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rafael_santiago

Trekking Shivalaya-Namche Bazar (Nepal) - out/18

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Ponte Larja e o lindo Rio Dudh Koshi

Início: Shivalaya
Final: Namche Bazar
Duração: 7 dias
Maior altitude: 3536m no Passo Lamjura La
Menor altitude: 1504m na ponte junto à confluência dos rios Dudh Koshi e Deku
Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de 600m a 1000m diários, ultrapassando os 3000m de altitude.
Permissões: entrada do Gaurishankar Conservation Area Project (Rs 3000 = US$ 26,04), entrada do Parque Nacional Sagarmatha  (Rs 3000 = US$ 26,04) e permissão local que substituiu o TIMS card para a região do Everest (Rs 2000 = US$17,36).

Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.

O trekking Shivalaya-Namche Bazar é a primeira parte de uma caminhada de 23 dias que foi de Shivalaya até o Campo Base do Everest e percorreu dois dos três passos de montanha que levam a Gokyo. A segunda parte está descrita aqui e a terceira parte aqui. A escolha de Shivalaya como ponto inicial teve vários motivos: 1. é o percurso histórico de conquista do Everest pelo neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o nepalês Tenzing Norgay (1914-1986) em 1953, 2. para evitar o caro e arriscado voo Kathmandu-Lukla (além disso um voo que é cancelado frequentemente por causa do tempo instável em Lukla) 3. conhecer o lado menos turístico e mais autêntico do trekking do Everest.

Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.

No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".

As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados ao longo deste trekking são:
. Shivalaya: NTC
. Bhandar: NTC, NCell
. Sete: NTC, NCell
. Junbesi: NTC
. Nunthala: NTC
. Bupsa: NTC
. Cheplung: NCell
. Namche Bazar: NCell

O cartão pré-pago de wifi Nepal Airlink funciona de Junbesi a Kharte, e em Phaplu. O cartão pré-pago Everest Link promete funcionar em toda a região do Everest desde Lukla até o Campo Base. Não testei nenhum dos dois porque não sabia da existência e já havia comprado o chip da operadora NCell em Kathmandu. Mais informações no "Pequeno guia". 

Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).

Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente. 

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Monastério Pema Namding, em Kharikhola

23/10/18 - ônibus de Kathmandu a Shivalaya

No dia anterior (22/10) eu havia ido ao horrível e sujo terminal de ônibus do Ratna Park para comprar a passagem para Shivalaya. Na verdade havia tentado comprar com mais antecedência ainda mas não quiseram me vender, somente no dia anterior mesmo. 

Nesse dia o ônibus partiu às 8h com vários lugares vagos mas nas paradas seguintes já começou a encher e durante a longa viagem lotou e esvaziou muitas vezes. Por volta de 10h50 houve uma parada para almoço e a partir daí a estrada passou a ser de terra com muitos buracos, pedras e poeira. Felizmente a estrada não era tão estreita e com abismos como na viagem entre Kathmandu e Syabrubesi (relato aqui), mas o ônibus pulava do mesmo jeito e era preciso tomar cuidado para não bater a cabeça no teto. Foi uma viagem horrível também, muito cansativa pelas condições da "estrada" e pelo tempo muito longo chacoalhando dentro do ônibus: 11h20 para percorrer apenas 215km!!! 

O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo.

Os únicos estrangeiros no ônibus além de mim foram um casal francês que subiu numa cidade do caminho e desceu em Jiri. Ele colocou tampões no ouvido para não escutar a trilha sonora nepalesa no último volume. Às 18h10 passamos por Jiri, já de noite (anoiteceu por volta de 17h40), e ainda rodamos mais 1h10 até Shivalaya no escuro, o que foi ainda mais emocionante pois o ônibus pulava o tempo todo e não era possível ver as ribanceiras onde a minha viagem poderia terminar. 

Às 19h20 saltei desse ônibus em Shivalaya, recoloquei minha coluna e minha bacia no lugar e saí procurando uma hospedagem. No Amadablam Lodge, um dos primeiros da vila, o dono estava na frente e me chamou. Pelo cansaço que eu estava aceitei os Rs200 (US$1,73) que ele pediu sem pensar em negociar o quarto de graça. 

Recomendo esse lodge pois toda a família era muito simpática. Conversei bastante com o dono (que fala bem inglês), que me disse que a vila foi arrasada nos terremotos de 2015 e eles tiveram de morar por 3 meses em barracas até a reconstrução do lugar. Quase todas as casas que eu estava vendo ali eram novas e todas reconstruídas em madeira.

O banheiro ficava fora da casa e era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Um tambor com água e uma caneca servem para dar a descarga e para a higiene deles já que não usam papel higiênico. 

Altitude em Shivalaya: 1782m
Preço do dal bhat: Rs 300

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Vila de Shivalaya, início do trekking

1º DIA - 24/10/18 - de Shivalaya a Bhandar

Duração: 4h50 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2709m
Menor altitude: 1782m
Resumo: nesse dia subi por uma serra alongada na direção leste-oeste, inicialmente pela crista e em seguida pela vertente sul até a cabeceira do vale na vila de Deurali (2709m). Em seguida desci a encosta oposta, a leste, até o povoado de Bhandar, a caminho do vale do Rio Likhu.

Quando amanheceu é que pude ver melhor como era simpática a vila de Shivalaya. O lodge estava localizado num largo cercado de sobradinhos de madeira coloridos e com sacada.

Saí do lodge às 8h56 subindo a rua de volta até a entrada do vilarejo. Ali continuei em frente (esquerda) pois à direita está a estrada por onde cheguei de ônibus na noite anterior. Porém dei poucos passos e fui parado pelo guarda do checkpoint do Gaurishankar Conservation Area Project. Eu não havia ido ao Tourist Service Center em Kathmandu para obter a permissão desse parque, então paguei ali na hora, aparentemente pelo mesmo preço (Rs 3000, US$ 26,04). Só mostrei o passaporte, não necessita foto. 

Às 9h10 continuei pela mesma rua, que fez uma curva para a esquerda. Logo após a ponte segui para a direita, mas poucos passos depois abandonei essa rua e entrei num beco à esquerda. Logo estava caminhando por uma trilha e iniciando meu longo percurso em direção ao Everest. E também já surgiram as primeiras escadarias. Parei alguns minutos para tirar a blusa e passar protetor solar. À medida que subia ia se ampliando a visão da vila de Shivalaya encaixada no vale do Rio Khimti e cercada de morros bem verdes. Às 10h13 a trilha cruzou uma estrada e segui a placa de Deurali, subindo mais degraus. Comecei a notar fitas cor-de-laranja sinalizando a trilha. Isso me ajudou bastante em alguns pontos de dúvida mas depois soube que eram para uma competição, não eram mantidas permanentemente. Ou seja, a gente paga US$26 para caminhar por um parque que só existe no papel e que praticamente não tem sinalização...

Às 10h19 cruzei a estrada de novo com uma placa de Deurali apontando a trilha que subiu até uma antena. Logo cruzei a mesma estrada e continuei seguindo as fitas laranja e a placa de Deurali. Às 10h34 quis cruzar a estrada novamente e subir a trilha na encosta mas estava errado - dessa vez deveria tomar a estrada mesmo, subindo à direita por 215m para em seguida entrar numa outra trilha na encosta à esquerda. Mais acima segui as fitas e subi a trilha à direita na direção de uma casa no alto. Passei pelo Sushila Lodge e às 10h54 pela escola de Sangbadanda. Cruzei a mesma estrada mas 45m depois passei a caminhar por ela para a direita, com placa e fita sinalizando. Nesse momento estava deixando a crista dessa serra e passando a percorrer a vertente sul dela.

Caminhei pela estrada por 745m e antes que ela fizesse uma curva fechada para a esquerda abandonei-a em favor de uma trilha descendo à direita junto a uma casa, às 11h13. Dali iria caminhar por trilha até Deurali, na cabeceira do vale, passando por cinco pontos de água (parei em um deles para comer alguma coisa). Na única bifurcação, às 11h48, fui à esquerda seguindo a fita laranja. Subi até cruzar uma estrada às 13h05 e cair nessa mesma estrada 4 minutos depois, indo para a esquerda e chegando à vila de Deurali (2709m). Fui à direita na bifurcação e passei pelas extensos muros de pedras mani no centro do vilarejo. Há três lodges ali e um deles anuncia "edifício resistente a terremoto". O Lama Guest House vende queijo de iaque: 100g por Rs 150 (US$1,30), o melhor preço que encontrei (o mesmo de Ringmo, três dias depois). Havia já muitas nuvens nessa hora, mas com céu limpo seria possível ver o Passo Lamjura La, 16km a leste (onde passaria no 3º dia).

Cruzei a vila sem fazer nenhuma parada e imediatamente comecei a descer a encosta oposta, a leste, em direção ao povoado de Bhandar. A parte mais alta dessa encosta está toda rasgada por uma sinuosa e poeirenta estrada de terra, mas felizmente há uma trilha que desce mais diretamente. Nos primeiros 4 minutos de descida a partir da vila não notei uma trilha abaixo à esquerda e continuei em frente, mas vi que as fitas haviam sumido e na dúvida voltei. Só então vi que a outra trilha abaixo tinha fitas e a tomei. Pelos próximos 34 minutos cruzei a estrada sinuosa e caminhei por ela o mínimo possível, tomando todas as trilhas/atalhos que encontrei. Depois continuei descendo pela trilha, que passou por diversas casas aqui e ali.

Às 14h39 cruzei duas vezes uma estrada que fazia uma curva fechada à minha esquerda. Às 14h45 a trilha terminou num final de estrada com um monastério à esquerda que parei para fotografar. Na estrada fui para a esquerda e passei pelo primeiro lodge de Bhandar, o Shobha Lodge, às 14h54. Ainda desci mais por uma trilha para ver se havia outras opções de hospedagem mas não encontrei. No caminho de volta ao primeiro lodge conheci um casal da Hungria, Zita e Daniel, e eles estavam indo procurar outro lodge ainda mais abaixo ou talvez seguir para a próxima vila (distante ainda 3h, onde deveriam chegar no começo da noite). 

Eu voltei ao Shobha Lodge e negociei com a dona o valor do quarto: acertamos por Rs100 (US$0,87) se eu fizesse as refeições ali mesmo. O banheiro ficava dentro da casa e era no estilo oriental. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar. No quarto havia tomada para carregar as baterias (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?). Nessa noite comecei a minha rotina noturna diária de filtrar pelo menos 1,5 litro de água com o filtro Sawyer e depois ferver com o meu fogareiro para beber no dia seguinte.

Nessa noite se hospedaram dois casais franceses muito simpáticos com seu guia, carregadores e até um professor de ioga. Eles não iam para o Everest, iam na verdade subir o Pikey Peak, uma montanha de 4065m de altitude de onde se avistam Everest, Lhotse, Thamserku, Kangtega e muitas outras montanhas.

Essa vila de Bhandar é o ponto final de um ônibus que sai diariamente do terminal do Ratna Park em Kathmandu às 5h30.

Altitude em Bhandar: 2204m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 260

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Um agricultor no meio da plantação de cardamomo

2º DIA - 25/10/18 - de Bhandar a Sete

Duração: 5h45 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2516m
Menor altitude: 1576m
Resumo: nesse dia continuo a descida até o vale do Rio Likhu e inicio a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte. Minha direção foi basicamente leste.

Depois da aula de ioga dos simpáticos franceses, saímos juntos do lodge às 8h45. Porém eles iam subir o Pikey Peak, então iríamos caminhar apenas algum tempo juntos. Mas valeu a pena pois eles eram muito curiosos e interessados em tudo o que viam, e perguntavam tudo ao guia. Eu aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre plantas, construções budistas, etc. 

Saímos do lodge descendo na direção leste e cruzamos uma estrada de terra. Passamos por várias pequenas plantações, inclusive de chá, e por um muro de pedras mani. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas e rodar as rodas mani sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum".

Cruzamos outra estrada, passamos pelas casas da parte baixa de Bhandar e fomos à direita numa bifurcação com placa apontando Kinza (Kinja). Descemos até uma ponte e a cruzamos às 9h20. Passamos a caminhar por uma encosta íngreme com o grande vale do Rio Likhu à nossa direita cada vez mais profundo. Às 9h54 passamos por uma pequena cachoeira à esquerda e 13 minutos depois paramos para fotos numa cachoeira ainda maior e mais bonita. Apenas 100m depois abandonamos o caminho mais largo e entramos numa trilha à direita, ainda sinalizada com as fitas laranja que havia seguido no dia anterior. Descemos bastante e às 10h39, numa outra bifurcação com placa apontando Kinza à esquerda, os franceses desceram à direita para ir ao Pikey Peak e eu fui à esquerda, seguindo as fitas laranja ainda.

Passei por mais alguns pontos de água e às 11h43 a trilha terminou numa estrada de terra, onde fui para a esquerda (nordeste). Passei por um grupo de casas junto ao Rio Chari (menor altitude do dia: 1576m), atravessei esse rio e cruzei à direita a ponte suspensa sobre o Rio Likhu. Após essa ponte segui à esquerda acompanhando o rio e atravessei uma segunda ponte suspensa para a esquerda, mas desta vez sobre o Rio Kinja, um afluente do Likhu. Subi à direita e passei às 12h13 pelo portal de pedra da vila de Kinza (Kinja), com vários lodges. Parei no New Everest Guest House para almoçar. Às 13h retomei a caminhada, passei por mais alguns lodges e na bifurcação fui à esquerda. A trilha subiu bastante em zigue-zague com escadarias rústicas de pedra. Aqui inicio uma longa subida por uma serra alongada na direção leste-oeste que me levará ao Passo Lamjura La no dia seguinte.

Às 13h44 subi à esquerda numa bifurcação sem fita (perguntei na casa para confirmar). Às 14h19 parei para descansar num gramado à esquerda da trilha e ao lado de uma casa, mas fui surpreendido por uma inusitada chuva, a única de todo esse trekking. E não foi fraca, tive que me abrigar junto à casa e esperar. Às 15h18 prossegui e a 70m dali fui à direita numa bifurcação sem fita laranja. Às 15h32 passei pela escola de Chimbu. Mais acima passei por algumas casas e uma mulher me ofereceu haxixe! Em Kathmandu isso é bem comum mas na trilha foi a única vez. Às 16h25 a trilha terminou numa estrada de terra e fui para a direita. Caminhei apenas 100m e parei no primeiro lodge da minúscula vila de Sete, chamado Sun Rise. A simpática garota (de nome Chhotin) concordou que eu pagasse apenas as refeições e me instalei ali.

Saí para conhecer um pouco mais do lugar e encontrei o casal húngaro que conheci em Bhandar (Zita e Daniel) no outro lodge, Solukhumbu Sherpa Guide. Só dois lodges estavam funcionando no vilarejo. Nessa noite fui o único hóspede da Chhotin e sua mãe e elas fizeram questão que eu jantasse na cozinha com elas. Conversamos bastante e fiquei surpreso como a garota aprendeu inglês sem ter aulas, apenas conversando com os hóspedes. 

O banheiro ficava dentro da casa, tinha vaso sanitário mas a descarga era com caneca. Havia uma torneira fora da casa para escovar os dentes e se lavar.

Altitude em Sete: 2516m
Preço do dal bhat: Rs 495
Preço do veg chowmein: Rs 380

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Casas acima da vila de Goyam

3º DIA - 26/10/18 - de Sete a Junbesi

Duração: 7h15 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3536m
Menor altitude: 2516m
Resumo: nesse dia continuei a subida pela vertente sul de uma serra alongada na direção leste-oeste que me levou ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, o qual cruzei para descer à vila de Junbesi no vale do rio homônimo. Minha direção foi basicamente leste.

Saí do lodge às 8h40 continuando para leste. Passei pelo lodge Solukhumbu Sherpa Guide e em seguida subi à esquerda (à direita está o lodge Sherpa Guide). Subi bastante e às 10h cruzei uma estrada e continuei subindo pela trilha entre casas e plantações. Ali fui alcançado pelo Christopher, um austríaco que planejava fazer o mesmo roteiro que eu: Campo Base do Everest e Três Passos. Conversamos um pouco mas ele era bem mais rápido e logo sumiu na frente. Na bifurcação logo após as primeiras casas fui à direita seguindo a placa "way to Junbesi" e atravessei a vila de Dakchu. Havia atingido a crista dessa serra e agora a visão se ampliava para o norte também. Ao fim da vila a trilha sai numa estrada, na qual segui para a esquerda, mas apenas por 40m e entrei no caminho à esquerda que virou uma estrada também. Quando ela fez uma curva para a direita e outra para a esquerda, não notei mas havia uma trilha subindo a encosta à esquerda. Ia passando direto mas alguém me alertou. Subi a trilha e entrei na mata. Subindo, cruzei uma estrada. Com mais 50m a trilha desembocou na estrada, onde fui para a direita. Com 100m subi uma trilha na encosta à esquerda.

Às 10h51 passei pelas primeiras casas de Goyam, com dois lodges. Cruzei a estrada mais três vezes, depois caminhei por ela por 50m e entrei em outra trilha à direita que subiu a mais casas da vila de Goyam, às 11h29, onde há um lugar que vende queijo. Na estrada acima fui à direita. Mais uma vez subi a trilha à esquerda na encosta (com fita verde dessa vez). De novo saí na estrada e segui por ela à esquerda. Mais 55m e subi na trilha à esquerda na encosta. Cruzei a estrada mais três vezes e parei por meia hora para comer alguma coisa que tinha na mochila. Passei pelas ruínas de um lodge às 12h45 e 80m depois caí de novo na estrada, indo para a direita. Na curva da estrada entrei na trilha à esquerda. Na bifurcação fui à esquerda pois à direita havia uma árvore caída, mas acho que foi o pior caminho para alcançar a estrada acima, aonde fui para a esquerda. Nesse trajeto desde Dakchu entrei e saí da mata diversas vezes.

Às 13h11 finalmente a estrada terminou de vez, virou uma trilha e 500m depois cruzei um vilarejo com lodges. Subi passando por uma stupa e às 13h54 cheguei ao Passo Lamjura La, de 3536m de altitude, com muitas bandeirinhas de oração budistas. Era possível ver a vila de Deurali a oeste, onde passei no 1º dia, a 16km dali. Ao lado há um restaurante. Este é o ponto mais alto desse trekking de Shivalaya a Namche Bazar e os muitos aviões com destino a/partindo de Lukla passam numa altitude pouco acima.

Às 14h15 iniciei a descida e em 6 minutos estava entrando numa floresta de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, num lindo espetáculo. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Na descida alternaram-se trechos com algumas casas e trechos de mata (com alguns pontos de água) ao percorrer o vale do Rio Taktor, afluente do Rio Junbesi. Passei por um monastério com stupa na vila de Taktor e a trilha virou uma estrada novamente às 16h16.

Numa curva fechada da estrada para a esquerda entrei numa trilha à direita e desci, seguindo à esquerda na bifurcação 50m depois. A trilha acompanhou a curva da encosta para a esquerda e às 16h38 avistei Junbesi abaixo num bonito vale coberto de árvores com o Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Nas bifurcações a seguir fui à direita e à esquerda. Desci por escadarias de pedra, passei por um primeiro lodge ainda na descida e parei no Sherpa Guide Lodge, o primeiro na entrada do vilarejo, às 17h10. Parei ali por sugestão da sra Maya, do Lodge Sun Rise da vila de Sete. Ela disse que esse lodge era da sua irmã, mas eles costumam falar isso e nem sempre é verdade. Conversei com as donas e aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, mas "eu não devia contar isso pra ninguém". O banheiro ficava dentro da casa e tinha todos os confortos ocidentais: vaso sanitário com descarga acoplada e até lavatório, coisa muito rara!

Em Junbesi é que soube da existência do cartão pré-pago Nepal Airlink, que dá acesso ao wifi dos lodges ali e em muitos outros vilarejos (mais informações no meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal").

Altitude em Junbesi: 2704m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 360

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Stupa em Junbesi

4º DIA - 27/10/18 - de Junbesi a Nunthala

Duração: 7h25 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3058m
Menor altitude: 2206m
Resumo: nesse dia percorri, subindo e descendo de maneira mais suave, a extremidade sul de uma serra que se alonga na direção norte-sul. Após cruzar o Rio Dudhkund veio uma subida mais íngreme até o Passo Taksindu La (3058m) e depois a descida interminável até a vila de Nunthala.

Junbesi foi talvez o vilarejo mais bonito e simpático desse trajeto de 7 dias até Namche Bazar. Sua localização no verdejante vale do Rio Junbesi é privilegiada. Há uma grande e bonita stupa na praça central que rende muito boas fotos. Para quem está com tempo sobrando há diversos monastérios para visitar nas redondezas. Se houver necessidade de saída pode-se fretar um jipe ($$$) na vila para ir a Phaplu ou Salleri, onde se pode tomar outro jipe, ônibus ou mesmo avião de volta a Kathmandu.

Da porta do lodge via o cume do Pico Numbur ao norte, na direção da cabeceira do vale. Saí às 8h37 e enquanto fotografava a stupa no centro da vila apareceu o Christopher acompanhado do casal húngaro Zita e Daniel. Começamos a caminhar juntos mas na ponte metálica sobre o Rio Junbesi já nos distanciamos pois parei para tirar mais fotos. Ao cruzar a ponte, adornada com bandeirinhas de oração budistas, caminhei 60m à direita pela estrada e entrei na trilha subindo à esquerda, entrando na floresta de pinheiros. Com 50m cruzei uma estrada. Estava iniciando a subida pela vertente oeste de uma serra que se estende na direção norte-sul.

Continuei subindo, saí da mata, passei por algumas casas e reentrei na mata de pinheiros. Às 9h45 saí da mata e logo era possível ver o Passo Lamjura La a oeste, bem longe, além do bonito vale do Rio Junbesi bem abaixo. Às 10h46 alcancei a crista dessa serra. Ali uma surpresa: a primeira visão do Everest na extremidade esquerda de uma linda cadeia de montanhas que incluía também Thamserku, Kangtega, Kusumkangaru (Kusum Kanguru), Kyashar e Mera Peak. Porém todos muito distantes ainda (o Everest estava a cerca de 58km em linha reta). Reencontrei meus três amigos e gastamos um tempo tirando fotos. O local se chama Phurtyang (Phurteng) e o lodge ali não poderia ter outro nome: Everest View. A senhora vendia queijo de iaque. Às 11h09 retomei sozinho a caminhada porque os apressados já haviam ido embora. Até ali já havia passado por três pontos de água, mas dali até Ringmo passaria por mais de dez - água não faltou nesse dia! 

Caminhando agora pela vertente leste da serra, às 11h28 alcancei uma stupa que me proporcionou uma visão ainda melhor do Everest. Ao sul era possível ver também a pista do aeroporto de Phaplu, além do bonito vale do Rio Solu. Passei pela vila de Salung às 11h56 e continuei descendo. Às 12h54, junto a uma ponte, parei para comer alguma coisa que trazia na mochila. Tive a sorte de avistar e fotografar alguns macacos próximos da trilha. Na ponte seguinte começaram a aparecer as pedras mani coloridas e até embaixo da ponte suspensa que veio a seguir havia várias pedras desse tipo ao lado do Rio Dudhkund.

A partir do Rio Dudhkund (13h25) inicia a subida em direção ao Passo Taksindu La. A minha primeira parada nessa subida foi na vila de Ringmo, às 13h43, onde há uma fábrica de queijo de iaque com loja. O preço foi o melhor que encontrei (o mesmo de Deurali): Rs 150 (US$ 1,30) por 100g. Ali reencontrei Zita e Daniel. Há também um posto de saúde gratuito patrocinado por entidades da França e da Alemanha, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking.

A trilha, que até então era vazia e tranquila, passou a ter um número crescente de pessoas. Muita gente chega de ônibus, jipe ou mesmo avião a Phaplu ou Salleri e inicia a caminhada por ali. 

Retomei a caminhada às 13h58 e na subida ao Passo Taksindu La cruzei seis vezes uma estrada em zigue-zague, subindo por um caminho calçado de pedras à sombra da mata. O passo tem uma stupa, um lodge e um portal de pedras com rodas mani no interior. Altitude de 3058m. Passei por ele às 15h rapidamente porque ainda queria visitar o monastério que há na descida para Nunthala. Desci 190m e caí numa estrada, onde fui para a direita, mas andei nela apenas 40m e entrei na trilha à direita. Cheguei às primeiras casas da vila de Taksindu, onde a trilha deu uma guinada de 90º para a direita, e às 15h15 cheguei ao Monastério Takgon Seddrub Tharling. O lugar é bem grande e bonito, numa posição privilegiada com vista para as montanhas. Havia muitos monges, todos muito jovens, com suas roupas cor de vinho.

Retomei a caminhada às 15h31 saindo pelo mesmo portão por onde entrei (parece que há outras saídas). Na bifurcação fui à direita para descer por trilha (à esquerda caminharia pela estrada). Na bifurcação em T abaixo fui à direita e já pude ver Nunthala, porém muito abaixo ainda. Essa descida pareceu não ter fim, com pedras soltas e um pouco de lama, e havia bastante gente nela, inclusive três russos com quem conversei um pouco. Passei por três pontos de água e apareceu outra estrada, que primeiro tangenciei e depois cruzei, sempre procurando pelos caminhos por trilha e evitando andar na estrada. Às 16h40 cruzei uma ponte suspensa bem alta com vale bem estreito, quase um cânion, no fundo. Às 16h58 saí numa estrada, fui para a esquerda, fiz a curva para a direita e entrei noutra trilha à direita na próxima curva. Às 17h07 a trilha terminou numa estrada já na vila de Nunthala - fui para a direita e depois esquerda na bifurcação logo em seguida, descendo (havia placa de posto de saúde à direita). Para minha decepção havia carros trafegando ali.

Parei num dos primeiros lodges pois meus três amigos estavam lá, mas era bem pequeno e parecia já estar lotado. E devia haver opções bem melhores no centro da vila, mais abaixo. E havia muitas, todas vazias. Escolhi um dos últimos, o Danfe Lodge, e dei sorte pois a família era muito simpática e por ser o único hóspede jantei com eles. Eles aceitaram que eu pagasse apenas as refeições, o quarto saiu de graça. O banheiro era no estilo oriental e ficava fora da casa, um problema para ir no meio da noite. Para escovar os dentes e se lavar não havia uma torneira fora da casa, como de costume, então era preciso usar a torneira do banheiro mesmo. Havia tomada (com interruptor) no quarto para carregar as baterias pela última vez nessa caminhada.

Altitude em Nunthala: 2206m
Preço do dal bhat: Rs 350
Preço do veg chowmein: Rs 350

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Campos cultivados em Kharikhola

5º DIA - 28/10/18 - de Nunthala a Bupsa

Duração: 5h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2328m
Menor altitude: 1504m
Resumo: nesse dia a descida do Passo Taksindu La continua até o profundo vale do Rio Dudh Koshi, em seguida vem uma subida bastante desgastante até Kharikhola, uma descida bem suave até o Rio Khari e para encerrar uma subida dura até a vila de Bupsa.

Logo cedo apareceram alguns personagens que iriam ser companhia constante (e irritante) nos próximos dias durante o trekking: as tropas de mulas, que podiam chegar a grupos de 20 ou 30, para desespero dos trilheiros. Elas ocupam todo o espaço da trilha e é difícil ultrapassar o grupo todo, enquanto isso você é obrigado a respirar a poeira que elas levantam e o próprio mau cheiro delas. O tropeiro que as conduz dá gritos muito estranhos. Por mais cedo que se comece a caminhar não se consegue escapar de tê-las à frente. Ao cruzar uma tropa a recomendação é sempre ficar do lado da encosta e não da ribanceira já que uma topada com a carga de uma mula pode jogar o caminhante morro abaixo.

Com o céu limpo da manhã pude avistar da frente do lodge o Pico Kusumkangaru (Kusum Kanguru), muito bonito e imponente, a nordeste.

Saí do lodge às 8h46 inicialmente na direção nordeste e continuei minha descida. Às 9h03 fui à esquerda na bifurcação em frente a uma casa, descendo. Às 9h19 fui à esquerda em outra bifurcação pois havia uma fita verde mas tanto faz. Cruzei três pontes de concreto e depois uma estrada junto a um lodge. Saí na mesma estrada, mas andei apenas 20m por ela para a direita e entrei na trilha à esquerda. Novamente cruzei a estrada. Às 10h23 entrei na mata e desci por ela até a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, com a vila de Chhirdi cerca de 100m antes.

A essa altura eu já havia reencontrado os três russos com quem conversara no dia anterior, mas caminhamos pouco tempo juntos. Tivemos que esperar as mulas passarem pela ponte para atravessá-la, às 11h01. Dela se avista a confluência dos rios Dudh Koshi e Deku do lado esquerdo. Esse foi meu primeiro contato com o Rio Dudh Koshi, um dos principais rios da região, que acompanharei durante todo o trekking a Namche Bazar e depois a Gokyo, onde ele se origina. A altitude aqui é a mais baixa de todo esse percurso de Shivalaya a Namche Bazar, 1504m. E logo em seguida inicia a longa e cansativa subida até Kharikhola e seu monastério.

Nessa subida, às 11h19 alcancei a pequena vila de Juving, com vários lodges. Subi mais e logo após o Quiet View Lodge, num local chamado Chyokha, subi uma escadaria à direita seguindo a fita verde. Subi rápido tentando escapar das mulas que já se aproximavam. Mas ao cruzar com outra tropa, uma mula desembestada e desgarrada da fila esbarrou na minha mochila, sem eu ter por onde escapar, quase me jogando ao chão. Às 12h33 finalmente cheguei ao alto, ao pé da escadaria para o monastério Pema Namding. Ali estavam Zita e Daniel. Deixei a mochila no chautaara (local de descanso dos carregadores) e subi até a stupa e mais um pouco até o monastério. Dali se avista a vila de Kharikhola a leste. O casal húngaro preparou uma sopinha rápida com o fogareiro, eu preferi comer algo mais substancioso no Hill Top Guest House ali ao lado. 

Às 13h45, quando estava de saída, chegaram os três russos bastante cansados. Atravessei a vila de Kharikhola, bem extensa e com bastante comércio, com casas espalhadas desde o monastério até próximo da ponte suspensa sobre o Rio Khari. O Lodge Namaste oferece aulas de culinária e línguas (nepalês e sherpa). Fiquei interessado nas aulas de culinária... Cruzei a ponte suspensa do Rio Khari às 14h22 e veio a subida final até Bupsa, aonde cheguei às 15h18. Encontrei Zita e Daniel em frente ao Hotel Yellow Top e entrei para negociar o preço do quarto, que ficou de graça, só pagando as refeições.

O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada. Para escovar os dentes havia uma torneira no quintal da frente. Já deu para perceber que escovar os dentes e se lavar é um ato público e não privado no Nepal.

Saí para conhecer a vila e visitar a gompa (monastério) de 1892. Mais tarde, já anoitecendo, chegaram os três russos e se hospedaram ali também. Nessa noite Daniel tratou a minha água do dia seguinte com o Steripen dele - apenas 90 segundos para purificar 1 litro de água!

Altitude em Bupsa: 2328m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 330

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Vale do Rio Dudh Koshi com Lukla à direita e o Pico Khumbila ao fundo

6º DIA - 29/10/18 - de Bupsa a Cheplung

Duração: 7h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2876m
Menor altitude: 2301m
Resumo: nesse dia tomo finalmente a direção norte que me levará a Namche Bazar (no dia seguinte) pelo vale do Rio Dudh Koshi. Nesse dia caminho somente pela margem leste do vale (no dia seguinte cruzaria o rio quatro vezes), subindo até 2876m, descendo em seguida até 2301m na ponte de Surkhe e subindo novamente à vila de Cheplung (2687m).

Saí do lodge às 7h inicialmente na direção nordeste seguindo o caminho pisoteado pelas mulas. Às 7h28 cruzei uma ponte de madeira sobre o Rio Kanre e às 7h41 alcancei a vila de Kanre (Kare), com lodges. Subindo mais, após o Sonam Lodge há bandeirinhas e lenços marcando o Passo Khari La, porém a medição do ponto mais alto do dia pelo meu gps foi quase 1km à frente, após a vila de Thamdada. Passei por Thamdada às 8h37 e pelo ponto mais alto, de 2876m, às 8h46. Dali a visão é espetacular nas direções noroeste e norte, onde estão diversas montanhas nevadas, entre elas o Karyolung (esq) e o Cho Oyu (dir).

Às 9h30 cruzei uma ponte de madeira, em seguida uma ponte metálica sobre o Rio Paiya e logo cheguei à vila de Paiya (Puiya, Puyan, Poyan), com lodges e posto de saúde. Às 10h37 passei pela vila de Chhaubas, também com lodges, onde o Pico Karyolung domina a paisagem a noroeste. A visão do profundo vale do Rio Dudh Koshi à esquerda (sudoeste) vai ficando cada vez mais impressionante. Às 10h56, num mirante espetacular para a parte norte do Rio Dudh Koshi, tive a primeira visão de Lukla, com aviõezinhos pousando e decolando sem parar. Ao fundo, na direção de Namche Bazar, surge o imponente Pico Khumbila. A noroeste está o Karyolung e a nordeste se destaca o Kusumkangaru (Kusum Kanguru).

Desci bastante e às 12h22 cruzei uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Surkhe, chegando à vila de Surkhe, onde parei para almoçar. Às 13h12 retomei a caminhada e às 13h28 cheguei a uma bifurcação com um muro de pedras mani e placa: à direita a escadaria que sobe para Lukla, à esquerda o caminho para Namche Bazar, para onde segui, cruzando a ponte. Às 13h46 cruzei uma ponte suspensa muito alta com cachoeiras formadas pelo Rio Handi à direita. Às 14h04 cruzei outra ponte de ferro com várias pedras mani bem grandes. Nesse momento estava exatamente abaixo da pista do aeroporto de Lukla. Às 14h24, na pequena vila de Musey (Mushe) conheci os muros de pedras mani com uma cobertura de cor vermelha em forma de telhadinho.

Às 14h41 alcancei a vila de Chaurikharka, com vários lodges, muitos muros de pedras mani e três grandes stupas. Ali comecei a notar construções mais bonitas e bem acabadas, sinal de que estava entrando numa zona mais "turística". Parei para descansar e às 15h03 voltei a caminhar. Ali havia sinal da NCell, depois de 3 dias tentando sem sucesso, e pude mandar notícias para casa. Às 15h28 alcancei enfim a vila de Cheplung e a trilha principal que vai de Lukla a Namche Bazar. E já me espantei com o intenso trânsito de trilheiros para cima e para baixo.

Termina aqui a primeira etapa dessa caminhada. Fiz em seis dias o que 99% dos trilheiros faz em 30 minutos de avião, mas valeu a pena cada paisagem, cada ladeira, cada família nepalesa que conheci e cada amigo novo que fiz, mesmo sendo passageiro. A partir daqui entraria no comboio de caminhantes, mulas e iaques em direção a Namche Bazar e depois o Everest. Porém, para manter os relatos de forma mais organizada, vou relatar ainda aqui a chegada até Namche Bazar e aos 3000m de altitude. 

Exatamente na confluência das duas trilhas (a trilha pela qual cheguei e a trilha que vai de Lukla a Namche) simpatizei com o Lodge Sherpa Home & Kitchen. Conversei com a simpática garota e o quarto sairia de graça, bem como a carga das baterias. O banheiro era no estilo oriental, mas dentro da casa. Para escovar os dentes usava uma mangueira no quintal do fundo.

Aproveitei ainda as duas horas de luz e fui conhecer o monastério da vila, bem no alto, incrustado no paredão de pedra. Saí do lodge na direção de Namche e logo após a ponte de concreto subi a escadaria de pedras à direita. Subi bastante e a trilha foi estreitando e sendo tomada pela vegetação, mas estava no caminho certo. Alcancei uma trilha mais larga acima e fui à direita na bifurcação já vendo o monastério logo acima. É impressionante a construção embutida numa enorme cavidade do grande paredão rochoso. Há ainda uma stupa, uma grande roda mani, todos os elementos de um monastério budista, além de uma bonita vista do vilarejo. Levei 14 minutos para subir a ele a partir do lodge e voltei por outro caminho, indo à direita na bifurcação logo abaixo, mas a trilha é mais confusa e mais longa. 

Mais tarde no lodge apareceram Zita e Daniel e resolveram se hospedar ali também. Só nós três de hóspedes nessa noite e pudemos conversar com a garota sobre muitos assuntos do cotidiano deles ali. Ela nos mostrou seus livros e cadernos escolares. Morava com a sua tia nesse lodge e nos contou histórias terríveis de rejeição e comércio de meninas pela família, além do problema sério do alcoolismo.

Altitude em Cheplung: 2687m
Preço do dal bhat: Rs 400
Preço do veg chowmein: Rs 300

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Vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo

7º DIA - 30/10/18 - de Cheplung a Namche Bazar

Duração: 6h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3430m
Menor altitude: 2551m
Resumo: nesse dia continuei percorrendo o vale do Rio Dudh Koshi sem grandes desníveis, mas após atravessar a famosa Ponte Larja (onde o vale desse rio vira um cânion) a subida final até Namche Bazar é longa e cansativa.

Saí do lodge às 7h12 no sentido nordeste e continuei no caminho principal após a ponte de concreto (à direita a trilha/escadaria sobe para o monastério). De cara já percebi duas coisas bem diferentes do trekking que vinha fazendo até aqui: o grande fluxo de pessoas (como já disse) e o caminho bem mais largo (para comportar o número de pessoas que passam).

Cruzei uma ponte suspensa sobre um deslizamento enorme, a ponte metálica sobre o Rio Thado Koshi (menor altitude do dia:  2551m) e cheguei às 7h51 à vila de Thadokoshi. Às 8h05 passei pela vila de Ghat (Yulning) com um bonito monastério de paredes vermelhas (como a maioria deles) e várias pedras mani. Às 8h22 passei pela vila de Chhuthawa. Às 8h37 ignorei uma ponte suspensa à esquerda e continuei em frente, entrando na vila de Phakding 3 minutos depois. Às 8h52 cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, que divide a vila de Phakding, contornei os lodges pela esquerda e fui à direita na bifurcação em T. Estava agora na margem oeste desse rio.

Às 9h14 passei por Zamphute, com lodges. Em seguida cruzei uma ponte de concreto sobre o Rio Ghatte (ou Rio Nagbuwa) e às 9h26 passei pela vila de Toktok. Uns 5 minutos depois passei por uma cachoeira à esquerda com três quedas sucessivas. Às 9h39 subi à esquerda na bifurcação e logo avistava a vila de Benkar com o Pico Thamserku ao fundo, numa paisagem de cartão-postal. Às 9h55 cruzei uma ponte de concreto com uma cachoeira de duas quedas sucessivas à esquerda onde alguns iaques carregados queriam parar para beber água. Subi um pouco e na descida já estava entrando na vila de Benkar. Às 10h12 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi retornando à margem leste, onde volto a visualizar o Pico Khumbila ao norte. Às 10h30 passei pela vila de Chumoa. 

Cruzei a ponte de ferro do transparente Rio Monjo e subi cerca de 130m até um checkpoint na entrada da vila de Monjo. Parei ali às 10h40 para pagar a permissão local (substituto do TIMS card para o Everest) no valor de Rs 2000 (US$17,36). Cerca de 400m à frente, depois de cruzar toda a vila de Monjo (com diversos lodges), parei às 11h03 na entrada do Parque Nacional Sagarmatha para pagar a permissão. Entrei na fila demorada e paguei os Rs3000 (US$26,04). Essa permissão pode ser obtida no Tourist Service Center, em Kathmandu, e somente apresentada aqui, num procedimento bem mais rápido. Às 11h32 me livrei dos pagamentos e, ao cruzar um portal budista, pude enfim pôr os pés nesse lugar tão aguardado: o parque nacional que abriga as maiores montanhas do mundo!

No horizonte ainda se destaca o Pico Khumbila. Desci bastante e às 11h42 cruzei uma ponte suspensa sobre o Rio Dudh Koshi, para a margem oeste de novo, e fui para a direita. Às 11h52 passei pela vila de Jorsale com os restaurantes todos lotados pois é o último vilarejo antes da longa subida a Namche Bazar. Mais à frente todos tivemos de esperar os iaques cruzarem a ponte suspensa Tawa sobre o Rio Dudh Koshi para poder atravessá-la. De volta à margem leste parei numa escadaria para comer alguma coisa que tinha na mochila e às 12h13 segui à esquerda pela trilha, acompanhando o rio, não subindo a escadaria.

Às 12h47 parei próximo à confluência dos rios Dudh Koshi e Bhote Koshi, junto com muitas outras pessoas, para tirar fotos da famosa Ponte Larja, uma ponte dupla que aparece no filme Everest (de 2015). A ponte de baixo está desativada, todos passam pela ponte de cima, repleta de bandeirinhas de oração budistas. Ambas se estendem sobre o Rio Dudh Koshi, de águas azuladas. A linda cor do rio completava o cenário quase irreal das duas pontes muito altas na entrada do cânion. Um dos momentos mais emocionantes dessa caminhada!

Dali da margem foi uma boa subida até a ponte de cima. Mas depois de cruzá-la, às 13h02, é que vem o aclive de verdade, saindo dos 2970m e subindo sem trégua até os 3430m do centro de Namche Bazar.  No caminho há banheiros e um checkpoint pelo qual passei direto. Felizmente toda a subida é feita na sombra da floresta. Quando cruzei a Ponte Larja voltei à margem oeste do Rio Dudh Koshi e oficialmente entrei na região conhecida como Khumbu. Na chegada a Namche, às 14h03, me deparei com uma grande escadaria subindo à direita e a trilha continuando à esquerda. Na dúvida fui para a esquerda (cada caminho aqui leva a uma parte diferente da vila). Fiz uma curva para a direita e lá estava diante dos meus olhos um lugar quase mítico para mim: Namche Bazar, com suas casas de 3 ou 4 andares dispostas em forma de ferradura ao longo da encosta da montanha. Visão inacreditável, principalmente depois de 7 dias de caminhada. Parei para contemplar aquela visão, descansar um pouco e me emocionar com aquele momento.

Passei pelo portal budista e comecei a subir pela ladeira de acesso ao centro, com várias rodas mani bem grandes à direita movidas a água. Uma vez no centro comecei a subir as ladeiras de pedra pensando para que lado procurar hospedagem quando ouvi alguém me chamar: era o Christopher, o austríaco. Ele me indicou o lodge onde estava, de nome Shangri La Guest House, e fui para lá. A dona aceitou que eu pagasse somente as refeições, o lugar era bom, mas depois não gostei de algumas coisas e não recomendo esse lodge. O banheiro ficava dentro da casa e tinha vaso sanitário com descarga acoplada, ainda lavatório com espelho, era muito luxo! Mas houve algumas decepções como: é um lodge que trabalha com grupos grandes e no refeitório só dão atenção para esses grupos; foi o único lugar no Nepal onde acrescentaram 13% de imposto à conta final. Para completar, somente no café da manhã do dia seguinte é que a dona me falou que eu não poderia dormir mais uma noite ali porque havia reservas de grupos. Tive de arrumar a mochila correndo e deixar guardada para procurar outro lugar para ficar quando voltasse da caminhada de aclimatação no final do dia. 

Altitude em Namche Bazar: 3430m
Preço do dal bhat: Rs 650
Preço do veg chowmein: Rs 500

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Cachoeira na entrada da vila de Benkar

Informações adicionais:

Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.

Horários de ônibus:

. Kathmandu-Jiri-Shivalaya: 6h e 8h 
São 10h10 de viagem (para 197km) até Jiri e 11h20 de viagem (para 215km) até Shivalaya
Em Kathmandu os ônibus saem do imundo terminal do Ratna Park
Preço: Rs760 (US$6,60) até Shivalaya

. Kathmandu-Bhandar: 5h30 (único horário)
Em Kathmandu os ônibus saem também do horroroso terminal do Ratna Park

Melhor mapa: Jiri to Everest Base Camp, 1:50.000, editora Himalayan MapHouse/Nepa Maps, código NE521, encontrado facilmente nas livrarias de Kathmandu (Rs500 = US$4,34). Site: himalayan-maphouse.com.

 

Rafael Santiago
novembro/2018
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

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