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(Alerta de relato gigante! rss Se não estiver com saco pra ler esse textão, fique à vontade pra me fazer perguntas específicas sobre a expedição :wink: )

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Ainda em 2015 decidi que tentaria chegar ao cume do Aconcágua, e que seria em dezembro de 2016. Queria fazê-lo da forma mais independente possível, sem contratar porteadores, guias e expedições pagas. O primeiro desafio foi encontrar companhia, porque a maioria dos meus amigos nem considera a possibilidade de entrar num projeto desses. Mas quando um amigo me surpreendeu dizendo que animava, o plano começou a tomar rumo. Ainda queríamos encontrar mais uma ou duas pessoas pra formar um grupo, e encontramos aqui no mochileiros! Estava formada a equipe: eu, meu amigo Carlo, o Zaney e o Greison. ::otemo::

O Aconcágua, com 6.962 m de altitude, é a montanha mais alta do mundo fora da Ásia. É também a segunda montanha mais proeminente do mundo, atrás apenas do Everest. Mesmo assim, por não exigir escalada técnica, alguns se referem à sua ascensão como um "trekking de altitude". Desde que seu cume foi alcançado pela primeira vez em 1897, mais de 130 pessoas morreram tentando chegar lá em cima. A temperatura no cume é geralmente por volta de -25° a -30° C, mas a sensação térmica cai facilmente abaixo de -50° C em dias de clima ruim, principalmente entre abril e novembro ::Cold:: . Por isso, a ascensão é permitida nos meses próximos ao verão argentino, de meados de novembro até o começo de março, sendo a alta temporada centrada em janeiro. Nas últimas temporadas a taxa de cume tem sido entre 20% e 40% das tentativas. Mas com ou sem cume, é um lugar incrível. Em média, são necessários de 12 a 15 dias para alcançar o cume e descer (se vc tiver mais sorte que eu rs). As principais dificuldades desta montanha são o clima muito instável, com frio e vento extremos (principalmente no começo e fim de temporada) e, é claro, a altitude. Com a redução da pressão parcial de oxigênio no ar, podemos sentir não só fadiga e dificuldade pra respirar, mas também dores de cabeça, dor no estômago, tonturas, dificuldade pra comer e dormir, hemorragia nasal, inchaço nas extremidades e no rosto e diarreia. O metabolismo acelera muito, assim como os batimentos cardíacos. A desidratação é facilitada pela maior taxa de vapor de água perdida dos pulmões. Dependendo da pessoa, do ganho de altitude e da aclimatação, os sintomas podem evoluir para um edema pulmonar ou cerebral de alta altitude (HAPE ou HACE), situações mais graves que devem percebidas e tratadas logo.

Planejei começar o treinamento no primeiro dia de 2016. Porém, um dia antes, lesionei meu joelho esquerdo em uma trilha. Precisava recuperar o joelho e também os tendões de aquiles dos dois pés, outro problema que já vinha de um tempo antes. O treinamento pro Aconcágua teve que esperar... e quando começou foi em ritmo lento. Comecei a fazer academia, mas pegando leve, quase uma fisioterapia... Os pés melhoraram com alguns meses, o joelho não. Fiz um raio-x e o médico pediu uma ressonância pra ver se precisava fazer cirurgia ou apenas repouso. Ignorei (digo, posterguei a ressonância e o repouso pra depois do Aconcágua). Tentei fortalecer os músculos das pernas pra poder começar o treinamento aeróbico sem piorar muito a lesão. Só faltando quatro meses pra viagem que deu pra começar a correr, 5 km, uma ou duas vezes na semana, quando conseguia. Sabia que deveria ter treinado com peso nas costas e com inclinação... mas tinha que poupar o joelho. E a inclinação forçava os tendões dos pés, que ainda não estavam 100%. Então continuei fazendo o que dava.

Não pensei em desistir, mas tinha consciência de que com esses probleminhas a mais estaria assumindo riscos e dificuldades maiores. Somaram-se a isso os inúmeros desincentivos do tipo: “você deveria fazer várias montanhas acima de 6 mil antes de querer tentar o Aconcágua”; “sem guia?; “você devia pensar melhor antes de ir, gastar dinheiro e ter que desistir”; “Sem querer te desanimar, mas isso de ir sem guia me parece uma utopia”; “uma pessoa deveria tentar o Aconcágua depois de fazer, pelo menos, o Kilimanjaro e o Denali, necessariamente nesta ordem, pra ter chance de sucesso”; etc. ::essa:: Claro que esses "conselhos" nem sempre são pra desanimar, às vezes são pra te alertar, mas... às vezes o melhor é fingir que não ouviu/leu.

E continuei adquirindo equipamento, planejando a alimentação, estudando a montanha e montando o cronograma.

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Em uma montanha dessas, dizem que 80% da força que você precisa é mental, e só 20% é força física (não leve tão ao pé da letra). Pra parte da força mental, experiência prévia conta.. bastante. Eu já tinha certa experiência em trekking longo, travessias, chuva, comida precária, carregar peso... etc. Mas o frio extremo do Aconcágua seria novidade. Ficar uns 15 dias sem tomar banho (19 no meu caso rs), também. E fazer xixi na garrafa... cocô no saquinho... E a altitude extrema. O mais alto que eu já havia chegado fazendo trilha era uns 4.600 m na Salkantay, em uma situação bem mais confortável que o ambiente agressivo do Aconcágua.

Surgiu uma promoção de passagens pra Lima, e decidi passar uma semana no fim de setembro na Cordillera Blanca, pra ganhar um pouco de experiência em gelo e maior altitude. Daria pra escrever um longo relato sobre essa outra aventura (seis dias na cordilheira fora de temporada, nenhuma estrutura de apoio, sozinha, carregando quase 20 kg durante os trekkings entre três e cinco mil metros de altitude... levei um tombo no segundo dia e fiz um “buraco” na minha canela ::putz:: , e continuei, com chuva, neve, frio, vento e paisagens surreais) mas por agora vou me ater a dizer que no último dia cheguei ao meu primeiro cume em alta montanha :D : Pisco, 5.752 m. O ataque ao cume começou às 00:20 e cheguei lá às 05:45, na expectativa de ver o sol nascer e presenciar umas vistas mais bonitas da cordilheira, já que esse nevado está bem no centro da cadeia. Mas a fama de que o clima nos Andes é instável não é sem motivo... No meio do caminho começou uma neve fraca, mas contínua, e tudo ficou branco pra todos os lados. Não deu pra enxergar nada. Mas a experiência foi válida. Vi que meu corpo respondeu bem à exposição a essa altitude. A aclimatação funcionou bem e não senti dor de cabeça com o ganho de mil metros de altitude em um só push no ataque ao cume. O único sintoma foi que depois da descida meus pés incharam e, como estava com minha bota no tamanho exato dos pés, eles ficaram meio apertados, e a falta de circulação fez surgir um hematoma bem roxo na lateral de um dos pés. Por isso comprei uma bota em tamanho maior pro Aconcágua, e tive cuidado também na escolha das botas duplas que usaria mais acima na montanha. Com base nesses dias de trekking em altitude, concluí também que o peso que teria que carregar seria um sofrimento. Em altitude, 20 quilos são DEMAIS pra mim. Esse seria um problema no Aconcágua, e precisei reduzir o peso que eu carregaria.

LOGÍSTICA

Comprei passagens pra Santiago, pois estava mais barato que ir direto pra Mendoza, cidade argentina onde são autorizadas e emitidas as permissões de ascenso ao Aconcágua. O trajeto de Santiago a Mendoza seria de ônibus pela famosa “Ruta 7”, assim como o retorno de Mendoza para a entrada do parque, que fica mais perto da fronteira com o Chile do que de Mendoza...

Desembarquei em Santiago no dia 8 de dezembro. Com a mochila cargueira nas costas, mochila pequena na frente, e arrastando a duffel bag gigante com o resto dos equipamentos de montanha, fiquei ainda me questionando se eu conseguiria levar tudo aquilo montanha acima, mesmo com a ajuda da mula até o acampamento base.

Na rota normal, a montanha tem um acampamento intermediário (Confluência 3.390 m), um acampamento base (Plaza de Mulas 4.370 m) e três acampamentos de altitude (camp 1: Plaza Canadá 5.050 m, camp 2: Nido de Condores 5.560 m e camp 3: Cólera 5.970 m). Há outros pontos onde é possível acampar, mas hoje em dia quase não são utilizados. Entre comida, roupa, barraca e equipamento técnico, as pessoas levam cerca de 40 kg para a expedição. Eu estava levando 30 kg. Para o trajeto até o acampamento base, cerca de 28 km, contratamos o serviço mínimo de mulas para carregar parte do peso. Com isso, se ganha direito a um alto desconto no custo da permissão de ascenso e, no meu caso, ganhei a capacidade de chegar ao acampamento base, carregando nas costas 17 kg (14 kg + 3 litros de água) em vez de 30. Esse peso era ainda mais de 30% do meu peso corporal, e, com os efeitos da altitude, não foi fácil chegar até lá. A partir de Plaza de Mulas, são realizados porteios: vc sobe um dia carregando parte do equipamento e desce pra dormir; no outro dia sobe definitivamente com o restante do peso. Esse processo é importante também pra aclimatar à altitude.

 

No dia 09/12 eu e Carlo fomos de Santiago pra Mendoza. O tempo previsto para o trajeto de ônibus já conta com umas 2 horas extra para a aduana. Se a aduana estiver vazia, o tempo de viagem será umas 6 horas, e não 8 horas como é informado. Tirando os contratempos como eu ter esquecido minha identidade no hostel e voltado às pressas pra buscar quase na hora do ônibus, ou o fato do ônibus ter atolado ao fazer um retorno na beira da estrada e termos perdido um tempão parados lá, chegamos bem em Mendoza. Greison já estava no hostel, e Zaney chegaria no dia seguinte.

No dia 10 de manhã fomos trocar moeda, contratar a mula e conseguir a permissão de ascensão. O procedimento é ir primeiro à secretaria de turismo preencher e imprimir os documentos e o boleto de pagamento; ir até um “pago fácil” pagar o boleto; depois ir à empresa contratar a mula e pegar um carimbo pra ter direito ao desconto; voltar à secretaria de turismo com o boleto pago e o carimbo da empresa de mulas. Aí eles emitem e te entregam a permissão. Parece que o melhor lugar pra trocar moeda em fins de semana é uma agência da Western Union que fica dentro de uma galeria. Fica aberta em horário que outras já estão fechadas, e a cotação era a mesma que estava sendo anunciada pelos cambistas de rua.

À tarde fomos alugar o equipamento que faltava (no meu caso as botas duplas e as mittens) e fazer compras. À noite passamos algumas horas organizando tudo pra levar. O cansaço do dia ficou por conta do calor e foi difícil pegar no sono... (Mendoza é muito quente no verão! ::mmm: )

No dia 11 pegamos o ônibus da Buttini na rodoviária de Mendoza para Los Penitentes (6 dólares), onde descemos para entregar à Lanko Expediciones as coisas que iriam na mula. Lá fomos recebidos por José. Pesaram as bolsas e nos entregaram um recibo. Nos passaram também os nomes do pessoal da Lanko que nos orientaria em Confluência e Plaza de Mulas, e em seguida José nos levou até o hostel El Nico, em Puente del Inca, que reservamos pra passar aquela noite. Puente del Inca é um povoado que fica bem próximo à entrada do parque. Chegamos ao hostel antes das 16 horas. Tudo preparado para no dia seguinte começar o percurso de aproximação. José nos buscaria no hostel e levaria até a entrada do parque, nos esperaria passar pela portaria e em seguida nos levaria ainda até o começo da trilha, na segunda portaria (essa mordomia é “brinde” pra quem contrata mula). Iríamos até o acampamento Confluência, onde passaríamos uma noite, e no outro dia o longo percurso até o acampamento base. O plano inicial era passar duas noites em Confluência, e fazer uma caminhada de aclimatação até o mirante da face sul, sentido Plaza Francia. Porém, o dono do hostel, Cesar, nos aconselhou a não ficar mais que o mínimo necessário em Confluência, por causa da alta concentração de magnésio na água disponível lá (magnésio não faz mal, mas pode causar diarreia). Seguimos o conselho.

Puente del Inca está a pouco mais de 2.700 m de altitude, e aí já se inicia o processo de aclimatação. Antes de encerrarmos o dia, fizemos uma caminhada de 1,5 km até o cemitério dos andinistas. É triste e emocionante ver as homenagens deixadas ali aos montanhistas.

"Lo que se puede deveras es tan poco, que hay que hacerlo una vez aunque sea; subir una montaña, aunque subir cueste, aunque la cuesta sea pesada, aunque respirar cueste... porque respirar se acaba" (mensagem grafada em uma das lápides)

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Voltando ao hostel, descobrimos que o Zaney estava com uma infecção aguda no pé, e que, segundo Cesar, não o deixariam subir a montanha daquele jeito. Diante disso, Cesar o levou ao hospital mais próximo em Uspallata. Enquanto isso, preocupados, tentamos pensar em um plano B caso ele tivesse que desistir e nós tivéssemos que seguir em um trio em vez de duas duplas. Eles retornaram no meio da madrugada e no dia seguinte Zaney estava melhor (ufa!), mas ainda precisaria de repouso e de tempo para os antibióticos fazerem efeito. Decidimos seguir e aguardá-lo em Confluência, pra irmos nos aclimatando e não gastar mais uma noite de hostel. Foi uma boa decisão, pois o Zaney era bem mais forte que nós e no dia seguinte conseguiu fazer direto o trajeto de Horcones até Plaza de Mulas, que nós dividimos em dois dias.

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No dia 12 de dezembro, aproveitamos a manhã pra nos alimentar bem e hidratar bastante, e tomar o último banho. Jose nos buscou às 11 hs pra nos levar ao parque, como combinado, e às 11:30 já havíamos passado pelos procedimentos na portaria e estávamos começando a trilha. O trajeto até Confluência foi tranquilo, nenhum perrengue. Chegando lá estava ventando muito e tivemos que montar as barracas com dois segurando pra não voar enquanto o outro fazia o trabalho. O sol se pôs depois de 20:30, e ainda continuou claro por bastante tempo. Linda noite de lua cheia com o céu muito estrelado. Dormimos bem, e acordamos cedo pra desmontar acampamento e ficar torcendo pro Zaney chegar e estar bem. Quando ele chegou, por volta das 11:15, descansou alguns minutos e já íamos seguindo, mas fomos chamados pelos guarda-parques. Eles nos informaram que não deveríamos sair tão tarde, já que o trekking até Plaza de Mulas poderia levar até 10 hs, e que, se anoitecesse, eles teriam que mandar uma equipe de resgate porque o risco de hipotermia naquele trajeto era alto com o clima que estava fazendo. Decididos a seguir, tivemos que assinar um termo de responsabilidade. Se a gente não chegasse antes de anoitecer, além de sermos expulsos do parque e de entrarmos na lista negra, teríamos que arcar com os altos custos de um resgate desnecessário :| .

 

Corrida contra o sol

Saindo de Confluência tem uma descida pra atravessar a ponte pro outro lado do rio Horcones, e logo em seguida começa uma subida chata onde dá pra sentir bem o baque da altitude. Depois, a maior parte do caminho é mais ou menos plana, porém não fácil, pois é uma área totalmente exposta, sem proteção contra vento e sol, o terreno cheio de pedras e algumas partes com lama. No longo trecho chamado de “Playa Ancha”, tivemos que cruzar o rio Horcones várias vezes, perdendo tempo para achar o melhor lugar pra saltar sem se molhar. E a mochila vai pesando mais... e as horas vão passando... Em certo momento, o cansaço começou a falar mais alto e eu estava ficando bastante lenta, mas não podia parar... fiquei preocupada. Não queria atrasar o time e tínhamos que chegar, não havia opção. Combinamos um plano B: se a gente percebesse que não ia dar tempo de chegar antes de anoitecer, os dois que estivessem mais rápidos avançariam pra avisar aos guarda-parques que estávamos chegando, ou, em último caso, avisar que tivemos que acampar no caminho, mas que estávamos bem, tínhamos tudo que precisávamos pra passar a noite e que não era necessário resgate. Comendo uns sachês de açúcar e umas barrinhas, comecei a recuperar a força e seguir mais rápido. Quando chegamos ao marco conhecido como Ibanez, tinha uma placa com uma seta indicando para seguir à direita, mas estava caída no chão de forma que parecia indicar a esquerda, e seguimos à esquerda sem pensar. Depois de avançar talvez uma hora nesse caminho, percebemos que estava estranho e olhei nossa localização no tracklog que salvei no celular. A trilha correta estava paralela a nós, à direita, mas do outro lado de uma parede. Por sorte, um pouco à frente tinha uma parte menos inclinada, coberta de gelo/neve, por onde conseguimos subir e atravessar. E do outro lado estava a trilha :D . Nesse momento encontramos Philipp, um alemão que vinha sozinho. Ele havia saído de Confluência bem antes de nós, mas estava carregando muito peso (uns 40 kg), pois não havia contratado mula. Vendo que com aquele peso não conseguiria chegar a tempo, deixou parte dos equipamentos escondidos em Ibanez pra seguir mais leve. Não sei se teríamos nos encontrado se a gente não tivesse errado o caminho... Então esse foi nosso melhor erro, porque acabamos nos tornando amigos de montanha :wink: .

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Philipp estava muito cansado e já pensando em acampar quando chegasse no lugar onde ficava um antigo refúgio destruído, antes da “costa brava”, trecho de subida íngreme quase chegando a Plaza de Mulas. Seguimos juntos e insistimos que ele conseguiria chegar, chegaríamos juntos. Quando chegamos próximo ao local onde Philipp pretendia acampar, não era como pensamos. O local era completamente exposto. Nessa hora o sol já estava entrando atrás das montanhas, e a temperatura começou a cair muito rápido. Carlo estava cansado e sentindo muito a altitude, começou a ficar muito lento. Zaney e Greison seguiram na frente (plano B), enquanto eu fiquei atrás com Carlo e Philipp. Não tínhamos certeza de quanto faltava, mas à frente havia uma subida íngreme que parecia ser a “costa brava”, trecho final. Seguimos em passo muito lento. Philipp ainda deixou suas botas duplas escondidas por ali pra seguir mais leve. Estava ficando muito frio. Eu estava com medo de ainda faltar muito pra chegar. O GPS mostrava que estava perto... mas em altitude e com muita inclinação as distâncias enganam. Não tinha como parar e acampar ali. O jeito era seguir. Algum tempo depois (talvez uma hora? ou duas?) avistei o acampamento, mas ainda faltava um trecho pra chegar. Fiquei mais tranquila. Chegamos às 21:15, ainda com um finalzinho de luz. Os guarda-parques estavam nos aguardando. Pensei que levaríamos uma bronca, mas ficaram aliviados por termos chegado, nos deram boas vindas, ofereceram uns biscoitos e disseram que podíamos ir montar nossas barracas e deixar pra fazer o check-in na manhã seguinte :)

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Plaza de Mulas, a 4.370 metros de altitude, é o segundo maior acampamento base do mundo. Aqui ainda temos “banheiros” e água “encanada” (na verdade a água fica em galões onde podemos pegar com canecas, e geralmente está parcialmente congelada durante a baixa/média temporada, período em que fui). Os banheiros são latrinas, uma estrutura de metal de 1 m² com um buraco largo no meio por onde os dejetos caem em um grande recipiente tubular, que quando cheio é carregado de helicóptero pra fora do parque. Não é agradável de utilizar, principalmente quando o chão está coberto de gelo e há o risco de escorregar e cair no buraco ::lol4:: . Mas não dá pra reclamar..

O primeiro dia aqui foi de descanso. O corpo precisa recuperar a energia gasta no longo dia anterior e aclimatar à falta de oxigênio que já é bem notável nessa altitude. Qualquer atividade simples como sair da barraca e estender seu saco de dormir ao sol já pode te deixar ofegante. Buscar água e ir ao banheiro então... Aqui já precisamos beber no mínimo quatro a cinco litros de água por dia, e isso significa fazer xixi toda hora, inclusive no meio da noite, com aquela temperatura super “agradável” por volta de -5° C nos dias normais. Apesar de chato, fazer muito xixi é um dos sinais de que a aclimatação está funcionando, e não fazer é um sinal de que algo vai mal.

Sendo ainda a média temporada, o acampamento estava relativamente vazio. As grandes expedições começam a chegar no fim de dezembro e ao longo de janeiro, quando há maior chance de "sucesso". À tarde fomos fazer o check-in e passamos na tenda médica pra avaliação obrigatória. O grupo estava bem. Minha saturação de oxigênio no sangue estava 91%. Meus olhos estavam vermelhos, e a médica reprovou meus óculos pela falta de proteção lateral, e ressaltou o risco de danos à retina por causa do reflexo do sol na neve e o risco de “cegueira de altitude”. Resolvi isso vedando as laterais com silver tape, o que funcionou bem.

Na noite seguinte, dormi surpreendentemente bem, apesar de já estar com o nariz entupido e sangrando, machucado por dentro por causa do ar tão seco. Carlo dormiu mal e amanheceu se sentindo doente, e dizendo que não poderia continuar. O plano para aquele dia era fazermos o primeiro “porteio”: levar parte do equipamento para o acampamento Canadá, e voltar para dormir na base. Carlo decidiu que iria desistir da expedição :cry: , mas tentaria subir até Canadá. Preparamos tudo e começamos o primeiro trecho, mas logo no começo Carlo decidiu voltar. Esse trajeto tem cerca de 3,5 km, e tempo médio (com peso) de 4 h. O terreno é um tanto íngreme e a falta de oxigênio faz com que tenhamos que subir a passos lentos pra conseguir respirar normalmente. Gastamos pouco mais de três horas pra chegar lá. Quando estava faltando cerca de meia hora, Greison estava um pouco mais lento atrás, e fez sinal para o Zaney dizendo que não ia continuar. De onde estava ele desceu, e nós seguimos para deixar as coisas que carregamos lá em cima. O tempo havia fechado, tudo encoberto de nuvens escuras. Descansamos por uns quinze minutos enquanto deixamos os equipamentos, comemos uns biscoitos, hidratamos e iniciamos a descida. Começou a trovejar. Parecia que ia chover forte em breve. Chover? Acho que não chove com aquela temperatura. Começaria a nevar. Descemos correndo e acho que gastamos pouco mais de uma hora pra chegar. A neve começou a cair, mas veio bem fraquinha, e passou rápido. Na verdade pedrinhas de gotas de chuva congeladas.

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De volta a Plaza de Mulas, fomos conversar com nossos parceiros, que nessa hora já estavam decididos a encerrar ali o projeto Aconcágua :( . No dia seguinte, dia 16, eu e Zaney subiríamos definitivamente para o acampamento Canadá, e os dois ficariam em Plaza de Mulas e se preparariam para fazer o caminho de volta no dia 17. Deixamos então a minha barraca no acampamento base para os dois, e eles a deixariam lá montada para quando nós fôssemos descer de volta. Levamos pra cima a barraca do Zaney, que dividiríamos até o dia do cume.

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Camp 1: Plaza Canadá

No dia 16, então, o grupo se dividiu, e eu subi com o Zaney para o primeiro acampamento superior: Canadá. Acabou sobrando muito mais peso pra carregar nesse dia. Apesar de mais aclimatados, cada passo foi um sofrimento. Fiquei contente em ver que ainda assim gastamos três horas e meia, abaixo do tempo médio. Estávamos agora a 5.050 m de altitude. O tempo estava bom, bastante frio, mas céu limpo. Montamos a barraca antes que começasse a ficar mais frio. Os espeques da barraca realmente não servem de nada lá (seguimos a dica do Fred e nem levamos). O jeito é pegar pedras grandes e amarrar nelas os cordeletes da barraca. Nesse dia, quando levantei uma das pedras para passar o cordelete, deixei cair em cima da minha outra mão, amassando a unha do polegar que sangrou por dentro e ficou metade preta (que dor!) ::putz::

A gente precisava beber água, e também precisava de água pra cozinhar. Era hora de derreter neve/gelo pela primeira vez! (a única fonte de água dali pra cima é neve). Precisava buscar a neve um pouco longe de onde ficam as barracas, pra evitar contaminação. Por sorte, um grupo que havia deixado o acampamento naquele dia deixou um saco cheio de neve que sobrou. Pensei que estaria livre do serviço de coletar neve naquele acampamento, mas nãaao. Porque um montão de neve vira só um pouquinho de água, e na manhã seguinte aquela neve acabou... A outra surpresa foi o quanto demora pra derreter. Fazer água gasta tempo e paciência. Depois de derretida, beber também é difícil. E se não tomar cuidado ela vai congelar de novo na garrafa antes de você beber. E em seguida você já está jogando essa água fora pelo xixi. E esse ciclo de “busca neve/derrete/bebe/faz xixi” foi pra mim a parte mais difícil da jornada. E não teve um dia em que eu não desejei ser homem pra simplificar a última parte do processo. Eu não sei se era pior fazer xixi fora ou dentro da barraca (sim! tinha que fazer xixi dentro da barraca! Tinha horas que simplesmente não dava pra sair, por causa de vento/frio/neve). Pra fazer fora tinha que calçar as botas, ir até algum local semiprotegido pra ter um pouco de privacidade, aguentar o frio, e brigar com o vento que ia tentar fazer seu xixi voar pra todos os lados :lol: Pra fazer dentro da barraca tinha que ignorar a presença do coleguinha e usar a “garrafa do xixi” e, no meu caso, um adaptador, tipo um funil :roll: A garrafa geralmente enchia com dois xixis, e aí vinha a última tarefa, que era sair pra esvaziar a garrafa. Essa tarefa não era tão fácil quando amanhecia congelado de manhã. Aí tinha que deixar no sol pra derreter e depois esvaziar ::lol4::::lol4::::lol4:: Sentiu o drama do processo? E a pergunta que todo mundo faz é: “e o n° 2?? Como faz??” Pois é... No acampamento base tem as latrinas. A partir de lá não tem mais. E não pode fazer no chão e enterrar, porque naquela altitude não ocorre decomposição, por causa do frio e da falta de bactérias. A sua sujeira ficaria eternamente lá, congelando e descongelado. Então os guarda-parques te entregam no início um saco vermelho, e é nele que você deve fazer o nº 2 nos acampamentos superiores. E tem que devolver na saída, se não, é multa de cerca de 200 dólares. Pra não ter que ficar carregando o cocô com a gente o tempo todo, levamos sacos extra, fazíamos neles e deixávamos “guardados” do lado de fora da barraca, protegidos por pedras. Quando subimos pra outros acampamentos, deixamos esses saquinhos lá, e na volta recolhemos todos e colocamos no saco vermelho pra entregar aos guarda-parques no check out. Sorte que seu corpo está desesperado por comida, então absorve quase tudo que entra e quase nada sai ::otemo::

Maaas, nem tudo é sofrimento, e a beleza estonteante daquele lugar compensava tudo. A paisagem ainda ficaria mais mágica a cada ganho de altitude, mas ali já era espetacular. À nossa frente um monte de picos a perder de vista. Atrás estava a rochosa face oeste do Aconcágua, o sol nascia atrás dela e se punha à nossa frente, fazendo um show de cores no horizonte entre nove e dez horas da noite. Sim, os dias são longos lá.

Nessa primeira noite no camp 1 ventou muito e fez muito frio. Zaney sentiu dores de cabeça, e eu quase não dormi. Eu estava com muita dor no nariz e garganta, ambos machucados e inflamados. Só conseguia respirar pela boca, o que, além de dificultar a oxigenação, aumenta a desidratação, porque perdemos mais água expirando pela boca do que pelo nariz, e o ressecamento e inflamação da garganta e nariz aumentavam também. Tentando reduzir a dor de inspirar o ar gelado, eu tentava respirar dentro do saco de dormir ou da balaclava, mas aí aumentava a falta de oxigênio, me fazendo arfar por ar toda hora. Isso virou rotina, fazendo de várias noites um inferno. E quando começava a pegar no sono..., tinha que fazer xixi ::lol4::

Decidimos que o dia seguinte seria de descanso.

Além de nós, tinha apenas um grupo de quatro russos no acampamento, e à tarde chegaria o Philipp. Os que estavam ali antes de nós haviam seguido pro camp 2 pra tentar o cume na próxima “janela”, que seria dia 19. Depois disso a previsão era de tempo muito ruim por pelo menos cinco dias. Esse era o dia 17. De acordo com o nosso cronograma, tudo correndo perfeitamente bem, (e se não fosse o mau tempo previsto) só poderíamos tentar o cume no dia 21, e isso saindo do camp 2 e não do camp 3! Dia 19 era cedo demais pra gente. Mas as horas foram passando e a vontade de poder usar essa janela foi crescendo, até que resolvemos arriscar!! ::hahaha:: Já passavam das 14 hs. Teríamos que subir nesse mesmo dia, carregando tudo de uma vez pro camp 2, mas levando menos comida e gás porque seriam só dois dias. Dormiríamos uma noite lá, e na outra madrugada tentaríamos o cume. Se desse errado, voltaríamos pra Canadá. O plano era audacioso e arriscado, porque a gente já tinha acelerado o cronograma nos dias anteriores, não estávamos aclimatados a essa altitude e nem tínhamos dormido bem. Mas seria uma tentativa. Juntamos o equipamento, a comida necessária pra dois dias, guardamos saco de dormir, calçamos as botas duplas e só faltava desmontar a barraca....quando um montanhista que estava descendo questionou nosso plano: “vocês estão subindo pra Nido AGORA?”. Achei que ele estava se referindo a estar um pouco tarde, e expliquei o motivo, e disse que estávamos seguros de conseguir chegar antes de anoitecer. E então ele me interrompeu: “Não... Me refiro ao clima, os ventos estão aumentando e vai ser arriscado subir, já está muito frio no trajeto e vai piorar”. Agradecemos o conselho e, sem trocar palavras, concordamos em ficar. Cabisbaixos, voltamos as mochilas pra dentro da barraca, resignados a esperar pela próxima janela de tempo bom...

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Agora a gente estava à mercê do clima... O jeito era aproveitar os próximos dois dias de bom tempo pra aclimatar ali em Canadá e fazer porteio até o camp 2, e seguir acompanhando a previsão do tempo pra ver se algo mudaria. Não tínhamos internet nem rádio, mas sempre passava alguém com notícias, algum guia, guarda-parque, ou algum montanhista subindo do acampamento base ou descendo do camp 2 (lá também tem uma tenda de guarda-parques). Os Andes (especialmente o Aconcágua) têm a fama de clima instável e imprevisível, o que veio a se confirmar na semana seguinte, dificultando nosso planejamento.

Amanheceu um dia lindo e gelado (18 de dezembro). Esperamos até o sol sair de trás da montanha e bater nas barracas, pra esquentar um pouco antes de nos prepararmos pro porteio. Philipp subiu com a gente. Nesse dia ele estava carregando mais peso e por isso foi mais lento. Fui parando às vezes pra esperar e não ficar muito distante. De repente vimos que o Zaney, que estava à frente, parou e estava abaixado sem sair do lugar. Acelerei pra ver o que tinha acontecido. À frente dele tinha uns três metros de gelo duro, liso, completamente escorregadio. Aquele trecho tinha menos de 30 graus de inclinação, mas suficiente pra que um escorregão mandasse a gente umas dezenas de metros pra baixo. A gente tinha subido sem os crampons, mas mesmo com eles estaria arriscado atravessar aquele trechinho. Zaney estava fincando o gelo com o bastão pra tentar deixar firme pra pisar. Philipp nos alcançou e ele estava com sua piqueta, o que facilitou o trabalho. Mesmo assim o Zaney tava com dificuldade pra atravessar, não se sentia seguro nesse terreno... então evitaríamos esse caminho na volta e no dia de subir novamente. Philipp atravessou na frente e o ajudou. Eu fui em seguida. Mais à frente tinha outro trecho assim. Atravessei rápido sem pensar. Philipp e Zaney desviaram por outro caminho mais acima. Em seguida vi que eu deveria ter feito o mesmo, pois ainda tinha um último trecho daquele jeito e esse era mais íngreme, e eu não conseguiria voltar pelo caminho que tinha acabado de passar. Consegui passar uma parte e parei sem saber como continuar. Mas Philipp já estava do outro lado e me estendeu seus bastões pra que eu tivesse algum apoio, e assim consegui. Continuamos tranquilamente, fazendo o caminho mais direto. Ao chegar em Nido de Condores estava frio DEMAIS. Corremos (correr é só modo de dizer, não dá pra correr naquela altitude) para a tenda dos guarda-parques pra perguntar onde era mais seguro deixar nossas coisas. Na verdade foi mais uma desculpa pra entrar na tenda quentinha deles por uns minutos. Enquanto isso vesti mais um casaco e as luvas mittens.

Despejamos nossas coisas em um saco impermeável e colocamos ao lado de uma pedra grande. A vista a partir daquele acampamento é incrível, mas tava frio demais pra ficar parados admirando. Até tentamos... sentamos atrás de uma outra pedra que parecia proteger dos ventos...mas não adiantou ::Cold::::Cold::::Cold:: Muito vento. Muito frio. Partimos de volta ao acampamento Canadá, tentando fazer o caminho mais direto e rápido pra escapar do frio. Nesse trajeto a neve estava fofa e algumas vezes afundei a perna até quase no joelho. Como eu não estava usando os gaiters, entrou neve dentro das botas duplas.. Ainda bem que tinha sol, e coloquei os liners pra secar quando chegamos ao acampamento. E depois da rotina de derreter neve, cozinhar, comer, hidratar... fomos dormir.

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Dia 19 de dezembro. Dia de cume. Não para nós. Mas mais de 50 sortudos estavam na noite anterior no último acampamento superior, Cólera, prontos para tentar o cume nesse dia, que foi o melhor da média temporada, quase sem vento, temperaturas muito favoráveis, nenhuma nuvem no céu. No nosso caso, como não adiantava correr com o cronograma, pois de qualquer forma não dava pra subir pro cume tão cedo, decidimos descansar mais esse dia. Fomos orientados a dormir uma ou duas noites em Nido de Condores para aclimatação, e depois descer de volta pra Plaza de Mulas, e esperar lá até a próxima janela de tempo bom. Não havia muita opção. Então, no dia seguinte subiríamos pra Nido com esse novo plano.

Outro alemão que também estava subindo solo, o Andre, chegou a Canadá naquela tarde, montou acampamento e continuou subindo para aclimatação. Foi até o acampamento Cólera e voltou, com uma velocidade impressionante.

Nesse dia o clima estava agradável. Recebemos até visita de uma raposinha andina e do gigantesco condor andino, que depois de muito sobrevoar a área resolveu pousar e tentou roubar um salame que o paulista Victor tinha deixado escondido debaixo de umas pedras no acampamento enquanto subia rumo ao cume. Dizem que avistar um condor andino é um grande sinal de sorte... :D

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Camp 2 – Nido de Cóndores

No dia 20 levantamos acampamento e subimos para Nido de Condores, eu, Zaney, Philipp e Andre. Andre era o mais rápido e logo estava bem distante à frente, seguido por Zaney e Philipp, e eu fiquei mais atrás. O trajeto foi tranquilo, bastante frio e ventando um pouco, mas não foi muito sofrido. No trecho final Zaney começou a sentir muita fraqueza e eu o alcancei. Entreguei um chocolate pra ele recobrar as forças e seguimos devagar. Quando enfim chegamos, Andre e Philipp já tinham encontrado um local para suas barracas, que eram menores e menos resistentes aos ventos, então precisavam de um local mais protegido. Nido de Condores é um acampamento muito exposto, então eles tiveram que descer até um lugar um pouco afastado. Como a gente ia deixar a barraca lá montada quando fôssemos descer de volta a Plaza de Mulas, também precisávamos de um local seguro. A previsão para os próximos dias de tempo ruim era de ventos de até 100 km/h em Nido de Condores, e 150 km/h no cume ::ahhhh:: .

Armamos a barraca um pouco abaixo da tenda dos guarda-parques, ao lado de duas grandes rochas, em um espaço estreito cercado dos outros lados por uma descida íngreme e por uma pequena parede de neve. Tivemos que escavar um pouco essa parede de neve pra caber a barraca. Saí à procura de pedras grandes pra fixar a barraca. Não foi fácil descer com as pedras. Maldita falta de oxigênio. Assim que terminamos, Zaney entrou na barraca e disse que não queria mais se mexer :lol: . Eu precisava beber água, então fui iniciar o trabalho de pegar neve pra derreter, antes que o frio aumentasse demais. Já estava aumentando. O frio e o vento ::Cold::

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Ao fim do processo já estava escurecendo. Mais um espetáculo no céu. Esses pores do sol não vão sair fácil das minhas lembranças.

Essa noite não foi das melhores. Muito difícil de respirar, extremamente frio (uns -20°C), e o vento sacudindo a barraca a noite inteira.

Pela manhã (dia 21) o vento ainda ficou mais forte. Por volta das onze horas criei coragem de subir até os guarda-parques para checar o prognóstico do tempo para os próximos dias. Havia piorado. “Vocês podem dormir mais uma noite aqui, mas amanhã todos descem pra Plaza de Mulas. Muito perigoso. Reforcem mais a barraca, coloquem pedras grandes do lado de dentro. Os ventos serão muito fortes”. Passamos o dia praticamente sem sair da barraca, a não ser pra pegar neve pra fazer água. Ventania o dia todo.

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E na manhã seguinte nos preparamos pra descer os quase 1.200 m verticais que havíamos subido desde o acampamento base.

Saímos por volta das 11:00, com frio e vento piores que no dia anterior. Optamos por deixar as pesadas botas duplas lá em cima, e desci com minhas botas de trekking normais e os gaiters. Tínhamos que descer rápido, nos manter em movimento pra circulação do sangue manter os pés e mãos quentes. Logo no começo da descida veio uma rajada mais forte de vento e me jogou de bunda no chão. Poderia ter sido engraçado de ver. Mas a sensação foi de muita impotência e fragilidade.. fiquei lá no chão uns segundos indignada por ter sido derrubada por um “ventinho” ::lol4:: . Levantei e acelerei pra alcançar o Zaney. Tínhamos que passar pelo acampamento Canadá pra pegar umas coisas que a gente tinha deixado lá, inclusive os saquinhos de cocô. Aproximando de lá, veio um vento branco jogando um monte de neve e gelo com muita força em cima de nós. Era um trecho meio íngreme e tivemos que deitar no chão pra firmar. Frio, frio, frio. Continuamos. Chegando no acampamento Canadá os pés do Zaney estavam começando a congelar. Ele teve que tirar as botas e esfregar os dedos pra fazer a circulação voltar. Enquanto isso as minhas mãos estavam doendo muito de frio e eu tentava pegar algo pra comer e não conseguia. “Pára vento, pára um pouco! pára vento...” era o meu único pensamento. Acho que eu repetia isso em voz alta também, como se o vento fosse me ouvir. E ouviu. Mas só por uns dois minutos, suficientes pra gente conseguir colocar as coisas nas mochilas. Tentei beber água. Estava quase completamente congelada, só saiu um gole. Forcei pra dentro uma barrinha de cereal congelada e voltamos à descida.

O vento começou a amenizar nesse segundo trecho. Zaney quis pegar um atalho que na verdade não dava em nenhuma trilha. Pra não ter que voltar atrás, optamos por atravessar uma parte de gelo liso pra alcançar um outro caminho mais à frente. Escorregamos sentados por uns seis metros. Também poderia ter sido divertido, se eu não tivesse cortado a mão tentando frear no gelo. Mas voltamos ao caminho e seguimos. Ali os ventos já estavam mais calmos :)

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De volta a Plaza de Mulas – Lar Doce Lar

Chegamos exaustos. Eu estava completamente sem energia ::hein: . Precisava comer. Mas antes tínhamos um trabalho a fazer. A barraca, que estava lá sozinha há 6 dias, havia sido empurrada com os ventos da noite anterior, e um monte de pedras grandes rolaram pra debaixo dela, que ficou toda entortada inclinada pra frente. Quando Carlo e Greison saíram pra ir embora, deixaram a bolsa com o nosso estoque de comida e gás dentro da barraca, e o vento foi forte o suficiente pra levantar a barraca mesmo assim, empurrando a bolsa pra uma das pontas. Pensei que a estrutura da barraca tivesse quebrado, mas não. Depois de cerca de uma hora removendo pedras, recolhendo as coisas esparramadas dentro e fora da barraca e reforçando a segurança da barraca pros ventos que viriam, fui fazer meu almoço, feliz de não precisar derreter neve! Poder pegar água no galão, poder lavar as mãos e jogar água no rosto, mesmo em temperatura congelante, era muito bom! Era bom voltar a ter "banheiro" também, e um pouco mais de oxigênio! Era como voltar pra casa.

Philipp e Andre chegaram em seguida. Philipp deixou a barraca dele lá em cima, e iria dormir com a gente nesses dias em Plaza de Mulas. A previsão era de que poderíamos subir novamente no dia 26. Mas estava mudando toda hora... Em um momento o prognóstico mostrava que o único dia possível pra fazer o cume era dia 28, depois era dia 27, depois era dia 29, depois era 27 ou 29. E foi dando medo de mudar pra dia 30, ou de simplesmente não ter essa janela. Dia 29 era nossa última chance, ainda assim muito apertada, porque teríamos que descer no mesmo dia do cume todo o caminho até o acampamento base (a maioria das pessoas descansa uma noite no último acampamento superior ou em Nido antes de descer). O voo do Philipp de volta pra Alemanha saía de Mendoza no dia 31 de manhã. Eu ainda poderia ficar mais 1 ou 2 dias, mas nesse ponto combinamos que iríamos sair juntos, com cume ou sem cume, e assim podíamos dividir nossa mula com os dois. O certo era que não dava pra subir antes do dia 26. Nevasca, vento branco e frio perigoso.

Em três na barraca, começamos a ter mais problema com condensação. O vento batia a noite sacudindo a barraca e o gelo formado no tecido caía por cima dos sacos de dormir. Às vezes no rosto, às vezes dentro da garganta, com a boca aberta pra respirar. Com o frio e a ventania, a gente ficava o dia todo dentro da barraca conversando. Apesar do tédio, lembro de muita risada :D A nossa única obrigação diária era caminhar até a tenda dos guarda-parques pra checar as mudanças na previsão do tempo e nos programar. Nesses dias não dava pra cozinhar dentro da barraca, por causa da condensação, e de fora era impossível também com aquele vento. Começamos a usar a barraca domo (aquelas tendas grandes em formato hexagonal pra uso comunitário), apesar de que a regra era não cozinhar lá dentro, apenas comer. Mas não tínhamos muita escolha. Nós quatro (Andre também) começamos a levar o almoço e o jantar e passar o dia lá dentro. Um dos problemas de cozinhar lá era que também tinha condensação, e de repente começava a chover gelo derretido nas nossas cabeças.

Em uma dessas tardes conhecemos Ravi, um experiente guia de montanha malasiano que havia perdido 8 dedos das mãos por frostbite no Everest, no mesmo dia em que morreu o montanhista e escalador brasileiro, Vitor Negrete. Ouvir suas histórias faz crescer nosso respeito pelas montanhas. Um grupo de russos (na verdade eram da Letônia), três homens e uma mulher, estavam sempre na tenda comunitária também. Até dormiram lá dentro uma noite que o vento tinha rasgado a barraca deles. Eram muito fortes e não muito sociáveis, com exceção de um deles, Alex, que conversou mais vezes conosco, em um sotaque muito engraçado. Coincidentemente, nossa barraca em Nido estava montada ao lado da deles, que era um modelo fraco (e remendada depois de ter rasgado com o vento), e por isso precisaram colocá-la no único local do acampamento onde ela teria proteção por quase todos os lados. Era quase uma muralha de pedras com a barraca deles no meio. A nossa estava de fora da “muralha”, mas usando sua proteção lateral.

No dia 23 nós só descansamos. No dia 24, Andre subiu até o cume do Cerro Bonete, sozinho, pois optamos por continuar poupando forças. Eu queria muito ter ido também, mas eu já tinha perdido toda a minha (pouca) camada de gordura e massa muscular, e estava difícil comer mais calorias do que a gente estava gastando, mesmo parados. Então realmente pensei que a melhor opção era me poupar para nossa longa subida final, que iniciaria nos próximos dias. Depois me arrependi de não ter ido, claro... :|

Natal

Na manhã do dia 24 os porteadores nos convidaram pra uma festinha que teria à noite na tenda verde, organizada pela galera que trabalha na montanha. Disseram que não seria nada grande, porque eles trabalhariam no dia seguinte. E que no réveillon a festa seria maior... Passamos o dia falando de comidas de natal, famintos por algo suculento, por comida de verdade, depois de duas semanas com alimentação precária. Chegando na festinha à noite, tinha uma mesa cheia de delícias pra todos comerem à vontade :o pra nossa surpresa. Pena que a gente tinha enchido a barriga antes de ir pra lá, pensando que não teria nada ::putz:: . De repente entraram carregando a árvore de natal: um bloco enorme de gelo em formato de árvore. Em seguida encheram a “árvore” de luzes fluorescentes piscantes. Tava frio demais, mesmo dentro da tenda, e resolveram colocar a árvore do lado de fora...mas minutos depois o vento a derrubou e quebrou no meio ::lol4:: E foi chegando mais e mais gente na “festinha” até que não tinha mais espaço. Retiraram as mesas de comida e puxaram a caixa de som para o meio e a festa durou até umas quatro horas da manhã, regada a fernet com coca-cola e muito calor humano. Estavam lá os porters e demais pessoas que trabalham lá, alguns guias, alguns poucos montanhistas independentes, e nós. Quem estava em expedições pagas, teve algum tipo de celebração com suas respectivas empresas, e foram dormir cedo (ou tentar dormir, porque no dia seguinte tinha gente reclamando do barulho da nossa festa rs). Alguns guias da Mountain Madness estavam lá, e perguntamos se no acampamento base do Everest também havia festas assim. Disseram que “assim só aqui no Aconcágua”. As rajadas de vento pareciam que iam derrubar a tenda, e a cada rajada mais forte todos ajudavam a segurar o teto, com muita risada... Fiquei pensando se a gente ainda ia rir na hora de voltar pra barraca pra dormir com aquela ventania :shock: . Acho que foi a noite mais fria em Plaza de Mulas. E a noite com o céu mais estrelado...coisa linda! Lembro do Zaney me chamar na porta da tenda pra ver o céu e eu entender que tava chamando pra gente já voltar pra nossa barraca e eu ainda não queria ir. E aí vi o céu e fiquei embasbacada ::love:: . Mais uma das cenas que não vai sair da minha cabeça.

Em algum momento depois que voltamos pras nossas barracas pra dormir, começou a nevar, o vento forte varrendo a neve do chão ao mesmo tempo. Com todo o frio que estava fazendo de fora, a condensação com três pessoas dentro da barraca aumentou, e acordei com um monte de gelo sendo jogado por cima de mim. De manhã tinha gelo por cima de todas as minhas coisas e do saco de dormir. E continuava caindo mais. Não tinha muito que fazer... não dava pra tirar o saco de dormir pra secar e não molhar mais, porque estava nevando. Parou de ventar, a neve começou a acumular rapidamente lá fora. De repente, tudo ao redor era branco naquela manhã de natal. Meu primeiro natal com neve ::hahaha:: A paisagem no acampamento base havia mudado completamente.

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Fomos checar o prognóstico do tempo. Estando ainda em Mulas, já não existia opção de fazer cume dia 27. Ou era dia 28 ou dia 29. E tínhamos que subir pra Nido no dia seguinte (26). A previsão continuava mostrando o dia 29 como única pequena janela. Dia 30 as condições pioravam de novo. De qualquer forma, dia 30 já estaríamos deixando o parque.

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Dia 26 de dezembro acordamos ainda com neve e vento. Mas a previsão dizia que melhoraria no período da tarde. Então fomos nos preparando pra subir. Aguardamos, e o tempo não melhorava. Por volta de 13 hs decidimos iniciar a subida mesmo assim. Comecei na frente e lentamente fomos seguindo com a neve na cara. Assim que saímos da área do acampamento e começamos a subir, já não dava pra enxergar nada poucos metros à frente, tudo branco. O vento estava constante e a neve fina não parecia que iria parar. Avançamos no máximo 300 metros e parei, virei pra trás e falei que não parecia uma boa ideia continuar subindo naquelas condições. Esperei parada pelas reações. Atrás de mim estava o Philipp, depois o Zaney, e o Andre ainda estava no acampamento, mas nos alcançaria em minutos. Philipp e Zaney concordaram e na mesma hora começamos os três a descer de volta. Andre ficou indignado: “c’mon guys! we can get there, tomorrow is gonna be the same!” Eu também não queria abortar a subida depois de tudo preparado, passar mais uma noite ali e correr o risco do clima estar igual ou pior no dia seguinte. Mas a falta de visibilidade me preocupava. No começo estaríamos juntos, mas depois seria cada um no seu ritmo e eu não queria ficar sozinha montanha acima naquela nevasca sem enxergar nada à frente e sem enxergar o caminho (todo coberto de neve fresca). Mas falei então que toparia o que eles decidissem. Zaney e Philipp disseram que preferiam ficar. E voltamos cabisbaixos pra tenda comunitária. No misto de sentimentos, fiquei também um pouco aliviada de não enfrentar a subida naquela nevasca, confesso... E Andre fechou a discussão com “vocês sabem que amanhã não vai estar melhor, certo? Vai estar assim ou pior, e não teremos escolha senão subir, ok?”. Ele estava um pouco bravo. Todos estavam, claro, mas Andre era o mais preparado de nós e acho que teria chegado em Nido com certa tranquilidade. É compreensível que tenha ficado mais chateado...

Foi uma boa decisão no fim das contas. Quase todos que haviam começado a subida antes de nós desceram em seguida. Um grupo que estava no camp 1 passou maus bocados e uma pessoa sofreu hipotermia no começo da tarde. Nossos colegas russos subiram, com exceção da menina, que desistiu do cume e ficou aguardando eles em Mulas.

Chegando à tenda comunitária, quebrei nossos cinco minutos de silêncio sugerindo um jogo, já que nosso humor não estava dos melhores pra conversar. E jogamos por umas 3 horas, revezando pra buscar água e pra fechar a porta que teimava em abrir com o vento e jogar quilos de neve pra dentro. No fim da tarde, com atraso em relação à previsão, o tempo melhorou. Parou de nevar e começaram a surgir pequenos pedaços de azul em meio ao branco-cinza que cobria o céu. Saímos pra montar de volta a barraca do Andre e fiquei mesmerizada com a paisagem ao redor. Sem o vento, um grande silêncio e paz. E uma beleza única até onde a vista podia alcançar.

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Na madrugada, novamente muito frio e muita condensação. Amanheceu com vento e outra vez a rotina de gelo caindo sobre todas as coisas e deixando meu saco de dormir mais molhado. Já estava úmido por dentro também, porque tive que comprimi-lo pra guardar no dia anterior sem tempo pra secar antes, na nossa tentativa falha de subida. Iniciamos novamente a preparação para a subida: guardar as coisas na mochila, comer, usar o banheiro pela última vez, esquentar água parcialmente congelada e encher as garrafas, colocar os gaiters, separar snacks de fácil acesso para o percurso... Pendurei o saco de dormir ao vento pra ver se secava um pouco, mas em vez disso congelou :lol::roll: . Enquanto isso, tentei em vão derreter meu protetor solar que estava duro igual pedra. O vento começou a acalmar. Céu azul. Sem neve. Perfeito. Agradeci mentalmente ao universo, à Pachamama e ao Apu do Aconcágua por poder dizer: “ainda bem que esperamos pra subir hoje :D ”. E é claro que o Andre respondeu: “você sabe que teríamos conseguido ontem sem problemas”. Na verdade eu não confiava nisso não rs.

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Reta final

Deixamos então o acampamento base, rumo ao camp 2 (Nido de Cóndores). Era dia 27 de dezembro. Dormiríamos uma noite lá, e no dia 28 subiríamos para o camp 3 (Cólera) para iniciar o ataque ao cume na madrugada de 28 para 29.

Começamos por volta de 12:30 hs. Pode parecer estranho começar os trajetos tarde assim... mas apesar do dia clarear cedo (umas 06:30), o sol só surgia por cima da crista do Gigante depois das 09:00... e batia na nossa barraca umas 10:00. Era difícil sair da barraca antes disso, ou até sair de dentro do saco de dormir. Depois, demorava bastante até hidratar, comer, preparar todas as coisas e partir.

Como sempre, seguimos cada um no seu ritmo, respeitando os efeitos da altitude em cada um. Zaney foi apressado à frente, dizendo que queria chegar logo (parece ter 3 pulmões!! rs) e Andre e Philipp seguiam mais ou menos próximos. Já no meio do caminho entre Mulas e Plaza Canadá, eu havia ficado pra trás. Estava achando mais difícil de respirar nesse dia, e sentindo muito o peso da mochila fazendo forçar mais os pulmões. Cheguei a Canadá com bastante dificuldade. Já era mais da metade do caminho, mas sabia que a segunda parte era mais puxada pela altitude e cansaço. Philipp estava lá esperando por mim há quase meia hora. Andre tinha seguido pouco antes. Descansei por uns 5 minutos e Philipp trocou de mochila comigo por um tempo sem me deixar discutir :oops: . A dele estava mais leve porque não estava levando comida, fogareiro e outros itens, que já estavam em Nido. Nesse momento eu já estava completamente ofegante. Respirando muito pela boca por causa do nariz imprestável, estava sentindo como se estivesse com um soluço preso que não me deixava encher os pulmões. Acho que engoli ar ou algo assim. Isso somado à altitude me causou um belo de um sofrimento. O restante do caminho (mais umas 3 hs) foi agonizante. Parar pra descansar não fazia diferença, continuava sem conseguir encher os pulmões. Percebi o Philipp ficando preocupado, e eu repetia que não era nada sério, eu só tinha respirado errado. Mas aos poucos comecei a ficar preocupada também. Aquilo podia ser um início de edema pulmonar? As três coisas que eu me lembrava de ler sobre HAPE eram: 1) tosse seca; 2) falta de ar mesmo em repouso, com sensação de estar se afogando; 3) a sensação piora ao se deitar. Mas independente de qualquer coisa, não adiantava parar. Faltava pouca altitude pra vencer até o camp 2 e a escolha óbvia era seguir. Philipp começou a sentir dor no estômago e ficou mais lento também. Destrocamos as mochilas e seguimos, bem devagar. Não estávamos num bom momento. Pra mim foi o pior dia, porque foi o dia em que senti medo. Medo de estar com um problema sério, medo de não melhorar e ter que abortar a subida no dia seguinte, medo de sentir isso de novo nos próximos dias...

Passamos por um grupo grande, a expedição dos iranianos, todos exaustos, o guia se esforçando para fazê-los continuar se movendo. Finalmente nos aproximando do acampamento, pegamos um atalho pra onde estavam as barracas e escorreguei na neve caindo de costas no chão, mas a dorzinha foi pequena perto do alívio de chegar. E agora, descansar? Não. Pegar neve, derreter neve, hidratar, pegar mais neve, derreter mais neve pra cozinhar. E nisso escureceu. Mais um pôr do sol fantástico às quase 22:00, mas esse eu não saí pra olhar. Estava na barraca tentando voltar a respirar normalmente, enquanto o Andre repetia que pela manhã eu iria até os guarda-parques pra tentar contato com os médicos do acampamento base e ter certeza se eu podia continuar subindo. E eu dizia que tinha certeza que de manhã estaria bem. Prometi que estaria. Nessa noite dormimos eu, Andre e Zaney na nossa barraca, e o Philipp na dele que já estava em Nido. Andre deixou a sua em Plaza de Mulas. Zaney, desde que chegou ao acampamento, estava deitado na barraca quieto. Só falou que estava cansado demais. Não bebeu nada nem queria comer :| . Enquanto eu segurava o fogareiro, Andre ia colocando mais neve dentro. Era o último litro e em seguida íamos fazer uma sopa. De repente eu precisava fazer xixi, e não era um bom momento... lá fora nevando muito, ali dentro sem espaço com as nossas coisas desorganizadas, o Zaney deitado e eu e Andre expremidos pra dar espaço ao fogareiro aceso cheio de neve. Uma novidade pra mim nessa expedição foi como eu não conseguia segurar xixi. Era desesperador ::lol4:: (agooora é engraçado). E com a dificuldade que eu estava pra respirar, qualquer movimento era exaustivo, a ponto de precisar descansar pelo esforço de mudar de posição na barraca. Entreguei o fogareiro para o Andre e pedi um pouco de espaço, peguei rapidamente a garrafa do xixi e o funil e fiz. Mas na agitação desse processo, senti um calor forte na nuca e na cabeça e uma dor repentina em toda a cabeça e lembro de dizer: “Agora eu estou mal”. Andre já foi afastando as coisas ao meu redor e me dizendo pra deitar. Fiquei bem assustada, passando pela cabeça várias coisas. Definitivamente não era meu melhor dia. Deu vontade de chorar. Uma sensação de frustração e desespero por causa do medo da possibilidade de não poder continuar a subida. Era mais isso do que qualquer pensamento sobre as consequências de algum problema sério de Mal da Altitude. Deitada, tentando me acalmar e respirar tranquilamente, repeti que estaria bem na manhã seguinte, mas já não falei com tanta certeza, e completei que se não estivesse bem desceria sozinha pra Plaza de Mulas de manhã. Enquanto isso Andre estava terminando de fazer a sopa e já avisando que eu tinha que comer. Eu não queria me mexer, mas me sentei e segurei a panelinha enquanto ele despejava a janta pra mim. Comi. E aos poucos, apesar de ainda com dor de cabeça, voltei a ter certeza que depois de dormir estaria bem...

E em seguida descobrimos que tínhamos outro problema, que no fim das contas veio a ser mais sério. Zaney disse que seus olhos estavam doendo e que não estava enxergando direito. Quando se virou e abriu os olhos, vimos que estavam muito vermelhos. Ele explicou que ficou um tempo sem os óculos durante a subida ::putz:: . Isso é muito perigoso, porque o trajeto estava completamente coberto de neve, e o sol o dia todo refletindo pra todos os lados. O risco de “cegueira de neve” ou “cegueira de altitude” é altíssimo. Como ele tinha subido sozinho à nossa frente, nenhum de nós estava por perto pra lembrá-lo de recolocar os óculos e, pelo mesmo motivo, não sabemos quanto tempo ele ficou sem, e ele também não se lembra bem. Naquela altitude, em um dia limpo e chão coberto de neve, a claridade e brilho da luz ao redor chega a ser quinze vezes maior que o considerado seguro para nossos olhos. Como não tinha nada que pudéssemos fazer àquela hora, decidimos dormir, e pela manhã analisaríamos a situação.

Definitivamente não estava sendo uma noite fácil pro Andre também, dividindo a barraca com duas pessoas em situações no mínimo preocupantes pra quem pretendia seguir subindo rumo ao cume do Aconcágua na manhã seguinte. Fiquei em dúvida se tomava um remédio pra dor de cabeça ou se era melhor não mascarar os sintomas... Acabei tomando pois não conseguiria dormir.

 

A noite foi de sono leve, a sensação era de estar acordada o tempo todo. Zaney com dor, se mexendo o tempo todo, não estava dormindo também. Ele disse que a dor estava só piorando. Como nos explicaram depois, quando se queima os olhos, é como queimadura de pele, na hora não dói, e depois vai piorando gradativamente. Dei a ele um analgésico/anti-inflamatório pra ver se o ajudava a dormir, mas ele preferiu não tomar. Andre acordava de tempos em tempos perguntando se eu estava bem. Acho que ele pensou que eu estava tendo algum tipo de edema. Confesso que também cogitei. Mas a noite foi passando e finalmente peguei no sono por algumas horas.

Acordei com um pingo de condensação derretida caindo na minha cara. Sentei calada fazendo um rápido autodiagnóstico. “How are you feeling?”. Perguntou Andre. “Great!”, respondi, apesar de ainda não ter certeza. “Really?”. “Yes”. “Good. Just as you said you would be... It’s good that you know yourself”. E então voltamos nossas preocupações ao Zaney. Ele disse que a dor estava um pouco melhor, mas estava enxergando mais embaçado. Andre foi checar a previsão do tempo e os guarda-parques perguntaram como estávamos. Ao ouvir sobre o Zaney, um deles desceu preocupado até nossa barraca, já com umas gases molhadas para colocar sobre os olhos dele e disse que a orientação deles era que ele descesse. Se decidisse subir, seria por sua conta e risco. E aí começou outro momento de decisões difíceis. Ele não poderia descer sozinho sem enxergar direito. Eu teria que abandonar a subida e descer com ele. Mas primeiro ele precisava decidir o que queria fazer. A decisão era difícil e era totalmente dele. E nisso se passaram mais duas horas. Fui me preparando pra sair, ainda sem saber qual o destino. Quando Zaney finalmente decidiu que iria descer, avisei ao Andre que eu desceria com ele. Mas ele disse que isso não fazia sentido, que eu não precisava descer. Subiu novamente aos guarda-parques e perguntou se havia porters que podiam acompanhá-lo até Plaza de Mulas. E havia. Dois porters tinham subido levando equipamentos ao camp 3 e desceriam na próxima hora, podendo acompanhar Zaney sem problemas. Com isso, Andre salvou minha chance de tentar o cume :D . Os guarda-parques ainda falaram que o Zaney podia esperar na tenda deles, pra ficarem acompanhando a situação dos olhos dele. Depois desceria com os porters e seria avaliado pela médica em Plaza de Mulas, para saber se nos aguardaria lá ou se seria evacuado de helicóptero. E assim ficou decidido que eu continuaria subindo com Andre e Philipp, agora sem mais ninguém do meu grupo brasileiro... :roll:

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Rumo ao camp 3 (Cólera)

Com toda a situação, atrasamos muito pra sair. Já eram 14:30 quando começamos a subir. Mas o clima estava ótimo, e o trecho até o acampamento Cólera não era o mais longo. Os meninos dividiram a barraca entre eles, e deixei pra trás alguns itens que achava que seriam importantes, como a garrafa térmica, mas preferi reduzir o peso, com medo de ter o problema do dia anterior. Andre foi na frente, eu e Philipp atrás. Ele mais devagar hoje, porque estava com mais peso que eu. Esse caminho era o mais bonito até então, com vista pra uma imensidão de picos nevados.

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Um passo de cada vez, fomos subindo devagar, deixando o corpo aclimatar àquela altitude. Em algum ponto desse trecho alcancei a maior altitude em que já havia pisado, que até então era o cume do Nevado Pisco (5.752 m). Fiquei empolgada por estar me sentindo ótima :D . O caminho ia ficando mais íngreme, e com partes de gelo duro. Fiquei aliviada de estar calçando os crampons, embora fosse possível vencer esse trecho sem eles.

Avistamos o acampamento Berlim, que fica uns 50 metros verticais (ou menos) abaixo do Cólera. Lá há alguns refúgios de madeira semidestruídos. O acampamento é hoje pouco utilizado para ataque ao cume, principalmente por dificuldades para coletar neve limpa pra derreter, devido ao acúmulo de dejetos no passado. O acampamento Cólera, a 5.970 metros de altitude, é maior e mais plano que Berlim, porém um pouco mais exposto aos fortes ventos. Depois de vê-lo, me pareceu mesmo a melhor opção.

No final, talvez a uns vinte metros de chegar a Cólera, há uma corda de aço fixa pra evitar acidentes devido à inclinação, ao gelo, e às pedras soltas. Imagino que foi colocada principalmente por causa dos porteadores, que fazem constantemente esse trajeto com cargas quase absurdas nas costas.

 

Chegamos por volta de 17:30. Andre já tinha escolhido um lugar e estava começando a derreter neve. Montamos a barraca e fui encher o saco de neve pra continuar o processo. Fim de tarde lindo. A vista do outro lado da montanha, que pela primeira vez podíamos ver, revelava um mar de montanhas coloridas em tons de marrom, rosa e avermelhado. Valia a pena ir ao “banheiro” só pra ver a vista por trás das pedras que garantiam a privacidade. Falando em banheiro, acho que esse era o mais exposto a ventos... nada divertido.

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Nesse acampamento fica o Refúgio Elena, doado pela mãe da italiana de mesmo nome, que faleceu na tragédia de 2009. O refúgio deve ser utilizado apenas em casos de emergência, de acordo com regras estabelecidas pelo parque. O espaço interno é divido em dois compartimentos, sendo o primeiro dotado de um rádio para contato com os guarda-parques (frequência VHF 142.800 mhz). Após contato e avaliação da situação, é dada ou não a autorização para abrir a porta trancada do segundo compartimento. Se o refúgio for usado sem ser confirmada a situação de emergência, uma multa será cobrada. A partir do momento em que se utiliza o refúgio, se entende e se aceita que a tentativa de cume está cancelada, mesmo que sua situação melhore depois. O custo de conserto e reposição de itens utilizados no refúgio será cobrado da pessoa que fez uso. Parece que o primeiro compartimento tem sido utilizado também por porteadores e guarda-parques para manter alguns equipamentos.

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Algumas nuvens “baixas” passando, e a preocupação batendo... Nossa janela pra tentar o cume era de um único dia, já que a previsão era de começar a nevar por volta das 16 hs e de aumentarem os ventos, iniciando mais uma possível semana inteira de tempo ruim. Por volta das 22 hs, com muita ansiedade, tentamos dormir, com o despertador marcado pra 02:45. O plano era sair às 04:30. Demorei pra pegar no sono... mais por euforia do que pelos efeitos da altitude. Estava muito perto do objetivo e muito curiosa sobre como seria. Como seria respirar naquele trecho, como seria olhar pra baixo lá de cima, como seria a sensação de conseguir chegar lá... Eu conseguiria mesmo? As roupas seriam suficientes pro frio? Eu saberia identificar algum sintoma sério do mal da altitude? Teria coragem de decidir voltar se fosse necessário? Provavelmente os meninos iriam mais rápido que eu... quão mais lenta eu poderia ser sem atrapalhar nosso horário de retorno ao acampamento base? E se a previsão do tempo mudasse???

O vento estava forte. E não parava. A barraca sacolejando e o horário de acordar chegando. Não tenho certeza se eu tinha dormido por uma ou duas horas... ou menos, ou mais... E o despertador tocou. O vento continuava forte, mas começamos devagar a nos preparar. Parece que a previsão do tempo estava mesmo errada, pois era pra estar praticamente sem vento nessa madrugada... :| Com essa preocupação ficamos ainda mais devagar, já entendendo que talvez tivéssemos que adiar o horário de saída. Peguei meu miojo pra preparar, mas o Andre insistiu que eu precisava de mais calorias e me deu um dos seus pratos liofilizados. Era um macarrão com bacon e um caldo gorduroso delicioso. Lembro bem da sensação de mastigar e sentir o gosto bom de bacon a 6 mil metros de altitude depois de tantos dias na montanha. Eterna gratidão! Nos hidratamos, enchemos as garrafas com água morna, preparamos as mochilas (água, barrinhas de cereal, sachês de gel de carboidrato, biscoito recheado, lanterna reserva, remédios pra altitude...). Os liners das botas duplas dormiram comigo no saco de dormir pro calor secar o suor do dia anterior. Mas ao conferir vi que em vez de secar tinha congelado. Raspei com as unhas a camada de gelo que tinha se formado por dentro, mas não adiantou muito. Se pudesse voltar atrás, teria colocado um saco plástico por cima das meias durante o percurso Nido - Cólera pra não passar umidade pro liner nesse dia crucial. Colocamos aquecedores químicos nos pés e nas mãos. Vestimos todas aquelas camadas de roupa. E as botas duplas, gaiters e crampons. Manteiga de cacau na boca e no nariz. Balaclava, gorro, óculos e câmera. Olhei no relógio: 05:25. O céu ainda negro, bastante estrelado, mas as cores começavam a aparecer no horizonte leste.

Tirei umas fotos e coloquei as mittens. Malditas mittens. Não consigo fazer nada com aquilo nas mãos. Até pegar o bastão fica difícil... Imagina pra comer, beber água, ajeitar a balaclava... Não vai ser fácil, pensei...

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05:25 am. Dia 29 de dezembro de 2016.

Ataque ao cume

Comecei a subir na frente, me sentindo bem, e Andre logo me alcançou. Como já tínhamos combinado, ele subiria mais rápido porque estava  preocupado com o risco de frostbite, pois vinha sentindo muito frio nos pés. Confirmou se eu iria esperar o Philipp, que vinha mais atrás, e eu disse que sim. “Lembrem de comer de hora em hora, marca no relógio, de hora em hora! espero vocês no cume!” e sumiu montanha acima naquela velocidade absurda dele.

O vento tinha finalmente acalmado e, apesar de estar fazendo entre -25 e -30 graus ::Cold:: , não parecia tão frio assim. Acho que as roupas estavam funcionando bem. Mas eu estava sentindo o frio nas mãos e nos pés... Em uma das mãos o aquecedor químico funcionou, conforme eu fazia o movimento de abrir e fechar os dedos, sentia o calorzinho. A mão que segurava o bastão ficava mais fria, então eu revezava. Nos pés os aquecedores não funcionaram...

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Às 6 hs o sol começou a clarear o cenário. Lindo demais. A partir daí, já não sei dizer de qual ponto a vista era mais espetacular. Não dá pra afirmar que a vista no cume é mais bonita que a de qualquer momento em que eu olhava ao redor nesse trajeto. As sombras, as cores, o jogo de luzes no céu, os reflexos do sol dourando os picos no horizonte. Difícil saber o que tirava mais o fôlego, a altitude ou a beleza daquilo. Se eu não conseguisse chegar ao cume, toda a empreitada já teria valido (e muito) a pena pra estar ali. E a cada passo eu estava mais perto do cume, mais feliz... e sentindo mais o frio. ::Cold::::Cold::::Cold::

Pra tirar fotos, comer ou beber água, eu precisava parar e tirar as mittens. Quando tirava, mesmo com as outras camadas de luvas, as mãos gelavam rápido. Então fazia uma coisa de cada vez. Bebia água, colocava as mittens de volta e andava mais um pouco até as mãos reaquecerem. Parava. Tirava as mittens e pegava algo pra comer. E assim por diante. Nessas pequenas paradas, os pés gelavam também. Sentia o frio na parte de cima dos pés como se estivesse ventando neles, embora isso fosse impossível com a carcaça da bota dupla e ainda os gaiters por cima.

Ainda na primeira parte do trajeto, por volta das 06:30, o momento mais mágico: olho pra trás e vejo um triângulo se desenhando no céu, crescendo de cima pra baixo próximo à linha que separava a faixa azul do laranja cor de fogo no horizonte. Era a sombra do Gigante projetada a oeste por centenas de quilômetros, cruzando a fronteira com o Chile e se estendendo sobre o Pacífico. Um jeito interessante de se ter noção da imensidão do Sentinela. E aí a gente se sente tão pequenininho... e o coração bate mais forte com a adrenalina de estar ali fazendo parte daquela montanha, fazendo parte daquela imensidão. Nos minutos seguintes, a sombra foi ficando maior e mais nítida. Naquela hora, lembro de ter a sensação de que não havia vento, nem frio. Mas sei que a sensação era falsa e na verdade tava ventando bastante, porque a capinha da minha câmera caiu e o vento levou embora antes que eu conseguisse alcançá-la..

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Quanto mais subia, mais frio ficava. Mesmo depois que o sol nasce, continuamos na sombra gelada por horas, porque a rota normal leva ao cume por trás da crista da montanha, a noroeste. Saindo de Cólera às 05:30, só peguei sol em dois pequenos trechos onde se passa pelo topo da crista: às 6:40, apenas por alguns metros, e depois no Refúgio Independência, onde cheguei às 08:20. Depois disso, só alcancei o sol quando cheguei ao ponto chamado de “La Cueva”.

Quando parava pra esperar o Philipp, eu ficava batendo os pés no chão pra esquentar. Ele disse que estava com os pés quentinhos! (mas a bota dele era do tipo recomendado pra montanhas de 8 mil metros).

Passamos por alguns grupos guiados descendo de volta. Depois fomos saber que eles haviam desistido do cume porque “estava frio demais”. Tinham saído do acampamento às 4 horas e chegado até perto do início da Travessia, de onde decidiram retornar. Perto de chegar ao Refúgio Independência, me encontrei com os mexicanos que havíamos conhecido em Plaza de Mulas, Gustavo e Javier. Gustavo conseguiu fazer o cume no dia 19, e Javier não. Mas esperaram passar a semana de nevasca e subiram juntos novamente pra essa segunda e última tentativa de chegarem juntos ao cume. Novamente Javier não estava bem o suficiente, e principalmente por causa do frio e do risco de frostbite decidiram voltar. Tem uma subidinha íngreme ali, logo antes de chegar ao platô onde fica o refúgio, e pelo visto eu escolhi o caminho mais difícil... Quando o Gustavo me avistou subindo fez sinal pra eu contornar à direita, mas pra não ter que voltar uns metros eu segui por ali mesmo. Obrigada crampons! (porque sem eles não daria).

Nessa hora o Philipp estava ficando bem atrás, mas terminei de subir até o platô. Chegando lá, sol! Por trás de umas rochas na beira do penhasco, mais um daqueles xixis com vista extraordinária! :lol: Esperei o Philipp chegar lá. Enquanto isso, fotos, hidratar, comer...

O pequeno refúgio de madeira está bastante destruído, não serve muito pra proteger dos ventos mais. Quando se chega aí, dá impressão de já termos passado da metade do caminho, mas ainda estamos a 6.370 m (400 metros verticais vencidos, do total de 992 m a vencer nesse dia).

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Philipp chegou muito cansado, disse que não estava se sentindo bem. Não queria comer, estômago ruim. Insisti que comesse e descansamos mais uns 10 minutos. Tínhamos à frente um pequeno trecho de subida antes de passar pelo local conhecido como "Portezuelo del viento" e iniciar “la travesía del Gran Acarreo”. Eu estava me sentindo melhor que em qualquer dos trechos mais baixos da montanha, por incrível que pareça, e achava que a sensação de frio nos pés estava dentro do normal. Seguimos, Philipp dizendo pra eu não esperá-lo porque ele achava que não ia conseguir chegar, e que se eu ficasse esperando não ia conseguir também. Mas depois dele ter me esperado e ajudado muito na última subida a Nido, eu não pretendia deixá-lo pra trás.

Durante todo o trecho da travessia, o vento estava mais forte, constante, e muito gelado. Esse trecho é muito exposto. Se pisar errado, pode rolar até o acampamento base (exageros à parte rs). Em alguns pontos a neve estava bem escorregadia. Mais uma vez os crampons sendo importantes. Foi o trecho onde mais senti o frio. Bem mais que antes do sol nascer. Meu pé, debaixo das camadas de meias, bota interna, carcaça da bota dupla e gaiters, estavam gelando de uma forma incômoda. Falei pro Philipp que ia esperá-lo na próxima rocha, onde parecia estar batendo sol, mas foi só impressão, nada de sol... Esperei por ele batendo os pés no chão pra tentar esquentar. Não adiantou muito, ou eu não teria tido o problema de princípio de congelamento que tive...

Comecei a sentir que meu nariz estava ficando dormente, puxei a balaclava para cobri-lo, mas me atrapalhava a respirar, então segui tentando cobrir o nariz com a mão livre. Já podíamos avistar “La Cueva”, último ponto de descanso antes de subir a Canaleta rumo ao cume. Também costuma ser o último ponto de desistência, pois, quem não está bem ao chegar lá, não encontra uma visão muito motivadora ao olhar pro resto do caminho acima. Lá já estava batendo sol, finalmente! Avisei ao Philipp que esperaria lá no sol. E segui, tentando acelerar pra esquentar, e com isso quase levei uns tombos perigosos pisando de mau jeito com aqueles trambolhos de botas duplas e crampons nos pés.

O sol começou a passar por cima da crista e me alcançou um pouco antes de chegar à La Cueva. Chegando lá, escolhi uma pedra ao sol pra sentar e fiquei um tempinho com o rosto virado pro sol esfregando o nariz. (Depois fui saber que uma menina teve frostbite no nariz nesse mesmo dia). Passei filtro solar, bebi água, comi umas barrinhas... A vista era incrível. Bem à minha frente estava o imponente Cerro Mercedário. Uns 20 minutos depois, Philipp chegou. Descansamos por mais uns 15, enquanto eu tentei convencê-lo a continuar, mas ele estava com dor no estômago e se sentindo fraco... com medo de seguir e não estar bem o suficiente pro caminho de volta. Nós dois preocupados também com o tempo que íamos gastar a partir dali até o cume, pois tínhamos que voltar até Plaza de Mulas nesse mesmo dia ainda, plano um tanto quanto audacioso. Andre provavelmente já estava no cume. A gente não sabia por quanto tempo ele ficaria lá esperando. Nessa hora alguém nos falou que faltavam mais umas três horas até lá em cima. Philipp insistiu que não daria tempo dele chegar, considerando o jeito que ele estava se sentindo. Eu também imaginei que eu não chegaria a tempo, mas queria tentar. Philipp decidiu que realmente iria voltar dali. Iria descendo devagar e parando pra descansar e nos aguardaria em Cólera. E eu seguiria até encontrar com Andre, que provavelmente estaria descendo na próxima hora. Encontrando com ele eu desceria junto, perdendo o cume, pra não arriscar o nosso retorno. Mas as coisas acabaram acontecendo um pouco diferentes...

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Era entre 11:15 e 11:20 quando comecei a subir a canaleta. Às 13 hs eu chegaria ao cume, só 1h45m depois, em vez das 3 hs que haviam nos informado... E pra minha surpresa, Andre ainda estaria lá esperando.

A canaleta realmente é íngreme como dizem, mas creio que fica mais fácil com neve como estava, em vez de terra com pedras soltas. Um dos problemas ali foi o “engarrafamento”. Dois grupos guiados estavam à minha frente, em fila indiana, muuuuito lentos. Pra ultrapassar tem que ter muito cuidado, pra não desequilibrar ninguém, e pra não cair por pisar em pontos ruins fora da “trilha”. Uma pessoa de um desses grupos deitou no chão de repente, e parecia estar tentando ajustar seus crampons, mas estava balbuciando coisas sem nexo e não dava espaço pras pessoas passarem. Alguns ofereceram ajuda mas ele não deixava. A fila ficou parada até que o guia o alcançou pra prestar auxílio. Desceram com ele, e, pelo visto, estava com sintomas de edema cerebral, mas depois de descer ficou bem. Pouco depois encontrei com os russos (letonianos) descendo do cume. Nunca vou esquecer do sotaque engraçado do Alex me dizendo: “Andrew your friend is waiting for you on the summit, for TWO HOURS!” rss E ainda gastei 1h20m depois disso... Ele tinha chegado ao cume em incríveis quatro horas e pouco :-o , e esperou no cume por quase três horas e meia!

Depois que consegui ultrapassar esses grupos, sentei exausta numa pedra, sentindo os batimentos a mil. Tinha passado dos 6.700 m, altitude apontada por muitos como onde começa o grande desafio do Aconcágua em relação à falta de oxigênio (como se já não fosse um desafio desde o começo). E realmente, cada passo ficou mais penoso. Eu já estava me aproximando do Filo del Guanaco, crista que conecta o cume sul ao cume norte. Dali já avistava o cume e todo o percurso até lá, e podia ver que o Andre não estava descendo ainda. Tentei ir o mais rápido que pude, porque ia ser devastador ter que virar as costas pro cume estando tão perto! Acelerava cinco ou dez passos e parava pra não deixar o coração saltar pra fora. Não ouvia nada ao redor, e não pensava em nada também. Uma paz absurda e todo o meu universo focado em dar mais cinco passos. E batia aquela ansiedade de estar chegando lá. E eu já não sabia mais se o coração batia tão rápido por causa da altitude ou por causa da adrenalina ::love:: . Comecei a sentir calor, (calor!!) e guardei umas camadas de blusas na mochila, e as mittens. Mais cinco passos. Respira. Mais cinco passos. E de repente olho pra cima e vejo o Andre lá na ponta balançando os braços. Subi os últimos dez minutos o mais rápido que pude, enquanto o Andre tirava fotos do meu esforço . ::lol3::

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Olhei pra trás e vi o amontoado de nuvens cobrindo a face sul e girando em torno dela. “Temos que descer!” pensei. Dei os últimos passos, subindo por algumas rochas, e estava pisando no cume! Alegria total. Sensação de euforia e pressa. Porque a gente tinha que descer logo. E enquanto o Andre me abraçava parabenizando pelo cume eu já dizia “eu sei, temos que descer”. Andei um pouco em cima do platô, tentando aproveitar bem aqueles minutos e já tava angustiada por não poder ficar muito lá em cima kkk... Procurei o ponto mais bonito pra fazer o que tinha prometido ao Carlo e fiquei muito feliz por ter conseguido cumprir o favor.

Nessa hora percebi uma leve dorzinha de cabeça... lembrei que tinha bebido pouca água na reta final. Então bebi suco e comi umas bolachas antes de descermos. A altitude, era como se eu não sentisse mais... esqueci. Frio? Também não, não ventava quase nada nesse momento. O que eu senti lá em cima? Um grande nada e um grande tudo. Sensação de completude e de esvaziamento. Nada na mente, absolutamente nada além da felicidade de estar ali e da leve preocupação em ter que voltar. E aquela coisa da gente se sentir pequeno e grande, eu senti em outros momentos na montanha, mas não ali. Aquela sensação de liberdade e de ser invencível? Sim, um pouco... Mas predominava uma sensação de gratidão. Gratidão a seja lá quais foram as forças do universo que me permitiram ser capaz de chegar ali e de viver tudo aquilo, e gratidão gigantesca aos parceiros que foram comigo até o final (Philipp e Andre), e aos que estavam no início (Carlo, Greison e Zaney). Essa sensação de gratidão foi muito nítida e real.

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E depois de dezoito dias na montanha pra chegar até ali, e ficar só por quinze minutos, não dá pra dizer que o cume é o mais importante, porque não é.

 

... E começamos a descer. Olhando a canaleta de cima pra baixo, parece ainda mais íngreme, e cansa bastante pra descer, com as pernas tremendo tentando firmar a cada passo. Ainda tinha gente subindo, que tinha começado mais tarde, o que pareceu boa ideia já que a previsão do tempo, no fim das contas, estava meio errada, e não nevou a partir das 16 hs como previsto. Pra nós de qualquer forma não havia essa opção, pois não daria tempo de voltar ao acampamento base se não tivéssemos começado a subir de madrugada.

Meus olhos estavam ardendo. Acho que os óculos não estavam suficientes. Coloquei o boné por cima do gorro pra ajudar a bloquear a claridade. Nessa hora já estava ventando mais, e algumas vezes tive que correr atrás do boné que voou da minha cabeça. Meus crampons, que na subida funcionaram perfeitamente, começaram a acumular neve embaixo, pois estava mais pegajosa, virando quase uma segunda bota. Péssimo de andar e perigoso, porque ele perde a função de agarrar ao chão. Alcançamos os russos uma meia hora antes de chegarmos em Cólera. Estavam bem cansados.

Quando chegamos no acampamento Cólera, minhas pernas já quase não estavam respondendo mais. Philipp estava na barraca descansando, e já se sentia melhor. Acabou descendo muito devagar e fazia pouco tempo que tinha chegado também. Tirei os crampons, abrimos a porta da barraca e deitamos com as pernas pra fora pra não precisar tirar as botas. A gente precisava comer. Andre comeu meu miojo que tinha sobrado. Comi o resto das barrinhas, bananinhas e sachês de açúcar. Andre queria mudar o plano e dormir ali essa noite, mas a gente não podia, do contrário o Philipp perderia o voo. Com um pouquinho de insistência, decidimos descansar uma meia hora e descer. Andre conseguiu um pouco de água com um grupo que iria ficar, pra gente não ter que gastar tempo derretendo neve. Desmontamos acampamento e descemos. Os russos, que tinham decidido dormir em Cólera, mudaram de ideia e desceriam em seguida também. Vimos mais três pessoas descendo à nossa frente depois que passamos de Nido. Todos os outros grupos ficariam em Cólera descansando aquela noite.

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As nuvens estavam subindo e tudo ficando encoberto ao redor. Não dava pra enxergar mais que 15 metros à frente. Mas a gente sabia a direção. Entre tombos e escorregões, chegamos a Nido. Enquanto o Philipp desmontou sua barraca, guardei como pude as coisas que tinha deixado ali, ficando muitas coisas penduradas pra fora da mochila. Separei as coisas que íamos tentar deixar com os guarda-parques pra não ter que carregar (principalmente comida e gás que tinham sobrado). Aceitaram tudo e nos parabenizaram pelo cume. Verificamos com eles a previsão do tempo e realmente tinha mudado. Só ia nevar no outro dia. Nos alertaram pra tomar cuidado na descida pelo caminho direto porque o gelo estava duro e liso. Os guarda-parques também nos deram notícias do Zaney, que estava bem e que por precaução tinha sido evacuado de helicóptero até a entrada do parque.

Quando saímos de Nido já eram quase 19:20 (eu só sei todos esses horários porque ficaram registrados nas fotos rs). Essa próxima parte da descida inicia com pouca inclinação, mas depois fica bem íngreme. A mochila agora tava muito pesada, e eu muito cansada, mas lembro de comentar que estava tranquilo. As nuvens tinham ficado acima de nós, e pra baixo estava limpo, visibilidade total.

O bom das nuvens acima foi que amenizou o reflexo do sol na neve... depois desse longo dia, meus olhos já estavam castigados. Deveria ter investido em óculos melhores. A temperatura estava ok, e tínhamos claridade até quase 22:00 (2,5 hs pra chegar até Plaza de Mulas então).

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Quando o caminho começou a ficar mais íngreme e os passos mais lentos pra não escorregar no gelo, o cansaço bateu de vez. Cada passo era uma tortura, e o sol baixando... Maior mistura de felicidade e exaustão que já senti. O peso da mochila e a inclinação faziam muita pressão sobre as pontas dos pés, principalmente por causa das botas duplas duras. Tudo que eu queria era arrancar aquilo, mas teria que carregá-las, e gastaria um tempo pra conseguir prendê-las na mochila. Além disso, nessa hora meus pés tavam molhados de suor, e ficariam gelados nas botas normais. Quanto mais descia, mais doía, e mais longe parecia. E eu ainda não fazia a menor ideia de que tinha pré-congelado os dedos naquele dia. O trecho entre o acampamento Canadá e Mulas estava péssimo, levei vários tombos de bunda deslizando no gelo. No fim tava tão exausta e com dor que tava prestes a sentar e chorar, mas não ia resolver nada né... Já tava praticamente escuro quando chegamos no trecho dos penitentes, e ainda caí uma última vez com o isolante térmico agarrando entre dois deles. Mais uns cinco ou dez minutos e chegamos à barraca, já totalmente no escuro. Suponho, então, que era pouco antes das 22:00.

Arranquei fora as botas duplas e calcei um par de meias secas confortáveis e os meus chinelos. Passei o resto da noite mancando de dor. Fui até a tenda da Lanko pra avisar que íamos embora no dia seguinte e pra ver como tinha ficado a situação da mula que a gente tinha contratado, se o Zaney tinha usado metade ou não... No helicóptero só podem ser levados seis quilos de pertences com a pessoa. Ele tinha deixado a bolsa com as coisas dele na tenda da Lanko pra eu levar pra ele. O problema que surgiu foi que a gente tinha que ter avisado até as 17 hs pra garantir a mula pro dia seguinte. Como não avisamos, só dava pra ter certeza se teria a mula no outro dia de manhã quando os muleiros chegassem :| .

Enquanto o Philipp estancava o sangue do seu nariz, que tinha começado a sangrar nessa hora, tomei um “banho” de lenço umedecido e troquei parcialmente de roupa pra me sentir no clima de comemoração kkk, e fomos pra tenda verde comer a pizza prometida pelo Andre. Deliciosa, mas a melhor parte da noite foi voltar pra barraca e entrar no saco de dormir pras merecidas e insuficientes horas de sono, já que a gente planejou levantar cedo pra organizar tudo pra partida. Dormi torcendo que aquela dor nos dedos melhorasse até de manhã.

A noite passou num piscar de olhos. Acordamos e começamos a desmontar acampamento e organizar as coisas. Levamos os sacos com lixo para a Lanko, e confirmamos que poderíamos usar a mula. Em seguida fomos aos guarda-parques entregar os sacos vermelhos com os cocôs ::lol4:: e fazer o check out. Eles carimbam nosso permiso, indicam um tonel onde devemos jogar os sacos, e nos perguntam se fizemos cume, creio que para as estatísticas extraoficiais.

As comidas, gás e outros itens que tinham sobrado no acampamento base, doamos à APA (Asociación Porteadores Aconcagua), como uma pequena forma de retribuir pela festa de natal. Aceitaram inclusive a panela toda entortada que eu tinha usado pra quebrar neve/gelo pra derreter.

Como o Carlo e o Greison tiveram que levar suas coisas quando decidiram ir embora, a mula que contratamos para dividir por quatro estava com espaço/peso sobrando, e deu pra colocar quase todas as coisas do Philipp e Andre também, pra podermos acelerar o passo no caminho de volta. O que não coube dividimos entre nós três.

Aqueles últimos 28 quilômetros

Sexta-feira, 30 de dezembro de 2016. Nosso último dia no Aconcágua. Saímos de Plaza de Mulas por volta das 11:50. Tempo aberto, vento razoável. Quase sem peso, seguimos rápido, mas as pequenas subidas ainda roubavam o fôlego. Meus pés estavam doendo menos, tranquilo pra andar. O objetivo era chegar até as 18 hs na saída do parque. Passamos a Playa Chica com facilidade, e a Playa Ancha foi tão interminável quanto na ida. Com o vento soprando contra nós e eu com alguns vários quilos perdidos, tava tendo que fazer mais força que o normal pra andar pra frente. Mas o caminho tava lindo. Sem os quase 20 kg da ida nas costas, dá pra olhar mais ao redor e admirar a grandiosidade daquelas montanhas negras, marrons e coloridas.

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Atravessar o rio tava mais complicado, o nível da água tinha subido bastante com as nevascas das semanas anteriores. Em um dos trechos, já no fim da Playa Ancha, tive que tirar as botas e entrar na água barrenta do rio Horcones pra passar. Molhar os pés não foi a melhor coisa nessa hora, favoreceu as bolhas que não tinham surgido até então.

Antes de chegar a Confluência tem a descida pra atravessar a ponte, e depois a subida até o acampamento. Que subidinha malvada naquele momento de fim de forças. Chegamos ao acampamento e paramos por uns dez minutos pra comer, ir ao banheiro e encher as garrafas de água pro resto do caminho.

No trecho entre Confluência e Horcones, passamos por vários grupos que iam fazer o trekking até Plaza Francia ou Plaza de Mulas e alguns iniciando a expedição ao cume. Num clima bastante diferente de quando entramos, eles vestiam roupas de verão. Os dias que vinham adiante prometiam ser bem mais amenos que os da nossa longa aventura. Olhando pra trás agora, eu não trocaria o que passamos por uma opção menos sofrida e com menos desafios, porque talvez seria também menos incrível e recompensadora. No fim, foi tudo perfeito, e eu não trocaria nada. Na verdade, queria ter passado um pouco mais de frio, saindo mais vezes da barraca de madrugada pra olhar o céu. Queria ter sofrido um pouco mais saindo do saco de dormir antes do sol nascer pra ver a montanha amanhecer. Na próxima, vou me esforçar pra “sofrer” um pouco mais.

Chegando a Horcones, encontramos com Ravi, e soubemos porque não o vimos no dia do cume. Ele havia saído de Cólera antes das 4 hs, e abortou a subida por causa do frio, voltando pouco antes de nós começarmos a subir..

Era pouco depois de 18 hs. Com algumas informações divergentes, ficamos em dúvida se a portaria principal, que fica mais abaixo, estava ou não aberta. Então apresentamos o papel do check out ali mesmo, destacaram o canhoto e nos liberaram, sem nenhuma formalidade. Teoricamente, o permiso vale por 20 dias. O do Philipp já havia expirado dois dias antes, mas nem olharam isso. Entraram em contato com a Lanko para avisar que a gente estava ali, e em uma meia hora chegaram pra nos buscar. Ravi foi com a gente. Paramos em Puente del Inca, onde corri até o hostel/refúgio El Nico para pegar a mochilinha que eu tinha deixado guardada lá. Queria dar as boas notícias ao Cesar e agradecer pelos conselhos, mas ele não estava. Seguimos para Los Penitentes, onde pegamos nossas coisas trazidas pelas mulas. Ali pegaríamos o ônibus Buttini para Mendoza às 20 hs. Da oficina da Lanko até o ponto de ônibus tínhamos que andar uns 300 ou 400 metros e atravessar a rodovia. Tivemos que fazer duas viagens cada pra levar toda a bagagem, incluindo a do Zaney. Quando pegamos esse ônibus na vinda, como embarcamos na rodoviária em Mendoza, pediram “propina” (gorjeta) por causa do excesso de peso no bagageiro do ônibus. Na volta, na pressa pra embarcar todo mundo rápido e não demorar parados na estrada, não pediram nada. Pagamos pelo ônibus ali mesmo ao entrar, não é necessário comprar passagem antes.

Já sentada no ônibus, aquela sensação de alívio. Agora podia dormir naquelas próximas quatro horas de viagem, mas quem diz que eu conseguia com tanta coisa passando na cabeça? O ônibus fez uma parada pra lanche, onde comprei uma merecida coca-cola pra repor a glicose gasta no dia. E o resto do caminho foi cheio de flashs dos últimos 19 dias passando na memória...

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De volta a Mendoza e a surpresa do frostnip...

Chegamos a Mendoza meia noite. Um último esforço pra carregar toda a tralha até o ponto de táxi do outro lado da rodoviária. Nos despedimos do Philipp que de manhã já pegaria o voo de volta pra Berlim. Ainda encontraria com Andre e Ravi no dia seguinte para comemorar a virada do ano, e com a Eileen, que também estava em Mendoza ainda. Cheguei ao hostel (Windmill) por volta de 00:40, torcendo pro Zaney estar lá! Se ele não estivesse, não sei como eu faria pra levar as coisas dele pro Brasil. Mas ele estava, ufa! O pessoal do hostel me ajudou a levar as coisas pra dentro e me disseram que o Zaney tinha saído pra comer, mas estava hospedado lá sim, e já estava com os olhos recuperados ::otemo:: . Agora era o momento do tão esperado banho depois de 19 dias! Pensa num cheiro de cachorro molhado que não saía do cabelo por nada! ::lol4::::lol4::::lol4:: Quando o Zaney chegou, cozinhamos um macarrão que tinha voltado sem querer na bolsa dele, e comi enquanto nos colocamos a par dos acontecimentos. Já havia passado das 03:00 quando mandei notícias pra minha mãe e amigos e fui deitar. Logo que acalmei os ânimos e comecei a pegar no sono, senti os dedos dos pés latejando um pouco, mas nem dei bola e dormi.

Dia 31 de dezembro, acordei a tempo do café da manhã. O pessoal estava preparando a decoração da festa de réveillon que teria à noite. Percebi que meus pés estavam um pouco inchados, e os dedos vermelhos. Ainda estava pensando que a dor e o vermelho nos dedos eram por causa da descida do cume com as botas duplas. Já o inchaço no pé começou a me lembrar de quando subi o Pisco no Peru e de como meu pé inchou por causa, supostamente, da altitude. Fui devolver as botas duplas e mittens que tinha alugado. Voltando para o hostel, senti o inchaço aumentando, e o chinelo já não estava cabendo direito no pé. À noite encontrei com o pessoal e fomos celebrar a virada, e o inchaço e dor aumentando... até que chegou um momento que eu já não aguentava a dor nos dedos. Até o tornozelo estava inchado igual um pão, emendando com a canela. Voltei pro hostel e tentei dormir. Mas os dedos tavam latejando muito, como se tivesse acabado de chutar a quina do sofá com cada um deles :cry: .

Tomei um anti-inflamatório, que não ajudou muito, e passei a noite meio acordada, entre cochilos e aquela dor pulsante. Acordei e estava muito mais inchado. Peguei o ônibus pra Santiago às 10:30. E no caminho continuava a dor pulsante. Cheguei no hostel em Santiago no fim da tarde, e meu voo pro Brasil era na manhã do dia seguinte (2 de jan). À noite já estava doendo o pé inteiro, principalmente pra pisar, e tava ainda mais inchado, e aí eu tive certeza que a situação tava pior do que foi o inchaço de setembro depois do Pisco. Conversei com duas pessoas experientes em doenças de altitude, expliquei os sintomas e mostrei fotos. A conclusão foi de que eu tinha tido um início de congelamento, chamado de frostnip, que é o 1º estágio de um frostbite. Isso explicava a dor e o escurecimento das unhas (algumas foram escurecendo mais até ficarem pretas e soltarem, outras soltaram sem ficar pretas). Quanto ao inchaço, também acontece nos casos de frostnip, mas geralmente não tanto quanto aconteceu comigo. Existe outro sintoma de altitude que é o edema periférico, mas acomete mais as mãos e o rosto. Dada a minha experiência prévia com esse sintoma nos pés, suponho que tenha sido isso. Outra explicação pro inchaço teria sido o sangue ter engrossado muito por causa da aclimatação, atrapalhando a circulação nas pernas. Ou a junção de todos os fatores. Enfim, esse campo ainda não foi suficientemente estudado pra se ter certeza das causas apenas pela descrição de sintomas. De qualquer forma, a recomendação era anti-inflamatório, evitar bebida alcoólica (porque desidrata), beber muita água, e, principalmente, manter os pés quentes. De volta a Belo Horizonte, dormi com os pés pra cima pra ver se ajudava a desinchar. De manhã pareciam melhor, mas ao longo do dia, enquanto eu estava no trabalho, foram inchando de novo mais e mais, e à noite aquela dor. E foi assim por mais dois dias. Chegando do trabalho eu fazia compressa com água quente e deitava com os pés pra cima na parede. E de manhã tava melhor, mas piorava ao longo do dia. Até que aos poucos foram voltando ao tamanho normal. O sintoma mais preocupante, e que confirmou o frostnip, veio depois. Quando o inchaço reduziu, percebi que não estava sentindo o dedão direito. Completamente dormente. Aí fui outra vez consultar os experientes, e me disseram que era comum e que provavelmente a sensibilidade começaria a voltar depois de um mês, e poderia demorar até seis meses pra voltar totalmente. E esse dedo vai ficar pra sempre mais sensível ao frio e mais suscetível a congelamentos de altitude :( .

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Umas três semanas depois comecei a sentir formigamento e umas fincadas, e a sensibilidade foi voltando... Em dois meses estava praticamente normal, mas ainda sinto ele meio estranho às vezes. Ficou o aprendizado. Não sei dizer com certeza se o problema foi a bota dupla que não era quente o suficiente pro frio daquele dia, mas com certeza vou ficar mais atenta numa próxima vez. Aquele frio realmente não estava pra brincadeira, e o Andre também teve o frostnip, mesmo com a cautela dele de subir acelerado pra aquecer. Com exceção do pé inteiro inchado, ele teve os mesmos sintomas, mas inchou bastante só o dedo mais atingido, que depois ficou dormente pelo mesmo prazo que o meu. Ficaram duas lições: 1 - levar aquecedores químicos, inclusive uns pares extra pra se falharem; 2 – não é normal ficar sentindo os pés frios se estiver com calçado adequado. Se isso acontecer, faça algo pra resolver, volte, desista do cume... Não vale a pena arriscar. No meu caso foi só um frostnip, mas daí pra um frostbite não falta muito. Se estivesse mais frio, ou se o cume fosse mais acima, eu teria continuado, sem saber o risco que estava correndo.

 

Junho de 2017

Demorei pra escrever este relato, pela correria do dia a dia... e só terminei mais de cinco meses depois de descer da montanha. Tenho um problema quando conto ou relembro aventuras, e esse problema tem a ver com uma teoria que eu acredito: depois que passa um tempo, lembramos melhor das coisas boas que das coisas ruins. Não que a gente esqueça que coisas ruins aconteceram, mas o sentimento que tal coisa causou na época vai se esvaecendo com o tempo, e depois não parece que foi tão ruim assim. Já as lembranças boas continuam despertando as mesmas sensações, a euforia daqueles momentos e o brilho nos olhos ao lembrar. Bom, pelo menos pra mim é assim que acontece. Mas eu chamei de problema porque às vezes é importante lembrar também das partes ruins, principalmente na hora de planejar outra aventura. Eu sei que tiveram momentos no Aconcágua em que rolou aquele “o que eu tô fazendo aqui?”, ainda que momentâneo... E cá estou eu me equipando pra outra “diversão” em alta montanha em julho ::hahaha:: . Por causa dessa mania da minha memória de me enganar, logo que voltei do Aconcágua escrevi uns relatos soltos das “partes ruins” da expedição, pra não esquecer, ou do contrário este relato aqui pareceria um conto de fadas kkk. Lendo essas partes agora, mesmo não tendo passado tanto tempo, já não parece que foi tão ruim... já esqueci que algum momento foi difícil e sofrido. E se me perguntar agora, é capaz de eu dizer que subir o Aconcágua foi fácil e que faria tudo de novo sem pensar duas vezes! kkk Não foi fácil, mas faria de novo mesmo! :-D::love::

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(tem mais fotos desta e de outras expedições no meu instagram: @vanessa.mb88 )

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Abaixo a lista de equipamentos

  • Barraca 4 estações (levei a azteq himalaya, seria ótimo uma mais leve e compacta, mas não foi ruim ter o conforto do espaço desta);
  • Saco de dormir de pelo menos -15°C conforto (eu fui com um Deuter -2 conforto; -8 conforto limite e -26 extremo, senti um pouco de frio em algumas noites, mas nada que me fizesse arrepender de ter levado esse saco, mas não é o recomendado!);
  • Fogareiro + isqueiro (fósforos umedecem e falham. O isqueiro funcionou bem em todos os acampamentos e temperaturas. Usei o fogareiro azteq spark, ultra leve. Pra derreter neve os modelos tipo jetboil são melhores, mas vi eles falharem pra acender e manter aceso algumas vezes);
  • Botas duplas boas (aluguei a koflac e tive início de congelamento nos dedos. Mas o frio tava mesmo demais naquele dia..);
  • SD de emergência alumínio (não usei, mas é importante);
  • Isolante térmico bom (pode ser de PE, pelo menos 1 cm de altura. Mas se precisar montar a barraca sobre o gelo/neve, o frio pode passar por ele. Infláveis são mais confortáveis mas tem risco de furar e são mais pesados);
  • Lanterna de cabeça + reserva (resistente a água);
  • Panela/talher/caneca de plástico;
  • Gás isobutano/propano, de rosca (5 cartuchos de 230g são suficientes, provavelmente vai sobrar. É recomendado o pequeno)
  • Garrafa térmica (muito útil, mas não completamente essencial)
  • 3 garrafas leves e resistentes para comportar no mínimo 3 litros de água
  • Capas térmicas de neoprene pras garrafas de água (de qualquer forma várias vezes tava tudo congelado de manhã, mas ajuda um pouco...);
  • Garrafa pra xixi (obs: a garrafa de gatorade costuma vazar!);
  • Duffel bag entre 80 e 120L (se for usar mulas até o acampamento base);
  • Bastão de caminhada (1 é suficiente);
  • Óculos de sol e goggles (os óculos precisam de proteção lateral (importantíssimo). Os meus não tinham e improvisei com silver tape. Funcionou bem. Não usei goggles, mas podem ser necessários dependendo da sensibilidade dos seus olhos, ou pra nevascas);
  • Crampons;
  • Gaiters/polainas;
  • Tapa ouvido para dormir (tem noites que o barulho do vento é muito forte);
  • Travesseiro inflável (pode improvisar com roupas);
  • Anorak;
  • Calça corta vento/impermeável;
  • Calça e blusa segunda pele;
  • Calça e blusa fleece;
  • Camada de aquecimento para dia do cume (eu usei um casaco de penas simples e um grosso de enchimento sintético);
  • Luva impermeável, luvas quentes e luvas que deem pra manusear objetos;
  • Mittens;
  • Balaclava;
  • Gorros de lã;
  • Meias;
  • Diamox (acetazalamida), Aspirina (ácido acetilsalicílico), Imodium (pra diarréia), Ibuprofeno;
  • Clorin (não usei);
  • Protetor solar fator alto;
  • Papel higiênico, desodorante, lenços umedecidos, álcool, etc.;
  • Manteiga de cacau (passei até no nariz quando começou a rachar do frio seco...não levei nenhum hidratante, mas é uma boa levar);
  • Escova/pasta de dente;
  • Micropore;
  • Soro fisiológico;
  • Colírio;
  • Câmera;
  • GPS (precaução. Se pegar um white out vai precisar);
  • Baterias e pilhas extra;
  • Chinelo até acampamento base (se for usar mulas. Se não for, é um peso que pode ser cortado);
  • Sacos para lixo, saco mais forte para recolher neve, sacos para manter coisas secas, sacos individuais para cocô, pra depois jogar no saco oficial do parque;
  • Boné;
  • Cordeletes pra fixar mais a barraca (dependendo da barraca... A minha já tinha suficiente);
  • Aquecedores químicos de mãos e pés (pro dia do cume).
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Guria, nem sei o que falar desse relato... e dessa viagem... To aqui arrepiada! Show, show, show!

parabens pela tua força!

Déia

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Guria, nem sei o que falar desse relato... e dessa viagem... To aqui arrepiada! Show, show, show!

parabens pela tua força!

Déia

 

Obrigada Déia!! :D:D

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  • Conteúdo Similar

    • Por victorcarv
      Fala, pessoal.
      Fiz no começo dessa semana mais um review no canal. Desta vez foi da faca Petzl Spatha, uma faca dedicada aos escaladores, montanhistas e profissionais de verticalidade. 
      Espero que gostem, os interessados!
       
    • Por maizanara
      Trekking e escalada no gelo - Glaciar Viedma
      O Glaciar Viedma fica próximo à meca dos escaladores e trilheiros da Argentina, El Chalten, e é o maior glaciar da Argentina.   Nós amamos escalar, então a vontade de experimentar uma modalidade de escalada tão peculiar como a escalada no gelo nos atraiu muito. Estava decidido, escalaríamos no gelo na Patagônia! 

      Fazer o trekking em uma geleira também estava nos planos, e durante muito tempo debatemos se seria melhor e/ou mais bonito fazer o trekking no Perito Moreno ou no Viedma.
      Uma das dúvidas que surgiu era com relação à estética do glaciar: o Glaciar Perito Moreno é bem branquinho, ou seja, não há partículas das rochas ao redor sendo depositadas nele. Já o Glaciar Viedma possui um acúmulo muito grande de partículas, o que dá esta aparência mais escura. Coisa boba mesmo!rsrs  
        Já leu nosso post sobre o Glaciar Perito Moreno? Leia AQUI!
        Como queríamos fazer o ice-climbing (escalada no gelo) chegamos à conclusão que este seria um passeio "3 em 1" perfeito: navegação pelo Lago Viedma, trekking (afinal teríamos que caminhar até chegar nos paredões de escalada) e a escalada no gelo propriamente dita - FECHADO!
      Não é um passeio barato - na verdade, muito pelo contrário! Mas estava no topo de nossa lista e decidimos fazê-lo. 
       
      Entramos em contato com a empresa Patagonia Aventura por e-mail para agendar nosso passeio. Em El Chaltén, fomos direto até a agência fazer o pagamento (já que eles não aceitam cartão de crédito).
      A próxima parada seria uma loja de aluguel de equipamentos, precisávamos de botas de sola rígida, próprias para escalada no gelo. Isso não é um equipamento obrigatório, mas queríamos fazer a coisa do jeito certo (afinal o investimento era grande). 
      No dia seguinte, encontramos com o restante do grupo na frente da agência e seguimos de ônibus até o píer no Lago Viedma, local de saída do catamarã.
      A travessia do lago é espetacular, a paisagem em volta parece uma pintura.

      A caminhada começa direto na rocha mesmo, onde um dia foi gelo (o glaciar está em retrocesso, ou seja, perde mais massa do que acumula). Eu já comecei sofrendo, a bota rígida quase me matou - sem exageros! Caminhamos em um terreno muito irregular e a bota não tinha maleabilidade nenhuma! A cada passo aumentada a pressão no meu pé e eu era a última do grupo! Na companhia de um dos guias, que pacientemente me acompanhava.
      Antes de iniciarmos a caminhada no gelo propriamente dita, os guias nos ajudam a colocar os crampons de pontas frontais, que são grampos de ferro acoplados à nossa bota, que permite caminharmos e escalarmos no gelo. 
      Os grupos são então separados - os que irão fazer o trekking e nós, que vamos procurar paredes de gelo para escalar! O grupo de escaladores é bem menor, eramos em 12 escaladores e 5 guias. Me senti muito segura o tempo todo e todos os guias era muito simpáticos e ao que parecia, muito experientes. 
       
      A caminhada no gelo é uma aventura encantadora! Vi tons de azul (e branco) que jamais imaginei (e lembra minha preocupação com a deposição de sedimentos? Eles deixaram o gelo ainda mais lindo!).

      Chegamos na primeira parede para iniciar o treinamento, que é iniciado da base da parede. É uma parede bem fácil, onde aprendemos como nos posicionarmos, como utilizar a piqueta de escalada, como fixar os pés na parede (através de chutes com força suficiente para fixar os crampons na parece).
      Depois deste primeiro contato (que foi até fácil), subimos de fase e fomos para uma parede um pouco mais difícil. Desta vez não iniciamos da base da parede, mas do topo dela e descemos de "baldinho" (ser descido por alguém desde um ponto de segurança instalado mais acima) até a base da via para então subirmos escalando. A parede era mais longo (12m aproximadamente) na metade da via já senti o cansaço! É preciso de muita força! Mas foi incrível, já tinha um certo entendimento da técnica (pelo menos o suficiente para me divertir!

      A terceira parede era negativa! Ou seja, tarefa impossível para mim! Não entendi nem como fazia para ficar na parede, a força necessária é impressionante. O Antonio mandou muito bem nesta (e em todas as outras vias), nem parecia estar fazendo força! 
      Almoçamos (lanche de trilha), descansamos e fomos para a última parede do dia, onde o guia montou 2 paradas (sendo uma delas muito difícil), não havia tempo para todos do grupo escalarem novamente. O Antonio quis ir na via mais difícil, claro!

      Ao retornar parecia uma criança! Com muita alegria descrevendo o que tinha visto lá em baixo. Disse que viu tons de azul jamais imaginados, ele estava no meio de dois paredões de gelo de um azul difícil de descrever (ainda bem que contra minha vontade ele levou a câmera e pode compartilhar com todos nós).
      Ele insistiu para que eu escalasse pela última vez, mesmo cansada decidi ir - e posso dizer que não me arrependi!! Foi a parede mais linda de todas e a vista daqueles blocos de gelo com tons jamais vistos! Impossível de descrever, apenas sentir e agradecer!

      Os guias nos serviram licor com gelo da geleira para comemorar nosso dia de aventuras.
      Como é bom fazer algo pela primeira vez na vida, experimentar algo que você nunca imaginou viver, sentir o novo!   

      Já visitou a nossa galeria de fotos da escalada no Glaciar Viedma? Clique aqui.
         Informações
      - Tem idade para escalar no gelo? Não tem não! No nosso grupo havia uma família inteira: pai e mãe (por volta de seus 55 - 60 anos) e seus 3 filhos (20 e poucos anos)! Claro que os pais não escalaram todos as vias, mas sentiram o gostinho da experiência e vibraram junto com os filhos!

      - Empresa que faz o passeio de trekking e escalada no gelo (a única com licença para esta atividade): Patagonia Aventura
      - Tipos de passeio disponíveis:
      1) Viedma Light – apenas a navegação para ver o Glaciar
      2) Viedma Ice Trek – caminhada sobre o gelo ARS 4200 (+- R$838: transfer + catamarã + trekking no gelo + escalada no gelo + equipamentos)
      3) Viedma Pro – caminhada e escalada
       
         Dicas   
      Se puder alugar a bota de solado rígido, alugue! Mas se você não está acostumado (assim como eu) leve sua bota de trekking e somente troque de bota na hora que for andar no gelo (com os crampons) e escalar.
      Locação das botas de solado rígida: Patagonia Hikes (Lago del Desierto 250, 9300 El Chalten)
      Custo: ARS 130 (+- R$25)
      Quer continuar viajando com a gente? Então não deixe de nos seguir nas nossas redes sociais: Facebook, Instagram e YouTube.
      Precisa reservar seu hotel ou hostel? Nós sugerimos Booking.com!
      Utilize ESTE LINK, você não paga nada a mais por isso (nem 1 centavo, prometo!) mas nós recebemos uma pequena  comissão, que ajuda a pagar as contas do blog e escrever mais posts incríveis como este!

    • Por maizanara
      Aos pés da Cordilheira dos Andes, a cidade de El Calafate (Argentina) é a base para quem visita o Glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional dos Glaciares.
      O Glaciar Perito Moreno é sem dúvida uma das paisagens mais impressionantes da Patagônia, localizado a 80km (1h30 de ônibus) de El Calafate. São 250 km² de formação e 19 km de comprimento, mas "apenas" 1 dos 48 glaciares do Campo de gelo do sul da Patagônia Veja todas as fotos do Glaciar Perito Moreno aqui.
      Eu tive que me beliscar para acreditar que sem muito (ou nenhum) esforço eu poderia chegar tão perto desta obra-prima da natureza. Isso mesmo, não precisa escalar nem fazer horas de trilha, nem ir de barco para chegar pertinho do glaciar.
      As trilhas pelo parque são suspensas, de fácil acesso e indicadas para todas as idades (mas com degraus) e existem várias rotas que nos levam a diferentes pontos de observação. São muito bem cuidadas e inclusive há rotas para cadeirantes. Nós optamos por descer do ônibus na segunda parada (a primeira é a entrada principal e início das trilhas por passarelas) e iniciarmos as trilhas pelo ponto mais alto. A vista é incrível e a sensação de ir chegando cada mais próximo ao paredão de gelo é indescritível.

      Nós optamos por fazer o passeio autônomo. Existem várias empresas que oferecem esta opção de passeio e você pode comprar direto com a empresa, no guichê na rodoviária. Existem outras opções de passeios com guias que podem ser muito interessante e enriquecedora também.
      Sugiro que aproveite o parque sem pressa, caminhando pelas diversas trilhas no seu tempo, assim terá o maior proveito de todos os ângulos. E prepare-se, a cada novo ângulo uma nova surpresa, um novo wow e mais fotos! Custo
      Entrada do parque 250 ARS (+- R$90, para portadores de passaporte de países do Mercosul). Consulte o site do parque AQUI para informações atualizadas. 
      Transporte | Empresa Taqsa - 450 ARS (+- R$50) - compramos no dia anterior na rodoviária.
      Valores atualizados em Janeiro de 2017.

      Fizemos um galeria de fotos do Glaciar Perito Moreno AQUI.
      Fanpage: www.facebook.com/calangosviajantes
      Instagram: www.instagram.com/calangosviajantes/
    • Por maizanara
      Já pensou em chegar pertinho desta imensidão de gelo sem precisar pedalar, escalar ou navegar? É sim possível!
      O Glaciar Perito Moreno é sem dúvida uma das paisagens mais impressionantes da Patagônia, localizado a 80km (1h30 de ônibus) de El Calafate, cidade base para quem visita o Glaciar Perito Moreno e os arredores. É possível fazer diversas atividades como caminhada pelas trilhas suspensas, trekking no gelo ou navegar pelo Lago Argentino.
      Você também pode contratar um guia, comprar um tour com uma agência ou ir sozinho mesmo, já que tudo lá é super bem marcado. Foi desta maneira que eu fui e conto AQUI no blog como foi - com custos e tudo mais!
      Fizemos um galeria de fotos do Glaciar Perito Moreno AQUI.
      Fanpage: www.facebook.com/calangosviajantes
      Instagram: www.instagram.com/calangosviajantes/
      Inspire-se!!
      Bons Ventos!  


    • Por bruno.bortoloto-do-carmo
      Olá pessoas!
       
      Não costumo comentar muito, mas me utilizo sempre desse fórum para montar meus roteiros. Como os relatos de viagem são sempre os que mais me ajudam a pensar em locais, companhias aéreas/rodoviárias, etc. etc., penso que é um dever sempre depois de uma viagem feita postar aqui como rolou!
      Pois bem, primeiro a motivação da viagem: férias e rolezão Sulamerica. No ano anterior (2015) uma parte do Cone Sul (Brasil>Paraguai>Argentina>Uruguai>Brasil) em 32 dias. Esse ano (2016) fechei as férias com a Regina, minha namorada, em 15 dias mas queria aproveitá-los o máximo!
       
       
      Depois de muitos quebra cabeças, decidimos que iríamos ao Atacama e à pequenos pueblos no Norte da Argentina, descendo aos poucos até terminar a viagem em Cordoba (lugar com vôo mais barato de volta ao Brasil rs). O roteiro ficou assim mais ou menos assim:
       

      [Aéreo] São Paulo/SP para Santiago/CHI com escala no Rio de Janeiro (dia 16/07)
      Santiago (dia 16/07)
      [Aéreo] Santiago/CHI – Calama/CHI (dia 17/07)
      [Carro alugado] Calama/CHI até San Pedro de Atacama/CHI (dia 17/07)
      San Pedro de Atacama/CHI (dias 17/07 a 20/07)
      [busão] San Pedro de Atacama/CHI até Purmamarca/ARG (dia 20/07)
      [Táxi] Purmamarca até Tilcara/ARG (dia 20/07)
      Tilcara/ARG (dia 20/07 a 24/07) – aqui pude ir pra Purmamarca, Humahuaca e San Salvador de Jujuy
      [busão] Tilcara/ARG até Salta/ARG (dia 24/07)
      Salta/ARG (dias 24/07 a 26/07)
      [busão] Salta/ARG até Tucumán/ARG (dia 26/07)
      Tucumán (dias 26/07 a 29/07)
      [busão] Tucumán/ARG até Cordoba/ARG (dia 29/07)
      Córdoba/ARG (dias 29/07 a 31/07)
      [Aéreo] Córdoba/ARG até São Paulo/SP com escala em Buenos Aires/ARG (dia 31/07)

       
      Vamos aos detalhes!
       
      [Aéreo LATAM] São Paulo/SP para Santiago/CHI com escala no Rio de Janeiro (dia 16/07)
      Vôo pela LATAM. Brasil TAM, Santiago LAN, sem maiores problemas ou intercorrências. Passamos o dia inteiro viajando e apesar de “perder” um dia (ainda com o fato de que apenas pernoitamos em Santiago para no dia seguinte pegar o vôo para Calama, preferimos assim para não ter correrias.
       
      Santiago (dia 16/07)
      Tínhamos já reservado um quarto em um apartamento pelo Airbnb. Já na reserva, o anfitrião nos ofereceu um transfer (feito por ele mesmo) do aeroporto até o apartamento por US$50. Pelas contas das calculadoras online de táxi o preço sairia mais ou menos esse, então aceitamos a oferta!
       
      Quando chegamos ao aeroporto de Santiago o anfitrião já nos esperava e fomos confortavelmente até o apartamento de carro. Fazia frio e estávamos cansados (saímos de São Paulo lá pelas 13h e chegamos quase 21h por lá).
       
      O apartamento é super recomendado. Super limpo, organizado, a cama MUITO confortável e o chuveiro quentíssimo. Não me lembro se tinha calefação, mas não passamos nem um pouco de frio.
       
      [Aéreo LATAM] Santiago/CHI – Calama/CHI (dia 17/07)
      No dia seguinte fomos agraciados por um café da manhã reforçado (nem todos os Airbnb oferecem) e o anfitrião nos levou de carro até o aeroporto pela manhã. Nosso vôo para Calama (novamente pela LAN) sairia ao meio dia.
      Novamente voamos tranquilamente, apreciando a paisagem pela janela que foi mudando lentamente dos picos nevados dos Andes ao deserto do Atacama, simplesmente impressionante!
       

      Picos nevados saindo de Santiago/CHI
       

      Início da paisagem do deserto e o frio na barriga aumentando!
       
      [Carro Europcar] Calama/CHI até San Pedro de Atacama/CHI (dia 17/07)
      O meio mais fácil de acessar o Atacama é indo de avião até Calama, uma cidade que fica a 100km de San Pedro de Atacama. Essa última fica na “boca” do deserto e é ponto de partida para todas as atrações do local. Decidimos que, para ter um pouco de liberdade, alugaríamos um carro.
       
      Portanto, chegando ao aeroporto de Calama fomos direto à Europcar e pegamos um carro para seguir viagem. A estrada para San Pedro é bem tranquila, apesar de ser somente uma pista ida/volta, porém se forem alugar carro fiquem atentos à cidade que tem ruas bem estreitas!
       

      Primeiro mirante que paramos o carro e nossa cara de:
       
      San Pedro de Atacama/CHI (dias 17/07 a 20/07)
      Dia 1 (17/07)
      Primeira coisa a se falar do Atacama: bebam água, muita água! A dica que nos deram e foi de ouro (quase não sentimos desidratação) foi de tomar um gole pequeno de d’água a cada 20 minutos. Portanto, não economizem nas garrafinhas!
       
      Alugamos um chalé que fica uns 3km de San Pedro em local chamado Altos de Quitor, próximo à Pukará de Quitor (mais pra frente eu descobriria o que são Pukarás, grande revelação cultural da viagem rs). Era lugar bem calmo, confortável. O quarto que pegamos é o único de casal privativo; pagamos uns US$120 pelos três dias. Mas se tiverem pensando nesse lugar, corram já pra fazer a reserva, pois tivemos muita sorte! Umas holandesas que conhecemos por lá tentaram agendar esse quarto com três meses de antecedência e já estava toma (por nós hehe).
       

      Vista da área comum dos Chalés
       
      Chegamos no fim da tarde, e queríamos aproveitar para ver o pôr do sol em algum lugar. Pegamos o carro e estávamos a caminho do Vale de la Luna. Numa entrada errada acabamos metendo o carro em um buraco e não conseguimos tirá-lo de lá. Ficamos das 17h até as 21h esperando o guincho. Nesse ponto pudemos constatar a grande amplitude térmica do Atacama, que pode variar dos 25ºC de dia até -10º a noite! Tivemos sorte de bater o carro próximo à cidade, pois poderíamos ter nos dado muito mal se fosse em algum ponto ermo do deserto. Portanto, se tiverem pensando em fazer como nós, leve em conta esse tipo de contratempo ou aluguem um carro alto 4x4.
       
      No fim, na correria e sobressaltos, mesmo com minha namorada dizendo para não esquecer de checar TUDO antes do guincho levar o carro, acabei deixando minha carteira dentro do carro o que deu uma dorzinha de cabeça extra, pois tivemos que ir até Calama novamente para conseguir resgatá-la nos dias seguintes.
       
      Chegando ao hotel, finalmente pudemos provar o quarto. É um chalé feito de madeira com banheiro dentro. Não tem calefação mas é muito bem construído, quase não se sente a friaca que tá rolando lá fora. A cama é muito confortável e munida de muitos cobertores. A internet, no entanto, quase não pega no quarto, então quando precisávamos mandar mensagens para familiares e fazer outras coisas tínhamos que ir até a área comum.
       
      Aliás, o local por ser afastado da cidade também é perfeito para ver as estrelas!
       
      Dia 2 (18/07)
      Bom, tínhamos um grande roteiro programado que foi por água abaixo por conta do contratempo do carro. Tínhamos planejado ir às Lagunas Altiplânicas, Laguna Cejar e Vale de la Luna. Só que nesse momento só tínhamos na cabeça ir à San Pedro de Atacama resolver o B.O. do carro, portanto esse dia foi exclusivamente voltado para isso e, de quebra, conhecer a cidadezinha.
       
      Quase não sentimos os 3km a pé dos Altos de Quitor até San Pedro, pois a paisagem é fantástica, além de muitas pessoas fazerem esse mesmo caminho, então você acaba fazendo várias amizades. O Atacama é um lugar bastante cosmopolita com pessoas do mundo inteiro, portanto prepare-se para usar o inglês mais até mesmo que o espanhol.
       

      Paisagem do caminho à pé dos Altos de Quitor à San Pedro
       
      Fomos direto à Europcar e o único funcionário que trabalha lá, o Francisco, foi um amor conosco e nos confortou dizendo todos os detalhes das burocracias que deveríamos fazer. Tivemos que registrar a ocorrência em um Tabelião de Notas (lá não é a polícia que faz esse tipo de documento) e levá-lo para que a franquia do seguro fosse acionada. Tivemos que pagar 750 reais e nada mais, pois o estrago parece que foi grande e ultrapassou os R$8000 do seguro que contratamos (ufa!). Como só tem um funcionário por lá e ele por vezes tem que resolver coisas em Calama, quando retornamos tivemos que esperá-lo voltar para pegar o carro substituto.
       
      Almoçamos num lugar super legal chamado “Las delicias de Carmen”; era muito boa a comida a um preço justo! Esse restaurante fica na calle Caracoles, uma das principais ruas da cidade e onde tem os principais restaurantes e pontos para cambio, o que também aproveitamos para fazer depois de comer. Também tem os mercadinhos, onde se pode comprar regalos para conhecidos e as tão cobiçadas folhas de coca pros momentos de falta de ar por conta da altitude.
       
      O cambio foi bem fácil. Trocamos tudo em dólar aqui no Brasil e levamos um pouco de pesos chilenos. Real por lá é bem desvalorizado, então não valia a pena levar. Como tinham muitos locais que trocavam um do lado do outro foi possível fazer uma bela prospecção antes de bater o martelo. Também aproveitamos pra trocar um pouco de pesos argentinos pois a cotação estava muito boa e iríamos precisar quando fôssemos para Jujuy.
       
      Depois do rolê completo pela cidade em todos os lugares possíveis, voltamos para pegar o carro reserva e voltar pro hotel, pois já estava quase escurecendo. No caminho descobrimos um caminho MUITO mais fácil de chegar aos Altos de Quitor sem passar pelas ruas apertadas, mas agora já era tarde demais, né? haha
       

      Ruazinhas lindas de San Pedro com o não menos importante Vulcão Licancabur ao fundo
       
      Dia 3 (19/07)
      Nesse dia saímos bem cedinho para ir até Calama resgatar a carteira desse ser desmiolado. Vimos o sol nascer na estrada; aliás, a paisagem do Atacama diversas vezes nos fez esquecer o perrengue que passamos com o carro de tão lindo que é!
       
      Chegamos lá, resgatei a carteira e voltamos para nosso tão esperado primeiro paseo (uhul!). Fomos ao Vale de la Luna. Você paga uma taxa pra entrar de 2500 pesos por pessoa e tem um roteiro de vários locais que pode visitar. Como fomos de carro, muitos locais pegamos vazio sem muitos turistas, o que é incrível. O silêncio ali é uma das coisas mais impressionantes que já vivenciamos, além da paisagem de tirar o fôlego! São cavernas, mirantes e formações rochosas antiquíssimas. Muitas pessoas, inclusive, fazem esse caminho de bicicleta.
       

      Vale de la Luna lindíssimo!!!
       
      Tentamos ainda fazer a Laguna Cejar na volta, mas o caminho nos deu um pouco de medo por conta do nosso trauma do carro e acabamos voltando para San Pedro para devolvê-lo. Demos um último giro pela cidade e voltamos apreciando o pôr do sol no caminho a pé para os Altos de Quitor. Se forem ficar lá, façam isso a tempo de chegar antes do sol se pôr por completo, pois esse caminho no escuro é BEM complicado sem lanterna haha
       

      Não é só de perros que é feito o Atacama: apresento-vos el zorro, uma raposinha charmosíssima do deserto
       
      [busão - Andesmar] San Pedro de Atacama/CHI até Purmamarca/ARG (dia 20/07)
      Já tínhamos comprado a passagem com antecedência para Purmamarca que sairia às 7:30 da manhã. Pegamos assento um bem confortável, Executivo, por 1079 pesos argentinos cada lugar por uma viagem de umas 10 horas (sem contar a parada na imigração, que nos tomou mais umas 3h). Reservamos um táxi no dia anterior para nos levar ao terminal, pois o caminho seria bem complicado com malas e à pé. Chegando à rodoviária, praticamente deserta, descobrimos que o ônibus se atrasaria.
       
      Fizemos amizade nesse meio tempo com um cachorro, um casal de suíços e outro casal francês. Tirando o cachorro que só estava interessado em cafuné, todos estávamos esperando o mesmo ônibus, então acabamos fazendo companhia um para o outro até chegar o busão.
       

      As amizades que fazemos no caminho são as mais importantes
       
      Quando fomos embarcar, além do passaporte, o motorista solicita um papel que nos deram na entrada do país, pois ele é solicitado na migração. Tomamos um pequenos susto, pois não lembrávamos dele e tivemos que perder um tempinho procurando na mala. Portanto, lembrem-se deste bendito papel e deixem junto com os documentos de fácil acesso! Rs
       
      O caminho é bastante bonito, apesar de tortuoso e cheio de altos e baixo. Passamos por várias paisagens lindas, incluindo o vulcão Licancubur! Sugiro que separem um pouco de folhas de coca se forem fazer essa viagem, pois deu bastante dor de cabeça e falta de ar e as ojas são um santo remédio nessas horas!
       
      A migração, como disse, nos tomou umas 3h a mais, pois te fazem tirar todas as malas e passar numa inspeção. Caso dêem sorte de nenhum passageiro do ônibus cair na malha fina, pode ser bem rápido (coisa de 50 minutos), mas no nosso caso encrencaram com umas pessoas que estavam levando coisas que precisavam ser taxadas.
       
      Nosso ônibus tinha como destino final Salta, então nos deixaram em Purmamarca na autopista mesmo! Tivemos até que pular um guard rail pra chegar à cidade! Haha
       

      A paisagem é de tirar o fôlego no caminho (algumas vezes literalmente! rs prepare as ojas de coca!) ãã2::'> ãã2::'> ãã2::'>
       

      No caminho também existe as Salinas Grandes, que conhecemos apenas pela estrada pois não tivemos coragem de fazer o caminho de volta! rsrsrs
       
      [Táxi] Purmamarca até Tilcara/ARG (dia 20/07)
      O destino final era Tilcara, e então ainda tínhamos que procurar passagens para lá. Vimos em alguns relatos que existem ônibus a cada 20 minutos, então não nos preocupamos. O problema é que não existe lugar fixo e se pega esses ônibus na autopista, dando sinal para eles pararem. Se estiverem lotados você vai de pé mesmo hehe. Por isso, cotamos um táxi e vimos que não sairia muito caro, algo em torno de 200 pesos.
       
      O taxista era um senhorzinho muito simpático e humilde e veio papeando conosco falando um pouco da quebrada de Humahuaca, que é um destino turístico, porém só de argentinos no período de férias escolares. No resto do ano, segundo ele, é um lugar bem vazio.
       
      Em uns 30min estávamos no nosso Airbnb. Os anfitriões eram um casal muito amável, o Pila e sua esposa, que tinham uma casa próximo ao centrinho da cidade. O contato foi feito pelo Nicolas, que tem vários anúncios na região de Jujuy; esse infelizmente, pelo que vi não está mais disponível!
       
      Tilcara/ARG (dia 20/07 a 24/07)
      Dia 1 (21/07)
      Antes de mais nada, é preciso deixar claro uma coisa sobre essa região da Argentina: eles levam a siesta muito a sério. Qualquer um dos paseos que fizemos daqui até Córdoba levaram em conta que entre as 13h até as 17h nada, absolutamente NADA comercial funciona. Lembrem-sem disso! Rs
       

      Até as tias que vendem empanadas (gostosíssimas por sinal) na rua empacotam e só voltam no fim da tarde!
       
      Pela manhã tínhamos dois objetivos: trocar mais pesos argentinos e encontrar um café com wifi, pois infelizmente não tínhamos no nosso quarto. Encontramos um café local charmosíssimo chamado Mama Koka que é uma mistura de cafeteria com livraria. Foi nosso ponto de partida de manhã para todos os passeios que fizemos por lá! Eles tem um café ótimo e, pra quem é de doce, um alfajor divino.
      Café tomado fomos procurar um lugar para cambio. Foi meio difícil encontrar e, como dissemos, real por lá não tem jogo. Enquanto o dólar trocamos a uma excelente cotação de 15 pesos o real estava algo como 2,20 pesos, muito abaixo da cotação oficial inclusive.
      Tilcara, além da cidade em si, tem duas atrações interessantíssimas: a Pukará de Tilcara e a Garganta del Diablo. A primeira é a cidade dos pueblos originarios pré-colombianos e até pré-incaicos; existe uma Pukará praticamente para cada cidade, pois era o ponto mais alto desses locais, usado para proteção dessas comunidades. Já o último é uma trilha longa (algo como 8km) que no fim tem uma cachoeira e o caminho é demais!
      Nesse dia decidimos fazer apenas a Pukará. É lugar impressionante e, apesar de existir várias delas na região, essa é a única explorada por arqueólogos e com bastante informações históricas. Ela foi totalmente restaurada
       

      Pukará de Tilcara, com a charmosa paisagem cravejada de cactus
       
      Dia 2 (22/07)
      Pela manhã, San Salvador de Jujuy. Como Tílcara é um pueblo pequeno, não há um terminal rodoviário: os ônibus “intermunicipais” passam na estrada e você sobe. As passagens são compradas em pequenas guaritas em frente da estrada mesmo.
      Jujuy, capital da Província, é uma cidade “grande” perto das outras que visitamos, com estradas modernas e prédios grandiosos. Existem 2 terminais, um antigo, que parece uma 25 de março de tanto camelô e produto pirata, e um terminal novo, mais afastado da cidade. Não sabíamos disso e demos um rolê grande na cidade.
      Acabamos chegando tarde, muito próximo do horário da siesta, então vimos poucas coisas antes das porcas começarem a baixar no centro inteiro. Começamos pela Basilica de San Francisco y Museo de Arte Sacro que pra quem curte história da igreja e arte sacra vale bastante a pena! Depois passamos na Casa de Gobierno de Jujuy; aqui pode ser um passeio meio frustrante se não tiver um pouco de contexto histórico, pois a única sala aberta à visitação é uma que reúne as bandeiras de todas as províncias e tem em exposição a primeira bandeira feita pra Argentina, logo após da da Independência lá na década de 1810. O norte argentino é cheio recheado de história, principalmente porque Buenos Aires foi uma capital “criada” pela ausência de saída para o mar, mas o centro econômico e militar na época da independência estava na região norte. Tendo isso em mente a experiência com certeza vai ser bem interessante!
       

      Bandeira oferecida pelo Gal. Belgrano à Jujuy
       
      Ao fim da tarde, pegamos um ônibus para Purmamarca. É um pueblo pequeno mas maravilhoso para comprar regalos, tirar fotos com alparcas e comer empanadas feitas na hora. Fomos até o ponto mais alto da cidade, de onde vimos um pôr do sol lindo, ao custo de 3 pesos por pessoa! Leve sua “termo” e sua yerba mate e curta a paisagem! É aqui que pode-se ver o Cerro de los Siete Colores, absolutamente "maravichooso".
       

      Cerro de los siete colores
       
      “Pegamos a manha” do trajeto e voltamos para Tílcara de bus mesmo, mais barato e divertido!
      Nesse dia comemos carne de LHAMA, prato típico! Além disso, uma coisa diferente que vimos é que o pessoal concentra muito os horários, então a cena começa muito tarde mas acaba muito cedo, então tudo fica cheio.
       
      Dia 3 (23/07)
      Pela manhã, pegamos a mochila, protetor solar, garrafas d’água, óculos e fomos na Garganta del Diablo! É uma subida na montanha bem intensa, porém segura. De carro, são 10km e a pé existe uma trilha menor (4km, eu acho). Há uma cachoeira linda e uma passeio muito tranquilo. Ótimo local para fotos e descansar e encarar os km de caminhada de volta. Não se esqueçam de levar tênis extras, pois nessa trilha é necessário cruzar o rio várias vezes e pode ser que se molhe um pouco!
      Voltamos à casa onde estávamos hospedados, tomamos um banho e fomos passear em Humahuaca, outro pueblo encantador!
       

      Companhia na subida para a Garganta
       
      Esse é o último lugar que compramos artesanias por preços justos e que ajudavam o sustento dos locais mesmo. Existe ainda a possibilidade, por meio de carro ou paseos agendados com companhias de turismo, de conhecer de perto a http://Serranía de Hornocal que conta com mais colores ainda que aquelas vistas em Purmamarca, dizem 14 no total. Da cidade de Humahuaca é possível vê-lo de longe, mas tem como chegar bem perto! hehe
       

      Humahuaca e a vista ao fundo da Serranía de Hornocal
       

      Este pueblo no se vende!
       
      [busão - Balut] Tilcara/ARG até Salta/ARG (dias 24/07 a 26/07)
      Novamente voltamos para a Ruta, mas dessa vez pegaríamos o busão que nos levaria para Salta. Compramos pela Balut um semi-cama, confortável porém com menos espaço pras pernas, o que significava ficar meio esmagado com as malas (preferíamos irmos com elas do que despachá-las, precaução por conta das tretas do começo da viagem rs). A viagem durou umas 4h sem qualquer intercorrência e nos custou um máximo de 200 pesos por pessoa.
       
      Dia 1 (25/07)
      Ficamos no hostel La Covacha, em um quarto de casal bem espaçoso e arejado, com banheiro coletivo no andar. O chuveiro tinha água complicada, mas o prédio tinha acesso ao topo do prédio, que era uma vista muito bonita da cidade. Pagamos cerca de 900 pesos por duas diárias, agendadas pelo booking e pagas quando fomos embora do hostel.
      A cidade lembra muito uma cidade de São Paulo de interior, porém grande. Tem um parque na cidade que parece o Ibirapuera, calçadões e zonas de comércio amplas e iluminadas.
      O grande destaque da cidade vai para o Museo de Arqueología de Alta Montaña onde é possível descobrir um pouco sobre cultura andina e ver as fantásticas 3 múmias Incas encontradas e impressionantemente bem conservadas. É de arrepiar!
       

      As famosas múmias de Salta. Infelizmente não se pode sacar fotos, então essa não é minha rs
       
      Não ficamos muito na cidade, que além do museu e alguns passeios em igrejas (tentamos ir em todas da cidade rs) não nos encantou tanto. Deixamos, no entanto, a dica de um restaurante chamado El Charrúa onde enchemos o bucho com uma parrillada espetacular!
       

      Aqui nesse ponto já não é tão necessário, mas se precisar da pra comprar um saco cheio!
       
      [busão - Andesmar] Salta/ARG até Tucumán/ARG (dias 26/07 a 29/07)
      Fizemos o caminho até Tucumán pela Andesmar. Inicialmente iríamos ficar mais tempo em Salta, mas por conta da cidade em si e a perna muito longa dali até Córdoba, onde pegaríamos o avião de volta para o Brasil, decidimos quebrar a viagem.
      Viagem de 4:30 tranquila, um pouco mais cara que a anterior, apesar de pegarmos assentos comuns: em torno de 370 pesos para cada.
      Pegamos um AirBnb que consideramos a nossa melhor estadia de todos os tempos! O apartamento da Graciela tem sala conjugada com a cozinha, banheiro e quarto, num preço surpreendente! Hoje está R$83 a diária, o que ainda é um ótimo preço, mas na época pagamos um pouco menos por sermos praticamente seus primeiros hóspedes.
      O bairro fica bem próximo ao centro comercial, porém não no meio da “confusão”, com ótimas opções de comida, mas já no fim da viagem estávamos tentando economizar, então compramos comida no mercado e comemos no apartamento.
       
      Dia 1 (27/07)
      A cidade em si também não tem lá muuuuitos atrativos turísticos, mas é um local bastante agradável e, somando ao apartamento da Graciela, nos sentimos como se estivéssemos em casa, comprando alguns vinhos e mate para rebater o frio do inverno.
       
      Tucumán foi a grande cidade da época da independência, então no primeiro dia fomos até à Casa de Tucumán, conhecida como o local onde rolou o Congresso de 1816 que oficializou a união de todas as províncias como independentes. Calhou inclusive de estarmos lá na época e no mês do bicentenário dessa data, então estavam rolando algumas atividades excepcionais. Nesse dia também aproveitamos para ir no Museo de Arte Sacro.
       

      A arte sacra pode ser muito assustadora também
       
      Também foi o único dia que fomos a um restaurante, por isso escolhemos a dedo (mentira, entramos no primeiro que pareceu legal). Definitivamente o El Portal foi uma das empanadas mais gostosas que comemos na viagem toda, feita em forno a lenha e na hora, além do aspecto do local, super rústico e “roceiro”; vale a pena separar um tempo pra passar lá!
       
      Dia 2 (28/07)
      No dia seguinte começamos bem lento, tanto que nem nos preocupamos em acordar cedo para não esbarrar com a siesta. Passeamos calmamente pela cidade, aproveitando inclusive que nunca tínhamos ido à um Cassino (decepcionante! rs), além de um passeio pelo parque e pelo Museo de la Industria Azucarera que fica no Parque 9 de Julio. Esse museu é pra gente lembrar que Argentina não é só gado e mate, tem presença forte dos engenhos de cana por essa região.
       

      Além disso tudo, a cidade tem lindos pés de mandarinas/tangerinas por todo lado!
       
      Terminamos o dia no Museo Folklorico Provincial, local bem simples mas com uma sala dedicada à Mercedes Sosa, cantante tucumana que adoramos e tivemos uma surpresa agradável com essa exposição.
       
      Aqui também é um bom lugar pra comprar regalos. O doce de leite tucumano é muito bom, eles tem cuias lindíssimas de mate e o alfajor de miel de caña, especialidade da cidade, é particularmente muito bom!
       

      Mas estávamos já bem lento nessa etapa da viagem, querendo descanso e mate quente
       

      Ni una menos!
       
      [busão - El Practico] Tucumán/ARG até Cordoba/ARG (dia 29/07)
      O último trecho de ônibus fizemos pela Companhia El Practico. Por ser a última perna, quisemos ir de Executivo, com mais conforto; foram 7 horas de viagem por aproximadamente 830 pesos por pessoa. Novamente, viajamos sem muitos sobressaltos uma estrada bastante tranquila.
      Como já estivemos em Córdoba uma vez, escolhemos o certeiro apê do Federico, que tem cozinha, quarto e banheiro e é super arrumadinho! O apartamento fica no bairo do Guemes, pertíssimo do centro, porém marcado pela vida noturna, barzinhos e shows pra todo lado.
      Quando chegamos estava rolando uma feirinha de artesanías na praça ao lado do apartamento e, apesar da canseira da viagem, descemos para jantar e demos uma volta por ali!
       
      Córdoba/ARG (dias 29/07 a 31/07)
      Dia 1 (30/07)
      Ficamos um dia em Córdoba, que é uma cidade agitada, mas com seu charme bucólico, por ter diversas igrejas do período colonial e jesuítico; pra quem curte é um prato cheio! Como já conhecíamos os arredores (para mais detalhes, ver nosso rolê de 2015), decidimos pegar fazer o passeio do Tren de las Sierras que tem como destino final uma cidadadezinha chamada Cosquin. A cidade em si é bem pequena e não tem muitos atrativos, mas a viagem vale pela paisagem do caminho sendo o grande astro o trem.
       

      Paisagem do caminho para Cosquin!
       
      Saímos bem de manhãzinha (pegamos o primeiro trem) e voltamos ainda a tempo de uma última empanada. Como conhecíamos a cidade, já tínhamos destino certo: a Empanaderia La Alameda. A empanada de lá é simplesmente divina e, acompanhado com um jarro de Fernet-Cola (que é um insulto ir à Córdoba e não tomar rs) foi “até logo” perfeito para essa cidade que ganhou nosso coração.
       

      Ambiente agradável do La Alameda
       

      Última visão das charmosas ruas de Córdoba (pelo menos nessa viagem!)
       
      [Aéreo - LATAM] Córdoba/ARG até São Paulo/SP com escala em Buenos Aires/ARG (dia 31/07)
      Hora de, infelizmente, voltar. Existiam voos diretos da LAN que faziam o trajeto Córdoba - São Paulo, mas nós encontramos voos de mesmo valor que faziam escala no Aeroparque. Buenos Aires é linda, é cosmopolita, tem belíssimas atrações turísticas, mas como diria aquele filme, “Eu só vim pela comida”! O que queríamos não estava na Calle Florida, nem no passeio na Casa Morada… estava a 20 metros da entrada do aeroporto: CHORIPAN da Costanera! O lanche tradicional é vendido no trailer em frente do aeroporto e é um pão com linguiça e no balcão ficam disponíveis tigelas com chimichurri, pimentas, molho de queijo, cebola… sim, fizemos escala na cidade só pra passar numa barraquinha de comida. ¡Che, no tengo remordimientos! Porém, o Aeroparque estava sob forte neblina e o avião foi pro Ezeiza, do outro lado da cidade. Mas tínhamos umas 4 horas de sobra, então deu tudo certo (e sim, comemos nosso choripán!), voltando de barriga cheia e felizes!
       

      E um último "até logo" pra costanera cinza enquanto nos empanturrávamos com o Choripán!
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