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Olá viajante!

Bora viajar?

Rumo Austral - de Curitiba a Carretera Austral sozinho de Ranger

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Continuando a resgatar relatos antigos — daqueles que ficaram guardados por tempo demais — segue a viagem pela Carretera Austral, no Chile. Assim como na anterior, não faltaram enroscos e imprevistos. Desta vez, por muito pouco, a história quase termina antes da hora: por alguns quilômetros, quase não volto para casa… e ainda consegui comprometer o motor. Coisas de estrada — e, admito, um pouco de descuido também.

Como da outra vez, este não é um relato focado em preços ou dicas detalhadas. Viajei sempre tentando gastar o mínimo possível com alimentação e hospedagem. Para se ter uma ideia, devo ter almoçado em restaurantes umas quatro vezes durante toda a viagem. Na maioria dos dias, quando lembrava de comer, já tinha passado da última cidade — e aí era o que tivesse no carro mesmo.

Aliás, sem querer, a viagem virou quase um “SPA”: saí com 98 kg e voltei com 92.

Levei novamente todo o equipamento de camping, que acabou indo mais a passeio do que sendo realmente utilizado. A Ranger se comportou muito bem durante praticamente todo o trajeto. O único problema mais sério veio já no final da viagem — e foi por negligência minha: descuidei do sistema de arrefecimento e acabei queimando a junta do cabeçote. Pura burrice.

Dessa vez fui sozinho. Meu tio não pôde me acompanhar naquele ano, e a outra pessoa que havia confirmado presença desistiu cerca de um mês antes da viagem. Diante disso, achei melhor seguir sozinho do que adiar mais um ano à espera de companhia.

E assim começou a jornada.


1º dia – 22/12/2013 – domingo
Curitiba (PR) → Quaraí (RS) / Artigas (Uruguai) – 1150 km

Saída sob garoa e chegada no clima de interior

Saí de Curitiba às 5h25, debaixo de uma garoa fina e persistente que me acompanhou até mais ou menos a região de União da Vitória. Aos poucos, o tempo foi abrindo, e o frio deu lugar ao calor — que não demorou a ficar intenso, passando facilmente dos 30°C ainda pela manhã.

Como estava viajando sozinho, fui fazendo paradas a cada duas ou três horas para esticar o corpo e manter o ritmo com segurança. A estrada pelo interior tem bastante curvas, mas também conta com trechos tranquilos, onde é possível manter velocidades entre 100 e 110 km/h (de GPS) com certa facilidade.

Mais uma vez, acabei não almoçando. Durante o dia fui me virando com lanches: pão de queijo, amendoim japonês e frutas secas. Em uma das paradas, até cogitei almoçar em um posto, mas o preço do buffet me fez desistir rapidamente — achei caro demais para o que estava disposto a gastar naquele momento.

Cheguei a Quaraí no início da noite e encontrei a cidade naquele típico clima de domingo no interior. Na praça central, o movimento começava a ganhar forma: carros estacionando ao redor, jovens chegando com cadeiras de praia, coolers e som alto, ocupando a grama e transformando o espaço em ponto de encontro. Um ritual simples, mas bem característico.

Ali mesmo resolvi mudar o plano inicial. Em vez de seguir direto, decidi entrar no Uruguai para fazer algumas compras básicas. A ideia, a partir dali, seria cruzar para a Argentina por Salto (UY) / Concórdia (AR).

A viagem estava só começando — e já dava sinais de que não seguiria exatamente o roteiro planejado.

Editado por Marcelo Manente

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  • Marcelo Manente
    Marcelo Manente

    Olá Herbert. Então, Vila O'Higgins é mais pela mística do lugar, o fim da Carretera Austral. Tem cachoeiras, algumas caminhadas e mais lagos. Mas não é um lugar que eu considero imperdível.

  • Marcelo Manente
    Marcelo Manente

    Ola Herbert, Eu não faria de Chile Chico a Tortel em uma tacada. O trecho de Chile Chico até chegar na Carretera é lindíssimo. Tem que parar muitas vezes para se tirar centenas de fotos, principa

  • Cara, não tem nada de mais, é apenas estrada sem pavimento. O que vai ditar o ritmo é o estado da estrada e teu desapego ao carro . Quando passei lá tinha muita costeletas, assim +-   No f

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13º dia – 03/01/2014 – sexta
Villa O’Higgins → Cochrane – aproximadamente 280 km

Huemul inesperado, primeira truta e retorno sob chuva

Acordei tarde e aproveitei mais uma vez o excelente café da manhã do hostel El Mosko, facilmente o melhor até então na viagem. Havia ovos mexidos, pão de forma prensado com queijo na sanduicheira, torradas, manteiga, doce, café com leite e suco de laranja. Para quem passa por Villa O’Higgins, segue sendo minha principal recomendação.

Existe na cidade uma hospedagem ainda mais sofisticada, o Robinson Crusoe Deep Patagonian Lodge, mas com preços para poucos bolsos.

A ideia inicial para o dia era fazer algumas caminhadas curtas, de uma ou duas horas. Porém, durante a noite o tempo virou completamente. O famoso vento patagônico chegou com força, acompanhado de chuva e garoa constante.

Diante disso, mudei o plano: seguiria até a balsa com calma, aproveitando o caminho para tentar pescar nos rios e córregos da região.

A travessia seria às 19h, então saí sem pressa por volta das 11h. Logo na segunda ponte, sobre o canal de deságue do lago Cisnes, parei a Ranger, organizei o equipamento e subi para lançar a linha dali de cima.

Mas o que encontrei foi ainda melhor que um peixe.

Ao olhar para baixo, vi um huemul — cervo típico da região e animal raro — alimentando-se tranquilamente de folhas e frutas junto ao barranco. Peguei o celular que estava no bolso e tirei algumas fotos rápidas. Como ele não demonstrou qualquer medo, voltei até o carro, peguei a Canon e retornei.

O huemul continuava ali, sereno, como se eu não existisse. Deu tempo de fotografar, filmar e observá-lo com calma. Só foi embora quando terminou sua refeição, saindo lentamente mata adentro. Um encontro daqueles que valem a viagem inteira.

Nesse dia também estreiei a japona impermeável corta-vento que havia comprado para a viagem a Ushuaia. Foi extremamente útil. O tempo estava hostil e a combinação de chuva, garoa e vento não dava descanso.

Parei em quase todos os rios pelo caminho tentando a sorte na pesca, sem resultado. Já no último rio antes da balsa, resolvi fazer mais uma tentativa.

Arremessei a isca, um spinner parecido com os usados para traíra, e comecei a recolher. Logo senti a batida. Depois de uma briga curta, tirei minha primeira truta. Devia ter cerca de 30 cm. O peixe havia engolido bem a garateia, e deu trabalho remover o anzol sem machucá-lo antes de devolvê-lo à água.

Depois ainda peguei uma menorzinha e encerrei por ali.

Segui então para a balsa, onde ainda esperei quase duas horas antes do embarque. A travessia levou cerca de 45 minutos.

Chegando ao outro lado, fui o primeiro a desembarcar. Já eram quase 20h, e eu queria evitar dirigir tarde. Apesar disso, naquela região o sol só se punha perto das 23h no verão.

Com a chuva insistente, mantive um ritmo forte, mas sempre atento. A estrada não permite erro. Errou, paga caro.

Cheguei à tranquila Cochrane por volta das 22h e fui direto ao hostal da dona Trudi. Ela ficou genuinamente feliz em me ver de volta e ainda me colocou em um quarto maior cobrando o valor do menor.

Uma figura querida. Que me lembrou um pouco minha mãe.

 

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Editado por Marcelo Manente

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14º dia – 04/01/2014 – sábado
Cochrane → Chile Chico – 180 km

Lagos monumentais, estrada tensa e mais um almoço perdido

Adorei me hospedar no hostal da dona Trudi, mas havia um detalhe complicado: ao lado funcionava um bar com karaokê e pista de dança. Por volta das 2h da manhã, a música começou em volume altíssimo e me acordou de vez. Não consegui mais dormir normalmente.

Só fui pegar no sono lá pelas 3h30, depois de tomar meio comprimido de um sedativo que havia levado na viagem. Resultado: apaguei até quase 10h da manhã.

Como o trajeto do dia era curto, cerca de 180 km, não me preocupei em sair tarde. Tomei o café da manhã com calma e ataquei tudo o que colocaram na mesa.

A ideia era almoçar em Puerto Guadal, mas chegando lá não encontrei nada que me animasse. Na prática, não achei quase nada aberto. Restou seguir viagem.

A partir de Puerto Bertrand a estrada começa a acompanhar os grandes lagos da região. Primeiro aparece o lago Bertrand. Depois surge o impressionante lago General Carrera, o segundo maior lago da América do Sul, atrás apenas do Titicaca.

E é nesse trecho que a Carretera Austral mostra mais uma vez por que ficou tão famosa.

A estrada serpenteia à beira de precipícios cavados na rocha, muitas vezes a centenas de metros acima da água azul intensa do lago. Ao fundo, montanhas nevadas completam um cenário difícil de descrever.

O dia ainda colaborava como raramente acontece: poucas nuvens, vento gelado e um céu azul profundo. Tudo limpo, nítido, luminoso.

Era o velho ritmo da viagem: anda, para, fotografa, anda mais um pouco, para de novo. Quase impossível seguir direto com tantos mirantes naturais surgindo a cada curva.

E o azul da água parecia até editado. Mas não era. As fotos mostram exatamente o que se via.

Ao mesmo tempo, seguia sendo uma estrada que exige respeito. Qualquer distração pode custar caro. Não existe espaço para bobear.

Cheguei a Chile Chico por volta das 16h30. Foi então que me dei conta de um detalhe importante: mais uma vez eu não havia almoçado.

Encontrei hospedagem no Hotel Austral e depois saí para procurar alguma refeição decente. Rodei um pouco, mas nada me agradou. Acabei resolvendo no mercado: frutas, salgadinhos e algo para colocar no pão.

Essa acabou sendo minha segunda refeição do dia.

Lá pelas 23h, vencido pelo cansaço, apaguei rapidamente.

 

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Editado por Marcelo Manente

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15º e 16º dias – 05 e 06/01/2014 – domingo e segunda
Chile Chico (20 km) / Chile Chico → Cochrane – 180 km

Balsa perdida, descanso forçado e problemas mecânicos outra vez

15º dia – domingo

O domingo foi, basicamente, um dia de descanso. Não fiz grandes passeios, apenas caminhei pela cidade e aproveitei para desacelerar um pouco depois de tantos dias intensos de estrada.

Na verdade, meu único plano era fazer a travessia de balsa entre Chile Chico e Puerto Ibáñez como passageiro a pé. A navegação cruza o lago General Carrera em cerca de 2h20, permanece uns 50 minutos no outro lado e retorna em mais 2h20. Com o tempo relativamente aberto, apesar do vento forte, imaginei que seria um ótimo passeio e renderia belas fotos.

Mas perdi a balsa por apenas dois minutos.

Confundi o horário de saída. Pensava que partiria às 16h30, quando na verdade saía às 16h. Quando percebi, já era tarde.

Sem muitas alternativas, resolvi cruzar a fronteira até a Argentina para abastecer. Por isso os modestos 20 km rodados no dia.

A diferença entre as duas cidades chamou atenção. Em Chile Chico, tudo parecia parado e silencioso. Já em Los Antiguos, do lado argentino, havia movimento nas ruas, sorveterias e lanchonetes abertas, lojas de lembranças cheias de turistas. A sensação era de que os argentinos estavam aproveitando melhor o fluxo da região.

Talvez o preço mais alto dos combustíveis no Chile também desestimule alguns deslocamentos e passeios.


16º dia – segunda

Acordei cedo, postei algumas mensagens e tomei café da manhã. Aliás, o café vinha se tornando minha principal refeição na viagem. Sempre comia tudo o que aparecia pela frente, porque o almoço quase nunca acontecia como planejado: às vezes eu chegava cedo demais às cidades, outras vezes tarde demais, ou simplesmente me distraía tanto com os cenários que esquecia de comer.

A intenção do dia era seguir para Puerto Río Tranquilo e finalmente conhecer as famosas Capillas de Mármol.

Voltei todo o trecho percorrido no sábado, refazendo o caminho pelos lagos e penhascos do Paso de las Llaves. O visual seguia bonito, embora o clima estivesse longe do ideal: muito vento, céu nublado e garoa em alguns momentos.

Segui viagem normalmente, parando para fotos como sempre, até passar por Puerto Guadal. Cerca de 1 km depois da vila, em um dos muitos solavancos da estrada, ouvi um estrondo forte. Na mesma hora, a Ranger puxou violentamente para a direita, quase me jogando para fora da pista.

Por sorte, eu estava em uma pequena subida, sem precipícios ao lado.

Segurei firme no volante, consegui trazê-la de volta e parei imediatamente para verificar o problema.

O pivô superior do lado direito havia quebrado. A roda quase se soltou e ainda entortou levemente o amortecedor.

O mais revoltante é que eu havia trocado os pivôs dos dois lados antes da viagem justamente porque os antigos já estavam ruins.

Fiquei desolado, irritado e preocupado. Ao mesmo tempo, agradecido. Se aquilo tivesse acontecido dez quilômetros antes, em algum dos inúmeros trechos de penhasco, provavelmente a história seria outra.

Pensando no que fazer, lembrei que tinha o telefone da dona Trudi, do hostal em Cochrane. Liguei, expliquei a situação e, prontamente, ela começou a procurar ajuda. Quando retornei a ligação, ela já havia conseguido um caminhão para me resgatar.

Eu estava a cerca de 75 km da cidade.

Esperei por aproximadamente duas horas e meia até surgir o “socorro”. E ele veio de forma inusitada: não era um guincho, mas um caminhão de transporte de toras.

A primeira reação foi simples: como colocaríamos a Ranger ali em cima se ela mal podia rodar?

O motorista improvisou. Retirou a parte quebrada do pivô e conseguiu encaixar o pequeno pedaço restante para permitir um deslocamento mínimo. Depois de bastante esforço, fizemos a caminhonete andar devagar até um barranco, de onde foi possível subir na carroceria do caminhão.

Dali seguimos lentamente os 75 km até Cochrane.

Muito lentamente.

Chegamos por volta das 21h30.

No dia seguinte, 07/01, o mecânico apareceu para avaliar a situação. A resposta não foi animadora: não havia a peça na cidade. Seria necessário trazê-la de Coyhaique, a quase 300 km dali.

Isso significava ficar parado entre dois e três dias.

Pelo menos, a maior parte do que eu mais queria conhecer já havia sido feita. Ainda faltavam as Capillas de Mármol, o Ventisquero Colgante e a travessia de ferry para Chiloé ou Puerto Montt.

Como eu estava três dias adiantado no cronograma, bastaria cortar a visita às vinícolas.

E, sinceramente, isso não me incomodava nem um pouco. Sempre preferi a natureza às obras do homem.

 

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A volta

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Cemitério em Puerto Guadal

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Editado por Marcelo Manente

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17º ao 19º dias – 07, 08 e 09/01/2014 – terça, quarta e quinta
Cochrane – 0 km

Dias parados, chuva patagônica e a gambiarra salvadora

Foram três dias sem estrada, sem novos destinos e sem grandes acontecimentos externos. Permaneci em Cochrane, novamente hospedado no hostal Central da dona Trudi, aguardando a chegada da peça necessária para consertar a Ranger.

A expectativa inicial era de que viesse de Coyhaique. Depois descobri que não: a peça estava vindo de Santiago, a capital chilena, a mais de dois mil quilômetros dali.

Ou seja, eu estava parado no fim do mundo esperando uma peça cruzar praticamente o país inteiro.

Mesmo assim, tentei ocupar o tempo. Em um dos dias aluguei uma bicicleta para passear pela cidade. Cochrane é pequena o bastante para ser percorrida com calma em pouco tempo. Em cerca de meia hora dei a volta inteira, com várias paradas para fotos.

E também algumas paradas estratégicas nas cerejeiras pelo caminho — desta vez, porém, sem repetir os excessos gastronômicos que já haviam rendido capítulos próprios na viagem.

Em outro dia, a chuva caiu sem trégua do amanhecer à noite. Daquelas jornadas cinzentas em que o tempo parece não andar.

Na quinta-feira à tarde, finalmente surgiu o mecânico trazendo a notícia tão esperada: a peça havia chegado.

Mas a alegria durou pouco.

Não servia.

Mandaram uma bandeja com pivô de Ranger 4x2, diferente da minha. Vi minha esperança evaporar na mesma hora. O mecânico também percebeu meu desânimo e, talvez tomado por orgulho profissional ou pura solidariedade, soltou a frase decisiva:

“Vamos hacer una invención.”

Traduzindo para o português claro: ia nascer uma gambiarra.

E nasceu.

Já passava das 23h no horário chileno quando ele terminou o serviço. Adaptou a bandeja recebida e instalou um pivô que até hoje não sei de que carro era — só lembro que parecia robusto o bastante para inspirar confiança.

Ao final, pediu que eu testasse tudo na manhã seguinte, rodando pela cidade e pegando alguns trechos mais irregulares.

Na manhã do dia 10 saí para o teste. Aproveitei para levar a tralha de pesca, passei por uma santinha à beira da estrada, encarei alguns buracos de propósito e observei o comportamento da suspensão.

Tudo certo.

Depois de três dias parado, a viagem enfim respirava de novo.

Editado por Marcelo Manente

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20º dia – 10/01/2014 – sexta
Cochrane → Puerto Río Tranquilo → Villa Cerro Castillo – 274 km

Capillas de Mármol, paisagens grandiosas e o primeiro sinal de alerta

Depois do teste matinal na caminhonete, e vendo que a gambiarra havia funcionado, resolvi retomar a viagem de vez. O destino era Puerto Río Tranquilo, para finalmente conhecer as tão desejadas Capillas de Mármol.

O dia estava perfeito: sol forte, poucas nuvens e quase nenhum vento. Um presente depois de tantos contratempos.

Saindo de Cochrane, voltei a acompanhar o rio Baker até a região de Puerto Bertrand. E vale repetir: aquelas cores das fotos não eram exagero nem edição. Em alguns trechos, a água era azul-turquesa puro; em outros, verde-claro cristalino. Coisa difícil de acreditar até ver de perto.

Depois vem novamente o lago General Carrera, agora pelo lado oposto ao caminho de Chile Chico. Se de um lado a paisagem começava a ganhar tons mais secos e acinzentados pela proximidade do deserto argentino, do lado chileno predominavam o verde, as matas e as florestas encostadas nas montanhas.

Cerca de 6 km antes de Puerto Río Tranquilo existe um ponto chamado Bahía Mansa. Dali também saem barcos para as Capillas de Mármol, com a vantagem de ser mais perto das formações e mais barato que contratar o passeio na vila.

Quando cheguei, um casal com uma filha pequena estava prestes a embarcar. Entrei no grupo e aproveitei a oportunidade. Paguei 7.500 pesos chilenos — bem menos do que os valores cobrados no centro da cidade.

Pouco depois já estávamos navegando entre as formações.

E, sinceramente, o lugar faz jus à fama.

Blocos e cavernas de mármore em tons azulados, brancos e cinza emergem das águas transparentes do lago como esculturas naturais. As formas lembram capelas, catedrais, túneis e cogumelos gigantes talhados pela água ao longo dos séculos.

São três formações principais: a Capela, menor; a Catedral, imponente; e o Túnel, onde inclusive é possível desembarcar rapidamente para fotos.

As marcas deixadas pela erosão nas paredes de mármore lembravam escamas de peixe. Tudo era diferente, delicado e grandioso ao mesmo tempo.

Fotografei compulsivamente. Até pedras submersas viraram assunto.

Mais uma meta importante da viagem estava cumprida.

Como ainda era cedo e eu já havia perdido três dias parado em Cochrane, resolvi seguir viagem no mesmo dia até Villa Cerro Castillo.

A estrada voltou a entregar seu repertório habitual de curvas, subidas, vales profundos e zigue-zagues intermináveis entre montanhas.

Em muitos trechos apareciam troncos queimados e retorcidos nas encostas, formando figuras estranhas, quase totens espalhados pela paisagem. O cenário mais marcante era o chamado Bosque Muerto, no vale do rio Murta.

Ali, fileiras intermináveis de árvores chamuscadas lembravam a força da penúltima grande erupção do vulcão Hudson, em 1991, que deixou suas marcas por toda a região.

Villa Cerro Castillo surge ao lado da montanha de mesmo nome, uma presença bonita e imponente no horizonte.

Me hospedei na Hostería y Restaurante Villarrica, onde aproveitei para atacar parte de um gigantesco sanduíche de bife com ovo — desses que resolvem atrasos alimentares acumulados.

O inconveniente da hospedagem era outro: o piso de tábuas rangia tanto que cada passo parecia anunciar a movimentação para o prédio inteiro. Quem andava acordava os demais.

Mas o verdadeiro problema apareceu no fim do dia.

A Ranger começou a aquecer além do normal.

Ela já vinha com um pequeno vazamento de água, que eu compensava completando o nível diariamente. Em algum momento coloquei um produto selante no sistema para tentar conter o vazamento.

Minha suspeita era clara: aquilo podia estar comprometendo a circulação da água.

Ainda dava para seguir.

Mas a viagem acabava de ganhar um novo motivo de preocupação.

 

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Editado por Marcelo Manente

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21º dia – 11/01/2014 – sábado
Villa Cerro Castillo → Puyuhuapi – 315 km
(258 km de asfalto e 57 km de rípio)

Asfalto perfeito, planos mudando outra vez e a Carretera inteira pela frente

Acordei tarde, como já vinha se tornando tradição na viagem. Tomei o café da manhã por volta das 8h30 e segui para a estrada com destino a Coyhaique.

Pela primeira vez desde que entrei na Carretera Austral, encontrei longos trechos de asfalto. E que asfalto. Um verdadeiro tapete, daqueles que fazem a caminhonete deslizar suavemente depois de tantos dias de rípio, pedras soltas e buracos.

No caminho apareceram também os famosos caracoles da Carretera, aquelas curvas em zigue-zague sempre presentes nas fotos de quem pesquisa a região. Ao redor, o cenário seguia variado e grandioso: montanhas nevadas, encostas nuas de terra, florestas frias de ciprestes, lagoas e cascatas espalhadas pelo percurso.

Cheguei a Coyhaique com uma missão específica: comprar a passagem do ferry para Puerto Montt.

O barco sairia no domingo. Como era sábado, imaginei que ainda teria chance.

Não tinha.

Todas as vagas estavam esgotadas.

Perguntei então para quando haveria lugar novamente. A resposta veio seca: só na sexta-feira seguinte.

Na hora, bateu aquele sentimento clássico de estrada quando os planos desmoronam em poucos segundos.

Mas havia uma alternativa.

Se eu seguisse até Caleta Gonzalo, cerca de 60 km de terra depois de Chaitén, conseguiria embarcar em ferries diários para Hornopirén, já próximo de Puerto Montt.

Sem muita escolha, comprei passagem para segunda-feira às 15h30.

Isso significava uma coisa: eu faria a Carretera Austral inteira.

De certa forma, era até melhor. Nem sempre os desvios forçados são ruins.

Com o novo plano em mente, segui estrada afora pensando inicialmente em dormir em Puerto Cisnes, sair cedo no dia seguinte e visitar o Ventisquero Colgante.

Continuei aproveitando o asfalto impecável até a bifurcação para Puerto Cisnes. Como ainda era cedo, resolvi avançar mais e encarar os quilômetros finais até Puyuhuapi.

A partir dali, o rípio retornou e a estrada mergulhou em uma floresta exuberante dentro do Parque Queulat. Um trecho úmido, fechado e intenso, capaz de rivalizar com a Serra do Mar paranaense em beleza.

Como eu estava no alto da serra, chegou a hora de descer rumo ao litoral.

E que descida.

Curvas intermináveis, zigue-zagues sucessivos e um visual tão impressionante que fotografei até o GPS para registrar o desenho da estrada.

Quando a serra termina, a paisagem muda novamente. Surge o Pacífico em forma de enseada, quase ao nível da estrada, silencioso e cinzento.

Antes de chegar à cidade, passei pela entrada do Ventisquero Colgante. Pensei seriamente em acampar ali pela primeira vez na viagem, mas o camping era precário demais para animar.

Segui então até Puyuhuapi e fiquei em uma hospedagem chamada, apropriadamente, Carretera Austral.

No dia seguinte, o plano seria visitar o ventisqueiro antes de continuar rumo a Chaitén — penúltima etapa antes da balsa e, de certa forma, da volta gradual à civilização.

Mas havia um problema sério crescendo no pano de fundo.

A Ranger voltou a ferver.

A água do radiador sumia, porém sem sinais de contaminação no óleo. Tudo indicava um vazamento considerável, embora com o carro parado caíssem apenas pingos lentos.

Passei a dirigir com extremo cuidado, monitorando temperatura e nível de água o tempo todo.

Ao menos uma notícia seguia positiva:

A gambiarra chilena da suspensão continuava firme.

Tão firme que me deu coragem para seguir até Puerto Montt. Claro... com muito mais cautela do que antes.

Editado por Marcelo Manente

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