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olá pessoal! estou planejando fazer Santiago de Compostela de bike em 2010 na primavera de preferencia, porém tenho disponibilidade o ano todo e ainda não tenho data definida. Pretendo sair de Saint Jean Pied de Port.

Alguém interessado? mesmo que seja companhia apenas até o início da viagem em Saint Jean.

Interessados me add no msn: [email protected]

São Pedro - SP

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  • 3 semanas depois...

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  • Membros de Honra

por Carlois em Dom Jan 09, 2005 2:12 pm

Bem vou escrever um pouquinho da minha peregrinação a Compostela.

Eu estava em Lourds com meu melhor amigo. Esse lugar com certeza é santo onde se ve muita fé e a Ordem dos Hospitaleiros, com suas capas pretas e cruz vazada branca, vive até hoje. A Basilica do Rozario lhe leva naturalmente a oração, a procição das velas é maravilhosa e beber um pouco da agua de Lourds faz bem. Lá conhecemos 2 peregrinos que estavam indo para Compostela e já tinha ido para lá inumeras vezes. Pegamos umas informaçoes e fomos.

Nos começamos pelo caminho da plata saindo da França em SanJeam. Lá peguei a credencial do peregrino e tambem me deram uma concha. Dormimos no camping da cidade pois o Albergue já estava lotado.

Já o primeiro dia impressiona. É uma travessia pelos pyrineus chegando em uma hospedaria centenaria. Na missa a noite tem a benção dos peregrinos. Muitos sairam da celebração emocionados.

Fomos até Estela, conhecendo muita gente, rezamos e pensamos na vida. Nesse trecho se passa pela fonte de vinho, por contruções templarias, romanas, plantações de girassol e ja se vive um pouco das providencias divinas.Tivemos a alegria de encontrar Pablito um senhor que vive de ajudar os peregrinos e ele me deu um cajado.

O caminho estava muito traquilo. Tem albergue no maximo a cada 25Km foi quando resolvi ir para o cominho do norte que tem menos estrutura e migramos para Bilbal. Tivemos a sorte grande de encontrar Angel, um senhor que ajuda na estruturação do caminho do norte até Compostela. Ele nos guiou até a saida da cidade que é gigante e com um campo industrial que não para de crescer e destruir as marcas que conduzem os peregrinos(setas e conchas amarela pintadas por ai, e uns azulejoss tambem)

O caminho agora fica mais autentico em todo o percurso só encontramos 6 peregrinos os albergues que muitas vezes não existiam estavam em consideravel distancia e pedir refugio começa a ser normal.

O unico lugar onde realmente nos perdemos foi em uma floresta onde os caminhos se bifurcavam muito mas saimos de lá depois de umas 3h.

Chegamos a Santilhana Del Mar onde um abade nos acolheu e alem de nos mostrar diversos livros antigos e boas historias nos confessou e me deu uma cabaça para o cajado e uma pena de pavao para enfeita-lo. Falou da autenticidade da nossa peregrinação e inspirado nos seus livros fizemos uma modificação no roteiro onde andando por 3 dias passando pelos Picos de Europa de onde se chega a Lebano onde passando pela porta santa que se abre a cada 4 anos se venera a cruz de liebano. Com certesa valeu a pena. Tambem se ganha uma credencial para o caminho de liebano e um papel ao final.

Segimos ate Leons e passamos pela junção dos 3 caminhos ate Compostela. Começa a ter mais vegetação arboria, se encontra os amigos que permaneceram no caminho da plata. E se chega a basilica do Apostolo depois de poucos dias recepcionado pela missa aos peregrinos e o turibalo gigante.

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  • Membros de Honra

por jgmiguel em Ter Out 18, 2005 1:50 pm

 

 

 

Fiz o Caminho de Santiago, sozinha, em 30 etapas, partindo de Saint Jean Pied-Du-Port, no dia 11 de maio e chegando à Santiago em 09 de junho de 2004. Foi "Ano Santo"

 

CUSTOS: média 25,00 Eruos/dia -

Total de 30 dias: 750,00 Euros

Passagens: por volta de 850,00 Dólares

Esta experiência foi um divisor de águas na minha vida !!

 

 

09 / 05 / 04 - Domingo -

- Saída de Cumbica- às 15:45 hs.

Além de ser o "Dia das Mães", é um dia muito especial, e de muita emoção para mim. É o dia da minha viagem ao misterioso "Caminho de Santiago". Um sonho acalentado há muitos anos. Estou muito feliz !!

Embarco em Cumbica, às 15:45 hs. Chegando ao aeroporto, identifico mais 4 peregrinos, porque estão com mochila e cajado. A viagem segue tranquila.

 

10 / 05 / 04 -

Chegada à Madri, às 06:00 hs, (horário local),

Duração do vôo - 09:15 hs.

Conexão Pamplona - às 10:10 hs

Chegada à Pamplona - às 11:00 hs.

Chegada à Saint Jean Pied du Port- França - 13:00 hs

Preço do táxi (Van)- até S.J.P.Port - 75,00 Euros - (Divididos por 5 pessoas)

Chegada à S.J.P.Port- às 13:30 hs.

 

Estamos em 5 brasileiros. Chove muito, e faz frio. Embarco numa conexão no aeroporto em Madri, e chego ao aeroporto de Pamplona às 11:00 hs. Alugamos um táxi, que era uma Van, que nos leva até SJPP. Dividimos as despesas, 15,00 Euros, para cada um. Chove e faz muito, mas muito frio. Tinha até gelo na estrada. Hoje foi um dia difícil para encontrar o que comer. Não entendíamos nada do cardápio, entrávamos e saíamos, daquilo que nem sabíamos se era um restaurante. Uma hora, entramos num lugar que parecia ser um restaurante, e quando adentramos, todos os homens que estavam lá, nos olharam espantados. Saímos rapidamente, fechando a porta atrás de nós. Depois de muito entra e sai, de abre e fecha porta, com muita dificuldade, conseguimos almoçar uma comida que não foi a mesma que pedimos. Aqui, em S. Jean, também comprei meu cajado. Foi meu companheiro mais fiel, e presenciou todas as minhas emoções, sem reclamar !!

Fui dormir cedo, assim como as outras pessoas. Mas quando foi por volta das 21:30 hs, saímos do albergue, e fomos andar pela linda cidadezinha de Saint Jean. Vi o Arco, nas muralhas medievais, por onde ia passar no dia seguinte. Era lindo demais. Cheio de luizinhas encrustradas nas pedras, que brilhavam feito vaga-lume. Se não tivesse ido aquela hora na rua, não teria visto aquela beleza.

 

1° dia - 11 / 05 / 04 -

SAINT-JEAN-PIED-DE -PORT / RONCESVALLES - 25 km

- Saida de S. Jean Pied-Du Port, às 07:45 hs

- Chegada à Roncesvalles às 17:15 hs

 

Foram 09:30 hs de uma caminhada cansativa. Fazia muito frio, chovia muito. Havia muito barro, subida, muita neblina, e muita dor nos pés. Tive que seguir a rota por Valcarlos, pois a rota napoleônica estava impedida, pois havia dias, que a neve não baixava. O caminho por Valcarlos, também é muito bonito. Caminha-se uma parte na perigosa "carreteira", cheia de curvas fechadas, mas entra-se nos bosques muitas vezes. A subida do Pirineus é belíssima, com um vale à esquerda e o rio que nos segue por todo o caminho. A floresta é densa, e a mata de um verde sem igual !! A chegada em Roncesvalles, foi difícil por causa da chuva, e frio. Havia muita neblina, e muitas vezes fiquei sozinha no bosque. Senti muito medo, e não enxergava nada à minha frente por causa da intensa neblina, mas não podia parar.

 

2° dia - 12 / 05 / 04 -

RONCESVALLES / LARRASOAÑA - 27 km. -

- Saida de Roncesvalles às 07:30 hs

- Chegada à Larrasoaña ás 16:30 hs

Foram 9 hs de caminhada com muita chuva. Éramos 6 pessoas. Mas logo depois de Espinal, não vejo mais ninguém. Subo o Monte do Erro, que é muito difícil, muito irregular e pedregoso. Chovia muito forte, muito barro, e muito frio. Meus pés doíam muito, tinha muitas bolhas. Fiquei só, e não vi os brasileiros. Caminhei sozinha, tive muito medo num trecho com muita neblina, no meio do mato e não se enxergava nada. Livrei-me de vários escorregões, graças ao meu cajado. Neste dia, não deu pra descansar nada, pois nem tinha lugar para parar, nem para sentar, pois era só lama, e água. Meus pés estavam que era um trapo. Atolo num barreiro, que quase perco meu tênis lá dentro !!! Pensei que não fosse chegar nunca. Chego em Larrasoaña, o albergue está cheio, e alguns peregrinos me disseram: Não tem vaga ! Mas conversei daqui e dali, e consegui dormir no chão. Hoje foi um dia triste, bateu insegurança, solidão, frio. O que será que estou fazendo aqui? Dormi na recepção do albergue, junto com as duas italianas e mais 3 peregrinos.

 

3° dia - 13 / 05 / 04 -

LARRASOAÑA / PAMPLONA - 15.9 km -

- Saída de Larrasoaña às 07:00 hs

- Chegada à Pamplona, às 11:00 hs

O trecho é bom, fácil, e muito bonito. Estou bem, sem dor. Não dormi direito, mas me recuperei bem. Foram somente 4 horas de caminhada, passando por uns pueblos bem bonitos. Depois de 2 dias puxados, hoje foi um presente. O albergue é ótimo, mas quando chego ele ainda está fechado, mas encontro com alguns brasileiros, também esperando pela abertura do albergue. Foi uma alegria enorme encontrá-los.

 

4° dia - 14 / 05 / 04 -

PAMPLONA / PUENTE LA REINA -23.5 km.

- Saída de Pamplona às 6:00 hs.

- Chegada à Puente La Reina às 14:30 hs.

Saimos em 4 brasileiros, mas acabo ficando para trás. Fico sozinha. Acho maravilhoso. Vou observando tudo. Os sons, os cheiros.... cheiro todas as flores que vejo pelo caminho...., ouço o barulho dos meus passos no chão de pedregulho, e o ritmo do meu cajado, batendo firme no solo. Às vezes converso com outros peregrinos de outras nacionalidades. Isso enriquece minha alma ! Subi a Serra do Perdon, é lindíssima, e muito alta. É uma trilha no meio de uma mata baixa, tipo arbustos. O trecho é difícil, mas vale à pena. Venta muito !! E a trilha vai até os cata-ventos, lá no alto. A descida, é dolorosa e cruel. Muita pedra, e desço bem devagar para não escorregar. Trecho de Muruzabal são campos floridos e multicoloridos. Faço um desvio para chegar à Eunate, que fica no caminho Aragonês. Caminho por uns 3 quilometros sem ver ninguém. Às vezes penso que me perdi, mas tenho que manter a calma. A igreja de Eunate, é octogonal, construida pelos Cavaleiros Templários no século 12. Não estou sozinha. Dentro da igreja há alguns peregrinos. A paz é imensa.... o estado é de graça, o fundo musical é belo, e acalma a minha alma. Senti naqueles instantes, que não deveria ter medo de mais nada. Senti que nunca estive e nunca estarei sozinha. Alguém olha por mim .... e está aqui comigo !!! Sinto uma energia muito forte a me dominar, que me impulsiona mais e mais a caminhar !! Saio da igreja e vejo muitos ciclistas chegando. Pego meu caminho, segura, e confiante. Depois de ter caminhado por 8:30 hs, estou em Puente La Reina. Penso foi o meu melhor dia !!

 

 

5° dia - 15 / 05 /04 -

PUENTE LA REINA / ESTELLA - 22 km -

- Saída de Puente às 7:00 hs.

- Chegada à Estela às 13:30 hs.

Neste trecho fizeram um desvio, e tive que subir um morro, muito íngrime, no meio do mato. É pesado demais, mas vou devagar. O albergue é bom. O trecho todo é de média dificuldade, e passa-se por um pueblo chamado de Cirauqui, que é muito lindo, com calçadas romanas. Hoje foram 6:30 hs de caminhada.

 

6°dia - 16 / 05 / 04 -

ESTELLA / LOS ARCOS - 21.8 km

- Saída de Estella às 7:00 horas.

- Chegada à Los Arcos às 12:30 hs.

Estamos em 5 brasileiros, novamente. Mas me distancio de todos e chego à Los Arcos sozinha, depois de 05:30 hs de caminhada. O trajeto é relativamente fácil. O albergue é bom e alegre. Fizemos o nosso almoço. Assisto uma missa de corpo presente, e fico admirada.

 

7°dia - 17 / 05 / 04 -

LOS ARCOS / LOGROÑO - 28 km.

- Saída de Los Arcos, às 05:50 hs.

- Chegada à Logroño às 14:30 hs.

Paramos numa praça em Vianna, para fazer um lanche. Sentados no chão da praça, despojamento total..... Este trecho é de dificuldade média, mas está muito quente. O albergue é excelente, tem internet, e uma fonte para fazer escaldapé. A torneira do tanque é temporizada e logo fecha!!! Não dá pra lavar a roupa !!! Pode isso?? Hoje foram 8:40 hs, de caminhada.

 

8° dia - 18 / 05 / 04 -

LOGROÑO / NÁJERA - 29 km.

- Saída de Logroño às 5:50 hs

- Chegada à Nájera às 14:00 hs.

Caminhada de 8:10 hs. O trecho é fácil, mas é feio, muito sol, setas mal colocadas na saída de Logroño, e na entrada de Nájera, as setas não são visíveis. Não gostei do albergue. Banho frio. Neste dia passamos por um lugar chamado Navarrete, e vimos uma enorme cerca que nos acompanhava pela estrada afora. Havia muitos, mas muitos pauzinhos ou gravetos, entrelaçadas nesta cerca, que iam decorando-na, em forma de cruzes. Nós também deixamos a nossa por lá. Hoje, também li, num muro, o poema mais lindo sobre o caminho. Isso compensou o feio trajeto.

 

 

 

9°dia - 19 / 05 / 04 -

NÁJERA / SANTO DOMINGO DE LA CALZADA - 21 km

- Saída de Nájera às 5:45 hs.

- Chegada à Santo Domingo, às 11:15 hs.

Foram 5:30 hs de caminhada. Hoje o trecho foi fácil, quase plano, muita plantação de trigo e ervilha. O albergue é ótimo, mas fiquei indignada, pois cobra-se ? 1,50, para visitar a igreja. Mas na hora da missa do peregrino, às 20:00 hs, entrei e visitei tudo sem pagar nada !!! Na hora da eucaristia o galo cantou 3 vezes, e fiquei admirada. Dentro da igreja conserva-se um galinheiro com um casal de galos. Existem várias lendas sobre o Caminho de Santiago, e esta do "GALO" é uma delas.

 

10° dia - 20 / 05 / 04 -

SANTO DOMINGO DE LA CALZADA / BELORADO - 22.9 km.

- Saída de Santo Domingo, às 5:45 hs.

- Chegada à Belorado às 11:30 hs.

Caminhada de 5:45 hs. Sem problemas. O trajeto é fácil, paisagem muito verde, plantações. Albergue médio. Fica ao lado da Igreja.

 

11°dia - 21 / 05 / 04

- BELORADO / SAN JUAN ORTEGA - 24 km -

- Saída de Belorado, às 5:45 h.

- Chegada à San Juan Ortega, às 12:00 hs.

Foram 6:15 hs, de caminhada. Neste dia estávamos em 3 brasileiros. Depois fico só. O trecho é médio, porém depois de Villafranca Monte de Ocas, subi por um caminho muito íngrime, no meio de um bosque de pinheiros, muito bonito, mas de um grau de dificuldade acentuado. Caminho por este bosque umas 4 horas, o que dá mais ou menos uns 12 quilometros, sozinha e sem ver ninguém. Apenas passaram por mim dois ciclistas. É um monte de pinheiros secos, e por várias horas fico só. Bateu aquele ..... mas não posso ter medo, eu dizia, não estou só !!!! Cantava, falava, dançava, e olhava pra trás...... e nada !! Cantava, falava novamente, e nada !!! De vez em quando via uma setinha amarela, que indicava o caminho certo. Quando menos espero, caio dentro de San Juan Ortega. O albregue é gratuito, e por isso é bem fraquinho. A água é fria. Mas isso não é tão importante nestas alturas!! O mais interessante foi que lavei a roupa na fonte lá na rua, e estendia-se a roupa no varal, no meio da rua mesmo. O pueblo é bem pequeno, só tem um bar, a igreja e anexo a esta, o albergue. Mas eu gostei. O túmulo do Santo está dentro da Igreja. E lá também tem o episódio do equinócio. Mas eu não vi, porque não era o dia.

 

12° dia - 22 / 05 / 04 -

SAN JUAN ORTEGA / BURGOS- 28 km

- Saída de S.Juan Ortega, às 5:45 h.

- Chegada em Burgos - às 13:30 hs.

Estávamos em 4 pessoas. O dia não tinha clareado, ainda permanecia muito escuro, e tinha neblina. Em Atapuerca, o trecho é descampado, e surge muitas dúvidas, qual caminho seguir. Há algumas dúvidas nesta local, pois os descampados tem várias trilhas. Estava dificil. Em um determinado trecho, havia uma cruz, e os dizeres; "FINAL DO CAMINHO DE SANTIAGO". Era assustador !!!! Que final era este??? Por fim aquilo não era nada !!! Ainda bem !! Mas, chegamos às 13:30 em Burgos, depois de andar por 7:45 hs. Passando por Villafria, Gramonal, numa área industrial muito grande, e feia, com lixões, para atravessar. Foi muito estressante a chegada à Burgos. Parecia que não ia acabar mais. Meus pés doiam !!! O albergue ficava na saída da cidade, mas é bonito e bom.

 

13°dia - 23 / 05 / 04 -

BURGOS / HONTANAS - 30.5 km.

- Saída de Burgos às 6:45 h.

- Chegada à Hontanas às 13:30 hs.

Foram 6:45 hs de caminhada. Trecho fácil, plantação de trigo, muitas flores, muito verde. Bonito mesmo. O pueblo fica num vale. Quando menos esperamos, vê-se o pueblo lá embaixo. O albergue é bom, mas está cheio. Então, fui levada a um alojamento fora do próprio albergue, mas o banho.... estava ótimo !!! Depois de caminhar por tantas horas, um banho quentinho e comida é tudo que precisamos. Mas não tinha comida. O único comércio que havia, era um bar muito sujo... deplorável. Comi algumas coisas que tinha na sacola, e esperei pelo jantar do albergue.

 

14° Dia - 24 / 05 / 04 -

HONTANAS / BOADILLA DEL CAMINO - 28.6 Km.

- Saída de Hontanas às 05:35 hs.

- Chegada à Boadilla às 13:15 hs

Foram 07:45 hs de caminhada.

Este trecho é um caminho fácil, e muito bonito, porém um morro muito íngrime, alto e muito seco, na saída de Castrojeriz, me deixou sem fôlego. O albergue é ótimo. O Dudu, e sua família, atende os brasileiros com muito carinho e atenção. Ao som de música de Toquinho, entre outras, foi o que nos fez sentir em casa.

 

 

15° Dia - 25 / 05 / 04 -

BOADILLA DEL CAMINO / CARRIÓN DE LOS CONDES - 25.3 km

- Saída de Boadilla às 05:45 hs.

- Chegada à Carrión, às 12:30 hs.

São 19 quilometros caminhando numa grande planície, sem, absolutamente nada !!! É tudo reto, o cansaço é grande, os movimentos repetitivos, e o tédio toma conta de mim. Em Carrion, uma parte do Monastério de Santa Clara, que funciona como albergue, é ótimo. Tudo silencioso, pois os Monges, moram lá, na clausura. Aqui o pueblo é grande. Chovia um pouco mas mesmo assim, fui ao supermecado, comprar minha comida, e suprimentos para o dia seguinte. Fiz o almoço na cozinha do albergue.

 

 

 

16° Dia - 26 / 05 /04 -

CARRIÓN DE LOS CONDES / TERRADILLOS DOS TEMPLARIOS - 26.2 km.

Novamente, aquela planície era a minha companheira. Caminhei por 17 quilometros sem nada. Muitissimo cansativo. Tive muitas bolhas, que doíam, e uma dor na perna esquerda me preocupava muito. Por final, chego ao albergue, que não era nada ruim. Bem razoável. Mas quase não consigo subir as escadas, por conta da dor na coxa. Foi aquela planície toda !!!! Não tinha nem uma subidinha, nenhuma curvinha, tudo reto !!! Este pueblo era bem pequenino, e não tinha nada pra ver. Fiquei no albergue a tarde toda.

 

17° Dia- 27 / 05 / 04 -

TERRADILLOS DOS TEMPLARIOS / EL BURGO RANERO - 31.3 km

- Saída de Terradillos às 05:45 hs;

- Chegada à El Burgo, às 14:15 hs.

Saio com mais alguns peregrinos, mas logo nos separamos, e acabo caminhando somente com a Terezinha. Foi a minha sorte. Por hoje, ela foi o meu anjo da guarda. Logo pela manhã, antes de chegar à Sahagun, minha perna doía muito... estava insuportável. Parava para aplicar spray analgésico... e a Terezinha lá comigo. Pensei em ficar em Sahagun, mas era por volta das 09 horas da manhã. Então paramos e tomei um remédio, apliquei mais spray.... a dor acalmou, e eu decidi seguir. Decisões são tomadas a toda hora. Em Bercianos Del Camino, paramos novamente, e dessa vez, sentadas num café, foi um momento crucial. Minha perna estava muito mal, sentia muita dor..... não sabia se ia ou ficava. Chorei de agonia e dor. Passei mais uma vez o spray, tomei outro remédio, e ela, a Terezinha, estava ali, me segurando a barra... decidi proseguir. Nesta hora ela foi essencial. Foi o meu porto seguro. E isso porque nunca combinamos de caminhar juntas !!! Um dia eu sou a seta, outros dias sou guiada. E assim se faz o caminho !!! Depois de 8:30 hs caminhando com muita dificuldade , cheguei em El Burgo Ranero. Foram 31,3 quilometros de muita dor, mas muita consciência dos meus limites. Puro desafio !!!!!!!

Eu estava com o joelho inchado, e Ana, a espanhola fisioterapeuta, fez-me uma massagem de dar inveja !! Sarei da perna. Ficou tudo resolvido. Estes são os verdadeiros anjos do caminho! Estava pronta para caminhar os quase 40 quilometros até León, no dia seguinte.

 

18°Dia - 28 / 05 / 04 -

EL BURGO RANERO / LEÓN - 39 km

- Saída de El Burgo Ranero, às 05:45 hs.

- Chegada à León, às 15:30 hs.

Foram 09:45 hs de caminhada e estresse. Cidade grande é assim. Muito estressante. Caminha-se por rodovias, às vezes sem acostamento, trânsito intenso, em auto pistas. Trecho muito plano, passando por Mansilla de Las Mulas, que é um lugar muito bonito. A entrada de León é muito ruim, mas o albergue é ótimo. Um banheiro enorme, com máquinas de lavar e secar.... um banho à altura. Estou cansada, mas mesmo assim caminhamos até a Catedral de Leon, e demos umas voltas pela cidade. Minha perna continua inchada, mas não dói quase nada !!

 

19° Dia - 29 / 05 / 04 -

LEÓN / SAN MATIM DEL CAMINO - 30 km

- Saída de Léon, às 07:00 hs.

- Chegada à San Matim, às 15:30 hs.

A saida de León é ruim, mal sinalizada, atravessando muitas estrada. Nosso plano, hoje era chegar à Hospital de Órbigo, e então saimos, eu, Terezinha, e Fernando. Mas um certo trecho, estávamos muito cansados, e decidimos fazer um desvio perpendicular ao caminho que estávamos, e parar em San Martim del Camino. Com isso tivemos que caminhar por mais uns 3 ou 4 quilometros. O que faz muita diferença pra quem não consegue mais andar de tanto cansaço. Foram 8:30 hs de caminhada. Mas ao final chegamos !!! Albergue bom, tem cozinha !! Deu pra fazer um belo macarrão com atum !!

 

20° Dia - 30 / 05 / 04 -

SAN MATIM DEL CAMINO / ASTORGA- 25 km

- Saída de San Martim el Camino - às 06:00 hs.

- Chegada à Astorga às 12:30 hs.

Logo pela manhã, passamos em Hospital de Órbigo. Um lugar muito lindo, com uma ponte medieval belissima. O trecho até Astorga, é calmo, bonito e tranquilo. Depois de 6:00 hs caminhando, chegamos em Astorga. O hospitaleiro nos avisa que o comércio está pra fechar, já que era domingo. Então, foi só largar tudo na cama, e sair correndo pra comprar alguma coisa pro almoço, janta e café da manhã.

 

21° Dia - 31 / 05 / 04 -

ASTORGA / FONCEBADÓN - 26.3 km

- Saída de Astorga - às 06:10 hs.

- Chegada à Foncebadón - às 13:20 hs.

Foram 7:10 hs de caminhada, com muitas subidas. Saindo de Astorga, já começa uma lenta subida, que quase não se percebe. Trecho muito bonito, e depois de Rabanal del Camino, que por sinal é belíssima, sobe-se por uma serra pessadíssima, muito íngrime, pelo asfalto, sem acostamento, por mais ou menos 1:20 hs. Todo o trecho é belíssimo. Os pueblos são todos em pedra. Foncebadón é um pueblo isolado, inóspito, e destruído. Queria mesmo ficar lá. E adorei !! O albergue é razoável. O alojamento não é muito bom, e as duchas não tem portas, somente cortinas, e são fora dos banheiros. Faz muito frio e venta muito.

 

22° Dia - 01 / 06 / 04 -

FONCEBADÓN / PONFERRADA - 27.4 km

- Saída de Foncebadón - às 06:30 hs.

- Chegada à Ponferrada - às 14:35hs.

Saindo de Foncebadón, sobe-se por uma serra, em asfalto, atravessando uma cadeia de montanhas... lindíssimas. Faz muito, mas muito frio, e o vento corta nossa face. Tem muita neblina, a estrada é estreita e não tem acostamento. Não consigo ver a peregrina Terezinha, que fica perdida na névoa atrás de mim.... é tudo muito emocionante. Parece um filme !!!! Chega a Cruz de Ferro que é o ponto mais alto do caminho. Não podemos desfrutar muito da cruz, pois faz muita neblina, e não se enxerga quase nada. Decepcionei-me um pouco com o local da Cruz. Achei que fosse um lugar diferente, mas fica num monte de pedras, à beira de uma estrada. Já tinha visto em fotos, mas pensei que fosse diferente. Logo passo pelo refúgio de Manjarin. É um lugar místico do Caminho, no meio da estrada. Lá o hospitaleiro Tomás, costuma fazer o Ritual da Espada, mas eu não vi, pois passei muito cedo. Depois de muito subir esta montanha, começo a descer, agora, pela mata. Os pueblos deste trecho, são todos belíssimos. El Acebo, fica num vale, e é lindissimo, todo em pedra. As descidas são bruscas, com trechos todos pedregosos, no meio de muito verde. Mais algumas descidas, chegamos à Molinaseca. Um belo pueblo. Chegamos à Ponferrada muito cansados, com muito calor. Foram 8:05 hs de caminhada. Fomos acolhidos, com suco e bolachas. Os hospitaleiros foram muito atenciosos conosco. O albergue é excelente. Parece uma grande pousada. Mas na hora do almoço, levo uma chamada de 4 hospitaleiros, porque eu estava fritando bifes, e não podia fazer fumaça na cozinha. Os sensores de fumaça podiam disparar e criar tumulto. Eles ficaram todos em volta de mim, até que eu apagasse o fogo. Paguei o maior mico !!! Comemos os bifes mau passados, e sem cebolas. Hummmm que ruim !!!

Hoje foi um dia de muitas emoções, um dia de grau de dificuldade muito grande, mas belíssimo.

 

23° Dia - 02 /06 / 04 -

PONFERRADA / TRABADELO- 35.3 km

- Saída de Ponferrada às 05:50 hs.

- Chegada à Trabadelo às 15:45 hs.

Trecho relativamente fácil até Villafranca del Bierzo. Depois disso foi muito pesado. Hoje, havia muitas cerejas no caminho. Comi muitas delas. Caminhei um pouco angustiada, acho que é saudade. O sol estava forte. Chegando à Villafranca, visito o albergue Fenix, e lá encontro com um hospitaleiro brasileiro, que nos recebe com muita atenção. Depois seguimos pela estrada em direção à Trabadelo. Optamos pela estrada e não pela mata. A mata parecia ser mais difícil, com muito mais subidas, e o calor era intenso, estávamos cansados. Porém a estrada, também não era nada fácil, pois o solo era quente, e o sol na cabeça, não trazia nada de bom. À nossa esquerda, encontrava-se uma densa floresta muito verde, num vale, margeada pelo barulho do rio. À direita seguia-se um morro pedregoso muito alto, margeando ao longo da interminável estrada. Cheguei à Trabadelo muito cansada, com muitas bolhas, o albergue privado era pequenino, mas bom. Havia poucos peregrinos por lá !! Hoje caminhamos por quase 10 hs !! Esta foi a melhor noite de sono !!!

Amanhã subiremos o tenebroso Cebreiro.

 

24° Dia - 03 / 06 / 04 -

TRABADELO / ALTO DO POIO - 28 km

- Saída de Trabadelo, às 05:55 hs.

- Chegada ao Alto do Poio às 14:20 hs.

A saida de Trabadelo, continua pela estrada, como no dia anterior. Mas é compensador, porque a paisagem é bonita, e o barulhinho o rio é música para nossos ouvidos. Depois de Herrerias, começa a subida. Os pueblos são bonitos, Vega de Valcarce, Ruitelán... Até o Cebreiro, são mais ou menos uns 7 quilometros, de subida... subida.... e mais subida. Mas é belíssimo, olhar todo aquele maravilhoso vale, todo cheio de montanhas. Parece que estamos chegando no céu de tão alto !!! Sinto uma forte tranqüilidade, e a paz reina nas alturas deste lugar !! A subida exige silêncio e assim o fizemos. Cebreiro é maravilhoso, místico, com suas palhoças de origem célticas, porém não passa de um lugar comercial. Chego muito cedo, por volta das 11:30 hs, o albergue ainda está fechado. Eu sigo adiante. Posso caminhar por mais algumas horas, e ainda é muito cedo pra parar. Vou juntamente com o Fernando. Já, saindo do Cebreiro, caímos numa estrada, e por ela caminhamos por cerca de quase três horas, chegando assim, no Alto do Poio, depois de subir, no finalzinho, uma trilha muito curta, mas parecida com um paredão de tão alta, caindo, diretamente, na porta do albergue, que era um restaurante à beira da estrada. Caminhamos hoje, por cerca de 8:20 hs. Não havia mais nada, neste local. Ventava muito.

 

25° Dia - 04 / 06 / 04 -

ALTO DO POIO / SARRIA - 35 km.

- Saída do Alto do Poio - às 05:45 hs.

- Chegada à Sarria às 17:20 hs.

Foram 10:30 hs de cansativa caminhada e muito sol. Muitas subidas e descidas, muitos bosques, pois já estamos na Galicia. Samos é belissima. Paramos em Samos, para descansar. Eu decidi ir pelo bosque, até Sarria, e faltavam mais ou menos uns 15 km. Estava muito quente. Foram horas duríssimas de muito calor. Pensei que não agüentaria tanto cansaço. Acho que foi o dia mais cansativo. Na chegada de Sárria, atravessa-se a cidade, e ainda por cima, sobe-se uma enorme escadaria antes de chegar no albergue !! Ninguém merece isso !!! Eu estava exausta, os pés latejavam de tão doloridos. Mas cheguei !!! Venci mais um dia. Não posso desanimar !!

 

26° Dia - 05 / 06 / 04 -

SARRIA / PORTOMARIM - 24 km

- Saída de Sarria, às 07:00 hs.

- Chegada à Portomarim às 12:30 hs.

Caminhei por 5:30 hs, por entre lindos bosques, que formavam um túnel, de tão fechados que eram. Lindos.... fresquinhos.... verdinhos... Quando se chega à Portomarim, também sobe-se uma grande escadaria, para chegar ao albergue. Este encontrava-se fechado, mas a fila era muito grande de mochilas no chão, na espera da abertura do albergue. Este havia inaugurado no dia anterior. Era tudo novinho. Hoje deu pra fotografar o pôr-do-sol, porque o albergue fechava às 23:00 hs, e lá demora muito pra escurecer. Às vezes temos que ir dormir com a claridade do dia !!!

 

27° Dia - 06 / 06 / 04 -

PORTOMARIM / PALAS DE REI - 25 km

- Saída de Portomarim às 05:40 hs.

- Chegada à Palas, às 11:30 hs.

O trecho é médio, com poucas subidas, mas eram bem ingrimes. Poucos bosques. Em Ligonde encontro uma mesa de café, montada na rua, gratuitamente, para os peregrinos, Este é o verdadeiro espírito da peregrinação !!! Entro no albergue de Ligonde, para selar minha credencial, mas vejo, sentados à mesa do café, um grupo de pessoas, que entoavam uma belíssima canção, que parecia ser um cântico religioso, ou um mantra, todos muito concentrados e afinadíssimos. Emociono-me muito e choro, sem selar a credencial, saio do albergue. É tudo muito lindo, e aquele som era tudo que precisava ouvir, hoje. Caminho um pouco distante das outras duas pessoas. Fico pensando.... refletindo sobre este caminho que decidi fazer. Porque será que estou aqui? A cada placa que vejo, marcando a distância à Santiago, sinto vontade de chorar. É um misto de alegria e tristeza. Uma confusão de sentimentos !! O albergue de Palas está fechado. Fico na fila, esperando abrir. Estou em contagem regressiva. Tenho muitas bolhas, mas tenho vontade de caminhar sempre mais e mais. Sinto que a partir de hoje preciso ficar espiritualmente sozinha. Telefono pra casa !! Tenho saudade da familia... A emoção é grande. Não sei se quero terminar o caminho, não sei se quero parar o tempo !!! Está duro de segurar.

 

 

 

28° Dia- 07 / 06 / 04 -

PALAS DE REI / ARZÚA - 28 KM.

- Saída de Palas, às 05:10 hs.

- Chegada em Arzúa às 11:45 hs.

Hoje saio muito cedo. Por entre os imensos bosques, está muito escuro, nem vejo por onde piso. Logo clareia, preciso caminhar só. A dor começa a me incomodar. Tenho dor no quadril, e caminho lentamente. Passa algumas pessoas por mim, e perguntam se estou bem. Digo que sim. Mas não consigo caminhar rápido. Fico ansiosa, mas tenho que prosseguir. Chego ao albergue, e tenho que esperar abrir.

 

29° Dia- 08 / 06 / 04 -

ARZÚA / MONTE DO GOZO - 34.5 km

- Saída de Arzúa às 06:10 hs.

- Chegada ao Monte do Gozo às 16:30 hs.

O trecho foi médio, sem muitas dificuldades, mas muito longo. Tem muito bosque. Eu e Terezinha fomos bravas e fortes para chegarmos até aqui. Caminhamos por mais de 10 horas !!!! Chegamos ao albergue muito cansadas. Este lugar é maior do que eu pensava, mas não é bonito. Imaginava outra coisa. Só faltam 5 quilometros para Santiago. Nem acredito !!!!! Daqui dá pra ver as torres, da Catedral de Santiago. Formando agulhas, apontando para o céu !! Estou calma, e disse que amanhã não choraria. Só estou aguardando a hora. Ainda não posso dizer que venci. Não atravessei ainda, na Porta Santa.

 

30° Dia - 09 / 06 / 04 -

MONTE DO GOZO / SANTIAGO - 5 km

- Saída do Monte do Gozo às 06:40 hs.

- Chegada à Santiago - às 07:40 hs

E por uma hora, caminhei muito à frente da outra brasileira, e ela respeitou minha decisão. Era um momento muito especial, e cada uma precisava deste momento. Foi somente por uma hora, mas, foram momentos intensos. Pois havia chegada a hora final. Depois de tantos sonhos, tanta preparação, muitas dificuldades, entre choros e alegrias, decepções, e dores, e muita determinação, estava alcançando meu objetivo. Mas agora eu entendi porque estava na frente. Ela era minha guardiã, pois eu ia chorando muito, e nem via as setas, quando lá de trás ela me chamava e dizia: é pra cá ! A passagem pela parte urbana da cidade é ruim. Eu atravessava as ruas, sem perceber, é tudo muito urbano e comercial. Mas quando avistei à Catedral, esperei por ela, demos as mãos e chegamos juntas à Porta Santa. Não havia ninguém, eram 07:40 hs, estava tudo tranqüilo, e pudemos passar pela porta, Santa, e praticar todo o ritual da peregrinação, sem que nada nos atrapalhasse, naquela hora. Era pura emoção. Poucas palavras foram ditas.. A emoção era muito forte !!! Depois de procurar uma hospedagem, voltamos para assistir a missa, e claro, com as mochilas nas costas, e cajado em punho !! Ele me serviu de apoio até na hora da missa, quando segurou as minhas lágrimas!!

 

Sinto-me uma peregrina completa.... mas meu "Caminho", não termina aqui.... ele está, simplesmente começando !!!!

 

Boa Viagem [Dance][Dance]

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  • 2 meses depois...
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Pessoal, conforme foi relatado por um colega aqui o site que tem praticamente tudo sobre o caminho é: http://www.caminhodesantiago.com/ ::otemo::

Se quiserem algo mais, podem procurar uma associação dos amigos do Caminho de Santiago em sua cidade.

Vou para o Caminho dia 31/03/2010 saindo de SJPP e retorno 07/05/2010 (se DEUS quiser). já estudei muito o caminho e já falei com muita gente.

Se quiserem trocar umas idéias : [email protected]

Se alguem tiver o trajeto do Caminho francês mapeado por GPS eu agradeceria muito.

Abraços.

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Se alguem tiver o caminho Francês mapeado por GPS eu agradeceria muito, pois irei fazer no periodo de 31/03/2010 a 07/05/2010 e pode ser que em alguns locais esteja nevando e os sinaios dificies de ver.

Se alguem tiver... e puder me ceder eu agradeço!

Na minha viagem irei com o GPS e vou trazer (com fé em Deus) todo o caminho mapeado e cheio de dica.

Tomem o site muito bom!

Abraços.

 

http://www.caminhodesantiago.com/ ::otemo::

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  • 1 mês depois...
  • 4 meses depois...
  • 2 meses depois...
  • Colaboradores

Olá, amigos aventureiros! Ou melhor, peregrinos!

 

Encontrei este tópico sem querer e ao ler as mensagens eu me vi transportado ao passado, pedalando no meio de campos de girassóis floridos e por plantações de videiras sem fim! E dormindo em povoados minúsculos, seculares e cheios de histórias e lendas.

Fiz o trajeto de bicicleta em 1999, ano do Jubileu. Por conta das comemorações, o rei Juan Carlos estava lá.

Putz, ele nem me convidou pra tomar um vinho! Se bem que eu preferiria uma água mineral com a Penélope Cruz! Sem o Almodóvar!

Sobre as belezas naturais, sinceramente eu acho que os trekkings Monte Roraima, Serra Fina, Petrópolis-Teresópolis, Vale do Pati (Chapada Diamantina) e o Inca Trail (via Salkantay) possuem paisagens mais belas do que o Caminho de Santiago.

Sim, é um pensamento particular, principalmente porque cada caminhada tem seu encanto e seus objetivos!

E a trilha até Compostela envolve algo único, que são os encontros diários com vilarejos isolados, construções seculares e muita história. E convivência enriquecedora com pessoas do mundo todo.

A trilha espanhola tem a ver com a reflexão sobre a vida, cada peregrino com seus motivos.

Eu fui por motivação turistica. E esportiva.

No final do caminho, percebi que há algo a mais nesta aventura.

Apesar de (até hoje) ver a questão do Santo Thiago como algo turístico/comercial, na minha caminhada eu encontrei um lado espiritual muito forte.

Sim, também fui envolvido por uma atmosfera religiosa intensa.

Relembrar fatos e acontecimentos que vivi por lá me traz muita emoção.

Espero refazer o Caminho de Santiago em breve.

Boa sorte a todos os peregrinos! ::otemo::

Luis

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  • 5 meses depois...
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Pessoal,

 

Acabou de me surgir a idéia de fazer o caminho em Agosto. Quero fazer o francês.

 

Como tenho apenas 3 semanas, pelo jeito não será possível fazer 100% a pé. Talvez intercalar trechos de bike, sei la.

 

Vi que tem muita coisa para pesquisar, mas estou um pouco perdido por onde começar.

 

Se alguém tiver alguma dica pra eu começar a esboçar um roteiro, agradeço!

 

Abs!

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    • Por Vanessa Suk
      Relato Caminho Português de Santiago de Compostela
      Primeira vez escrevendo um relato de viagem, e como toda primeira vez tem que ser especial, esse relato é sobre uma viagem muito especial. A experiência mais incrível até hoje, difícil, intensa, enriquecedora.
      Desde a primeira vez que ouvi falar sobre o Caminho de Santiago eu quis percorrê-lo e foram mais ou menos seis anos até que esse sonho pudesse ser realizado.
        Eu sempre gostei de caminhar, me dá a sensação de liberdade. E neste caso não seria apenas caminhar, seria uma longa jornada passando por muitas cidades e pequenas vilas que eu desconhecia completamente ou apenas ouvira falar de seus nomes. Seria muito mais do que caminhar ou querer apenas alcançar um destino, afinal, se a intenção fosse apenas chegar existiam maneiras mais fáceis do que andar centenas de quilômetros a pé. Percorrer o Caminho de Santiago tem um significado muito particular para cada um de seus peregrinos, cada pessoa com quem encontramos pelo caminho tem uma história de vida, uma história com o caminho e um porque só seu de estar ali.
      O Caminho de Santiago de Compostela é uma das peregrinações mais conhecidas em todo o mundo. A peregrinação tem como destino final a cidade de Santiago de Compostela na região da Galícia na Espanha, onde por volta do ano 830 d.C. foi encontrado o túmulo do apóstolo Tiago. A noticia dessa descoberta foi levada ao rei Afonso II de Astúrias que viajou até o local da descoberta partindo da sede de seu reino. Chegando lá e após confirmar a descoberta mandou construir uma capela e tornou-se o primeiro peregrino oficial. Dessa forma surgiu um dos mais importantes centros de peregrinação cristã.  Ao longo dos séculos, milhares de pessoas têm percorrido os caminhos que levam a Santiago de Compostela em busca de reflexão, autoconhecimento e para professar a sua fé.
      Existem muitas rotas para se chegar até Santiago de Compostela e alguns pontos mais conhecidos e procurados para iniciar o percurso, porém na verdade cada um pode iniciar o seu caminho onde bem quiser. Após muita pesquisa, leitura sobre o caminho e planejamento., resolvi que dos muitos caminhos que levam a Santiago de Compostela iria percorrer o Caminho Português Central.
      O Caminho Português é a segunda rota mais utilizada para se chegar até Santiago de Compostela na Espanha, perdendo apenas para o famoso Caminho Francês, cujo percurso total tem aproximadamente 800 km e costuma ser feito de 30 a 40 dias passando por diversas regiões da Espanha. Ainda é um sonho caminhar esses 800 km, mas diversas razões me levaram a escolher para essa primeira vez o Caminho Português Central. A principal razão é que essa seria a minha primeira vez em uma experiência desse tipo, uma peregrinação que exige tantos dias de caminhada. Eu nunca tinha feito antes um trekking que durasse vários dias, por exemplo, então, mesmo não sendo uma pessoa sedentária eu não fazia idéia de como meu corpo reagiria a um esforço tão prolongado. Nos meses que antecederam a viagem me preparei fisicamente, fiz muitas trilhas em montanhas, caminhadas e musculação para fortalecer o corpo e isso tudo foi bem importante. Enquanto planejava me encantei pela idéia de caminhar pelo norte de Portugal e por parte da Galícia na Espanha e a viagem ia então tomando forma.
      Cada viajante faz seu próprio caminho. É o que se diz a respeito dos peregrinos. Oficialmente esse caminho inicia em Lisboa. Segundo muitos relatos não há muitos albergues peregrinos municipais entre o trecho Lisboa e Porto, por isso a grande maioria das pessoas opta por iniciar no Porto e foi o que decidi fazer também. Mas com certeza em outra oportunidade com mais tempo disponível gostaria de fazer esse Caminho iniciando em Lisboa.
      Partindo da Catedral da Sé no Porto até alcançar a Catedral de Santiago de Compostela foram 245 km de caminhada em 11 dias.

       Antes de detalhar cada etapa da minha peregrinação quero descrever um pouco os dias de viagem em Portugal que antecederam o seu inicio. Infelizmente não tenho uma planilha de gastos, pois sou péssima com isso. Em todas as viagens anoto os gastos nos primeiros dias e depois acabo deixando isso pra lá quando percebo que o dinheiro vai ser suficiente. (RS) Não vou detalhar muito essa parte da viagem, mas sim eu gostei bastante dessa etapa. Encantei-me com a hospitalidade dos portugueses desde o primeiro momento, a maioria com quem conversei demonstrou gostar dos brasileiros. Em Portugal tem muitos brasileiros também, nos restaurantes, hostel e em toda parte. A maioria bastante solicita com a recém chegada que era eu.
       
       
      Chegada em Portugal
      Não é toda hora que a gente pode fazer uma viagem à Europa em tempos de real tão desvalorizado, então antes de rumar a Santiago de Compostela a idéia era conhecer um pouco de Lisboa e Coimbra a ultima cidade a ser inclusa no roteiro.
      Cheguei a Lisboa no dia 13 de agosto no período da manhã. Vôos noturnos pra mim são bem cansativos, pois raramente consigo dormir, mas o vôo foi bem tranqüilo. Vôo da Cia aérea Azul, que saiu por um preço razoável após muitos dias de pesquisa (R$ 2850,00 aproximadamente ida e volta saindo de Viracopos para Lisboa e a volta do Porto para Lisboa). Ter comprado um vôo multitrip ( quando a ida e a volta são rotas diferentes, como nesse caso) foi ótimo para a logística da viagem, assim pude conhecer duas importantes cidades antes de fazer o caminho e no final não precisei voltar até Lisboa.
      A imigração em Lisboa foi bem tranquila, a funcionaria que me atendeu não perguntou nada sobre dinheiro ou seguro (embora o seguro seja obrigatório) me perguntou quanto tempo eu ficaria por lá e eu expliquei que faria o caminho e a moça me pareceu bem curiosa sobre isso.
      Em Lisboa é muito fácil se locomover com o transporte público, fui de metrô até o Brothers Hostel  que já estava reservado.  O hostel fica a poucos minutos de caminhada do centro e da Avenida Liberdade.  Cheguei ao hostel por volta das 10 horas da manhã, o check-in seria somente às 15 horas, porém o local cobrava um valor por hora para deixar a mochila lá antes do check-in... Achei aquela recepção bem frustrante e claro, não paguei, fui dar uma volta pelas redondezas com meu mochilão nas costas. Fora isso a recepção do hostel nem sempre tinha pessoas que falassem português, apenas inglês, o quarto era um pouco apertado, o café da manhã era muito bom, tinha uma cozinha para esquentar comida e os banheiros estavam sempre limpos. Bom custo benefício.
      Apesar de bastante cansada, já nesse primeiro dia foi possível ver e me encantar com muita coisa. A famosa Praça do Comercio, os Arcos da Rua Augusta, o rio Tejo, que tanto me lembrou dos antigos poetas.  A região central mais antiga é repleta de monumentos históricos e estatuas que homenageiem personagens importantes portugueses.
      Em agosto o verão europeu está no auge, nesses dias que passei por lá fez bastante calor, porém no fim da tarde sempre batia um vento gelado. É a alta temporada de férias dos europeus então havia turistas para todos os lados, pessoas com diferentes idiomas pelas ruas, restaurantes e praças.  Apesar da cidade parecer bem cheia como a minha intenção não era pular de um ponto turístico a outro isso não foi um problema, mas a fila era notável em alguns locais.
      No segundo dia fui conhecer o bairro do Belém. Foi um dos lugares que mais gostei em Lisboa. Novamente usando o transporte público, metro e comboio (trem). Não fui a nenhuma atração paga e foi um dos dias mais proveitosos. Conheci o Padrão dos Descobrimentos, que com sua imponência homenageia os navegadores portugueses que desbravaram os mares ao longo da história. A famosa Torre de Belém que eu queria muito ver, em frente à torre tem um parque cujo nome não me lembro e seguindo em frente fica o museu do combatente.
       Após almoço no Café do Forte bem próximo a Torre de Belém, atravessando a avenida e caminhando um pouco fica o Centro Cultural do Belém e logo depois o Mosteiro dos Jerônimos, onde havia visitação gratuita, uma igreja imensa e muito bonita por dentro e por fora. Depois segui para um lugar bem tradicional onde foi inevitável pegar uma fila grande, Pastéis de Belém, o verdadeiro é feito nessa pastelaria, em todos os outros locais chamam de pastel de nata. Não é um lugar caro, cada pastel custa 1,15 euros. Comprei alguns e fui comer em outro parque bem pertinho dali com bastante sombra para descansar daquele calorão.
      Ainda no fim da tarde mais uma caminhada até o MAAT, Museu de arte, arquitetura e tecnologia, onde na área externa tem-se uma bonita vista do rio Tejo. Passei ainda pela Ponte 25 de Abril que liga a cidade de Lisboa com a cidade de Almada. Na ponte há uma visita guiada que eu queria ter feito, mas devido ao horário não foi possível.
      No dia seguinte fui conhecer outros bairros em Lisboa. Bairro Alto, Alto Chiado e Santa Maria Maior, no Bairro alto você pode chegar usando o elevador de Santa Justa, o tradicional bonde (eléctricos) ou apenas subir a ladeira que foi o que eu fiz.
       O almoço foi na Fabrica da Nata, uma pastelaria tradicional com preços acessíveis, além dos pastéis de nata que custa um euro, há diversas opções de sanduíches quentes ou frios e vinhos.
      Foi mais um dia batendo perna pela cidade. Encantei-me pelas paisagens na freguesia de Santa Maria Maior, onde fica o Castelo de São Jorge, À tarde, novamente na Baixa de Lisboa, resolvi provar o gelato na Amorino´s, na casquinha o gelato é servido em formato de flor.
      Dia seguinte parti para a cidade de Coimbra. Viagem de ônibus de quase duas horas que custou 14,50 euros (comprei a passagem no terminal de ônibus, mas comprando antecipadamente provavelmente sairia mais barato).
      Em Coimbra fiquei hospedada no NX Hostel que eu recomendo muito pela minha experiência lá. Todos os funcionários foram atenciosos e simpáticos. O hostel funciona em um antigo casarão reformado e as instalações não deixam a desejar em nada. O café da manhã tem muitas opções e é servido em uma área externa, local bem agradável para começar o dia. Fiquei em um quarto misto para 4 pessoas. O hostel fica na Praça da Republica e bem perto da Universidade.
      A famosa Universidade de Coimbra é a alma da cidade, uma das universidades mais importantes de Portugal e até do mundo é impensável ir a Coimbra e não visitar a Universidade. A visita é gratuita e pode-se circular por quase todos os complexos. Bem próximo dali fica o Jardim Botânico, um lugar enorme com inúmeras espécies de arvores e plantas.
      Coimbra é uma cidade grande com certo charme de cidade pequena. O centro histórico com suas ruas estreitas, a Catedral da Sé, O Seminário Maior onde se tem uma vista do alto da cidade e com certeza um passeio pela margem do rio Mondego não pode faltar.
      Coimbra foi a ultima cidade a ser incluída em meu roteiro. Não gosto da idéia de ficar pulando de cidade em cidade sem conhecer nada direito. Gosto de ter tempo para apreciar as coisas sem correria, andar e gastar mais tempo onde achar interessante. Por isso não parei em muitas cidades nesses dias antes do caminho e não me arrependo. Coimbra foi inclusa também por ser uma das mais importantes cidades no caminho entre Lisboa e a cidade do Porto, e a idéia era fazer um roteiro seguindo nessa direção.
      Foram dois dias ali e mais uma vez mochila nas costas, hora de partir para o Porto.  A viagem de ônibus durou cerca de uma hora e custou 12,50 euros.  Nessa primeira passagem pela cidade me hospedei no Alma Porto hostel, que fica a poucos minutos de caminhada do terminal de ônibus o que facilitou bastante a minha chegada. Afinal quem viaja de forma independente sempre tem aquela estranha sensação de chegar a um lugar novo e pensar “e agora pra onde vou?”.  Nesse caso foi só caminhar algumas ruas.
      O hostel era também um grande e antigo casarão, com paredes de pedra, quartos grandes e espaçosos. Apenas o café da manhã era fraco, mas no geral um bom custo beneficio.
      E desde a chegada à cidade onde iniciaria minha peregrinação um misto de felicidade e ansiedade ia tomando conta de mim.
       Fiz o check-in no hostel me acomodei e fui em direção a Rua de Santa Catarina almoçar no Fabrica da Nata, além de já conhecer e gostar de lá não queria perder tempo procurando um lugar para comer.  A  Rua de Santa Catarina é uma importante região comercial, tem lojas, restaurantes shoppings e camelôs por toda sua extensão.
      Lembro que quando saí de Lisboa pensei em passar os próximos dias antes do caminho fazendo passeios mais pontuais, mas por mais que eu quisesse passar um tempo desacelerando antes de começar a peregrinar eu não conseguia. Não consegui não andar pra cima e pra baixo em Coimbra e tampouco consegui no Porto. Eu não esperava ver tudo em poucos dias, mas de qualquer forma era a minha primeira vez no velho continente, e em todos esses lugares por onde passei tinha a sensação de ter muita coisa para ser vista, muita coisa que valia a pena ser vista. Sempre gostei muito de história e em Portugal a história se mostra em toda parte, tudo é bastante antigo é um país que valoriza muito a sua história e como brasileira me identificava muito com essa história da qual estava conhecendo um pouco mais nessa viagem. Então tudo bem eu não desacelerei aproveitei o que foi possível desses dias no Porto enquanto tratava dos últimos preparativos para a minha grande jornada rumo a Galícia.
      Antes da viagem me disseram que o Porto tem uma atmosfera um pouco mágica e é verdade. No bairro da Ribeira às margens do Rio Douro, sentindo a brisa gelada do final de tarde eu tive essa mesma sensação sobre a cidade. Caminhei pelas estreitas ruas de paralelepípedo, algumas abarrotadas de turistas, fique impressionada com a estação São Bento, que de fora nem parecia uma estação de trem, visitei a torre dos Clérigos e o mercado Bolhão.
      Um dia antes do inicio do meu caminho era a hora dos últimos preparativos. Passei em um mercado perto do hostel e comprei algumas coisinhas pra comer durante o dia seguinte. Passei também em uma loja de produtos eletrônicos onde pedi pra darem uma olhada no meu celular que não estava carregando direito. Disseram-me que o problema era o cabo, então comprei outro cabo para carregar o celular e achei que o problema estava resolvido. Voltei ao hostel, deixei lá as coisas que havia comprado e parti em direção a Catedral da Sé.
      Tinha algumas dúvidas sobre o inicio do caminho então pretendia ir até o Centro de Acolhimento a Peregrinos do Caminho de Santiago, na Capela Nossa Senhora das Verdades que fica numa rua logo abaixo a Catedral, porém o local estava fechado. Fui então ao centro de informações turísticas onde uma funcionária muito solicita me deu um mapa do percurso do caminho na cidade do Porto e me explicou a diferença entre as setas que indicam o caminho central e as setas que indicam o caminho da Costa. Na verdade não teria como confundir os dois caminhos, mas só percebi depois.
      O caminho de Santiago é todo sinalizado por setas amarelas, então basicamente é só seguir na direção das setas até o próximo ponto de parada. Mas eu ainda não estava muito segura se seria realmente tão simples e se o caminho principalmente nessa região tão urbana seria bem sinalizado então com o mapa na mão resolvi seguir as primeiras setas do caminho para “estudar” esse inicio do percurso e confesso que me atrapalhei um pouco, num certo ponto a seta apontava para uma rua que teria que atravessar e depois eu não achava a outra seta. Claro, eu tinha o mapa, mas queria entender a lógica das setas. Não era mesmo difícil segui-las e fui treinando o percurso até chegar numa rua não muito longe da Catedral e que seguiria numa reta quase interminável e claro vi pelo mapa que dali era muito simples seguir.
       Em lugares que não conheço muito bem eu tenho a grande tendência de me perder e não tenho muito senso de direção, então um dos maiores medos que eu tinha era de me perder e acabar perdendo tempo indo na direção errada, mas verificando essa pequeno trecho do caminho eu me senti mais preparada para não cometer erros desse tipo.
      Faltava apenas comprar uma vieira de Santiago, uma concha com a cruz de Santiago que me disseram que eu encontraria na Torre dos Clérigos. Na verdade encontrei a vieira em uma loja de artigos religiosos quase em frente à torre que custou muito mais caro do que custa em qualquer outro lugar...  Enfim, erros que a gente acaba cometendo em viagem, mas não pague mais do que 1 ou 1,50 euros por uma vieira.  A vieira é um dos mais conhecidos  símbolos do caminho de Santiago e eu queria sim tê-la na minha mochila  no dia seguinte.
      Voltei cedo para o hostel naquela noite, deixei tudo o mais organizado possível para o dia seguinte e separei a roupa que ia usar.  Eu raramente consigo dormir cedo, mas queria ao menos deitar cedo e descansar um pouco o corpo.
      Caminhando
      1° dia. Do Porto até Vilarinho, 26,9km

      Acordei por volta das cinco e meia da manhã. Nunca fui fã de acordar cedo então já estava começando a superar um grande desafio. Como tinha deixado tudo organizado me arrumei bem rápido, tentando não fazer barulho e apenas com a luz de uma lanterna para não incomodar as outras pessoas do quarto. Em poucos minutos já estava na rua ainda com céu escuro, caminhando em direção a Catedral da Sé.
      Do hostel até a Catedral teria que caminhar mais ou menos 25 minutos e como queria ir por um caminho mais curto e diferente dos que tinha feito antes, pedi informação a um senhor na rua e o mesmo me disse que para ir a pé a catedral estava muito longe, mas me indicou o caminho de qualquer forma. Já que distancia não era um problema pra mim segui para o ponto zero da minha caminhada já com o dia amanhecendo.

      A imensa Catedral da Sé no Porto parece ainda mais imponente nas primeiras horas da manhã. Sem a multidão de turistas, o céu ainda adquirindo as cores daquele novo dia e naquele grande pátio em frente à catedral apenas algumas pessoas de mochila nas costas que tinham com certeza o mesmo destino que eu. Fiz ali uma oração, pedi a Deus para guiar meus passos no caminho. Sentei em um degrau, comi alguma coisa e tomei um suco. Logo em seguida comecei a seguir as setas amarelas.
      Como havia estudado esse primeiro trecho do caminho, não tive dificuldade. Caminhei firmemente, sem pressa, no meu ritmo.  Quando o caminho chega à Rua de Cedofeita se estende numa reta quase sem fim e foi seguindo por ali que escutei o primeiro “Buen Camino” do meu caminho e aquilo encheu meu coração de alegria. Mais a frente, parei em um mercado para comprar água e me atrapalhei para voltar ao caminho certo...
      Nesse primeiro dia a paisagem é predominantemente urbana. Muitos carros, apenas ruas de asfalto e bairros industriais. Em alguns pontos mal havia acostamento para caminhar e era preciso tomar bastante cuidado com os carros. Ainda estava tudo bem diferente do caminho que imaginei.  Apenas chegando a Moreira da Maia a paisagem urbana vai se distanciando dando lugar ao verde do interior.  O calor era intenso, não havia muita sombra.
      No município de Araújo comecei a caminhar com o Ricardo, que é português e com quem conversei muito sobre muitas coisas. Fomos até a cidade de Vilarinho, onde nos hospedamos no albergue particular Casa de Laura por 12 euros (valor normalmente cobrado nos albergues particulares). O lugar era bem confortável e não havia muitas pessoas hospedadas lá. Após tomar um banho e lavar as roupas saímos para comer perto dali.
      Vilarinho é uma cidade bem pequena, não havia nada para fazer por ali. Como não estávamos cansados Ricardo e eu fomos até a praia de uber a poucos minutos dali.  Um passeio bem inusitado e bem agradável.
      2° dia. De Vilarinho a Barcelos 28,1km


      Acordei bem disposta, me alonguei como café da manhã, comi bolinhos que ainda tinha na mochila e pé na estrada novamente.  A paisagem era completamente diferente do dia anterior e o caminho tomou outra forma. Muito verde, ruas de paralelepípedo, um rio bem tranqüilo que refletia a ponte sobre ele. O cenário ideal para caminhar e se conectar com o caminho e com você mesmo.
      Você pode escolher caminhar sozinho, mas sempre haverá no seu caminho boas companhias. A conversa sempre começa com um “buen camino”, a saudação oficial no caminho de Santiago e logo se tem um novo companheiro de jornada, ainda que seja apenas por algumas horas ou alguns quilômetros. 

      Nessa manhã conheci um grupo de mulheres que estavam caminhando juntas  desde a saída de seu albergue e me convidaram a caminhar junto com elas e claro, eu aceitei.  Eram elas, Maria, de Portugal, Cecilie, uma jovem indonésia que mora na França e Katerine, uma senhora canadense.  Conhecer pessoas tão diferentes de mim é certamente um dos presentes que o caminho nos oferece. Juntas nós quatro caminhamos alguns bons quilômetros naquele dia de baixo de um sol muito forte que parecia só piorar com o passar do dia.

      Cecilie eu na verdade já tinha visto no dia anterior em um café, andava rápido, estava sempre um pouco à frente, Maria foi com quem eu mais conversei, foi uma grande companheira nesse dia. Katerine, uma inspiração pra mim, estava fazendo o caminho aos 65 anos de idade, infelizmente não pode seguir conosco até o final naquele dia, pois estava bem cansada e precisou parar antes.
      Seguimos em frente, passando por plantações de milho, bosques, ruas de terra, ruas de asfalto, muitas igrejas e para minha felicidade vários campos de girassóis. Foram longos trechos sem sombra alguma, poucos lugares com água potável e depois do almoço foi ainda mais cansativo.  Maria e eu paramos varias vezes para descansar. Cecilie sempre na frente até que a perdemos de vista.  Levamos muitas horas até chegar a Barcelos.
      A cidade é bem turística, logo na entrada tem um enorme galo, um dos símbolos de Portugal. Infelizmente estava tão cansada que não consegui ver muita coisa da cidade.
      Chegando ao albergue Cidade de Barcelos, após um penoso dia o lugar estava lotado. A senhora responsável pelo local nos disse que só havia um pequeno quarto onde poderíamos dormir em colchões se não nos importássemos em dividir o lugar com uma garota que já estava lá. Não nos importamos e a garota era Cecilie que havia chegado um pouco antes. Nesse albergue não havia um valor específico para pagar, era só fazer uma doação com valor que pudesse pagar colocando o dinheiro em uma caixinha.
      Foi nesse dia que fiquei sem celular, pois meu aparelho quebrou. Não havia o que fazer sobre isso além de me conformar. Felizmente para tirar fotos tinha levado uma câmera e tinha um tablet então não fiquei completamente incomunicável.
      Maria teve muitas bolhas nos pés, teve que ir ao centro médico e infelizmente não iria seguir no caminho. O quartinho onde estávamos no albergue era bem abafado então para não passar tanto calor à noite pegamos nossos colchões e nossas coisas e aceitamos a sugestão da dona do local e dormimos na recepção do albergue. Simples assim, sem frescura, grata por mais um dia na jornada que eu havia escolhido. Na simplicidade você percebe que tem tudo àquilo que precisa.
      3°dia De Barcelos até Portela de Tamel 10 km

      No caminho de Santiago nenhum dia é igual ao outro. A paisagem muda constantemente, o tipo de solo muda quase que a cada curva. Algumas pessoas você encontra varias vezes ao longo dos dias, outras caras novas vão surgindo. Com o passar dos dias o corpo vai sentindo o esforço prolongado também. Doem os pés, as pernas as costas... Às vezes alguma dor vai incomodar bastante. Tem dias em que é mais fácil se manter em movimento, em outros, você quer parar a todo instante.
      A única rotina consistia em acordar bem cedo, me arrumar, arrumar a mochila e partir. E ao chegar ao próximo local de descanso, tomar um banho, lavar a roupa e comer. Não dava pra fugir disso. 
      Nesse terceiro dia Cecilie e eu seguimos juntas. Devido ao cansaço do dia anterior, fizemos uma das etapas em duas partes, caso contrario seria um percurso de quase 34 km e o calor estava fortíssimo. Não havia muitas opções de albergues antes de chegar a Ponte de Lima, então nesse dia o trajeto foi de apenas 10 km até Portela de Tamel, uma vila minúscula onde além do albergue havia uma igreja, um restaurante e mais nada.
      Por ter feito um trajeto mais curto que os outros dias foi relativamente mais fácil. Cecilie e eu conversamos bastante apesar do meu inglês não ser dos melhores. Nesse dia encontrei um casal de brasileiros, até então não havia encontrado ninguém do Brasil.
      Chegamos ao albergue por volta das 10 horas da manhã e o local só abria às 14 horas. Ficamos esperando abrir no restaurante em frente onde tomamos algumas cervejas. Não havia nada para fazer por ali então foi um dia de descanso.
      4° Dia De Portela de Tamel até Ponte de Lima 23,7 km


      Mais um dia de lindas paisagens. O caminho te leva por bosques, trilhas, videiras. Provavelmente um dos dias mais bonitos em relação ao visual em todo o trajeto. A paisagem jamais te deixa entediado.
      Comecei o dia sozinha novamente. Em paz com meus pensamentos. Apreciando a minha companhia, com um longo caminho ainda pela frente, mas firme em cada passo.
      Ainda nas primeiras horas do dia conheci o Alberto, um italiano que me fez companhia durante todo esse dia. Alberto não falava muito bem inglês e eu também não, mas quando duas pessoas querem se comunicar elas dão um jeito de se entender e assim passamos o dia. Às vezes ele não me entendia e eu tinha que repetir alguma frase ou eu não o entendia e ele se esforçava pra me falar com outras palavras.
      Com o passar dos dias as suas pernas vão se acostumando com o esforço, mesmo assim ainda doem, principalmente quando você para por alguns minutos. Alberto às vezes caminhava junto comigo e às vezes eu acabava ficando para trás.
       Seguindo tranquilamente num percurso bastante agradável, com bastante sombra, cruzando pequenas vilas, trilhas em meio à natureza e nisso um sentimento de gratidão vai se intensificando. Gratidão por estar ali no caminho e tudo dar tão certo. Naquele dia já havia me acostumado bem a acordar tão cedo, pular da cama e em pouco tempo estar no meu caminho. Para muitas pessoas isso é simples, mas eu definitivamente não sou uma pessoa matinal, há anos trabalho no período da tarde, sempre tive o costume de dormir tarde, mas nessa jornada consegui transpor mais essa dificuldade e sim eu estava orgulhosa de cada pequena conquista durante todo o meu caminho.
      Eu que sempre me considerei muito distraída e avoada, aprendi a estar atenta. Por muitas vezes eu me perguntava se estava no caminho certo e quase sempre quando pensava isso logo via outra seta amarela para tirar minhas incertezas. Então logo eu pensava. Ok está tudo certo é só continuar seguindo, você está indo bem.
       Em muitos momentos eu sentia que o caminho é uma metáfora da vida. Na vida a gente às vezes fica confusa sem saber se está no lugar certo, no emprego certo, com as pessoas certas, a gente quase implora por um sinal, mas a falta de um sinal também pode indicar que estamos tomando o rumo errado. No caminho e na vida também.
      Nesse dia cheguei a Ponte de Lima por volta do meio dia. Quase não senti a caminhada, não senti o cansaço que geralmente sentia na chegada. Reencontrei o Alberto na ponte principal da cidade, ele já havia ido até o albergue público e como só abriria às 15 horas, procuramos um lugar para almoçar e tomar cerveja, porque aquele calor pedia uma cerveja gelada.
      Ponte de Lima é uma das cidades mais encantadoras desse caminho. Com certo ar medieval, construções muito antigas em paredes de pedra, banhada pelo rio Lima. Muitos peregrinos iniciam ali o seu caminho e a cidade estava também cheia de turistas.
      O albergue público ficava logo depois da ponte, em um edifício muito antigo como quase todos da cidade. No quarto onde fiquei havia uma varanda com uma linda vista da cidade e principalmente da ponte e do rio. O quarto era enorme com aproximadamente 30 camas, o único que não eram camas beliche e tinha um armário enorme para cada pessoa, um luxo para um albergue público.
      Foi ótimo ter chegado cedo à cidade, acabou sendo um dos dias mais proveitosos. Alberto e eu fomos passear no rio, tentei tomar sol, enquanto ele entrou na água que parecia gelada.
      É engraçado como em tão pouco tempo a gente se aproxima das pessoas que conhecemos em viagens a ponte de ter conversas tão sinceras e reflexivas sobre a vida, os planos, o futuro...  Alberto é muito inteligente, mesmo sem falar inglês tão bem falava pelos cotovelos e naquela vibe boa praticamos um pouco de yóga.
      Saímos dali, novamente para sentar em um bar e tomar uma super bock, uma das cervejas mais tradicionais em Portugal. À noite jantamos junto com outros italianos e Alberto ia traduzindo a conversa toda para mim.
      5° Dia de Ponte de Lima até Rubiães 17,9 km

      O caminho vai nos surpreendendo todo o tempo. No caminho português central não há muita dificuldade técnica, no geral basta ter disposição para caminhar bastante. Porém essa etapa foge bastante à regra.
      Nessa etapa temos muitas subidas por trilhas em meio à mata e muitas pedras nessas subidas. Foi de grande ajuda nesse trecho ter um bastão de caminhada. Mesmo onde só havia trilhas de pedras as setas amarelas estavam lá, mas é preciso ter mais atenção. Houve um momento em que quase segui errado e fui chamada de volta ao rumo certo pela Carie, australiana que conheci no primeiro dia e vira e mexe reencontrava.
      E esse foi o primeiro dia caminhando sozinha. No caminho nunca se está completamente só e nessa altura já havia muitas caras conhecidas com quem reencontrava frequentemente. Eu também já me tornara um rosto conhecido para muitos deles. Ainda que não pudesse me comunicar tão bem com todos devido principalmente as diferenças de idiomas, era como fazer parte de um grupo, andávamos quase no mesmo ritmo, parávamos nas mesmas cidades, dormíamos nos mesmos albergues e até no mesmo quarto que era sempre coletivo.
      Como mulher que frequentemente viaja sozinha, a minha principal preocupação é a segurança. Em nenhum momento em todo o caminho me senti insegura ou com medo. Obviamente estava sempre atenta, como brasileira, infelizmente a gente se acostuma com a sensação de que pode estar em risco em certos lugares ou situações, mas em todo meu percurso não houve nenhum momento que tivesse sentido algo assim, mesmo caminhando sozinha por muitos quilômetros. Havia muitas mulheres de todas as idades, também fazendo o caminho sozinhas.
      No Brasil ainda existe um grande tabu com relação a mulheres que viajam sozinhas. Entre europeus e em muitos países do mundo isso é completamente normal.  Muita gente reage com estranheza quando digo que faço esse tipo de viagem sozinha, mas para mim isso já se tornou algo normal.
      Para mim é inconcebível não apreciar a minha própria companhia. Então estar ali caminhando sozinha, em paz, me parecia tão natural quanto respirar.
      Uma manhã de caminhada bem intensa, mesmo com calor e as subidas pesadas, o percurso praticamente todo teve a sombra dos bosques, o que no verão europeu é uma verdadeira benção.
      Chegando ao albergue de Rubiães faltava quase uma hora para o local abrir.  Era um lugar no meio do nada. Bem em frente ao albergue havia um restaurante fechado. Cheguei a pensar que não haveria onde comer ali. Felizmente seguindo pela rodovia havia um restaurante e um pouco mais adiante um pequeno mercado.
      O albergue era bem agradável, com salas bem arejadas e até uma área externa com espreguiçadeiras e vista para as montanhas. Foi uma tarde tranquila com tempo de sobra para descansar.
      6° Dia De Rubiães a Tuí 20 km



      Mais um dia cheio de grandes novidades nessa longa jornada. Deixando Rubiães para trás, caminhando entre bosques e trilhas, antes de encontrar um lugar para tomar o café da manhã encontrei com um peregrino alemão muito disposto a conversar e que me fez um milhão de perguntas. Felizmente ele parecia não se importar muito com meu inglês ainda mais travado devido à fome e o sono.
      A pergunta que um peregrino mais ouve é “Por que está fazendo o caminho?” E claro, o alemão me fez essa pergunta. Não há uma resposta única e exata para essa pergunta. Geralmente eu tentava simplificar a conversa dizendo que eu sempre quis fazê-lo. Mas havia muito mais do que isso.
       Aquele era o momento perfeito para fazer o caminho. Havia passado por algumas mudanças na vida, saí de um trabalho que já não me deixava feliz, me decepcionei com algumas pessoas. Não estava triste, deprimida, nem nada disso. Muito pelo contrario, eu me sentia leve, sentia que tinha tirado um peso das costas. Sentia-me rompendo com o que já não fazia sentido e fazer o caminho iria celebrar tudo isso. Era um momento para mim. Um momento de reflexão, e autoconhecimento. Uma forma de me afastar de tantas coisas e me aproximar de mim mesma.
      Desde o momento em que comprei as passagens uma semana depois de ser demitida eu me senti em paz. Não queria provar nada pra ninguém, era apenas eu sendo eu mesma, aquela que vai até o fim quando quer realizar algo. Eu queria apenas me re-conectar comigo mesma, restaurar a fé que eu sempre tive em mim, a minha coragem e a minha força pra continuar seguindo em frente. Quando contei que a viagem estava confirmada uma amiga me disse “essa viagem vai te re-equilibrar”.  Não poderia estar mais certa.
      Não falei nada disso com o alemão, mas falei sobre planos para o futuro e desejos de mudança até chegarmos num local chamado São Bento da Porta Aberta, onde paramos para o café da manhã.
      Segui caminho envolta em meus pensamentos e me dei conta que naquele dia eu chegaria a Espanha e aquilo me deu um novo gás para caminhar. O clima estava mais ameno e isso sempre ajuda no caminhar.
        Estava tão animada que parecia que eu estava flutuando, principalmente depois que comecei a ouvir música. Mas não qualquer música, só as que me trouxessem energias positivas. Não era nada prático ouvir música com um tablet, mas era o que eu tinha depois que fiquei sem celular.
      Em algum ponto antes de chegar a Valença, um casal que estava passando de carro parou ao meu lado e me fez muitas perguntas sobre o caminho, quantos dias eu já havia caminhado, quantos quilômetros e coisas do tipo. Pareciam bastante interessados e curiosos. Me ofereceram uma garrafa de água e me desejaram felicidades no caminho.
      Já em Valença do Minho, ultima cidade portuguesa no caminho português, encontrei dois dos mais simpáticos amigos desta jornada, Paolo e seu pai Roberto ambos da Guatemala. Foi uma companhia muito agradável, sobretudo em um trecho tão emblemático no caminho, afinal adentraríamos em pouco tempo na sonhada região da Galícia na Espanha. Caminhamos sem pressa por Valença cuja parte histórica estava bem movimentada, havia muito comércio voltado ao turismo e um forte de onde se via o Rio Minho e a Ponte Internacional Tuí-Valença  que separam os dois países. Vale à pena desviar-se um pouco do caminho para conhecer essa região de Valença. Paramos para uma cerveja no Fronteira, “ultimo bar português do Caminho de Santiago”. 
      Atravessamos a Ponte Internacional Tuí-Valença e iniciamos uma nova etapa do caminho. Não mudava apenas a cidade dessa vez, agora seria outro idioma, já no país de destino, o fuso horário com uma hora a mais com relação ao horário de Portugal.
      Tuí é a ultima cidade para se iniciar o Caminho de Santiago nessa rota, já que para obter a compostela, o documento emitido na oficina de peregrinos que comprova que a pessoa percorreu o Caminho de Santiago, é preciso caminhar pelo menos 100 km (para quem faz o caminho de bicicleta é necessário ao menos 200 km).

      Em Tuí me senti na idade média. Com uma catedral românica, construções de muitos séculos atrás, ruas estreitas de pedra e suas ladeiras que desembocavam perto das margens do rio. Me senti privilegiada mais uma vez por estar no caminho e assim ter a chance de conhecer lugares tão peculiares que dificilmente eu visitaria se não o estivesse percorrendo.
      Era um domingo. Os dias de verão na Europa são longos, pois o sol se põe por volta das 21 horas. Então para quem está disposto a enfrentar as altas temperaturas é uma ótima época para fazer o caminho. Dá tempo de fazer o percurso do dia, descansar e conhecer as cidades antes de cair à noite.
      Após o almoço descansei em um parque na margem do rio, perambulei pelas ruazinhas da cidade, mandei mensagem para a família informando que já estava na Espanha. Sentei numa praça para tomar sorvete e pensar no quanto já havia percorrido do caminho e o quanto ainda faltava percorrer.
      7° Dia De Tuí a O Porriño 15,6 km

      Acordei às 6 horas, dormi de novo e acordei uma hora depois, ainda confusa com o fuso horário diferente. Olhei em volta e vi que era a única pessoa ainda na cama. Tratei de pular de lá e me arrumar. Roberto quando me viu pronta para sair ficou impressionado com a minha rapidez. Encontrei um lugar para tomar café da manhã ainda antes de sair da região central da cidade. Logo depois encontrei com Franziska, uma jovem alemã que estava fazendo o caminho com a mãe e a tia e quase sempre nos encontrávamos-nos mesmos albergues. Nessa ultima etapa elas haviam pernoitado em Valença ao invés de Tuí.
      Nessa etapa já se observa um número muito maior de peregrinos, principalmente nos primeiros quilômetros, aos poucos com cada um no seu ritmo a pequena multidão vai se dispersando.
      Em Portugal o caminho sempre adentra em bosques, trilhas em meio à mata, estradas de terra ou de pedra. Quando havia alguma avenida ou rodovia, quase sempre você devia cruzá-la ou andar apenas alguns metros e já estaria novamente em meio à natureza. Mas essa primeira etapa já em solo espanhol se diferenciava bastante nesse sentido. Havia muitos trechos para percorrer em ruas de asfalto, ao lado de grandes veículos e nesses trechos em específico o caminho se torna um pouco maçante.
      Foi um percurso bem cansativo para mim. Além de caminhar em uma paisagem não tão convidativa em boa parte do trajeto, o calor estava cada vez mais intenso e eu senti nesse dia muita dor nas costas, provavelmente não havia arrumado as coisas muito bem na mochila. Sentia vontade de parar o tempo todo. Sentia certa inveja de algumas pessoas que carregavam mochilas minúsculas e pareciam estar passeando no bosque. Mas estas pessoas certamente haviam contratado o serviço que transporta bagagens até o próximo destino.
      O roteiro que eu estava seguindo no aplicativo Buen Camino indicava como próximo local de parada uma cidade chamada Mos, porém vi que seria outro lugar sem muita coisa para se ver ou fazer. Resolvi então adaptar essa parte do roteiro e decidi encerrar essa etapa um pouco antes de chegar a Mos, na cidade de O Porriño, além de aliviar um pouco o cansaço que foi grande nesse dia, simpatizei com a cidade assim que cheguei por lá.
      À tarde acabei encontrando novamente com Franziska, na avenida principal da cidade. Junto com sua mãe e sua tia tomamos uma cerveja ao estilo alemão. 
       
      8° Dia De O Porriño a Pontevedra 34,9 km

      A maior etapa desse meu caminho. E ficou ainda mais longa devido a ter encurtado a etapa do dia anterior. Poderia ter dividido essa etapa em duas parando em Redondela, mas isso renderia um dia a mais para chegar a Santiago.  Além disso, o clima no período da manhã estava bem diferente dos dias anteriores, o céu muito cinza, temperatura ligeiramente mais baixa amenizando o calor. Não imaginei que seria tão difícil chegar a Pontevedra.
      Acordei às 7 horas, o que é bem tarde para quem teria tantos quilômetros pela frente. Me arrumei voltei ao caminho, parei num café na avenida principal da cidade e quando me pus novamente em marcha já eram 8 horas. Acabei perdendo muito tempo nessas primeiras horas da manhã. Claro, não poderia deixar de tomar café da manhã. Na maior parte do caminho se você não aproveitar e parar no primeiro café aberto para tomar café da manhã ou matar a fome durante o dia pode levar muito tempo e muitos quilômetros até encontrar outro lugar para comer ou comprar algo.
      Até chegar a Redondela foi razoavelmente tranqüilo, apesar das muitas descidas para testar os joelhos. No período da tarde ainda com muito chão pela frente viriam muitas subidas. Mas o caminho é bem interessante nesse trajeto, bosques, cidades, pontes, rios, trilhas de pedras, mata mais fechada, outro bosque, outra cidade, rodovias. Um caminho longo, mas, nada maçante como no dia anterior.
      Parei para almoçar em um local simples, porem com uma vista linda e um pouco escondida ao fundo e ao sair de lá o calor já era intenso. Estava aliviada, pois tinha andado um tempão com outro peregrino que parecia não desgrudar de mim, como demorei no almoço ele resolveu seguir na frente sozinho. Mais a frente, parei um pouco conversando com algumas garotas muito animadas, uma portuguesa e outra espanhola, essa ultima contou que havia caminhado 5 km a mais porque se perdeu...
       Como elas iriam ainda demorar por ali segui meu rumo novamente. Passei por uma auto-estrada onde tive que andar ao lado de enormes caminhões. Logo depois passei pela linda cidade de Pontesampaio, que parecia ter congelado no tempo. Ali, uma senhora estava em seu quintal enquanto eu passava em frente a sua casa, com muita vontade de conversar me falou sobre ter percorrido o caminho muitas vezes e contou da sua vida, perguntou se podia ajudar em algo.

      Andei depois por um bom tempo sem avistar mais ninguém e a animação foi se esvaindo. Ao menos tinha certeza do caminho, pois era bem demarcado e cheio de sobe e desce. Quando achei que já estava bem perto o mapa mostrava uma bifurcação onde entraria em um bosque ou iria pela auto-estrada. Fui pelo bosque, que mais parecia um labirinto sem fim. Embora o aplicativo indicasse que estava indo na direção certa a impressão que eu tinha era de andar em círculos. Ia margeando um pequeno fluxo de água quando encontrei um morador local que me disse que até o final daquele bosque seriam 2 km e pela auto-estrada seria mais rápido porem não havia acostamento. Eu não queria acreditar que ainda andaria tanto para sair daquele bosque infinito, mas não tinha o que fazer.
      No albergue publico em Pontevedra não havia mais vagas. Fui até outro albergue, o Aloxa Hostel que também não tinha mais vagas e o senhor na recepção me ajudou entrando em contato com outros dois albergues na cidade que também já estavam cheios. Ele me pediu para esperar e depois de atender outras pessoas que tinham feito reserva me disse que tinha uma cama, e perguntou se eu não me importaria de ficar no quarto junto com um grupo grande. Eu estava desde o inicio dormindo em albergues públicos então porque me importaria?  Fiquei sim muito aliviada por ter um lugar para descansar, depois de tantas horas “na estrada”.
        Com certeza o senhor Pedro que me atendeu na recepção não tem idéia do quanto me ajudou naquele dia. Aquele foi o único momento em todo o caminho em que fiquei realmente preocupada. Se não tivesse conseguido ajuda lá talvez tivesse que ir a muitos outros lugares até conseguir um local para passar a noite ou gastar muito ficando em algum hotel. Ele me recomendou que eu fizesse reserva no meu próximo destino para não correr o risco de ter dificuldades com a hospedagem novamente, verifiquei as opções e ele ligou para mim e reservou.
       Me senti abençoada por ter encontrado tamanha ajuda no momento em que mais precisei. Senti naquilo tudo a magia do caminho. Eu não estaria abandonada no fim daquela jornada, eu teria um lugar para descansar, tomar um banho, lavar minhas roupas, enfim, cumprir meu ritual diário sempre que finalizava outra etapa. Eu senti o meu coração cheio de gratidão e a certeza de estar onde devia estar.
      Essa magia do caminho se manifesta das mais diferentes maneiras. Como nesse mesmo dia, quando eu caminhei quase 35 km e achei que não teria energia para mais nada além de dormir. Mas depois de tomar um banho e me alimentar eu me sentia renovada, eu me sentia leve novamente. E ainda fui presenteada naquele longo dia com outra cidade das mais encantadoras do caminho. Era como se todo o meu esforço fosse recompensado. Era mais uma vez o caminho como uma metáfora da vida. Naquele dia eu senti o caminho me ensinado que eu sempre tinha força para seguir em frente, por maiores que fossem as dificuldades. E os problemas que surgissem eu poderia contornar e eu precisava ter fé.
      Foi uma pena não ter tido muito tempo de conhecer direito a cidade de Pontevedra, pois a cidade é realmente encantadora. Com ruas de pedra, edifícios medievais, monumentos, praças e estreitas vielas, além da lindíssima Igreja da Virgem Peregrina À noite a cidade se torna ainda mais agradável. Muitos restaurantes, bares com mesas ao ar livre, uma combinação interessante entre a história tão viva em cada detalhe do centro histórico e a modernidade de uma pequena cidade turística.

      Andando por aquelas ruazinhas, já nem parecia que tinha caminhado mais do que nunca na minha vida. Me sentia relaxada, absorta por aquela cidade. Antes de voltar ao hostel, comprei um pedaço de pizza e um chá gelado, sentei na escada de uma igreja para comer e apreciar um pouco mais daquela noite.
      9° Dia De Pontevedra a Caldas de Reis 21 km


      Saindo de Pontevedra, passando pela ultima vez por seu centro histórico, ainda dominada pelo sentimento de encantamento e gratidão por aquela cidade. Nos primeiros quilômetros o caminho me lembrava uma procissão, tamanha a quantidade de pessoas.
      Não foi uma etapa tão longa, mas para mim foi com certeza a mais sofrida. Talvez pelo esforço do dia anterior, meus pés doeram muito durante quase todo o trajeto. Cheguei a pensar que acabaria com bolhas, tão temidas por todos os peregrinos. Nunca senti tanto a sola dos meus pés. Para piorar a minha situação durante esse trajeto o caminho era em sua maior parte em estradas de terra com muitas pedras, grandes, pequenas, de todos os tipos, mas muitas pedras sob meus pés já cansados.
      Usei no caminho botas de trilha intensiva, que eram um tamanho maior que o meu e também meias específicas para trilhas e até aquele dia não tive problema algum com os pés. Por iisso acho que o problema não foi o calçado e sim o cansaço acumulado que não combinou com as pedras do meu caminho. Pela primeira vez eu tive que parar, sentar em um lugar qualquer, descalçar as botas e as meias e examinar a situação dos meus doloridos pés. Felizmente nenhum sinal de bolha e não houve bolha até o fim, mas aquela dor seguiu comigo.
      Em meio a esse sofrimento, me consolava o fato de ter feito uma reserva em um albergue particular, afinal seria uma preocupação a menos. Nas cidades mais próximas a Santiago era de se esperar que os albergues públicos ficassem logo sem vagas. Geralmente custam entre cinco e seis euros e os particulares custam normalmente o dobro disso, mas às vezes vale a pena gastar um pouco mais.
      Em Caldas de Reis fiquei no Albergue Timonel, que custou 10 euros. Fica logo na entrada da cidade próximo a ponte. Um lugar simples, porem do qual não tive do que reclamar. Dividi o quarto com apenas duas pessoas, uma jovem garota com sua mãe, que também eram peregrinas. Uma companhia bem tranquila.
      A cidade de Caldas de Reis é bem pequena e tranquila. Provavelmente se não fosse o fluxo constante de peregrinos, seria uma cidade muito pacata. Com uma ponte logo na entrada da cidade, como em quase todas as cidades da região, a cidade tem uma Fonte de água termal. Uma senhora que atendia em um restaurante em frente ao albergue me deu uma maçã e me recomendou que eu fosse até a fonte e ficasse com os pés na água por uns 30 minutos, disse que ajudaria a diminuir as dores das quais eu havia lhe falado. E lá fui eu meter os pés na água quente.
      Apesar de não haver muito a se fazer ou ver na cidade, dei umas voltas à tarde. O clima estava agradável. Voltei cedo para o albergue. Aproveitei que dessa vez teria um pouco mais de privacidade para descansar.  
       
      10° Dia De Caldas de Reis a Padrón 19,2 km


      Com os pés praticamente recuperados do dia anterior segui meu rumo. Sempre no meu ritmo, sem pressão, firme e forte. Após 10 dias a mochila nas costas já fazia parte de mim. Me acostumei a acordar bem cedo dia após dia e continuar em frente. Cada dia era único, cheio de surpresas. Cada dia trazia uma infinidade de paisagens que mudavam a cada curva. Queria ter fotografado tudo, cada vez que me deparava com algo novo, cada vez que a natureza me brindava com sua beleza de maneira diferente. Mas era importante manter-me caminhando. E foi o que eu fiz. E tentei guardar tudo aquilo em fotografias mentais, aquelas imagens que vem a cabeça e te trazem um sorriso ao rosto. Aquelas memórias que vem junto com a sensação de liberdade, sonho realizado e fé.
      Em determinado ponto daquela etapa parei em uma igreja, onde havia na parte de trás um cemitério vertical. Ali conheci uma simpática família de portugueses, mais adiante conheci alguns peregrinos que viviam nas Ilhas Tenerife. Eram pessoas de muitos lugares diferentes, historias e motivações diferentes e todos com um objetivo comum ali.
      Em Padrón parecia ser o meu dia de sorte. Não fiz reserva em albergue então fui direto ao albergue municipal. Chegando lá já havia uma fila grande, inclusive havia alguns brasileiros que eu tinha conhecido vários dias antes. Fiquei com a penúltima vaga do albergue para aquele dia, e como fui uma das ultimas a conseguir vaga, fiquei em um quarto menor, com apenas quatro camas e um banheiro exclusivo. Não parecia nada com um quarto de albergue publico, onde normalmente são dezenas de pessoas no mesmo ambiente. Mais uma vez tive sorte também com as companheiras de quarto, que nesse caso eram duas garotas portuguesas peregrinando juntas e no fim da tarde para minha surpresa depois de muitos dias Cecilie chegou para ficar com a ultima vaga no albergue.


      Quando saí para conhecer a cidade a mesma já estava em plena siesta ( horário no período da tarde em que os espanhóis tiram para descansar). Havia poucas pessoas na rua, alguns turistas ou peregrinos perdidos como eu.
      Padrón foi uma interessante surpresa após a tediosa Caldas de Reis. Com quase tudo fechado relaxei por um tempo no jardim botânico da cidade, visitei a igreja de Santiago de Padrón e descansei um pouco mais sob a sombra das arvores na margem do rio em mais um longuíssimo dia de verão espanhol. No fim da tarde a cidade pareceu se encher de vida novamente. Diversas ruas exclusivas para pedestres com mesas ao ar livre, muitos bares e restaurantes onde era servido o prato típico da cidade, Pimentos de padrón.  A impressão que eu tive é que a cidade inspira certo entusiasmo ao peregrino, afinal chegar até ali significa ter superado muitos quilômetros, dificuldades, dores no corpo e todo tipo de imprevisto que possa ter surgido.
      Esse clima de ansiedade e animação era bem perceptível no albergue. Bastante gente reunida na cozinha até tarde, diferente do que costuma acontecer nos albergues, onde a ordem é o silencio e o respeito ao descanso de todos.  Mas naquela noite observei uma agitação alegre e contagiante compartilhada por todos. Não poderia ser diferente afinal, estávamos muito perto do sonhado destino.
      11° Dia de Padrón a Santiago de Compostela 24,5 km

      Acordei às 5 da manhã para iniciar a minha ultima etapa deste cainho. Acho que ninguém consegue dormir muito no ultimo dia. Tomei café da manhã bem perto do albergue, no café de D. Pepe que se despedia com abraços calorosos de cada peregrino que passava por lá.
      Saindo dali, caminhando pela primeira vez antes do sol nascer, conheci a Marta, uma portuguesa, muito querida que me fez companhia nesse dia. Eu estava há muitos dias sem falar muito português e quando comecei a conversar com a Marta parecia que estava falando sem parar. Falamos sobre viagens, sobre a vida e sobre o caminho.
      Ter a certeza da chegada mudou bastante o meu caminhar naquela manhã. Não sentia dores nas pernas ou nos pés. Não sentia o peso da mochila e não me incomodava com o calor. O dia foi amanhecendo calmamente enquanto seguia sem ver a hora passar. Mas ainda que anestesiada pela certeza da chegada, foi uma longa etapa.
      Eu me perguntava durante aqueles dias como seria a minha chegada e tive a sorte de ter nesse dia pessoas do bem e com boas energias dividindo comigo aquele momento.  Em certo ponto da caminhada reencontrei a Márcia que fazia a peregrinação junto com seus pais e mora em Viana do Castelo, cidade próxima ao Porto.  Estavam no mesmo albergue que eu no dia anterior. Contei a eles um pouco da minha história, de sair sozinha do Brasil e ir a Europa fazer o caminho de Santiago, que era um desejo antigo. Lembro que me disseram o quanto eu era corajosa por ter feito isso.
      Acho que realmente é preciso muita coragem para realizar um sonho. Não é fácil estar em um país estranho, percorrendo um caminho solitário durante tantos dias. Não é fácil tomar a decisão de fazer algo audacioso quando você está num momento de incertezas na vida. Então acho que fui bem corajosa.  Foi pensando em tudo isso que as lágrimas vieram aos meus olhos quando já na cidade de Santiago de Compostela nos aproximávamos da catedral.
      A Praça do Obradoiro onde está situada a Catedral de Santiago de Compostela é certamente um lugar que reúne muitas emoções. Finalmente eu estava lá entre risos e lagrimas. Transbordando de alegria, fé e gratidão.
      É difícil descrever a sensação que tive naquela chegada, sem dizer muitas frases que seriam puro clichê ou que até parecessem obvias demais. Eu posso dizer que foi uma felicidade e uma realização imensa estar em Santiago de Compostela após um longo caminho. Estar ali era a recompensa pela minha coragem, pela minha determinação, por cada passo dado, cada dor que eu senti no meu corpo. Era a certeza de que Deus e o apóstolo Tiago me guiaram durante todo o meu caminho. A certeza de que a minha fé nos meus passos me levou até ali.
      Depois de curtir a chegada fomos até a oficina de atenção ao peregrino onde a espera era de pelo menos duas horas para apresentar a credencial com os devidos carimbos e receber a Compostela, atestando que a peregrinação foi concluída. São emitidos dois documentos, um deles com as informações de onde foi o inicio da peregrinação, qual rota foi feita e a quantidade de quilômetros e o outro documento que é opcional e de caráter religioso e todo escrito em latim.  A Compostela custa 1,50 euros e ali também se pode comprar a vieira de Santiago e outras recordações da chegada.
      Em Santiago de Compostela
      No dia anterior havia feito reserva no albergue Sixtos no Caminho que para minha surpresa era de uma família de brasileiros. O albergue era excelente. Ambiente acolhedor, muito limpo e arejado. Cama bem confortável, tomada e lâmpada individual, além de uma cortininha para que cada um tenha um pouco de privacidade. A poucos minutos de caminhada da região central e também muito perto do terminal de ônibus, foi uma ótima escolha.
      Resolvi ficar dois dias na cidade. Depois de tantos dias eu merecia uma pequena pausa para conhecer um pouco da capital da Galícia. Uma das coisas interessantes nesses dois dias é que enquanto passeava pela cidade ia encontrando o tempo todo algum velho conhecido do caminho.
      Para todos os peregrinos, em especial aos católicos, um evento bem especial é assistir a missa do peregrino. O caminho todo é um até de fé e aquele era para mim um momento de agradecer por tantas bênçãos no meu caminho e na minha vida.  A missa na época da minha peregrinação estava ocorrendo na igreja de São Francisco, que fica bem próxima a Praça de Obradoiro, devido às obras na catedral. Outro importante ritual é o abraço ao Apóstolo, a estátua românica que recebe os peregrinos está sobre a cripta que contém a urna com as relíquias do Apóstolo, este ritual simboliza o amável acolhimento do apóstolo após o esforço da peregrinação.
      Um lugar imperdível em minha opinião é o Museu das peregrinações e de Santiago, que conta com riqueza de detalhes a historia do caminho de Santiago através dos séculos, sua origem e as mudanças e transformações nos costumes dos peregrinos ao longo do tempo. É possível conhecer também a origem e o significado de cada um dos muitos símbolos do caminho. O museu apresenta também outras importantes rotas de peregrinação pelo mundo, Roma e Jerusalém, que junto com Santiago de Compostela formam as três grandes peregrinações Cristãs mais conhecidas. O museu é gratuito aos sábados à tarde, para minha sorte justamente quando eu estava lá e também aos domingos durante todo o dia.
      Outro ponto interessante na cidade, recomendado por uma moradora local, é o mercado de abastos, a segunda atração mais visitada na cidade, onde é possível comprar diversas iguarias da região e também se deliciar com a culinária local.
      A cidade é repleta de atrações para todos os gostos, igrejas, mosteiros, parques e museus. Acho que mais interessante do que ir de um ponto turístico a outro é se permitir explorar livremente a cidade, bater perna pelo centro histórico, relaxar sem compromisso. Sentar em um café ou em uma praça e observar o movimento da cidade.
      Escolhi fazer isso na tão emblemática Praça de Obradoiro, observar os grupos animados, tirando as mais criativas fotos, muitos peregrinos cansados tirando as mochilas das costas e descalçando as botas, algumas pessoas cantando e outras fazendo suas orações. A praça estava sempre cheia de gente durante todo o dia, formando uma egrégora de paz.
      Ao menos para mim o compromisso era cumprir a minha jornada. Feito isso, a idéia era apenas curtir os próximos dias, tanto em Santiago, quanto nas cidades que viriam depois. Inicialmente  havia pensado em fazer a prolongação do caminho caminhando mais três dias até chegar a Finisterre e depois caminhar até Muxia, outra prolongação do caminho. Devido principalmente ao fato de ter poucos dias até a data da minha volta ao Brasil, resolvi manter os dois locais no roteiro, porém a prolongação do caminho ficaria para uma próxima ocasião.
      Finisterre

      A viagem de ônibus de Santiago até Finisterre dura pouco mais de uma hora. A cidade fica na região conhecida como Costa da Morte, na região costeira da Galícia. A região recebeu esse nome por causa dos muitos naufrágios ocorridos ao longo da costa rochosa e traiçoeira.
      Em Finisterre me hospedei no albergue Arasolis, que fica na rua com o mesmo nome. A cidade não tem terminal de ônibus, os mesmos param na rua principal onde fica também o guichê de venda de passagens. Após sair do ônibus é só entrar à direita e em poucos minutos encontrará o albergue.  O proprietário do local recebe a todos de maneira muito amável e alegre, contando suas historias de vida e presenteando a todos com uma concha e um cartão postal da cidade e as meninas ganham também uma pulseira. Além disso, me deu ótimas dicas sobre o que fazer na cidade. O lugar tem uma cozinha de uso coletivo. Fica bem próximo á praia também.
      Fiquei dois dias na cidade, queria aproveitar a proximidade com o mar e relaxar.  A principal atração da cidade é o Faro de Finisterre, o farol, onde termina o caminho para quem faz a prolongação do mesmo até a cidade de Finisterre.  Ali fica o totem indicando o quilometro 0,0 para os peregrinos. O farol fica a três quilômetros do centro da cidade e para chegar é só seguir as indicações na cidade e depois seguir a estrada. Uma subida bem peculiar e bonita em minha opinião, do lado esquerdo avista-se o mar e em certo ponto do caminho tem uma estátua de um peregrino. Lá em cima tem também uma loja de suvenires e um restaurante que parecia ser bem caro. 
      O farol do Cabo Finisterra, ainda ativo nos dias de hoje, é o farol localizado mais no oeste da Europa e tem grande importância para a navegação na região da Costa da Morte.  Há uma tradição entre os peregrinos de prolongar o caminho até ali e queimar peças de roupa antes de regressarem as suas casas. Conforme me recomendou El gato, no albergue deixei para ir até lá ao anoitecer para poder ver o por do sol na encosta do Cabo e valeu muito à pena. Daquele ponto ver o  sol se pondo no mar foi um espetáculo lindíssimo e até mesmo um privilégio para quem tem a chance de conhecer a cidade. É bom levar uma lanterna, pois na volta para a cidade, descendo a estrada a única luz vem dos poucos carros que passam por ali.

       
      No dia seguinte pela manhã caminhei até a praia de Langosteira, no outro extremo da cidade. Naquela manhã o vento era tão forte como eu só havia visto na Patagônia. Mesmo com a ventania a praia era muito bonita, as areias cheias de conchinhas e quase deserta a não ser pelos peregrinos que ali chegavam.
      À tarde, para minha surpresa, o tempo esquentou bastante, não havia nenhum sinal da ventania de algumas horas antes. Então aproveitei o clima favorável para tomar sol na pequena praia da Riveira.  Conheci também o Museu da Pesca, bem próximo da praia, um museu pequeno, mas bem interessante que conta a história da pesca e da navegação na Costa da Morte.
      A cidade tem alguns cafés e restaurantes, e alguns destes especializados em peixes e frutos do mar. Um restaurante que eu gostei muito foi o Baleas, fui lá duas vezes, a especialidade são as massas, muito saborosas e os preços eram razoáveis. Outro restaurante muito bom e com atendimento acolhedor, o Frontera, em frente à parada de onibus, os dois locais tinham muitas opções vegetarianas, o que não era muito comum em algumas cidades por onde passei.

      Outro lugar com um visual incrível para apreciar o por do sol é a praia Mar de Fora. Cerca de quarenta minutos de caminhada do centro da cidade até lá, mas vale muito à pena.
      Muxia

      Outra cidade na Costa da Morte onde a fé e as tradições religiosas  se ligam aos caminhos de Santiago é Muxia. Há cerca de 30 minutos de onibus saindo de Finistere, num caminho que deixou meu estomago embrulhado. Uma cidade pequena, porém muito simpática. O ultimo destino dessa empreitada pela Europa.
      Em Muxia me hospedei no albergue/hostel Bela Muxia. Mais uma vez a recepção foi excelente. Quando cheguei ao local ainda faltava uma hora para o horário de check-in, poderia esperar claro, mas comentei com o senhor na recepção que tinha ficado um pouco enjoada pela viagem de ônibus e o mesmo foi muito solicito comigo e me deixou ir para o quarto naquele mesmo instante. Além da ótima recepção o lugar era muito agradável, tinha uma cozinha bem grande e um lindo terraço com vista da cidade onde era possível avistar também o mar. Uma pena que fiquei somente um dia na cidade.
      A praia de A Cruz, indicação de um morador da cidade tem águas claras, mar calmo e um visual muito bonito. Passei horas ali aproveitando um dia lindo de muito sol.
      O principal ponto de interesse na cidade é o Santuário Virxe de La barca (Virgem da Barca) Segundo a lenda o apóstolo Tiago foi até Muxia, implorar a Deus que seus sermões tocassem as pessoas. Nesse momento então, a virgem teria aparecido a ele num barco de pedra puxado por anjos e lhe disse que voltasse a Jerusalém, pois a sua missão naquela terra havia terminado, Tiago retornou conforme a virgem lhe havia dito, porem havia plantado ali a semente da fé cristã que viria a florescer futuramente.
      Há também lendas sobre as pedras localizadas no rochedo de Muxia. As pedras teriam relação com o barco da virgem em sua aparição e também lendas sobre propriedades curativas.
      Ainda ali no rochedo, complementando de forma peculiar a paisagem o monumento “A Ferida”, dedicado aos voluntários que durante meses limparam as praias da Costa da Morte após um desastre que provocou o derramamento de óleo combustível naquela região. È uma das maiores esculturas de toda a Espanha, com mais de 11 metros de altura, é dividido em duas partes e simboliza a ruptura e o impacto que esse desastre causou a costa Galega. A obra pode ser vista de muito longe pelos bascos que se aproximam da costa.
      Ali no rochedo a vista do por do sol é belíssima. Infelizmente não fiquei para ver. Ainda faltava pelo menos duas horas para o sol se por quando voltei ao centro da cidade para meu ultimo jantar no meu restaurante favorito por ali.
       
       
       
       
       
       
       
       
    • Por Felipe Benchimol
      Uma pequena amostra das paisagens e lugares que passei durante a minha jornada rumo a Santiago de Compostela feita pelo Caminho Primitivo, 320km feitos a pé  saindo de Oviedo para Santiago!! Buen Camino!!










    • Por Renato Santini
      Pessoal, achei esse artigo muito bom sobre como se preparar fisicamente para o Caminho de Santiago:
      https://trueclimbing.com/2019/02/04/caminho-de-santiago-como-se-preparar-fisicamente/
      O que acham?
    • Por DiegoCardosoFilho
      Gente, sou novo por aqui e estou querendo fazer o caminho a Santiago de Compostela começando por Porto (ao menos esse eh o plano...rs) esse mês. Alguém sabe dicS sobre aluguel de bike, translado de bagagem e albergues? Tô querendo ir, mas na versão mais "quebrado" possível...haha
      grato se alguém puder ajudar.

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