  já dão por certo ter que dormir dentro d’água e virar comida dos mais terríveis insetos asquerosos que habitam aquele inferno alagado. A resiliência parece já ter tomado a alma de cada um daqueles infelizes, isolados do mundo, sem comunicação nenhuma, largados à própria sorte e fadados a pagar seus pecados antes de se transformarem em criaturas do brejo, melhor seria se fossem logo comidos por uma sucuri gigante, seria um desfecho mais glorioso para aquele sofrimento. ” 

          (Da esquerda para direita : Anderson , Potenza , Divanei , Vagner , Trovo .  )
                 Alguns roteiros são planejados e quando se vê a impossibilidade momentânea de realiza-los, são jogados e esquecidos numa gaveta ou num arquivo qualquer do computador, indo parar numa espécie de limbo digital até que alguém te faça lembrar que ele exista. O Rafael Araújo me consultou sobre a possibilidade de botar essa expedição em pratica já que os planos iniciais para o feriado do Carnaval acabaram indo por água a baixo. Acontece que essa Travessia tinha um entrevero que até então eu não havia achado solução, aí foi preciso voltar às pesquisas nos mapas e cartas topográficas a fim de desvendar o mistério.
             O projeto inicial da travessia partiria de Biritiba-Mirim, mais precisamente nas dependências da SABESP, num lugarejo conhecido como CASA GRANDE, mais de 20 km do centro do citado município, um fim de mundo servido por uma estrada de terra toda zoada. Partindo de Casa Grande ainda seria preciso mais 5 ou 6 km de andanças até interceptar a trilha de acesso para a CACHOEIRA DO DIABO, uma queda d’água quase que desconhecida nas nascentes do rio Guacá, descer o próprio rio por mais de  1 km e a partir de aí abandoná-lo pela esquerda e se jogar num mundo desconhecido varando mato montanha acima até a crista da serra e despencar para fundo do vale, ganhando as nascentes do RIO GUAÇU, afluente do grande Rio ITAGUARÉ. Do topo da serra à quase 800 m, desceríamos o despenhadeiro até a planície litorânea de Bertioga e aí é que estava o enrosco: Como passar pela área alagada, um mundo feito de água, pântano, mangue e charco?  A solução inicial pensada foi a de traçar uma linha reta quando o rio arrefecesse, direto para uma estrada a 3 ou 4 km a sudoeste (direita de quem desse o rio) e deixar que o destino nos guiasse no final da travessia, mas já prevendo que o capiroto poderia fazer sua morada naquele caminho.

         (laranha- trilha até cachoeira do Diabo)   ( vermelho - caminho da expedição selvagem)
                Ultimamente o grupo de gente disposta a enfrentar essas Expedições incertas acabou por diminuir drasticamente, alguns simplesmente começaram a achar que algumas travessias vinham se enveredando por lugares extremamente perigosos, outros acabaram por buscar atividades com menos perrengues, indo aprender novos esportes ligados ao mundo da aventura e outra parte já haviam sinalizado com compromissos familiares. No final apenas cinco míseros corajosos se dispuseram a enfrentar esses caminhos nunca dantes navegados e então numa sexta-feira cinzenta o grupo se juntou depois das 10 horas da noite na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes de onde partiria nossa VAN com destino à Casa Grande, no município de Biritiba-Mirim.
                A viagem de Mogi até Casa Grande deve ter levado umas duas horas e meia, o certo é que estávamos tão envolvidos jogando conversa fora e revivendo expedições passadas que nem nos demos conta do tempo. Depois de chegar até as instalações da SABESP (Companhia de Águas Paulista) , ainda foi preciso que o nosso transporte se metesse por mais uns 5 km de estradas enlameadas até o PESQUEIRO DO LUCIANO, que na verdade nem pesqueiro era e muito menos pertencia ao Luciano , o caseiro do criador de carpas. Como o Vagner já conhecia o caseiro de outra passagem por ali, não se fez de rogado e já intimou o nativo a nos conseguir um lugar para passarmos a noite e, entre cachorro, gatos e galinhas, nos acomodamos no chão do casebre e apagamos até depois das seis da manhã.

          ( o cão BINGO : mergulha, pesca e caça)
                A previsão do tempo era péssima, marcando quase 40 milímetros de chuva para o sábado de Carnaval, mas surpreendentemente o dia amanheceu seco e quente e tão logo o café ficou pronto, nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos para a aventura. Ganhamos novamente a continuação da estrada que havíamos chegado na noite anterior e avançamos por mais uns 1500 metros, coisa de meia hora e quando a estrada se bifurcou, com uma perna indo para direita e outra para esquerda, não pegamos nenhuma das duas e a abandonamos em favor de uma trilha em frente, para sudeste, que no começo é meio apagada e confusa, passando por uma casinha em ruínas a nossa esquerda. Tão logo nos distanciamos do casebre abandonado, a trilha volta a ficar mais nítida porque na verdade, trata-se de uma antiga estrada que muito provavelmente serviu para extrair madeira para as carvoarias, mas hoje a mata voltou a se regenerar e o antigo caminho foi engolido pela floresta, restando apenas o antigo corte no barranco. A trilha vai seguir praticamente em nível, cruzando uma infinidade de riachinhos e quase 3 horas depois vai desembocar no leito do Rio Guacá, bem perto das suas nascentes.

                O RIO GUACÁ é um velho conhecido meu, foi nele que comecei minha vida mateira há 25 anos atrás, muitas são as lembranças de acampamento e explorações nas imediações da sua foz, junto ao Rio Itapanhaú, então ter a oportunidade de conhecer sua nascente é sempre um grande prazer. Chegar a esse rio já é um grande trampo, pela logística ruim e pelas horas de caminhada, mas ainda falta a cereja no bolo, uma cachoeira selvagem e praticamente desconhecida, visitada apenas pela galera mais casca-grossa e experiente. O grande problema é que não há trilha para se chegar a essa cachoeira e será preciso varar mato meio que pelo rumo ou ir seguindo a direção do GPS até sua base. Claro que ao chegar ao rio é possível tentar encontra-la descendo por dentro da água, mas aí seria caminhar por mais de 1 km, perdendo assim tempo precioso. Como o Vagner já havia estado nessa cachoeira tempos atrás, atravessamos o rio e menos de 100 m depois chegamos a uma clareira de acampamento, o único vestígio de vida humana por essas paragens. Não há nenhuma trilha que ligue essa clareira direto para a cachoeira, então descemos mais um pouco até tropeçarmos em um afluente e nos enfiamos nele na certeza que uma hora ele encontraria com o rio principal, mas como começou a fazer muitas curvas, também o abandonamos e seguimos nossos instintos , apontando o nariz para a direção do rio e menos de meia hora depois tivemos  êxito , encontrando um grande poço e aí foi só varar mato subindo pela margem direita até avistarmos a deslumbrante e selvagem CACHOEIRA DO DIABO.

                Gastamos pouco mais de 3 horas do “pesqueiro” até a cachoeira e foi uma grande alegria poder chegar ali e se maravilhar com aquela queda d’água onde poucos já tiveram a sorte de botar os olhos e ainda poder desfrutar de tamanha beleza com sol, coisa que jamais esperávamos com uma previsão tão ruim para aquele dia. A Cachoeira do Diabo é daquelas quedas clássicas, que se espalham de um lado ao outro do rio. Com o rio normal forma dois véus d’água , mas com o rio mais cheio os véus se juntam formando uma só . É possível se banhar embaixo das quedas, mas para isso é preciso se equilibrar sobre umas pedras mais lisas e escorregadias, a sorte é que um tombo ali causará pouco estrago.
                Já passava do meio dia quando resolvemos partir de vez e retomar nossa travessia, ainda mais porque a chuva que deveria ter chegado cedo, acabou dando o ar da sua graça. Descemos o rio nos valendo novamente de sua margem até estarmos novamente de volta ao grande poço, contornamo-lo pela sua  esquerda e continuamos seguindo , alternando caminhada pelo mato e pelo próprio leito do rio Guacá até que nos surpreendemos com uma outra grande queda que nem esperávamos que havia e aí fomos obrigados a varar mato pra valer, subindo um pouco a encosta da esquerda e depois traçando uma diagonal até a base da cachoeira, onde eu e o trovo nos metemos dentro da água para ter uma visão privilegiada do salto .
       
                Um pouco mais abaixo desse salto, outras pequenas cachoeirinhas são vencidas e logo nosso GPS nos avisa que é hora de abandonar o lendário Rio Guacá, havia chegado o momento de nos jogarmos de corpo e alma para a aventura que almejamos buscar. Nos despedimos do rio e começamos nossa jornada rumo ao desconhecido, primeiramente subindo um grande barranco à esquerda e nos enfiando de vez mato à dentro e montanha acima. Encontramos uma espécie de rampa que nos deu um caminho bem promissor e nos fez ganharmos altitude rapidamente, mas logo que nos vimos bem acima, tivemos que abandoná-la porque ela tomou um rumo que não serviria aos nossos propósitos. Estávamos navegando com um aplicativo do celular, que já há muito tempo tem nos servido muito bem, mesmo nessas expedições selvagens, mas é preciso aceitar que às vezes um pequeno delay (atraso) pode dar uma desorientada básica e é preciso corrigir o rumo sem muito estresse. Nosso objetivo era ao atingirmos a crista da serra a quase 800 m de altitude, ganharmos a descida até as nascentes do Rio Guaçu e a partir de aí, nos jogarmos por dentro do vale e foi exatamente o que fizemos, só que primeiro tivemos que fazer um desvio para nos livrarmos de um vale que seria inútil descer para ter que subir novamente, então ganhamos uma subida a esquerda e quando nos vimos no alto da serra, concertamos o caminho voltando mais para a direita e por incrível que possa parecer, encontramos uma trilha larga correndo por cima da serra.
                Essa trilha, por sinal, muito consolidada, correndo por cima da crista, poderia tomar vários rumos que até então não tínhamos conhecimento, mas com certeza não nos serviria para nada, então a usamos apenas como descanso breve, antes de nos despencarmos terreno abaixo. E despencar era o termo correto, uma vez encontrado a calha do vale foi só nos mantermos dentro dele, avançando cada vez mais para baixo, desescalando o leito seco de um córrego até que a própria chuva que ameaçava desabar, desabou de vez e o que era seco e sem vida se inundou rapidamente até que finalmente chegamos ao que nos parecia ser as nascentes ou uma das nascentes do Rio Guaçu. A chuva castigou legal e o desnível foi aumentando e se transformando em um verdadeiro cânion, onde tínhamos que nos livrar de grandes pedras, às vezes sobrepostas por grandes árvores tombadas.  O dia vai se findando, mas a gente resolveu estabelecer como meta chegarmos aos pés da grande queda que supúnhamos haver em um afluente vindo do lado esquerdo do rio, mas conforme a chuva aumentava, as dificuldades iam se multiplicando e alguns do grupo já vislumbravam a possibilidade de acampar logo e nos livrarmos daquele molhaceiro todo. Acontece que não encontrávamos um palmo de área plana para acondicionar todo o grupo, então a única alternativa era continuar navegando.

       
        
                A chuva aumentou de vez, mas por sorte a temperatura não caiu. Matacões eram descidos e a carta topográfica nos avisava que o terreno se abriria à frente, com linhas espaçadas, o que significa área mais plana e a possibilidade de estarmos perto da grande queda d’água que buscávamos e não deu nem quinze minutos para que um clarão alvo viesse a ofuscar nossos olhos em meio a selva densa. Foi o momento de euforia, estávamos bem perto de nos encontrarmos com aquilo que havíamos visto apenas por imagens de satélite. Abandonamos o rio em favor de um vara-mato em direção ao clarão branco formado pela cachoeira, cruzamos um riachinho para o outro lado, subimos mais um barranco e ao tropeçarmos no próprio afluente do qual desabava a cachoeira, jogamos as mochilas ao chão e saímos correndo, feito adolescentes indo ao encontro de um amor ainda desconhecido.

                Por sorte, bem nessa hora a chuva havia dado uma trégua, o que nos ajudou a fazer uma escalada pelas grandes rochas com mais segurança. Ao nos posicionarmos diante da parede onde despencava a grande queda, foi que nos demos conta da grandiosidade da Cachoeira. Uma parede inclinada de uns 70 ou 80 metros com um véu branco turbinado pela chuva que acabara de cair. Tiramos algumas fotos e partimos de volta para onde deixamos as mochilas, sabíamos que era hora de conseguirmos um lugar para acampar, tínhamos que aproveitar a trégua da tempestade para tentarmos montar nossas redes, muito porque, o Anderson já estava em estado terminal, inclusive ele foi o único que não teve forças nem para ir ver a grande cachoeira e acampar ali por perto lhe daria mais uma chance de conhecer a cachoeira no dia seguinte.

                Retrocedemos um pouco antes do riachinho e ali conseguimos uma meia dúzia de árvores descente para montarmos nossas redes. O primeiro dia de caminhada é sempre o mais complicado e cansativo porque se dorme muito pouco na noite anterior, então depois de montarmos nossas camas de mato e prepararmos uma janta, cada qual foi morrer na sua rede. Ali naquele vale onde o mundo não sabe que existimos, a noite passa de vagar, os bichos fazem barulho ao longe e o som das águas correndo sobre as pedras reina absoluto , só sendo ofuscado quando alguma grande árvore tomba na escuridão da floresta, gigantes que despencam arrastando tudo que tem em volta e assombram a nossa alma porque sabemos que se uma dessa cai sobre nossas redes, não sobra um pra contar história.
                O dia que amanhece é sem chuvas, mas a previsão ainda não nos é favorável. Foi uma noite de reis, quase 12 horas de sono e descanso merecido. Lenta e vagarosamente vamos desmontando nosso acampamento e nos preparando para aquele segundo dia de expedição e quando todas as mochilas ficaram prontas, partimos novamente para uma visita mais prolongada da GRANDE CACHOEIRA. O reencontro com o monstro despencando da pedra chega a ser mais prazeroso que o do dia anterior porque agora o grupo está todo reunido e sem as chuvas, fica fácil escalar as grandes pedras lisas para uma foto panorâmica. Falando em fotos, ao posicionar minha câmera numa rocha para um registro fotográfico de todo mundo junto, um vento se encarregou de joga-la dentro do rio e essa foi mais uma que a Serra do Mar comeu para todo o sempre, amém! Ali onde estávamos o nosso GPS marcava uma altitude de uns 550 m e surpreendentemente encontramos uma “inscrição rupestre” muito antiga em uma árvore onde se podia ler “ ALEMÃO”. A única explicação plausível para que alguém antes de nós tivesse chegado até aquela cachoeira perdida do mundo é que aquela trilha que encontramos na crista da serra, poderia ter descido rapidamente pelas encostas do lado direito da nascente e vindo desembocar aqui, mas esse foi o último vestígio humano que encontramos naquele vale e para ser justo com o nobre “europeu” que veio de tão longe para visitar essa queda d’água antes de nós, vou marcá-la como CACHOEIRA DA LAGE DO ALEMÃO.


                Deixamos, portanto, aquela cachoeira perdida e entregue a própria sorte e partimos descendo pelo próprio afluente, que mais nos pareceu ser mesmo o rio principal formador do Rio Guaçu e logo quando se encontra com o rio que descemos até ele, se encorpa de vez e cresce, tomando forma e jeito de rio digno dessas serras fabulosas. A retomada pelo rio principal segue praticamente a mesma toada do dia anterior, nos fazendo escalar e pular muita pedra, são matacões gigantes, onde é preciso se esgueirar dentro de pequenas grutas, atravessar pequenos corredores alagados, dar salto de uma rocha para outra, se segurar em rampas escorregadias e vez por outra se jogar no rio em ziguezague, cruzando de uma margem para outra, sempre procurando o melhor caminho. Poucos são os esportes em que você é obrigado a usar todos os músculos do seu corpo, aprender todas as técnicas de escalada livre que existem, tendo que se manter ligado em 100 % do tempo, porque uma bobeada, mínima que seja, você vai pagar caro e correr o risco de ver sua cabeça explodir numa pedra rio abaixo, sem contar que os olhos tem que estar fixo também no mato, tem que ficar esperto para não enfiar uma mão numa jararaca e sofrer um acidente sem volta, num lugar onde o resgate é quase que impossível por não haver comunicação com o mundo externo.
                O dia vai passando rapidamente e a chuva que ameaçou cair a manhã toda, desaba de vez e o rio que era manso e cristalino se rebela contra nós, tornando a aventura ainda mais desafiadora. Nosso grande objetivo desse segundo dia era encontrar outra cachoeira que nos pareceu bem grande no mapa de satélite e quando estávamos chegando perto do ponto marcado no gps, ficamos esperto com todos os afluentes que vinham do nosso lado esquerdo, porque era desses cursos d’água que pretendíamos encontrá-la, em um paredão gigante. Quando o terreno aplainou de vez, intuitivamente já sabíamos que ela estava perto e não demorou muito para alguém do grupo gritar eufórico que havia visto ela despencando ao longe.
                Era mais um gigante a nos surpreender, a gente de queixo caído, ficamos ali, hipnotizados diante daquela parede que ao longe ainda, nos fazia querer largar a mochila e correr ao seu encontro já que ainda seria necessário tentar escalar seu afluente, com outras quedas d’água com transposição difícil. A chuva não parava de cair e diante das dificuldades que enfrentaríamos para chegar até a base da cachoeira, decidimos deixar nossas mochilas e subir apenas com as câmeras ou celulares para tentar um registro e como eu não queria ariscar em perder meu telefone, como acontecer com minha câmera, decidi subir com a mochila estanque apenas me livrando temporariamente de alguns pesos desnecessários. Ainda era cedo, mal havíamos passado da metade do dia, mas o Anderson Rosa não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir até a queda d’água. O Daniel Trovo tomou a frente e seguindo seu instinto, descobriu uma rampa inclinada que cortava as duas vertentes de água, dois rios que se formavam e se dividiam vindo da cachoeira. A rampa apontava para o céu e foi sendo vencida palmo a palmo até que fomos obrigados a subir o riacho da esquerda, escalando por dentro da água com o turbilhão aquático querendo jogar a gente abismo abaixo. A massa de água sobre nossas cabeças era assombrosa, um turbilhão que mal deixava a gente progredir, um espetáculo impressionante, 40 ou 50 metros de altura de cachoeira reinando soberana no coração daquele vale selvagem sem vestígio de passagem humana e para marcar esse ponto no mapa, vou dar o nome de CACHOEIRA DO ITAGUARÉ, para homenagear o rio que domina essas paragens.


                Essa cachoeira estava assentada sobre um degrau numa parede lateral e dela era possível avistar o mar e toda a área alagada da Restinga de Bertioga, infelizmente não conseguimos uma boa foto dela por causa da chuva intensa e de volume avassalador, mas vamos deixar gravado na memória esse dia incrível, de descobertas e explorações, o dia em que acrescentamos mais uma joia nos mapas da Serra do Mar. Não nos demoramos muito, estávamos com frio por causa da água e do deslocamento de ar provado pela queda e se já foi complicado subir, descer então foi muito pior, tanto que tivemos que contar um com a ajuda um do outro para passar pela beira da garganta, até ganharmos a descida da rampa e voltarmos ao rio principal, onde o Anderson nos esperava, dormindo sobre uma rocha.

                Retomamos a caminhada pelo rio, sempre espertos com o volume intenso e com alguma possível cabeça d’água, já que o rio havia se tornado totalmente escuro. O ritmo, agora mais lento tanto por causa de alguns já cansados pelo desgaste, tanto pelo terreno extremamente acidentado, com pequenas quedas e rios correndo por baixo de grandes rochas, nos causando um esforço físico para serem transpostas. As vezes era preciso correr para o mato e desescalar barrancos para tentar fugir das rampas mais íngremes que não nos oferecia uma segurança razoável para descermos. Nossa meta estabelecida eram dois grandes poços que havíamos identificados no mapa, mas que pareciam cada vez mais longe com as chuvas a nos castigar o lombo, mesmo em se tratando de chuvas com temperaturas altas, e quando esses dois poços foram encontrados, nos decepcionamos um pouco porque esperávamos e pretendíamos nadar neles, mas estavam com a água muito turva e só fizemos olha-los e partir imediatamente já que havíamos decidido começar a procurar um lugar para acampar.

                
                Abaixo desses dois grandes poços tivemos que cruzar o rio para sua margem direita e para isso tivemos que saltar de uma pedra não muito alta e tomar impulso para não sermos arrastado pela corredeira e foi nesse momento que o Vagner se lascou todo ao explodir com o joelho numa pedra rasa do qual não nos demos conta. Na hora já paramos para tentar prestar os primeiros socorros e ver se ele teria condições de progredir ou se seria preciso parar imediatamente e tentar acampar. Passada a dor inicial, o Vagner deu sinal positivo para que continuássemos até localizarmos um lugar mais descente para montarmos nossas redes. O Trovo se adiantou, mas a ilha a nossa frente não nos convenceu a ficar, então resolvemos empreender uma vara-mato pela esquerda porque era quase impossível passar diante de um abismo do qual o rio se jogava numa laje perigosa. Retornamos ao rio quando foi possível, bem aos pés de uma CACHOEIRA INCLINADA que havíamos sinalizado no mapa, uma bonita QUEDA de uns 50 metros, que nos fez parar para  respirar um pouco e nos alimentarmos.

                A situação ia ficando angustiante porque a noite se avizinhava e nada de encontrarmos um lugar descente para acampar e cada vez que o terreno dentro do rio piorava e tínhamos que cair no mato, pior ficava, porque era uma floresta com transposição difícil, muitas árvores caídas e quando uma grande parede nos barrou do lado esquerdo, fomos obrigados a escorregar de cima do barraco nos valendo de grandes árvores, como se fôssemos bombeiros escorregando pelos troncos. Estando de volta ao rio, o Anderson e o Trovo se recusaram a fazer um pequeno desvio para conhecer uma outra cachoeira deslumbrante, alegando que estavam preocupados com o Vagner e seu joelho estourado, mas o próprio moribundo do Vagner já tratou de arrastar o Potenza varando mato até a cachoeira e logo me cheguei a eles e ficamos nós três a nos maravilharmos  com mais um espetáculo em forma de massa aquática , batendo continência para uma CACHOEIRA de uns 20 metros , muito parecida com a própria cachoeira do Diabo, no Rio Guacá.

                 Retrocedemos até onde o Trovo e o Rosa nos esperavam e descemos por mais uns 100 metros até que finalmente resolvemos acampar. E foi realmente um lugar incrível que a primeira vista não parecia lá grande coisa, mas depois de um estudo mais profundo da área, conseguimos alocar todas as redes e toldos de uma forma excelente, com conforto e espaço e assim que as redes se esticaram, fomos cuidar do jantar, já que o dia havia sido de andanças intensas.
                As atividades no acampamento são sempre intensas porque é preciso deixar as redes e os toldos impecáveis ou corre-se o risco de acordar durante a noite, molhado, e isso é uma coisa que ninguém quer, além do mais, fazer tudo direitinho é a certeza de dormir muito confortável. Uma vez deitado na rede, o corpo relaxa e o "marulhar" do rio embala aquele sono que é impossível ter nas grandes cidades, ainda mais se estivermos protegidos com um bom mosquiteiro, um conforto essencial contra os inúmeros insetos da floresta.

                Mais uma vez tivemos sorte, não caiu uma gota durante a noite e com a trégua das chuvas, o rio amanheceu novamente cristalino, uma água bonita e encantadora. Dormimos não muito acima dos 100 metros de altitude e sabíamos que logo estaríamos na planície litorânea, mas  no início da caminhada daquele terceiro dia já fomos obrigados a descer umas cachoeiras e cruzar rio o rio várias vezes, o que não é muito agradável pela manhã, mas como já saímos do acampamento com as roupas molhadas, não há nem o que pensar muito, é se jogar na água e esperar o corpo se adaptar com a temperatura. Por sorte o sol apareceu logo pela manhã, ainda tímido, mas já era um grande começo.  Pouco mais de uma hora de caminhada e nos deparamos com um GRANDE LAJEDO, uma formação rochosa diferente das que estávamos acostumados na Serra do Mar, uma pedra mais lixada, mais nem por isso mais escorregadia.

                O rio foi ficando cada vez mais plano, algumas ilhas vão surgindo, a gente já caminha com uma certa facilidade, já relaxados porque nossa carta topográfica  já nos diz que  o final do rio ou a parte mais complicada, a parte escarpada, já havia terminado e ao nos posicionarmos em um afluente para um gole d’água, encontramos um vestígio de trilha, que infelizmente mais à frente terminou no nada, mas nos deu a certeza que o rio finalmente havia chegado na planície litorânea, estávamos na chamada Restinga de Bertioga , mas ainda muito, mas muito longe de algum lugar habitado e civilizado , mesmo assim comemoramos muito essa conquista. Uma comemoração inútil porque era na próxima curva que o diabo nos espreitava, ia começar uma das maiores sagas desde que começamos com essas travessias selvagens na Serra do Mar Paulista.

      (Final dos cânyons, inicio da Restinga de Bertioga)
                A descida pelo rio plano era um passeio, se comparado com a descida dos cânions, íamos de um lado ao outro, batendo papo e acompanhando o nosso deslocamento no mapa, onde pretendíamos abandoná-lo de vez e tentar um vara mato de uns 3 ou 4 km até uma possível estrada, mas foi aí que uma nova trilha surgiu de repente e mudou o nosso destino completamente, mudou os rumo daquela expedição e nos jogou em uma das maiores furadas das nossas vidas. A trilha que encontramos era aberta e logo pensamos que ela poderia nos conduzir diretamente para a civilização no litoral. Rio se dividiu em dois e nem percebemos, então quando chegamos em um lugar onde a trilha se perdeu, resolvemos atravessar para direita até que tropeçamos em um rancho de caçadores que parecia estar abandonado há muito tempo.

      (RIO GUAÇU)
                Surpreendentemente,  não vimos palmitos cortados naquela região, demoramos muito tempo para fazer a leitura do lugar, estava na cara que aquele lugar era totalmente inóspito e quem por lá andava, só o fazia porque chegava de canoa devido a dificuldade de acesso, mas como perto desse barraco de caça abandonado havia uma trilha, imaginamos que ela poderia nos tirar daquele fim de mundo, e ela realmente foi enveredando para a direção que nos favorecia, mas do nada acabou bem no RIO ITAGUARÉ , um rio bonito ,mas sinistro, cheio de algas e de cor avermelhada , onde a qualquer momento parecia que um jacaré do papo amarelo saltaria para fora e arrastaria um de nos .
       
      (Rio ITAGUARÉ)
                Fizemos uma pausa para mastigar alguma coisa e para pensar qual o rumo que tomaria aquela expedição e então enquanto as coisas não se resolviam, decidi tomar um banho naquele rio sinistro e a galera vendo que o caminho realmente havia se fechado, resolveram tentar seguir subindo o Rio Itaguaré até uma ponte que aparecia no mapa, uns 2 ou 3 km acima e realmente ao atravessar o rio para o lado esquerdo de quem sobe, encontramos algo parecido com uma trilha e decidimos seguir por ela.

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                No início parecia mesmo ser uma trilha, mesmo que a gente tivesse que atravessar áreas alagadas até a cintura, mas o caminhar não progredia, não avançávamos e 15 minutos depois um pântano nos barrou de vez, fim da linha para a gente. Metade do dia já se fora e era preciso achar uma solução, alguns queriam abrir caminho rio acima por uns 2 km, mas outros insistiam que deveríamos voltar até a curva do rio e tomar um destino que pudesse nos deixar longe dele, tentando evitar a área pantanosa. Nesse momento era o Anderson que comandava o GPS, então como foi ele quem gritou mais alto, saiu como vencedor na contenda e puxou a fila de volta para o local onde havíamos atravessado o Itaguaré.

                O plano era descer um pouco o rio e para depois varar mato numa direção paralela a subida, porque isso nos deixaria longe dele e consequentemente longe também da sua área alagada, pelo menos foi o que pensávamos. Mas antes disso acontecer uma ideia estúpida quase acabou sendo posta em pratica: Parte do grupo vislumbrou descer boiando pelo rio e se isso tivesse acontecido, estaríamos lá até hoje, perdido naqueles pântanos dos infernos, já que o rio faz curva atrás de curva e se perda num mar de florestas antes de se jogar no mar. E foi realmente por pouco que a gente não tomou essa decisão, parte do grupo já estava boiando na correnteza, inclusive eu, quando alguém sensato foi obrigado a intervir e a colocar aquela expedição de volta aos seu rumo natural. (Mas pensando bem, o cara que convenceu a gente a não ir boiando é mesmo um filho da puta dos infernos, porque o que estava por vir não seria bonito de ser ver, rsrsrsrsrsrsrr)
                Descemos o rio por uns 100 metros e miramos uma diagonal para a possível estrada e então começamos a vara mato. No início, um brejo dos infernos, mas logo o brejo deu lugar para um PÂNTANO, área alagada em meio a uma floresta baixa e com algumas raras árvores espaçadas. O Trovo ia à frente e eu logo no seu encalço, mas a progressão era lenta, morosa e modorrenta, não avançávamos 200 metros por hora e quando pensávamos que o terreno poderia melhorar, a água subia na altura do peito, em meio a uma selva de bromélias, onde possivelmente jararacas lambiam os beiços com a nossa passagem, já que costumam fazer dessas plantas suas camas.
                Para nossa sorte a chuva prevista para depois do almoço não veio e na minha cabeça um pensamento macabro de não conseguirmos sair daquele lugar e termos que dormir dentro d’água, já que em certos lugares não existiam nem árvores descentes para montar uma rede. A gente andou, andou, andou e quando vimos, estávamos no mesmo lugar. Havíamos rodado em círculos, mesmo com o GPS do celular. Ninguém disse coisa alguma, mas estava estampado em cada rosto o sofrimento passado ali naquela área alagada e eu mesmo cheguei a me perguntar se já não estaria passando da idade para me meter em tamanha encrenca, mas quando vejo alguns com a metade da minha idade, compartilhando do mesmo sofrimento, me conformo e continuo abrindo caminho metro a metro, tentando afastar da minha mente qualquer preocupação com possíveis cobras gigante e jacarés alados que possam cruzar o nosso caminho.
       
                Não há felicidade no sofrimento, mas a todo momento eu tentava transformar aquela jornada ao inferno pelo menos em algo mais divertido, fazendo troça da desgraça, pelo menos não havia ninguém machucado e era um grupo extremamente forte e se fosse preciso resistir, resistiríamos o tempo que precisasse. Acabaram-se as camas de jararacas e apareceram os capins navalha que iam cortando a pele de quem se atreveu a entrar ali de mangas curtas, os cipós espinhudos mancomunados com as palmeiras de espinhos, se encarregavam de fazer os estragos que faltavam. Muitos ali gritariam por suas mães se pudesses, mas sabedores que elas não os ouviriam naquele fim de mundo alagado, apenas se mantinham de cabeça baixa, fazendo suas orações ou praguejando em voz baixa. Mas navegar é preciso e sair vivo também e como o GPS do Rosa começou a brincar de delay por causa da bateria já combalida, coube ao Potenza assumir os trabalhos de navegação. Mais para esquerda, mais para a direita, volta, segue, diagonal reta. Eram muitos os comando, mas o terreno não nos deixava ir para onde deveríamos e isso só fazia com que ficássemos mais angustiados.
                Estar ali , presos sem poder avançar nos causa um sofrimento indescritível, é uma sensação de impotência diante de uma natureza bruta e selvagem e se alguém fosse picado por um cobra naquele alagado, morreria sem socorro, porque mesmo os que poderiam se adiantar para buscar um resgate, estavam presos e isolados também . Éramos cinco criaturas perdidas num mundo alagado, cinco seres que sobreviviam como monstros do pântano, incorporados a paisagem hostil em meio a algas e plantas aquáticas, passageiros de uma agonia em comum que parecia não ter fim.
                Uma decisão foi tomada a fim de tentar salvar pelo menos o moral do grupo que já se encontrava em frangalhos. Resolvemos mirar nossos narizes de volta para o rio Itaguaré, talvez não resolvesse coisa alguma, mas era um plano, porque até então, nada que tentamos resolveu. A labuta de abrir caminho numa vegetação quase que intransponível se estendeu por muito mais tempo, atravessar aquele mundo alagado com uma infinidade de árvores caídas, onde era preciso pular por cima, foi minando as energias e a nossa paciência. O traçado no GPS parecia não sair do lugar e a cada passo dado parecia nos enfiarmos ainda mais num caminho sem volta até que conseguimos encontrar meio metro de terreno mais alto e ali demos uma parada. Engraçado é que cercado de água pôr todos os lados e a maioria com a garganta seca, sem coragem e nem forças para captar água das bromélias, já que ainda não achávamos que era hora de partir para o desespero e bebermos água do pântano. Mas chegou uma hora que era preciso parar de sofrer, pelo menos de cede e já que havíamos parado  mesmo, enchi meu cantil de um litro com a água pantanosa e nele acrescentei um suco de jabuticaba para disfarçar o gosto, tomei uns dois goles e passei para o Anderson que já estava em estado lastimável, não muito pior que o resto do grupo e quando ele me retornou a garrafa, não continha mais nada além de baba ( rsrsrsrsr) , se água do pântano matasse, esse aí não tinha voltado vivo para contar história.
                Hidratados e procurando colocar os pensamentos em ordem, assumi a liderança momentaneamente, tentando chegar até as barrancas do Rio Itaguaré, mas me arrependi amargamente porque ali onde estávamos já era a própria vasão do rio e em certos momentos a água quase que alcançava o pescoço. Aquilo era algo totalmente insano, onde estávamos com a cabeça quando deixamos que a situação chegasse àquele ponto e o pior era não haver nenhuma perspectiva de sairmos daquela enrascada tão cedo. Puxei capim, abri floresta de espinhos, abri caminho em meio às algas gosmentas. Meu olhar se perdia no vazio procurando uma referência em que eu pudesse me apoiar, nem que fosse psicologicamente, mas nada nos era favorável, nem mesmo a tal margem do rio conseguíamos avistar, muito porque, ela nem existia e só descobrimos isso quando já estávamos no meio do leito do rio Itaguaré, cercados de vegetação aquática por todos os lados.
                Por sorte o Itaguaré ali era um rio raso e com correnteza pouca, que nos possibilitou subir por dentro dele caminhando e quando não dava mais pé, nadávamos correnteza acima ou nos puxando pelas algas aquáticas. Aquela era uma cena sul-real, cinco pontinhos humanos subindo um rio obscuro no meio de uma floresta perdida num pântano a meio caminho de lugar nenhum. Trovo vai à frente abrindo caminho dentro do rio, enquanto o resto do grupo ainda sem acreditar na situação em que havia se metido, segue atrás, com o Paulo Potenza ganhando uma certa vantagem até que o próprio Potenza da meia volta e desce o rio desembestado correndo de um jacaré do papo amarelo que emergiu das profundezas do rio e veio em nossa direção. Por sorte o tal jacaré que o Paulo havia visto, não passava da perneira do Trovo que havia se soltado e ficado boiando no rio em meio às algas.

                A situação não melhorou nada ao interceptarmos o rio porque vimos no mapa que ele se perderia em curvas, indo para uma direção totalmente oposta às nossas necessidades, que era a de encontrar uma possível estrada que poderia nos devolver as civilizações no litoral. A gente sabia que nossa situação não era nada confortável e tentávamos criar uma reserva psicológica para aguentar o que viria pela frente, mas foi literalmente numa curva do rio que o nosso destino mudaria. Numa entradinha despretensiosa, eu e o Trovo localizamos um barquinho de fibra afundado em meio as algas, tão pequeno que mais parecia uma caixa d’água com um bico e inventamos de tirá-lo do fundo e surpreendentemente ele boiou. Enquanto nos entretínhamos com a rustica embarcação, o Trovo adentrou no pequeno canal em direção a um terreno mais alto e bingo, achou uma canoa antiga no meio do mato, ainda com seu remo e a puxou para dentro do rio. Imediatamente um pensamento macabro tomou conta da minha mente: “ Vamos roubar essa porra. ” Sei que não era nada bonito de se fazer, mas são pensamentos que permeiam nossas mentes quando o desespero já tomou conta da gente. Achei que o único jeito de saímos daquele inferno alagado era nos apossarmos daquela canoa velha e remarmos rio acima até a tal ponte e desembarcarmos nela, ganhando assim essa possível estrada que nos tiraria dali.

                Subimos na canoa para fazer um teste e ver se aguentaria todo mundo e se iríamos nos adaptar com o remo. Subimos remando por um tempinho, mas eu me mantive no barco reserva, sendo puxado pela embarcação, mas logo retornamos ao local de onde partimos e ao investigarmos mais a fundo, descobrimos uma trilha que vinha de algum lugar até ali, talvez da própria estrada que buscávamos, e desembocava ali na beira do rio. O plano de roubar a canoa foi deixado de lado e o trocamos por essa trilha suspeita, mas que foi se abrindo e nos apontando uma saída e surpreendentemente, nos desovou bem na estrada, estávamos salvos, a civilização estava a não mais de uns míseros 2 ou 3 km e não levamos mais que uns 40 minutos para desembocarmos na Rio Santos, bem ao lado de uma subestação de energia, 300 metros de um posto de gasolina e a menos de 2 km do litoral. Abraços e comemorações marcaram o final daquela expedição e nos sentimos orgulhos de mais uma vez escaparmos inteiros de mais uma Travessia Selvagem e até então inédita. Conseguimos pegar um ônibus coletivo que nos levou de volta à Bertioga e de lá embarcamos imediatamente para Mogi das Cruzes e cada um foi se perder para um rumo, naquela selva de pedra, chamada São Paulo.

                E essa aventura pela Serra do Mar Paulista teve o poder de nos surpreender positivamente, porque até então desconfiávamos desse novo caminho proposto, mas nunca, nunca mesmo, podemos subestimar a grandiosidade dessas florestas e dessas montanhas , que despencam do Planalto Paulista para a Planície litorânea e conseguem desafiar o homem a ponto de quase poder vencê-lo, mesmo em tempos modernos onde ainda temos as tecnologias a nosso favor. Tomamos uma surra, por certo quase fomos humilhados, mas sobrevivemos com as reservas e a experiência adquirida em Expedições passadas, travamos uma luta ferrenha entre homem e natureza, resistimos até sermos cuspidos para fora e ao invés de prometermos nunca mais nos metermos em um terreno tão hostil como aquele, saímos do outro lado desse vale mais fortes do que nunca, prontos para enfrentar qualquer adversidade, seja em outras travessias como essa ou na busca por novas descobertas, porque em se tratando de AVENTURAS,essa serra Paulista é insuperável.

                                                            Divanei Goes de Paula – março/2019
                 
       
       
    • Por Lucas1900
      Em Agosto de 2018 fiz Calão/Lima -> Huaraz -> Lima -> Nazca -> Ica/Paracas -> Cusco + Vale Sagrado + Machu Picchu/Haynapicchu -> Arequipa + El Misti + Canon del Colca e pretendia fazer uma relato, mas pós retorno estava morto e do que pretendia fazer hoje ficaria bastante impreciso, o que não me agradaria. Então guardei os mapas pra dar a um priminho e hoje joguei tudo que é quanto nota fora e resolvi tratar somente do Vulcão El Misty, para quem possa interessar.

      Obs: adianto que não tô querendo fazer propaganda (+ ou -) de nada, mas tentando facilitar a vida de quem possa estar interessado em fazer esse rolê.

      No Brasil contratamos o passeio via Denomades, o processo foi bem simples, respondem bem e contratamos outros serviços com eles, mas nesse caso em específico foi um pouco frustrante. Pois na verdade eles intermedeiam a compra de serviço de outra agência local, que nesse caso, ainda comprou o serviço de uma terceira.

      Essa "segunda" foi um desastre. Nos informaram horário errado, não manjavam nada de rolê de montanha. Enviei informações prévias sobre condições físicas e de saúde e pedindo maiores informações para o preparo e "cagaram" pra isso. Ainda bem que não eram eles que prestavam o serviço e sim a  WaikyAdventours. E esses sim são muito responsáveis e prestativos. Sem pesquisar bem, não tinha muito como prever, mas se tivesse como tinha contratado diretamente com eles, barateado o passeio e não tinha me estressado com a "terceirizadora" hehe.

      É possível de se chegar ao cume, mas é importante estar acostumado a fazer caminhadas grandes e estar aclimatado.
      Quando fomos iniciar esse passei já estávamos a 20 dias no Peru, subindo e descendo montanha e laguna.
      Quatro franceses jovens que estavam no grupo do Misti, estavam há apenas 4 dias na região e ao chegar o acampamento base a aproximadamente 4800m já estavam passando mal.

      Dia -1.
      Após os estresses com a "terceirizadora" fomos levados ao Waiki, que nos orientaram que tipo de comida levar, quantidade de água e roupas que deveriamos utilizaram. Alugamos lanternas de cabeça e descobrimos que nossas luvas eram limitadas - eles nos emprestaram luvas deles.
      Dia 1 - Após nos buscarem próximo ao nosso alojamento, checaram nossas mochilas e nos emprestaram jaquetas mais adequadas, pois nossos anoraks eram pra "mata atlântica", eram bons corta ventos impermeáveis, mas não nos protegeriam do frios - se tivéssemos idos com eles, teríamos nos dado mal. Foi bem importante checarem nossa bagagem, nos permitiu reduzir a quantidade de roupas que levaríamos não só para uma quantidade mais adequada, mas num "esquema de camadas" mais adequado ao frio que enfrentaríamos.

      Saindo da agência, passamos no mercado para que os demais integrantes da "trupe" (4 franceses jovens , um mais velho, um canadense, eu e minha companheira de brasileiros e os dois guias peruanos) pudessem pegar água e comida.

      Ao acabar o asfalto pega-se uma estrada de chão até uma "fazenda" com posto de controle, onde está o Misti. O trajeto de carro até o inicio da trilha é bem acidentado, em terreno bastante arenoso, segure-se pra não sair quicando de dentro da pick-up.

      Iniciamos por volta das 12h e chegamos ao acampamento base (4800m de altitude) por volta de 16h30min. Nunca caminhei tão devagar, mas descobriria no dia seguinte que esse é meu passo favorito, além de necessário para alcançar altitudes maiores com esse corpo normalmente acostumado aos 700m hehe.

      Nosso grupo teve "sorte", pois não precisamos carregar as barracas, sacos e isolantes, pois o grupo anterior largou no acampamento base para nós, ou seja, só foi preciso trazer de volta e tal como no Brasil, pra descer todo santo ajuda.

      Os guias Brendesi e Edgar, esquentaram um arroz que trouxeram cozido, fizeram a melhor "hamburguesa" de altitude que ja pude provar, além de uma sopinha da hora. Um chazinho, pra dormir bem e as 17h30/18h já estávamos dormindo (ou tentando) em nossas barracas. Deveríamos acordar a 0h para iniciar a trilha rumo ao cume. Meu maior medo era não conseguir dormir cedo, ficar cansado e não chegar ao cume por isso.
      Por do Sol.

      Apesar do frio dormi super bem, sempre tentando colar em minha companheira e não encostar nas paredes geladas (e em alguns pontos congeladas) da barraca.

      Dia 2
      A 0h os meninos nos chamaram, tomamos um chá de coca e comemos um pão e partimos por volta das 0h30min (tentei  e tentamos levar o mínimo possível pra focar em carregar meu corpo).
      Levei uma coca cola lata, que era para estar quente, um litro de água, um litro de chá de coca, balas de coca, umas bolachas recheadas - enfim, priorizei açúcar e depois descobri que ainda assim levei mais líquido do que precisava hehe).

      De saída um dos franceses já ficou no campo base, pois estava passando mal.

      Depois de algum tempo de caminhada, os outros franceses jovens desistiram, pois também começaram a passar mal. Um dos guias voltou com eles para o campo base.
      Seguimos eu, minha companheira, um australiano jovem, um guia, e o francês mais velho, que estava com dores no joelho, uma tosse horrível, tomava uns golês e fumava... e que aparentava ser o primeiro que desistiria,

      Estávamos caminhando num breu, que era amenizado pela luz da lua, mas que não ajudava a atenuar o frio. Ao chegar em 5500m minha companheira informou ao guia que precisava voltar, pois não estava aguentando de frio e não conseguia seguir no nosso ritmo de tartaruga. O guia questionou se mais alguém queria "bajar", pois dali em diante "teríamos que ir até o fim". Nosso amigo francês estava com o joelho doendo e com frio, mas apostava na chegada do sol, por fim decidiu ficar.

      O guia pediu que esperássemos, pois a levaria até um ponto um pouco mais abaixo, para que ela fosse sozinha até o campo base. Ela tinha como referência a lanterna do outro guia que estava no campo base, que parecia estar perto, mas estava longe pacas. Ele pediu que ela fosse caminhando/deslizando pelas pedras até ver a primeira moita (juro que foi essa orientação) e que lá chegando ela pegasse a esquerda sentido a lanterna. Nisso ele voltou até onde estávamos, e apesar do pouco tempo de espera parecia que tinha nos abandonado hehe.

      O Piere, ficava perguntando de minuto em minuto se ele voltaria, pois estava bem frio pra ficar parado.

      Enquanto seguimos subindo, minha companheira foi caminhando no breu em busca da moita. De pois de vários tombos e pacotes, achou a moita e ficou trocando ideia, aprendendo sobre constelações, vendo o nascer do sol e pensando nos significados e no respeitar seus próprios limites.
      Como "único sulamericano" (excetuando o guia) da competição imaginária que criei em minha cabeça assumi a dianteira junto ao guia, para chegar na frente dos representantes da França e Austrália. Isso até perto de onde achava ser o cume... quando avistei o verdadeiro cume, me contentei em ser o ultimo dos "competidores" e pedi que os meninos me passassem.

      O guia e o francês que iria desistir primeiro hehe sumiram na minha frente, e por longo tempo fui caminhando com Cameron, o australiano que só falava inglês. Meu inglês é bem limitado e só serviu pra eu ficar alimentando meu parceiro perguntando "Do you like ... (coke, tea, bread, biscoito hehe).

      Em dado momento eu parei pra descansar e ele foi embora um pouco mais a frente. Acabei por chegar , acredito que 1h depois do Piere, e uns 30min depois do Cameron. E acredito que só cheguei por uma brincadeira que consistia em respirar, dar 10 passos e repetir isso até o cume.

      Foi muito bacana reencontrar os 3, olhar as fumarolas, tomar uma coca trincando a temperatura "ambiente" (a temperatura ambiente estava proximo a -18ºc) e ficar pensando sobre os Quechuas que subiram aqueles "Apos" para fazer suas oferendas sem jaquetas ou sapatos especiais, sobre os significados das colônias, sobre a violência das mineradoras que ainda existem com as comunidades campesinas, sobre os impactos do turismo, sobre como gostaria como uma pá de gente tivesse condições (econômicas, de tempo e saúde para estar ali), como foi legal compartilhar esse rolê com aquele grupo, nos proximos vulcões, enfim, uma infinidade de coisas passaram na cabeça.

      Cratera do Misti (5822m) com o PIchu PIchu ao fundo.



      Descer foi "moleza", com alguns pacotes no "esqui" nas pedras/areias, mas bem divertido. Ir até o acampamento base, encontrar o restante do grupo, dividir sentimentos, catar os equipamentos e descer rumo a pick-up.

      Outras considerações:
      a) Os guias eram muito gente finas;
      b) Se aclimate para não sofrer no rolê, além de estar subindo descendo e subindo, estávamos tomando chá de coca a vários dias, e tomavamos quase todas as manhãs "profilaticamente", além de eventualmente tomar Sorochi Pill (medicamento industrializado a base de AAS) profilaticamente e Ibuprofeno, quando tivemos dor de cabeça.
      c) O bloqueador solar congelou na mochila no acampamento base, então conversa bem com os guias pra se proteger bem do frio.
      d) Como em qualquer trilha, traga seus lixos para a cidade e peça as devidas orientações para usar o "banheiro" na montanha/vulcão.

      No mais bons passeios e caso possa ser útil estou à disposição.

      Abaixo uma foto da cidade, salvo engano com a fumarola do Sabancaya ao longe.



       
    • Por Alfredo Fuchs
      Era quase meio dia numa manhã de novembro. Sob o sol quente, a radiação castigava a pele já queimada dos meus braços, mãos e pescoço. Estava exausto. Os pés doíam, enfiados nos calçados especiais para caminhada que por algum milagre ainda insistiam em não se esfarelar. Mesmo com o lindo dia e com a paisagem deslumbrante do alto do Canion da Rocinha a inspirar a elevação do espírito, meu humor não poderia estar pior. Durante a noite anterior havia acabado a água nos meus dois cantis e a boca seca somada à respiração ofegante faziam a sensação de sede parecer insuportável. Com as últimas forças atravessei a campina e desci à margem do último córrego que tinha que atravessar. Depois disso, a estrada e o fim da jornada. Na margem, soltei a barrigueira e tirei a pesada mochila dos ombros. Com esforço, alcancei um dos cantis de plástico verde, e tentando me equilibrar sobre o terreno molhado, acocorei sobre a vertente e o enchi com um pouco daquela água gelada e cristalina. Levantei para beber e no momento em que tocava os lábios no cantil meu pé escorregou. Caí de lado sobre o barranco irregular e úmido. O cantil bateu no chão e foi parar dentro de uma poça lamacenta, derramando todo o seu líquido. Foi a gota d’água. Senti o calor do sangue subindo à minha cabeça e a fúria tomou conta de mim. Toda a frustração, o cansaço e a tristeza vieram à tona. Levantei e alcancei o cantil apenas para jogá-lo mais longe, com toda a minha força.
      Uma semana antes eu me sentia muito bem, me preparando para o que imaginava seria um trekking “épico”. Já havia alinhavado alguns detalhes da viagem com meu velho amigo de caminhadas. Mauro e eu nos conhecemos durante o serviço militar obrigatório, há mais de trinta anos atrás. De lá pra cá, mesmo sem qualquer regularidade, acumulamos aventuras, quilômetros caminhados e muitas histórias para contar. A nossa última aventura havia sido num final de semana de fevereiro deste ano. Com um amigo, fomos a um cânion muito pouco visitado em Cambará do Sul, que exigiu uma caminhada de 12 quilômetros sob forte chuva. O clima não estava nada bom e a previsão para os próximos dias era pior ainda. Assim, chegamos, acampamos e no dia seguinte retornamos outros 12 quilômetros. Mesmo assim valeu pela boa companhia, pelo exercício físico e por ter matado a saudade de um dos meus cânions preferidos.
      Depois de muitas conversas e combinações, a decisão estava tomada: desta vez, Kátia ficaria em casa com as crianças. Eu havia conseguido uns dias de férias do trabalho e, se por um lado estava precisando me afastar das tarefas rotineiras, por outro eu tinha planos...
      A ideia era aproveitar a exuberância inspiradora e remota do ambiente natural dos cânions de São José dos Ausentes para produzir fotos e vídeos para um novo projeto pessoal. Há algum tempo Kátia e eu vínhamos conversando sobre fazer algo baseado em plataformas virtuais. Ela é da área de informática e, muito criativa, tinha tido experiências de trabalho com mídias sociais. Insistia para que eu montasse algo nesse sentido, com enfoque nas minhas experiências. Agora, por algum motivo, me senti mais confiante e resolvi abraçar a proposta. A oportunidade de começar a produzir material num ambiente natural era perfeita. Um local onde eu me sinto à vontade, que faz parte de mim.
      Abri o armário e comecei a tirar as teias de aranha do nosso equipamento fotográfico, guardado há alguns anos, especialmente depois do advento dos smartphones... apesar de ter que carregar uma pesada “tralha” (máquina DSL, suas lentes e tripé, além de baterias extras e outros acessórios), a qualidade das fotos valeria a pena. Suportar o peso extra do equipamento fotográfico era um dos principais desafios desta empreitada. Deixaria o telefone celular para comunicação, navegação, vídeos e algumas fotos ocasionais. Adquiri um power bank de 10.400mAh para garantir a duração da bateria do telefone até o fim da viagem.
      O segundo desafio da caminhada era justamente a navegação. Com o meu bom e velho Garmin eTrex Venture na maioridade (passou dos 18 aninhos) e já mostrando sérios problemas – mapas desatualizados, display sem mapa e tela falhando, eu queria muito testar o sistema de navegação Google pelo celular. Ainda assim levamos o velhinho eTrex (pelo menos para marcar os waypoints), além de bússolas magnéticas e cartas topográficas da região. Falando em região, chegada a véspera da viagem ainda não tínhamos decidido qual seria o roteiro exato, para desespero dos nossos familiares. Sabíamos que seria algum trecho entre o Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul e o Cânion Montenegro, em São José dos Ausentes, numa jornada entre 4 e 5 dias. Isso seria decidido no carro, subindo a serra.
      Com a mochila cargueira preparada e a maleta com o equipamento fotográfico ao lado, restava aguardar o Mauro, que chegou perto das oito e meia da manhã de sexta-feira, feriado de Finados. Eu estava louco para botar o pé na estrada, mas, a convite da Kátia, o meu parceiro de aventuras, com a sua calma de sempre, entrou e tomou um café e comeu um sanduíche. Finalmente saímos para a maior caminhada que eu faria em anos! Mas conhecendo meu amigo, sabia que não começaríamos assim, tão imediatamente... então, pacientemente usufruí da parada em São Francisco de Paula (80 km rodados) para pesar as mochilas numa balança de farmácia e olhar umas lojinhas (todas fechadas), da parada em Tainhas (distrito de SFP, 115 km rodados) para um lanche e olhar as divertidas camisetas do Radicci, e da parada em São José dos Ausentes (248 km rodados) para um café com bolo na única lancheria (e também loja de bolsas, calçados, roupas, panelas e todo o tipo de utensílios) aberta naquele dia de feriado nacional.
      Tínhamos decidido fazer um roteiro inédito: caminhar do Cânion Monte Negro, onde fica o ponto mais alto do Estado do Rio Grande do Sul, seguindo para o Sul, pela encosta do planalto até o ponto de encontro com a BR 285, no início da descida da bela Serra da Rocinha. Seria uma caminhada entre 30 e 40 quilômetros, dependendo que quantos cânions iríamos visitar no caminho, considerando os imensos recortes dos profundos vales que os compõem. Enfim, decidimos deixar o carro na Fazenda Monte Negro, vencendo mais 45 quilômetros de estrada de terra.
      Para o Mauro, tudo em Ausentes era novidade. Eu, no entanto, havia me hospedado ali há cerca de 17 anos atrás. Apesar do local estar diferente, maior e mais bonito, muitas lembranças vieram à tona. Foi uma saída solitária, de uns três dias, para conhecer o tal ponto mais alto do Estado. Lembro bem que peguei muita chuva e frio nas minhas caminhadas por lá. Tentei várias vezes ver o cânion mas o tempo ruim não permitia e enchia tudo com a sua névoa cinza. Lembro também da comida campeira deliciosa que era (e deve ser ainda hoje) servida lá. Lembro do calor do fogo de chão e do fogão a lenha, sempre acesos. Lembro do peso das cobertas a ajudarem a aquecer a cama fria à noite. Lembro da escuridão e do silêncio absurdo da noite, me levando a refletir sobre as coisas da vida e principalmente sobre a recente perda da minha mãe, vencida pelo câncer. Naquele momento, era apenas eu. Avós, tios, pais e irmão. Todos haviam partido. Essas foram as lembranças que aquela casa de fazenda, com seus dois andares, me trouxe assim que o carro parou à sua frente.
      Conversamos com um rapaz, filho do proprietário. Ele não só permitiu que deixássemos o carro no estacionamento da pousada como nos deu uma carona até a base do Monte Negro. Eram passadas quatro horas da tarde quando, enfim, colocamos as mochilas nas costas e começamos a caminhar. Como é proibido acampar na área do Cânion, tivemos que contornar o Monte, pelo Leste, através de mata fechada. Foi um início conturbado e surpreendente, já que, na minha cabeça, não teríamos que passar por nenhuma mata. Tive grande dificuldade em me deslocar, já que a organização do meu equipamento não ajudava... aquela maleta de material fotográfico na mão... assim, mal tinha começado a caminhar e consegui alguns arranhões, duas quedas e afundar os calçados na lama preta, molhando as meias e as calças. Mas a compensação não demorou a chegar..
      Após uns 200 metros de sofrimento, digo, caminhada, a mata começou a abrir e, ao passar por uma espécie de túnel verde, descortinou-se uma clareira à beira do planalto. Era final da tarde e uma luz amarelada incidia, oblíqua, nas nuvens que dominavam o ar, da beira do planalto para baixo, como um tapete branco-dourado estendido em continuação aos verdes campos de cima da serra. Uma visão espetacular, revigorante. Fiz o primeiro vídeo da viagem com aquele cenário. Decidimos acampar por ali mesmo, posicionando uma das entradas da barraca para o lado do sol nascente. Jantamos e nos organizamos para descansar. Eu me sentia feliz por estar novamente no alto da montanha (por assim dizer), respirando ar puro, curtindo as cores da natureza, longe das luzes elétricas e do burburinho da cidade. Estava pronto para me livrar daquela frequência de 60 hertz que nos cerca cotidianamente e retornar à frequência da natureza, e, esperava, para minha própria frequência. Este sentimento não durou muito...
      Eu tinha adquirido um isolante térmico novo, mais compacto e confortável para colocar debaixo do meu saco de dormir. Eu tinha consciência que estava com 50 anos de idade e um sobrepeso de, no mínimo, 20 quilos. Não era mais um guri que podia dormir de qualquer maneira e acordar inteiro na manhã seguinte. Então, comprei, via internet, um isolante térmico inflável importado, de uma marca conhecida e reconhecida. A encomenda chegou num prazo razoável e cheguei a testá-la alguns dias antes do início da jornada. Fiz um vídeo sobre o assunto para o nosso canal do Youtube. Tudo certo. O fato é que na hora “h” o isolante inflável inflou e desinflou imediatamente, não se importando com a minha necessidade de conforto. De algum modo, ele estava furado. Muito furado. Até agora não sei o que houve. Até gravei um vídeo demonstrando minha frustração. Pior que ter frustrado a experiência com o equipamento novo foi a noção de ter que passar o resto da viagem sem o conforto, carregando um peso morto. Por sorte eu tinha levado outro isolante, de EVA, bastante fino. O suficiente para eu não ter que dormir direto no chão da barraca. Me arrumei como pude e, lembrando do meu pescoço que há meses estava dolorido, peguei o meu travesseiro compacto e comecei a inflá-lo. Por alguma ironia do destino, ele resolveu seguir o mesmo rumo do isolante térmico inflável. Minha “paz interior”, tão buscada pelo Mestre Shifu, estava sendo posta à prova. Tive que fazer o tradicional travesseiro de roupas para apoiar minha cabeça, ao deitar... paz interior, paz interior... afff... afinal, dormi. Mas não muito.
      Era perto das duas da manhã quando fui acordado pelo barulho do vento a bater na mata próxima e a sacudir as paredes da barraca. Nada de mais, afinal, sei que na beira dos cânions o clima muda rapidamente e sempre tem algum vento. Mas tinha alguma coisa diferente... estava quente e o vento parecia estar aumentando. Acordei de sobressalto uma hora depois com o barulho do vento que castigava violentamente a lateral da barraca, a ponto de prensá-la ao chão, sobre o Mauro, que dormia ao meu lado, enfiado no seu... esquema de dormir. O barulho era assustador e o vento parecia ser de um tornado. Bem, eu já tinha pêgo temporais enquanto acampava, mas não assim. Não à beira de um precipício, a 1.300 metros de altitude. Saí da barraca pelo outro lado, para tentar ter uma noção do que estava acontecendo. O céu estava limpo sobre nós, com uma absurda quantidade de estrelas e, olhando ao Sul, divisei uma linha mais escura junto ao horizonte movendo-se, com seus raios, rapidamente a Leste. Os ventos que passavam sobre nós eram puxados para a linha de mau tempo e pareciam alimentá-la. Uma tormenta muito forte se avizinhava. Dei a volta na barraca para conferir as estacas e as cordas. Tudo certo, apesar da pressão do vento, que realmente deitava a barraca sobre ela mesma. Sobre isso, não havia o que fazer a não ser rezar e confiar para que as varetas de estrutura não cedessem. Era uma barraca nova, comprada especialmente para uma saída com a família no feriado de sete de setembro. Aproveitei uma oportunidade no Outlet da The North Face e comprei uma Triarch 3. A barraca é sensacional. Ainda que tenha saído pela metade do preço, o valor pago era relativamente alto em relação a outras marcas, o que me fez levar um olhar preocupado da esposa. Agora a barraca estava mostrando o seu valor. O raiar do dia foi estranho. O sol nasceu esplêndido e laranja e sobre nossas cabeças ainda havia céu claro. Mas ventava muito e sabíamos que o temporal não tardaria a nos alcançar. Tirei umas fotos – tremidas por causa do vento – e fiz um vídeo mostrando a barraca adernada e o barulho do vento. Tomamos café rapidamente, arrumamos as mochilas e com bastante dificuldade, por causa do vento incessante, desmontamos a barraca. Começamos a caminhar na direção da tempestade.
      Saímos em busca do Cânion Boa Vista e do morro do mesmo nome, que é o segundo ponto mais alto do Estado, cerca de 10 quilômetros ao Sul da nossa posição. O tempo fechou de vez e, no meio do caminho veio a chuva. Tivemos tempo para colocar as jaquetas impermeáveis e as capas nas mochilas, mas sem muita serventia pois o vento sacudia tudo e fazia a água entrar em todos os lugares. Tentei proteger a maleta da melhor maneira possível, sem sucesso. Mesmo sendo uma maleta especial e reforçada, todo o equipamento molhou.
      Para piorar a situação, subiu um nevoeiro, dificultando a nossa navegação. Não víamos mais do que 10 metros à nossa frente. Mesmo com o GPS do telefone nos auxiliando, estava difícil encontrar a direção certa no meio do campo. O nosso objetivo era encontrar uma plantação de pinheiros que cortava o nosso caminho e escondia, atrás de si, uma estrada que levava ao Boa Vista. A chuva apertava e dificultava o manuseio do telefone celular. O aparelho não reconhecia a digital do meu dedo molhado. Além disso, cada vez que queria consultar o GPS eu tinha que parar, colocar a maleta no chão, puxar o telefone do bolso e de alguma forma tentar secar a ponta do dedo. Não foram poucas as vezes que eu tive que digitar a senha de segurança. Eu não quis deixar o aparelho desbloqueado porque não queria correr o risco de que algum toque acidental fechasse o mapa do GPS. Eu estava offline. Obrigado, Claro.
      Depois de algum tempo caminhando em zigue-zague, encontramos a plantação de pinheiros. De fato, só não batemos nela, porque quando o Mauro gritou “olha os pinus!!” estávamos andando ao lado dela e não de frente, como deveríamos. Deu tempo de cruzar a cerca e parar debaixo da primeira linha de pinheiros quando um aguaceiro começou a cair sem sinal de trégua. Ficamos parados, de pé, não havia mais nada a fazer. Dali para adiante, por outro lado, a nossa vida ficara mais “fácil”. O vento diminuiu. Bastava seguir a linha de pinheiros até encontrar a estrada. Era uma estrada típica de interior de plantação de pinheiros: rústica, suja e cheia de áreas alagadas. Uma hora e meia depois chegamos à entrada da Pousada Ecológica dos Cannyons, junto ao Cânion da Boa Vista. Nem houve discussão sobre a hipótese se seguir caminho. Era impossível. Entramos na pousada e pedimos acomodação para passar a noite. Eram onze horas da manhã e estávamos caminhando sob vento ou chuva desde as seis e meia. O atendente foi conferir se havia acomodações.
      Por sorte, a pousada não estava cheia. Tinha um pessoal da UFRGS (vimos a van na entrada do estacionamento) e mais dois casais hospedados. O gerente nos acomodou num chalé de madeira. Não era novo mas estava em boas condições. Contava com dois pequenos quartos de casal, um banheiro com chuveiro elétrico, e uma saleta que acomodava um beliche, um móvel com uma tv de tubo e... uma lareira! Imediatamente pedi ao gerente que acionasse a lareira. Ele retornou em seguida com uma caixa de lenha e em dois minutos ouvimos o crepitar da madeira. Era o local ideal para secarmos nossas roupas e calçados. Fiquei tão comovido que tirei uma foto dos meus tênis secando à beira do fogo.
      Ahhhh, um banho quente! Fiquei mais de meia hora no banho, aquecendo meus pés gelados, até que o Mauro, perdendo a paciência, bateu na porta pra saber se estava tudo bem. Coloquei uma roupa seca, pedi desculpas pela demora e fui para junto da lareira. Em seguida, fomos para a área de estar da pousada que contava com uma grande lareira ladeada por sofás confortáveis e com... wifi! Conversei com a Kátia e mandei umas fotos. Pela tv ficamos sabendo que a tormenta tinha sido realmente dura. Causou alagamentos e destelhamentos por todo o Estado. O noticiário informou que os ventos chegaram a 80 km/h na região em que estávamos. Quando contávamos o que tínhamos feito, as pessoas ficavam assustadas e nos olhavam como se fôssemos loucos. Todos na pousada – até a cozinheira – já sabiam dos coroas malucos que chegaram molhados e passaram de barraca por um vendaval.
      O almoço campeiro estava simplesmente delicioso. Simples e saboroso. Quando estávamos nos retirando, vimos o pessoal da universidade fazendo o check-out. Passamos o resto da tarde descansando, evitando que o fogo da lareira se apagasse (ou que as roupas queimassem muito próximas às chamas) e carregando nossos aparelhos eletrônicos. O passar das horas abriu o tempo. Lá pelas cinco da tarde, claridades mais fortes entravam pela janela do chalé. Em seguida, vinha uma nuvem e o tempo fechava novamente.
      Em seguida, fomos para o lobby, esperar a hora do jantar. Eu também queria ver a previsão do tempo no noticiário e aproveitar o sinal de internet disponível apenas naquele ambiente. Estávamos sentados junto à lareira quando ouvimos os dois casais que ficaram na pousada conversando com o proprietário da pousada sobre como ir ao Cânion Amola Faca. Eles queriam ir mesmo com o tempo não estando ainda tão firme. Olhei para o Mauro, que estava sentado junto ao fogo da lareira do lobby. Sabíamos que seria uma caminhada inútil de 6 quilômetros. O cânion estava fechado de nuvens, com certeza. À noitinha os casais estavam de volta. Não resisti e perguntei sobre a ida ao Cânion Amola Faca. Eles responderam, desapontados, que nem conseguiram chegar à beira. Um dos rios que corta a estrada que leva ao cânion estava transbordado, com uma corrente muito forte, devido às chuvas. Não se atreveram a tentar cruzar a torrente de água.
      Os casais, biólogos, viviam da pesquisa em campo e do ambiente acadêmico. Começamos uma conversa animada sobre sustentabilidade, acampar, trekkings e sobre o Cânion Josafaz, em especial. Pela conversa, entendi que os pesquisadores haviam procurado, sem sucesso, um local específico, importante para seus estudos, na região. Por incrível coincidência, a região do Cânion Josafaz nos é conhecida e querida. Estive com o Mauro lá por várias vezes. Descemos o cânion em duas oportunidades, por uma trilha inacreditável. Outras duas vezes estive lá guiando outras pessoas pela descida. Confesso que não conseguia encontrar a trilha sem o Mauro, por mais que tentasse. Por outro lado, eu conhecia muito bem a parte de cima, próxima das localidades de Aratinga e Contendas, pertencentes ao município de São Francisco de Paula. E conhecia o local procurado pelos biólogos. Isso deixou nossa conversa ainda mais interessante. Fomos interrompidos pela chamada à janta, que estava deliciosa. Em seguida, voltamos à beira da lareira, onde retomamos as conversas por mais um par de horas antes de nos recolhermos aos chalés.
      Resolvi me acomodar no beliche, mais próximo da lareira onde podia ficar ouvindo o crepitar da lenha sob a pouca luz avermelhada que emanava do canto da sala. A previsão do tempo era boa para os próximos dias mas eu sabia que teria dificuldades com o terreno molhado pela abundante chuva que caíra. Os campos de turfeiras deviam estar ainda mais encharcados. Organizei as cobertas sobre o pequeno colchão de beliche e adormeci rapidamente.
      No dia seguinte, domingo, o café foi posto às oito e meia, mais tarde do que eu gostaria. No entanto, o tempo ainda não estava firme, variando entre sol e nevoeiro. Percebi que o vento estava mudando para o quadrante Sul, o que me encheu de esperança. Aproveitei o maravilhoso café colonial que foi posto à mesa. Enfim, perto das dez horas da manhã fizemos o check-out, nos despedimos dos nossos novos amigos e retomamos a nossa jornada rumo ao Cânion Amola Faca.
      Quase todo o percurso de 6 quilômetros foi feito por estrada de terra e pedras. O terreno já havia enxugado bastante e os rios estavam quase em seu leito normal. Mas a sorte continuava a me testar e a sola do meu tênis do pé esquerdo começou a desprender. Iniciei a caminhada com os calçados à meia-boca mas confiante que conseguiria chegar ao final. Nada disso. Tentei amarrar cordas em torno do pé, mas ao caminhar as cordas soltavam facilmente. A situação estava começando a ficar periclitante pois, caso soltasse totalmente a sola, eu não poderia continuar. Só tinha levado aquele calçado. Perseverei e continuei a caminhar, com cuidado. Apesar do céu estar muito nebuloso, consegui belas fotos da longa cachoeira que despenca dentro do cânion. Demos a volta no vértice do cânion para nos refrescarmos nas águas daquele arroio. Aproveitei a parada para verificar o estado dos meus calçados. Nada bom. O calçado do pé direito já dava sinais de descolamento da sola. Foi aí que tive a ideia de furar a ponta da biqueira do tênis e passar uma corda, que amarrei nos cadarços. Ficou muito bom e segui confiante.
      O céu havia limpado de vez e agora o sol batia inclemente. Depois de encher nossos cantis, ficamos contemplando a beleza do lugar, acompanhados por uma leve brisa e alguns pássaros. Decidimos acampar por ali, em algum lugar de uma espécie de platô que se estendia para leste, a partir da face sul do cânion. Quando estava em casa estudando a região, pelo computador, percebi aquele platô e tive vontade de explorá-lo até sua extremidade leste e acampar lá, tendo uma visão de uma área litorânea que poderia se estender desde Torres até talvez Imbituba ou Tubarão, ao Norte. Mas a caminhada era longa e sob os argumentos do Mauro, resolvemos fica mais perto. Uma coisa eu não abria mão: queria ver o sol nascer no litoral. Esse é um espetáculo mágico. Não tivemos dificuldade em encontrar um local plano, que poderia servir. Consultamos o Garmin sobre a posição do sol nascente, e, a princípio, seria adequado. Montamos o acampamento sem pressa, aguardando a noite fria e ventosa que viria. Preparei uma sopa de galinha com arroz (aquelas prontas, de pacote, claro) e ainda enfiei um miojo e nacos de salame na panela. Uma refeição quente antes de dormir, simples assim. Dormi bem apesar do incômodo nas mãos, braços e pescoço causados pela radiação solar. Tinha esquecido do protetor solar e agora teria que ter muito cuidado no restante da caminhada.
      Dormi tão bem que quase perdi o espetáculo que buscava. Fazia uns oito graus fora da barraca e o vento forte do amanhecer deixava a sensação próximo de zero. Mesmo com as mãos tremendo, tirei várias fotos e decidi que iria filmar o sol nascendo. Este seria um presente meu para a Kátia. Ela queria muito ter vindo junto. Lembrei do nosso primeiro acampamento, perto do vértice do Cânion Fortaleza, em Cambará do Sul. Estávamos namorando há apenas dois meses e assim que começou o recesso das festas de final de ano, a convidei para acampar. E ela topou, mal sabendo onde estava se metendo. O seu tênis de marca, branquinho, também. Se não me engano, o coitadinho não resistiu e foi pro lixo assim que retornamos. O importante é que o destino sorriu para nós e a nossa união inclui também o amor pela natureza e pelos acampamentos. Ela adorou conhecer a região dos cânions e me acompanha sempre que pode. Lembro do seu rosto quando a levei pela primeira vez ao mirante do Cânion Fortaleza e lembro a sua expressão maravilhada quando a levei pela primeira vez ao Cânion Malacara, o nosso preferido. Lamentei muito a sua ausência nesta jornada e por isso quis gravar um sol nascente, só para ela. E a natureza ajudou. Foi mágico.
      Tomamos um bom café da manhã, com direito a bebida achocolatada, frutas e pão. Muita energia para o trecho que estaria por vir. Caminhamos por lindas campinas onduladas, cheias de flores coloridas e pontuadas por capões de mata. As araucárias ainda dominavam a paisagem por ali, até que começamos a divisar as plantações de pinheiros comerciais. Quando chegamos no meio de uma campina cercada de morros verdes, aproximou-se de nós um cavaleiro, o chamado peão de estância. Por segurança paramos e aguardamos a sua lenta aproximação. Após as saudações, explicamos que estávamos caminhando e pedimos passagem. Ele falou prontamente que respeita muito os turistas “como nós” e que tem bronca apenas com os caçadores. Aposto que ele soube que éramos mochileiros (e não caçadores) muito antes de nós o termos visto. Trocamos algumas impressões sobre o tempo e perguntamos sobre o caminho a seguir. Para a nossa surpresa, ele disse que teríamos que passar pelas plantações de pinheiros... isso não estava no mapa do Google... a imagem mostrava claramente que era campo aberto até o fim da caminhada. Ao que parece a ação do agronegócio ainda é mais rápida do que a atualização da foto do satélite de navegação. O peão, lógico, estava certo e em dado momento não tivemos mais campo pela frente, apenas pinheiros.
      Passamos por uma taipa de pedra, uma antiga mangueira (ou curral) feita de pedras encaixadas. Essa era uma prática muito antiga da cultura serrana e uma habilidade quase perdida no tempo. Essa taipa tinha mais de dois metros de altura e, na sua base, um metro de espessura. Uma construção singular. Em seguida, fomos na direção do Cânion da Rocinha, num lugar chamado “chiqueirão”. Erramos o caminho ao tentar desviar a primeira entrada do cânion e tivemos que caminhar quase dois quilômetros a mais. No entanto, esse ponto nos deu uma visão privilegiada da estrada da Serra da Rocinha e as construções dos novos viadutos que o governo federal está construindo. Demoramos quase uma hora para contornar esse vale reto e fundo para descobrir, do outro lado, uma estrada que ia exatamente na direção que tomaríamos.
      Era quase meio dia e o sol a pino estava nos castigando. Eu resolvi caminhar com a minha jaqueta leve, apesar do calor, para evitar mais queimaduras nos braços e no pescoço. Passava um calor opressivo, suando bicas, enfiado naquela jaqueta de nylon. Por sorte, um nevoeiro esparso começou a toldar o céu, aliviando o calor. Paramos um pouco para descansar, no meio de uma estrada. Sentamos, nos encostamos nas mochilas, puxamos os chapéus sobre o rosto e... tiramos uma soneca. Bem no meio da estrada. Acordei sobressaltado com o barulho de um motor. Poderia ser um carro a passar pela estrada em que estávamos deitados. O cochilo não durou mais do que quinze minutos, mas foi o suficiente para renovar os ânimos. Partimos para encarar o que imaginávamos seria o último grande obstáculo: um arroio caudaloso, margeado pelas plantações de pinheiros e que acabava por se lançar no fundo do cânion. Ao chegarmos às margens, percebemos que o desafio maior para atravessá-lo seria chegar às suas margens. O arroio corria por uma depressão ou vale com mais de dois metros de profundidade, com paredes verticais tomadas por uma planta espinhosa que conhecemos por orelha do diabo. Tivemos que caminhar um bom pedaço da sua margem até encontrarmos um ponto de descida, que conjugasse também um bom ponto de travessia e uma possibilidade de subida do outro lado.
      O arroio era lindo, com pequenas corredeiras e poços que convidavam para um banho refrescante. Deixamos para uma próxima vez. Estávamos à meia-tarde e o “nada”, o nevoeiro que sobe das encostas sempre nesse horário estava cada vez mais forte. Após caminharmos através de plantações de pinheiros encharcadas e cruzarmos por outro belíssimo arroio, alcançamos a região da nascente do Rio das Antas. Um lugar que ainda quero conhecer melhor. Tentávamos nos afastar um pouco da borda do planalto para termos um pouco mais de visibilidade, mas assim que adentramos a estreita faixa de campo que separa o precipício do vale do Rio das Antas, a visibilidade piorou. Às cinco horas da tarde não conseguíamos ver mais do que dez metros adiante de nós. Mesmo com o GPS era difícil navegar em linha reta ou mesmo antever os obstáculos pela frente. Passamos por uma área de nascentes e turfeiras que acabou com as minhas energias. Percebi que estávamos indo da direção errada e, preocupado, me dirigi à primeira elevação que consegui divisar. Cansado, quase não consegui subir o morro, que não era tão alto mas compensava com a dificuldade de sua inclinação acentuada. No cume, declarei ao Mauro que não conseguiria seguir adiante, tanto pelo meu cansaço como pela visibilidade, que a essas alturas estava reduzida a uns cinco metros. Montamos acampamento num lugar mais ou menos plano. Acabei por montar minha cama no espaço de 40 centímetros entre duas pedras e com os pés num buraco. Repeti a janta da noite anterior, que dividi com meu companheiro, e me acomodei para dormir. Estava exausto e com os calçados, meias e as calças molhados. Sabia que as coisas continuariam assim até a manhã seguinte pois o vento forte trazia apenas aquele nevoeiro úmido e gelado. Dormi como uma pedra.
      O amanhecer do dia seguinte foi esplêndido. Mais um espetáculo da natureza. O morro que decidi subir, quase no escuro, estava na borda do cânion e nos presenteou com um crepúsculo de tirar o fôlego. Estávamos a poucos quilômetros do final da caminhada e o dia estava aberto, iluminado e aquecendo rapidamente. Como previ, minhas roupas ainda estavam molhadas. Decidi trocar as calças e colocar meias limpas e secas. Usar a última muda de roupa limpa não me preocupava porque estávamos concluindo a jornada e meus pés estavam doloridos e machucados por causa do esforço de caminhar com calçados danificados e sempre molhados. Devoramos tudo que pudemos no café da manhã, desmontamos o acampamento e descemos o morro, na direção Sul. Ultrapassamos uma encosta e subimos um morro que, em seu topo, mostrava afloramentos rochosos e um pouco além, uma estação meteorológica. A estação resumia-se numa antena cravejada de equipamentos e um pequeno cubículo na sua base, possivelmente para guardar algum material. Vimos rastros de veículos mas nenhuma estrada ou trilha. Paramos para descansar e tirar algumas fotos. Aproveitei para usar a máquina fotográfica para registrar as encostas azuladas do Cânion da Rocinha. A caminhada estava relativamente fácil, sobre terreno alto e seco. Após contornarmos algumas pedras, paramos para descansar numa rara sombra. Dali enxergávamos, muito perto, as antenas no topo da Serra da Rocinha e, a cerca de um quilômetro, a estrada BR 285!
      Emocionado, pus a mão no bolso da calça para pegar o celular, verificar a nossa posição e tirar umas fotos. O bolso estava rasgado e o telefone não estava ali. Entrei em pânico e falei pro Mauro: “perdi meu telefone!”. Não era possível. Não podia ser verdade! Não, não, não! Todas as fotos, todos os vídeos que tinha feito... Não! Falei pro Mauro: “Vou voltar e procurar”. Deixei a mochila ali mesmo e comecei a retornar. Não lembrava ao certo onde tinha sido a última vez que tinha usado o aparelho mas, mesmo sabendo que as chances de encontrá-lo eram diminutas, não podia aceitar a ideia da perda assim, tão facilmente. Minha cabeça estava um turbilhão e mal vi o Mauro caminhando atrás de mim, me auxiliando na busca. Tentando loucamente lembrar da última vez em que o tinha visto, imaginei que tinha sido naquela encosta rochosa, perto da estação meteorológica. Caminhando lentamente, olhava para o chão e, a essas alturas rezando, para encontrar o telefone. Eram aproximadamente 500 metros de trilha de gado, campina baixa e pedras até o local da estação meteorológica. Fiz e refiz esse caminho duas vezes, tentei traçados diferentes, ziguezagueei por todo o terreno. Quase duas horas de procura, inútil. Apesar do esforço no auxílio da busca, Mauro me alertou do horário. Precisávamos abandonar a busca e concluir a caminhada. Uma vez na estrada, teríamos que pedir um táxi para o nosso resgate. Estávamos a 12 quilômetros de São José dos Ausente e a 57 do nosso carro.
      Arrasado, concordei. Tínhamos que encerrar a jornada. Eu não conseguia falar e também não conseguia chorar, apesar da vontade. Todas as cenas gravadas e fotografadas vinham à minha memória. Um sentimento de culpa também me invadiu. Por que eu troquei de calça? Por que não tive mais cuidado? Agora, todos os vídeos estavam perdidos. Muitas fotos também. Não havia backup e a única nuvem era a negra que pairava sobre a minha cabeça agora. Todo o projeto estava comprometido. As ideias, as imagens, as falas, todos os registros estavam perdidos.
      Me arrastei pelos últimos metros da caminhada até a estrada. O Mauro, tentando me animar, perguntava “Por onde agora?”, mesmo sabendo que o caminho em frente era o melhor. Eu mal balbuciava, sem força, “Por onde tu quiser...”, ou fazia um sinal com a mão, indicando seguir em frente. No final, eu simplesmente continuava caminhando. Estava cansado, com sede, triste e frustrado. Meus pés e ombros doíam. Minhas mãos e pescoço ardiam, queimados do sol. Estava farto de carregar na mão aquela maleta...
      Será que isso era uma mensagem do destino? Ou era puro azar? Há anos eu não tinha a oportunidade de fazer uma caminhada dessas. Trabalho, família, dinheiro, preguiça, sempre havia uma “desculpa” que me direcionava para outras atividades. Agora, tinha conseguido férias, tinha companhia, tinha a liberação da família, e tinha uma motivação a mais, um projeto. Enveredar por uma área de trabalho nova, com novos desafios. Eu sempre gostei de novos desafios. Comecei a jornada animado e a encerrava frustrado. Qual seria a moral da história? Haveria uma? Vamos deixar os clichês de lado, por um momento. As respostas estão aqui mas às vezes não nos vêm facilmente. Precisei de algum tempo para processar toda a jornada. Não sei se obtive alguma resposta, mas certamente tomei algumas decisões. E se essa jornada tivesse sido com você, querido leitor?
      Eram quase onze horas daquela manhã quente quando eu cheguei no córrego, à beira da estrada. Eu estava suado e com sede. Lembrei que estava com os cantis vazios e resolvi pegar um pouco de água e me refrescar antes de subir o barranco pedregoso até a estrada.
      Após a triste cena que se seguiu, ante os olhos arregalados do meu companheiro de caminhada, lentamente peguei meu cantil, lavei e enchi novamente. Subi o barranco de pedra, deixei a mochila cair nas pedras e sentei à beira da estrada, com a cabeça apoiada nas mãos, tentando acalmar a respiração e a mente. O Mauro, com ainda mais vagar, repetiu os meus passos barranco acima. Antes que ele pusesse por os pés na estrada eu levantei e apertei-lhe a mão. Pedi desculpas pela cena e pelo mau humor. Agradeci pela companhia e pela paciência e lhe disse que eu não poderia pisar na estrada sem estar com meu amigo, companheiro de caminhadas. Pisamos juntos no leito da estrada poeirenta.
       



    • Por Julio Romani
      A TRAVESSIA DA SERRA LINDA - E FINA.
       
      Relato sobre a travessia da Serra Fina – MG, realizada por Julio Celestino Pedron Romani e Cristiano Cavanha.
       
      Dizem por aí que o nome Serra Fina foi inspirado nas estreitas cristas das montanhas que a compõe. Resolvi confirmar in loco e descobri outro significado: Fina, no dicionário, refere-se ao que expressa delicadeza; delicada; cortês; de excelente qualidade. Também contam que é a travessia mais difícil do Brasil. Se é não sei, não fiz todas e particularmente acho impossível comparação como esta quando o assunto é natureza e montanha. Mas que é difícil, isto é.
      Após ler um dos livros sobre as conquistas dos Senhores Arlindo Zuchello e Édio Furlaneto (Treze Cumes do Brasil), houve um processo de iluminação e decidi descobrir as montanhas do Sudeste. Partimos então eu e meu parceiro de fé meu irmão camarada Cristiano, de Curitiba com destino a Minas Gerais para andar 32 Km de Passa Quatro até Itamonte.
      Ansiosos para os últimos preparativos, fomos recepcionados pela também Finíssima Passa Quatro em um final de sábado azulado de julho. Nos deparamos com uma exposição de carros antigos em que os fuscas predominavam; com a maria fumaça manobrando na velha estação e a torre da igreja centenária ao fundo. Extasiados com a acolhedora muvuca da pequena cidade (naquele dia era a abertura do festival gastronômico local), em menos de uma hora estávamos conversando com o Seu Cipriano e acertando o transporte, após providenciarmos queijo, salame e cachaça mineira. Sem isto, não teria travessia.

      (Foto:Recepção em Passa Quatro)
      Sete da noite estávamos em um fusca de estado duvidoso (o que significa exatamente nada para um fusca...) rumo ao ponto de início da pernada. Conversa vai e vem, descobrimos que o Seu Cipriano do Fusca era o Edinho da Toyota, recomendado por muitos montanhistas e cujo número estava anotado desde Curitiba. Na pressa para resolver as últimas pendências, ao invés de ligar para ele pedimos indicações para os comerciantes e funcionários da Estação e por coincidência chegamos a mesma pessoa.
      Sendo tanto eu como o Cristiano proprietários e apaixonados pela baratinha, já curtimos o início da bagunça. Após 15 KM de aclive esburacada, sob medida para o Volks, o mineiro gente boa e contador de causos nos deixou na Toca do Lobo em uma noite estreladíssima, não sem antes recomendar a trilha via Paiolinho em caso de desistência e sobre a escassez de água. No início de nossa conversa ele pareceu um pouco espantado com os dois malucos indo para aquela empreitada pela primeira vez sem guia. Contou quando nos reencontramos que ficou preocupado com nossa ausência na terça, pois assim tinha entendido ele que seria o dia em que voltaríamos, quando na verdade programamos o retorno para quarta-feira.
      A noite estava seca e com céu limpo, propícia para um bivaque, mas decidimos montar as barracas a fim de termos mais conforto e nos recuperarmos da viagem. Abortamos a janta pois almoçamos um elefante em Aparecida as três da tarde. Ouvi três assobios finos e cadenciados ao longe e como não pareciam em nada com o som de algum pássaro conclui ser o Saci avisando para respeitarmos Pachamama. Após ver alguns meteoros rasgarem o céu, noite bem dormida.
      Oito da manhã estávamos com o pé na trilha e em menos de 40 minutos já tínhamos maravilhoso visual; pegamos água no Quartzito e tocamos rumo ao Capim Amarelo. Como Montanhistas Amadores Profissionais Contemplativos Raiz que somos, era vinte passos e dedo na máquina, mais vinte e olho no horizonte, nas montanhas, na vegetação, nas pequenas cidades lá embaixo, na imensidão... E assim foi o restante da Travessia: contemplação e imersão na paz e energia infinita lá de cima. Uma marcante característica da Serra Fina é o visual constante e de extrema beleza. Em pouco tempo já se atinge os dois mil metros, altitude esta que só baixará ao final da caminhada. Cada trecho realizado é fantástico e peculiar, sendo desnecessário tentar descrever com palavras pois resultaria em um livro e seria enfadonho.

      (Foto: Rumo ao Capim Amarelo)
      Calculo que ali pelas três da tarde, pelo sol, chegamos ao Capim Amarelo. Pernada exaustiva, mais ou menos o esperado. Desde que comecei a estudar sobre esta travessia, imaginava comparações com as familiares montanhas Paranaenses. Creio que é equivalente no mínimo a um Pico Paraná por dia em esforço e distância (porém a altimetria varia muito mais, especialmente entre o Capim e a Mina). Andando sempre acima de 2000 metros, não há a raizeira e os vales úmidos característicos das montanhas mais baixas .
      Diferente do que é muito propagado por aí de que o primeiro dia é o mais difícil, todos os trechos são de igual dificuldade, cada um com suas características. As distâncias são realmente muito grandes, a alternância de aclives e declives é frequente; some a isto a cargueira, que mesmo muito bem planejada, sempre será pesada. Além do mais, em 2.600/2800 metros o organismo já sente o efeito da menor pressão atmosférica de oxigênio. Não é um sorochi, mas a exigência cardiorrespiratória é maior, certamente. Consideração digna de nota: sujeira só encontramos no Três Estados. Quem frequenta a Serra Fina, cuida. Talvez pela dificuldade, farofeiros de plantão (ps.: o termo farofeiro pode servir para muitos que se auto intitulam montanhistas) portando vinho em garrafa de plástico e dispostos a quebrar o silêncio da montanha não se aventuram para deixar suas indeléveis marcas. Muito diferente do depósito de lixo que viraram as montanhas da Serra do Mar Paranaense, mas isto é outra história. Aproveitando dias de férias, conseguimos programar de maneira a evitar aglomerações e assim, até o Capim pegamos algum movimento, depois encontramos somente dois pequenos grupos fazendo a travessia inversa e um jovem casal no mesmo trajeto que a gente. Todo montanhista é um pouquinho egoísta e fica mais feliz se tiver a Montanha só para si… fato inegável.

      (Foto: parte da trilha percorrida no primeiro dia - vista do Capim Amarelo)
      Após montar acampamento, analisamos o percurso para chegar até a Pedra da Mina e fiquei apreensivo com a distância a ser vencida no dia seguinte. Me assolou um profundo sentimento de impotência que se evaporou após uma farofa de carne seca e um cochilo revigorante. Visual maravilhoso para todos os lados, contemplamos exaustivamente as demais montanhas da Serra Fina, o Marins, o Itaguaré e as cidades de Cruzeiro e Passa Quatro, mais ao longe Aparecida e Queluz.

      (Foto:Vista do alto do Capim Amarelo - Pedra da Mina ao centro)
      Ao cair da noite, Cristiano, cozinheiro oficial de nossas empreitadas, preparou aquela rica sopa para repor as energias. De rotina, café da manhã foi “rapidez” ou pão sírio com queijo e salame; sementes, barras, e glicose na caminhada e uma densa (e deliciosa) sopa todas as noites, além de algumas maçãs e cenouras. Acostumados a levar a despensa para os morros e voltar com metade para casa, nos policiamos e de excedente, só a quota de emergência. Assim conseguimos gerenciar bem a água e passamos muito bem alimentados, mas o gasto energético enorme me fez perder pelo menos 2,0 kg.
      Coberto pelo manto estrelado, muito cedo já estávamos nos braços de Orfeu, até porquê o forte vento e a temperatura baixa impediam muito tempo fora da barraca. Antes, aquela obrigatória sapeada no espetacular contraste entre o breu de noite de lua minguante e as luzes das cidades, mais parecendo brasas esparsas.
      Acordando junto com a claridade do dia, 8:00 estávamos descendo o Capim para subir o Melano (e muitos outros) e seguir à Pedra da Mina. Após o Maracanã há um ponto de água (não perene) em que completamos nossa hidratação e assim bebemos tanto quanto precisávamos e muito mais durante o percurso do dia. Tinha lido sobre este ponto, mas foi um camarada gente boa que estava guiando dois rapazes no sentido inverso que deu a letra, caso contrário não sei se teríamos encontrado. Fica a dica: passando o Maracanã, entre 5 a 10 minutos de caminhada, lado esquerdo (sentido Mina).

      (Foto: Aurora do alto do Capim Amarelo)

      (Foto: metade da trilha entre Capim Amarelo e Pedra da Mina - Capim Amarelo ao fundo)

      (Foto: Faces da Montanha)
      Vales, escarpas, montanhas, horizontes, vegetação e chegamos a cachoeira vermelha. Cruzamos um vale que lembrou paisagens Andinas – aliás, alguns trechos lembram os Andes Bolivianos – e na base da Pedra da Mina bebemos e nos abastecemos de puríssima e gelada água.
      Após contemplar o que suponho ser o Vale das Cruzes, em torno de quatro da tarde estávamos no alto da quarta montanha mais alta do país, para nós a maior altitude alcançada em terras Brasileiras. Despojada de vegetação, ao contrário do Capim Amarelo que recebe este nome pelos altos tufos em todo seu topo, o vento nos açoitava violentamente e a temperatura estava baixa. Chegamos ao cume com o tempo nublado e me pareceu que a chuva esperada para terça estava adiantada em um dia. Estávamos somente nós e o jovem casal que também estava fazendo a travessia, assim conseguimos encontrar um acamps razoável, protegido por muretas de pedra.

      (Foto: Suposto Vale das Cruzes. Vista da base da Pedra da MIna)

      (Foto: Pedra da Mina)

      (Foto: Mochila proseando com Apacheta)
      Fiquei preocupado com a possibilidade de chuva devido as condições do solo (compacto, repelia a água) e o leve desnível onde apertadamente montamos as barracas. Se chovesse, estaríamos em uma poça. Além disto, o vento e o frio eram insuportáveis, tornando um xixi uma atividade complexa, obrigatoriamente muito bem planejada e até perigosa: o vento exigia extremo esforço para se manter em pé. Porém o tempo abriu, pudemos apreciar o pôr do sol e mais uma noite viajamos pela via láctea, observando meteoros e as constelações, bebericando um chá quente e a ração de cachaça do dia, além de um espetacular palheiro mineiro. Lembrei dos meus colegas Xanxerenses e das adolescentes vigílias estudando o céu, contando meteoros e satélites, identificando planetas e cometas. Escorpião, cruzeiro do sul, Centauro… Ah céu da Mantiqueira, vontade de não sair mais debaixo dele.

      (Foto: Acamps no cume da Pedra da Mina)
      A manhã chegou sem o sol e o vento continuava intenso, o que nos fez demorar um pouco para levantar acampamento. Iniciamos a rápida descida ao Vale do Ruah, e o vento ficou para trás. Vimos que havia acampamento e ao nos aproximarmos fomos muitíssimos bem recebidos por quatro paulistas que estavam curtindo o Vale por alguns dias. Ao som de Pink Floid, tomamos um café com vodka, comemos granola e recebemos dicas de como atravessar o vale com menos estrago, ou seja, se molhando menos na nascente do Rio Verde – a mais alta do Brasil. Cristiano decidiu seguir o conselho de tirar as botas e preservá-las secas, eu preferi arriscar, escolhendo milimetricamente os tufos de capim onde pisar. Pensamos em fazer um caminho mais distante do rio, a direita, mas optamos por margeá-lo. No fim das contas, nenhuma decisão foi melhor que a outra. Quase no final do maravilhoso Vale, repentinamente houve uma precipitação de granizo e imaginei no frio que vinha junto. Dez minutos depois, além do frio, veio chuva e vento intensos.

      (Foto: Fantástico Vale do Ruah)
      Sob a intempérie saímos do Vale do Ruah rumo ao Cupim de Boi preocupados em chegar ao Bambuzal, local de acampamento muito bem sugerido pelos novos amigos paulistas, que nos demoveram da idéia de chegar ao Três Estados neste dia - mesmo com tempo bom seria besteira, constatamos depois.
      Como os dois Amadores Profissionais orientavam-se visualmente e por um mapa simples, além de uma bússola que pouco nos revelava naquele momento, o perrengue estava instalado. Não víamos mais de 10 metros a nossa frente, o vento empurrava-nos em direção aos precipícios e a chuva intensa encharcou tudo o que não estava protegido e também parte do que estava. Demos alguns perdidos, retornando a trilha sem muita dificuldade. Com visual quase zero e com a escassez de sinalização, agradeci aos colegas montanhistas que marcam a trilha com pequenos pedaços de papel metalizado e segui na frente olhando para baixo, até porque olhar para frente não fazia sentido...
      Subimos o Cupim de Boi sem saber que era ele; cheguei a pensar que tínhamos passado pelo bambuzal e estávamos subindo o Três Estados. Mesmo tendo encontrado e ultrapassado o casal que se adiantou enquanto paramos no Ruah e que portava um GPS, não houve alívio da tensão. Em determinado momento decidimos andar mais dez minutos e se são chegássemos ao bambuzal retornaríamos, pois a situação estava no limite. Nos encontrávamos em uma crista exposta sem nenhuma possibilidade de proteção e eu estava extenuado, sentindo o efeito do frio intenso. Jogava duas balas na boca por vez para ter alguma energia e mentalizava que não podia parar. Cheguei a pensar no pior quando sem esperar saímos do cume e penetramos em encosta protegida onde logo encontramos o Bambuzal, um local muito bem abrigado, excelente acamps. Lembro vagamente de montar a barraca e me livrar das roupas molhadas. Recobrei a consciência normal quando me enrolei no cobertor de emergência e, batendo o queixo, me vesti com roupa seca. As condições do tempo, a extenuação física mais a falta de um relógio (prometi a mim mesmo que será meu próximo investimento em tecnologia, um relógio de pulso de deizão do camelô), fizeram com que perdesse a noção de tempo. Pensei ser mais que 17:00, mas era em torno de 14:30. Com chuva e o saco de dormir parcialmente úmido, dormimos umas três horas após rapidamente comermos algo.
      A chuva lentamente parou e consegui ver algumas estrelas por meio dos bambus, prenúncio de frio e tempo bom no outro dia. Ao despertar as 6:00, percebi a vegetação totalmente seca. Estendi minhas roupas para esgotar um pouco a água e uma hora depois elas estavam congeladas, sob o frio de -2 graus como nos informou o gps do casal que também acampou no bambuzal.
      Então passei o segundo maior frio da minha vida (o primeiro foi a quase hipotermia do dia anterior), ao ter que calçar a bota e meias congeladas. Até botar o pé na trilha e esquentar, foi insuportável. Mas o sol estava lá e aos poucos foi secando – o que estava no corpo, porque o que estava na mochila chegou em Curitiba encharcado. Aliás, todo o peso que tínhamos aliviado com os mantimentos consumidos e gerenciamento de água foi substituído pelas roupas molhadas, e no último dia andamos provavelmente com o mesmo ou mais peso que no primeiro.
      Chegar ao Três Estados foi tranquilo, ao Alto dos Ivos também, mas a alternância de aclives/declives continuava. Após o alto dos Ivos, longo caminho em declive acompanhado da constante e maravilhosa paisagem, agora com destaque ao maciço de Itatiaia. Pudemos reconhecer o Agulhas Negras, Prateleiras, Pico da Antena, do Sino, etc., além do Picu, uma apacheta gigante que nos mostrava a rota a seguir. Se a Serra Fina não nos satisfizesse plenamente, meu plano desde o início era convencer meu parceiro a fazer o Agulhas na quinta-feira, mas resolvemos deixar para a próxima.

      (Foto:  Vista do cume do Três Estados: Pedra da Mina a direita. O triângulo mais claro ao centro da foto é o Vale do Ruah - Dá para ter idéia das enormes distâncias!)

      (Foto: Cume do Alto do Pico Três Estados, tríplice fronteira - RJ/MG/SP)
      O final da travessia também é um Show. O Sítio do Pierre na verdade é uma fazenda maravilhosa e foi um prazer largar as mochilas sob as Araucárias e imaginar o que era aquele local, agora deserto. Seu Cipriano nos contou depois que ali já funcionou um Hotel; falando em nosso amigo, quando fizemos contato com ele recebemos a notícia de que deveríamos andar mais uns três quilômetros até a rodovia. Caminho maravilhoso também, mas inesperado; achávamos que o fuqueta subiria até a sede da fazenda.

      (Foto: Maciço de Itatiaia. Agulhas Negras a esquerda, Prateleiras a direita)

      (Foto: Picu e Araucárias: travessia concluída com sucesso!!)
      Reunimos forças e ao anoitecer fomos resgatados, com seu Cipriano encurtando caminho por uma estrada rural. Espremidos no Volks, esfomeados e felizes voltamos até Passa Quatro pelo poeirento caminho, onde pernoitamos em um hotel em frente à estação, suficiente para o que precisávamos. Creio que demos prejuízo, porque as toalhas brancas fornecidas passaram a coloração marrom mesmo após longo banho. Fomos prestigiar o festival gastronômico e devoramos um prato de leitoa à pururuca com tutu de feijão e aquele chopp para comemorar, além de degustarmos cachaças excelentes. Ainda curtimos os ares noturnos da pitoresca e maravilhosa cidadezinha antes de despencar na cama. Sinceramente, me senti desconfortável e não tive uma plena noite de descanso, pois senti falta da barraca, do isolante no solo duro e do amigo vento.
      Na manhã seguinte nos abastecemos de produtos mineiros no comércio da estação e arredores e, um pouco reticentes e já saudosos, partimos para o Paraná. Rasgo elogios a hospitalidade, educação e prestatividade do povo mineiro. Quem puder esticar um pouco após a montanha e curtir Passa Quatro e redondezas não se arrependerá.
      A travessia da Serra Fina é exigente, de modo algum recomendada para quem não tem alguma (e não mínima) experiência. Sem guia então, avalie as pernadas que fez na vida antes de assumir o risco e planeje muito, mas muito bem. Passei dez anos da minha vida imaginando se um dia iria usar o cobertor de emergência, e ele me salvou.
      A trilha é óbvia do início ao fim e muito bem marcada até a a Pedra da Mina, tanto pelo solo batido como pelas apachetas abundantes no caminho. Do vale do Ruah em diante os totens e outros sinais são escassos, mas se perder é difícil, só mesmo em caso de condições climáticas muito ruins ou inexperiência extrema. Sinal de celular é artigo de luxo e resgate também deve ser. Ter algum problema importante nesta travessia é preocupante. Creio ser pouco proveitoso fazer em menos de quatro dias, a menos que sua vibe seja chegar ao cume, sem priorizar o caminho. Fizemos a clássica Travessia de quatro dias e três noites, e achamos pouco!
      Assim, a volta ainda não tem data, mas já está certa, e o programa também: já decidimos subir a Pedra da Mina via Paiolinho e acampar alguns dias no Vale do Ruah, fazendo incursões a partir desta base; se repetirmos a travessia, e tenho certeza que sim, uns seis dias serão dedicados a esta porção da Mantiqueira.
      Como paixão te leva a algumas insanidades, dez dias depois estava com a família na Maria Fumaça de Passa Quatro e, sorrateiramente, fazendo juras para a Mina de abraçá-la novamente em breve.


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