"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Trilha feita em 30/08/2013.
Álbum com todas as fotos:
https://photos.app.goo.gl/AjNAbr8RktTF3ceh8
Sem nenhuma trip marcada para o último fds de agosto e com a previsão meteorológica indicando sol e tempo seco, resolvo buscar no google earth e outras anotações pessoais, as trilhas, cachus e picos que deixei pendentes para explorar. Aproveitando ainda a temporada de montanha e já tendo pisado em vários outros picos na Serra da Mantiqueira, mais uma vez me vejo retornando a região, dessa vez para subir e conhecer o pico mais alto da Mantiqueira: A famosa Pedra da mina.
Ao contrário do Marins, onde fui com um grupo, nesse eu resolvi que iria solo mesmo, já que por ter decidido muito em cima da hora, não haveria tempo habil para chamar alguém para ir comigo na empreitada. Então, comecei a buscar infos, como relatos, fotos, localização, etc. O percurso inicial pela rodovia, é a mesma para o pico do Itaguaré...segue-se até passa quatro, depois estrada de terra até o inicio da trilha. Coinscidência ou não, ambos os percursos possuem praticamente a mesma distancia: 14 a 15km de estrada de terra. O mesmo para quem vai para o Marins via fazenda saiqui.
Com tudo em mãos, e já tendo lido outros relatos sobre a travessia da Serra fina e as opções de acesso ao Pico da Pedra da Mina, es que pelas infos coletadas, fico sabendo que há 3 caminhos de se chegar na Pedra da Mina: Uma pela travessia tradicional, com entrada pela Fazenda toca do Lobo por Passa Quatro; do outro lado por Itamonte; ou pelo tradicional bairro do Paiolinho também em Passa Quatro, via fazenda serra fina, caminho mais curto e para quem deseja a principio, apenas conhecer o Pico, em um trajeto que requer um batevolta com 1 pernoite.
Obviamente que gostaria mesmo é de chegar lá pela travessia da Serra fina, mas sozinho e lendo relatos que sem equipamentos básicos e bons conhecimentos em navegação, as chances de se perder por ali é muito alta, então a principio, deixei para voltar lá com um grupo em uma outra ocasião.
Roteiro decidido, no dia seguinte, salto da cama as 2 da manhã e após um rápido e mirrado café da manhã, as 3:40 me vejo ganhando a Dutra em direção a cidade de Cruzeiro, distante cerca de 217 km de SP, cidade que já estive outras 2 vezes, na investida ao Pico do Itaguaré. A rodovia, como era de se esperar, estava vazia e a lua minguante foi a minha compania durante boa parte da viagem até dar lugar ao astro-rei, na altura de Guaratinguetá, onde fiz uma parada em uma lanchonete e restaurante as margens da Dutra para um café da manhã reforçado.
Após pegar a saída 34 para a cidade de Cruzeiro, segui direto até Passa Quatro, onde cheguei pontualmente as 8:00. Com as infos na mãos, segui por mais alguns quilômetros em busca do acesso para o IBAMA num trevo a direita, trecho inclusive asfaltado. Encontrado o acesso, entrei nele e segui por cerca de 1,6km. Após passar uma ponte, uma estradinha a esquerda com uma placa indicando "Paiolinho 12km" e Serra fina (pedra da mina) sugeria que o caminho a seguir era por ali.
Após entrar a direita para o IBAMA, pouco antes de chegar a uma porteira, passará por aqui.
Então, abandonei o asfalto em favor da estrada de terra a esquerda, por onde segui chacoalhando por cerca de 14 km até a fazenda Serra fina. Até o bairro Paiolinho, são 12 km. Nos 3 primeiros quilômetros, só sobe....a estrada de terra é boa e vou seguindo sem nenhuma dificuldade, cruzando com alguns carros no sentido contrário que me fizeram comer poeira. Depois de uma longa subida até atingir o vale no topo da serra, ela nivela e passa a contornar os morros a direita, num sobe e desce discretos. Nesse ponto, a estrada parecia asfalto de terra de tão bem batida que tava, o que permitiu seguir até de 3º e 4º marchas em alguns trechos retos.
Estrada via paiolinho
Ao fundo, Pico dos 3 Estados
Algumas bifurcações aparecem pelo caminho, mas o sentido é obvio: Sempre pela principal e mais batida (a grande maioria das bifurcações levam somente a entrada dos sitios/fazendas). Após os 12 km, chego no acanhado bairro do paiolinho que tem algumas casas em volta da estrada. Após passar pelas casas, chega-se a uma bifurcação onde a estrada se dividia em 2 lados que não estava nas infos e relatos que trazia comigo. Então, perguntando para alguns moradores, me indicaram para seguir a direita.
Após pegar a bifurcação a direita, segui por mais 2,5km em uma estrada de terra secundária, um pouco precária, mas tb bem batida, o que minha motoca de baixa cilindrada (XLR de 125 cc) venceu sem nenhuma dificuldade as subidas mais íngremes, que são curtas e a estrada, mesmo secundária, está bem batida. Creio que em dias de chuva carros com tração dianteira possam ter dificuldades para subir no trecho final. Mas em dias secos, sobe numa boa.
Enfim, após quase 1 hora cachoalhando, es que as 8:48 finalmente cheguei a fazenda serra fina, após 15km desde a rodovia. Só para comparar, a distancia até o acampamento base Itaguaré é de 14km, e eu levei mais de 1 hora para chegar lá, por conta da estrada de terra não ser tão boa qto a da Serra fina. E segundo relatos, estava indo preparado para encontrar uma estrada de terra toda detonada e acessivel somente para motos de trilha ou veiculos 4x4. Que nada, na fazenda havia pelo menos uns 3 carros baixos estacionados.
Na fazenda serra fina
Após tirar a cargueira do bagageiro, uma senhora da fazenda veio me dar as boas vindas, me perguntou se eu ia subir a Pedra da mina e tão logo disse que sim, foi buscar o livro de presença para eu assinar, para fins estatísticos e também para saber quem estava na trilha. Após assinar o livro e pagar R$ 10 a ela para deixar a motoca em sua propriedade, es que finalmente as 9:20, adentro a trilha, onde uma placa logo no inicio me dá as boas-vindas com algumas recomendações e indicativos das altitudes tempo de caminhada e pontos d´agua. Incluindo o trecho da travessia da Serra fina.
A placa
Mapa ilustrativo da placa....
Iniciei a trilha que logo mergulha no frescor da mata e segue em nível. Passei por 2 porteiras e uma plantação a direita. A trilha nesse trecho inicial, segue dando voltas na serra enquanto nas frestas da mata, se avistava os picos da serra fina que de tão altos, pareciam estar espetando os céus. Cruzei com algumas bifurcações, mas o sentido é óbvio.....seguir sempre pela trilha mais batida. Minutos depois, cheguei em uma trifurcação, com birfurcação em ambos os lados sendo menores e menos batidas que a principal.
Optei por seguir reto pela do meio, que era a que estava mais batida. Na dúvida, antes de iniciar a trilha, pergunte para os moradores da fazenda sobre as tais bifurcações do trecho inicial.
Trecho inicial da trilha
As 9:45, cruzei com um riachinho pequeno, que segundo infos, seria o 1º ponto de água da trilha. Sabendo que haveria outros mais a frente, optei por pegar água somente mais a frente, afim de economizar no peso na cargueira. Cerca de 8 minutos depois, cruzei com o 2º ponto de água, essa bem maior, de um rio pequeno e com alguns poções de água de cor azul cristal que me impressionou pela coloração diferenciada.
Como nem tudo é perfeito, antes de cruzar o rio, um cidadão nada consciente fez suas necessidades fisiológicas numa das pedras bem no meio da trilha, ao lado do rio. Então, por precaução (e p/ evitar qualquer risco de contaminação por "coliformes fecais (merda))", é só pegar água alguns metros acima da trilha.
Um dos 4 pontos de água, esse é o 2º ponto, fica a cerca de 30 minutos após o inicio da trilha.
Sabendo que haveria mais 2 pontos de água até a metade do caminho, não me preocupo e me limitei a encher apenas parte do cantil, mas no geral, pegue somente o necessário para beber naquele momento, pois os 3 primeiros pontos de água são bem próximos uns dos outros. Então, a 1º hora de caminhada, da para andar só com 500ml, no máximo 1 litro de água, caso não esteja trazendo nada de SP. Eu vinha com 1 litro de gatorade, então só enchi metade do cantil que é de 2 litros com água. As 10:17, cheguei ao terceiro ponto d´agua, onde aproveitei para lavar o rosto e me refrescar, pois sabia que a partir dali, a coisa começaria a complicar.
3º ponto de água.
Depois que passa o 3º ponto de água, a trilha que seguia tranquilamente, como reles passeio de bosque, leve e em nível, começa sua longa subida serra acima, mas o trecho inicial da subida não dura muito e es que as 10:25, chego ao primeiro ponto de acampamento com a famosa panela vermelha pendurada nas árvores. Nesse ponto, cabem umas 2 ou 3 barracas do tipo "Iglu". A continuação da trilha segue a direita, onde uma fita vermelha amarrada nas árvores sugere que o caminho a seguir era por ali.
1º ponto de camping
A tal panela vermelha
Aproveitei para fazer um pit stop nesse ponto para forrar o estomago e molhar a goela seca com um belo gatorade geladão, afim de reduzir o peso da cargueira até chegar ao 4º e último ponto de água, onde de fato iria me abastecer para o final do dia e o seguinte.
Lembrei de um relato que li que nesse ponto, uma outra bifurcação a esquerda (que estava mais fechada), seguiria até uma cachoeira e para o Pico dos 3 estados, mas não fui nela pra conferir.
Após o lanche, retomei a pernada e após alguns minutos, a trilha começou a ficar mais íngreme, o que me deixou mais lento. Mais 30 minutos e passo por alguns trechos abertos, onde pude ter as primeiras visões do trecho percorrido e também do enorme paredão do "Deus que me livre" bem a frente, já próximo. A subida aperta mais um pouco e a trilha fica mais erodita, com muito cascalho, o que me obriga a redobrar a atenção....o sol já começa a castigar e percebo que vai ser bem complicado encarar o grande subidona do "Deus que me livre"com o sol a pino....
As primeiras vistas durante a subida
Trecho erodito da trilha...subida apertando cada vez mais....
As 11:32 cheguei a um dos pontos do mapa, o acampamento base na cota dos 2.100 metros de altitude, onde resolvo parar para descançar um pouco. Ponto esse que segundo infos, seria a metade do caminho. Haviam 2 mochileiros descançando qdo cheguei lá, na qual trocamos algumas ideias e aproveitei para perguntar das condições da trilha a frente. Eles tinham subido no dia anterior, estavam descendo e me disseram que na minha frente havia um grupo grande de pelo menos 10 pessoas.
Qto a trilha, e me disseram que o pior trecho estava logo a frente, mas tirando a pirambeira dos infernos, achei tranquilo até até o topo do pico da ASA por conta da trilha estar bem demarcada em todo o trecho. Só a partir do topo da ASA que complica um pouco, pois a trilha dá lugar a enormes costões rochosos e como é de praxe em campos de altitude a navegação passaria a ser pelos totens.
Acampamento base.
Clareira próxima ao acampamento base, ambas próximas do 4º ponto de agua.
Próximo dali, há um ponto d´agua, o 4º e último até o topo. Para economizar no peso, deixe para abastecer toda a água que precisar a partir desse ponto. Leve pelo menos 2 a 3 litros de água, principalmente se for daqueles que costuma consumir muito líquido. Mas não extrapole no peso, senão terá uma dificuldade ainda maior para vencer os 2 trechos de subida extremos a frente. Não se preocupe qto a isso, pois embora seja o último ponto de água da subida, próximo a base da Pedra da Mina, há água no vale do Ruah, a cerca de 20 minutos de caminhada de um dos acampamentos na base. O Vale fica do sentido leste e é possível avistar o pequeno rio no meio dele.
Me despedi dos 2 mochileiros e após caminhar pelos últimos minutos pelo frescor da mata fechada, passo por mais um descampado a direita onde cabe umas 2 ou 3 barracas, mas tem o problema de ser exposto ao ventos. Se for acampar, fique na base no meio da mata fechada, que é protegida e livre dos ventos.
Após passar pelo descampado, alcanço o 4º e último ponto de água a esquerda, depois a trilha vira a direita e adentra de vez no meio de enormes tufos de capim elefante.
Embora a trilha continue bem marcada, muita atenção aqui, pois ela se bifurca em algumas ramificações menores que podem enganar. Siga sempre pela mais batida. Uma boa referência é um trecho ruim que está bem enlameado e com várias pedras em cima (provavelmente colocadas por outros para facilitar a passagem pelo lamaçal). Nesse ponto, já é possivel ver o que me espera logo a frente: a enorme subida pirambeira do "Deus que me livre".
Trecho de capim elefante
Subidona pirambeira do "Deus que me livre" logo a frente
Ao olhar para cima, vi o grupo mencionado pelos 2 mochileiros terminando a subida, já no topo, o que me deu um certo desânimo na hora.... As 12:00h comecei a subida e senti que agora sim, o bicho iria pegar de verdade. A mesma é puxada e muito íngreme, o que me fez parar várias vezes para recuperar o fôlego e descançar. O sol castiga e durante a subida pela trilha quase não há sombras, o que aumentou ainda mais o desgaste. Nesse ponto, se sobe pelo menos 400 metros de uma só vez numa subidona que parece interminável.
Durante a escalaminhada, olhava para cima e não via o final dela. Não é a toa que é conhecida como "Deus que me livre". É pernas para que te quero!
Vista que lembra a subida do Castelo do Açu na Serra dos Orgãos. Em destaque, Pico dos 3 Estados a direita
A trilha seguia bem aberta e o auxílio das mãos para impulso nos troncos, rochas entre outros nunca foram tão exigidos qto antes. Estava ganhando altitude rapidamente e meu consolo é que embora o sol estivesse castigando, pelo menos a medida que ia subindo, mais fresco ia ficando o ar, principalmente nas poucos trechos de sombra que ia encontrando pelo caminho.
Iniciando o subidão pirambeiro do "Deus que me livre"
1 hora e 10 minutos desde o descampado lá embaixo, chego no primeiro topo dela, onde havia uma clareira e nela aproveitei para descançar e relaxar os músculos das pernas. Mas ao olhar para frente, vejo que era só um colo serrano, não o topo propriamente dito, pois ainda havia mais um paredão a ser vencido. Pelo menos desse ponto, já era possível avistar o topo.
Vista da fazenda e das plantações da fazenda serra fina, onde começa a trilha
A clareira vista do topo do Deus que me livre (foto com zoom)
Pequena clareira no primeiro colo serrano, onde da para descançar
Trecho de trepa-pedra
Mais 20 minutos de escalaminhada árdua e finalmente as 13:30, alcanço o topo do "Deus que me livre" já na cota dos 2.400 metros de altitude. E Logo encontrei uma pequena clareira para um merecido descanço. Do alto, pude me presentear com a visão de todo o trecho percorrido, com a fazenda e as plantações lá embaixo, a clareira onde fica o último ponto d´agua, a estradinha de terra, a pequena cidade de Passa quatro e o trecho que ainda iria percorrer. Nesse ponto, o grupo que havia visto lá embaixão estava no topo do terceiro cocuruto de altura semelhante a que eu estava, já descendo para um vale.
A trilha vira a direita e passa a seguir pela crista dos 2 topos, com 2 pequenos trechos de subidas e descidas.
Do topo do "Deus que me livre", a trilha segue pela crista dos cocurutos logo a frente
A vista dava uma boa animada e um fôlego extra....
Subidão da misericórdia logo a frente....
Dos cocurutos, passei por algumas clareiras protegidas e outras expostas que podem ser usadas em caso de emergência, mas não há água próxima. Logo a frente se avistava a 2º grande subida, que segundo infos, seria a subidão da "misericórdia" até o topo do pico da ASA. Só de olhar cansava até a vista. Após passar pela crista do 3º morro, ainda iria descer até um pequeno vale na base do Pico da ASA, para então começar a subir. Nesse vale, há várias clareiras planas, protegidas do sol e do vento, mas assim como as pequenas clareiras do topo dos morrinhos, não há água próxima.
Caminhada pela crista
Ponto de acampamento no vale entre os cocurutos e o pico da ASA, na base.
Após descer o trecho do pequeno vale, na base do pico da ASA, aproveitei a sombra e o frescor da mata ali para descançar e preparar os músculos para a subida da misericórdia. Misericórdia que faz juz ao nome, pois após vencer a árdua subida do "Deus que me livre", vc passa por ali já bem cansado, e ver que ainda tem um novo subidão pirambeiro logo a frente não é brinquedo não. Esses 2 trechos faz a temivel subida do ISABELOCA da Travessia Petro-Terê parecer uma subidinha de morro qualquer. Paguei todas as minhas promessas ali, literalmente!
O Grupo que iria alcançar durante a subidona....
Durante a subida, alcanço o grupo com cerca de 10 pessoas que havia visto lá embaixão, qdo ia iniciar o trecho do "Deus que me livre". Como eles estavam mais lentos e a trilha era um pouco estreita, acabei tendo que ir no ritmo deles até chegar no topo, pois não consegui ultrapassar todos afim de continuar em frente. E eles estavam parando mais vezes do que eu. Então aproveitei para trocar idéia com alguns deles e fiquei sabendo que era de uma turma vindo por agencia de ecoturismo, sendo que estavam acompanhados de 2 guias. Alguns ficaram surpresos qdo eu disse que estava subindo sozinho, rs
Topo do Pico da ASA e fim do subidão da misericórdia
Enfim, após muita escalaminhada, trepa-pedra e até tendo que subir de costas em alguns trechos, finalmente depois de quase 3 horas (desde o último ponto d´agua), termino as 2 terríveis subidas e chego ao topo do Pico da ASA, na cota dos 2.600 metros de altitude, onde pude ter a primeira visão da imponente Pedra da mina bem a minha frente. Pausa para cliques e apreciação dos vários picos da cadeia montanhosa da serra fina, é claro. Do topo, a trilha vira a esquerda e passa a descer pela crista do pico da ASA até chegar em um vale, onde passo por lages de pedras. Nisso começam a aparecer vários totens que sugeriam que o caminho a seguir era em frente, sentido Leste.
Ao fundão, Marins e Itaguaré. Um pouco abaixo, Pico do Capim Amarelo
Pico do Tartarugão
Os cocorutos por onde a trilha passa
A Paisagem a partir daqui já é exclusivamente de campos de altitude. Estando próximo, resolvo fazer uma parada mais longa para relaxar os músculos e apreciar a paisagem, já que havia vencido um desnível muito grande em pouco tempo, o que deu certo e pude prosseguir direto até as areas de camping na base da Pedra da mina..
Seguindo os totens pela crista
enfim, a imponente Pedra da Mina logo a frente
Do topo do pico da ASA até a 1º grande area de acampamento, dá em torno de 20 minutos, seguindo os totens pelo alto das cristas a sua esquerda. Alguns trechos de trilha eram vistas entre os tufos de capim elefante nos pequenos vales, e nos trechos de rochas, me guiei pelos totens. Algumas bifurcações a direita surgem, mas o sentido correto a seguir é pela trilha a esquerda, que sobe um pequeno colo serrano e vai seguindo pela crista dos morrinhos a esquerda.
Descendo o Pico da ASA
Tive alguns perdidos nesse trecho por ser minha 1ºvez ali, mas fui seguindo os totens e logo encontrei o caminho. Minha maior surpresa foi saber que os guias que estavam levando o grupo não sabiam o caminho ou então estavam testando o grupo, depois fiquei sabendo que estavam dando é um curso de montanhismo aos seus integrantes....será?
De qualquer forma, já havia passado na frente deles, então apertei o passo afim de chegar nas areas de acampamento antes e ter tempo de escolher o melhor lugar, para não ficar com o pior ou ter que procurar outras clareiras.
Cheguei a uma grande area de acampamento na base da Pedra as 15:45h, seguido do grupo que chegou minutos depois. Qdo cheguei, não havia ninguém ali e logo encontrei um local bem protegido, onde armei a barraca. Mas qdo eles chegaram, vi que iria me arrepender de ter montado minha barraca ali. Estava cansado da exaustiva subida, com sede e só pensava em preparar um bom almoço e ficar de boa ali, já que ainda havia mais de 2 horas de claridade ainda. Montada a barraca, preparei meu almoço, bebi quase 1 litro de gatorade e após forrar o estomago, entrei na barraca e fiquei relaxando.
enfim, após 6 horas de caminhada, na area de acampamento, na base-1 da Pedra da Mina.
O grupo que chegou logo depois tb já haviam montado suas barracas e seus integrantes estavam reunidos com o guia. A area de camping onde eu estava, cabe pelo menos umas 7 a 8 barracas de pequeno/médio porte com folga. Ou 5 a 6 das grandes.
Livro do cume
Area de camping na base-1, vista do topo
A leste das clareiras, se avista o belíssimo vale do Ruah e o rio verde no meio dele. Caso esteja com pouca água, ali é um dos pontos de água da travessia, mas precisa descer até o vale para alcançar o rio, coisa de uns 20 a 30 minutos de caminhada em média, bastando seguir os totens e vestígios de trilha.
Após o breve cochilo e mais descançado, com menos de 1 hora de claridade ainda, subi ao topo para ver o por-do-sol e deixar minha contribuição no livro do cume. A visão do alto dos 2.797 metros de altitude da Pedra da mina é de arrancar o folego de qualquer um. De um lado, se avista os picos das Agulhas negras e prateleiras a leste, do outro, os picos do Marins, Marinzinho e Itaguaré, várias cidades do vale do paraíba, e as cidades do sul de MG, como Itamonte, Passa Quatro e outras.
Subindo para o topo, seguindo os totens
O Belíssimo vale do Ruah, o vale mais alto do Brasil
Mega totem no topo da Pedra da mina. Simboliza o fim do 2º dia de caminhada para quem chega ali vindo da travessia da Serra fina. Dá para ver esse totem de longe
A travessia da Serra fina continua por ali, virando a esquerda, seguindo o Rio verde.
Durante a subida ao cume, que não leva nem 20 minutos, passa-se por uma outra "base" em um valezinho, em formado de cratera, onde existem outros descampados para 2 ou 3 barracas pequenas. No cume, só havia uma barraca de um casal de Itamonte que haviam chegado as 11 da manhã no topo. Curiosamente, os 2 rapazes que encontrei no acampamento base, haviam encontrado com esse casal de madrugada, e me disseram que eles começaram a subir as 4 da manhã.
Ao fundo, (no centro) Pico das agulhas negras e Prateleiras a direita
Por-do-sol no cume
Após contemplar o astro-rei repousando no horizonte, deixei meu nome no livro do cume e fiquei conversando com o casal até que escureceu completamente e pude ver todas as cidades iluminadas lá no topo. O inicio da noite foi tranquila, sem ventos, só com um leve sereno, raridade em se tratanto de picos. Eles eram os unicos acampados no topo. Na "cratera" havia outras 2 barracas e o grupo maior ficou justamente onde eu estava, infelizmente.
Topo da Pedra da Mina
Vista que vale qualquer esforço
Belíssima vista das cidades iluminadas a noite lá do topo
As 20:00h, retornei para a barraca e como já havia jantado a tarde, belisquei uns doces com suco e fiquei fazendo mais um pouco de hora. O termômetro marcava em torno de 04ºC, a noite foi tranquila e sem vento algum.
Porém, só fui consegui dormir mesmo depois das 22:00hs, qdo a galera do grupo com os guias finalmente fecharam a matraca...rsrs
A noite fez muito frio.
As 5:30, acordei com o dia começando a clarear, e subi novamente ao cume para ver o sol nascer por trás das prateleiras do Parque nacional do Itatiaia.
Dei uma volta no entorno, fiquei observando o trajeto inicial de quem vem da travessia pela Toca do Lobo e o belíssimo vale do Ruah. 1 hora depois desci e fiquei fazendo um pouco de hora na barraca, antes de iniciar a descida de volta.
Nascer do sol
A cratera na base-2 da Pedra da Mina
As 9h50, barraca desmontada e mochila pronta, iniciei a descida de volta para a fazenda serra fina, onde cheguei por volta das 13:30. Mesmo descendo, tive que redobrar a atenção nos trechos da misericórdia e deus que me livre, fui descendo e tendo que me segurar em galhos, troncos,rochas e toda vegetação disponivel várias vezes para não escorregar ou cair durante a descida....Nesse ponto, quem tem problema de joelho sofre um bocado, o que não é meu caso, felizmente. Mesmo assim, é bom fazer uns alongamentos para joelho e coxas, afim de mante-los relaxados durante o enorme esforço que será exigido deles na descida.
Trecho de caminhada pela crista
Trecho da travessia para quem vem da Toca do Lobo e Pico do Capim amarelo
Já na fazenda, após ajeitar tudo no bagageiro da motoca, inicio a viagem de volta a SP, onde chego por volta das 19h30.
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Como chegar a Pedra da Mina:
Para quem vem de SP ou RJ, pegue a saida 34 na rodovia Dutra para Cruzeiro e siga reto em direção a Passa Quatro / Itanhandu. Após a subida da serra, passar por uma placa de divisa de estados e um posto BR a esquerda, siga até passa quatro e entre na estrada do IBAMA a direita, cujo acesso fica em um trevo asfaltado. Siga por 1,5km e prestando atenção em uma estrada de terra onde há uma placa indicando: Paiolinho 12 km - Serra fina (pedra da mina). Entre nela e siga em frente até chegar ao bairro do Paiolinho.
Lá, a estrada passará no meio de algumas casas do bairro e ao chegar ao fim, ela se dividirá em 2. Pegue a da direita e siga-a até o fim por mais 2,5km. Não tem erro. Vai cair na fazenda serra fina e o inicio da trilha é logo do lado de uma placa verde com algumas recomendações básicas,e um mapa dos locais de acampamentos, picos, pontos d´agua e outros. Na duvida, é só perguntar para moradores locais.
É isso.
Editado por Renato37
Link anterior tava quebrado