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Caminho dos Vuriloches, um trekking pela história (Argentina/Chile) - fev/20


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Cerro Tronador visto do início da travessia em Pampa Linda

Início: Pampa Linda (Argentina)
Final: Ralun (Chile)
Distância: 66,2km (mais 11,2km ida e volta ao Refugio Viejo del Tronador)
Duração: 6 dias
Maior altitude: 1414m no Paso Vuriloche (2278m no Refugio Viejo del Tronador, opcional)
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira e acampamento selvagem. A maior subida tem desnível de 562m, com a subida ao Refugio Viejo del Tronador mais 966m. Se realizada ao contrário o desnível positivo é de 1191m (do Rio Conchas ao Paso Vuriloche). A grande dificuldade é de orientação já que não existe sinalização no lado chileno (embora seja área do Parque Nacional Vicente Perez Rosales) e em muitos pontos há mais de um caminho, causando dúvida. Também há vários rios a cruzar sem ponte.

O Caminho dos Vuriloches (ou Ruta de los Jesuítas) é um caminho histórico das missões jesuíticas dos séculos 17 e 18. Vuriloche é o nome dos primeiros povoadores da região do Nahuel Huapi no século 16. Conheciam muito bem os diversos passos da Cordilheira dos Andes, principalmente um que os comunicava diretamente com o mar, o Paso Vuriloche. Ao longo dos séculos esse caminho foi abandonado, procurado incessantemente, redescoberto pelos jesuítas no século 18, abandonado novamente e só redescoberto em sua totalidade no final do século 19.

Os relatos que li no planejamento dessa travessia pouco conhecida me deixaram um pouco apreensivo com relação à travessia dos rios sem ponte. Várias pessoas dizendo que eram muitos rios, a toda hora tinha um rio para cruzar, que era preciso muita atenção ao ponto certo da travessia, blá blá blá. Ok, sempre é preciso ter muita cautela, principalmente em lugares remotos, mas a verdade é que não são dezenas de rios e sim 7 (sete) rios que se cruzam a vau. Na maioria a água estava na altura da canela e em apenas dois a água chegou aos joelhos, com correnteza fraca. Claro que é preciso olhar a previsão do tempo para não fazer essa caminhada em dias de chuva. Dias muito quentes também provocam a subida dos rios pelo degelo nas montanhas. Se encontrar um rio muito cheio o melhor a fazer é esperar, talvez até o dia seguinte, por isso é preciso ter comida extra. Os Carabineros do Paso Vuriloche costumam ter informação atualizada sobre o nível dos rios dessa travessia.

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Rio Manso

1º DIA - 25/02/20 - de Pampa Linda a Carabineros de Chile (Paso Vuriloche)

Distância: 11,7km
Maior altitude: 1414m no Paso Vuriloche
Menor altitude: 852m em Pampa Linda
Resumo: nesse primeiro dia de caminhada parti de Pampa Linda em uma subida constante até o Paso Vuriloche (desnível de 562m), fronteira entre Argentina e Chile, acompanhando o curso do Rio Cauquenes. Em seguida desci até o acampamento no posto dos Carabineros de Chile (desnível negativo de 110m).

Às 8h30, em frente ao CAB (Club Andino Bariloche), tomei a van da agência Travel Light para Pampa Linda. No mesmo horário saiu a van da agência Transitando Lo Natural. Essas são as duas únicas agências que fazem esse trajeto. Não há transporte público. Percorremos toda a margem leste do lindo Lago Gutierrez e em seguida do Lago Mascardi, entrando numa estrada de rípio à direita cerca de 800m depois da Vila Mascardi. Mais 450m e paramos na portaria do Parque Nacional Nahuel Huapi para pagar a taxa de ARS400 (R$25) para estrangeiro (ARS180 para argentinos). Tive a ilusão de que já estávamos chegando a Pampa Linda, mas que nada... rodamos mais 2h por estradas poeirentas contornando as margens sul e oeste do Mascardi. Só chegamos a Pampa Linda às 11h40. Altitude de 852m.

O dia estava maravilhoso, um sol agradável e um céu sem nenhuma nuvem, e se manteria assim pelos dias seguintes da travessia. Acabou aquele tormento de chuva repentina, vento gelado, acampamento com granizo e neve das trilhas que estava fazendo em Ushuaia.

Em Pampa Linda fiz algumas coisas antes de botar o pé na trilha: peguei informações mais atualizadas no Centro de Informes, localizei os dois campings que há e perguntei os preços, confirmei que não há mercadinho nem kiosco no vilarejo e produtos básicos de comida podem ser comprados no Camping Los Vuriloches (eles chamam isso de proveeduría) e, o mais importante, fui à Gendarmeria carimbar no passaporte a minha saída da Argentina. Sem esse registro não passo nos Carabineros para entrar no Chile. 

Outra coisa importante: para fazer qualquer trilha no Parque Nacional Nahuel Huapi (bem como em outros parques argentinos) é obrigatório fazer o registro de trekking. É gratuito e pode ser feito pela internet (www.nahuelhuapi.gov.ar), na Intendência do parque nacional em Bariloche (Av San Martin, 24) ou nos postos de guardaparque.

Ainda parei numa sombra em frente à Hosteria Pampa Linda para almoçar o lanche que tinha na mochila. Deixei Pampa Linda às 12h58 no sentido oeste, mas 100m após a hosteria parei de novo para tirar fotos do majestoso Cerro Tronador, vulcão extinto e maior montanha do Parque Nacional Nahuel Huapi. Continuei pela estradinha de rípio que leva às trilhas Ventisquero Negro, Garganta del Diabo e Piedra Pérez, todas na base do Cerro Tronador, mas a abandonei para tomar outra estradinha mais estreita à esquerda 670m após a hosteria. Há um painel ali com informações sobre as trilhas nessa direção: Saltillo de las Nalcas, Cerro Volcánico e Refugio Viejo. 

Cerca de 150m depois outra bifurcação com placa onde fui para a esquerda. A estradinha termina num rio com uma ponte de dois troncos. Havia quatro carros estacionados ali. Cruzada a ponte vou na direção do Cerro Los Emparedados, uma muralha rochosa onde despenca a cachoeira Saltillo de las Nalcas. Nalca é o nome de uma planta de folhas muito grandes encontrada também no sul do Brasil.

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Saltillo de las Nalcas

Cruzo um bosque e às 13h30 atravesso uma ponte de ferro sobre o azulado Rio Manso. Reentro no bosque (para sair só no final do dia) e às 13h39 encontro uma placa apontando o Saltillo de las Nalcas em frente e o Paso Vuriloche à direita. Fui conhecer o saltillo que está a apenas 200m dali. Uma bonita clareira aos pés do Cerro Los Emparedados com a cachoeira despencando bem alto. Dá para tirar fotos atrás dela. Havia só mais um casal com uma criança e três rapazes. Fiquei bastante tempo ali, fui o último a sair às 14h24. Voltei à bifurcação da placa e entrei na trilha à esquerda (direita na vinda), cruzando uma ponte de tábua sobre o riacho que vem da cachoeira. 

A trilha está bem marcada mas com a vegetação se fechando um pouco. Há muita caña colihue (uma espécie de bambu) caída nas laterais e pedaços dela espalhados pela trilha. Às 14h56 fui à esquerda numa bifurcação com placa apontando Paso Vuriloche (da direita vem o caminho dos cavalos). Mais 400m e me aproximei do Rio Cauquenes, mas não o cruzei nesse ponto. Atravessei-o pelas pedras às 15h08 num local que gera alguma dúvida pois há trilha dos dois lados. Passei para sua margem esquerda (verdadeira). Aí inicia a subida. Parei por 23min numa pequena clareira com vista para o Arroio Cauquenes abaixo. Toda a subida até o Paso Vuriloche se dará dentro do bosque e junto ao curso do Arroio Cauquenes, cruzando-o algumas vezes (três vezes, segundo a placa no início da trilha).

Às 16h06 subi à direita na bifurcação que aponta a trilha para o Cerro Volcánico à esquerda. Cruzei com um casal, as primeiras pessoas desde a saída da cachoeira. Me alertaram para tomar cuidado com as taturanas na trilha. Passei por três pontos de água e parei no seguinte às 17h02. Passaram por mim descendo três homens com mochilas cargueiras grandes e pareciam estar com pressa. Continuando, passei por mais quatro riachos. São tantos riachos que é difícil dizer qual é o Cauquenes e qual é um pequeno afluente seu. 

À medida que subia apareciam árvores cada vez maiores, de troncos enormes. A inclinação também foi aumentando até que às 18h15 cheguei a uma bifurcação bem no Paso Vuriloche, fronteira entre Argentina e Chile. Altitude de 1414m. Os passos de montanha costumam ser lugares de visual grandioso, mas este decepciona um pouco pois está dentro do bosque, não há visual nenhum. Nessa bifurcação uma placa aponta para o Hito Vuriloche à direita e Carabineros de Chile à esquerda. Deixei a mochila e caminhei um pouco para a direita para tentar encontrar o hito (marco) de fronteira, mas depois soube que ele está a 800m de distância. 

Tomando a esquerda nessa bifurcação iniciei a descida para o posto dos Carabineros. O chamado Mallín Chileno (pântano chileno) (um belo prado alpino, segundo o guia Lonely Planet) foi aparecendo entre as árvores à direita e quando saí do bosque às 19h05 tive de atravessá-lo, mas por sorte não estava encharcado. Cruzei uma ponte de troncos e cheguei ao Recinto Carabineros de Chile às 19h14. É uma casinha de madeira pintada de verde e branco no meio de um bosque, mas ainda conserva o refúgio antigo ao lado. Quem me recebeu foram os três rapazes que estavam no Saltillo de las Nalcas! Conversando com eles já notei a grande diferença de sotaque em relação aos argentinos. 

Quem já viajou para o Chile sabe como eles são severos nos aeroportos e fronteiras com relação à entrada de alimentos frescos (frutas, legumes, carnes, sementes, laticínios, mel, etc), mas aqui não houve nada disso. Não pediram para inspecionar a minha mochila e não quiseram ver que comida eu levava.

Entreguei o passaporte para carimbo de entrada no Chile e só me devolveriam quando saísse para continuar a travessia, dois dias depois. O camping ali é gratuito e há banheiros, porém infestados de moscas. Pensei que ia ser o único a acampar ali nessa noite, mas já bem tarde chegou um casal.

Um trilheiro dormiu na casa dos Carabineros. Ele estava num grupo de quatro amigos vindo do Chile e torceu o joelho numa passada mal dada. Chegou com muita dificuldade até ali, com o joelho bem inchado, e os outros três desceram a Pampa Linda para buscar um cavalo para transportá-lo. Justamente aqueles três que passaram apressados por mim no riacho. 

Altitude de 1312m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 1,6ºC

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Refugio Viejo del Tronador

2º DIA - 26/02/20 - subida ao Refugio Viejo del Tronador

Distância: 11,2km (ida e volta)
Maior altitude: 2278m no Refugio Viejo del Tronador
Menor altitude: 1312m no posto dos Carabineros de Chile
Resumo: nesse dia encarei uma subida constante do posto dos Carabineros até o Refugio Viejo, num desnível de 966m

9h30 da manhã: 8,6ºC

Tronador, aquele que trona, que produz estrondo como trovão. Nesse caso estrondo produzido pelas constantes avalanches de seus blocos de gelo. O Cerro Tronador tem 3478m e é a montanha mais alta do Parque Nacional Nahuel Huapi. Seu cume mais alto se chama Internacional e marca a fronteira entre Argentina e Chile (há também o Cume Argentino e o Cume Chileno).

Deixei a barraca montada e saí só com a mochila de ataque às 9h50 para conhecer o refúgio antigo do Monte Tronador. Saí na direção oeste e tomei a direita na bifurcação. A trilha já inicia subindo e ainda dentro do bosque. A subida se dá toda no lado chileno em área pertencente ao Parque Nacional Vicente Perez Rosales. Às 10h10 saí do bosque de árvores altas e passei a caminhar entre arbustos. Logo o caminho começa a ficar mais pedregoso. Uns 200m depois que acabam os arbustos já é possível ver o Tronador e o refúgio, ainda minúsculo. A trilha está bem marcada e sinalizada com pircas (totens de pedra). 

Ao fazer uma curva fechada para a direita (de noroeste para nordeste) passo a caminhar por um dos contrafortes da montanha, mas cerca de 500m depois baixo para a vertente oeste desse contraforte. Ali a trilha se estreita ao cortar a encosta íngreme com queda bem alta - é bom passar com cuidado pois as pedrinhas soltas do chão não dão muita segurança. Uns 50m depois, às 11h04, começa um trecho de mais ou menos 700m de capim baixo com vários charcos. Há três pontos de água corrente nesse brejo das alturas. Depois desse capim é só pedra até o refúgio. Há mais um riacho junto a uma primeira mancha de neve ao lado da trilha. A paisagem se amplia cada vez mais, com montanhas a perder de vista. Identifiquei entre elas o Vulcão Osorno, com seu cone perfeito.

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La Ventana

Às 12h03 cheguei a um grande rochedo com um buraco e é por dentro dele que a trilha passa! A Pedra Furada do Tronador! Mas o nome que consta nos mapas é La Ventana (a janela). Uns 6min depois alcancei um grande campo de neve, o melhor ali é contorná-lo pela direita. Mas às 12h50 topei com outro campo de neve de cerca de 30m que tive de atravessar, não estava escorregadio. Uns 40m depois um campo bem maior, de uns 150m. Subi por uma trilha mais apagada entre pedras e cheguei ao Refugio Viejo às 13h03. 

O refúgio é uma construção de pedras recoberta por chapas de metal com placa do Club Andino Bariloche e data de 1938. Seu formato de arco é bem curioso. Em 2013 ele foi batizado de “Refúgio Manuel Ojeda Cancino”. Dentro há dois tablados de madeira sobrepostos onde devem dormir umas oito pessoas. Havia um livro de registro de visitantes sobre a mesa. Ao lado do refúgio está fincado o hito de fronteira. 

Nada de vento e um céu incrivelmente limpo permitiram uma visão total de toda a região. Dali é possível avistar: Cerro Catedral a leste; Pampa Linda, vale do Rio Manso e Lago Mascardi a sudeste; Laguna Rosada, Cerro Volcánico e Lagunas Cauquenes a sul-sudeste; Vulcão Calbuco a oeste. Mas o Vulcão Osorno ficou escondido pelo "ombro" do Tronador, um contraforte que aponta para o sul. A altitude ali é de 2278m, 1208m abaixo do cume do Tronador, o Pico Internacional.

Antes de ir embora desci alguns metros na direção do imenso glaciar Castaño Overo e tive a satisfação de pisar um pouquinho no gelo do Tronador. Tem água corrente ali. Há cercadinhos de pedras aqui e ali para quem quiser arriscar dormir ao ar livre. Por causa do sol e ausência de vento os tábanos estavam a todo vapor. Às 16h10 comecei a descer. Depois de cruzar os dois campos de neve mais altos encontrei um casal subindo, devia ser o que acampou essa noite nos Carabineros. Fomos os únicos que subiram ao refúgio nesse dia.

Desci pelo mesmo caminho, atravessei a pedra furada às 17h07, terminei de cruzar o trecho gramado às 18h35, passei com cuidado na parte inclinada de pedrinhas soltas e queda alta, reentrei nos arbustos, depois no bosque e às 19h55 estava de volta ao acampamento. 

Peguei de volta o passaporte com os carabineros pois sei que na Patagônia ninguém levanta da cama antes das 10h e eu pretendia sair antes disso.

Por azar um grupo de crianças e adolescentes muito barulhentos chegou para acampar nessa noite e fui obrigado a colocar protetores no ouvido para dormir porque eles foram se deitar muito tarde. 

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 2,4ºC

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Pontes destruídas no Rio Traidor

3º DIA - 27/02/20 - de Carabineros de Chile (Paso Vuriloche) ao Rio Esperanza/Casa de Letícia

Distância: 17,9km
Maior altitude: 1387m    
Menor altitude: 364m no acampamento junto ao Rio Esperanza
Resumo: apesar de esse dia ser uma longa descida em direção ao Rio Esperanza houve subidas também, algumas bastante inclinadas. Cruzei a vau o Rio Traidor (pontes destruídas) e depois caminhei pelo vale do Rio Blanco. Desnível negativo de 1023m.

9h da manhã: 6,2ºC

Desmontei acampamento e saí às 9h49 na direção oeste novamente, porém tomando a esquerda na bifurcação com as placas refúgio/Ralun e Sendero Valle Esperanza. Daqui até o final da travessia no Lago Cayutue vou caminhar dentro da área do Parque Nacional Vicente Perez Rosales.

Às 9h54 fui para a direita numa bifurcação com placa apontando dois hitos (marcos de fronteira) à esquerda. Houve alguns trechos de subida dentro do bosque. Às 11h20, numa abertura da mata para a direita avisto novamente o Tronador, nesse dia encoberto por uma nuvem enorme parecendo um chumaço de algodão - tive sorte de vê-lo no dia anterior completamente limpo. Em mais 10min saio do bosque e às 11h38 chego ao Refúgio Lomas de Huenchupan. É uma casa de tábuas com mesa de piquenique ao lado. Dentro há um tambor-aquecedor (chamam de salamandra) e um tablado superior com espaço para 5 ou 6 pessoas dormirem. Caberiam 4 ou 5 barracas ao lado. A visão para o Tronador é espetacular, com uma imensa cascata de gelo, o Glaciar Rio Blanco, que origina o rio de mesmo nome.

Continuei a caminhada às 12h22 e cruzei um riacho por troncos finos dentro de uma matinha. Logo a trilha sobe bastante a céu aberto com a vegetação baixa meio fechada e roçando a perna. Olhando para o Tronador consigo localizar o caminho que fiz no dia anterior para subir ao Refugio Viejo. 

Na descida cheguei às 13h19 ao Rio Traidor. Suas duas pontes em sequência estão destruídas. No primeiro braço do rio consegui caminhar sobre as pedras e não tirei as botas, mas no segundo não teve jeito, tive de tirá-las e entrar na água, que estava na altura da canela. Levei um par de calçados só para a travessia desses rios pois sabia que seriam vários. Levei um par de tênis bem leves para maior proteção dos pés, mas tem gente que leva crocs e outros usam meias de neoprene. 

Depois dessa manobra toda consegui sair dali às 14h05. Na subida muito empinada que se seguiu fui à direita, mas tanto faz pois os dois lados logo se encontram. Às 14h35 reentrei no bosque e às 15h é preciso atentar para a bifurcação: a direita está bem marcada e sai do bosque, mas o caminho certo é pela esquerda continuando na sombra das árvores. 

Às 15h27 entrei numa trilha à direita pois o gps apontava ali as termas Juvenal. A partir daqui aparecem fontes de águas termais (pela proximidade dos vulcões) onde foram construídas piscinas bem rústicas. Mas a trilha para essas termas Juvenal estava meio apagada... até que desapareceu no meio de árvores caídas. Insisti um pouco mais até que cheguei aos restos de uma cerca de madeira com uma árvore enorme tombada. O inverno rigoroso, com muita neve, acaba fazendo esses estragos no bosque. E as termas ficaram soterradas. 

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Casa da família Oyarzo feita com tejuelas de alerce

Voltei à trilha principal e cruzei uma ponte larga de tábuas (em estado razoável) sobre o Rio Blanco às 16h19. Com mais 5min fui à esquerda numa bifurcação por ser a trilha mais larga e saí do bosque. Caminhei ao longo de uma cerca e me dirigi a uma casa no meio de um grande campo. Cheguei a ela às 16h37. Estava vazia e trancada a cadeado. Era na verdade uma casa e mais duas casinhas feitas com tejuela de alerce, uma árvore ameaçada da região. Mais afastado havia um galpão. Esse lugar pertence à família Oyarzo, mas o antigo morador, Don Juvenal, faleceu em 2018.

Retomei a caminhada às 16h53 cruzando o campo na mesma direção (oeste) e acompanhando a cerca. Na primeira quina dela quebrei à esquerda (com seta) mas na segunda quina continuei em frente (não à esquerda de novo) na direção do bosque e entrando nele. Cruzei o Rio Blanco por uma ponte de tábuas e uma tronqueira em seguida. Começam a aparecer as valas por onde a trilha corre, valas escavadas pelos séculos de uso desses caminhos, inclusive por tropas.

Subi um pouco (70m) e às 17h35 passei por uma laje de pedra um pouco exposta com caída para a direita, mas nada assustador. Chamam esse lugar de Piedra del Buitre (pedra do abutre, decerto pelos muitos cavalos que já despencaram ali). Uns 4min depois cruzei uma porteira aberta. Na primeira água corrente que apareceu parei para me refrescar. Passei por mais duas porteiras abertas, uma ponte de tábuas em bom estado e as valas começaram a ficar mais profundas, com o solo e as plantas acima da cabeça. Surgiram os arrayanes, árvores com o tronco cor de canela mais comuns em beiras de rios e lagos. 

Numa bifurcação às 18h43 tomei a esquerda, subindo. Cruzei outra porteira, saí do bosque para um pasto e cheguei a outro sítio com vacas e cavalos às 19h12. Na casa encontrei enfim um morador dessas paragens, Jorge Sanchez, que me disse que mora ali também o sr Aroldo Alvarado. Pedi permissão para tirar foto da bonita casa de tejuelas de alerce, infelizmente um pouco mal conservada. Segui caminho reentrando na mata, cruzei mais duas porteiras e saí do bosque para um gramado às 19h49. 

Na descida avistei casas no vale e depois fumaça na direção do rio (esquerda). A primeira casa na verdade era um galpão, mais adiante no meio das árvores estava a casa de Letícia Alvarado e Enrique (não visível dali e fechada também). A fumaça que pensei vir da chaminé de outra casa na verdade era da fogueira de um grupo de amigos de Buenos Aires que estavam acampados no gramado perto do Rio Esperanza. Conversei com eles e trocamos informações sobre a travessia já que estávamos fazendo em sentidos contrários. 

Do outro lado do Rio Esperanza há uma casa também, essa dos srs Lalo e Coche Muñoz. Um grupo de 14 "chicos" (adolescentes nesse caso), dos quais o carabinero tinha me falado, dormiu essa noite ali também, por isso acampei bem longe... rs.

Esse dia tem muitos trechos a céu aberto. Recomendável usar um protetor solar. Não há problema de água, encontrei vários outros riachos além dos citados acima.

Altitude de 364m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 6ºC

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Casa da família Muñoz feita com tejuelas de alerce

4º DIA - 28/02/20 - de Rio Esperanza/Casa de Letícia a Casa de Tito Velázquez

Distância: 11,3km
Maior altitude: 367m na casa dos Muñoz
Menor altitude: 246m
Resumo: nesse dia cruzo a vau o Rio Esperanza e acompanho o Rio Blanco pela margem esquerda. Dia de pouco desnível (121m).

8h20 da manhã: 7,1ºC

A barraca amanheceu ensopada pela condensação, tive de esperar o sol chegar ao fundo do vale para secá-la antes de guardar. 

Depois fui conhecer as termas. Como não há sinalização nenhuma para chegar a elas perguntei aos portenhos. Basta seguir o rio a montante por uma trilha dentro da mata por 300m. Ela desce diretamente para uma ponte suspensa destruída com os dois tanques à direita, bem junto ao Rio Esperanza. A temperatura da água estava deliciosa, benditos vulcões! Mas o lugar é rústico de verdade, não espere piscina de azulejos. Voltei ao acampamento e ainda fui conhecer um outro tanque, este mais próximo porém menor e mais raso. Quando voltei o pessoal de Buenos Aires já tinha partido. 

Comecei a caminhar às 12h09 na direção indicada pelo gps: norte e noroeste, ou seja, descendo o Rio Esperanza por esse mesmo lado. Fui na direção do galpão por onde cheguei no dia anterior, cruzei a porteira e, ao sair no campo com vacas, encontrei a casa de Letícia Alvarado e Enrique. Estava fechada e dizem que não vivem mais aí. Continuei pela trilha ao longo de uma cerca, cruzei outra porteira e cheguei ao Rio Blanco, que tem esse nome por causa da água cinzenta de degelo. Ele se origina no Glaciar Rio Blanco, um dos oito glaciares do Cerro Tronador.

Porém esse rio é bem largo, com correnteza e a ponte estava no chão. A água cinzenta é perigosa pois não permite ver a profundidade. Esse local se chama La Junta porque a 300m dali o Rio Blanco se junta ao Rio Esperanza. Lembrei que os amigos de Buenos Aires disseram que haviam cruzado o Rio Esperanza e que não passaram pela casa de Letícia. Voltei então ao acampamento para ver como era a travessia desse rio, e é muito mais fácil. O rio é raso (bate nos joelhos) e a água é transparente, dando mais noção de profundidade. Só é preciso tomar cuidado para não escorregar nas pedras do fundo. 

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Rio Blanco

Subi até a casa dos Muñoz mas não havia ninguém, somente o cachorro tomando conta. Havia um pé de ameixas cheio de frutos mas estava bem azeda. A casa e o galpão também de tejuelas de alerce, aliás o galpão uma bela construção. Apesar da distância da civilização havia uma antena da DirecTV. Saindo dali às 13h43 tomei a trilha na direção noroeste seguindo o rio, agora pela margem esquerda. Eu não tinha essa trilha no gps mas tudo indicava que estava no caminho certo. 

Em 4min entrei no bosque e caminharia o dia todo dentro dele (portanto sem tanta necessidade de protetor solar nesse dia). Algumas janelas na mata para a direita deixam ver o cinzento Rio Blanco. Cruzei três riachos, duas porteiras, outro riacho e começaram a aparecer as valas profundas por onde a trilha corre, valas de 3m a 4m de profundidade! Nesse trecho encontrei com o sr Lalo Muñoz voltando para casa a cavalo e conversamos bastante. 

Caminhava cercado por árvores enormes, bem altas e de tronco que necessita várias pessoas para abraçar. Cheguei às 15h28 a um bonito riacho cristalino cercado de pedras brancas e parei para lanchar. Saí às 15h43. Mais dois riachos, uma porteira e percebo a vegetação mudando. Aparecem inclusive samambaias. Sinais da Selva Valdiviana. 

Às 17h09 surge uma trilha à direita com a placa: "seguir por la derecha los peatones (pedestres)". Aqui entronca a trilha que vem da margem direita do Rio Blanco, aquela que tentei fazer mas a ponte estava no chão.

Mais um riacho e topei às 18h17 com uma bifurcação com placa: Rio Blanco à direita e Ralun à esquerda. Esse caminho "Rio Blanco" desce esse rio para o norte para chegar ao Lago Todos os Santos, de onde se pode contratar um barco para Petrohué e seguir para Puerto Varas e Puerto Montt (Chile). Ou um barco na direção contrária (leste) para Peulla e voltar à Argentina. Mas o meu caminho era por terra mesmo e para Ralun, então segui para a esquerda. 

Mais um riacho, uma porteira, outro riacho e às 18h40 saio do bosque para um pasto, sinal de que se aproximava outro sítio. Passei por vacas pastando, subi levemente e avistei a casa abaixo. Cheguei a ela às 18h51. Toda de tejuelas de alerce também, mas em mau estado de conservação. Havia luz acesa, bati, esperei, mas não apareceu ninguém, deviam estar na roça. Provavelmente era a casa de Tito Velázquez (mas li em outros relatos que seria a casa de Pedro Muñoz, o que me deixou em dúvida). O sr Lalo disse que teriam queijo, por isso me interessava ainda mais encontrar alguém. Para não acampar no quintal e causar algum incômodo me afastei um pouco (pura bobagem...). Continuei o caminho, cruzei um riacho pelas pedras, passei uma porteira e encontrei um bom local para acampar antes do próximo riacho e junto a uma matinha. 

Altitude de 262m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 7,3ºC

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Laguna de los Palos

5º DIA - 29/02/20 - da Casa de Tito Velázquez ao Rio Conchas

Distância: 17,7km
Maior altitude: 359m próximo à Laguna de los Palos
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Resumo: nesse dia cruzei a vau o Rio Quitacalzones (Laguna de los Palos) e depois quatro vezes o Rio Conchas. Mais um dia de pouco desnível, com apenas uma subida mais acentuada de 66m de altura.

8h da manhã: 8,4ºC

A barraca amanheceu com o sobreteto ensopado de novo pela condensação. É uma barraca 4 estações, para montanha, por isso ocorre tanta condensação. Ainda bem que tive outro dia ensolarado para secá-la antes de arrumar a mochila. 

Quando desmontava acampamento passou um homem a cavalo na trilha na direção de Ralun. Me cumprimentou de longe. Voltei à casa para ver se havia alguém, mas aquele homem era justamente o morador. 

Quando saía para iniciar a caminhada apareceram os primeiros corredores que estavam fazendo uma prova do Lago Cayutue ao Lago Todos os Santos. Depois foi uma chateação cruzar com tanta gente correndo naquela trilha tão estreita. A sinalização de fitas vermelhas que vi no final do dia anterior era por conta dessa prova.

Saí do meu local de acampamento no sentido sudoeste às 11h25, o que se mostrou muito tarde para chegar ao Lago Cayutue ainda nesse dia. Entrei na sombra do bosque, cruzei uma porteira e saí num gramadão com vista para as montanhas às 12h29. Mais 5min e cheguei a um sítio abandonado com as casas semidestruídas. Curioso ver mesa e cama ainda dentro da casa. Ao redor pés de maçã, ameixa, cereja e castanha-portuguesa. Parei para descansar na sombra e passaram algumas pessoas a cavalo na direção contrária. 

Saí às 13h20 e cruzei um riacho por uma ponte improvisada com três troncos. Depois dele a trilha atravessou um gramado na direção sudeste. Entrei num bosque e ao sair dele às 13h35 a trilha bifurcou no pasto: à esquerda uma porteira e depois uma casa com gente (fumaça saindo da chaminé), mas achei melhor seguir pela direita, cruzei um riacho num tronquinho e ao me deparar com outra porteira não a cruzei e sim quebrei para a direita pelo campo sem trilha até que ao final dele encontrei uma trilha. Não me aproximei da casa e não soube quem mora nela.

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A trilha já se transformou em valas profundas

Cruzei uma porteira e entrei no bosque. Outra porteira e me aproximo de um rio que está à esquerda, um dos vários formadores do Rio Quitacalzones. Numa bifurcação fui à esquerda pois à direita havia um lamaçal, mas os dois lados se encontram 200m depois. O rio à minha esquerda deságua na Laguna de los Palos, mas eu começo a subir. Reaparecem as valas profundas por onde a trilha corre. E árvores enormes também. Vejo à esquerda pelas frestas da vegetação a Laguna de los Palos bem abaixo (também chamada de laguna del bosque inundado). Depois de subir 66m (de altura) a trilha desce e volta ao Rio Quitacalzones já extravasando da laguna. Às 14h39 foi a primeira vadeação (palavra feia; vado, em espanhol, é bem melhor) desse dia. Rio raso, água acima do tornozelo, correnteza fraca, portanto nenhuma preocupação (em dias sem chuvas). 

Parei na campina da margem esquerda para um lanche e depois fotos da Laguna de los Palos. Continuei às 15h35 e encontrei outro rio para vadear apenas 170m depois. Nesse caso se você estiver usando um calçado reservado para essas travessias de rio nem vale a pena tirá-los. Eu já havia calçado as botas e consegui cruzar esse rio por pedras e troncos sem precisar calçar os tênis de novo. Ufa!

Cruzei mais uma porteira (com vacas) no bosque, dois riachos e saí num gramado às 16h40. Atravessei o Rio Hueñu Hueñu pelas pedras e reentrei no bosque. Esse riacho deságua no Quitacalzones formando o Rio Conchas, o qual acompanharei e cruzarei a vau quatro vezes até o final do dia. Saí dessa mata para a direita seguindo as fitas vermelhas da prova mas reentrei nela apenas 200m depois cruzando um riacho raso às 17h11. Cruzei pastos e bosques com valas profundas cheias de barro (deve ser um terror na época de chuvas) até que às 18h15 cheguei a outro sítio, mas só vi vacas. 

Entrei em outra mata (com arrayanes) e saí dela para a direita diretamente nas pedras da margem do Rio Conchas. Caminhei quase 100m pelas pedrinhas e não estava encontrando a continuação da trilha para reentrar no bosque à esquerda. Olhei para a outra margem do rio e vi um totem. Foi a primeira de quatro travessias a vau desse rio (18h55). Água na canela e correnteza fraca. 

Reentrei na mata, agora na margem direita do rio e caminhei 1,1km até encontrar o rio de novo. Caminhei pelas pedras da margem por 80m e tirei as botas outra vez para entrar no rio, que bateu no joelho dessa vez (19h40). Aqui é melhor permanecer com o calçado reservado para água pois as travessias vão ser em sequência. Até tentei encontrar um caminho pela mata que evitaria essas duas travessias seguidas mas ele sumiu. Na margem esquerda agora cruzei outra matinha e voltei às pedras do rio. Atravessei o rio pela terceira vez (19h57) e a água chegou ao joelho. Mais 1,1km pelo bosque da margem direita e o cruzei de novo com água na canela às 20h28. Encontrei um gramadão na margem esquerda e pelo horário resolvi acampar ali.

Altitude de 223m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 10,8ºC

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Rio Conchas

6º DIA - 01/03/20 - do Rio Conchas a Ralun (Chile)

Distância: 7,6km
Maior altitude: 435m no estacionamento
Menor altitude: 223m no Rio Conchas
Resumo: nesse último dia de caminhada apareceram duas subidas: ao chegar ao leito "gramado" do Lago Cayutue subi 139m e desci tudo de novo para voltar à margem; ao deixar o Lago Cayutue subi 203m até o estacionamento no início da estrada para Ralun.

8h20 da manhã: 11,7ºC

Comecei a caminhar às 11h15. Saí do bosque para um gramado e cruzei um riacho pelas pedras. Surgiu uma casa semidestruída à esquerda com pés de cereja e castanha-portuguesa. Saí dela na direção norte mas há vários caminhos pisados. Numa sequência de bosques e pastos cheguei à extremidade leste do Lago Cayutue, mas aqui ele parece mais um gramado. Ainda faltava muito para alcançar sua área de acampamento. A trilha entrou no bosque às 12h10, fez uma curva para a esquerda e apareceu uma subida longa e inesperada. Há quem caminhe pelo "gramado", mas há o risco de encontrar um pântano ou ter de caminhar dentro da água. Frestas na mata deixavam ver o lago lá embaixo. Subi 139m.

Descendo, passei por valas muito fundas, uma porteira, um riacho e às 13h08 cheguei à margem sul do lago. Visão espetacular. Contornando o lago não deixei escapar nenhuma amora, eram as primeiras da temporada e estavam deliciosas. Passei por mais valas bem fundas e alcancei um gramadão com muito vento às 13h34. Caminhei para a direita para me reaproximar do lago e cheguei às suas margens em 7min. Lindo lago! No acampamento contei nove barracas. Fiz muito bem em parar lá no rio. Do lago se avista o Vulcão Puntiagudo ao norte. Há vários caminhos no bosque, mas a saída para a estrada é na direção sudoeste a partir do acampamento. 

Cruzei aquele gramadão e reentrei no bosque às 14h. Logo apareceu um riacho e pensei que teria de tirar as botas de novo, mas consegui me equilibrar no tronco à esquerda. Parei ali para um lanche rápido, queria chegar logo à estrada para aumentar a minha chance de carona com as pessoas voltando do lago. Seriam 10km de estrada até Ralun, bastante para ir caminhando. Além disso conseguir carona no sul do Chile é algo bem fácil. 

Saí às 14h28. Depois do riacho veio uma subida suave mas muito molhada e enlameada de quase 500m! Cruzei quatro riachos e saí da sombra do bosque. A trilha se transformou numa estradinha de pedras. Passei pelas primeiras casas e cheguei às 15h22 a um estacionamento, mas só carros 4x4 conseguem chegar ali. Subida de 203m desde a margem do lago.

Menos de 200m depois passei por uma camionete parada na estradinha e o sujeito que estava conversando com o motorista me chamou e me ofereceu carona. Caramba, carona caindo do céu assim! Ficou surpreso quando lhe disse que estava caminhando havia seis dias. 

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Lago Cayutue

A estrada nesse trecho é terrível, muitos buracos e pedras. Quase 4km descendo passamos pelo estacionamento onde carros baixos têm que parar. Mais 6,6km e chegamos à rodovia V-69, que liga Ensenada (oeste) a Caleta Puelche (leste). Eu sabia de dois campings à esquerda na rodovia mas ele quis me levar para a direita, mais próximo da ponte do Rio Petrohué. Me deixou às 16h05 no mercadinho El Fundo, 800m depois da ponte, onde eu poderia comprar comida e perguntar de camping. O mercado não tinha pão nem queijo, de lanche de trilha só tinha bolachas. 

O único lugar para acampar ali perto seria no gramado na margem do Rio Petrohué tratando com o dono do terreno na casa próxima. Não tem placa de camping nem tem nome, na frente da casa tem um letreiro escrito "Excursiones de pesca Luis". Cobram CLP4000 (R$29,63) com banheiro e wifi só na casa e sem ducha (banho no rio). Por sorte as meninas da casa fizeram pão amassado (pão caseiro chileno) para eu jantar e levar na próxima caminhada de dois dias, que seria o retorno à Argentina pelo Passo Internacional Rio Puelo (relato aqui).

Altitude de 3m.

Informações adicionais:

. para chegar ao início da trilha em Pampa Linda deve-se tomar o transporte em van das agências Transitando Lo Natural (Rua 20 de Febrero, 25) e Travel Light (Rua 20 de Febrero, 426, www.travelighturismo.com). Ambas estão muito próximas do CAB (Club Andino Bariloche) e da Intendência do Parque Nacional Nahuel Huapi, bem no centro de Bariloche. O transporte da Transitando Lo Natural sai da frente da agência e o da Travel Light sai da frente do CAB. Ambos saem às 8h30 da manhã e é recomendável comprar a passagem um dia antes. Preço em fev/20: ARS900 (R$56,25). Não há transporte público de Bariloche a Pampa Linda.

. a entrada no Parque Nacional Nahuel Huapi custa ARS400 para estrangeiro (R$25; fev/20)

. para fazer qualquer trilha no Parque Nacional Nahuel Huapi é obrigatório fazer o registro de trekking. É gratuito e pode ser feito pela internet (www.nahuelhuapi.gov.ar), na Intendência do parque nacional em Bariloche (Av San Martin, 24) ou nos postos de guardaparque.

. em Pampa Linda há dois campings: Camping Los Vuriloches: ARS550 por pessoa + ARS250 a ducha (www.campinglosvuriloches.com)
Camping Agreste Rio Manso (da Hosteria Pampa Linda): ARS300 por pessoa + ARS250 a ducha

. em Ralun acampei num gramado na margem direita do Rio Petrohué onde o dono cobra CLP4000 (R$29,63) com banheiro e wifi só na casa e sem ducha (banho no rio). O local não tem nome, deve-se tratar na casa com placa "Excursiones de pesca Luis".

. em Ralun há ônibus para Cochamó, Rio Puelo e Lago Tagua Tagua na direção leste e Puerto Varas e Puerto Montt na direção oeste

Rafael Santiago
fevereiro/2020
https://trekkingnamontanha.blogspot.com.br

 

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    • Por mcolzani
      Eu e minha esposa Magali decidimos em setembro de 2020 fazer a travessia. Começamos a planejar e nos preparar desde então. Definimos que a melhor data seria na semana santa pois seria mais fácil de conciliar férias, folga etc e ainda daria uma margem de segurança maior caso fosse necessário estender a travessia.
      Fomos com o objetivo de caminhar no mínimo 35km/dia mas tentar fazer 40km/dia, que reduziria em um dia a travessia.
      Inicialmente iríamos seguir no sentido sul (Rio Grande x Barra do Chuí), porém na semana que antecederia nosso início a previsão indicava maior incidência de vento sul e optamos em inverter, saindo da Barra do Chuí no sentido norte.
      Saímos de Itapema/SC de carro até a rodoviária de Pelotas/RS no dia 27/03 onde deixamos nosso carro e pegamos o ônibus até Chuí. Chegando em Chuí levamos 20min até conseguir um taxi para a Barra do Chuí (lá não existe Uber/99 etc).
      Pernoitamos em um Airbnb lazarento, mas enfim, a ideia era ficar bem próximo da praia para conseguir começar a caminhada cedo.
      Obs: não conseguimos sinal de celular na Barra do Chuí.
      Dia 01
      Iniciamos a caminhada as 06:00 do dia 28/03/2021 com vento sul moderado. Nossa ideia inicial era fazer uma parada a cada 10km, porém preferimos tocar direto até Hermenegildo e nos abrigar do vento.
      Foram aproximadamente 13km até essa primeira parada. Aproveitamos para comunicar os familiares.
      Trocamos as meias e seguimos a caminhada. Logo ao passar Hermenegildo começou uma chuva leve. Vestimos a capa de chuva e continuamos.
      Poucos km a frente a chuva engrossou, porém não havia local para abrigo e continuamos a caminhada por mais 5km até encontrar um barraco de pescador onde nos abrigamos por aproximadamente 1 hora até a chuva passar.
      Ao longo do dia o sol ia e vinha. 
      Como era domingo, vários moradores de Hermenegildo passavam de carro.
      Estávamos aproximadamente no KM 38, totalmente secos quando uma chuva torrencial nos atingiu. Sem possibilidade de abrigo, seguimos até completar 40km e montamos acampamento em meio as dunas (agora sem chuva).
      Nessa noite ventou pouco, porém a chuva recente e o orvalho que se formou acabou gerando um pouco de condensação no interior da barraca.
      Jantamos, cuidamos dos pés e eu percebi a primeira bolha inesperada (bolha nos mindinhos eu já esperava).
      Distância: 41km (areia fofa)
      Dia 02
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento. Eram aproximadamente 6:45 quando começamos a caminhar com as roupas e tênis molhados.
      Decidimos racionar a água para reabastecer na casa do Sr. Ricardo que possui poço e atingiríamos entre 10 e 11 horas da manhã.
      Faltando 1 km da casa do Sr. Ricardo, avistamos uma vaca deitada na beira da praia. Minha esposa achou que ela estivesse morta, mas eu percebi movimentos de orelha. Estávamos a 50mt dela quando nos observou e levantou assustada. Virou-se contra nós e avançou em nossa direção. Nesse momento tentei chamar atenção para mim e me afastei da minha esposa. Imediatamente empunhei os bastões como se isso fosse resolver alguma coisa. A vaca recuou e virou da direção da Magali quando pedi para ela ficar parada e fui até ela. A vaca ameaçou novamente e juntos erguemos os bastões lentamente até que a vaca recuou e se afastou pelo outro lado. Lentamente nos desviamos e seguimos nosso rumo. A adrenalina subiu bastante nessa hora e o susto foi enorme. Melhor que nada aconteceu e ficou apenas por isso.
      Chegamos na casa do Sr. Ricardo e chamamos por ele. Não estava, enchemos nossas garrafas e tratamos com cloro. Enquanto isso, aproveitamos a sombra para um descanso e para trocar as meias.
      Descobri uma nova bolha se formando em baixo do outro pé.
      Quando estávamos para sair chegou um veículo com 3 homens que estavam construindo uma nova casa para o Sr. Ricardo mais aos fundos (pois a atual está quase sendo tomada pelas dunas). Conversamos um pouco e seguimos nossa caminhada.
      Por ser 2a-feira, nesse dia praticamente não tivemos contato humano. Nesse dia encontramos o único caminhante que veríamos ao longo da nossa caminhada. Nos cumprimentamos, conversamos rapidamente e cada um seguiu seu destino. Nós querendo seguir e ele querendo terminar logo.
      No meio da tarde pegamos chuva novamente. Decidimos proteger os tênis com o saco que usávamos para atravessar os arroios pois não queríamos andar novamente com os pés molhados.
      Esse foi o pior dia e a pior noite, o dia todo foi um misto de "chega, vamos desistir, etc", por sorte não passou ninguém oferecendo carona. 
      Quando paramos para acampar, ventava sudoeste e então montei a barraca abrigado por dunas nesse lado. Só havia abertura pequena para o leste e foi ai que começou nossa pior noite. Já estávamos dormindo (aproveitamos 21:30) quando o vento virou leste com chuva forte.
      Vacilei ao não reforçar o estaqueamento da porta que estava exposta ao leste e aconteceu o óbvio, o speck soltou e essa lateral "caiu". Fiquei sentado encostado no bastão para a lateral ficar de pé. Quando estiou sai à procura de algo para ancorar essa porta e achei um barril cortado que coloquei sobre o speck e enchi de arreia.
      Nessa noite continuou ventando muito e chovendo diversas vezes.
      Distância: 40km (areia fofa com bem pouca área firme)
      Dia 03
      Despertador tocou as 5:00, estava chovendo e botei o soneca para + 15min. Continuava chovendo e seguimos dormindo até aproximadamente 6:15 quando parou de chover, então comemos e saímos para caminhar já eram 8:00.
      Decidimos que 30km estaria bom para esse dia.
      Seguimos +/- a ideia do dia anterior e racionamos a água para reabastecer no Farol Albardão que estava a 7-8km de distância.
      Fomos muito bem recebidos no Albardão onde bebemos água e reabastecemos todas nossas garradas. A água lá é potável, então não tratamos nem filtramos.
      Nesse dia percebemos que uma parada a cada 10km não era sustentável e decidimos parar a cada 7km. Nesse dia comecei a sentir fortes dores na junção do fêmur com o quadril e comecei a "mancar" para não estender a perna e doer mais. Assim foi praticamente até o final da travessia.
      Outro dia que tivemos pouco contato humano e com pouco vento, dessa vez sentido leste.
      Apenas no final do dia quando chegamos na área de reflorestamento que avistamos 2 caminhões saindo de uma área indo no sentido norte.
      Quase no final do dia, avistamos um morador indo recolher sua rede. Perguntamos se conhecia algum lugar bom para acampar na região querendo ouvir um "pode acampar no lado da minha casa" mas veio um "lá naquela baleia tem uma base do reflorestamento, talvez consiga lá". A tal baleia estava a uns 3-4 km e já estava começando a anoitecer. Deveríamos nos arriscar a andar toda essa distância e chegar lá de noite correndo o risco de nem achar a base? 
      Preferimos seguir mais 1km e acampar em meio as dunas altas. Dessa vez ancorei muito bem praticamente todos os lados da barraca para não ter surpresas.
      Novas bolhas para cuidar.
      Dormimos magnificamente bem. Como todas as noites anteriores, choveu bastante durante a noite.
      Distância: 35km (areia fofa)
      Dia 04
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Nesse dia acreditamos que seria difícil manter o ritmo e terminar em 6 dias. Já aceitamos que precisaríamos de 7 dias. Porém mantivemos o desejo de fazer os 35km.
      O dia foi bastante movimentado, muitos caminhões, ônibus, etc. Sabíamos que agora a água viria apenas dos arroios, porém perto das 11:00, quando devíamos ter apenas 1 litro de água, vimos um quadricíclo vindo em nossa direção. Pedi para parar e perguntei se sabia de algum ponto de água pela frente. Conversamos um pouco e o Mauro, funcionário da empresa de reflorestamento, se ofereceu para ir pegar água na base deles. Deixamos nossas 4 garrafas de 1,5lt com ele. Uma hora depois ele passou por nós e falou que deixou as garrafas em uma placa mais a frente para que não precisássemos carregar todo o peso. Caminhamos uns 2km até chegar nas garrafas, tratamos e filtramos. Ficamos absurdamente contentes, não tinha como ficar mais contente.
      Próximo das 15:00 uma caminhonete branca nos intercepta. São funcionários da empresa de reflorestamento. Conversamos um pouco e eles falam (se pedirmos) que iriam trazer água para nós quando voltassem. Ganhamos o dia e agora não tinha mais como melhorar mesmo.
      Uma hora depois passa outra caminhonete igual (também da empresa) e pergunta se queremos algo (água, comida, fruta etc). Respondo que aceitamos qualquer coisa, mas principalmente água. Ele diz que na volta trará algo para nós.
      Continuamos a caminhada e com o sol de pondo resolvemos achar um local para acampar. Enquanto montava a barraca a esposa ficava nas dunas de olho se vinha alguma caminhonete.
      Quando terminei de montar a barraca, avistei um veículo vindo e como já estava escuro sinalizei com a lanterna.
      Dois santos que caíram do céu. Nos trouxeram 4 litros de água tratada e gelada (com pedaços de gelo ainda). Não só isso, trouxeram duas marmitas e frutas. Estávamos nos sentindo reis.
      Só então percebemos que montávamos acampamento praticamente na entrada de uma base deles e nos falaram que o movimento de caminhões ali seria a noite toda pois a operação deles é 24hrs. Nos ofereceram ficar em um alojamento vago.
      Agora certamente não tinha como melhorar. Decidimos aceitar o convite pois o local onde estávamos era de dunas baixas e o vento provavelmente iria incomodar. Caminhamos quase 2km até chegar na base e nos deparamos com o inimaginável, além de tudo que já tinham nos oferecido, poderíamos tomar um banho quente em chuveiro a gás.
      Nossa energia se renovou absurdamente nessa noite. Decidimos dormir uma hora a mais nessa noite pois não precisaríamos arrumar muita coisa pela manhã.
      Agradecemos ao pessoal que nos recebeu e principalmente ao Rodrigo (encarregado). Pegamos seu contato para agradecer novamente quando concluíssemos.
      Nesse dia outras bolhas surgiram e algumas antigas começavam a parar de incomodar.
      Distância: 42km (enfim, areia firme)
      Dia 05
      Despertador tocou as 6:00, comemos, organizamos as coisas, reabastecemos nossa água, nos despedimos do pessoal e começamos a caminhada.
      Pela distância percorrida no dia anterior, decidimos que esse dia seria de luxo, 35km bastaria.
      Saímos dá área do reflorestamento e começamos a avistar as torres geradoras de energia eólica. Que visão horrível. Você começa a enxergar elas a 20-25km de distância, então caminha, caminha, caminha e caminha ainda mais e nunca chega.
      Esse dia foi um dia caminhando olhando apenas para baixo, pois era desmotivador. Esse foi o 1o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      O vento estava moderado a forte no sentido leste, o que fez com que a maré estivesse acima do normal, nos forçando a subir para areia fofa em vários momentos.
      Ao final do dia, chegamos em um trecho de dunas baixas e já bateu aquela sensação ruim para achar um local bom para acampar. 
      Nós não queríamos ter que andar 500-700 metros para chegar nas árvores, querendo ou não é uma distância que pode fazer a diferença e em terreno ruim.
      Atravessamos o primeiro grande arroio e achamos um ponto menos exposto. Ancorei bem a barraca e dormimos igual reis.
      Distância: 38km (alternando entre areia firme e fofa)
      Dia 06
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Esse seria o primeiro dia para captar água nos arroios. Estávamos com 1 litro de água e a esperança era conseguir água com quem passasse, afinal era feriado e teríamos movimento. Passou o primeiro carro e nada de água. Logo chegamos a outro arroio grande e decidimos captar água ali e garantir. Pegamos 4,5 litros, tratamos e filtramos.
      Esse dia estava puxado, o vento resolveu querer dificultar e virou norte moderado. Foi o dia todo contra o vento, mas nada nos seguraria. Muitos arroios pela frente, já estávamos exaustos de colocar e tirar a sacola nos pés, mas assim o fizemos durante todo o dia.
      No 4o ou 5o arroio a Magali não olhou bem o terreno e entrou em uma arreia movediça, ficando com os 2 pés enterrados até acima do tênis. Falei para não tentar sair, fui até ela e puxei ela pela cargueira. Saiu fácil mas encharcou os pés e os tênis.
      Andamos, andamos, andamos e a quilometragem não andava. Parecida que estávamos em uma esteira, andava sem sair do lugar.
      Dia bem movimentado, carros, motos, ônibus, bicicletas e o primeiro cachorro de toda travessia. Esse foi o 2o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      Enfim chegamos a praia do Cassino, mas ainda tínhamos 13 km pela frente. Parece que foi a parte mais longa da travessia. A praia estava muito movimentada devido ao feriado. Às 16:30, enfim, chegamos aos molhes. Ficamos sem reação, apenas sentamos e aproveitamos o momento.
      Decidimos pegar um Uber até Pelotas e retornar direto para casa.
      Distância: 34km (areia firme)
      Distância total: 230,74 km

      Equipamentos que levamos:
      Murilo Magali Se alguém querer, posso passar também a relação dos alimentos levados.
      Tracklog
       

    • Por Tadeu Pereira
      Trilha Saco das Bananas ou Trilha das 10 Praias Desertas - Caraguatatuba x Ubatuba - SP 
      Praias: Praia da Tabatinga, Praia da Figueira, Praia da Ponta Aguda, Praia da Lagoa, Praia do Simão, Praia Saco das Bananas, Praia da Raposa, Praia da Caçandoquinha, Quilombo Caçandoca, Praia do Pulso, Praia da Maranduba e Praia do Sape.
      Dificuldade: Moderado
      Distância: 28 km
      Salve salve mochileiros!
           Segue o relato desta trilha fantástica situada entre Caraguatatuba e Ubatuba no litoral Norte de São Paulo, iniciada na Praia da Tabatinga a aproximadamente 20 Km da cidade de Caraguatatuba e finalizada na praia do Sape. A trilha é de nível médio com subidas e descidas mostrando belas paisagens e diversas praias. A maioria das praias são quase que desertas com pontos de água potável.  
      Partida - 17/11/20 - Ida 7:30am - São Paulo x Caraguatatuba -> BlablaCar R$45,00 - Caraguatatuba x  Praia da Tabatinga -> Ônibus R$4,65
           Partimos do bairro do Butantã em São Paulo capital onde combinamos com o motorista do aplicativo BlablaCar para sair às 7:30am. Saímos no horário marcado e fomos em 4 pessoas no carro. A viagem foi tranquila, segura, todos de máscaras pela pandemia e com duração de duas horas e meia até chegarmos ao Terminal Rodoviário de Caraguatatuba onde pegamos um ônibus do transporte público com sentido a cidade de Ubatuba. Depois de aproximadamente 35 minutos descemos no último ponto da praia da Tabatinga próximo ao Mercado Prime onde fica o início da trilha pela rua à direita do mercado. Compramos mais alguns mantimentos e água e iniciamos por volta das 11:00am a Trilha do Saco das Bananas ou Trilha das 10 praias desertas.   
       
           A trilha teve início na rua ao lado direito do Supermercado Prime pela Rua Onze onde seguimos por ruas com um terreno muito acidentado com muitos buracos e lama até chegar na entrada para a Praia da Figueira. Resolvemos não entrar nesta praia pois o tempo não estava ajudando muito e então seguimos em frente. Alguns metros a frente chegamos no Mirante da Praia da Ponta Aguda de onde se tem uma bela vista da Praia da Figueira e da Praia da Ponta Aguda.
         
                                                 (Entrada Praia da Figueira)                                                        (Estrada)
       

      (Mirante da Praia Ponta Aguda) - (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)
           Passando o mirante a trilha começa a adentrar a mata mais fechada passando por diversos pontos d'água. Andamos por mais ou menos mais 1 hora e chegamos em um casarão abandonado com várias bananeiras ao redor. Não sei a história desta casa mas parecia ser bem antiga. Neste ponta a trilha se divide em duas, para a esquerda se segue a trilha para a Praia do Simão, e para a direita se chega na Praia da Ponta Aguda. Descemos uns 15 minutos de trilha passando por um descampado até chegar na Praia da Ponta Aguda. 
       

       (Praia da Ponta Aguda) 

       (Praia da Ponta Aguda) 
            Ficamos pouco tempo na Praia da Ponta Aguda pois estávamos correndo contra o tempo que a todo momento mostrava que podia desabar com muita chuva. Retornamos pela mesma trilha que chegamos na praia e continuamos a trilha seguindo as placas rumo a Praia da Lagoa. 
       

          (Praia da Lagoa) 
           A Praia da Lagoa que faz jus ao nome contém uma lagoa que desagua no mar situada do lado esquerdo da praia. Retornamos pela mesma trilha e seguimos as placas para a Praia do Simão que a princípio iríamos pernoitar e seguir no dia seguinte.  
       
           Apesar da placa de proibido resolvemos seguir em frente e caminhamos por mais ou menos umas 2 horas neste trecho. A trilha estava muito molhada pela chuvas do dia anterior tornando o trecho escorregadio e muito difícil de render a caminhada. O tempo até que estava colaborado pois só tínhamos pego chuviscos durante o caminho, até que chegando próximo da Praia do Simão o tempo simplesmente resolveu dizer qual seria o nosso destino pelos próximos 3 dias ahahauhauhauha. 
       
           Começando com um chuva bem fina, toda aquela água que estava acumulada durante o dia resolveu cair bem na hora que estávamos chegando na Praia do Simão ahuahuah e não parou mais. Depois de vários escorregões e tombos passando por alguns trechos que sem chuva até seriam fáceis, mas com toda aquela água caindo do céu com a trilha encharcada e muito escorregadia ficaram bem complicadas. E depois de algumas horas chegamos na Praia do Simão ou Praia Brava do Frade.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)


      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Segundo moradores a Praia Brava do Frade possui este nome pois a um tempo atrás morou um frade na praia por muitos anos, razão do nome original. A praia é bastante procurada também por surfistas que buscam tranquilidade em uma praia deserta longe da badalação, mas neste dia não tinha ninguém na praia. 
           Chegamos e já montamos acampamento no meio das inúmeras árvores pensando em obter alguma sombra pra caso no dia seguinte o sol desse as caras ahuahuah. A praia tem mais ou menos 1 km de extensão com mar de águas agitadas, areia clara, praia de tombo, aparentemente com muitas correntes de retorno. Também ficamos próximos ao um ponto de água potável que fica no meio da praia formando uma pequena lagoa que com a forte chuva virou uma grande cachoeira que corria até o mar. A pernoite estava garantida, mas a chuva não parou mais aquela noite e nem no outro dia. Choveu forte, com trovoadas e muito vento o tempo todo.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
       

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Acampamento)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
      (Bica d'água)
           Acordar em uma praia deserta certamente é um desejo de muitas pessoas, mas acordar com a praia deserta e com muita chuva também foi uma experiência muito boa com sentimento de frustração e agradecimento. Ficamos por três dias nesta praia por causa da chuva, as barracas viraram nossos lares naquele paraíso por alguns dias ahuahua. A chuva não deu trégua no segundo dia, choveu por várias horas de manhã até o meio da tarde. Tivemos que esperar por horas pra sair da barraca pra poder conhecer aquele paraíso, mas quando a chuva deu uma trégua nós saímos para desbravar e conhecer a praia. 

            Do lado direito andando pela praia existe um paredão de pedra que dependendo do volume d'água é um bom ponto para um banho de cachoeira, mas neste dia apesar de toda a chuva estava com volume baixo.  
       
      (Cachoeira)
            A chuva começou novamente e retornamos para o camping e por ali ficamos. Fizemos toda nossa comida dentro da barraca. Uso o modelo QuickHiker 2 Quechua que tem duas portas e dois grandes avanços possibilitando usar o fogareiro sem nenhum problema. Choveu o resto do dia e toda a noite. 

       
            Dormimos cedo com muita água ainda caindo, e por volta das 4:30am da madrugada a chuva resolveu finalmente parar. Resolvi sai da barraca assim que amanhecesse para ir ao banheiro e me deparei com um nascer do sol sensacional saindo lá longe no horizonte do mar. E depois de tanta chuva tive uma sensação de euforia, alegria, minhas energias se renovaram e todo aquele cenário de frustração por causa de toda aquela chuva mudou imediatamente ao ver os primeiros raios de sol naquele dia ahuahua, foi muito emocionante. Bom Diaaaaaaaaaaa!


       




      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Com toda aquela animação já preparei um belo café da manhã e comecei a desmontar acampamento para seguir em frente pois além de toda aquela chuva que estava caindo antes, o mar também estava um pouco revolto e impossibilitou a travessia pela praia para poder continuar a trilha. E naquela manhã tudo isso estava ao nosso favor para poder continuar a travessia, então tomamos um café reforçado, desmontamos todo acampamento e seguimos para o lado esquerdo no final da praia onde fica a continuação da trilha. 

           No final da praia havia um acampamento fixo montado com barracas, panelas, talheres, pia, agua encanada hauahuahua. Depois de todo o perrengue que passamos com a chuva, aquele acampamento iria ser muito útil pra nós. Mas como não tivemos muito tempo de desbravar a praia, só encontramos esse acampamento quando estava saindo do Simão. Um morador local que encontramos na trilha nos disse que são de surfistas que se juntam e passam alguns dias neste local.  

       
           A continuação da trilha fica atrás deste acampamento. Neste trecho existe uma subida até chegar em um mirante que se vê toda Praia do Simão. E é neste trecho da trilha que se faz jus ao nome Saco das Bananas. Caminha-se por diversas plantações de bananas revelando belas paisagem. 


      (Mirante - Praia do Simão ou Brava do Frade)

             A caminhada neste trecho foi um pouco cansativa pois existem algumas subidas e descidas que desgastam um pouco por causa do peso da mochila. Caminhamos por uma hora e meia mais ou menos até chegarmos nas ruinas de uma escola abandonada, a Escola do Saco das Bananas construída em 1973 que atendia por volta de 25 crianças fechando em 1993 por falta de alunos. Ao lado esquerdo da escola segue a trilha para praia da Raposa e para o lado direito fica a trilha que chega na próxima praia da travessia, a Praia do Saco das Bananas. 

      (Escola E. P. G. Saco das Bananas)

           Seguindo a trilha da escola até a Praia do Saco das Bananas começamos a perceber o quanto ela é histórica com a frequente presença da Comunidade Quilombola existentes em algumas ruinas da época da escravidão. Levaram 10 minutos de descida até a praia e chegando encontramos um casarão de frente para o mar, que provavelmente seria dos donos de toda aquela plantação de bananas, encontramos uma praia pequena de aproximadamente 55 metros de largura, areias amareladas, águas cristalinas, com algumas pedras enterradas nas areias e cercada pela Mata Atlântica.

      (Praia Saco das Bananas)

      (Praia Saco das Bananas)

            Na Praia Saco das Bananas encontramos com alguns moradores que nos informaram que a praia era como um porto para os barcos levarem os produtos que os moradores cultivavam e que na sua maioria eram e é até hoje as bananas. Chegamos bem na hora que eles tinham colhido vários cachos. Nos contaram também que a trilha Saco das Bananas em alguns trechos, foram estradas construídas de pedra com intuito de facilitar o transporte de mercadorias cultivadas no roçado como: cana, mandioca, banana e outras especiarias. A praia guarda muitas histórias e muitos mistérios de sofrimento do período escravocrata e ainda sofrem até hoje com a especulação imobiliária. 

      (Praia Saco das Bananas)
           Ficamos por uma hora nesta praia contemplando e logo seguimos para a próxima praia que seria a Praia da Raposa. Retornamos até a escola e na bifurcação da trilha principal fomos para a esquerda. Neste trecho existem algumas subidas de tirar o fôlego, mas que nos proporcionaram vistas fantásticas das praias. 
       




       



           Caminhamos por uma hora e meia neste trecho até que chegarmos na entrada da Praia da Raposa, mas por causa do tempo ruim decidimos seguir em frente e não passar por esta praia. A entrada pra praia fica em uma trilha pequena onde existe uma corda para ajudar na descida ingrime. A entrada é bem pequena e fica à direita pra quem vem da Praia Saco das Bananas. Caminhamos mais alguns minutos e chegamos na Praia de Caçandoquinha. 

      (Praia da Caçandoquinha)

      (Praia da Caçandoquinha)
       
      (Rio de água doce)
           Chegando na Praia da Caçandoquinha se vê um casarão de fazenda do período escravagista mas que, por ser privada, não é aberta ao público. É uma praia de mar calmo, areias claras, muitos borrachudos, do lado direito da praia existe um riacho de água doce e contém algumas árvores centenárias propiciando ótimas sombras para ficar a beira mar. Hoje a Caçandoquinha guarda uma história de riqueza branca e sofrimento escravo, amenizado com o reconhecimento e regularização do Primeiro Reduto Quilombola do litoral norte do Estado de São Paulo.
        
      (Praia da Caçandoquinha)
           Ficamos um tempo nesta praia para descanso e aproveitamos para fazer um lanche embaixo das sombras de umas das grandes árvores centenárias que têm de frente para o mar. Ao contrario da sua vizinha, Caçandoca, esta praia é muito tranquila, não existe nenhuma estrutura para o turismo, não se chega de carro, e é pouco frequentada. Do lado esquerdo da praia existe uma trilha que leva ao Quilombo Caçandoca, nosso próximo destino. 
           Caminhando por uns 10 minutos já se chega no costão onde existe uma corda para a descida até a Praia da Caçandoca. A praia é fantástica, um paraíso quase que intocado sem construções e com uma enorme história.  De areias claras, mar calmo o lugar tem um deslumbrante vista da baía do Mar Virado, Maranduba e algumas ilhas. Esta praia por ter acesso de carros pelo km77,5 da rodovia Rio-Santos já tem um pouco mais de estrutura como alguns campings e alguns quiosques a beira mar, mas tudo bem simples.
            A região do Quilombo Caçandoca tem muita história, faz parte de uma área legalizada como pertencente aos Quilombolas remanescentes das comunidades da época do período de escravidão contando com 890 hectares.  O Quilombo Caçandoca é o mais antigo do litoral norte de São Paulo e encontra - se em um dos lugares mais belos do Brasil. A escravidão só teve um "fim" em 1888 através da Lei Áurea, mas muito tempo antes os negro já lutavam por sua liberdade. A história como a dos remanescente de Quilombos, como a da antiga Fazenda Caçandoca, mostra que a luta foi árdua, mas foi vencida, e esta parte da história é passada de pai para filho, netos e bisnetos, mantendo sempre acesa a memória da Comunidade Quilombola. 
       
      (Praia da Caçandoca)
       
           Assim que chegamos já fomos atrás de um camping pois o tempo estava fechando novamente mostrando que iria chover novamente. Sentamos no Quiosque Pastel da Vó e conversando com alguns locais, nos recomendaram o Camping do Jango que fica do outra lado da praia no canto esquerdo. Fomos até lá e fechamos por R$25,00 Reais pra cada por uma noite com banho quente. Montamos a barraca e retornamos para o quiosque Pastel da Vó para curtir o resto do dia com sol enquanto tinha.
       
         (Quiosque Pastel da Vó)
           Retornamos ao camping onde tomamos um bom banho quente, fizemos um rango reforçado e dormimos pois a chuva não deu trégua no começo da noite. No dia seguinte o sol prevaleceu no céu o dia todo, o que nos proporcionou ver o quanto aquele lugar é maravilhoso mostrando belas paisagens. Decidimos ficar mais um dia e seguir para próxima praia somente no dia seguinte.
       
      (Camping do Jango)

      (Igreja)

      (Praia da Caçandoca)

      (Praia da Caçandoca)

           (Praia da Caçandoca)

           Passamos quase que o dia todo no Quiosque Pastel da Vó, pois além do tratamento maravilhoso, a cerveja tava muito gelada e ainda nos deram o valioso repelente que os locais usam para parar os borrachudos. Uma mistura de óleo de cozinha com vinagre de álcool. A mistura funcionou e lambuzamos o corpo. Bye bye Borrachudos! huahauhau 

       (Praia da Caçandoca)

       
           Foi o dia mais quente da travessia com uma temperatura de quase 30 graus. Almoçamos pela praia mesmo, comemos porções e pasteis da Vó e tomando uma merecida gelada. Até que os preços estavam de boa, nada abusivo. Retornamos ao camping por volta das 19:00pm horas, fizemos mais um rango reforçado e descansamos para poder seguir bem cedinho para as próximas praias. 

      (Praia Quilombo Caçandoca)
                  Desmontamos acampamento por volta das 6:00am horas da manhã com um nascer do sol sensacional que fomos presenteados naquela linda manhã de Domingo.

      (Praia Quilombo Caçandoca)
           Tomamos um café da manhã reforçado, contemplamos por mais alguns minutos aquele momento e aquele lindo lugar e logo seguimos para a próxima praia, a Praia do Pulso. A trilha fica no canto esquerda da praia da Caçandoca muito próximo do camping que ficamos. .

           Caminhamos por uns 15 minutos até que chegamos em uma guarita com um guarda que nos informou como passar pela Praia do Pulso. A praia de acesso restrito tem na sua maioria acesso por condôminos. Descemos mais alguns minutos e chegamos em uma praia com um extenso gramado comunitário, areias fofas amarelas, enormes árvores proporcionando uma grande sombra em dias ensolarados, mar calmo de águas claras, porém o que chamou mais atenção foram as enormes casas chegando quase que nas areias da praia.  Não existe nenhuma estrutura para turismo, ambulantes, quiosques.

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)
           Comtemplamos por alguns minutos e seguimos até o canto esquerdo da praia onde fica a continuação da trilha. Neste trecho a trilha foi um pouco cansativa pois o sol estava bastante quente e as subidas deste trecho nos castigaram bastante. Durante a trilha vimos diversos mirantes com vistas espetaculares passando pelos fundos das casas até chegarmos aos fundos da famosa Igreja de Nossa Senhor de Fátima ou também conhecido como o Castelo dos Arautos. Uma fantástica construção de 9 mil m² parecido com castelos medievais com obras de Aleijadinho e com uma vista fantástica da Ilha do Pontal, Ilha e Praia de Maranduba e ao longe uma parte da Trilha das Sete Praias.

      (Praia do Pulso)
       


           Após passar pelo Castelo dos Arautos caminhamos por uma estrada chamada Estrada da Caçandoca até a rodovia BR101 Rio-Santos, onde seguimos por alguns quilômetros até a praia de Maranduba.

           Procuramos logo por um camping e encontramos o Camping Toa Toa que fica entre as Praias de Maranduba e Praia do Sapé. Fechamos por R$35,00 Reais e ficamos por uma noite. O Camping Toa Toa é bastante estruturado com banheiros amplos, com chuveiro quente, uma grande área gramada com vários pontos de energia, churrasqueiras, cozinha comunitária e com entrada tanto para praia quanto para rodovia Rio-Santos BR101. Montamos acampamento e saímos logo para procurar algum lugar pra almoçar e depois conhecer o local.   


      (Praia do Sapé - Ilha do Pontal)
           A Praia de Maranduba e do Sape são praias mais voltadas para banho, crianças, família. Tem uma ampla estrutura comercial e turística como quiosques, pousadas, hotéis, mercados e restaurantes. Como estávamos passando por praias quase que desertas sem ninguém a alguns dias já, esta praia foi meio que um choque pois estávamos voltando para a cidade.

      (Camping Toa Toa)

      (Praia de Maranduba)
           Desmontamos acampamento e mais uma vez o sol nos presenteou com mais um lindo nascer. Mochila feita e café tomado fomos para a rodovia Rio-Santo aguardar o ônibus para retornar a Caraguatatuba. Aguardamos por alguns minutos até prgar o ônibus sentido Caraguatatuba por R$4,65 e em 40 minutos chegamos na rodoviária. Almoçamos em um restaurante ali próximo do terminal e fechamos com um BlablaCar pra algumas horas depois por R$48,00 Reais de Caraguatatuba até São Paulo. E assim acaba mais uma trip e eu só tenho a agradecer! 
      GRATIDÃO  
      Retorno - 23/11/20 - Volta 9:00am  - Maranduba x Caraguatatuba -> Ônibus R$4,65- Caraguatatuba x São Paulo ->BlablaCar R$40,00
       
       
       
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    • Por Robson De Andrade
      Se o mundo não acabar, lá vou eu kkkkk
      Já não dava para adiar o inadiável, tinha de ser agora ou sabe se lá quando.
      Sai de Porto Alegre às 13 horas do dia 28, previsão de chegada lá por volta das 16 horas.
      Passagem de volta só na Estação Rodoviária de Muçum, vou lá pegar a minha kkkk
      As estradas para o interior são muito boas, a paisagem é agradável aos olhos a primeira vista.
      Em Guaporé desci numa calçada, vi um táxi e pedi para me levar até o Hotel 55 54 9106-7404
      Ande com um pouco de dinheiro rapaz, tive que ir numa agência sacar para pagar o taxista.
      No Hotel Rocenzi ninguém usava máscara, foi assim até o dia seguinte a minha saída.
      Fim de tarde tive que ir num mercado local debaixo de chuva, por insistência do Sr. Rocenzi levei seu guarda-chuva rsrs
      Tudo de boa no hotel, só aguardar pelo dia seguinte.
      Meu plano era sair sem café da manhã e caminhar até os trilhos, só que não.
      Fiquei para o café da manhã, deveria ter comido mais rsrs
      E o plano de ir a pé também rodou, chamei um táxi que me deixou na estação, a chuva caiu logo em seguida, teria tomado ela na cidade se tivesse saído a pé.
      Ajustei a mochila nas costas protegida com sua capa, usei uma jaqueta impermeável que comprei em Porto Alegre, na Decathlon, já sabendo que ficaria feio o tempo durante a minha travessia.
      A estação reformada de Guaporé.

      Primeiro Dia: Chuva, chuva e mais chuva
      "Não é um dia ruim só porque está chovendo." segui de boa, não tinha me entusiasmado tanto assim rsrs
      Os primeiros passos são... sei lá os primeiros passos, um pouco chato, margeando casas, estradas, lixo visível nas beiradas...
      Quando cheguei no meu primeiro túnel abri um sorrisinho, fiz o mesmo quando cheguei no meu primeiro viaduto.

      Choveu praticamente o dia todo e quando parava tinha de tirar a jaqueta impermeável para logo em seguida botar ela outra vez, o terreno castiga e os pés começam a sofrer, todo o caminho é só pedras, dormentes.
      Dentro dos tuneis bateu uns pensamentos sobre a morte, a solidão que me seguiram por boa parte da travessia. Eu tive a ideia de parar e desligar a lanterna para ficar naquele estado de completa escuridão e silêncio, talvez aquele fosse o mais próximo da morte estando vivo, consegue imaginar escuridão total e silêncio? Mas eu estava vivo e tinha de seguir, que alívio trouxe cada luz da saída.
      Fiz uma pausa para comer, descobri que tinha comprado pão de alho, não era bem isso que queria haha
      Nunca mais quero saber de pão de alho e atum em óleo.
      Optei por não fazer fogo, enlatados são uma boa opção, barrinhas de amendoim também, pão de alho não rsrs

      Lá pela metade do dia fez um solzinho. E o resto da tarde cairia mais chuva.
      Chuva pra caralho! cheguei na estação abandonada com a bota encharcada, a água escorreu da calça para a coitada da bota.
      A estação abandonada me segurou, ali tirei as botas e segui de chinelo, os meus pés agradeceram, os ombros não tinham muita escolha, lá perto do fim da tarde já chegava no meu limite.
      Parei perto do Recanto da Ferrovia; não estava nos meus planos ir lá. Quando cheguei  fui recebido por um cachorro muito simpático, não vi uma alma humana, já tava querendo vazar dali, até que o proprietário do lugar, o Clair surge nada simpático se comparado com seu cão. Acho que pensou que estava invadindo, depois disse que tinha que ter reserva, trocamos umas ideias, cada um no seu cada um, acabei ficando assim mesmo, pra mim tava bom, ali tomei banho, escovei os dentes e me reorganizei para vazar pela manhã.
      O trem passou algumas vezes durante a noite, fazendo um tremendo barulho.

      Segundo Dia: Sol
      O sol já dava as caras quando passei pelo Viaduto Pesseguinho, este também vazado, dava pra andar num bom ritmo pelo meio e dificilmente você vai cair se ficar só no meio. Andava parando para olhar ao redor, meu medo de altura não é lá grande coisa, mesmo assim eu senti que ia travar por lá junto do receio do trem passando por ali, imagina a correria ali rsrs
      Há placas com avisos de que não é permitido fazer passeios por ali. Bem, o que não é permitido? kkk
      Tomem cuidado dentro dos tuneis, eu tropecei uma vez e quase fui ao chão, fora que meu pé torceu umas duas vezes; sem grandes problemas.
      Parte de alguns tuneis desabaram e devem estar desabando, vi água saindo das paredes no meio de um túnel, não precisei correr até um daqueles "abrigos". Havia dormentes arrebentados e soltos dentro do túnel, sinal de que poderia dar merda.
      Há um túnel de mais de 1200 metros, este deu pra perder a noção do tempo por lá, e outros que você sonha kkkk
      Tentei seguir uma trilha perto de um túnel, ela ia pra cima de um morro, subi com mochila e tudo, até que vi uma fita, acho que era uma fita vermelha, fiquei receoso sobre aquilo, desci rapidinho, mas de ré em alguns pontos, caso contrário a queda seria engraçada kkkk
      Ao longo do caminho se vê locais de acampamentos, eu sabia que mais tarde teria que procurar um, os bons foram ficando para trás.
      Há lixo deixado pelo caminho, guardem o seu lixo e jogue na lixeira da cidade mais próxima.
      Fiz o meu almoço diante desta linda paisagem e o rio Guaporé nervoso lá embaixo
      ,
      Segui com o sol de rachar.
      Percebi que o lugar não é totalmente isolado; há sítios e fazendas por quase todo caminho, às vezes ouvia pessoas falando, cachorros latindo, carros transitando por alguma estrada... Há sinal de telefone e até o 3g tava dando sinal em alguns trechos haha
      Achei uma cachoeira perto de um túnel, melhor água que tomei, haha
      Água não falta pelo caminho, obviamente de procedência duvidosa, usem clorin moças e rapazes kkk

      Uma surpresa no trilho, tomando um sol talvez?

      A mochila já castigava novamente, os pés pediam para parar e minha teimosia de continuar era maior.
      Saindo de um certo túnel, já tinha perdido as contas de qual era, mas era perto do ponto mais "turístico". Ali vi pessoas de bobeira, a primeira impressão é de manter distância e ficar esperto, mas vi que era um casal, trocamos algumas ideias e segui...
      Mais pra frente, encontro outras pessoas, um grupo de amigos fazendo a travessia até Guaporé, trocamos umas ideias também.
      Havia pessoas em outro túnel com lanternas, poxa vida ali percebi que não estaria mais sozinho rsrs saindo dali mais um grupo de pessoas, que estavam retornando, segui junto deles, conversamos sobre como fui parar ali, de onde era, para onde vamos...
      Confesso que foi a primeira vez que senti seguro ao caminhar por outro túnel, na verdade a companhia das pessoas que tinha acabado de conhecer trouxe essa sensação, um deles se ofereceu para carregar minha mochila, passamos por trabalhadores fechando um lugar que tinha uns arcos, e mais pessoas surgiam, quando saímos do túnel tinha praticamente dezenas de pessoas do outro lado. O rapaz  apertou minha mão, desejou me sorte e perguntou meu nome, respondi e ele me disse o seu, e seguimos nossos caminhos.
      Segui desviando das selfies, dos caras das agências kkkk fui parar lá no meio do v13, cansado, a paisagem maravilhosa, até que mais gente se aproximou e eu tinha de ir. Por ali passou pessoas com cachorros, crianças, dei boa tarde, uma mulher me perguntou o que estava fazendo ali com a mochila nas costas, há maluco para tudo né? rsrs
      E assim uma hora você está completamente sozinho, no outro dia encontra pessoas dispostas a carregar sua mochila, apertar sua mão e lhe desejar sorte. Experimente um pouco de solidão e boas companhias também
      E continuei com minha teimosia, só pararia se achasse um lugar para acampar quando o sol já tava se escondendo, muitos paredões de pedras... Fique atento aos sinais do corpo rapaz, é hora para tudo, hora de caminhar, hora de parar, de cansar, de descansar... Terminei o dia exausto, montei a barraca e tentei dormir, a noite choveu pra caralho e o fim estava próximo.

      Terceiro dia
      O último dia começou, escovei os dentes, desmontei a barraca, arrumei as coisas, já não estava me sentindo bem, o cansaço do dia anterior ainda estava lá, andava cambaleando, a água estava ficando intragável, só queria parar. Acabei sonhando com mais tuneis e viadutos, pensei que o v13 estava a minha frente, quando na verdade já tinha passado por ele, encontrei um casal indo na direção contrária, apenas um bom dia.
      Quando vi a plaquinha de Muçum vi que o meu "sonho cansado" tinha chegado ao seu fim.
      A travessia pede prudência, paciência e resistência.
      São quase 60km caminhando por dormentes, pedras, tuneis e viadutos.
      Em Muçum me hospedei no Hotel Marchetti 55 51 9566-8544 muito bom o lugar.
      Almocei no Kiosque da Praça, os caras não usavam máscara huehue Mas a comida compensou.
      A noite pedi um hambúrguer que fica ao lado do hotel, havia alguns jovens no local vivendo como se não houvesse segunda-feira haha
      As passagens para Porto Alegre são vendidas na estação rodoviária, só aceitam dinheiro.
      Em POA me hospedei na chegada no POA ECO HOSTEL 55 51 3377-8876. Fiz a reserva pelo HostelWorld
      Na volta para POA fiquei hospedado no Hostel Rock, acomodação econômica 55 51 9415-5531.
      Se um dia retornar optaria pelo POA ECO HOSTEL sem dúvidas
      A empresa que opera por aqueles lados é a Bento Transporte, comprei a passagem até Guaporé pelo app da Veppo.
      http://www.bentotransportes.com.br/horarios
      Minha viagem não terminou em Porto Alegre como previsto, mas em Santa Catarina, e isso é uma outra história
      Agora devo estar de quarentena, quem sabe? rsrs
      Até a próxima.




    • Por divanei
      TRAVESSIA SACO DAS BANANAS 360
      Quase 25 anos atrás, quando pisei pela primeira vez na Travessia do Saco das Bananas, eu ainda era um jovem iniciante, pesava quase meio quilo a menos do que peso agora, num tempo em que internet inexistia e as fotografias eram em maquinas yashica de 36 poses. O mundo era outro, a atividade de aventura era renegada a meia dúzia de esforçados, gente que foi ganhando conhecimento aos poucos, meio que na tentativa e erro, transformando frustações em experiências. Essa tal travessia era só conhecida pelos caiçaras e poucos locais, num litoral isolado e desprovido de gente. Na época, tive como companhia, minha esposa, a irmã dela e mais 2 amigos de infância e levamos dois dias para cruzá-la, partindo da pouco conhecida na época, Praia da Ponta Aguda. Depois disso, ganhei o mundo em centenas de trilhas, caminhadas e viagens expedicionárias e nunca mais voltei para refazer essa travessia, mas esse ano estava decidido que era hora de retornar, hora de reviver um passado encantador, quando saíamos sem rumo, sem gps, sem mapas, apenas caminhado ao sabor do vento.
      No final do ano, me mudei para uma barraca de camping na Praia da Ponta Aguda. Claro que não era mais a mesma praia deserta de outrora, mas ainda continuava com seus encantos. Nos juntamos em família e na companhia de amigos, aqueles acampamentos onde se leva tudo, transformando o lugar num camping das Arábias. Aproveitamos para desfrutar de todas as prainhas paradisíacas que tem em volta da Ponta Aguda, mas estava difícil achar alguém que se dispusesse a me acompanhar numa travessia pelo Saco das Bananas em um só dia. Até entendo que poderia ser uma furada dos infernos para quem não está acostumado a longas caminhadas, mas até minha filha se recusou a me seguir nessa empreitada, alegando que estava de férias e queria apenas sossego.

      Uma semana se passou, minha filha e outros amigos retornaram para Sumaré no interior Paulista e com a chegada de novos amigos, me acendeu a esperança de achar um trouxa (opssss, um amigo) que se dispusesse a me acompanhar e entre conversas e churrascos, o Anderson Rosa se apresentou como voluntário, mas o tempo foi passando e nada da gente tomar uma decisão, até que, não tendo mais como fugir, marcamos a então esperada caminhada justamente para o último dia do ano, prometendo voltar cedo a fim de nos programar para a virada.
      Antes de descrever essa linda caminhada, que partiu da Praia da Ponta Aguda, vou me dar ao trabalho de descreve-la por completo, para que quem leia esse relato, possa aproveitar toda a caminhada, muito porque, eu mesmo 25 anos atrás, nem tinha me dado conta da existência dessas outras prainhas que completam a Travessia do Saco das Bananas e até hoje, a grande totalidade de quem caminha nessa travessia, não inclui essas praias no seu roteiro, o que chega a ser quase um crime.

      Partindo da Rio-Santos, bem em baixo do Portal que divide Caraguatatuba com Ubatuba, vamos pegar a rua entre a adega e o supermercado, quando chegarmos ao final, vamos seguir para direita e caminharmos por cerca de 1500 metros até onde ficam estacionadas as caçambas de depósito de lixo e ali interceptar a esquerda, uma estradinha de terra que vai nos levar em direção a Ponta Aguda. Vamos caminhar por mais uns 3 km e entrar a direita no caminho que nos levará para incrível Praia da Figueira, onde levaremos outros 10 minutos para lá chegar e aí então daremos início a nossa TRAVESSIA.

      A FIGUEIRA é uma praia deserta e selvagem, com mar calmo e encantador, do seu lado direito, uma toca serviria muito bem para um abrigo de emergência, mas nosso caminho segue para a esquerda, onde interceptaremos uma trilha depois que passamos a foz de um pequeno córrego. A trilha vai subir ao alto, onde teremos uma vista espetacular da própria praia, depois vai entrar na mata e em 15 minutos, estaremos desembocando na própria praia da Ponta Aguda, com um camping gigante.

      A PONTA AGUDA é outra praia de sonhos, mesmo com um número considerável de frequentadores, se mantem muito agradável, com um rio de águas cristalinas fazendo a festa da criançada. Vamos atravessar toda a sua extensão e exatamente como a praia anterior, vamos cruzar a foz do riacho e imediatamente subir uma trilha que se lança mata à dentro. A trilha sobe ao alto em 10 minutos e em mais outros 10 minutos nos leva para a pequena e também selvagem PRAIA MANSA, uma prainha cercada pela floresta, onde alguns barcos costuma ancorar por ser protegida das ondulações do mar, formando piscinas naturais nas suas extremidades.
      Cruzamos toda praia até seu fim e ganhamos uma trilha aberta que segue na mata, subindo entre palmeiras espinhudas por uns 15 minutos, talvez menos, até que ela se bifurca, mas nosso caminho segue para a esquerda, porque para a direita a trilha vai finalizar bem na ponta que entra mar a dentro e esse não é nosso caminho.
      Pegando, portanto, para a esquerda, vamos seguir em nível por outros 10 minutos até que chegamos a um mirante onde é possível apreciar mais abaixo a impressionante Praia da Lagoa. Passamos com cuidado, nos apoiando em uma corda e descemos mais outros 10 minutos até a areia da praia, deserta, silenciosa, selvagem.
      A PRAIA DA LAGOA é outra joia dessa parte do nosso litoral paulista, uns 500 metros de areia grossa e inclinada no seu lado direito, cercada por vegetação mais baixa. Na sua extremidade esquerda, uma grande lagoa de águas quentes nomeia a praia, onde peixes nadam tranquilamente. Com mar calmo, em dias de sol intenso, parte da praia se transforma em uma grande piscina de águas transparentes.

      Aqui preciso fazer um parêntese: Poderíamos assim que saltamos no início da praia, pegarmos uma trilha a esquerda que daria continuidade a nossa travessia, mas seria um pecado não ir a sua extremidade conhecer a lagoa. Estando na lagoa, nem precisamos voltar pela areia da praia, apenas pegamos uma trilha larga na vegetação e vamos seguir em paralelo a própria praia até que uns 15 minutos depois, a trilha se curva para a direita, vai adentrando novamente em mata alta, passa por um atoleiro e uma meia hora depois de partirmos da lagoa, desembocamos na estrada de terra, que acaba justamente ali. Se seguirmos para a esquerda, poderíamos voltar novamente para o nosso camping na Ponta Aguada, mas nosso caminho, nossa travessia segue para a direita, cruza imediatamente uma porteira e já intercepta a esquerda, uma placa indicando o caminho para a Praia do Simão, exatamente onde oficialmente se iniciaria a travessia tradicional.

      Acima está a descrição de parte da travessia, fiz isso para que todos que acompanhem esse relato, tenha uma caminhada incrível, tendo tudo que esse roteiro nos permite, mas como nós já estávamos acampados na Ponta Aguda e já havíamos feito todas essas praias durante mais de uma semana que ali estávamos, nos restou apenas nos organizarmos para partirmos direto da nossa barraca e tentarmos fazer a travessia em apenas 1 ÚNICO DIA, ao invés de 2 dias, como é o tradicional.
      Na noite dia 30 de dezembro, arrumamos nossa mochilinha com os equipamentos de segurança e quando o último dia do ano raiou ( 31/12/2020), nos pusemos de pé e fomos ganhar o mundo. Partimos eu e o Anderson Rosa e uns 15 minutos antes das 07 da manhã, deixamos o acampamento da Ponta Aguda e ganhamos a estradinha e logo mais, na bifurcação, pegamos para a direita, mesmo porque, para a esquerda é o caminho que nos levaria de volta para a Rio-Santos, coisa que não nos interessa. Agora vamos seguindo pela estradinha embarreada, passamos por uns ranchos e deixamos a civilização definitivamente para trás. Cruzamos 2 rios que abastecem a vilinha da Ponta Aguda e em mais 10 minutos descemos a estrada até o seu final, juntamente na porteira, onde ela se encontra com a trilha que vem lá da Praia da Lagoa.
      Passamos pela porteira e interceptamos a trilha a esquerda, onde uma placa indica o caminho para a Praia do Simão, que alguns também chamam de Brava do Frade. Já de cara a trilha larga e consolidada entra na mata onde árvores gigantes desfilam enormemente, atravessamos um riacho de águas claras e viramos para o leste, desprezando mais à frente uma trilha para a direita, que provavelmente deve vir lá da fazenda. Logo a trilha vai virar para o sul, mas sempre dentro da mata fechada, sempre subindo até ganhar o topo da serra e começar a descer definitivamente para a praia. Vários riachos são cruzados, o que evita que carreguemos muita água e então já começamos a ouvir o barulho das ondas do mar e logo a frente viramos a direita numa bifurcação, descemos numa ribanceira enlameada e alguns minutos depois desembocamos na gigante PRAIA DO SIMÃO.

      Gastamos cerca de pouco mais uma hora desde o acampamento, uma velocidade absurda nessa manhã de quinta-feira. Na Praia do Simão encontramos meia dúzia de barracas espalhadas e é surpreendente como essa praia ainda se mantém selvagem, talvez a praia mais selvagem de Ubatuba. Aqui o mar é sempre bravo, o que dificulta até para a entrada de barcos, mas hoje, surpreendentemente o mar está quase uma piscina. Na chegada a areia, ao invés de seguirmos para a esquerda, pegamos para a direita e fomos tomar uma ducha numa pequena cachoeirinha no extremo. Não era nada de mais, só que como o calor estava grande já logo pela manhã, aproveitamos a água com temperatura agradável para nos refrescar.

      Retomamos nossa caminhada para o outro extremo da praia (esquerda), mas ao chegarmos a metade, caímos para o meio do bosque sombreado até chegarmos na grande bica e lá nos matamos de tanto beber água e abastecemos nossos cantis. No fim da praia, quando a areia acaba, entramos em outra trilha em direção à praia do Saco das Bananas. A trilha vai subindo e logo saímos no aberto com um espetacular mirante da Praia do Simão. Começamos a nos enfiar numa floresta de jaqueiras, aliás, carregadas de jacas e vamos subindo até começarmos a descer em meio aos bananais que dão nome a essa travessia. Descartamos uma estradinha a direita e quando chegamos nas ruinas da antiga escolinha, nos detemos por um instante para uma foto e um descanso.

      A ruína da Escolinha traduz bem o que deveria ser isso há muito tempo atrás. Aquela vilinha de caiçaras hoje está também em ruínas e somente uma ou outra casa se mantém com algum morador, mas o silêncio ali é tão grande que mais parece um lugar fantasma.

      Vamos descendo por uma escadaria que vai se enfiando em direção à praia, numa pequena baia até que alguns minutos nos leva ao mar. Na praia, apenas um casal e um barquinho boiando nas agás calma e verdes. E é mesmo um cenário de sonhos que encontramos. QUE COISA LINDA! É um grande prazer poder pegar a praia daquele jeito, já que quase 25 anos atrás, pegamos um mar revolto e escuro. Agora sim, agora aquele mar fazia jus à fama daquele lugar surpreendente. Subimos nas pedras e ganhamos o canto direito, onde piscinas naturais me tirou da terra e me jogou ao mar.

      A água está numa temperatura excelente e eu nadei até não aguentar mais, enquanto o Rosa aproveitou para se refrescar numa sombra e comer alguma coisa. E eu estava certo quando ficava inquieto querendo fazer essa travessia e não poderia ter escolhido um dia melhor, porque será difícil existir outro dia com tanta beleza na PRAIA DO SACO DAS BANANAS.

      É com uma imensa dor no coração que abandonamos aquela praia, mas a travessia tinha que continuar. Subimos de volta à escolinha e mesmo antes de alcançá-la, cortamos caminho por um roçado e interceptamos a trilha principal, que vai nos levar em direção a prainha da Raposa. Ela adentra na mata pontilhada por jaqueiras gigantes, nos leva ao alto, onde uma casa abandonada nos tira do nosso caminho. Nós havíamos recebido uma informação de um lugar encantador e o caminho muito provavelmente partiria dos fundos dessa casa, mas me pareceu que teríamos que varar um mato descendo a encosta até o mar, e como notei que o Rosa estava um pouco cansado devido ao colar intenso, resolvi abortar essa descida e voltar para trilha, mas logo à frente, quando o caminho sai novamente no aberto, me arrependi amargamente de não ter descido ao Saco do Morcego, uma piscina natural de tamanho grandioso.

      Mais alguns minutos de caminhada e a trilha nos leva para o fundo do vale, onde um riacho de águas cristalinas já serve para matar nossa sede. Depois vamos subir novamente sem dó, até atingirmos um descampado em meio a um sapezal. O sol queima tudo, é um calor insuportável que beira fácil os 40 graus ali naquele pedaço de litoral e só nos animamos novamente quando o caminho entra novamente na floresta fechada e vai seguindo em nível e começamos a descer de vez, passamos por umas entradas de uns sítios e interceptamos a trilhinha que nos levaria em definitivo até a praia. E é uma trilha bem minúscula, protegida por algumas cordas que ajuda a não escorregar no barranco, mas não leva mais de 5 minutos para a gente desembocar na PRAIA DA RAPOSA, praia selvagem e encantadora, 4 km depois de partirmos do Saco das Bananas.

      A prainha me surpreende positivamente, parece ainda mais selvagem que 25 anos atrás, é uma solidão imensa, com o mar batendo um pouco mais forte que a praia anterior, com areias mais grossas e com a água mais mexida, mas apesar de tudo, não estava deserta de gente. Ao pisar na areia já me dirijo imediatamente para conversar com um único casal que estava deitado no centro da praia. Ando tranquilamente, olhando o mar e as belezas em volta, sem focar muito de quem estaria deitado na areia, chego perto, cumprimento os dois e só então, depois que os meus olhos se acostumam com a luminosidade é que me dou conta que OS DOIS ESTÃO COMPLETAMENTE NUS. ( kkkkkkkkkk) Fiquei desconcertado , não por encontrar um casal pelado, mas por eu não ter percebido e ter recuado, sem me dirigir para falar com eles. Mas por sorte, o Rosa veio para me salvar, já que eu não conseguia nem falar: - Boa tarde meu irmão, curtindo aí um naturalismo né? Nem sei o que o casal respondeu, saí de fininho, sem nem olhar para trás e fui me refugiar na sombra do lado direito da prainha.

      Cinco minutos depois, os peladões se mandaram, ganharam o costão e sumiram da nossa frente, voltaram pelo mesmo lugar que vieram, acho que nem sabiam que existia uma trilha mais curta de volta à civilização. O Rosa se contentou em ficar na sombra descansando, mas eu é que não ia sair dali sem dar um mergulho e mesmo com o mar um pouco mais agitado, pulei na água e por lá fiquei, me refrescando, até que num mergulho, localizei uma TARTARUGA quase que encalhada na areia. Duas braçadas me levaram ao animal e consegui captura-lo e não levou mais de um minuto, tempo suficiente para que o Rosa sacasse uma foto e eu já a devolvi para o mar, evitando qualquer tipo de estresse desnecessários e esse foi mais um encontro inusitado nessa prainha tão legal.

      Subimos novamente a trilha e interceptamos o caminho principal, quase uma estradinha, que vai subir por 10 minutos e descer por outros 10 até nos levar direto para a PRAIA DA CAÇANDOQUINHA, uma prainha mais reservada, mas agora sem o charme das praias desertas que passamos. Por ser véspera do ano novo, estava bem cheia, mas ainda suportável.

      No final, do lado esquerdo, uma outra trilha larga nos conduz em pouco mais de 5 minutos até a outra praia, onde primeiro temos que descer nos valendo de uma corda para ganhar sua areia. A PRAIA DA CAÇANDOCA é um antigo quilombo e é também uma bela praia, mas nessa época do ano parece a sucursal do inferno e hoje para ir ao mar, será necessário entrar na fila de tanta gente que tem. Eu e o Rosa passamos batidos e rapidamente ganhamos o extremo da praia, e já tratamos logo de sairmos vazados daquele antro em tempos de pandemia. No fim da praia, interceptamos outra trilha larga que sobe ao alto e uns 10 minutos depois, desemboca numa estrada, bem em frente a uma guarita que dá acesso a próxima e derradeira praia dessa travessia.


      Essa próxima praia é uma que ainda faltava no meu currículo, porque mesmo de outras vezes que por aqui estive, nunca a visitei. Quando chegamos à estrada, já localizamos a entrada para a praia, mas para lá chegar, é preciso passar por dentro de um condomínio de luxo, onde os ricos cagam dinheiro, com casas avaliadas em milhões de reais. Quando os guardas da guarita nos viram, já foram nos pedindo os documentos. Não sei se isso é de praxe ou se vendo as nossas caras de pobres, tentaram se resguardar, mas no fim, desistiram de anotar os RG, quando dissemos que passaríamos rapidamente pela praia, porque estávamos apenas fazendo a travessia. Aqui abro um parêntese: Ter que ficar dando satisfação para poder frequentar uma praia pública é o fim da picada e é claro que deveria ter uma passagem livre ali para qualquer pessoa sem ter que dar satisfação a seu ninguém, mas enfim, entramos e seguimos por uns 10 minutos até a areia.

      E é realmente como eu disse, uma praia voltada para a elite da elite, a tal ponto de a gente ver uma sala de uma das casas e pensar que era um grande restaurante. Aquilo era um absurdo tão grande, uma ostentação tamanha, que o Rosa ficou até revoltado e pediu para irmos logo embora de lá. Em frente as mansões, há jardins que devem necessitar de uns 10 funcionários só para cuidarem deles, verdadeiros palácios de sultões. As pessoas que ali estavam, pareciam recém-saídos da antiga revista “ CARAS”, num gramado impecável, sem quiosques ou qualquer outra coisa que lembrasse pobreza. A Praia era bem bonita, águas calmas com embarcações luxuosas. Atendendo aos pedidos do Anderson Rosa, nos dirigimos para a outra extremidade da praia, na tentativa de acharmos a trilha que nos levaria até um castelo no alto do morro e nos devolveria novamente à estrada, mas antes de lá chegarmos, fomos descobertos pelos 3 seguranças da PRAIA DO PULSO, que vendo que éramos os únicos pobres ali, vieram nos interpelar.

      Os seguranças foram educados, mas a intenção era clara de nos constranger, nos dizer que ali não era o nosso lugar, era preciso que a gente soubesse que ali tinha dono, e que não éramos bem-vindos, então nos indicaram a saída, como a nos dizer: vão embora e não voltem nunca mais.
      Fizemos cara de paisagem, cagamos e andamos, mas não dissemos coisa alguma, recebemos a informação e assimilamos o golpe, muito porque, estávamos mais do que atrasados no nosso roteiro, então ao chegarmos no final da areia da praia, mandamos tudo aquilo a merda, ganhamos a trilha, passamos raspando no castelo, até alcançarmos novamente a estrada, onde passamos por mais uma guarita, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que seja.
      Ganhando a estrada, vamos descendo sob um sol para cada um. A caminhada vai desenrolando vagarosamente, enquanto a gente vai suando em bicas e por quase uma hora, nos arrastamos até a RIO-SANTOS, desembocando bem em frente a um ponto de ônibus. Nossa intenção era ganhar a rodovia e caminhar por mais uma meia hora até o PORTAL que divide Ubatuba de Caraguá, mas fomos surpreendidos com um temporal avassalador e tentamos nos esconder dele no abrigo do ponto. A tempestade varreu o litoral, de tal maneira que tivemos que nos segurar para não sermos arrastados pelo vento e quando o ônibus apareceu, pulamos para dentro e demos graças por escaparmos vivos daquele aguaceiro todo.
      Descemos no portal e antes de ganharmos o caminho de volta para Ponta Aguda, passamos no mercado para garantirmos o churrasco da virada de ano. Seguimos enfrente, debaixo de uma chuva fina, caminhando por uma estrada que não dava passagem nem para tatu de chuteira e quando chegamos ao mirante da Praia da figueira, ao invés de continuarmos pela estrada, resolvemos cortar caminho e interceptar a trilha que liga uma praia a outra e em mais 15 minutos, o caminho nos devolveu a Ponta Aguda, pouco depois das 4 horas da tarde, fim da travessia, estava cumprida a jornada que havíamos programado.

      Cansados, extenuados, mas extremamente satisfeitos com aquele fim de ano glorioso, num ano difícil, marcado por uma pandemia mundial e que dificultou muito a vida de todo mundo. Mas reviver essa caminhada incrível, quase 25 anos depois, foi algo gratificante, melhor ainda foi encontrar essa parte do litoral quase do mesmo jeito que a encontramos nessas mais de 2 décadas atrás, num pedaço de litoral de acesso difícil, mas encantador, com praias selvagens e natureza exuberante, um lugar destinado somente para os que tem coragem de se levantar da cadeira e meter os pés na trilha, para cruzar por um dos lugares mais bonitos do litoral do Brasil.
       
       
    • Por Gregório Miranda
      Após muito tempo lendo relatos e participando de discussões esporádicas sobre equipamentos, decidimos trazer um relato para o fórum. O circuito é muito exigente e foi feito em dupla em janeiro de 2021 por duas pessoas relativamente experientes e relativamente preparadas. Quer dizer, foi parcialmente feito, porque houve uma pequena trapaça no final e passamos um dia descansando em Martim de Sá ao invés de fazer à pé o trecho até Ponta Negra e vila Oratório de volta.

      Vista do Cume da Pedra da Jamanta
      O relato foi escrito por mim e o Jhonatan e o planejamento foi baseado principalmente em duas tracklogs presentes no Wikiloc: (1) a do Luís Felipe (Circuito Mamanguá (Via Jamanta) x Juatinga (com Farol da Juatinga)) e (2) a do Angelone (Circuito Cumes da Juatinga).
      Em contato por e-mail, o Luís Felipe sugeriu que registrássemos pontos e informações que pudessem complementar a track. Como não vimos tanto como acrescentar informação, visto que ela já está bastante completa, achamos que nossa contribuição poderia ser um relato mais detalhado com nosso ponto de vista sobre o trajeto. Esperamos que possa ajudar a quem faça o caminho no futuro.
      Vale a pena mencionar desde já que o passo do Luís Felipe é completamente absurdo e não serve tanto como parâmetro de comparação a não ser que você tenha um preparo físico excelente ou sobrehumano. O que, percebi a duras pe(r)nas, não é exatamente o meu caso. Uma ótima ideia para seres humanos normais é fazer o trajeto colocando mais dias de descanso e curtição no caminho. É o que pretendemos fazer na próxima vez.
      Visão geral
      O circuito é extremamente variado em paisagem, vegetação, variação de altitude, proximidade com o meio selvagem/urbano e dificuldade de terreno. O único aspecto constante é que tudo é maravilhoso e vale a pena conhecer.
      O trajeto começa e termina na praia do Sono e dá a volta em toda a Reserva da Juatinga, passando pelo saco do Mamanguá, enseada da Cajaíba, Martim de Sá, Cairuçu das Pedras e Ponta Negra, nessa ordem. Pode ser dividido em duas partes bastante diferentes entre si:
      1. Subida e descida do Cume da Pedra da Jamanta
      É sem dúvidas o trecho mais difícil e que justifica a tracklog estar (corretamente) assinalada como "só para experientes" no Wikiloc. Envolve uma subida e uma descida íngremes de 1.092m, com muito vara mato e navegação dificultada pela vegetação. O uso de GPS é essencial e o sinal pega mal nas matas que ocupam boa parte do caminho, pelo menos usando o celular como fizemos.
      Os relatos do Luís Felipe e Angelone são muito claros em relação a isso, mas ainda assim ficamos surpresos com a dificuldade. O começo da descida é ainda mais difícil, pois você precisa vencer a vegetação em uma descida técnica por pedras e sem conseguir enxergar muito bem o que tem à frente (e abaixo). Descobrimos tardiamente que seria muito bom ter levado luvas e alguma jaqueta ou blusa mais grossa, pois terminamos o trecho com muitos cortes nas mãos e braços. Um facão também pode ser de grande ajuda.
      O trecho pode ser evitado fazendo uma trilha bastante mais plana (ainda que também difícil e sem trilhas marcadas) encontrada na track do Angelone ou, essa sim uma opção mais fácil, pegando um barco de Paraty-Mirim e iniciando o circuito na praia do Cruzeiro.
      2. Restante do circuito
      Ainda descendo do cume e aproximando da Cachoeira do Rio Grande você encontra uma trilha larga e muito bem marcada. A partir desse ponto, se retorna à civilização e põe-se fim ao rasgar mato no peito e checar o GPS o tempo todo. Durante todo o restante do circuito, para o bem e para o mal, as trilhas são nítidas e usadas pela população local e turistas.
      Há ainda dois trechos exigentes, entretanto (assinaladas pelas setas amarelas na imagem abaixo. Uma subida intensa com 428m de elevação entre a praia do Engenho e a Praia Grande de Cajaíba e outra mais dura ainda com 550m de altura entre Cairuçu das Pedras e Ponta Negra. Por isso, fazer tudo em dias seguidos pode ser bastante exaustivo. Soma-se a isso a beleza, malemolência e deliciosidade das praias no caminho e você tem bons motivos para incluir alguns dias de descanso no roteiro.

      Ali, ó.
      Em todo esse trecho mais urbano você encontra restaurantes no caminho, o que pode aliviar bastante o peso que se carrega nas mochilas. Ficamos surpresos em descobrir que na maior parte dos locais, inclusive em Martim de Sá, onde não chega energia elétrica ou sinal de celular, é possível pagar com cartão. Mas, claro, sempre convém levar dinheiro em espécie para garantir. Por falar em celular, é possível conseguir rede aqui e ali, mas em geral de forma bastante precária e intermitente.
      O relato
      Dia 0 – Viagem de carro BH – Vila Oratório
      Como partimos de Belo Horizonte (a mais de 600 km de distância), descobrimos que nossa ingênua ideia inicial de fazer a viagem de carro e começar a trilha no mesmo dia era completamente descabida e infundada. Ainda bem, porque foi melhor assim.
      Saímos de BH de madrugada, por volta de 3h e chegamos por volta de 16h na Vila Oratório, contando com o tempo perdido errando o caminho (vocês sabiam que Laranjeiras é o nome do condomínio que dificulta a entrada à Vila Oratório E o nome de um bairro do Rio de Janeiro, capital?). Deixamos o carro em um estacionamento terreno baldio de um local que nos cobrou R$ 25,00 a diária e pegamos a trilha para a Praia do Sono, onde acampamos por R$ 40,00/pessoa.

      Pessoas com mais sanidade física e mental se contentariam com uma semana nessa calmaria.

      Dia 1 – Metade da subida ao Cume da Jamanta
      Por algum motivo que hoje nos escapa à compreensão, julgamos que poderíamos dedicar a manhã do primeiro dia para um delicioso banho de mar na Praia do Sono e assim fizemos. O resultado foi conseguir chegar apenas em uma espécie de clareira aos 480m de altitude que as tracklogs carinhosamente chamam de área de camping.
      O caminho começa suave, mas aos poucos se torna uma subida bastante íngreme, em mata fechada e os trechos com trilha vão se tornando cada vez mais raros até sumirem completamente. Aqui você começa a se questionar sobre suas escolhas de vida, se lembra das pessoas nadando alegre e preguiçosamente na praia do Sono, mas toca o barco e a caminhada.
      As muitas plantas com espinhos começam a dar as caras e vão nos acompanhar durante toda a subida e descida da Pedra da Jamanta. Também fomos introduzidos aos cipozinhos da região. Inofensivos à primeira vista, vão se mostrando um obstáculo insistente que acaba reduzindo bastante o ritmo de caminhada. É difícil representar isso em uma foto, mas segue uma tentativa abaixo. Essa é parte significativa do “visual” do primeiro e segundo dia.

      Ali, consegue ver a trilha? Pois é.
      Chegamos na clareira no fim da tarde e decidimos montar acampamento por ali mesmo. Isso coincidiu com o início da chuva e por isso improvisamos um teto com uma das tarps que acabou servindo para coletar a água que caia. Insight bom que o Jhonatan teve ao ver a água acumulando em nossa gambiarra e que evitou que tivéssemos que passar por outro vara mato para coletar água de um riacho, em um ponto marcado nas tracks. A água foi o bastante para cozinhar e hidratar à noite, mas admito que durou menos do que imaginávamos na subida ao cume no dia seguinte.

      Confortável beliche de redes em mata semifechada, tratar aqui.
      Dia 2 – Cume da Jamanta e acampamento na toca dos caçadores
      O segundo dia já começou com subida intensa, mas, para nossa surpresa, logo logo encontra-se uma trilha bem marcada que facilita muito a ascensão. Sem as árvores e cipós no caminho, o fôlego é o único obstáculo. A track do Luís Felipe inclui um ponto muito útil, mas, como ele mesmo descreveu, muito desgastante de coleta de água próximo ao cume. Chegamos lá já desidratados e administrando as últimas gotas do dia anterior.

      Vista para o Saco do Mamanguá, para onde segue a trilha.
      O cume da Jamanta, como era de se esperar, é sensacional, com vista para a Praia do Sono, Ponta Negra, Saco do Mamanguá e até a região onde fica Martim de Sá e Cairuçu das Pedras. Com sol escaldante e sabendo que ainda tínhamos muito chão pelo caminho, acabamos não ficando tanto tempo ali. Descansamos um pouco, conseguimos pegar um pouco de sinal, que foi útil para baixar a tracklog no segundo celular após o GPS que levamos nos deixar na mão e seguimos a caminhada.
      O início da descida, como mencionado, é um absurdo. Uma descida íngreme pelas pedras cobertas por um samambaial denso e recheado de capim navalha esporadicamente. É algo que você não deseja para ninguém, sabe? Felizmente, esse calvário não é tão extenso e logo dá lugar a uma descida intensa, mas com vegetação espaçada e bons trechos com trilha.
      Nesse dia, também não rendemos tanto e acampamos em frente à toca dos caçadores, local bom para acampamento e próximo do rio. Administrar durante a noite as mochilas acampando com redes é sempre um desafio. Dormir com elas na rede é um estorvo e deixar no chão ou em árvores traz o risco de que molhem caso chova. A toca pareceu perfeita para isso, pois poderíamos deixar as mochilas em segurança e dormir nas redes armadas ali por perto. O raciocínio se mostrou um erro grave quando, em meio ao temporal que caiu de madrugada, fui buscar algo na mochila e vi elas embaixo de uma “goteira” que mais parecia uma minicachoeira.

      A tal da toca.

      Por falar em caçadores, uma preocupação constante no segundo dia foram as armadilhas descritas pelo Angelone, que conta inclusive em seu relato que um amigo quase tomou um tiro de uma delas, acionada sem querer. Por sorte, não encontramos nenhuma armadilha, mas vale registrar o aviso. A toca continha algumas garrafas e objetos que indicam que continua sendo usada, por isso acreditamos que o risco ainda existe.
      Dia 3 – Caminhada até a praia do Cruzeiro
      No dia seguinte, após nos perdermos um pouco (por que não?), descemos seguindo a tracklog até encontrar uma trilha ampla e muito bem marcada que praticamente dispensava o uso do GPS. Não demorou muito para chegarmos na Cachoeira do Rio Grande, com uma árvore imensa tombada sobre o rio. Local bom de descanso e que faz parte da trilha: você precisa cruzar o rio para seguir o caminho pelas praias.

      Cachoeira do Rio Grande, maravilhosa.

      Nesse dia, pegamos mais leve que nos anteriores: nadamos e conversamos com um local na cachoeira que nos disse que a subida para o cume é bem melhor partindo de Ponta Negra. Chegamos na comunidade do Cruzeiro ainda cedo, por volta de 15h, mas paramos para almoçar um peixe muito bem preparado em um restaurante (por que não?), por R$ 30,0 o PF, e acabamos decidindo acampar por ali mesmo.
      Aqui fica evidente a completa desproporcionalidade com o ritmo de caminhada do Luís Felipe, nosso guia astral virtual. Se você ler o relato dele, vai ver que ele amanhece no cume da Jamanta e simplesmente dá toda a volta pela Cajaíba e dorme em Martim de Sá no mesmo dia. Um brinde à saúde desse rapaz.
      A praia do Cruzeiro é um lugar simpático e acolhedor. Acampamos no camping do Seu Orlando, senhor nascido e criado na região e hoje ajudado pelo filho Jaime. Orlando teve alguns AVCs no ano passado e por isso conversa um tanto devagar. Mas foi ir dando corda que a conversa foi longe. Saímos de lá no dia seguinte incumbidos de levar um abraço seu para dona Dica, sua prima, que tem um restaurante na Praia Grande de Cajaíba.
      Da praia do Cruzeiro você pode fazer uma trilha até o alto da pedra do Pão de Açúcar, com vista para todo o Saco do Mamanguá, mas acabamos preferindo poupar as energias. Outra opção que nos contaram é alugar um Caiaque e remar até o mangue. Enfim, é um lugar que merece mais tempo em uma próxima vez.
      Dia 4 – Cruzeiro – Martim de Sá
      Caminhamos muito nesse dia, expiando os pecados do dia anterior. A caminhada começa leve, mas esquisita. A trilha, agora na maior parte pavimentada de concreto, serpenteia entre mansões até a praia do Engenho. Literalmente “entre” em alguns casos, como um em que a trilha termina na praia e nós, confusos, fomos guiados por uma funcionária da casa, atravessamos a área de serviço e fomos guiados a continuar a trilha que seguia pelos fundos. Aparentemente os magnatas que se apossaram dessas praias não tem muito pudor em se apropriar também da trilha que liga as comunidades.

      Moradora local tomando um solzinho.

      Após a praia do Engenho, a brincadeira começa a ficar séria e o caminho tutelado dá lugar a uma trilha bem marcada e faz uma subida longa e inclinada atingindo 480 de altitude e culminando na Praia Grande de Cajaíba. Chegamos lá exauridos e fizemos uma longa pausa para almoço no restaurante da dona Dica, entregando o abraço-encomenda enviado pelo Sr. Orlando.
          
      O relato do Luís Felipe já anuncia isso e pudemos verificar de fato: a enseada da Cajaíba é a parte “pop” da reserva. Já na praia grande encontramos vários barcos de passeio, algumas lanchas opulentas e uma barulhenta turma de jetskizeiros. Haja paciência.
      Para não ficar só no aspecto negativo, vale mencionar que há também praias tranquilas e comunidades mais tradicionais e interessantes como Toca do Carro, Itanema, Calhaus e IItaoca. A partes mais baladas e turísticas ficam no início e no final da enseada: Praia Grande e Pouso da Cajaíba.
      Chegamos no Pouso por volta de 17h e após um período para descanso e reflexão, decidimos seguir no mesmo dia para Martim de Sá. Sabíamos pela leitura dos relatos que a trilha envolve uma subida longa, mas suave, e uma moradora local confirmou que o caminho é tranquilo e usado com frequência. Demoramos cerca de 1h40 e montamos acampamento já em Martim de Sá.
      Dia 5 – Martim de Sá e só
      O planejamento inicial desse dia era seguir a trilha para Ponta Negra / Praia do Sono, vencendo um novo morro de 550m de altura logo após Cairuçu das Pedras, mas, sinceramente, eu não tinha condições para isso. A exaustão acumulada dos dias anteriores já havia reduzido muito o rendimento na trilha e o ritmo de caminhada nessas condições seria um pouco mais lento que o de uma lesma. Como só tínhamos mais um dia de viagem, acabamos decidindo ficar por ali mesmo e pegar um barco no dia seguinte.
      A descrição do site da reserva é um ótimo resumo sobre a praia:

      Enfim, Martim.

      Dia de descanso em Martim de Sá, de preguiça e nadar na praia. O único arrependimento foi não poder ter ficado mais dias ali. De lá, há trilhas para o Poção (um poção delícia de água doce, pelo que nos contaram), o Pico do Miranda, Cairuçu das Pedras, praia da Sumaca e o Farol na Ponta da Juatinga. Afinal, acabamos fazendo um total de nenhuma dessas atividades por motivos de cansaço e preguiça, mas estão marcados para uma próxima ida.
      O camping custou R$ 30,0 por pessoa/dia, não tem luz elétrica e nos pareceu bem equipado e estruturado. Há cozinha comunitária com fogão à lenha, banheiros com ducha fria e vários sanitários. Tudo limpo e organizado. Dizem é comum que na virada do ano o camping fique lotado (e há muito espaço para barracas) e a coisa deve ficar um tanto diferente.
      Dia 6 – Barco até a vila Oratório e viagem de volta
       
      Pegamos o barco de Martim de Sá às 7h. Quer dizer, pegaríamos, se o terceiro integrante não houvesse esquecido o horário e feito todo mundo (nós, o barqueiro e seus ajudantes) esperar por mais de uma hora enquanto ele tomava banho (!) e seu nutritivo café da manhã (!!). Ao partir, infelizmente, o barco acabou atravessando de cheio uma onda grande molhando a todos e especialmente o coleguinha perfumado, que estava com o celular na mão. Coincidentemente, esse também foi um dos momentos em que se podia ver o barqueiro sorrindo largamente numa demonstração simples, mas perfeita, do que é a verdadeira felicidade. Sem qualquer rancor no coração, assim também nos sentimos.
      O traslado de barco custou R$ 400,00 dividido pelos passageiros, cabendo quatro no máximo. Como éramos três, ficou em cerca de 130,0 para cada. O mar estava agitado e por isso o barco ia navegando por grandes ondas se formando. Nada extremamente perigoso, mas aquela dose bacana de adrenalina para começar o dia. O barco nos deixou em um pequeno cais no condomínio Laranjeiras, onde é preciso esperar por uma van que nos leve à vila Oratório. Todo o cuidado para que os donos do pedaço não se misturem com a gentalha, é inacreditável. Após atravessar esse pequeno enclave distópico, pegamos o carro e seguimos nossa longa viagem de volta. Dessa vez, escolhemos voltar à BH pela via 040 e ficamos satisfeitos com a escolha. A viagem fluiu melhor em uma estrada mais conservada (na maior parte).
      Chegamos, enfim, cansados mas renovados por essa constante passagem entre o selvagem e o urbano. A região toda da Juatinga é incrível e a única certeza é a obrigação de voltar e conhecer mais e melhor a infinitude de praias, cachoeiras, picos, pessoas e costumes.
       
       
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