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Rumo ao camp 3 (Cólera)

Com toda a situação, atrasamos muito pra sair. Já eram 14:30 quando começamos a subir. Mas o clima estava ótimo, e o trecho até o acampamento Cólera não era o mais longo. Os meninos dividiram a barraca entre eles, e deixei pra trás alguns itens que achava que seriam importantes, como a garrafa térmica, mas preferi reduzir o peso, com medo de ter o problema do dia anterior. Andre foi na frente, eu e Philipp atrás. Ele mais devagar hoje, porque estava com mais peso que eu. Esse caminho era o mais bonito até então, com vista pra uma imensidão de picos nevados.

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Um passo de cada vez, fomos subindo devagar, deixando o corpo aclimatar àquela altitude. Em algum ponto desse trecho alcancei a maior altitude em que já havia pisado, que até então era o cume do Nevado Pisco (5.752 m). Fiquei empolgada por estar me sentindo ótima :D . O caminho ia ficando mais íngreme, e com partes de gelo duro. Fiquei aliviada de estar calçando os crampons, embora fosse possível vencer esse trecho sem eles.

Avistamos o acampamento Berlim, que fica uns 50 metros verticais (ou menos) abaixo do Cólera. Lá há alguns refúgios de madeira semidestruídos. O acampamento é hoje pouco utilizado para ataque ao cume, principalmente por dificuldades para coletar neve limpa pra derreter, devido ao acúmulo de dejetos no passado. O acampamento Cólera, a 5.970 metros de altitude, é maior e mais plano que Berlim, porém um pouco mais exposto aos fortes ventos. Depois de vê-lo, me pareceu mesmo a melhor opção.

No final, talvez a uns vinte metros de chegar a Cólera, há uma corda de aço fixa pra evitar acidentes devido à inclinação, ao gelo, e às pedras soltas. Imagino que foi colocada principalmente por causa dos porteadores, que fazem constantemente esse trajeto com cargas quase absurdas nas costas.

 

Chegamos por volta de 17:30. Andre já tinha escolhido um lugar e estava começando a derreter neve. Montamos a barraca e fui encher o saco de neve pra continuar o processo. Fim de tarde lindo. A vista do outro lado da montanha, que pela primeira vez podíamos ver, revelava um mar de montanhas coloridas em tons de marrom, rosa e avermelhado. Valia a pena ir ao “banheiro” só pra ver a vista por trás das pedras que garantiam a privacidade. Falando em banheiro, acho que esse era o mais exposto a ventos... nada divertido.

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Nesse acampamento fica o Refúgio Elena, doado pela mãe da italiana de mesmo nome, que faleceu na tragédia de 2009. O refúgio deve ser utilizado apenas em casos de emergência, de acordo com regras estabelecidas pelo parque. O espaço interno é divido em dois compartimentos, sendo o primeiro dotado de um rádio para contato com os guarda-parques (frequência VHF 142.800 mhz). Após contato e avaliação da situação, é dada ou não a autorização para abrir a porta trancada do segundo compartimento. Se o refúgio for usado sem ser confirmada a situação de emergência, uma multa será cobrada. A partir do momento em que se utiliza o refúgio, se entende e se aceita que a tentativa de cume está cancelada, mesmo que sua situação melhore depois. O custo de conserto e reposição de itens utilizados no refúgio será cobrado da pessoa que fez uso. Parece que o primeiro compartimento tem sido utilizado também por porteadores e guarda-parques para manter alguns equipamentos.

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Algumas nuvens “baixas” passando, e a preocupação batendo... Nossa janela pra tentar o cume era de um único dia, já que a previsão era de começar a nevar por volta das 16 hs e de aumentarem os ventos, iniciando mais uma possível semana inteira de tempo ruim. Por volta das 22 hs, com muita ansiedade, tentamos dormir, com o despertador marcado pra 02:45. O plano era sair às 04:30. Demorei pra pegar no sono... mais por euforia do que pelos efeitos da altitude. Estava muito perto do objetivo e muito curiosa sobre como seria. Como seria respirar naquele trecho, como seria olhar pra baixo lá de cima, como seria a sensação de conseguir chegar lá... Eu conseguiria mesmo? As roupas seriam suficientes pro frio? Eu saberia identificar algum sintoma sério do mal da altitude? Teria coragem de decidir voltar se fosse necessário? Provavelmente os meninos iriam mais rápido que eu... quão mais lenta eu poderia ser sem atrapalhar nosso horário de retorno ao acampamento base? E se a previsão do tempo mudasse???

O vento estava forte. E não parava. A barraca sacolejando e o horário de acordar chegando. Não tenho certeza se eu tinha dormido por uma ou duas horas... ou menos, ou mais... E o despertador tocou. O vento continuava forte, mas começamos devagar a nos preparar. Parece que a previsão do tempo estava mesmo errada, pois era pra estar praticamente sem vento nessa madrugada... :| Com essa preocupação ficamos ainda mais devagar, já entendendo que talvez tivéssemos que adiar o horário de saída. Peguei meu miojo pra preparar, mas o Andre insistiu que eu precisava de mais calorias e me deu um dos seus pratos liofilizados. Era um macarrão com bacon e um caldo gorduroso delicioso. Lembro bem da sensação de mastigar e sentir o gosto bom de bacon a 6 mil metros de altitude depois de tantos dias na montanha. Eterna gratidão! Nos hidratamos, enchemos as garrafas com água morna, preparamos as mochilas (água, barrinhas de cereal, sachês de gel de carboidrato, biscoito recheado, lanterna reserva, remédios pra altitude...). Os liners das botas duplas dormiram comigo no saco de dormir pro calor secar o suor do dia anterior. Mas ao conferir vi que em vez de secar tinha congelado. Raspei com as unhas a camada de gelo que tinha se formado por dentro, mas não adiantou muito. Se pudesse voltar atrás, teria colocado um saco plástico por cima das meias durante o percurso Nido - Cólera pra não passar umidade pro liner nesse dia crucial. Colocamos aquecedores químicos nos pés e nas mãos. Vestimos todas aquelas camadas de roupa. E as botas duplas, gaiters e crampons. Manteiga de cacau na boca e no nariz. Balaclava, gorro, óculos e câmera. Olhei no relógio: 05:25. O céu ainda negro, bastante estrelado, mas as cores começavam a aparecer no horizonte leste.

Tirei umas fotos e coloquei as mittens. Malditas mittens. Não consigo fazer nada com aquilo nas mãos. Até pegar o bastão fica difícil... Imagina pra comer, beber água, ajeitar a balaclava... Não vai ser fácil, pensei...

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05:25 am. Dia 29 de dezembro de 2016.

Ataque ao cume

Comecei a subir na frente, me sentindo bem, e Andre logo me alcançou. Como já tínhamos combinado, ele subiria mais rápido porque estava  preocupado com o risco de frostbite, pois vinha sentindo muito frio nos pés. Confirmou se eu iria esperar o Philipp, que vinha mais atrás, e eu disse que sim. “Lembrem de comer de hora em hora, marca no relógio, de hora em hora! espero vocês no cume!” e sumiu montanha acima naquela velocidade absurda dele.

O vento tinha finalmente acalmado e, apesar de estar fazendo entre -25 e -30 graus ::Cold:: , não parecia tão frio assim. Acho que as roupas estavam funcionando bem. Mas eu estava sentindo o frio nas mãos e nos pés... Em uma das mãos o aquecedor químico funcionou, conforme eu fazia o movimento de abrir e fechar os dedos, sentia o calorzinho. A mão que segurava o bastão ficava mais fria, então eu revezava. Nos pés os aquecedores não funcionaram...

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Às 6 hs o sol começou a clarear o cenário. Lindo demais. A partir daí, já não sei dizer de qual ponto a vista era mais espetacular. Não dá pra afirmar que a vista no cume é mais bonita que a de qualquer momento em que eu olhava ao redor nesse trajeto. As sombras, as cores, o jogo de luzes no céu, os reflexos do sol dourando os picos no horizonte. Difícil saber o que tirava mais o fôlego, a altitude ou a beleza daquilo. Se eu não conseguisse chegar ao cume, toda a empreitada já teria valido (e muito) a pena pra estar ali. E a cada passo eu estava mais perto do cume, mais feliz... e sentindo mais o frio. ::Cold::::Cold::::Cold::

Pra tirar fotos, comer ou beber água, eu precisava parar e tirar as mittens. Quando tirava, mesmo com as outras camadas de luvas, as mãos gelavam rápido. Então fazia uma coisa de cada vez. Bebia água, colocava as mittens de volta e andava mais um pouco até as mãos reaquecerem. Parava. Tirava as mittens e pegava algo pra comer. E assim por diante. Nessas pequenas paradas, os pés gelavam também. Sentia o frio na parte de cima dos pés como se estivesse ventando neles, embora isso fosse impossível com a carcaça da bota dupla e ainda os gaiters por cima.

Ainda na primeira parte do trajeto, por volta das 06:30, o momento mais mágico: olho pra trás e vejo um triângulo se desenhando no céu, crescendo de cima pra baixo próximo à linha que separava a faixa azul do laranja cor de fogo no horizonte. Era a sombra do Gigante projetada a oeste por centenas de quilômetros, cruzando a fronteira com o Chile e se estendendo sobre o Pacífico. Um jeito interessante de se ter noção da imensidão do Sentinela. E aí a gente se sente tão pequenininho... e o coração bate mais forte com a adrenalina de estar ali fazendo parte daquela montanha, fazendo parte daquela imensidão. Nos minutos seguintes, a sombra foi ficando maior e mais nítida. Naquela hora, lembro de ter a sensação de que não havia vento, nem frio. Mas sei que a sensação era falsa e na verdade tava ventando bastante, porque a capinha da minha câmera caiu e o vento levou embora antes que eu conseguisse alcançá-la..

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Quanto mais subia, mais frio ficava. Mesmo depois que o sol nasce, continuamos na sombra gelada por horas, porque a rota normal leva ao cume por trás da crista da montanha, a noroeste. Saindo de Cólera às 05:30, só peguei sol em dois pequenos trechos onde se passa pelo topo da crista: às 6:40, apenas por alguns metros, e depois no Refúgio Independência, onde cheguei às 08:20. Depois disso, só alcancei o sol quando cheguei ao ponto chamado de “La Cueva”.

Quando parava pra esperar o Philipp, eu ficava batendo os pés no chão pra esquentar. Ele disse que estava com os pés quentinhos! (mas a bota dele era do tipo recomendado pra montanhas de 8 mil metros).

Passamos por alguns grupos guiados descendo de volta. Depois fomos saber que eles haviam desistido do cume porque “estava frio demais”. Tinham saído do acampamento às 4 horas e chegado até perto do início da Travessia, de onde decidiram retornar. Perto de chegar ao Refúgio Independência, me encontrei com os mexicanos que havíamos conhecido em Plaza de Mulas, Gustavo e Javier. Gustavo conseguiu fazer o cume no dia 19, e Javier não. Mas esperaram passar a semana de nevasca e subiram juntos novamente pra essa segunda e última tentativa de chegarem juntos ao cume. Novamente Javier não estava bem o suficiente, e principalmente por causa do frio e do risco de frostbite decidiram voltar. Tem uma subidinha íngreme ali, logo antes de chegar ao platô onde fica o refúgio, e pelo visto eu escolhi o caminho mais difícil... Quando o Gustavo me avistou subindo fez sinal pra eu contornar à direita, mas pra não ter que voltar uns metros eu segui por ali mesmo. Obrigada crampons! (porque sem eles não daria).

Nessa hora o Philipp estava ficando bem atrás, mas terminei de subir até o platô. Chegando lá, sol! Por trás de umas rochas na beira do penhasco, mais um daqueles xixis com vista extraordinária! :lol: Esperei o Philipp chegar lá. Enquanto isso, fotos, hidratar, comer...

O pequeno refúgio de madeira está bastante destruído, não serve muito pra proteger dos ventos mais. Quando se chega aí, dá impressão de já termos passado da metade do caminho, mas ainda estamos a 6.370 m (400 metros verticais vencidos, do total de 992 m a vencer nesse dia).

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Philipp chegou muito cansado, disse que não estava se sentindo bem. Não queria comer, estômago ruim. Insisti que comesse e descansamos mais uns 10 minutos. Tínhamos à frente um pequeno trecho de subida antes de passar pelo local conhecido como "Portezuelo del viento" e iniciar “la travesía del Gran Acarreo”. Eu estava me sentindo melhor que em qualquer dos trechos mais baixos da montanha, por incrível que pareça, e achava que a sensação de frio nos pés estava dentro do normal. Seguimos, Philipp dizendo pra eu não esperá-lo porque ele achava que não ia conseguir chegar, e que se eu ficasse esperando não ia conseguir também. Mas depois dele ter me esperado e ajudado muito na última subida a Nido, eu não pretendia deixá-lo pra trás.

Durante todo o trecho da travessia, o vento estava mais forte, constante, e muito gelado. Esse trecho é muito exposto. Se pisar errado, pode rolar até o acampamento base (exageros à parte rs). Em alguns pontos a neve estava bem escorregadia. Mais uma vez os crampons sendo importantes. Foi o trecho onde mais senti o frio. Bem mais que antes do sol nascer. Meu pé, debaixo das camadas de meias, bota interna, carcaça da bota dupla e gaiters, estavam gelando de uma forma incômoda. Falei pro Philipp que ia esperá-lo na próxima rocha, onde parecia estar batendo sol, mas foi só impressão, nada de sol... Esperei por ele batendo os pés no chão pra tentar esquentar. Não adiantou muito, ou eu não teria tido o problema de princípio de congelamento que tive...

Comecei a sentir que meu nariz estava ficando dormente, puxei a balaclava para cobri-lo, mas me atrapalhava a respirar, então segui tentando cobrir o nariz com a mão livre. Já podíamos avistar “La Cueva”, último ponto de descanso antes de subir a Canaleta rumo ao cume. Também costuma ser o último ponto de desistência, pois, quem não está bem ao chegar lá, não encontra uma visão muito motivadora ao olhar pro resto do caminho acima. Lá já estava batendo sol, finalmente! Avisei ao Philipp que esperaria lá no sol. E segui, tentando acelerar pra esquentar, e com isso quase levei uns tombos perigosos pisando de mau jeito com aqueles trambolhos de botas duplas e crampons nos pés.

O sol começou a passar por cima da crista e me alcançou um pouco antes de chegar à La Cueva. Chegando lá, escolhi uma pedra ao sol pra sentar e fiquei um tempinho com o rosto virado pro sol esfregando o nariz. (Depois fui saber que uma menina teve frostbite no nariz nesse mesmo dia). Passei filtro solar, bebi água, comi umas barrinhas... A vista era incrível. Bem à minha frente estava o imponente Cerro Mercedário. Uns 20 minutos depois, Philipp chegou. Descansamos por mais uns 15, enquanto eu tentei convencê-lo a continuar, mas ele estava com dor no estômago e se sentindo fraco... com medo de seguir e não estar bem o suficiente pro caminho de volta. Nós dois preocupados também com o tempo que íamos gastar a partir dali até o cume, pois tínhamos que voltar até Plaza de Mulas nesse mesmo dia ainda, plano um tanto quanto audacioso. Andre provavelmente já estava no cume. A gente não sabia por quanto tempo ele ficaria lá esperando. Nessa hora alguém nos falou que faltavam mais umas três horas até lá em cima. Philipp insistiu que não daria tempo dele chegar, considerando o jeito que ele estava se sentindo. Eu também imaginei que eu não chegaria a tempo, mas queria tentar. Philipp decidiu que realmente iria voltar dali. Iria descendo devagar e parando pra descansar e nos aguardaria em Cólera. E eu seguiria até encontrar com Andre, que provavelmente estaria descendo na próxima hora. Encontrando com ele eu desceria junto, perdendo o cume, pra não arriscar o nosso retorno. Mas as coisas acabaram acontecendo um pouco diferentes...

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Era entre 11:15 e 11:20 quando comecei a subir a canaleta. Às 13 hs eu chegaria ao cume, só 1h45m depois, em vez das 3 hs que haviam nos informado... E pra minha surpresa, Andre ainda estaria lá esperando.

A canaleta realmente é íngreme como dizem, mas creio que fica mais fácil com neve como estava, em vez de terra com pedras soltas. Um dos problemas ali foi o “engarrafamento”. Dois grupos guiados estavam à minha frente, em fila indiana, muuuuito lentos. Pra ultrapassar tem que ter muito cuidado, pra não desequilibrar ninguém, e pra não cair por pisar em pontos ruins fora da “trilha”. Uma pessoa de um desses grupos deitou no chão de repente, e parecia estar tentando ajustar seus crampons, mas estava balbuciando coisas sem nexo e não dava espaço pras pessoas passarem. Alguns ofereceram ajuda mas ele não deixava. A fila ficou parada até que o guia o alcançou pra prestar auxílio. Desceram com ele, e, pelo visto, estava com sintomas de edema cerebral, mas depois de descer ficou bem. Pouco depois encontrei com os russos (letonianos) descendo do cume. Nunca vou esquecer do sotaque engraçado do Alex me dizendo: “Andrew your friend is waiting for you on the summit, for TWO HOURS!” rss E ainda gastei 1h20m depois disso... Ele tinha chegado ao cume em incríveis quatro horas e pouco :-o , e esperou no cume por quase três horas e meia!

Depois que consegui ultrapassar esses grupos, sentei exausta numa pedra, sentindo os batimentos a mil. Tinha passado dos 6.700 m, altitude apontada por muitos como onde começa o grande desafio do Aconcágua em relação à falta de oxigênio (como se já não fosse um desafio desde o começo). E realmente, cada passo ficou mais penoso. Eu já estava me aproximando do Filo del Guanaco, crista que conecta o cume sul ao cume norte. Dali já avistava o cume e todo o percurso até lá, e podia ver que o Andre não estava descendo ainda. Tentei ir o mais rápido que pude, porque ia ser devastador ter que virar as costas pro cume estando tão perto! Acelerava cinco ou dez passos e parava pra não deixar o coração saltar pra fora. Não ouvia nada ao redor, e não pensava em nada também. Uma paz absurda e todo o meu universo focado em dar mais cinco passos. E batia aquela ansiedade de estar chegando lá. E eu já não sabia mais se o coração batia tão rápido por causa da altitude ou por causa da adrenalina ::love:: . Comecei a sentir calor, (calor!!) e guardei umas camadas de blusas na mochila, e as mittens. Mais cinco passos. Respira. Mais cinco passos. E de repente olho pra cima e vejo o Andre lá na ponta balançando os braços. Subi os últimos dez minutos o mais rápido que pude, enquanto o Andre tirava fotos do meu esforço . ::lol3::

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Olhei pra trás e vi o amontoado de nuvens cobrindo a face sul e girando em torno dela. “Temos que descer!” pensei. Dei os últimos passos, subindo por algumas rochas, e estava pisando no cume! Alegria total. Sensação de euforia e pressa. Porque a gente tinha que descer logo. E enquanto o Andre me abraçava parabenizando pelo cume eu já dizia “eu sei, temos que descer”. Andei um pouco em cima do platô, tentando aproveitar bem aqueles minutos e já tava angustiada por não poder ficar muito lá em cima kkk... Procurei o ponto mais bonito pra fazer o que tinha prometido ao Carlo e fiquei muito feliz por ter conseguido cumprir o favor.

Nessa hora percebi uma leve dorzinha de cabeça... lembrei que tinha bebido pouca água na reta final. Então bebi suco e comi umas bolachas antes de descermos. A altitude, era como se eu não sentisse mais... esqueci. Frio? Também não, não ventava quase nada nesse momento. O que eu senti lá em cima? Um grande nada e um grande tudo. Sensação de completude e de esvaziamento. Nada na mente, absolutamente nada além da felicidade de estar ali e da leve preocupação em ter que voltar. E aquela coisa da gente se sentir pequeno e grande, eu senti em outros momentos na montanha, mas não ali. Aquela sensação de liberdade e de ser invencível? Sim, um pouco... Mas predominava uma sensação de gratidão. Gratidão a seja lá quais foram as forças do universo que me permitiram ser capaz de chegar ali e de viver tudo aquilo, e gratidão gigantesca aos parceiros que foram comigo até o final (Philipp e Andre), e aos que estavam no início (Carlo, Greison e Zaney). Essa sensação de gratidão foi muito forte.

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E depois de dezoito dias na montanha pra chegar até ali, e ficar só por quinze minutos, não dá pra dizer que o cume é o mais importante, porque não é.

 

... E começamos a descer. Olhando a canaleta de cima pra baixo, parece ainda mais íngreme, e cansa bastante pra descer, com as pernas tremendo tentando firmar a cada passo. Ainda tinha gente subindo, que tinha começado mais tarde, o que pareceu boa ideia já que a previsão do tempo, no fim das contas, estava meio errada, e não nevou a partir das 16 hs como previsto. Pra nós de qualquer forma não havia essa opção, pois não daria tempo de voltar ao acampamento base se não tivéssemos começado a subir de madrugada.

Meus olhos estavam ardendo. Acho que os óculos não estavam suficientes. Coloquei o boné por cima do gorro pra ajudar a bloquear a claridade. Nessa hora já estava ventando mais, e algumas vezes tive que correr atrás do boné que voou da minha cabeça. Meus crampons, que na subida funcionaram perfeitamente, começaram a acumular neve embaixo, pois estava mais pegajosa, virando quase uma segunda bota. Péssimo de andar e perigoso, porque ele perde a função de agarrar ao chão. Alcançamos os russos uma meia hora antes de chegarmos em Cólera. Estavam bem cansados.

Quando chegamos no acampamento Cólera, minhas pernas já quase não estavam respondendo mais. Philipp estava na barraca descansando, e já se sentia melhor. Acabou descendo muito devagar e fazia pouco tempo que tinha chegado também. Tirei os crampons, abrimos a porta da barraca e deitamos com as pernas pra fora pra não precisar tirar as botas. A gente precisava comer. Andre comeu meu miojo que tinha sobrado. Comi o resto das barrinhas, bananinhas e sachês de açúcar. Andre queria mudar o plano e dormir ali essa noite, mas a gente não podia, do contrário o Philipp perderia o voo. Com um pouquinho de insistência, decidimos descansar uma meia hora e descer. Andre conseguiu um pouco de água com um grupo que iria ficar, pra gente não ter que gastar tempo derretendo neve. Desmontamos acampamento e descemos. Os russos, que tinham decidido dormir em Cólera, mudaram de ideia e desceriam em seguida também. Vimos mais três pessoas descendo à nossa frente depois que passamos de Nido. Todos os outros grupos ficariam em Cólera descansando aquela noite.

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As nuvens estavam subindo e tudo ficando encoberto ao redor. Não dava pra enxergar mais que 15 metros à frente. Mas a gente sabia a direção. Entre tombos e escorregões, chegamos a Nido. Enquanto o Philipp desmontou sua barraca, guardei como pude as coisas que tinha deixado ali, ficando muitas coisas penduradas pra fora da mochila. Separei as coisas que íamos tentar deixar com os guarda-parques pra não ter que carregar (principalmente comida e gás que tinham sobrado). Aceitaram tudo e nos parabenizaram pelo cume. Verificamos com eles a previsão do tempo e realmente tinha mudado. Só ia nevar no outro dia. Nos alertaram pra tomar cuidado na descida pelo caminho direto porque o gelo estava duro e liso. Os guarda-parques também nos deram notícias do Zaney, que estava bem e que por precaução tinha sido evacuado de helicóptero até a entrada do parque.

Quando saímos de Nido já eram quase 19:20 (eu só sei todos esses horários porque ficaram registrados nas fotos rs). Essa próxima parte da descida inicia com pouca inclinação, mas depois fica bem íngreme. A mochila agora tava muito pesada, e eu muito cansada, mas lembro de comentar que estava tranquilo. As nuvens tinham ficado acima de nós, e pra baixo estava limpo, visibilidade total.

O bom das nuvens acima foi que amenizou o reflexo do sol na neve... depois desse longo dia, meus olhos já estavam castigados. Deveria ter investido em óculos melhores. A temperatura estava ok, e tínhamos claridade até quase 22:00 (2,5 hs pra chegar até Plaza de Mulas então).

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Quando o caminho começou a ficar mais íngreme e os passos mais lentos pra não escorregar no gelo, o cansaço bateu de vez. Cada passo era uma tortura, e o sol baixando... Maior mistura de felicidade e exaustão que já senti. O peso da mochila e a inclinação faziam muita pressão sobre as pontas dos pés, principalmente por causa das botas duplas duras. Tudo que eu queria era arrancar aquilo, mas teria que carregá-las, e gastaria um tempo pra conseguir prendê-las na mochila. Além disso, nessa hora meus pés tavam molhados de suor, e ficariam gelados nas botas normais. Quanto mais descia, mais doía, e mais longe parecia. E eu ainda não fazia a menor ideia de que tinha pré-congelado os dedos naquele dia. O trecho entre o acampamento Canadá e Mulas estava péssimo, levei vários tombos de bunda deslizando no gelo. No fim tava tão exausta e com dor que tava prestes a sentar e chorar, mas não ia resolver nada né... Já tava praticamente escuro quando chegamos no trecho dos penitentes, e ainda caí uma última vez com o isolante térmico agarrando entre dois deles. Mais uns cinco ou dez minutos e chegamos à barraca, já totalmente no escuro. Suponho, então, que era pouco antes das 22:00.

Arranquei fora as botas duplas e calcei um par de meias secas confortáveis e os meus chinelos. Passei o resto da noite mancando de dor. Fui até a tenda da Lanko pra avisar que íamos embora no dia seguinte e pra ver como tinha ficado a situação da mula que a gente tinha contratado, se o Zaney tinha usado metade ou não... No helicóptero só podem ser levados seis quilos de pertences com a pessoa. Ele tinha deixado a bolsa com as coisas dele na tenda da Lanko pra eu levar pra ele. O problema que surgiu foi que a gente tinha que ter avisado até as 17 hs pra garantir a mula pro dia seguinte. Como não avisamos, só dava pra ter certeza se teria a mula no outro dia de manhã quando os muleiros chegassem :| .

Enquanto o Philipp estancava o sangue do seu nariz, que tinha começado a sangrar nessa hora, tomei um “banho” de lenço umedecido e troquei parcialmente de roupa pra me sentir no clima de comemoração kkk, e fomos pra tenda verde comer a pizza prometida pelo Andre. Deliciosa, mas a melhor parte da noite foi voltar pra barraca e entrar no saco de dormir pras merecidas e insuficientes horas de sono, já que a gente planejou levantar cedo pra organizar tudo pra partida. Dormi torcendo que aquela dor nos dedos melhorasse até de manhã.

A noite passou num piscar de olhos. Acordamos e começamos a desmontar acampamento e organizar as coisas. Levamos os sacos com lixo para a Lanko, e confirmamos que poderíamos usar a mula. Em seguida fomos aos guarda-parques entregar os sacos vermelhos com os cocôs ::lol4:: e fazer o check out. Eles carimbam nosso permiso, indicam um tonel onde devemos jogar os sacos, e nos perguntam se fizemos cume, creio que para as estatísticas extraoficiais.

As comidas, gás e outros itens que tinham sobrado no acampamento base, doamos à APA (Asociación Porteadores Aconcagua), como uma pequena forma de retribuir pela festa de natal. Aceitaram inclusive a panela toda entortada que eu tinha usado pra quebrar neve/gelo pra derreter.

Como o Carlo e o Greison tiveram que levar suas coisas quando decidiram ir embora, a mula que contratamos para dividir por quatro estava com espaço/peso sobrando, e deu pra colocar quase todas as coisas do Philipp e Andre também, pra podermos acelerar o passo no caminho de volta. O que não coube dividimos entre nós três.

Aqueles últimos 28 quilômetros

Sexta-feira, 30 de dezembro de 2016. Nosso último dia no Aconcágua. Saímos de Plaza de Mulas por volta das 11:50. Tempo aberto, vento razoável. Quase sem peso, seguimos rápido, mas as pequenas subidas ainda roubavam o fôlego. Meus pés estavam doendo menos, tranquilo pra andar. O objetivo era chegar até as 18 hs na saída do parque. Passamos a Playa Chica com facilidade, e a Playa Ancha foi tão interminável quanto na ida. Com o vento soprando contra nós e eu com alguns vários quilos perdidos, tava tendo que fazer mais força que o normal pra andar pra frente. Mas o caminho tava lindo. Sem os quase 20 kg da ida nas costas, dá pra olhar mais ao redor e admirar a grandiosidade daquelas montanhas negras, marrons e coloridas.

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Atravessar o rio tava mais complicado, o nível da água tinha subido bastante com as nevascas das semanas anteriores. Em um dos trechos, já no fim da Playa Ancha, tive que tirar as botas e entrar na água barrenta do rio Horcones pra passar. Molhar os pés não foi a melhor coisa nessa hora, favoreceu as bolhas que não tinham surgido até então.

Antes de chegar a Confluência tem a descida pra atravessar a ponte, e depois a subida até o acampamento. Que subidinha malvada naquele momento de fim de forças. Chegamos ao acampamento e paramos por uns dez minutos pra comer, ir ao banheiro e encher as garrafas de água pro resto do caminho.

No trecho entre Confluência e Horcones, passamos por vários grupos que iam fazer o trekking até Plaza Francia ou Plaza de Mulas e alguns iniciando a expedição ao cume. Num clima bastante diferente de quando entramos, eles vestiam roupas de verão. Os dias que vinham adiante prometiam ser bem mais amenos que os da nossa longa aventura. Olhando pra trás agora, eu não trocaria o que passamos por uma opção menos sofrida e com menos desafios, porque talvez seria também menos incrível e recompensadora. No fim, foi tudo perfeito, e eu não trocaria nada. Na verdade, queria ter passado um pouco mais de frio, saindo mais vezes da barraca de madrugada pra olhar o céu. Queria ter sofrido um pouco mais saindo do saco de dormir antes do sol nascer pra ver a montanha amanhecer. Na próxima, vou me esforçar pra “sofrer” um pouco mais.

Chegando a Horcones, encontramos com Ravi, e soubemos porque não o vimos no dia do cume. Ele havia saído de Cólera antes das 4 hs, e abortou a subida por causa do frio, voltando pouco antes de nós começarmos a subir..

Era pouco depois de 18 hs. Com algumas informações divergentes, ficamos em dúvida se a portaria principal, que fica mais abaixo, estava ou não aberta. Então apresentamos o papel do check out ali mesmo, destacaram o canhoto e nos liberaram, sem nenhuma formalidade. Teoricamente, o permiso vale por 20 dias. O do Philipp já havia expirado dois dias antes, mas nem olharam isso. Entraram em contato com a Lanko para avisar que a gente estava ali, e em uma meia hora chegaram pra nos buscar. Ravi foi com a gente. Paramos em Puente del Inca, onde corri até o hostel/refúgio El Nico para pegar a mochilinha que eu tinha deixado guardada lá. Queria dar as boas notícias ao Cesar e agradecer pelos conselhos, mas ele não estava. Seguimos para Los Penitentes, onde pegamos nossas coisas trazidas pelas mulas. Ali pegaríamos o ônibus Buttini para Mendoza às 20 hs. Da oficina da Lanko até o ponto de ônibus tínhamos que andar uns 300 ou 400 metros e atravessar a rodovia. Tivemos que fazer duas viagens cada pra levar toda a bagagem, incluindo a do Zaney. Quando pegamos esse ônibus na vinda, como embarcamos na rodoviária em Mendoza, pediram “propina” (gorjeta) por causa do excesso de peso no bagageiro do ônibus. Na volta, na pressa pra embarcar todo mundo rápido e não demorar parados na estrada, não pediram nada. Pagamos pelo ônibus ali mesmo ao entrar, não é necessário comprar passagem antes.

Já sentada no ônibus, aquela sensação de alívio. Agora podia dormir naquelas próximas quatro horas de viagem, mas quem diz que eu conseguia com tanta coisa passando na cabeça? O ônibus fez uma parada pra lanche, onde comprei uma merecida coca-cola pra repor a glicose gasta no dia. E o resto do caminho foi cheio de flashs dos últimos 19 dias passando na memória...

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