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ITAGUARÉ-GUAÇU : Travessia Expedicionária- Serra do Mar-SP


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  • Membros de Honra

                                                               De Biritiba-Mirim à Bertioga-SP

     Chafurdados no pântano até o pescoço, cinco criaturas se arrastam na lama, se esgueirando entre camas de jararacas e casas de jacarés do papo amarelo, tentando fugir das desgraças aquáticas proporcionada pela aquela EXPEDIÇÃO que havia partido do Planalto Paulista três dias atrás. A tarde já vai pela metade e  já dão por certo ter que dormir dentro d’água e virar comida dos mais terríveis insetos asquerosos que habitam aquele inferno alagado. A resiliência parece já ter tomado a alma de cada um daqueles infelizes, isolados do mundo, sem comunicação nenhuma, largados à própria sorte e fadados a pagar seus pecados antes de se transformarem em criaturas do brejo, melhor seria se fossem logo comidos por uma sucuri gigante, seria um desfecho mais glorioso para aquele sofrimento. ” 

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    (Da esquerda para direita : Anderson , Potenza , Divanei , Vagner , Trovo .  )

           Alguns roteiros são planejados e quando se vê a impossibilidade momentânea de realiza-los, são jogados e esquecidos numa gaveta ou num arquivo qualquer do computador, indo parar numa espécie de limbo digital até que alguém te faça lembrar que ele exista. O Rafael Araújo me consultou sobre a possibilidade de botar essa expedição em pratica já que os planos iniciais para o feriado do Carnaval acabaram indo por água a baixo. Acontece que essa Travessia tinha um entrevero que até então eu não havia achado solução, aí foi preciso voltar às pesquisas nos mapas e cartas topográficas a fim de desvendar o mistério.

       O projeto inicial da travessia partiria de Biritiba-Mirim, mais precisamente nas dependências da SABESP, num lugarejo conhecido como CASA GRANDE, mais de 20 km do centro do citado município, um fim de mundo servido por uma estrada de terra toda zoada. Partindo de Casa Grande ainda seria preciso mais 5 ou 6 km de andanças até interceptar a trilha de acesso para a CACHOEIRA DO DIABO, uma queda d’água quase que desconhecida nas nascentes do rio Guacá, descer o próprio rio por mais de  1 km e a partir de aí abandoná-lo pela esquerda e se jogar num mundo desconhecido varando mato montanha acima até a crista da serra e despencar para fundo do vale, ganhando as nascentes do RIO GUAÇU, afluente do grande Rio ITAGUARÉ. Do topo da serra à quase 800 m, desceríamos o despenhadeiro até a planície litorânea de Bertioga e aí é que estava o enrosco: Como passar pela área alagada, um mundo feito de água, pântano, mangue e charco?  A solução inicial pensada foi a de traçar uma linha reta quando o rio arrefecesse, direto para uma estrada a 3 ou 4 km a sudoeste (direita de quem desse o rio) e deixar que o destino nos guiasse no final da travessia, mas já prevendo que o capiroto poderia fazer sua morada naquele caminho.

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   (laranha- trilha até cachoeira do Diabo)   ( vermelho - caminho da expedição selvagem)

          Ultimamente o grupo de gente disposta a enfrentar essas Expedições incertas acabou por diminuir drasticamente, alguns simplesmente começaram a achar que algumas travessias vinham se enveredando por lugares extremamente perigosos, outros acabaram por buscar atividades com menos perrengues, indo aprender novos esportes ligados ao mundo da aventura e outra parte já haviam sinalizado com compromissos familiares. No final apenas cinco míseros corajosos se dispuseram a enfrentar esses caminhos nunca dantes navegados e então numa sexta-feira cinzenta o grupo se juntou depois das 10 horas da noite na Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes de onde partiria nossa VAN com destino à Casa Grande, no município de Biritiba-Mirim.

          A viagem de Mogi até Casa Grande deve ter levado umas duas horas e meia, o certo é que estávamos tão envolvidos jogando conversa fora e revivendo expedições passadas que nem nos demos conta do tempo. Depois de chegar até as instalações da SABESP (Companhia de Águas Paulista) , ainda foi preciso que o nosso transporte se metesse por mais uns 5 km de estradas enlameadas até o PESQUEIRO DO LUCIANO, que na verdade nem pesqueiro era e muito menos pertencia ao Luciano , o caseiro do criador de carpas. Como o Vagner já conhecia o caseiro de outra passagem por ali, não se fez de rogado e já intimou o nativo a nos conseguir um lugar para passarmos a noite e, entre cachorro, gatos e galinhas, nos acomodamos no chão do casebre e apagamos até depois das seis da manhã.

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    ( o cão BINGO : mergulha, pesca e caça)

          A previsão do tempo era péssima, marcando quase 40 milímetros de chuva para o sábado de Carnaval, mas surpreendentemente o dia amanheceu seco e quente e tão logo o café ficou pronto, nos despedimos dos nossos anfitriões e partimos para a aventura. Ganhamos novamente a continuação da estrada que havíamos chegado na noite anterior e avançamos por mais uns 1500 metros, coisa de meia hora e quando a estrada se bifurcou, com uma perna indo para direita e outra para esquerda, não pegamos nenhuma das duas e a abandonamos em favor de uma trilha em frente, para sudeste, que no começo é meio apagada e confusa, passando por uma casinha em ruínas a nossa esquerda. Tão logo nos distanciamos do casebre abandonado, a trilha volta a ficar mais nítida porque na verdade, trata-se de uma antiga estrada que muito provavelmente serviu para extrair madeira para as carvoarias, mas hoje a mata voltou a se regenerar e o antigo caminho foi engolido pela floresta, restando apenas o antigo corte no barranco. A trilha vai seguir praticamente em nível, cruzando uma infinidade de riachinhos e quase 3 horas depois vai desembocar no leito do Rio Guacá, bem perto das suas nascentes.

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          O RIO GUACÁ é um velho conhecido meu, foi nele que comecei minha vida mateira há 25 anos atrás, muitas são as lembranças de acampamento e explorações nas imediações da sua foz, junto ao Rio Itapanhaú, então ter a oportunidade de conhecer sua nascente é sempre um grande prazer. Chegar a esse rio já é um grande trampo, pela logística ruim e pelas horas de caminhada, mas ainda falta a cereja no bolo, uma cachoeira selvagem e praticamente desconhecida, visitada apenas pela galera mais casca-grossa e experiente. O grande problema é que não há trilha para se chegar a essa cachoeira e será preciso varar mato meio que pelo rumo ou ir seguindo a direção do GPS até sua base. Claro que ao chegar ao rio é possível tentar encontra-la descendo por dentro da água, mas aí seria caminhar por mais de 1 km, perdendo assim tempo precioso. Como o Vagner já havia estado nessa cachoeira tempos atrás, atravessamos o rio e menos de 100 m depois chegamos a uma clareira de acampamento, o único vestígio de vida humana por essas paragens. Não há nenhuma trilha que ligue essa clareira direto para a cachoeira, então descemos mais um pouco até tropeçarmos em um afluente e nos enfiamos nele na certeza que uma hora ele encontraria com o rio principal, mas como começou a fazer muitas curvas, também o abandonamos e seguimos nossos instintos , apontando o nariz para a direção do rio e menos de meia hora depois tivemos  êxito , encontrando um grande poço e aí foi só varar mato subindo pela margem direita até avistarmos a deslumbrante e selvagem CACHOEIRA DO DIABO.

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          Gastamos pouco mais de 3 horas do “pesqueiro” até a cachoeira e foi uma grande alegria poder chegar ali e se maravilhar com aquela queda d’água onde poucos já tiveram a sorte de botar os olhos e ainda poder desfrutar de tamanha beleza com sol, coisa que jamais esperávamos com uma previsão tão ruim para aquele dia. A Cachoeira do Diabo é daquelas quedas clássicas, que se espalham de um lado ao outro do rio. Com o rio normal forma dois véus d’água , mas com o rio mais cheio os véus se juntam formando uma só . É possível se banhar embaixo das quedas, mas para isso é preciso se equilibrar sobre umas pedras mais lisas e escorregadias, a sorte é que um tombo ali causará pouco estrago.

          Já passava do meio dia quando resolvemos partir de vez e retomar nossa travessia, ainda mais porque a chuva que deveria ter chegado cedo, acabou dando o ar da sua graça. Descemos o rio nos valendo novamente de sua margem até estarmos novamente de volta ao grande poço, contornamo-lo pela sua  esquerda e continuamos seguindo , alternando caminhada pelo mato e pelo próprio leito do rio Guacá até que nos surpreendemos com uma outra grande queda que nem esperávamos que havia e aí fomos obrigados a varar mato pra valer, subindo um pouco a encosta da esquerda e depois traçando uma diagonal até a base da cachoeira, onde eu e o trovo nos metemos dentro da água para ter uma visão privilegiada do salto .

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          Um pouco mais abaixo desse salto, outras pequenas cachoeirinhas são vencidas e logo nosso GPS nos avisa que é hora de abandonar o lendário Rio Guacá, havia chegado o momento de nos jogarmos de corpo e alma para a aventura que almejamos buscar. Nos despedimos do rio e começamos nossa jornada rumo ao desconhecido, primeiramente subindo um grande barranco à esquerda e nos enfiando de vez mato à dentro e montanha acima. Encontramos uma espécie de rampa que nos deu um caminho bem promissor e nos fez ganharmos altitude rapidamente, mas logo que nos vimos bem acima, tivemos que abandoná-la porque ela tomou um rumo que não serviria aos nossos propósitos. Estávamos navegando com um aplicativo do celular, que já há muito tempo tem nos servido muito bem, mesmo nessas expedições selvagens, mas é preciso aceitar que às vezes um pequeno delay (atraso) pode dar uma desorientada básica e é preciso corrigir o rumo sem muito estresse. Nosso objetivo era ao atingirmos a crista da serra a quase 800 m de altitude, ganharmos a descida até as nascentes do Rio Guaçu e a partir de aí, nos jogarmos por dentro do vale e foi exatamente o que fizemos, só que primeiro tivemos que fazer um desvio para nos livrarmos de um vale que seria inútil descer para ter que subir novamente, então ganhamos uma subida a esquerda e quando nos vimos no alto da serra, concertamos o caminho voltando mais para a direita e por incrível que possa parecer, encontramos uma trilha larga correndo por cima da serra.

          Essa trilha, por sinal, muito consolidada, correndo por cima da crista, poderia tomar vários rumos que até então não tínhamos conhecimento, mas com certeza não nos serviria para nada, então a usamos apenas como descanso breve, antes de nos despencarmos terreno abaixo. E despencar era o termo correto, uma vez encontrado a calha do vale foi só nos mantermos dentro dele, avançando cada vez mais para baixo, desescalando o leito seco de um córrego até que a própria chuva que ameaçava desabar, desabou de vez e o que era seco e sem vida se inundou rapidamente até que finalmente chegamos ao que nos parecia ser as nascentes ou uma das nascentes do Rio Guaçu. A chuva castigou legal e o desnível foi aumentando e se transformando em um verdadeiro cânion, onde tínhamos que nos livrar de grandes pedras, às vezes sobrepostas por grandes árvores tombadas.  O dia vai se findando, mas a gente resolveu estabelecer como meta chegarmos aos pés da grande queda que supúnhamos haver em um afluente vindo do lado esquerdo do rio, mas conforme a chuva aumentava, as dificuldades iam se multiplicando e alguns do grupo já vislumbravam a possibilidade de acampar logo e nos livrarmos daquele molhaceiro todo. Acontece que não encontrávamos um palmo de área plana para acondicionar todo o grupo, então a única alternativa era continuar navegando.

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          A chuva aumentou de vez, mas por sorte a temperatura não caiu. Matacões eram descidos e a carta topográfica nos avisava que o terreno se abriria à frente, com linhas espaçadas, o que significa área mais plana e a possibilidade de estarmos perto da grande queda d’água que buscávamos e não deu nem quinze minutos para que um clarão alvo viesse a ofuscar nossos olhos em meio a selva densa. Foi o momento de euforia, estávamos bem perto de nos encontrarmos com aquilo que havíamos visto apenas por imagens de satélite. Abandonamos o rio em favor de um vara-mato em direção ao clarão branco formado pela cachoeira, cruzamos um riachinho para o outro lado, subimos mais um barranco e ao tropeçarmos no próprio afluente do qual desabava a cachoeira, jogamos as mochilas ao chão e saímos correndo, feito adolescentes indo ao encontro de um amor ainda desconhecido.

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          Por sorte, bem nessa hora a chuva havia dado uma trégua, o que nos ajudou a fazer uma escalada pelas grandes rochas com mais segurança. Ao nos posicionarmos diante da parede onde despencava a grande queda, foi que nos demos conta da grandiosidade da Cachoeira. Uma parede inclinada de uns 70 ou 80 metros com um véu branco turbinado pela chuva que acabara de cair. Tiramos algumas fotos e partimos de volta para onde deixamos as mochilas, sabíamos que era hora de conseguirmos um lugar para acampar, tínhamos que aproveitar a trégua da tempestade para tentarmos montar nossas redes, muito porque, o Anderson já estava em estado terminal, inclusive ele foi o único que não teve forças nem para ir ver a grande cachoeira e acampar ali por perto lhe daria mais uma chance de conhecer a cachoeira no dia seguinte.

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          Retrocedemos um pouco antes do riachinho e ali conseguimos uma meia dúzia de árvores descente para montarmos nossas redes. O primeiro dia de caminhada é sempre o mais complicado e cansativo porque se dorme muito pouco na noite anterior, então depois de montarmos nossas camas de mato e prepararmos uma janta, cada qual foi morrer na sua rede. Ali naquele vale onde o mundo não sabe que existimos, a noite passa de vagar, os bichos fazem barulho ao longe e o som das águas correndo sobre as pedras reina absoluto , só sendo ofuscado quando alguma grande árvore tomba na escuridão da floresta, gigantes que despencam arrastando tudo que tem em volta e assombram a nossa alma porque sabemos que se uma dessa cai sobre nossas redes, não sobra um pra contar história.

          O dia que amanhece é sem chuvas, mas a previsão ainda não nos é favorável. Foi uma noite de reis, quase 12 horas de sono e descanso merecido. Lenta e vagarosamente vamos desmontando nosso acampamento e nos preparando para aquele segundo dia de expedição e quando todas as mochilas ficaram prontas, partimos novamente para uma visita mais prolongada da GRANDE CACHOEIRA. O reencontro com o monstro despencando da pedra chega a ser mais prazeroso que o do dia anterior porque agora o grupo está todo reunido e sem as chuvas, fica fácil escalar as grandes pedras lisas para uma foto panorâmica. Falando em fotos, ao posicionar minha câmera numa rocha para um registro fotográfico de todo mundo junto, um vento se encarregou de joga-la dentro do rio e essa foi mais uma que a Serra do Mar comeu para todo o sempre, amém! Ali onde estávamos o nosso GPS marcava uma altitude de uns 550 m e surpreendentemente encontramos uma “inscrição rupestre” muito antiga em uma árvore onde se podia ler “ ALEMÃO”. A única explicação plausível para que alguém antes de nós tivesse chegado até aquela cachoeira perdida do mundo é que aquela trilha que encontramos na crista da serra, poderia ter descido rapidamente pelas encostas do lado direito da nascente e vindo desembocar aqui, mas esse foi o último vestígio humano que encontramos naquele vale e para ser justo com o nobre “europeu” que veio de tão longe para visitar essa queda d’água antes de nós, vou marcá-la como CACHOEIRA DA LAGE DO ALEMÃO.

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          Deixamos, portanto, aquela cachoeira perdida e entregue a própria sorte e partimos descendo pelo próprio afluente, que mais nos pareceu ser mesmo o rio principal formador do Rio Guaçu e logo quando se encontra com o rio que descemos até ele, se encorpa de vez e cresce, tomando forma e jeito de rio digno dessas serras fabulosas. A retomada pelo rio principal segue praticamente a mesma toada do dia anterior, nos fazendo escalar e pular muita pedra, são matacões gigantes, onde é preciso se esgueirar dentro de pequenas grutas, atravessar pequenos corredores alagados, dar salto de uma rocha para outra, se segurar em rampas escorregadias e vez por outra se jogar no rio em ziguezague, cruzando de uma margem para outra, sempre procurando o melhor caminho. Poucos são os esportes em que você é obrigado a usar todos os músculos do seu corpo, aprender todas as técnicas de escalada livre que existem, tendo que se manter ligado em 100 % do tempo, porque uma bobeada, mínima que seja, você vai pagar caro e correr o risco de ver sua cabeça explodir numa pedra rio abaixo, sem contar que os olhos tem que estar fixo também no mato, tem que ficar esperto para não enfiar uma mão numa jararaca e sofrer um acidente sem volta, num lugar onde o resgate é quase que impossível por não haver comunicação com o mundo externo.

          O dia vai passando rapidamente e a chuva que ameaçou cair a manhã toda, desaba de vez e o rio que era manso e cristalino se rebela contra nós, tornando a aventura ainda mais desafiadora. Nosso grande objetivo desse segundo dia era encontrar outra cachoeira que nos pareceu bem grande no mapa de satélite e quando estávamos chegando perto do ponto marcado no gps, ficamos esperto com todos os afluentes que vinham do nosso lado esquerdo, porque era desses cursos d’água que pretendíamos encontrá-la, em um paredão gigante. Quando o terreno aplainou de vez, intuitivamente já sabíamos que ela estava perto e não demorou muito para alguém do grupo gritar eufórico que havia visto ela despencando ao longe.

          Era mais um gigante a nos surpreender, a gente de queixo caído, ficamos ali, hipnotizados diante daquela parede que ao longe ainda, nos fazia querer largar a mochila e correr ao seu encontro já que ainda seria necessário tentar escalar seu afluente, com outras quedas d’água com transposição difícil. A chuva não parava de cair e diante das dificuldades que enfrentaríamos para chegar até a base da cachoeira, decidimos deixar nossas mochilas e subir apenas com as câmeras ou celulares para tentar um registro e como eu não queria ariscar em perder meu telefone, como acontecer com minha câmera, decidi subir com a mochila estanque apenas me livrando temporariamente de alguns pesos desnecessários. Ainda era cedo, mal havíamos passado da metade do dia, mas o Anderson Rosa não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir até a queda d’água. O Daniel Trovo tomou a frente e seguindo seu instinto, descobriu uma rampa inclinada que cortava as duas vertentes de água, dois rios que se formavam e se dividiam vindo da cachoeira. A rampa apontava para o céu e foi sendo vencida palmo a palmo até que fomos obrigados a subir o riacho da esquerda, escalando por dentro da água com o turbilhão aquático querendo jogar a gente abismo abaixo. A massa de água sobre nossas cabeças era assombrosa, um turbilhão que mal deixava a gente progredir, um espetáculo impressionante, 40 ou 50 metros de altura de cachoeira reinando soberana no coração daquele vale selvagem sem vestígio de passagem humana e para marcar esse ponto no mapa, vou dar o nome de CACHOEIRA DO ITAGUARÉ, para homenagear o rio que domina essas paragens.

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          Essa cachoeira estava assentada sobre um degrau numa parede lateral e dela era possível avistar o mar e toda a área alagada da Restinga de Bertioga, infelizmente não conseguimos uma boa foto dela por causa da chuva intensa e de volume avassalador, mas vamos deixar gravado na memória esse dia incrível, de descobertas e explorações, o dia em que acrescentamos mais uma joia nos mapas da Serra do Mar. Não nos demoramos muito, estávamos com frio por causa da água e do deslocamento de ar provado pela queda e se já foi complicado subir, descer então foi muito pior, tanto que tivemos que contar um com a ajuda um do outro para passar pela beira da garganta, até ganharmos a descida da rampa e voltarmos ao rio principal, onde o Anderson nos esperava, dormindo sobre uma rocha.

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          Retomamos a caminhada pelo rio, sempre espertos com o volume intenso e com alguma possível cabeça d’água, já que o rio havia se tornado totalmente escuro. O ritmo, agora mais lento tanto por causa de alguns já cansados pelo desgaste, tanto pelo terreno extremamente acidentado, com pequenas quedas e rios correndo por baixo de grandes rochas, nos causando um esforço físico para serem transpostas. As vezes era preciso correr para o mato e desescalar barrancos para tentar fugir das rampas mais íngremes que não nos oferecia uma segurança razoável para descermos. Nossa meta estabelecida eram dois grandes poços que havíamos identificados no mapa, mas que pareciam cada vez mais longe com as chuvas a nos castigar o lombo, mesmo em se tratando de chuvas com temperaturas altas, e quando esses dois poços foram encontrados, nos decepcionamos um pouco porque esperávamos e pretendíamos nadar neles, mas estavam com a água muito turva e só fizemos olha-los e partir imediatamente já que havíamos decidido começar a procurar um lugar para acampar.

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          Abaixo desses dois grandes poços tivemos que cruzar o rio para sua margem direita e para isso tivemos que saltar de uma pedra não muito alta e tomar impulso para não sermos arrastado pela corredeira e foi nesse momento que o Vagner se lascou todo ao explodir com o joelho numa pedra rasa do qual não nos demos conta. Na hora já paramos para tentar prestar os primeiros socorros e ver se ele teria condições de progredir ou se seria preciso parar imediatamente e tentar acampar. Passada a dor inicial, o Vagner deu sinal positivo para que continuássemos até localizarmos um lugar mais descente para montarmos nossas redes. O Trovo se adiantou, mas a ilha a nossa frente não nos convenceu a ficar, então resolvemos empreender uma vara-mato pela esquerda porque era quase impossível passar diante de um abismo do qual o rio se jogava numa laje perigosa. Retornamos ao rio quando foi possível, bem aos pés de uma CACHOEIRA INCLINADA que havíamos sinalizado no mapa, uma bonita QUEDA de uns 50 metros, que nos fez parar para  respirar um pouco e nos alimentarmos.

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          A situação ia ficando angustiante porque a noite se avizinhava e nada de encontrarmos um lugar descente para acampar e cada vez que o terreno dentro do rio piorava e tínhamos que cair no mato, pior ficava, porque era uma floresta com transposição difícil, muitas árvores caídas e quando uma grande parede nos barrou do lado esquerdo, fomos obrigados a escorregar de cima do barraco nos valendo de grandes árvores, como se fôssemos bombeiros escorregando pelos troncos. Estando de volta ao rio, o Anderson e o Trovo se recusaram a fazer um pequeno desvio para conhecer uma outra cachoeira deslumbrante, alegando que estavam preocupados com o Vagner e seu joelho estourado, mas o próprio moribundo do Vagner já tratou de arrastar o Potenza varando mato até a cachoeira e logo me cheguei a eles e ficamos nós três a nos maravilharmos  com mais um espetáculo em forma de massa aquática , batendo continência para uma CACHOEIRA de uns 20 metros , muito parecida com a própria cachoeira do Diabo, no Rio Guacá.

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           Retrocedemos até onde o Trovo e o Rosa nos esperavam e descemos por mais uns 100 metros até que finalmente resolvemos acampar. E foi realmente um lugar incrível que a primeira vista não parecia lá grande coisa, mas depois de um estudo mais profundo da área, conseguimos alocar todas as redes e toldos de uma forma excelente, com conforto e espaço e assim que as redes se esticaram, fomos cuidar do jantar, já que o dia havia sido de andanças intensas.

          As atividades no acampamento são sempre intensas porque é preciso deixar as redes e os toldos impecáveis ou corre-se o risco de acordar durante a noite, molhado, e isso é uma coisa que ninguém quer, além do mais, fazer tudo direitinho é a certeza de dormir muito confortável. Uma vez deitado na rede, o corpo relaxa e o "marulhar" do rio embala aquele sono que é impossível ter nas grandes cidades, ainda mais se estivermos protegidos com um bom mosquiteiro, um conforto essencial contra os inúmeros insetos da floresta.

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          Mais uma vez tivemos sorte, não caiu uma gota durante a noite e com a trégua das chuvas, o rio amanheceu novamente cristalino, uma água bonita e encantadora. Dormimos não muito acima dos 100 metros de altitude e sabíamos que logo estaríamos na planície litorânea, mas  no início da caminhada daquele terceiro dia já fomos obrigados a descer umas cachoeiras e cruzar rio o rio várias vezes, o que não é muito agradável pela manhã, mas como já saímos do acampamento com as roupas molhadas, não há nem o que pensar muito, é se jogar na água e esperar o corpo se adaptar com a temperatura. Por sorte o sol apareceu logo pela manhã, ainda tímido, mas já era um grande começo.  Pouco mais de uma hora de caminhada e nos deparamos com um GRANDE LAJEDO, uma formação rochosa diferente das que estávamos acostumados na Serra do Mar, uma pedra mais lixada, mais nem por isso mais escorregadia.

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          O rio foi ficando cada vez mais plano, algumas ilhas vão surgindo, a gente já caminha com uma certa facilidade, já relaxados porque nossa carta topográfica  já nos diz que  o final do rio ou a parte mais complicada, a parte escarpada, já havia terminado e ao nos posicionarmos em um afluente para um gole d’água, encontramos um vestígio de trilha, que infelizmente mais à frente terminou no nada, mas nos deu a certeza que o rio finalmente havia chegado na planície litorânea, estávamos na chamada Restinga de Bertioga , mas ainda muito, mas muito longe de algum lugar habitado e civilizado , mesmo assim comemoramos muito essa conquista. Uma comemoração inútil porque era na próxima curva que o diabo nos espreitava, ia começar uma das maiores sagas desde que começamos com essas travessias selvagens na Serra do Mar Paulista.

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(Final dos cânyons, inicio da Restinga de Bertioga)

          A descida pelo rio plano era um passeio, se comparado com a descida dos cânions, íamos de um lado ao outro, batendo papo e acompanhando o nosso deslocamento no mapa, onde pretendíamos abandoná-lo de vez e tentar um vara mato de uns 3 ou 4 km até uma possível estrada, mas foi aí que uma nova trilha surgiu de repente e mudou o nosso destino completamente, mudou os rumo daquela expedição e nos jogou em uma das maiores furadas das nossas vidas. A trilha que encontramos era aberta e logo pensamos que ela poderia nos conduzir diretamente para a civilização no litoral. Rio se dividiu em dois e nem percebemos, então quando chegamos em um lugar onde a trilha se perdeu, resolvemos atravessar para direita até que tropeçamos em um rancho de caçadores que parecia estar abandonado há muito tempo.

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(RIO GUAÇU)

          Surpreendentemente,  não vimos palmitos cortados naquela região, demoramos muito tempo para fazer a leitura do lugar, estava na cara que aquele lugar era totalmente inóspito e quem por lá andava, só o fazia porque chegava de canoa devido a dificuldade de acesso, mas como perto desse barraco de caça abandonado havia uma trilha, imaginamos que ela poderia nos tirar daquele fim de mundo, e ela realmente foi enveredando para a direção que nos favorecia, mas do nada acabou bem no RIO ITAGUARÉ , um rio bonito ,mas sinistro, cheio de algas e de cor avermelhada , onde a qualquer momento parecia que um jacaré do papo amarelo saltaria para fora e arrastaria um de nos .

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(Rio ITAGUARÉ)

          Fizemos uma pausa para mastigar alguma coisa e para pensar qual o rumo que tomaria aquela expedição e então enquanto as coisas não se resolviam, decidi tomar um banho naquele rio sinistro e a galera vendo que o caminho realmente havia se fechado, resolveram tentar seguir subindo o Rio Itaguaré até uma ponte que aparecia no mapa, uns 2 ou 3 km acima e realmente ao atravessar o rio para o lado esquerdo de quem sobe, encontramos algo parecido com uma trilha e decidimos seguir por ela.

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          No início parecia mesmo ser uma trilha, mesmo que a gente tivesse que atravessar áreas alagadas até a cintura, mas o caminhar não progredia, não avançávamos e 15 minutos depois um pântano nos barrou de vez, fim da linha para a gente. Metade do dia já se fora e era preciso achar uma solução, alguns queriam abrir caminho rio acima por uns 2 km, mas outros insistiam que deveríamos voltar até a curva do rio e tomar um destino que pudesse nos deixar longe dele, tentando evitar a área pantanosa. Nesse momento era o Anderson que comandava o GPS, então como foi ele quem gritou mais alto, saiu como vencedor na contenda e puxou a fila de volta para o local onde havíamos atravessado o Itaguaré.

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          O plano era descer um pouco o rio e para depois varar mato numa direção paralela a subida, porque isso nos deixaria longe dele e consequentemente longe também da sua área alagada, pelo menos foi o que pensávamos. Mas antes disso acontecer uma ideia estúpida quase acabou sendo posta em pratica: Parte do grupo vislumbrou descer boiando pelo rio e se isso tivesse acontecido, estaríamos lá até hoje, perdido naqueles pântanos dos infernos, já que o rio faz curva atrás de curva e se perda num mar de florestas antes de se jogar no mar. E foi realmente por pouco que a gente não tomou essa decisão, parte do grupo já estava boiando na correnteza, inclusive eu, quando alguém sensato foi obrigado a intervir e a colocar aquela expedição de volta aos seu rumo natural. (Mas pensando bem, o cara que convenceu a gente a não ir boiando é mesmo um filho da puta dos infernos, porque o que estava por vir não seria bonito de ser ver, rsrsrsrsrsrsrr)

          Descemos o rio por uns 100 metros e miramos uma diagonal para a possível estrada e então começamos a vara mato. No início, um brejo dos infernos, mas logo o brejo deu lugar para um PÂNTANO, área alagada em meio a uma floresta baixa e com algumas raras árvores espaçadas. O Trovo ia à frente e eu logo no seu encalço, mas a progressão era lenta, morosa e modorrenta, não avançávamos 200 metros por hora e quando pensávamos que o terreno poderia melhorar, a água subia na altura do peito, em meio a uma selva de bromélias, onde possivelmente jararacas lambiam os beiços com a nossa passagem, já que costumam fazer dessas plantas suas camas.

          Para nossa sorte a chuva prevista para depois do almoço não veio e na minha cabeça um pensamento macabro de não conseguirmos sair daquele lugar e termos que dormir dentro d’água, já que em certos lugares não existiam nem árvores descentes para montar uma rede. A gente andou, andou, andou e quando vimos, estávamos no mesmo lugar. Havíamos rodado em círculos, mesmo com o GPS do celular. Ninguém disse coisa alguma, mas estava estampado em cada rosto o sofrimento passado ali naquela área alagada e eu mesmo cheguei a me perguntar se já não estaria passando da idade para me meter em tamanha encrenca, mas quando vejo alguns com a metade da minha idade, compartilhando do mesmo sofrimento, me conformo e continuo abrindo caminho metro a metro, tentando afastar da minha mente qualquer preocupação com possíveis cobras gigante e jacarés alados que possam cruzar o nosso caminho.

 

          Não há felicidade no sofrimento, mas a todo momento eu tentava transformar aquela jornada ao inferno pelo menos em algo mais divertido, fazendo troça da desgraça, pelo menos não havia ninguém machucado e era um grupo extremamente forte e se fosse preciso resistir, resistiríamos o tempo que precisasse. Acabaram-se as camas de jararacas e apareceram os capins navalha que iam cortando a pele de quem se atreveu a entrar ali de mangas curtas, os cipós espinhudos mancomunados com as palmeiras de espinhos, se encarregavam de fazer os estragos que faltavam. Muitos ali gritariam por suas mães se pudesses, mas sabedores que elas não os ouviriam naquele fim de mundo alagado, apenas se mantinham de cabeça baixa, fazendo suas orações ou praguejando em voz baixa. Mas navegar é preciso e sair vivo também e como o GPS do Rosa começou a brincar de delay por causa da bateria já combalida, coube ao Potenza assumir os trabalhos de navegação. Mais para esquerda, mais para a direita, volta, segue, diagonal reta. Eram muitos os comando, mas o terreno não nos deixava ir para onde deveríamos e isso só fazia com que ficássemos mais angustiados.

          Estar ali , presos sem poder avançar nos causa um sofrimento indescritível, é uma sensação de impotência diante de uma natureza bruta e selvagem e se alguém fosse picado por um cobra naquele alagado, morreria sem socorro, porque mesmo os que poderiam se adiantar para buscar um resgate, estavam presos e isolados também . Éramos cinco criaturas perdidas num mundo alagado, cinco seres que sobreviviam como monstros do pântano, incorporados a paisagem hostil em meio a algas e plantas aquáticas, passageiros de uma agonia em comum que parecia não ter fim.

          Uma decisão foi tomada a fim de tentar salvar pelo menos o moral do grupo que já se encontrava em frangalhos. Resolvemos mirar nossos narizes de volta para o rio Itaguaré, talvez não resolvesse coisa alguma, mas era um plano, porque até então, nada que tentamos resolveu. A labuta de abrir caminho numa vegetação quase que intransponível se estendeu por muito mais tempo, atravessar aquele mundo alagado com uma infinidade de árvores caídas, onde era preciso pular por cima, foi minando as energias e a nossa paciência. O traçado no GPS parecia não sair do lugar e a cada passo dado parecia nos enfiarmos ainda mais num caminho sem volta até que conseguimos encontrar meio metro de terreno mais alto e ali demos uma parada. Engraçado é que cercado de água pôr todos os lados e a maioria com a garganta seca, sem coragem e nem forças para captar água das bromélias, já que ainda não achávamos que era hora de partir para o desespero e bebermos água do pântano. Mas chegou uma hora que era preciso parar de sofrer, pelo menos de cede e já que havíamos parado  mesmo, enchi meu cantil de um litro com a água pantanosa e nele acrescentei um suco de jabuticaba para disfarçar o gosto, tomei uns dois goles e passei para o Anderson que já estava em estado lastimável, não muito pior que o resto do grupo e quando ele me retornou a garrafa, não continha mais nada além de baba ( rsrsrsrsr) , se água do pântano matasse, esse aí não tinha voltado vivo para contar história.

          Hidratados e procurando colocar os pensamentos em ordem, assumi a liderança momentaneamente, tentando chegar até as barrancas do Rio Itaguaré, mas me arrependi amargamente porque ali onde estávamos já era a própria vasão do rio e em certos momentos a água quase que alcançava o pescoço. Aquilo era algo totalmente insano, onde estávamos com a cabeça quando deixamos que a situação chegasse àquele ponto e o pior era não haver nenhuma perspectiva de sairmos daquela enrascada tão cedo. Puxei capim, abri floresta de espinhos, abri caminho em meio às algas gosmentas. Meu olhar se perdia no vazio procurando uma referência em que eu pudesse me apoiar, nem que fosse psicologicamente, mas nada nos era favorável, nem mesmo a tal margem do rio conseguíamos avistar, muito porque, ela nem existia e só descobrimos isso quando já estávamos no meio do leito do rio Itaguaré, cercados de vegetação aquática por todos os lados.

          Por sorte o Itaguaré ali era um rio raso e com correnteza pouca, que nos possibilitou subir por dentro dele caminhando e quando não dava mais pé, nadávamos correnteza acima ou nos puxando pelas algas aquáticas. Aquela era uma cena sul-real, cinco pontinhos humanos subindo um rio obscuro no meio de uma floresta perdida num pântano a meio caminho de lugar nenhum. Trovo vai à frente abrindo caminho dentro do rio, enquanto o resto do grupo ainda sem acreditar na situação em que havia se metido, segue atrás, com o Paulo Potenza ganhando uma certa vantagem até que o próprio Potenza da meia volta e desce o rio desembestado correndo de um jacaré do papo amarelo que emergiu das profundezas do rio e veio em nossa direção. Por sorte o tal jacaré que o Paulo havia visto, não passava da perneira do Trovo que havia se soltado e ficado boiando no rio em meio às algas.

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          A situação não melhorou nada ao interceptarmos o rio porque vimos no mapa que ele se perderia em curvas, indo para uma direção totalmente oposta às nossas necessidades, que era a de encontrar uma possível estrada que poderia nos devolver as civilizações no litoral. A gente sabia que nossa situação não era nada confortável e tentávamos criar uma reserva psicológica para aguentar o que viria pela frente, mas foi literalmente numa curva do rio que o nosso destino mudaria. Numa entradinha despretensiosa, eu e o Trovo localizamos um barquinho de fibra afundado em meio as algas, tão pequeno que mais parecia uma caixa d’água com um bico e inventamos de tirá-lo do fundo e surpreendentemente ele boiou. Enquanto nos entretínhamos com a rustica embarcação, o Trovo adentrou no pequeno canal em direção a um terreno mais alto e bingo, achou uma canoa antiga no meio do mato, ainda com seu remo e a puxou para dentro do rio. Imediatamente um pensamento macabro tomou conta da minha mente: “ Vamos roubar essa porra. ” Sei que não era nada bonito de se fazer, mas são pensamentos que permeiam nossas mentes quando o desespero já tomou conta da gente. Achei que o único jeito de saímos daquele inferno alagado era nos apossarmos daquela canoa velha e remarmos rio acima até a tal ponte e desembarcarmos nela, ganhando assim essa possível estrada que nos tiraria dali.

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          Subimos na canoa para fazer um teste e ver se aguentaria todo mundo e se iríamos nos adaptar com o remo. Subimos remando por um tempinho, mas eu me mantive no barco reserva, sendo puxado pela embarcação, mas logo retornamos ao local de onde partimos e ao investigarmos mais a fundo, descobrimos uma trilha que vinha de algum lugar até ali, talvez da própria estrada que buscávamos, e desembocava ali na beira do rio. O plano de roubar a canoa foi deixado de lado e o trocamos por essa trilha suspeita, mas que foi se abrindo e nos apontando uma saída e surpreendentemente, nos desovou bem na estrada, estávamos salvos, a civilização estava a não mais de uns míseros 2 ou 3 km e não levamos mais que uns 40 minutos para desembocarmos na Rio Santos, bem ao lado de uma subestação de energia, 300 metros de um posto de gasolina e a menos de 2 km do litoral. Abraços e comemorações marcaram o final daquela expedição e nos sentimos orgulhos de mais uma vez escaparmos inteiros de mais uma Travessia Selvagem e até então inédita. Conseguimos pegar um ônibus coletivo que nos levou de volta à Bertioga e de lá embarcamos imediatamente para Mogi das Cruzes e cada um foi se perder para um rumo, naquela selva de pedra, chamada São Paulo.

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          E essa aventura pela Serra do Mar Paulista teve o poder de nos surpreender positivamente, porque até então desconfiávamos desse novo caminho proposto, mas nunca, nunca mesmo, podemos subestimar a grandiosidade dessas florestas e dessas montanhas , que despencam do Planalto Paulista para a Planície litorânea e conseguem desafiar o homem a ponto de quase poder vencê-lo, mesmo em tempos modernos onde ainda temos as tecnologias a nosso favor. Tomamos uma surra, por certo quase fomos humilhados, mas sobrevivemos com as reservas e a experiência adquirida em Expedições passadas, travamos uma luta ferrenha entre homem e natureza, resistimos até sermos cuspidos para fora e ao invés de prometermos nunca mais nos metermos em um terreno tão hostil como aquele, saímos do outro lado desse vale mais fortes do que nunca, prontos para enfrentar qualquer adversidade, seja em outras travessias como essa ou na busca por novas descobertas, porque em se tratando de AVENTURAS,essa serra Paulista é insuperável.

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                                                      Divanei Goes de Paula – março/2019

           

 

 

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  • 2 semanas depois...
  • Membros de Honra
Em 26/05/2019 em 16:38, casal100 disse:

@divanei Essa sim é uma aventura de respeito!  Parabéns pela façanha. 

Como eu sempre disse , já cruzei quase todo o Brasil e mais 06 países da América do Sul , mas aventura autêntica só encontrei na Serra do Mar Paulista. Abraços!

 

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  • Membros de Honra
Em 05/06/2019 em 03:14, Leandro Renan disse:

top Divanei lança um livro ou um filme logo kkk

kkkkkkkk, livro é coisa para letrados, eu sou apenas uns aventureiro tupiniquim que gosta de explorar caminhos selvagens, abraços meu amigo .

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    • Por Patricia Lopes Szcspanski
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      Desde de que fiquei sabendo da existência desse caminho em Santa Catarina, sonho em faze lo. Amigos me falaram, foram de bike. De bike o circuito é um pouco maior, mas passa pelas mesmas cidades. Não é um caminho peregrino, é mais um caminho contemplativo. Repleto de cachoeiras, serras, morros, mata nativa, e as influências da colônia européia. Dentre as cidades que o caminho contempla está Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil, já Rio dos Cedros prevalece a influência italiana, e assim por diante.
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      Mas bem perto da data estimada, uma das amigas desistiu de ir por problemas pessoais, fiquei apenas com a parceria de Luci, 64 anos (a idade de minha mãe) japonesa, pequena em estatura e grande em valentia, garra e determinação! 
      Decidi levar meus filhos: Heitor de 17 anos e Heloísa de 12, eles não tem nenhum hábito caminheiro, são crianças tipicamente contemporâneas, ligadas à internet e acostumados à vida mansa da cidade grande, a uma realidade em que os pais trabalham e nada lhes falta em casa, sendo assim seria muito bom pra eles sair da zona de conforto, passar uns perrengues brandos ao lado do pai e da mãe, além do contato com a natureza que eles bem sabe que eu muito aprecio. Tava decidido: iríamos em 5: eu, Adriano, Luci, Heitor e Heloísa. 
      A viajem a princípio foi planejada pra ser em Abril, quando eu estaria de férias, mas por causa da pandemia minhas férias foram adiantas, e eu me conformei que não iria a lugar algum. Em meados de maio recebo a notícia que minhas férias tinha que sair e seria no mês seguinte: junho! A princípio protelei, pois o vale europeu é uma região serrana, chuvosa, em junho seria muito frio e não poderia aproveitar as cachoeiras. Mas, resolvi que não iria deixar passar, partiu vale europeu.
      Vou resaltar aqui que não conhecei o caminho pelo começo. O começo é em Indaial, eu comecei por Benedito novo zinco, pois deixei agendado previamente um passeio de trem em Apiúna dia 13 - o trem só faz o passeio uma vez por mês - então precisaria chegar em Apiúna dia 13, e como sai de Londrina no dia 11, iniciamos o caminho 2 cidades pra trás: Benedito Novo.
       
      1° dia vale europeu - chegada em Benedito Novo cachoeira do zinco.
      Saímos à 1:00 do dia 11 de junho, passamos por serração, neblina, e eu, que apesar de estar com muito medo do trânsito, cai no sono... Mas a maior neblina parecia ser mesmo no trecho de Tamarana faxinal... Depois passou... Ou eu que dormi né...
      Chegamos as 13, na cachoeira do zinco onde segundo os mapas seria o ponto de chegada do dia anterior e o início do próximo... no meu caso, o ponto de partida.
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      Olhando no mapa e seguindo rumo à saída de Benedito novo, 8 km depois, pegariamos seguido a Rodeio. Assim fizemos, achamos a saída pra rodeio aos 7 km, e conversando com uns trabalhadores que estavam fazendo roçagem, concluímos que tal lanchonete do zinco realmente existia, estava um pouco mais pra frente, sendo assim, pulamos 1 km do caminho...
      Seguindo em direção a Rodeio... Uma trilha encantadora rodeada por eucaliptos, sem sol, não por estar nublado, mas pelas sombras das árvores no entardecer, com bastante subidas mas também descidas, fomos presenteadas por um lindo por do sol, tão lindo que me emocionei, com lágrimas nos olhos eu pensava: se o primeiro dia é assim, imagine os outros!
      Muita subida, mas nada de mais, seguimos conversando sobre a vida... Sonhos e gratidão, eis que um lugar incrível nos chama atenção: uma lanchonete deserta e toda decorada de bicicletas, na fachada uma bicicleta gigante em madeira de uns 3 metros, e cada detalhe da lanchonete feito em madeira maciça, outra bicicleta em madeira um pouco menor do lado de lá, e conforme tirávamos fotos, percebemos o portão aberto, entramos... Nada, vazia... Banheiros abertos, limpos, com papel, sabonetes de erva doce... Nossa, nada como parar no meio de uma trilha no mato, num banheiro desses... E quando estávamos indo embora, lá vem nosso carro de apoio... Avistamos a blazer do Adriano, que chega contando notícias nada animadora de Rodeio: é uma cidade que não tem nada, só uma lanchonete que só tinha 2 pastéis e nós comemos (esse pastel depois vai dar o que falar)
      Faltavam 8 a 9 km para Rodeio, já eram 17 já e começava a anoitecer... Que tal ficar ali? Aliás tinha banheiros... E o dono não tava em casa... (Lembrei da Susi) mas não é chegou o proprietário!!! Fizemos a proposta e ele nos ofereceu um barraco, uma especie de barracão onde estacionamos e podemos armar a barraca por 15 reais por pessoa, tinha até banho quente, ali jantamos pão, tomamos banho, brincamos de esconde esconde.. olhamos as fotos, postamos, mandamos notícias (tinha até wi fi. Destaque para show que havia no céu: sem quase nada de iluminação artificial, o céu tava um espetáculo de encher os olhos.
      Armamos barraca dentro do barracão, e arrumamos o carro pra servir de quarto, as crianças ficaram com o carro, na barraca dormiu eu, Luci e Adriano.
      Eu acordei várias vezes na madrugada, muito desconfortável, duro, e dava pra sentir as pedras, mas, tava dentro da proposta.
      Sobre o trajeto e a caminhada, apenas 15 km dos 25 prometidos pra hoje, mas porque encontramos a oportunidade de pouso antes. É claro, contemplamos muito, paramos pra isso, fotografamos, mas fora isso, o ritmo foi puxado, Luci anda ligueiro... Chegamos até a correr na descida.
      Este relato foi feito picado, comecei a fazer lo na barraca neste dia, mas não dei conta, termino hoje... 9 dias depois, com a conclusão de que a planilha disponível no site não bate com uma oferecida a nós no 3° dia de Caminho em um hotel em que passamos, segundo a dona do hotel, a planilha oferecida por ela é atual, e a uma divergência de distância: na referida planilha atual a previsão é de 19,20 km e a descrição é que o bar das bikes (a bicicleta de madeira gigante) aparece no km 6 pra 7. E nós passamos por ela no km 15 a contar do zinco e por lá paramos. Desconfio que o caminho não é nem o mesmo... A tal planilha atual descreve esse trecho como Benedito Novo estava geral da liberdade até Rodeio, e a planilha do site que seguimos descreve como Benedito Novo zinco até Rodeio. Na época, ainda não tínhamos a tal planilha atualizada.
      Fim do primeiro dia! Resumo: cachoeira, entadecer, subidas, um céu estrelado memorável, momentos em família, melhor não poderia ser.
       
      2° dia Vale Europeu: 12/06/202 - sábado
      Benedito Novo/Rodeio/Ascurra/Apiúna
      Começo lembrando que ontem deixamos uma parte do percurso por fazer: cerca de 9 km, por ter encontrado um pouso na lanchonete das bike. Sendo assim, a ideia era acordar bem cedo pra tirar o atraso. A distância prevista pra hoje era de 19,80 km, seria fácil incluir mais 9 km e chegar antes das 12 ou 13 no mais tardar.
      Não foi difícil acordar cedo... Foi uma noite mau dormida: acordei a noite toda, a cama na barraca estava dura, sentia cada pedrinha, o frio não tinha o que esquentava... 4:30 estávamos de pé. Desmontamos a barraca e dobramos as cobertas, as crianças ainda dormiram no carro, com a temperatura abaixo dos 10 graus, nos paramentamos de agasalhos e partiu. Adriano foi conosco até a saída da estrada principal, cerca de uns 200 m, isso pra gente não errar o caminho no escuro... E não é que a gente errou! 🤦
      Com uma boa lanterna de cabeça, na cabeça da Luci - a do celular parecia não valer nada - ao visualizar a estrada principal, os fundos do bar das bikes, seguimos sozinhas, Adriano voltou... Fiquei pensando... E se ele erra o caminho, ele tá só com a luz do celular, e se cai num buraco, as crianças estão dormindo sozinhas no carro... A gente só pensa bobagem!
      Seguimos num passo apertado e sem muito desnumbre... Tava um breu! Me fez lembrar o caminho das catedrais... Completamente escuro. Foi o dia em que saimos mais cedo e com mais escuro. Na minha cabeça, tínhamos que chegar em Apiúna o mais cedo possível, pra não perder o passeio de trem agendado (atenção, o passeio agendado é domingo, e hoje é sábado, mas eu ainda não me dei conta disso) e o caminho rendeu... Andamos mais de 5 km sem paradas, até que o dia começa a clarear e revelar as belezas do lugar, a trilha sonora dos passarinhos, dos quero quero... E as 7 hs o sol brota sorridente lá das montanhas, um espetáculo que de novo... Me emociona, sigo cantando com lágrimas nos olhos que 🎶 a felicidade está no caminho...
      Casinhas no alto da montanha, uma luz e um colorido sem igual fazem o cenário parecer um quadro impressionista.
      A igreja de Rodeio, capela Nossa senhora de Lourdes, por dentro, no altar uma mesa cujo o pé, digo, a base, um tronco de árvore no seu formato original, mas todo trabalhado com entalhes e um desenho primoroso em alto relevo de uma mão (dizem que se reconhece um bom desenhista pelo desenho de mãos e pés) um sagrado coração e a imagem de um homem na época cristã, assim também é a base de uma mesinha que serve de altar para nossa senhora de Lourdes.
      Em frente a igreja já está o céu, o Cristo de braços abertos rodeado por anjos segurando hortências azuis, e pra baixo segue se o caminho dos anjos. Nessa hora pararam 3 carros com várias pessoas pra tirar fotos, a galera tirou fotos nossas diante do Cristo, e tiramos fotos da galera deles, todos juntos. Eram de Blumenau. Confesso que a espectativa que eu tinha para o caminho dos anjos não se superou: a informação que eu tinha é que era uma subida imensa com anjos dos dois lados, e aí... Se chegava ao céu. Acho que no circuito caminhante acontece o contrário: o céu aparece primeiro (Cristo e os anjos) além do que, pela internet as fotos desse lugar os anjos e todo o caminho está emoldurado por hortências, e quando passamos, as hortências estavam todas mortas, pouquíssimas ainda tinham cor pra se fazer notar, e os anjos precisam carecer de uma reforma: havia anjos sem cabeça, anjos sem dorso, ou tão sujos que mau se via a face, mesmo assim é muito bonito e capaz de encantar e até surpreender quem talvez não tivesse em mente uma descrição mais bonita do que vi pessoalmente. Descendo um pouco, uma casinha tão simples, mas sem muros ou portão, com uma linda e enorme gruta no quintal, tão grande que até parece uma construção pertencente ao caminho - e é - convida a entrar... Sou surpreendida pela dona da casa e entendo que estou entrando em prioridade alheia, peço licença pra ir até a gruta... E nos fundos, um córrego, águas limpídas e convidativas, de fácil acesso, eu se morasse ali tomaria banho de córrego todo dia! Uma riqueza de quintal. Trocamos um dedinho de prosa, a moradora tinha muitas queixas do lugar: "o quintal é bonito mas dá trabalho cuidar, aqui é tudo muito úmido e frio, mesmo nos dias de sol..." O quintal do vizinho é sempre mais verde!
      Seguimos encontramos uma especie de pia, uma torneira no meio da trilha que convidava: "Sirva se, agua de poço artesiano 100% natural"
      Juro que nunca bebi uma água tão gostosa!!!
      Chegamos em Ascurra com a impressão de uma simpática cidade, um lindo letreiro com as palavras: #eu ❤️ Ascurra, uma igreja... praça... Aliás... Que igreja linda!!! Igreja de santo Ambrósio: datada de 1927, com colunas imponente na fachada externa, uma grande escadaria, no interior, lindos arcos entrecruzados no teto lembrando uma influência gótica, no altar, a mesa feita com a base de árvore entalhada igual à igreja de Rodeio, mas única, artesanal, vitrais coloridos, painéis imensos com pinturas de imagens de santo, meias colunas dividindo as partes da igreja e em cada divisão uma pintura diferente, servindo as colunas como molduras, nichos nas laterais com oratórios e imagens em tamanho grande de Santos... E uma paz que só estando lá!!! Paramos, fotografamos, agradecemos e fizemos nossos pedidos!! Lindo demais, talvez a igreja mais bonita de todo o Vale.
      No meio do caminho foi preciso dispensar um pouco os agasalhos, o sol já brilhava forte e o calor já era suficiente. A blusa mau cabia na bolsa.
      Seguimos por um trecho plano, de rodovia, tiramos foto zoando as placas de velocidade: 80 km por hora, paramos no meio da rodovia pra fazer fotos com o temporizador, usando pedrinhas pra segurar o celular, pra que nós duas aparecemos na foto passando pela placa proibido ultrapassagem, depois postei fazendo piada de que só não ultrapassei a Luci porque era proibido kkkk. Entrei dentro de uma manilha gigante na beira da rodovia, coisa de criança... E chegando na igreja matriz de Apiúna já as 13 hs fomos recebidas com uma delícia marmita, estava Verde de fome, mas antes, fui conhecer a igreja que aliás, estava fechada. Mas na fachada externa claramente estilo gótico brasileiro: duas torres pontiagudas, uma rosácea. Do lado um pequeno oratório. Chegamos aos 29 km (vontade de andar mais um só pra fechar 30 kkk), sentia que havia uma bolha no meu pé esquerdo, bem na sola do pé, chegando perto dos dedos, estava sentindo isso já a alguns km atrás, mas enquanto estamos andando, não incomoda tanto, agora sabendo que tínhamos chegando, parece que o pé entende e começa a doer, mas era uma dor de quem andou muito mesmo, e de bolha, eu furaria ela mais tarde. Enquanto saboreava minha marmita, mandei uma mensagem pra organização do passeio de trem em Apiúna dizendo: "boa tarde, cheguei na cidade, pode me mandar a localização?"
      A resposta veio rápido, antes mesmo do fim da marmita: continha a localização pedida e a seguinte mensagem: "lembrando que seu passeio é amanhã"
      Putz! Eu poderia jurar que era domingo, e ainda era sábado!!! Data do passeio: 13/06!!!
      Estávamos programadas pra comer e ir até o endereço do passeio... Mas agora, amanhã teríamos que ficar na cidade de boa durante a manhã, passear a tarde no trem (horário do passeio 15 hs) e seguir o trajeto depois das 16, e se assim fosse chegaríamos tarde no destino seguinte (Indaial), ou, ir até indaial no dia seguinte a pé cumprindo a planilha e voltar até Apiúna de carro tudo isso antes das 15.
      Pois foi essa a escolha. Decidimos que iríamos seguir o circuito no dia seguinte a pé e voltar de carro. Ficamos então com a tarde livre... Muito cansadas mas bem dispostas, somado a disposição do nosso apoio, partiu conhecer a rota das Cachoeiras: rodamos de carro mais de 40 km em meio as montanhas, por estradas que subiam tanto que parecia que o carro iria tombar pra trás, caminhos com desfiladeiros, precipicios, sem acostamento e com as laterais rompidas sabe se lá porque, e que dariam em buracos no vale... Não encontramos nenhuma Cachoeira. Claro que deve ter... Mas acho que um guia nesse caso ajudaria... Mas passamos por lindos lugares.
       Entravamos e saíamos do carro com dificuldades e dizendo: aí ai ai... Tudo doía! Mas Luci era uma Fortaleza, a queixa parava por aí... Eu tinha no rosto um grosseirão, em torno do nariz e boca sentia que a pele estava cheia de brotoejas e descamando, efeito do frio, como se fossem queimaduras do frio.
      Já entardecendo e precisando viabilizar um lugar com banho e descanso. Então fomos pra um posto, e lá, bem conversadinho, banho quente de cortesia, e a autorização pra ficar. Colocamos todas as malas em cima da blazer, arrumamos a cama e boa. Porém a cama mais uma vez era dura, acordei a noite inteira, as luzes do posto acessar durante toda a noite pois o posto era 24 hs e era noite de sábado, e Adriano acordou no meio da noite com um playboizinho mechendo nas nossas coisas!! Segundo Adriano, quando ele viu e abriu a porta do carro, saltou de dentro da blazer, o cara disfarça e tira a mão correndo de sabe lá o que que tava mechendo... Só notamos a falta da tampa do porta escova de dentes, que tava pra fora e bem no local onde o Adriano contou que o cara tava fuçando, de certo na pressa de tirar a mão, melhor era esconder a tampa do que colocar no lugar de novo...
       
      3° dia Vale europeu - 13/06/2021 - de Apiúna à Indaial
      Saímos bem cedo, acho que 5:30, ainda com escuro, antes de sair tomamos café e frutas, passei uns cremes de rosto da Luci em volta do meu nariz e boca, saímos do posto e teríamos que voltar uns 8 km até pegar pra Indaial, pela rodovia, um caminho já conhecido de ontem, e assim partimos: uma rodovia perigosa e sem acostamento, no escuro não há muito o que contemplar, então o passo era largo.
      Estava inscrita em uma corrida virtual hoje, de 3 km apenas, então contei a Luci e na hora ela topa... Boa, partiu correr 3 km. Já havíamos andando 2 e o caminho era plano, parei o aplicativo e recomecei em modalidade corrida, mas com muito agasalho, mochila e cajado na mão, a corrida era na verdade uma caminhada de passos maiores, em 30 minutos, 3 km com Pace de quase 10 kkkk - quase - 9,58 na verdade. Encerrado, paramos e tiramos a primeira foto do dia: só eu pra constar na tela da corrida. Reiniciei o aplicativo de distância e prosseguimos.
      Serviu pra esquentar: mas ainda escuro e cedo demais pra tirar as blusas, seguimos... O dia começava a clarear quando passamos na bifurcação que pegava para Indaial no momento em que passava nosso apoio por nós, a partir de agora a estrada segue pelo meio da cidade, começam a surgir casas num cenário pitoresco, passamos pela igreja Luterana de Ascurra. O caminho margeava o rio Itajaí Açu, passamos por uma casinha que de longe avistei um corcel I 4 portas, laranja, e o provável dono na frente da casa agoando as plantas... Ah... Puxei conversa, pedi licença pra fotografar o corcel, contei que um dia tivemos um também e meu marido morre de saudades... A conversa vai longe, olhamos o "quintal" da casa que além de um lago cheio de plantas tipo de flor de lótus, patos, horta, flores... Ainda tem um morro nos fundos com uma trilha que nos chama atenção. A gente pergunta e ele responde que a trilha é do gado, mas que de vez em quando tem que subir, pois lá de cima vem água encanada das nascentes, e que quando chove demais é preciso ir até lá pra desentupir os canos. Ficamos encantadas!!! E seguimos.
      Em todo o trajeto, todos os dias passamos por pontes, quando elas não estão no meio do caminho, estão próximas, a vista, e desviamos pra passar por elas, só pra cruzar e voltar, ver a vista de lá, fotografar... Como duas crianças mesmo, só pelo gosto de passar na ponte! Igrejas luteranas tem de monte, sempre passamos por uma, e são lindas, e a e hoje... Um casamento: uma noiva saindo da igreja, linda! Passamos pela capela Nossa senhora Aparecida, fomos até a porta e dava pra ver que a mesa do altar tinha a mesma característica: a base feita de tronco de árvore entalhado.
      Na chegada, 28,36 km, almoçamos um delicioso pão com mortadela e já partimos de carro pra Apiúna, pelo mesmo caminho que percorremos, ou seja, voltamos todo o trajeto, pois hoje era enfim o dia do passeio de trem! E é muito gostoso ver de carro o tamanho da distância que percorremos a pé, nem da pra acreditar... A canseira era tanta que o sono bateu, o cansaço era grande, olho pro banco de trás e vejo que a Luci também está no mesmo estado: " pescando" e dormido. Tento não dormir e continuar a contemplar o caminho percorrido a pé, mas... Também cochilo.
      Chegando lá, descemos do carro com dificuldades: tudo dói! Descemos e alongamos, eu sigo mancando, a bolha que ontem eu furei voltou a encher e eu sentia a água dentro da bolha "chacoalhar" no meu pé desde de os últimos km do percurso de hoje.
      Chegamos cedo, as 14. O passeio é as 15. Dá tempo de pegar os bilhetes e escolher um lugar pra sentar. O lugar é lindo e cheio de cenários para fotos: portais com flores, carroças, bancos de madeira... Sentamos e ali mesmo tiro o tênis e furo de novo minha bolha da sola do pé, recoloco o tênis, continuo mancando...
      No sol, um calor gostoso e impossível ficar com blusa, na sombra... Um friioo... Tem que pôr blusa! Adriano deita no banco ao sol, faz das blusas um travesseiro e tira um bom cochilo, enquanto a gente aproveita o tempo pra tirar fotos nos cenários ao redor, e ver as fotos do dia.
      O trem chega apitando, e curioso é que a linha do trem é finita. Acaba Ali mesmo, mas o trem vai e volta... Por onde? Volta de ré?
      Embarcamos todos, tiramos fotos das janelas e inicia se um áudio com orientações sobre o percurso e orientações de segurança: "não coloque a cabeça pra fora, mãos... Não levante..." Heitor está do meu lado e me dá tanta bronca que mais parece minha mãe! Está com medo... O passeio começa e Maria fumaça sai apitando e fumaciando tudo... Passa pela mata, nas margens muitas casinhas singelas e precárias, chega a um ponto onde uma vista previlegiada do rio Itajaí Açu, túnel... Todos gritam... Muito legal, algumas luzes de celular mostram que o túnel é úmido, e depois do túnel logo chega a usina. O trem para e o áudio continua a explicar a história daquele trem, desde de sua construção até quando se torna obsoleto com a chegada das estradas, e que na verdade aquele trecho foi refeito para o passeio. Aí vem a surpresa que revela como o trem volta: basta virar o encosto para o outro lado, e sentar do contrário. Pronto! O trem volta pelo mesmo caminho. É um caminho reto. A volta é didática: parada pra encher os reservatórios de água (não lembro quantos mil litros) e depois uma para nova parada em cima do viaduto pra mostrar a capacidade de vapor, pede pra que a gente olhe pela janela e o que vimos é como se fosse tirar a pressão de uma panela de pressão, mas impressionante!!! O precedimento é repetido dos dois lados do trem, duas vezes pra que todos vejam, da pra ver que as pessoas que estão na rua, em baixo do viaduto, se desnumbram com a cena. O trem segue e finaliza o passeio no mesmo lugar em que começou. Saímos satisfeitos e felizes, e ainda tiramos fotos, tomamos sorvete e seguimos de volta pra Indaial, onde hoje foi o ponto de chegada da caminhada.
      Em Indaial, hoje muito cansadas e tudo doendo, acabamos topando a diária no hotel fink. Ponto de partida do caminho. O caminho começa aqui. Relembro que nossa opção foi começar por Benedito Novo pelo fato de não poder sair de Londrina antes do dia 11, e queríamos estar em Apiúna no dia 13 para o passeio de trem, só se chega em Apiúna no 8° dia de Caminho e se assim fosse, teríamos que sair 8 dias antes do dia 13, pois o trem só tem uma vez por mês.
      Sendo o hotel fink em Indaial o ponto de partida: lá adquirimos nossa credencial: com 3 dias de atraso. Custo: 20 reais. Junto com a credencial vem também uma planilha dia a dia que seguindo a dona do hotel, atualizada, e que aos poucos fomos notando algumas diferenças com a planilha oferecida pelo site oficial do vale. Custo da hospedagem: 280 para os 5. Pouco mais de 50 reais por pessoa, incluso café da manhã. Não é caro, mas para a família, se for pagar isso ao longo dos 9 dias, pesa!
      Banho quente, cama boa... O quarto tinha uma cama de casal onde dormimos as 3 meninas: eu, Luci e Heloísa, e duas camas de solteiro para os meninos. Estávamos tão cansadas que foi difícil ver as fotos do dia, mandar notícias e tudo mais sem que o celular caísse da mão... Lógico, não consegui escrever nada... Logo adormecemos. Dessa vez um sono só! Sem acordar de madrugada... Nada! Merecido descanso.
       
      4° dia vale Europeu - 14/06/3/21 - De Indaial à Timbó. 
      Pra aproveitar o pouso em hotel, dormimos até mais tarde, até porque o café da manhã era servido as 6:30. Então 6 hs estávamos nos arrumando. Não teve como não pensar: "a essa hora já estávamos longe ontem"...
      Mas mereciamos. Tomamos um café de rainha: ovos, bauru feito na chapinha, mamão, bolo, pão de queijo, suco de laranja, pão com requeijão, e ainda fizemos um lanchinho pra levar... 
      Meu rosto melhorou bastante passando o hidratante, antes de sair passo de novo o creme. As dores no corpo se foram e nada mais dói. Era quase 8 quando saímos, as crianças ainda dormiam, Adriano ficou de acorda las pro café, e nós, agora com as devidas credenciais e carimbo, com a planilha "atualizada" na mão, nos orientamos com a dona do hotel pra saída daquele dia e lá fomos nós para o quarto dia, rumo a Timbó.
      Demoro a perceber que estou sem os óculos, sei que usei ontem pra ver o celular antes de dormir, mas não faço idéia de onde estejam.
      Seguindo orientações, tínhamos que caminhar até a ponte dos Arcos, mas a sinalização de placas até lá e a planilha é bem confusa, porém é um ponto conhecido por todos na cidade. Procurando por orientações das setas brancas a gente se perde fácil nesse trecho, e lá se foram uns 2 km perdidas... 
      Achamos a tal ponte! E como os moradores disseram, eram duas pontes sobre o rio Itajaí Açu: uma paralela a outra, quando entramos na ponte dos Arcos, as pessoas num vai e vem que parecia segunda feira - e era - muito trânsito de carros, e de lá... Avista se a outra ponte: uma ponte mais normal. A ponte dos Arcos como o próprio nome diz, é formada por Arcos nas laterais, com passagem para duas vias de carros e duas passarelas para pedestre nas laterais. Quando saímos do outro lado, a indicação de pegar pra direita, independente da indicação, decidimos ir até a outra ponte, passar por ela e voltar, só por gosto, só pra poder fotografar a ponte dos Arcos à distância... Ida e volta na ponte, realizado o desejo de passar por pontes, lá fomos nós, só agora começam a aparecer setas brancas com uma certa regularidade. Eu já tinha colocado no Google maps o endereço de Timbó, por enquanto as indicações batiam.
      No trecho de atravessar a BR, muita confusão! Carência de setas, e uma obra no meio do caminho nos deixou completamente perdidas... Adriano que tentava seguir pelo mesmo caminho também encontrava dificuldades pra se orientar pela planilha e pelas setas que nesse trecho, não existem!!!
      Então íamos pelos próximos pontos de referência da planilha: como chegar a igreja tal... Tivemos que atravessar em meio ao canteiro de obras: muito barulho de máquinas, buracos, monte de pedras empilhadas... Passamos por ali perguntando para os trabalhadores: "pode mesmo passar aqui?" Atolamos o pé no barro branco que mais parecia argila, escorregamos... Enfim, depois de passar em meio ao canteiro de obras, cruzamos a BR... 
      Adriano deu a volta sabe se lá por onde e conseguiu atravessar, a partir daí, seguiu pra Timbó onde ia nos esperar.
      Seguimos agora guiadas pelas setas brancas que reapareceram, e já onze horas passamos por um bosque de Pinheiros cercados por uma cerca de arame farpado... Eu que adoro bosques assim, achei um buraco na cerca e pulei lá dentro. Incrível como depois de colocar os dois pés dentro desse bloco de Pinheiros e estar em suas sombras, muda tudo: o ar é puro, a sombra é densa e o clima é outro, frescor que se não fosse pelo corpo quente de estar caminhando sob o sol a pino e de agasalhos, eu diria que dentro da "floresta" é frio, sinto o frescor de estar dentro do mato, caminho um pouco entre os Pinheiros, fotógrafo, coloco o temporizador pra fazer fotos de mim mesma, aceno pra Luci pra que ela entre também, mas ela, prudente, prefere ficar na beira da estrada me esperando. Fico ali não mais que 15 minutos, saio pelo mesmo buraco na cerca que entrei e seguimos.
      Seguimos pelo caminho rural, de vez em quando uma seta branca, já quase meio dia encontramos um bar, uma venda no meio do nada. O bar é um luxo: com detalhes em madeira maciça, rústico. A dona, paranaense nos conta alguma coisa sobre Arapongas eu acho, Luci toma um café, e eu, acabo tomando mesmo é um sorvete! E água! Devem faltar 10 km ou pouco mais e eu não bebi quase nada de água. Me chama atenção uma cabeça de gado na parede, tipo empalhado, usando máscara, o relógio de parede feito de forma artesanal com uma roda de carroça e garrafas azuis de Skol, e já indo embora: uma gatinha coisa mais linda! De três cores, mas arisca! Tentei pegar no colo mas levei foi uma unhada no peito que por sorte, com as blusas, não pega muito! 
      Seguimos admirando e contemplado as serras, os morros... Sempre avista se uma casinha lá longe no meio das montanhas, que faz a gente acreditar que estamos dentro de um quatro, dentro de um filme! As propriedades na beira da estrada... Com lagoas e lindas flores nas cercas... já passa do meio dia quando chegamos a uma bifurcação onde uma placa indica: CACHOEIRA RECANTO BRILHO DO LUAR. Mas a seta branca manda subir. Os cachorros da propriedade que fica na beira da estrada chega latindo nos assusta, mas o dono vem atrás e resolvemos perguntar: "e essa cachoeira? É longe?" E pra nossa surpresa ele responde: "a 50 metros". Não precisou nem falar, só olhamos uma pra outra, e olhamos pro dono da casa e provável prioritário da cachoeira, ele disse pra gente: vão lá! Pode ir...
      Realmente, não mais que 50 metros. Era um lugar com algumas mesinhas e tudo mais, tipo, com infraestrutura pra se fazer um churras... E muito limpo, não havia lixo algum, eu já logo tirei a mochila das costas, tirei a blusa, fiquei só com top, tirei os tênis e meias, entrei devagar margeando a cachoeira, tinha um caminho feito com madeiras até a queda d'água que descia pela pedra, uma pedra enorme num angulo que parecia um escorregador gigante, de onde a água deságua... Dava pra deitar sobre a pedra e lá ficar, e a pedra não era toda tomada pela água, só no meio é que corria a água, talvez depois de chuvas o volume aumentasse, mas era mansa, com as pedras secas era possível subir até lá em cima. A água descia e formava uma enorme piscina que eu não me atrevi a entrar, embora o fundo fosse visível nas bordas... O meio, sabe lá né. A água... Gelada como água da geladeira!!! Não tive coragem de molhar além dos quadris. Luci tirou os tênis e molhou os pés, nada mais. Ficamos por ali cerca de meia hora. Voltamos.
      Seguindo pela indicação das setas brancas, um caminho em meio a mata nativa, uma vegetação linda, aqueles arbustos que tomam conta das árvores, flores pelo caminho e uma subida de tirar o fôlego, forte concorrente pra ser eleita a mais terrível do circuito, quase um rapel! Fizemos um bom uso do cajado. Subimos em silêncio e eu... Até pensava em parar pra descansar, mas fui no ritmo da Luci, me senti mais velha do que ela ao ser deixada pra trás, então apressei o passo, foram ... Sei lá, uns 2 km de subida assim, parecia que estávamos subindo um escorregador, no caminho eu ia pensando na blazer, se subiu tudo aquilo sem problemas.
      Passamos por uma entrada secundária que era uma descida tão grande que mais parecia um buraco. A curiosidade bateu e desci, cerca de uns 50 m de um lindo caminho, uma propriedade encantadora, uma das mais lindas talvez... Um lago com patinhos, ao redor, mata muito bem cuidada e preservadas, nos fundos uma casa linda, uma roda d'água em movimento nos fundos da lagoa. Cheguei com receio de cachorro, chamei por "ó de casa", nada, ninguém em casa. Meio de longe só fotografei, não quis me adentrar na propriedade alheia.
      Subindo e subindo... Uma capelinha, uma placa do circuito anuncia um hotel: Hospedagem rural fazenda sacramento. Paramos pra tirar fotos enquanto chega um carro, uma moça pergunta: "estão precisando de algo? Água, banheiro?" Falamos que estamos fazendo o circuito, que está tudo bem... Mais pra frente vou lembrar essa mesma moça que agora esbanja simpatia, negando pra gente um simples carimbo na credencial. Ela nos diz: pra Timbó ainda falta uns 8 km, mas pelo menos não tem mais subida! E gente contando que só tinha uns 4... Pelo menos, não tem mais subida. E não tinha mesmo, descemos e descemos... Entrando na cidade, mais pontes: em meia hora duas pontes pencil, lindas, andamos e tiramos as clássicas fotos de costas, andando pela ponte... Passamos pelo Museo da música que a essa hora já estava fechado. Quando chegamos já era quase 17 hs. Chegamos em um lindo parque com mais uma ponte pencil, Adriano e as crianças já haviam passeado por ali, mas mesmo muito cansadas, ainda passeamos por todo o parque. Do outro lado da ponte, uma linda casa em estilo enxamel, e por trás de casinha, uma linda escadaria, mais uma roda d'água, tratava se de um lugar turismo, um parque que marca o início e o fim do circuito do vale europeu. Tudo muito bonito. Finalizamos o trajeto de hoje com 40 km, apesar do record em distância, a bolha do pé totalmente sanada, e o cansaço é grande, mas dores não temos mais. Nos sentimos mais fortes. Carimbamos nosso passaporte num hotel tão bonito e luxuoso que não tivemos coragem de perguntar o preço. 
      Não achamos nenhum posto possível para passar a noite, então procuramos jantar em uma lanchonete, em seguida: sorveteria 60 sabores!!! 😃 Que delícia: sorvete sabor de nozes, sensação, maçã verde... Orientamos as crianças a irem no banheiro sabendo que depois não teria mais como. Voltamos ao lugar estacionado, perto da tal praça e parque que foi ponto de nossa chegada, e ali mesmo, no centro da cidade, arrumamos nossas camas: malas por baixo, colchonetes por cima, escovamos os dentes com água das garrafinhas, deitados agasalhadas, sem banho, não era nem 21 hs e todo mundo na cama, quer dizer: no carro... Momento de ver fotos e mandar mensagens, usei o celular até dormir (o que não demorou) e a bateria ficou abaixo de 50, no carregador da bateria do carro ficou o carregador externo, pra garantir nossas baterias de amanhã pelo caminho. 
      E sabe que já estamos nos habituando com essa cama que hoje, até parece bem mais confortável... Dormimos, acordei algumas vezes, mas dormi bem.
       
      5° dia vale europeu - Timbó à Pomerode - 15/06
      Acordamos cedo, mas nem tanto... Antes das 6! Dessa vez deu até vontade de ficar na cama... Mas levantamos e comemos frutas e um resto de pão que ainda tinhamos, arrumamos frutas na mochila e partimos as 6:30, sem banheiro, só escovamos os dentes com água de garrafas, mas como o pouso era numa vaga no centro da cidade... Sem banheiro, e assim Adriano prometeu acordar às crianças e já sair dali em direção à algum posto onde pudessem usar banheiro. Nosso banheiro foi o mato, mas ainda demorou um bocado pois até a gente fazer a primeira parte do trajeto, uma parte urbana... E com tudo fechado, a cidade ainda dormia... banheiro pra nós demorou.
      Logo quando a gente entra em espaço rural, árvores margeando a estrada e uma nuvem de passarinhos brinca no céu, todos faceiros e assanhados... não estão migrando pra lado nenhum... Estão apenas celebrando o novo dia, são várias nuvens, elas vem e voltam pras copas das árvores, como se ali fosse o pique de um pega pega no céu. As árvores estão repletas de passarinhos... todas elas, e os bandos ficam se alternando pra apresentar no céu o balé das andorinhas. Acho que são andorinhas, são pássaros pretos e muito pequenos, mas se "uma andorinhas só não faz verão"... Um monte com certeza faz porque e lindo de ver... Ficamos ali olhando pra cima um bom tempo, inutilmente tentando fotografar, gravar... Nada pode registrar com exatidão a beleza daquele espetáculo. Aliás, todos os dias a essa hora, em estradas assim a perder de vista... Sempre caminhamos embaladas por trilha sonora do canto dos passarinhos... E muitas vezes eles estão ao nosso lado nos fazendo companhia: são pequenos, azuis, cinza, verdes, pretos, brancos... Como é bonito ver passarinhos solto na natureza. Fico pensando que gosto pode ter alguém que cria passarinhos em gaiola!!!! Nunca entendi essa ideia de se ter passarinho como bicho de estimação.
      Já na SC 110, uma capela a beira da rodovia nos faz atravessar a pista, e entrar... Lá, vitrais coloridos com lindas imagens, e no teto, uma pintura ilusionista nos remete ao céu... Uma paz... Atrás da igreja, um cemitério com o mesmo nome da igreja: São Roque.
      Ainda perto dali passamos por uma escola municipal e o que me chama atenção é as crianças em idade de ensino fundamental, brincando na quadra de bola queimada, o professor olhando, todos de máscara, sem exceção! E fico a pensar: tai a nossa nova realidade... E como é difícil praticar esportes com máscaras! Principalmente envolvendo corridas, tanto que futebol e outros esportes em equipe jogam sem ela (claro, sabemos que eles fazem teste rotineiramente e seguem uma série de protocolos). Ao ver crianças tão pequenas se acostumando ao uso de máscaras até na hora de jogar bola queimada, penso que o mundo nunca mais será o mesmo! Máscaras farão parte do nosso dia a dia tão costumeiramente que serão como os celulares: os jovens de amanhã não terão lembrança de um mundo sem máscara! 
      Em frente a escola num canteiro... Um balanço enorme instalado ali... Porque eu não sei... Ah!!! Um balanço!!!!!! Não resisto!!! Deixo meu cajado num cantinho e corro sentar nele!!! Dá pra perceber que atrás do balanço tem um pequeno morro, que o balanço tem corda de sobra pra que se suba no barraco levando uma ponta da corda e consequentemente, o balanço... De forma que a largada seja lá de cima do barraco, e isso faça o balanço ir parar nas alturas!!!! Lógico!!! Me lembro de Minas (em Minas, em uma das paradas na casa de uma família, um balanço amarrado a uma árvore imensa, um barranco atrás... Dava pra balançar tão alto que quase cheguei ao céu!!!) Mas agora eu não tive coragem de subir no barranco, até porque em Minas eu fui puxada pro barranco depois de sentar no balanço pelo dono da casa... Mesmo dependo só do meu impulso... Que delíiiiciiaa!!! Enquanto balanço eu canto pra mim mesma que "🎶a felicidade está no caminho..." E ou a música, ou o próprio balançar, ou os dois me fazem encher os olhos d'água. Tenho que deixar a Luci balançar também né!!! Ela balança, adora... Ficamos ali mais um tempo, mais um pouco pra mim, mais uma vez pra ela... Duas crianças brincando...
      O próximo trecho a chamar a atenção foi uma área cercada e um lago repleto de flores de lótus, eu nunca tinha visto uma flor de lótus, é de uma beleza hipnotizante, dava vontade de ficar olhando e não sair mais de lá... É como uma música boa... Só de olhar faz bem, faz a gente se encantar pela beleza, a gente se alegra por estar ali vendo, os olhos se enchem de tanta beleza é como se tudo no mundo fosse tão bonito quanto... Você esquece do resto! Simples assim... Essa sensação é fácil de entender quando estamos diante de coisas monumentais como quenios, picos, cavernas, desfiladeiros, infinitos, cachoeiras majestosas (cito exemplos de coisas que eu já vi e já senti essa sensação) mas foi uma flor!!!! É a delicadeza que encanta! Uma beleza que te preenche.
      Mais pra frente, de novo uma floresta de Pinheiros, cercada, dessa vez eu e Luci pulamos lá dentro, o acesso tava mais fácil... Andamos, tiramos fotos, usamos o temporizador, curtimos a floresta...
      O caminho ainda reservava mais pontes, na maioria das vezes pontes pequenas que cruzam córregos que vão pra propriedades particulares... Nós, só íamos e voltamos só pra dizer que passamos por lá. Lamento não ter contando os quantas pontes passamos. Passamos por uma parte cuja vegetação nativa encantava: uma cortina de cipós era tão bonita que parecia coisa de decorador, e era né, o maior de todos os arquitetos: Deus, a Mãe Natureza... Conversamos sobre essas passagens onde a natureza é intocável, onde as cachoeiras e a vegetação é inacessível, que ali a única interferência é a estrada de chão que passa. Como é bonito passar por lugares assim, e por aqui as pessoas parecem saber o valor dessa riqueza pois não há lixo, apesar dessa característica vegetação nativa e intocável em muitos trechos, a região é habitada, mas não vimos descarte irregular em nenhum lugar dos 245 km em que andamos, uma ou outra latinha em meio as rodovias, que diferença! Essa deve ser uma das razões do nome Vale Europeu.
      Ainda na estrada de chão numa bonita propriedade rural com uma casa em estilo enxamel, um cachorro nos assusta de verdade... Não deixa a gente passar, avança na gente, somos socorridas pela dona do bichinho que jura, é manso... Mas fica difícil de acreditar, ela precisa pegar no colo! Foi o avanço de cachorro que eu mais tive medo do caminho.
      Saímos da estrada rural. Normalmente o dia é divido em três etapas: a saída que quase sempre passa pela cidade e rodovias, a parte rural ou em meio as matas, e a aproximação com a cidade de chegada em meio ao perímetro urbano e ou rodovia de novo. E já perto de Pomerode, de novo cachorros! Mas sempre quando vem cachorros assim eu primeiro tento a conversa mole, e funcionou: o bichinho abanou o rabo e se derreteu todo. Aliás, já eram dois, uma cachorra grande e um pretinho, a cachorra é tão afável que chega a deitar no asfalto de rolar de barriga pra cima pedindo atenção. E pronto! Temos companhia! Eles nos seguem por um bom trecho. A cachorrinha fica em um ponto de ônibus porque as pessoas começam a conversar com ela inclusive chamando pelo nome: Lady. As pessoas nos contam que ela é da redondeza, e por lá ela fica, aos carinhos do pessoal do ponto de ônibus, e a gente segue na companhia do cachorrinho preto que nos seguiu por 5 ou 6 km, inclusive na rodovia, e a gente... Morrendo de medo dele ser atropelado naquela rodovia apertada e sem acostamento. 
      Entrando em Pomerode, ausência total de setas brancas, sabemos que temos que chegar no portal de entrada na cidade, mas uma bifurcação aponta pra Blumenau, e nada de setas. Jogo no Google: portal de Pomerode, me informo com moradores, a gente vai por essas informações, e pelo meio da cidade, abandonando as orientações das setas brancas. Viramos uma esquina e pá: a galera lá tomando sorvete! A surpresa nos faz esquecer nosso amigo cachorro que até aquele momento estava conosco... Conversando com Adriano e as crianças que nos dizem estarmos próximos ao portal. Terminamos de chegar acompanhadas pela galera e quando vamos contar que o cachorrinho veio junto, já não tá mais! Seguiu sozinho!
      Caminhamos aquele último quilômetro acompanhadas das crianças e Adriano, ouvindo os relatos de todos sobre os passeios do dia: foram no zoológico, na vila dos dinossauros, no Museo... Muitos bichos lindos no zoológico... E nós ainda tinhamos que almoçar, estávamos cansadas, acabamos dizendo que tudo bem ficar sem ir no zoológico né, afinal, a galera toda já foi... Não vão querer ir de novo! Fizemos a foto de final da caminhada em frente ao portal: 24,58 e mais algumas fotos, ali mesmo era possível carimbar a credencial e partiu almoço.
      O almoço estava no carro nos esperando... Uma marmita fria mas deliciosa, o carro que estava estacionado na praça da cidade do lado do letreiro: eu amo Pomerode... Serviu de ponto para um delicioso descanso: Adriano dormiu uma boa soneca pós almoço, Luci também, eu dei umas pescadas e depois de um merecido descanso, fomos procurar um pouso que aliás, estava bem próximo de nós: ali mesmo em frente ao portal ficava um hostel, com um anúncio de pouso coletivo ou coisa assim. Entramos e um jovem muito simpático nos atende, liga pra mãe e pergunta quanto ele deve fazer, desliga o telefone e faz um excelente preço: 240 reais. Ficamos com o hostel que não servia café mas tinha uma cozinha coletiva, porém éramos os únicos hóspedes. Tivemos que esperar o menino terminar de limpar o quarto, o que durou cerca de meia hora ou mais, entramos no quarto muito confortável com uma cama de casal e duas beliches (até sobrou cama) banho quente e partiu mercado: compramos pizza pra fazer e pães com mortadela pra amanhã. Descanso garantido... Dormi como rainha.
      Depois Heitor contou que ouviu de madrugada alguém bater na porta e perguntar se tinha alguém, provavelmente em busca de pouso... Mas ninguém atendeu o pobre... Aquela casinha parecia ter apenas a gente mesmo. Eu não ouvi nada. 
       
       
      6° dia vale europeu - 16/06 - de Pomerode à Rio dos Cedros.
      Até que acordamos cedo: umas 6 hs, mas até tomar café... Saída às 6:50. Mas... O trajeto de hoje pela planilha era só 17 km, susse. Saímos do hostel e deixamos Adriano ainda com as crianças dormindo. Passamos pelo portal amanhecendo o dia, e já pegamos a rodovia, mas a rodovia muito bonita, rodeada de mata nativa... Com o rio correndo nas margens... Logo surge um luxuoso restaurante: restaurante recanto do salto. O rio passa entre as pedras, uma ponte de madeira faz a ligação para o restaurante, em baixo da ponte uma deliciosa cachoeira. E aquela hora do dia tudo estava fechado, mas a passagem da ponte ficava aberta, entramos, eu entrei até na água - só os pés, mas já valeu!
      Saindo de Pomerode, passamos pelo Museo do imigrante, uma linda construção em estilo enxamel, a foto de um relógio enorme em um monumento registra a hora daquele momento: 8:10. Nada de setas brancas, é preciso se informar com funcionários do Museo.
      Passamos por mais uma igreja luterana (são muitas lá) e em frente a uma linda roda d'água (também são muitas).
      Pela rodovia uma placa indica que cruzamos a fronteira de Pomerode com rio dos Cedros, brincamos com isso: tipo, aqui Pomerode, aqui Rio dos Cedros, em uma diferença de um pulinho.
      Já são cerca de 11 horas e como o trajeto de hoje é pequeno ... Não custa desviar um pouquinho...
      Avistamos uma igreja láaaa no alto, a rua nem é nosso caminho, mas bem dispostas vamos até lá...
      E chegando lá: uma subida quase na vertical de... Uns 150 a 200m, mas de respeito hem! Ficamos imaginando as velhinhas beatas pra ir à igreja todos os domingos!!! Bom, a igreja por fora é linda e por dentro estava fechada. Que pena.
      Fechamos o dia na praça, na igreja matriz de Rio dos Cedros, cerca de 13 hs, aos 20,59 km, nem deu pra cansar. A praça é enorme e a igreja está sendo lavada, então não dá pra entrar, chegamos a ir até lá, mas o funcionário nos atende com indiferença e nos diz que não, por ali não vai passar, procurem a entrada lateral. Ao fazer isso, outras duas moças que parecem conhecer bem a igreja nos atendem com a mesma indiferença: está fechada. Tava na cara que éramos de fora, poderiam ter sido mais maleáveis...
      Na praça fica um parque, as crianças brincam no parque, eu ainda tenho disposição pra brincar também, mas agora que já está tudo sossegado, olho no celular e vejo uma mensagem: "Patrícia, é do hostel de Pomerode, você esqueceu um agasalho bege"! Lembro que saímos e como sempre, quem organiza as coisas pra ir embora é sempre Adriano. Nem falo nada, só aviso da mensagem e lembro que dentro do bolso daquela blusa há 150,00. Bom, tá decidido né, vamos voltar de carro, já que é perto. 
      Antes vamos almoçar em um restaurante, deliciosa comida, e satisfeitos, voltamos de carro à Pomerode.
      No caminho vou lembrando que eu não fui no zoológico, que ainda é cedo e que eu não estou nem um pouco cansada hoje. As crianças endoidam!!!! Querem ir de novo. Luci não quer ir, chego a dizer que posso ir sozinha, mas as crianças batem o pé, quem ir... Luci se deixa convencer, e lá vamos nós... Blusa resgatada, partiu zoológico!
      Foi a melhor coisa esquecer a blusa. Logo na entrada do zoológico um bando de Guarás!!! Que coisa mais linda, que espetáculo, ficou encantada, mas tão encantada que poderia ficar ali que já teria válido minha visita; são aves de uma coloração vermelha intensa, nunca tinha visto... o zoológico é lindo, verde, tem pássaros coloridos, patos, macacos, pinguins!!!! Isso mesmo, pinguins!!! As crianças se sentem nossos guias, se divertem mostrando tudo já com conhecimento prévio. E o Tigre!!!! Como é lindo o tigre!!! Fico hipnotizada por eles, tanto que as crianças dizem: "mãe, já deu, vamos mãe, não olha ele no olho não" o tigre parece mesmo estressado e nervoso, parece enfadado daquele lugar, e se ele quiser dá impressão que poderá mesmo pular em cima de alguém e vencer o buraco que há entre ele e o visitante. Mas é lindo demais, ele desfila diante de nós e nos encara, o tal olho no olho é mesmo hipnotizante. Já a onça é tão bonita e encantadora quanto, mas está localizada num buraco muito abaixo de nós, e embora pareça tão nervosa quanto o tigre andando pra lá e pra cá, só conseguimos vê lá de cima pra baixo, e não rola o olho no olho. As araras e papagaios das cores mais lindas que tem na Caixa de lápis de cores de Deus: vermelhos, amarelos, verdes tão intensos que deixa no chinelo qualquer Matisse ou Van Gogh, azuis de fazer inveja a Yves Klein.
      Passamos por dentro de um viveiro de aves com passarinhos de todas a cores e tamanhos, lindo, grande, mas... Ainda acho que lugar de passarinho é mesmo na floresta, e aliás, de todos os bichos...
      A zebra: será preta de listras brancas ou branca de listras pretas? Martin que o diga! E por último, os encantadores flamingos cor de rosa... Saimos de lá satisfeitos e felizes, valeu ter esquecido a blusa! Partiu rio dos Cedros. De volta à praça da igreja, tive a ideia de falar com o padre, pedir autorização para pouso no pátio do estacionamento da igreja do lado do banheiro. Nos apresentamos como caminhantes e dissemos que estávamos fazendo o vale europeu. Mas a resposta: "não. Vocês podem ficar com a praça, é seguro lá". O padre tão simpático como os funcionários da igreja! Sendo assim, fomos pro posto que perto das 21 hs fechava, mas ali jantamos uns pães de queijo e usamos os banheiros pra escovar dentes e tal, mas banho mesmo... Hoje não deu! Pouso arrumado, esquema de sempre: malas por baixo, cama por cima... Ninguém mais reclama, partiu descanso, amanhã tem mais.
      No carregador do carro fica o carregador externo, e o celular eu olho a fotos do dia antes de dormir, mas vai amanhecer a menos de 50%. 
       
      7° dia vale Europeu, de Rio dos Cedros à Benedito Novo - 17/06
      Saímos tarde, 7 hs, e logo já estávamos em meio as estradas de terra, até passamos por um pouco de pés de café, os únicos que vi em todo o caminho, se quisesse dava até pra contar quantos pés de tão pouco, mas o suficiente pra me trazer a lembrança a imensidão da lavoura de café de Minas. O Horizonte era rodeado por montanhas e a névoa encobrindo tudo, um lindo cenário, logo estávamos subindo morros... Passamos por uma igrejinha simpática, e a subida começa a ficar cada vez mais ingrime... Até que chega a um ponto onde se vê um enorme desfiladeiro, uma visão panorâmica de encher os olhos nos faz avistar a Igrejinha que passamos a pouco como um pequeno ponto lá em baixo, rodeada pela neblina: coisa mais linda, um trecho tão lindo que merece uma parada e um tempo pra contemplação, fazemos fotos mas nada é capaz de reproduzir a beleza que vemos. 
      Vimos nascentes brotando em meio a vegetação nas encostas das montanhas, e algumas pequenas cachoeiras e córregos límpidos em quintais de propriedades, quanta riqueza... Subindo, subindo... E de repente, estamos de novo no asfalto e logo chegamos ao letreiro: #eu ❤️ Benedito Novo. O letreiro é colorido e está em frente a um bonito parque, um imenso gramado Verde, um monumento de peixe e as bandeiras da cidade, um portal todo adornado com rosas para servir de cenário para os apaixonados... Linda praça. Ficamos felizes porque chegou... Só que não! O ponto de chegada ainda está longe. Seguimos agora pela rodovia SC 477 e passamos em frente a uma linda construção em enxamel com flores coloridas em floreiras, mais adiante outra igreja Luterana e dessa vez os sinos começam a badalar assim que estamos passando... Ficamos encantadas e preferimos acreditar que nossa passagem é a razão das badaladas. 
      Mais pontes, e quando menos se espera, as setas brancas nos tiram da rodovia e indica pra entrar de novo em estradas de terra (sim, por já ter passado pela entrada da cidade, saber que estávamos chegando, acreditávamos que já era última etapa via asfalto, a parte urbana do final) e pra variar... Subida! Subimos meio na incerteza, e foram cerca de uns 2 a 3 Km. Logo passamos por um trecho que indicava o caminho para doutor Pedrinho, entendemos que no dia seguinte com certeza teríamos que voltar um pouco e passar por ali. Em seguida chegamos a uma ponte para pedestre, estreita, de madeira, e que na verdade por ali passam muitas motos e bikes, a ponte dá nos fundos de um mercado, e uma trilha faz chegar a beira da estrada. A blazer está estacionada do outro lado da BR, num posto de gasolina. Fim do trajeto de hoje aos 25,55 km. Entendemos que o desvio pela estrada de terra é só uma estratégia pra deixar o caminho mais bonitos e menos urbano, pois saímos da SC 447 e nela estamos de novo. 
      Almoçamos ali uma marmita fria, mas deliciosa temperada com o melhor de todos os temperos: a fome, na companhia de Simba, um lindo cachorrão fila, branco com pintas pretas e cara de bobão, não assusta ninguém!!! Havia uma colera com plaquinha gravada o nome: "Simba. Sou grande mas sou amigo, sou do rolê e meus donos me amam" e o número de telefone. Penso em ligar mas a lojinha do lado do posto me informa que Simba é de lá, mora lá em frente e está acostumado a "conversar" com todos que passam por ali. Com ele eu me encanto: ele senta, da a patinha... ganha um pouco do nosso almoço e nossos corações. 
      Adriano nos conta que o posto não é 24 hs, e não é muito simpático, então de carro voltamos lá na praça do peixe, do #amo Benedito Novo, brincamos com as crianças e até uma corrida pra ver quem chega primeiro de um gol a outro que, lógico, quem ganha é Adriano. Essa praça fica em frente a um posto, ali estacionamos a blazer e nos informamos sobre a autorização para um pouso, mesmo não sendo 24 hs, por ali vamos ficar. Tem chuveiro só no banheiro das mulheres e o banho custa 10 reais, pagamos 4 banhos - Heloísa não quer saber - o chuveiro... Água só quebrava a friagem, nem norma pode se dizer, fazer o que! Tomamos o banho protestando cada um pra si mesmo, e devolvemos a chave com o banheiro aberto, fomos procurar algo pra comer na esperança de chegar e encontrar o banheiro ainda aberto. 
      Atravessando a rodovia um pouco pra esquerda, uma boa pizzaria: barata e gostosa, um lugar agradável, excelente atendimento, tocava Jack johnson, muito bom. Chegamos de volta em casa - a blazer estacionada nos fundos do posto - o banheiro estava fechado, bobagem acreditar que eles fechariam o posto e deixariam o banheiro feminino aberto. Mas ... O banheiro masculino (horrível) ficaria aberto a noite toda, menos mau. Atrás de onde está a blazer tinha uma oficina mecânica que ao contrário do posto, parecia não ter hora pra fechar, aliás, o atendimento já estava encerrado, mas os funcionários, uma galera de rapazes, armavam uma festa com som alto e cerveja, a noite prometia não ser muito tranquila. Arrumamos a cama e deitamos, com tudo fechado já não se ouve tanto o barulho da festa. E naquele momento em que você pega o celular pra ver fotos do dia e tal... Me lembro que o óculos que enfim havia achado em meio as malas ontem, eu tinha esquecido lá na pizzaria 🤦! Eu sei que o óculos tá com a perna quebrada, mas no momento é o único que tenho, levando e aviso que vou voltar lá na pizzaria!!! AFF, naquele frio, vento, com o cansaço do dia, lá vou eu em uma caminhada noturna e sozinha... Atravesso a rodovia, chego na pizzaria e a mesa em que comemos ainda está do mesmo jeito, ainda está tocando Jack johnson (agora upside down)... O óculos está lá, do lado do prato... Pego, agradeço, e parti pra casa quase que correndo. Mau fiz uso deles, logo dormi.
       
      8° dia Vale Europeu - de Benedito Novo à doutor Pedrinho - 18/06 Acordamos tarde, lá pelas 6 e tanto já quase 7. Até comer, se arrumar... Lembrando que ontem optamos por pouso na entrada de Benedito Novo, mas o ponto de chegada não era esse, e sim a cerca de 6 km daí, sendo assim, Adriano nos levaria de carro pra lá, onde começa de fato a trilha de hoje. Então não basta nós estarmos prontas, hoje é preciso acordar às crianças pra que todos saímos daqui de carro. 
      Mochila feita (hoje a capa de chuva vai na bolsa), dentes escovados, café tomado, crianças acordadas... Só sair com o carro... Mas o carro não sai! Sem bateria. Adriano diz que a bateria realmente nunca foi trocada, que tem mais de dois anos sem trocar e que ali onde estamos não dá pra dar tranco, e melhor é comprar outra lembrando que nos fundos do posto, ou seja, do nosso lado, a oficina mecânica que ontem ficou até tarde fazendo festa, deve ter bateria pra vender. Ele desce do carro e pede pra esperar, meche aqui meche ali, mas nada, o carro não sai do lugar. 
      Decidimos ir dali mesmo! Eu tenho plena convicção de que Adriano vai tirar o carro de lá, talvez antes mesmo de abrir a oficina. Mas nós se ficarmos esperando vai ficar muito tarde. Lembro que ontem quando passamos por aqui (a entrada de Benedito Novo) estávamos há pouco mais de 6 km da chegada (chegada que seria o começo do dia de hoje) porém ainda entramos em um trecho de estrada de terra, mas que foi dar de novo da SC 477, então se fizermos direto, sem entrar na estrada de terra, chegaremos talvez mais rápido. Luci topou na mesma hora! E assim fomos: saindo da entrada de Benedito Novo pela rodovia direto até o ponto onde de fato começaria o trecho de hoje.
      No caminho... Passamos reconhecendo os pontos de ontem: a construção em enxamel, a igreja luterana... Até que desobedecendo a setas brancas e não entramos na estrada de chão, pela rodovia surgiram belezas que não tinhamos visto: pontes, a vista do rio Benedito, a construção de um túnel no meio do caminho, um mirante com escadas circulares que oferecida uma visão panorâmica do rio e dos arredores. Continuando subindo e subindo, a prosa tá tão boa que já esquecemos que esse pequeno trecho nem tá na conta, e que a hora vai longe... E quando só faltam menos de 2km, Adriano nos acha! Mas agora a gente já não quer mais carona, já incorporamos o trecho a mais. Logo no ponto final do trecho de ontem e começo correto de hoje, paramos todos pra café (um longo café numa padaria ótima) e em seguida mercado... E lá está nosso amigo Simba, passeando pra lá e pra cá. Voltei ao mercado e comprei mais um pão pra fazer um sanduíche especial pra ele, mas quando saio do mercado, cadê? Não acho mais. 
      Nos despedimos de nossos apoios e seguimos tentando não pensar que na verdade, estamos começando o dia de hoje quase 10 hs. Deixo o sanduíche do Simba com a crianças que ficam com a missão de encontra lo, e nós, seguimos pelo trilho atrás do mercado e atravessando pela última vez a ponte de pedestre sobre o rio Benedito. 
      No caminho de hoje mais pontes, nem que seja pra ir e voltar, a gente desvia um pouquinho... Caminhos de estrada de terra lindos, com vegetação nativa, flores, pássaros... Ah... E cerejeiras... As cerejeiras chamam atenção de Luci, lembram o Japão. Propriedades com quintais de encher os olhos, com lagos, montanhas, córregos, um cenário lindo. De repente em uma entradinha... um córrego... Um lugar feio cheio de lixo reciclável, mas mesmo feio, comparado aos nossos barracões de reciclagem tava bonito, nada fora do lugar, nenhum papelzinho jogado no chão, nada disso. São materiais recicláveis amontoados numa espécie de barracão. E ao dar a volta e seguir o curso do córrego e o som das águas... Uma surpresa: uma linda cachoeira nos fundos desse lugar. A cachoeira em si é difícil de acessar pois tem uma ampla piscina que sabe se lá a profundidade, e difícil de ser contornada, mas há uma tubulação que vem de lá da queda d'água e chega até os fundos do barracão e deságua numa bica como se fosse um chuveiro gigante!!! Tipo o "bicão" de Minas (uma bica d'água num cano de PVC que fica depois de uma rotatória na saída de ... ) Só que umas 5 vezes mais forte, pois o cano de PVC aqui é de um diâmetro... Sei lá, uns 6 de raio por aí. A bica é forte e... Gelada!!! Como eu sei? Porque não resisti e entrei lá!!! Tinha prometido pra mim mesmo que não iria entrar na água!!! Mas diante de um chuveiro desses... Ah!! Olhei bem ao redor, afinal era um barracão, ninguém por perto... Pra entrar eu teria que tirar quase toda a roupa, pois é diferente de entrar só com os pés ou sentar na água, aquilo era um chuveiro!! E o frio que fazia... Depois pra mim seguir molhada! Parti do princípio que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e tirei os tênis, meia, calça, blusa de frio, blusa de baixo... O top? 🤔 Pensei, pensei... Não, esse não tirei... Fui chegando perto... Friiooooo!!!!! 🥶🥶 Achando lugar primeiro para os pés, e foi!!!! Nossa que gelo!!! Acho que não fiquei nem 10 segundos! Luci só sabia dizer: cê é doida! Com o celular na mão, Luci se preparava pra bater mais fotos e eu me preparava pra mais 10 segundos: pensei: vou entrar mais e ficar mais. AFFF, devo ter ficado uns 12 segundos agora, mas só na beiradinha da bica, e ainda encolhida. Não! Assim a foto não fica boa!!! Tenho que entrar com tudo e jogar os braços pra cima como se a água estivesse quentinha!! Lá vou eu de novo... 1,2,3 e vou eu... Mas a força da água é tanta que eu simplesmente não consigo entrar na luz da bica! Levanto os braços pra cima e comemoro! Fico o máximo que consigo! Show! 
      Saio, tiro o top, torço, uso ele mesmo molhado pra me secar e me visto  com uma camiseta que está na bolsa, a blusa de manga longa por cima e o blusão de frio. A calça vai com muita dificuldade... Meias e tênis, seguimos, eu com os cabelos molhados, calça molhada e tremendo de frio...
      Logo que saimos dali cerca de uns 300 m encontramos nosso apoio, Adriano me pergunta porque estou molhada, falo que porque não resisti a um chuveiro gratuito no caminho, o único problema foi que era pior que o posto de Benedito Novo, não esquentava nem a pau! Mas ficava a dica: um bom banho gratuito de lavar a alma. Adriano nos avisa que já percorreu o trecho todo e que vamos chegar a um lugar onde não tem nada, e que já estamos quase chegando. A chegada de hoje é na igreja nossa senhora da Glória, mas a quilometragem não bate, estamos com 6 km a mais e mesmo assim ainda tem chão pra atingir a quilometragem do dia que é 26 e tantos.
      Passamos por uma igreja enorme, pegava toda a quadra, paróquia nossa Sra de Lourdes. O muro que contornava a esquina tinha um nicho pra cada santo, como se fosse uma capela pra cada um... Tanto santo que desisti de fotografar todos! 
      E mais pontes, e mais capelinhas, e mais lindas estradas... E nisso o tempo vai esfriando... Já passava das 13 e nada de sol dar as caras, o tempo fechado e o frio só que aumenta, vamos subindo e subindo... Cenários bucólicos, pitorescos... E de repente nosso apoio que já foi, voltou, passeou e continua a nos escoltar passa por nós, vai encostando o carro no intuito de parar e... O carro vai atolando!!! Como se fosse uma areia movediça!! Não dá nem tempo de tentar acelerar, a estrada sem acostamento mas também sem meio fio pois é de terra... Eu vejo aquela cena e levo as mãos na cabeça dizendo a Luci que dali o carro só sai com ajuda. Adriano saí do carro rindo pra não chorar, e não é que vinha vindo um caminhãozinho no sentido contrário! Nosso desespero não durou nem um minuto! Naquela estrada que não passava ninguém de repente surgi justo um caminhãozinho!!! São dois homens, eles param e dizem dando risada que já caíram naquela mesma situação, o terreno ali é uma espécie de lamaçal, de pantano... 
      Enquanto os homens conversarem eu abro a porta e "salvo" as crianças, a blazer parece afundar cada vez mais! Os meninos passam uma espécie de fita, uma corda larga como uma fita, e puxam de ré a blazer: a fita arrebenta!!! Pois não é que os cara tinham um cabo de aço! Nos disseram que colocaram o cabo de aço novo no carro naquele dia! Agora sim, o caminhão puxou a blazer de ré, e viva!!!!! A roda traseira inteira atolada, e a dianteira quase inteira! Comemoramos, agradecemos e eles seguiram... Adriano vai embora sem nem se quer nos falar o que tinha pra falar quando encostou a blazer no acostamento! Mas não vai muito longe... Anda cerca de uns 500 m e vira, lá fica estacionado... Ainda falo brincando: ué? Será que atolou de novo? Pelo que parece não. Está apenas nos esperando. A estrada é tão limpa que nos permite ver a blazer nos esperando.
      Mas nós não temos pressa! Ao passar pela cerca de uma propriedade, um bebê cabritinho vem correndo ao nosso encontro e dizendo: béééé... Que fofinho, quanto mais a gente conversa com ele, ele responde béééé, a cerca é longe e não alçando pra fazer um cafuné... Vamos seguindo que estamos sendo esperada mais a frente. 
      Chegamos ao ponto em que a blazer nos esperava, e Adriano nos fala que o ponto de chegada é ali. Há uma igreja mas não tem nada que indica o nome dela, também não a nada que indica o fim do caminho de hoje. A seta branca indica pra continuar, Adriano nos diz que vamos andar só mais um pouco e que a estrada acaba logo a frente, a certeza dele é tanta ele nos diz que podemos ir pra conferir, ele espera ali. Então vamos, mas a quilometragem não bate ainda. Realmente da a impressão de que a estrada acaba, mas olhando melhor há uma entradinha mais estreita e a seta branca quase passa despercebida indicando pra virar! Começa uma subida daquelas de respeito, talvez ainda maior do que aquela descrita em Timbó a Indaial. A subida é tanta que percebemos que estamos subindo o morro, o frio aumenta e cai agora uns fina garoa, a estrada de terra tem marcada como um desenho a linha que passa carro, onde a terra é tão batida, tão amassada que chega a estar escorregadia e nós precisamos andar pelas beiradas onde tem mais pedrinhas, e justamente nas beiradas se vê desfiladeiros com uma riquíssima vegetação nativa. Fico muito preocupada com Adriano que teimou em nos dizer que o caminho acabava ali, e que iria nos esperar, fico pensando quanto tempo ele vai levar pra perceber que a gente não volta tão cedo e que ele deve seguir, e se o carro vai conseguir subir tudo aquilo sem derrapar, já andamos mais de 5 km, mais de uma hora e ele ainda não passou por nós! Mando mensagens dizendo que ainda tinha muito chão e que a igreja que ele parou não é nossa senhora da Glória, mas não tem sinal de internet. Fico um pouco angustiada, comendo com a Luci, mas a angústia guardo pra mim.
      O caminho fica cada vez mais bonito em meio a neblina, ficamos pensando que talvez a capa de chuva vá ter que sair da bolsa. Passamos por uma placa que indica: Gruta de Santos Antônio. A placa diz que a gruta foi construída por um casal que teve uma graça atendida, pegamos a entrada da gruta que se trata de uma descida ingrime e uma trilha estreita, um buraco que dá até medo de olhar, uma placa diz: aproximadamente 300 m. Só de dar alguns passos na trilha já se perde a visão da estrada. Usamos a trilha pra fazer xixi, mas acabamos decidindo que não vamos crescer, naquele tempo que só piora, ameaçando chover, ali por ser em meio à mata, tudo está escuro e até parece anoitecer, além de temer estarmos descendo e perder a passagem do apoio pela estrada, voltamos e seguimos subindo... 
      Ainda demora... Mas Adriano passa por nós nos contando que ficou ali parado por um bom tempo, que apareceu um senhor bom de prosa, e a prosa foi longe, o senhor diz que realmente aquele caminho ainda ia adiante, no fim da prosa Adriano saiu e segue pelo caminho indicado, caminho esse que ele teimou em dizer que acabava ali. Adriano nos conta que quase desceu na gruta procurando por nós, que desceu um pouco, se assustou com a descida e chamou pelo nosso nome, mas resolve seguir até que nos acha logo em frente. Aliviada por vê lo, seguimos, e ele segue pra nos esperar lá na frente.
      Nossa quilometragem já passou de 30, já passa das 16 hs, o cansaço tá batendo e nada de chegar. Passamos por uma placa que indica divisão de municípios entre Benedito Novo e doutor Pedrinho. Brincamos ali, fotografamos, mas que só agora estamos chegando na parte final do caminho: a entrada em doutor Pedrinho ainda na parte de mata, e que vamos andar até chegar na parte urbana. 
      Passa por nós uma caminhonete vinda no mesmo sentindo, para, e nos oferece carona. Nos diz que depois de subir o morro, é preciso descer - faz sentido - e o senhor parece ser bom de prosa... Nos oferece laranjas, agradecemos e dizemos que vai nos pesar na viajem a pé. Ele pergunta onde estamos hospedadas e ao ouvir que não temos pouso, nos indica a pousada da Nina, e diz que vai passar por lá e deixar nossa sacola de laranja!! Agradecemos e seguimos.
      Por mais que prometemos pra nós mesmas não parar mais... A vegetação é tão encantadora que é impossível passar despercebida, folhagem quase do meu tamanho, de um verde que parece passado verniz, nascentes e cachoeiras inacessíveis...
      Enfim, já passa das 17:15 e garoa continua a cair, agora mais forte, e chegamos: aos 40,25 km. Agora sim, na igreja nossa senhora da Glória, onde a uma placa indicando o vale europeu. 
      Cansadas, o jantar foi um lanche, passamos no tal hotel da Nina, mas o preço não agrada, ficamos apenas com o carimbo da credencial, sem coragem de perguntar pela sacola de laranja que "ganhamos" no caminho,  partirmos para um posto, o único da cidade nos parece, o posto fica há cerca de 1 km da chegada de hoje. Ali nos arrumarmos o mais rápido possível, pois já está chovendo e já são quase 20 hs, o posto fecha em breve, usavamos os banheiros pra escovar dente, mas banho não tem. 20 hs já estamos na cama e uma chuva fina e constantes cai lá fora. A blazer está estacionada numa cobertura do posto ao lado passa um córrego, a força da água é tanta que parece uma cachoeira e nos garante um delicioso barulho de água. A cama hoje parece doce de boa.
       
      9° dia Vale Europeu - Doutor Pedrinho à Benedito Novo de novo! 19/06/21
      O dia amanheceu chovendo fraco, mas constantes. Choveu a noite inteira e o frio tá de cortar! A primeira coisa que me vem a cabeça é: hoje é dia de subir o morro até a cachoeira do zinco! Conhecemos parte desse trecho pois foi dali que começamos, foi até a cachoeira do zinco que subimos de carro pra começar o circuito, então sabemos que vamos subir muito morro acima hoje. 
      Levantamos e tomamos café, hoje sim: capa de chuva já vestida, a mochila fica por baixo, difícil acesso. Aliás, difícil será acessar até o celular. Quando saímos de Londrina pra cá tínhamos certeza de que iríamos caminhar no frio, na chuva... Mas pra nossa surpresa... Não foi bem assim, foram 8 dias de boa. Então diante desse último dia chuvoso não tem como reclamar. Adriano desde de que abriu os olhos nos diz que hoje não vai subir morro, vai fazer o caminho pela rodovia e chegar no nosso ponto de chegada indo direto, sem seguir o caminho das setas, diz que teme derrapagens morro acima, pois já conhece a subida que nos espera. Parece que todos nós acordamos com a mesma preocupação: a subida da cachoeira do zinco. Já passa das 6 e o posto já abriu, estamos com a chave do banheiro e se arrumando pra ir... Estamos prontas e as crianças continuam dormindo, coloquei a chave do banheiro no teto do carro pois não adianta devolver ainda, mas penso: não posso esquecer. Então Adriano resolve nos levar até o ponto de início ainda com as crianças dormindo e sem desfazer a cama, entramos no carro em cima das camas e ele sai com o carro - o ponto de partida não é longe, talvez menos de 1 km, poderíamos até os dali, mas... Tá chovendo né - quando chegamos lembrei da chave do banheiro no teto do carro! 🤦 Adriano fica bravo e vai ter que voltar, nos vamos voltando a pé pra ver se acha a chave caída no percurso... Já quase chegando no posto, Adriano já está voltando e conta que achou a chave caída ali mesmo no lugar onde estávamos, entregou e ufa! Pra quem não queria vir nem até o ponto de início de hoje a pé por causa da chuva, tivemos que voltar quase o trecho inteiro atrás da chave, e dar meia volta pra de fato iniciar o caminho, mas não foi nem 1 km a mais... 
      O trecho de hoje na planilha é o maior de todos os 9 dias: 31 km. Mas nós já batemos 40 né, por duas vezes, então assusta mais pensar no tamanho da subida no morro, na chuva... Penso em subir e descer pra encontrar Adriano lá em baixo e passar de 50 km hoje... Então em cima da hora, já a caminho eu proponho a Luci ir pra Benedito novo pela SC 477, já que o caminho se encerra lá, nós iremos sim pra lá, mas não na cachoeira do zinco, e sim pro centro de Benedito Novo onde ontem estávamos. Pra praça do peixe. Olho no Google maps e ele indica o caminho pela SC 477 e a distância é 21 km, uma boa distância pra hoje! Tá de bom tamanho. Luci concorda. Acenamos pra Adriano que ainda está por perto e combinamos assim: nos veremos em Benedito Novo praça do peixe, #eu amo Benedito Novo. Entramos num concenso de que já conhecemos aquele trecho, que na chuva é perigoso para o carro entrar naquela serra e subir tudo aquilo, e assim, de comum acordo, partimos. 
      Eu hoje uso a mesma camiseta de ontem desde a hora que sai da bica d'água, uma blusa de manga longa por baixo, o blusão de frio e outro blusão de frio em cima, a mochila fica até justa sob tanta roupa, em cima de tudo a capa de chuva, ando feito um robô de tanta roupa, parece que vou escalar o Everest. Luci não está muito diferente!! Ela consegue colocar até duas calças, não sei como.
      Decisão tomada, início a rota no Google por segurança, já são 7 hs mas ainda está escuro, fazemos algumas fotos pra registrar nossa caminhada na chuva, mas é difícil acessar celular. O início do caminho bate com a planilha, é aquela primeira etapa no caminho de todo dia né: sair da cidade em direção às estradas de terra. Mas não pense que hoje não tivemos trecho off roard... Uma longa estrada de chão pra percorrer em comum com as setas brancas e com o caminho do Google, muita neblina, dos dois lados um grande terreno pantanoso, e um show de pássaros no ar, um dos espetáculos mais bonitos de balé dos passarinhos da temporada, os bandos de revezam pra se apresentar no ar, fazem as mais lindas coreografias e vão para as árvores, aí sai de outra árvore outro bando e parecem executar números ainda mais difíceis, até parece combinando, olhando bem para as árvores, cada uma está repletas de andorinhas pretas... Coisa mais linda! Diante de um show como esses só pra nós, não tem como passar indiferente, paramos e admiramos!
      Ainda naquela mesma estrada de terra encontramos um senhor com guarda chuvas andando na rua, ele para e puxa uma prosa: pra onde vão, de onde vem... Nos diz que é uma pena estar chovendo naquele sábado, que quando chove no sábado, é porque vai chover 4 dias seguidos, e que pena que não vamos poder aproveitar as cachoeiras, mas diz ser possível subir até o zinco mesmo com chuva. Mas nós já acertamos com nosso apoio e realmente nossa opção hoje é por não subir morro. Seguimos.
      Na saída de doutor Pedrinho um monumento diz volte sempre pra quem vai, bem vindo pra quem chega. E numa espécie de mirante se vê uma linda vista panorâmica do rio Benedito, e uma espécie de barragem! E... Uma linda cachoeira! Ahhh quem disse que não vamos ver cachoeira hoje!!!! Cachoeira salto Donner. Não faço ideia de como faríamos pra acessa lá, mas só a vista em meio ao nevoeiro já compensou. 
      Apartir dali mudamos a nossa rota, é ali que a seta indica virar, e nós, seguimos pela SC 477... Mas estávamos enganadas quando achamos que seria uma trilha tranquila... Longe disso: a rodovia é estreita, de mão dupla, sem acostamento, com desfiladeiros em muitos pontos nos obrigado a andar uma atrás da outra em fila indiana, muitas curvas fechadas em descidas fortes que não era possível ver os carros subindo, preferimos ir na contramão dos carros e é um alívio quando tem uma terceira faixa, pelo menos os carros não passam tão perto... Andamos 10 km e encontramos um bar, Luci quer parar e tomar um café. O bar oferece até o carimbo na credencial, e vende produtos do vale como por exemplo: camiseta. Mas só tem G. Então compro uma, e reluto até pra ir ao banheiro tamanha é a dificuldade com tanta roupa, mas... Já que paramos né... 
      Ao seguir, a chuva não dá trégua, embora fraca é constante, a maior parte do trecho é descida, até nos arriscamos correr um pouco.
      De repente passamos pelo posto de Benedito novo, mercado, casa do Simba... Olha só, chegamos a Benedito Novo no já conhecido ponto de onde deveríamos ter saído ontem (se não tivéssemos saído lá da praça do peixe), sendo assim, a praça do peixe deve estar a uns 6 km daqui. Isso mesmo, o Google maps nos indicar faltar 7 km. Felizes por reconhecer o ponto, mando uma mensagem para Adriano dizendo que já estamos chegando, já estamos no posto de Benedito Novo. Seguimos andando na chuva até uns 2 km a mais quando toca meu telefone: é Adriano que parece aflito, a ligação não dá certo, e olho na nas mensagens, tem uma mensagem dele dizendo: "não saia daí, estou indo". Comento com a Luci que talvez alguma coisa possa ter acontecido na estrada talvez... Pois nós não precisamos de resgate. Consigo ligar pro Heitor, e falo com Adriano que mais uma vez... Teima comigo que estou no caminho errado (não sei o que ele entendeu de minha mensagem) mas eu, tranquila, só digo que faça o que combinamos: fique esperando na praça do peixe, pois estamos no caminho certo e chegando! Com um certo custo, assim fica. Ufa!! 
      Seguimos, passamos pelo túnel em construção, mirante em espiral, ponte, igreja luterana, construção em enxamel, praça da peixe! Missão cumprida!!! Encerramos com 22 k. Felizes e realizadas, e morrendo de frio, vamos primeiro trocar de roupas ou pelo menos, trocar de meias e tênis, tirar a capa de chuva, mas banho... Não vamos pagar de novo 10,00 por banho frio naquele posto, melhor esquecer que ontem também não teve banho e boa, sem almoço e sem banho saímos dali dispostos a ir para Apiúna em busca dos carimbos que faltam na credencial, ainda é cedo e o almoço pode ser no meio do caminho.
      Olho no mapa dos hotéis de Apiúna pra ver onde podemos ir pra carimbar a credencial, pois a intenção é passar de carro pelas cidades onde ainda não tínhamos credencial, e assim carimbar. O hotel mais próximo parece ser fazenda sacramento, Adriano vai seguindo o Google vamos subindo o morro cada vez mais, eu e Luci vamos reconhecendo o caminho e vendo que a escolha não foi ideal, escolhemos a esmo e acreditávamos ser um hotel em meio a cidade, não era, estávamos subindo morro acima, mas a quilometragem estava próxima, então... Seguimos. Quando nos deparamos com uma enorme placa do vale e reconhecemos o lugar como sendo aquele lugar lá no 4°dia de Indaial à Timbó que paramos pra tirar fotos e uma mulher loira chega de carro, para e nos perguntou se precisávamos de algo. A fazenda sacramento é enorme e a mesma mulher, agora de guarda chuvas na mão, vem na janela do carro e pergunta pra Adriano se ele é outra pessoa, diante da negativa, ela olha melhor, vê que o carro está cheio e pergunta se precisamos de algo: "somos caminhantes e precisamos de carimbo na credencial" - explicamos que quando passamos por aqui não tínhamos ainda a credencial e que já encerramos o caminho, só precisamos dos carimbos. Ela também nos reconhece e pra nossa surpresa diz que não, que não pode carimbar nossas credenciadas porque nós não nos hospedamos ali! Dizemos que viemos até ali só pelo carimbo porque a informação é que qualquer hotel ou pousada pode carimbar a credencial, ela então nos diz pra esperar, pois está esperando um hóspede, e depois que ele chegar ela pode entrar lá e pegar o tal carimbo. Agradecemos e ficamos boqueabertos olhando uns pra os outros, aquela mesma mulher que fora tão simpática e que agora fora insensível. Nesse meio tempo o tão esperado hóspede chega, ela abre a porteira e some lá pra dentro, não vamos ficar lá fora esquecidos, vamos embora... 
      E a experiência valeu pra desencanar com a credencial, não queremos mais carimbo algum, que fique faltando! Não tem problemas.
      Dali já digitamos no Google: Londrina. E seguindo as indicações, a saída se dá por doutor Pedrinho, mais uma vez passamos por Benedito Novo na SC 447, de novo reconhecendo os caminhos percorridos a pé, e chegando em doutor Pedrinho vimos as placas que indicam pegar pra cachoeira Paulista, a 10 km!!! É sábado e não são nem 14 hs, peço pra que Adriano pegue o caminho pra cachoeira, afinal é uma das atrações mais famosas do vale, e está fora de todas as trilhas. Ele segue a indicação da cachoeira e entra numa trilha muito bonita e pra variar... Ingrime! Pra quem não quis subir a serra hoje!!!! Não escapou! Vamos subindo, subindo... E chegamos a uma entrada como se fosse a um parque nacional. Um estacionamento, tudo lindo. Somos recepcionados por uma simpática moça que nos diz que é cobrado 15 reais pra entrar e fazer a trilha mesmo com chuva, ou... 40 reais pra ficar e acampar. Que pena, pelo mau tempo não compensa acampar, se não, seria o caso de ficarmos por ali até amanhã! 
      A cachoeira não é visível dali, o estacionamento fica num ponto estrategicamente posicionado pra não avistar a cachoeira, a menos que pague, basta caminhar 100 e ter acesso ao mirante. Luci diz que vai nos esperar, não quer ir. Com muito custo consigo convencer as crianças a descerem com a gente. 
      De sombrinha descemos uma trilha e passamos por um portãozinho, pronto, mais alguns passos e estamos diante do Mirante, e que espetáculo!!!! Meu Deus! Que cachoeira!!!! Como descrever...são duas cachoeiras sendo uma mais imponente que desagua lá de cima como uma cortina, e outra um pouco abaixo, ambas se encontrar antes de tocar o chão. Da pra ver que lá embaixo sopra um vendaval, mas aqui não tem nenhum vento. O vento é do volume de água. 
      Depois do Mirante tem uma trilha que sobe um morrinho e de lá, desce uma tiroleza que deve ser incrível, mas estava fechada pelo mau tempo (não que eu iria né). 
      Ainda ali naquele morrinho, dois balanços incríveis, com uma vista exuberante inclusive da cachoeira, e mesmo na chuva eu largo a sombrinha e balanço nos dois! Maravilhoso!!! 
      Tem uma entrada que dá acesso à uma trilha, a trilha começa com uma escada que desce num buraco sinistro, uma placa do lado avisa: "para acessar a parte inferior da cachoeira somente pessoas em BOAS CONDIÇÕES FÍSICAS, na dúvida não descer" olhamos de novo pelo mirante e da pra ver que a escada termina ali, no "pé" da cachoeira. As crianças ficam com medo e dizem que não descem, eu quero muito descer, então subimos com as crianças e deixam eles com a Luci, voltamos pra descer a trilha!!! 
      A trilha é estreita e o guarda chuvas esbarra em tudo, é melhor fechar. Descemos a encantadora escadaria, até 100 degraus eu contei, depois perdi as contas, no meio do caminho uma espécie de gruta, e descendo mais ainda... Lá está ela: magestosa, imponente, assustadora cachoeira Paulista! Fotografamos, mas logo depois das primeiras fotos a bateria do celular acaba! Reinício, consigo mais umas 3 ou 4 fotos e já era de novo, mas não reclamo, é daqueles típicos lugares que a foto não dá conta de mostrar toda a beleza que há.
      Satisfeitos, vamos embora e eu só lamento não conseguir acampar de sábado pra domingo. Pegamos a estrada pra Londrina só parando pra comer, ao optar por se guiar pelo Google, Adriano pegou um caminho diferente que nem por Curitiba passou, os planos de passeio no domingo acabaram ficando de lado. Chegamos em casa na madrugada do domingo, ainda a tempo de um bom descanso.
       
      Vale Europeu
      Há cerca de dois anos ouvi falar do vale, vi fotos, ouvi relatos de amigos que foram e voltaram desnumblados, passei a sonhar com esse caminho... Coloquei esse trajeto na minha lista de sonhos.
      E minha lista de sonhos tem várias classificações: desde de sonhos pequenos até sonhos insanos... Acredito que a vida é feita de sonhos, não importa se eles vão se realizar ou se vamos leva lo conosco até o fim de vida, mas alimenta Los todos os dias, acordar a cada novo amanhecer e olhar pra janela, saber que novos desafios nos esperam e que somos capazes de realiza lo, para mim é alimento.
      E eu passei a acreditar que sonhos se realizam, fazer esse caminho veio afirmar minha crença. 
      O melhor de fazer esse caminho foi estar junto da minha família. A presença deles foi determinante para consolidar minha opção de ser caminhante e da importância que essa atividade tem para mim: eles viram de perto minha felicidade, minha realização. Eu me transformei em caminhante, peregrina, mochileira ou qualquer que seja o termo a pouco tempo, e ressalto essa palavra que talvez tenha passado despercebida: TRANSFORMAÇÃO. Quando me apaixonei por caminhos fui rotulada como louca por sair andando em grandes distâncias, mas quanto mais eu caminhava, mas estabelecida parcerias que me fizeram crescer, que reafirmaram minha fé que é possível acreditar nas pessoas, que esse mundo é feito de muito mais coisa boas do que ruins. Quero sair pra caminhar como quem sai pra trabalhar, sem que ninguém precise perguntar porque, que entendam que essa paixão por caminhos é irreversível. 
      Em cada quilômetro que andei eu tinha plena consciência de que estava realizando um sonho, então andei de olhos e coração aberto pra que nada me passasse despercebido, por isso entrei nas águas mesmo no frio, me despi dos medos que tinha e fiz o meu melhor, acredito que as águas das nascentes são sagradas e tem poder curativo pra alma, alimentam... Sempre que vou à cachoeira estou com amigos que me levam pela mão pra debaixo d'água, sabem do meu medo de água, mas dessa vez estava sozinha pra enfrentar as águas, Luci muito prudente preferiu não se arriscar.
      A parceria de Luci foi determinante pro sucesso desse feito: ela com a idade da minha mãe, ao vê lá tão disposta, tão grata por cada passo, só podia apertar o passo e caminhar ao seu lado sem reclamar, e muito grata fiquei por aprender com ela. Numa viagem como esta em que a proposta era caminhar por 9 dias, chegar todos os dias e ainda providenciar um pouso que na verdade nada mais era do que uma vaga pra estacionamento, e dormir acampada e embolada com a gente... Se algo a desagradou, ela não falou... Não cabia reclamações, se a situação era aquela, então era vivenciar isso da melhor forma possível: com bom humor e gratidão! 
      Sendo assim foi um caminho sem sofrimento algum: eu não tinha preocupação com a família, tinha uma parceria e tanto, não tive dores além do normal... Só fui feliz!
      Caminhamos em parceria, conversamos sobre tudo, conheci melhor a vida e a força de Luci e se antes já a via como uma grande mulher, passei a admira lá ainda mais. Luci é um dos presentes que os caminhos me trouxeram, e sempre quando a gente divide com alguém um caminho tão longo e especial, a gente fortalece o vínculo e sela pra sempre uma amizade sólida e pra eternidade, independente da distância ou das direções distintas que a vida nos coloca.
      Sabendo disso, toda vez que vou fazer um longo caminho, se fosse por minha vontade eu gostaria que tantas outras pessoas me acompanhassem... E de certa forma, muitas pessoas eu carreguei comigo... Eu mandava mensagens, notícias, mas sobretudo carrega as comigo, pois eu não me fiz sozinha, eu sou tanta gente... Sou aqueles que torcem por mim, aqueles que apreciam minha companhia, aqueles que me oferecem ouvidos, que me estendem a mão, sou aqueles que me contam com alegria feitos mirabolantes, aqueles que quando conseguem planejar realizar seus sonhos, me chamam pra fazer parte, ou se não chamam, me contam o que fizeram... Sou tanta gente... 
      E sigo pelos caminhos em frente na expectativa de estabelecer novas parcerias que me façam crescer, velhas parcerias... Sendo assim, cada vez acredito mais que sonhos... Se realizam! 
      Devo resaltar também um caloroso agradecimento ao meu marido Adriano, que a cada vez que me permite ir e vir, fortalece nossa relação baseada no respeito do outro e na confiança, pelo apoio incondicional a essa travessia, sua presença conosco possibilitou a companhia das crianças, criou uma memória única de uma aventura em família, me trouxe segurança e tranquilidade para que eu apenas caminhasse, seu bom humor e disponibilidade foram sem dúvida, determinante para o sucesso desse caminho. Obrigada por me permitir ter asas pra voar, voar é muito bom, mas voltar ao ninho é uma das melhores partes. 
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

































    • Por Alan Rafael Kinder
      INTRODUÇÃO
      Bom dia pessoas!
      Segue o relato da viagem em grupo que fiz neste final de semana (dias 15 e 16 de maio de 2021) até o município de Alfredo Wagner/SC, conhecida também como a capital catarinense das nascentes de Santa Catarina.

      Foto do grupo, no estacionamento - início da 'trilha de acesso'.
      De lá, seguimos por cerca de 17km em uma estrada do interior que leva até o ponto de estacionamento que dá início à 'trilha de acesso' aos Soldados Sebold.
      O caminho de carro até lá é de fácil acesso, você consegue se localizar através do GPS sem qualquer dificuldade - e quando a estrada no Maps acaba, haverão placas indicando o final do percurso até o estacionamento.
      É cobrada uma taxa de R$ 10,00 por veículo para deixa-lo estacionado (apenas dinheiro).
      Caso tenhas um veículo 4x4, podes seguir por um acesso que leva até ao acampamento (todavia você perde a chance de fazer a 'trilha de acesso').
      Para poder acessar a fazenda particular onde os Soldados Sebold estão, é necessário reservar com antecedência (mas vi pessoas chegando de carro na hora e negociando na recepção - todavia não indico pois corre-se o risco de não haver mais vagas).
      Informações específicas sobre valores e reserva podem ser obtidos diretamente no site deles: www.soldadossebold.com.br.
      Estávamos em um grupo com 06 pessoas, fizemos a reserva com duas semanas de antecedência, e conseguimos apenas vagas para o 'acampamento alto' - todas as opções de hospedagem (refúgios) e as vagas no 'acampamento baixo' já estavam ocupadas.
      O valor por pernoite acampando é de R$ 50,00 por pessoa, com acesso à toda estrutura da fazenda (mesmo que você esteja no 'acampamento alto').
      Bem, abaixo vou segmentar o relato, em ordem cronológica, falando das trilhas e da fazenda...
       
      TRILHA DE ACESSO
      Como já havia pontuado acima, a trilha começa no ponto de estacionamento, e segue inicialmente por uma larga estrada rural, passando em dois momentos por rios rasos, e depois um forte aclive até uma interseção que faz os caminhantes subirem o paredão por uma passagem, e depois retorna para uma estrada rural que leva até ao acampamento.
      O caminho em si é fácil, com apenas 7km (conforme nosso mapeamento - no site consta cerca de 6km) e 414m de elevação (qual se acumula após passar do segundo rio, até o topo do paredão).
      Ambas as passagens pelos rios podem ser feitas pelas pedras (com um pouco de trabalho - não tem um caminho bem definido). Ou tirando os calçados e passando pela água que chegará até a canela. Eu atravessei com botas de trilha de cano alto, pelas pedras.

      Primeiro rio, no primeiros momentos da trilha de acesso.

      Segundo rio, logo após o primeiro.
      Após o segundo rio, não demorará para chegar no início de um aclive acentuado pela estrada, com muitas pedras soltas. Ele é longo e sinuoso.
      Em certo momento, facilmente poderá se perceber um desvio para a esquerda (há inclusive marcações e uma plaquinha), onde saímos da estrada e pegamos uma trilha que nos levará até o topo do paredão. Trata-se de um caminho bem definido, com também muito aclive, e no final o solo argiloso fica úmido (mesmo em um dia ensolarado).
      Já no topo do paredão é possível ter o primeiro vislumbre das formações montanhosas (e dos Soldados Sebold) ao final do vale.

      Caminho pelo pasto logo após a subida do paredão (depois daqui quase não haverá mais aclives).
      A trilha percorre um pasto, disputando o espaço com algumas vaquinhas, e culmina na estrada rural, que ziguezagueia por cerca de 2km até a entrada da fazenda, com pequenas subidas e descidas. Quase chegando a porteira, temos ainda uma elevação considerável para encarar.

      Estrada rural que segue até a entrada da fazenda - já dar para ver os Soldados Sebold ao fundo.
       
      ACAMPAMENTOS BAIXO E ALTO
      Quando você chegar na porteira da fazenda, um funcionário verificará se os nomes estão na lista de reservas, daquele ponto a estrada se divide, com um caminho descendo até o 'acampamento baixo', e o outro subindo até o 'acampamento alto'.
      A recepção, os refúgios, os chuveiros, a lojinha/bar e praticamente toda estrutura da fazenda ficam no 'acampamento baixo'. Lá há sinal de wifi, tomadas para recarregar os equipamentos, água quente para banho e luz. Na cozinha compartilhada tu encontras um fogão e uma geladeira. Há algumas (poucas) mesas distribuídas pelo espaço, e também, obviamente, áreas para acampar distribuídas ao redor de toda estrutura.

      Um dos refúgios para locação na frente, a cozinha comunitária e outro refúgio ao fundo - parte da estrutura no 'acampamento baixo'.
      Há dois sanitários, três pias, e dois chuveiros (e também há um banheiro/chuveiro numa casinha de madeira pequeninha).
      Um dos chuveiros não estava esquentando nesse final de semana, e os demais ficavam mais 'fracos' quando ligados simultaneamente.
      Ah, a água é potável em todo acampamento!
      A lojinha/bar serve frituras, bolos, pinhão (nessa época) e outras coisinhas (camisas). Há também refrigerante e cerveja (Ecobier).
      Os preços são justos (considerando o isolamento do lugar - uma Ecobier de 600ml sai por R$ 10,00).
      É aceito cartão de crédito.
      Naturalmente pede-se para que todos tenham a sensibilidade com a questão do lixo, e no 'acampamento baixo' há um local para depósito de reciclados.
      Diferentemente do 'acampamento baixo', no 'acampamento alto' quase não há estrutura.
      Basicamente é um pasto enorme com vários pontos dispersos de acampamento (o espaço é bem amplo).
      Existem algumas torneiras distribuídas, e também uma pia.
      Tem uma casinha de madeira com um vaso, e ao lado de fora outra pia - mesmo durante o dia fica escuro lá, necessitando de uma lanterna para usar.
      Não há pontos de energia, nem luz, nem mesas - enfim, tem uma pegada mais selvagem.

      Conexão entre o acampamento baixo e alto, com aclive acentuado e cerca de 600m.

      Um dos lados do acampamento alto (ele é bem amplo), em foco o banheiro.
      Nós acampamos nessa área, e foi super de boas. É um pouco difícil achar áreas planas (eu não consegui - instalei a barraca da melhor forma que deu, mas ainda tinha desnível, e quem acampa sabe como isso é chato).
      Parece que os proprietários da fazenda estão tornando o local mais 'acessível' a outros públicos turísticos - estão sendo construídas cabanas e já vimos postes instalados nessa área (tudo indica que futuramente haverá energia aí também).
      Tivemos um azar terrível de um outro grupo acampar perto de nós, e fazer barulho (gritos e musica) até tarde.
      Mesmo havendo avisos sobre a questão de silêncio, parece que esse pessoal aí não sabia ler, ou muito menos ter mínimo de bom senso. Como a balbúrdia começou já no inicio da noite, não tivemos a chance de nos instalarmos em outro canto mais silencioso - e tivemos que aguentar a macaquice desses 'doutores' (uma ficava toda hora dizendo que tem CRM, outro que era engenheiro - uma piada pronta).
      Enfim, vale pontuar que os acampamentos ficam cerca de 600m um do outro. A distância não é muita, mas há um desnível considerável entre ambos, tornando essa caminhada extenuante.
      Tivemos que faze-la umas três ou quatro vezes durante nossa estadia.
       
      TRILHA ATÉ A BASE DOS SOLDADOS
      Essa trilha nos permite subir até o ponto de tocarmos a formação de rochas e arenito de Soldados Sebold. A fizemos no início de domingo, logo após nosso café da manhã.
      Ela começa em um dos extremos do 'acampamento alto' (há sinalização) e consiste em um aclive pesado por cerca de menos de 1km, onde chegamos no topo. Eu achei a subida perigosa, com muitos pontos que passava pela beirada, sem nada para impedir uma infeliz queda. O caminho também exigia que por vezes você deveria subir 'de quatro', usando as mãos para se segurar (e na boa, não é zoeira). Totalmente impossível de subir quando úmida.
      Mas obviamente, a visão lá de cima é extraordinária!

      Subida da trilha da base dos Soldados Sebold, com nuvens baixas.

      Outro ângulo durante a subida, em direção aos paredões.

      Captura de parte do acampamento alto, durante a subida para a base dos Soldados Sebold, cerca de um terço do caminho (sobe muito mais).
      Do mirante do topo, é possível subir por mais uns poucos metros e tocar nos Soldados Sebold, e deste caminho têm a opção para descer pelo caminho alternativo (que foi qual tomamos).
      É possível perceber que pouca gente opta por ele, dadas as condições da trilha (muito mais fechada e menos definida - mas sem problemas para navega-la).
      Ele é mais longo, mas achei mais seguro (apesar de também haverem pontos de exposição ao 'infinito'). Ao final você chega na interseção da trilha que leva para o 'arranha-céu' (uma trilha mais complicada que não fizemos, e exige reserva com guia credenciado), e volta por um caminho batido ao lado de um córrego até os pastos do 'acampamento alto' novamente.
      A trilha deu 2.5km (segundo nosso mapeamento), com 437m de aclive acumulado - esquecemos de mapear bem o início dela, então os números podem ser um tanto superiores.
       
      CÂNION DO LAJEADO
      Logo que terminamos a trilha até a base dos Soldados Sebold, retornamos para nossas barracas e começamos a levantar acampamento.
      Demos uma paradinha ainda no 'acampamento baixo' para usar os banheiros, tomar uma cerveja e seguimos pela 'trilha de acesso' para retornar até o estacionamento.
      Logo que saímos da fazenda, passados uns 400m, há a possibilidade de acessar o Cânion do Lajeado.
      É uma trilha extremamente curta e simples (só há uma escada para descer a parede), e tem um cenário bacana.
      Não custa nada a paradinha.

      Conforme você avança o cânion vai afunilando, mas necessita entrar na água.
      A volta foi tranquila, eu sempre acho mais fácil descer do que subir, então foi suave!
      Depois, bastou pegar os carros e encarrar a estrada até em casa.
       
      CONCLUSÃO
      Gente, vale muito a pena conhecer esse lugar - e eu sugiro ter essa experiência nesses moldes que adotamos.
      Fazer a 'trilha de acesso' e subir até os Soldados Sebold.
      Nós só subimos no domingo pois chegamos tarde no sábado, e ficava muito corrido tentar.
      O local é bem agradável para passar o dia, dá pra ficar curtindo a paisagem com tranquilidade.
      Infelizmente grupos barulhentos são comuns em todos os cantos, eu nunca vou entender a necessidade dessas pessoas virem para um canto de sossego só para fazer barulho (e ainda por cima gritar 'ninguém dorme')... e isso definitivamente estragou bastante a experiência para mim.
      Eu achei a fazenda bem estruturada, e o local é bem movimentado.
      Para nosso grupo, desconsiderando combustível, a despesa média ficou em cerca de R$ 80,00 por pessoa (considerando comida, besteirinhas que compramos por lá, entrada/pernoite e estacionamento).
      Naturalmente daria de fazer com muuuito menos.
      Enfim, foi um resumo da atividade, certamente deixei coisas de fora.
      Qualquer dúvida basta deixar uma mensagem que estarei respondendo!

      Eu praticamente no topo! @alankinder
    • Por mcolzani
      Eu e minha esposa Magali decidimos em setembro de 2020 fazer a travessia. Começamos a planejar e nos preparar desde então. Definimos que a melhor data seria na semana santa pois seria mais fácil de conciliar férias, folga etc e ainda daria uma margem de segurança maior caso fosse necessário estender a travessia.
      Fomos com o objetivo de caminhar no mínimo 35km/dia mas tentar fazer 40km/dia, que reduziria em um dia a travessia.
      Inicialmente iríamos seguir no sentido sul (Rio Grande x Barra do Chuí), porém na semana que antecederia nosso início a previsão indicava maior incidência de vento sul e optamos em inverter, saindo da Barra do Chuí no sentido norte.
      Saímos de Itapema/SC de carro até a rodoviária de Pelotas/RS no dia 27/03 onde deixamos nosso carro e pegamos o ônibus até Chuí. Chegando em Chuí levamos 20min até conseguir um taxi para a Barra do Chuí (lá não existe Uber/99 etc).
      Pernoitamos em um Airbnb lazarento, mas enfim, a ideia era ficar bem próximo da praia para conseguir começar a caminhada cedo.
      Obs: não conseguimos sinal de celular na Barra do Chuí.
      Dia 01
      Iniciamos a caminhada as 06:00 do dia 28/03/2021 com vento sul moderado. Nossa ideia inicial era fazer uma parada a cada 10km, porém preferimos tocar direto até Hermenegildo e nos abrigar do vento.
      Foram aproximadamente 13km até essa primeira parada. Aproveitamos para comunicar os familiares.
      Trocamos as meias e seguimos a caminhada. Logo ao passar Hermenegildo começou uma chuva leve. Vestimos a capa de chuva e continuamos.
      Poucos km a frente a chuva engrossou, porém não havia local para abrigo e continuamos a caminhada por mais 5km até encontrar um barraco de pescador onde nos abrigamos por aproximadamente 1 hora até a chuva passar.
      Ao longo do dia o sol ia e vinha. 
      Como era domingo, vários moradores de Hermenegildo passavam de carro.
      Estávamos aproximadamente no KM 38, totalmente secos quando uma chuva torrencial nos atingiu. Sem possibilidade de abrigo, seguimos até completar 40km e montamos acampamento em meio as dunas (agora sem chuva).
      Nessa noite ventou pouco, porém a chuva recente e o orvalho que se formou acabou gerando um pouco de condensação no interior da barraca.
      Jantamos, cuidamos dos pés e eu percebi a primeira bolha inesperada (bolha nos mindinhos eu já esperava).
      Distância: 41km (areia fofa)
      Dia 02
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento. Eram aproximadamente 6:45 quando começamos a caminhar com as roupas e tênis molhados.
      Decidimos racionar a água para reabastecer na casa do Sr. Ricardo que possui poço e atingiríamos entre 10 e 11 horas da manhã.
      Faltando 1 km da casa do Sr. Ricardo, avistamos uma vaca deitada na beira da praia. Minha esposa achou que ela estivesse morta, mas eu percebi movimentos de orelha. Estávamos a 50mt dela quando nos observou e levantou assustada. Virou-se contra nós e avançou em nossa direção. Nesse momento tentei chamar atenção para mim e me afastei da minha esposa. Imediatamente empunhei os bastões como se isso fosse resolver alguma coisa. A vaca recuou e virou da direção da Magali quando pedi para ela ficar parada e fui até ela. A vaca ameaçou novamente e juntos erguemos os bastões lentamente até que a vaca recuou e se afastou pelo outro lado. Lentamente nos desviamos e seguimos nosso rumo. A adrenalina subiu bastante nessa hora e o susto foi enorme. Melhor que nada aconteceu e ficou apenas por isso.
      Chegamos na casa do Sr. Ricardo e chamamos por ele. Não estava, enchemos nossas garrafas e tratamos com cloro. Enquanto isso, aproveitamos a sombra para um descanso e para trocar as meias.
      Descobri uma nova bolha se formando em baixo do outro pé.
      Quando estávamos para sair chegou um veículo com 3 homens que estavam construindo uma nova casa para o Sr. Ricardo mais aos fundos (pois a atual está quase sendo tomada pelas dunas). Conversamos um pouco e seguimos nossa caminhada.
      Por ser 2a-feira, nesse dia praticamente não tivemos contato humano. Nesse dia encontramos o único caminhante que veríamos ao longo da nossa caminhada. Nos cumprimentamos, conversamos rapidamente e cada um seguiu seu destino. Nós querendo seguir e ele querendo terminar logo.
      No meio da tarde pegamos chuva novamente. Decidimos proteger os tênis com o saco que usávamos para atravessar os arroios pois não queríamos andar novamente com os pés molhados.
      Esse foi o pior dia e a pior noite, o dia todo foi um misto de "chega, vamos desistir, etc", por sorte não passou ninguém oferecendo carona. 
      Quando paramos para acampar, ventava sudoeste e então montei a barraca abrigado por dunas nesse lado. Só havia abertura pequena para o leste e foi ai que começou nossa pior noite. Já estávamos dormindo (aproveitamos 21:30) quando o vento virou leste com chuva forte.
      Vacilei ao não reforçar o estaqueamento da porta que estava exposta ao leste e aconteceu o óbvio, o speck soltou e essa lateral "caiu". Fiquei sentado encostado no bastão para a lateral ficar de pé. Quando estiou sai à procura de algo para ancorar essa porta e achei um barril cortado que coloquei sobre o speck e enchi de arreia.
      Nessa noite continuou ventando muito e chovendo diversas vezes.
      Distância: 40km (areia fofa com bem pouca área firme)
      Dia 03
      Despertador tocou as 5:00, estava chovendo e botei o soneca para + 15min. Continuava chovendo e seguimos dormindo até aproximadamente 6:15 quando parou de chover, então comemos e saímos para caminhar já eram 8:00.
      Decidimos que 30km estaria bom para esse dia.
      Seguimos +/- a ideia do dia anterior e racionamos a água para reabastecer no Farol Albardão que estava a 7-8km de distância.
      Fomos muito bem recebidos no Albardão onde bebemos água e reabastecemos todas nossas garradas. A água lá é potável, então não tratamos nem filtramos.
      Nesse dia percebemos que uma parada a cada 10km não era sustentável e decidimos parar a cada 7km. Nesse dia comecei a sentir fortes dores na junção do fêmur com o quadril e comecei a "mancar" para não estender a perna e doer mais. Assim foi praticamente até o final da travessia.
      Outro dia que tivemos pouco contato humano e com pouco vento, dessa vez sentido leste.
      Apenas no final do dia quando chegamos na área de reflorestamento que avistamos 2 caminhões saindo de uma área indo no sentido norte.
      Quase no final do dia, avistamos um morador indo recolher sua rede. Perguntamos se conhecia algum lugar bom para acampar na região querendo ouvir um "pode acampar no lado da minha casa" mas veio um "lá naquela baleia tem uma base do reflorestamento, talvez consiga lá". A tal baleia estava a uns 3-4 km e já estava começando a anoitecer. Deveríamos nos arriscar a andar toda essa distância e chegar lá de noite correndo o risco de nem achar a base? 
      Preferimos seguir mais 1km e acampar em meio as dunas altas. Dessa vez ancorei muito bem praticamente todos os lados da barraca para não ter surpresas.
      Novas bolhas para cuidar.
      Dormimos magnificamente bem. Como todas as noites anteriores, choveu bastante durante a noite.
      Distância: 35km (areia fofa)
      Dia 04
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Nesse dia acreditamos que seria difícil manter o ritmo e terminar em 6 dias. Já aceitamos que precisaríamos de 7 dias. Porém mantivemos o desejo de fazer os 35km.
      O dia foi bastante movimentado, muitos caminhões, ônibus, etc. Sabíamos que agora a água viria apenas dos arroios, porém perto das 11:00, quando devíamos ter apenas 1 litro de água, vimos um quadricíclo vindo em nossa direção. Pedi para parar e perguntei se sabia de algum ponto de água pela frente. Conversamos um pouco e o Mauro, funcionário da empresa de reflorestamento, se ofereceu para ir pegar água na base deles. Deixamos nossas 4 garrafas de 1,5lt com ele. Uma hora depois ele passou por nós e falou que deixou as garrafas em uma placa mais a frente para que não precisássemos carregar todo o peso. Caminhamos uns 2km até chegar nas garrafas, tratamos e filtramos. Ficamos absurdamente contentes, não tinha como ficar mais contente.
      Próximo das 15:00 uma caminhonete branca nos intercepta. São funcionários da empresa de reflorestamento. Conversamos um pouco e eles falam (se pedirmos) que iriam trazer água para nós quando voltassem. Ganhamos o dia e agora não tinha mais como melhorar mesmo.
      Uma hora depois passa outra caminhonete igual (também da empresa) e pergunta se queremos algo (água, comida, fruta etc). Respondo que aceitamos qualquer coisa, mas principalmente água. Ele diz que na volta trará algo para nós.
      Continuamos a caminhada e com o sol de pondo resolvemos achar um local para acampar. Enquanto montava a barraca a esposa ficava nas dunas de olho se vinha alguma caminhonete.
      Quando terminei de montar a barraca, avistei um veículo vindo e como já estava escuro sinalizei com a lanterna.
      Dois santos que caíram do céu. Nos trouxeram 4 litros de água tratada e gelada (com pedaços de gelo ainda). Não só isso, trouxeram duas marmitas e frutas. Estávamos nos sentindo reis.
      Só então percebemos que montávamos acampamento praticamente na entrada de uma base deles e nos falaram que o movimento de caminhões ali seria a noite toda pois a operação deles é 24hrs. Nos ofereceram ficar em um alojamento vago.
      Agora certamente não tinha como melhorar. Decidimos aceitar o convite pois o local onde estávamos era de dunas baixas e o vento provavelmente iria incomodar. Caminhamos quase 2km até chegar na base e nos deparamos com o inimaginável, além de tudo que já tinham nos oferecido, poderíamos tomar um banho quente em chuveiro a gás.
      Nossa energia se renovou absurdamente nessa noite. Decidimos dormir uma hora a mais nessa noite pois não precisaríamos arrumar muita coisa pela manhã.
      Agradecemos ao pessoal que nos recebeu e principalmente ao Rodrigo (encarregado). Pegamos seu contato para agradecer novamente quando concluíssemos.
      Nesse dia outras bolhas surgiram e algumas antigas começavam a parar de incomodar.
      Distância: 42km (enfim, areia firme)
      Dia 05
      Despertador tocou as 6:00, comemos, organizamos as coisas, reabastecemos nossa água, nos despedimos do pessoal e começamos a caminhada.
      Pela distância percorrida no dia anterior, decidimos que esse dia seria de luxo, 35km bastaria.
      Saímos dá área do reflorestamento e começamos a avistar as torres geradoras de energia eólica. Que visão horrível. Você começa a enxergar elas a 20-25km de distância, então caminha, caminha, caminha e caminha ainda mais e nunca chega.
      Esse dia foi um dia caminhando olhando apenas para baixo, pois era desmotivador. Esse foi o 1o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      O vento estava moderado a forte no sentido leste, o que fez com que a maré estivesse acima do normal, nos forçando a subir para areia fofa em vários momentos.
      Ao final do dia, chegamos em um trecho de dunas baixas e já bateu aquela sensação ruim para achar um local bom para acampar. 
      Nós não queríamos ter que andar 500-700 metros para chegar nas árvores, querendo ou não é uma distância que pode fazer a diferença e em terreno ruim.
      Atravessamos o primeiro grande arroio e achamos um ponto menos exposto. Ancorei bem a barraca e dormimos igual reis.
      Distância: 38km (alternando entre areia firme e fofa)
      Dia 06
      Despertador tocou as 5:00, comemos, organizamos as coisas e levantamos acampamento.
      Esse seria o primeiro dia para captar água nos arroios. Estávamos com 1 litro de água e a esperança era conseguir água com quem passasse, afinal era feriado e teríamos movimento. Passou o primeiro carro e nada de água. Logo chegamos a outro arroio grande e decidimos captar água ali e garantir. Pegamos 4,5 litros, tratamos e filtramos.
      Esse dia estava puxado, o vento resolveu querer dificultar e virou norte moderado. Foi o dia todo contra o vento, mas nada nos seguraria. Muitos arroios pela frente, já estávamos exaustos de colocar e tirar a sacola nos pés, mas assim o fizemos durante todo o dia.
      No 4o ou 5o arroio a Magali não olhou bem o terreno e entrou em uma arreia movediça, ficando com os 2 pés enterrados até acima do tênis. Falei para não tentar sair, fui até ela e puxei ela pela cargueira. Saiu fácil mas encharcou os pés e os tênis.
      Andamos, andamos, andamos e a quilometragem não andava. Parecida que estávamos em uma esteira, andava sem sair do lugar.
      Dia bem movimentado, carros, motos, ônibus, bicicletas e o primeiro cachorro de toda travessia. Esse foi o 2o dia que não pegamos chuva na caminhada.
      Enfim chegamos a praia do Cassino, mas ainda tínhamos 13 km pela frente. Parece que foi a parte mais longa da travessia. A praia estava muito movimentada devido ao feriado. Às 16:30, enfim, chegamos aos molhes. Ficamos sem reação, apenas sentamos e aproveitamos o momento.
      Decidimos pegar um Uber até Pelotas e retornar direto para casa.
      Distância: 34km (areia firme)
      Distância total: 230,74 km

      Equipamentos que levamos:
      Murilo Magali Se alguém querer, posso passar também a relação dos alimentos levados.
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    • Por divanei
      VALE DO ITAMAMBUCA
      Aquele foi um duro golpe na minha carreira de Explorador Selvagem. Pela primeira vez em anos estudando mapas, eu não conseguia chegar há lugar nenhum. Foi mesmo uma madrugada perdida aquela, fui dormir frustrado pela minha incompetência para encontrar uma rota que pudesse nos levar às nascentes do rio Itamambuca, no Litoral Norte Paulista. Aquele era um rio perdido, uma nascente que possivelmente nasceria num fim de mundo inacessível ou pelo menos, com uma rota inviável pelo tanto de dias que sempre despúnhamos para essas expedições. Partindo do último ponto que era possível avistar o rio no mapa de satélite, o lugar habitado mais perto ficava ao norte, por intermináveis quase 10 km de florestas e montanhas selvagens e quase a mesma distância a oeste, conseguíamos localizar uma estrada e diante disso, chegar ao rio e interceptar seu nascedouro, era tarefa praticamente impossível e talvez não valesse o esforço, então deixei para lá e fui cuidar da minha vida, investir em outros roteiros.

      Apesar de ter deixado esse rio de lado, sempre quando podia, voltava novamente meus olhos para ele e numa noite vazia, com mapas mais modernos, sem querer, um ponto perdido na imensidão verde me chamou a atenção: ao aproximar a imagem e ir mudando os mapas, consegui localizar uma construção isolada no meio da floresta, uns 3 km a oeste do rio. Na hora levei um susto e me enchi de alegria por encontrar o que me pareceu um barracão e, mesmo sem demostrar qualquer caminho para lá chegar, era obvio deduzir que haveria uma trilha ou uma estrada, mesmo que abandonada, o que nos daria uma chance de subir o rio partindo do litoral, varar esses 3 km de florestas até essa construção e lá tentar achar um caminho que nos levasse para a estrada.
      Esse roteiro ficou lá, guardado por anos, como um tesouro escondido, uma riqueza para ser gasta no futuro, até a chegada de novos exploradores ao nosso grupo. Thiago e Alan estavam acostumados a se embrenharem em Ubatuba e quando me falaram que também tinham interesse em explorar o Itamambuca, juntar forças e conhecimento, foi questão de tempo. Eles também tinham “ganhado” a construção e igual a mim, viviam esse dilema de tentar solucionar esse entrevero, achar um caminho que pudesse nos levar direto para a nascente ou ao menos, nos devolver para a civilização, caso optássemos por subir o rio.
      Tocamos alguns outros projetos juntos, enquanto a solução não vinha e com a advento de novos mapas, observamos que um caminho partindo perto da Osvaldo Cruz poderia nos levar nessa construção perdida na floresta, mas foi numa noite de sorte que um desses meninos conseguiu um Traklog( caminho marcado no gps) dizendo que existia mesmo uma estrada até o casarão e ia mais além, a estrada continuaria por mais uns 10 km , passando bem na cabeceira do Rio Itamambuca e diante desse achado, o mistério havia sido solucionado, era preciso achar uma data e montar um grupo que se dispusesse a tirar aquele vale selvagem do anonimato.
      Por diversas vezes, tentamos marcar uma data, mas o tempo sempre se encarregava de passar a perna na gente e por outro lado, um dos integrantes só dispunha de 2 dias, contando com uma segunda feira, então ficava sempre complicado conciliar previsão de tempo boa e dias disponíveis. Além do mais, parte do grupo se recusava a enfrentar essa expedição se a previsão não nos desse 100 % de certeza de tempo favorável e para piorar, um dos meninos do Norte, numa outra expedição, acabou por fraturar o pé, o que nos levou a dar uma brochada e ir deixando esse rio de lado. Mas chega uma hora, que é preciso tomar uma decisão e sair da moita e com uma previsão perfeita uma semana antes, resolvemos que o Itamambuca iria virar história naquele fim de semana combinado com uma segunda feira, formamos um grupo forte e partimos para Ubatuba.
      Num sábado à tarde, Thiago Silva passou na Rodoviária do Tietê e pegou a mim, o Paulo Potenza e o Júlio Ronchese e debaixo de uma chuva dos infernos, nos dirigimos para o litoral Norte. Pois é, o tempo virou de última hora e a metade do grupo que se recusava a botar a expedição em pratica com mal tempo, foi de São Paulo à Ubatuba praguejando e tentando convencer a outra metade que era loucura seguir com aquela chuvarada toda, que a chance de dar merda era grande, mas eu e o Júlio não arredávamos o pé, queríamos seguir de qualquer jeito, confiando de que a temperatura prevista de mais de 30 graus e apenas 10 milímetros de chuvas, não era motivos para cancelamento , mas estava causado o impasse : Eram dois votos a favor e dois contra, mas faltava o voto de minerva do quinto elemento, um nativo de Ubatuba seria o fiel da balança, seria dele o voto pelo sim ou pelo não .

      ( Ubatuba - foto net)
      Chegamos em Ubatuba na boca da noite e fomos muito bem recebidos pelo Tomaz “Pontes” Lamosa, o cara que organizou toda a logística para nos deixar no topo da serra, de onde partiríamos para tentar achar a nascente do Itamambuca, mas surpreendente, o nativo ficou atrás da moita. Uma hora queria ir, outra hora achava que poderíamos abandonar a ideia e irmos explorar outro rio ali pelo litoral mesmo, fazer turismo, achar pocinho, ou seja, se manteve neutro e o impasse continuava, com o Potenza e o Thiago pesando na nossa cabeça pelo cancelamento. Nada se resolvia, ninguém queria ceder, ninguém queria abrir mão das suas convicções, até que resolvemos parar de discutir e ir comer algo numa lanchonete, antes de chegarmos a um acordo e foi nessa hora que eu e o Júlio montamos uma estratégia perfeita: Teríamos que subornar um dos 3 e fazer com que viesse para o nosso lado, o lado do “ FODA-SE O TEMPO, VAMOS DESCER O RIO NEM QUE SEJA O DIA DO JUIZO FINAL”.
      De todos os três que ali estavam, não haveria outro mais propenso a ser subornado. Na fila da lanchonete, colamos atrás dele e o encostamos na parede. No início ele se fez de difícil, dizendo que a gente poderia morrer com o rio cheio, poderíamos pegar uma cabeça d’água, deslizar barranco abaixo, morrer afogados, trucidados por um raio, uma árvore poderia cair na nossa cabeça, mas a gente não queria saber de conversa fiada e quando dissemos a frase: “ A GENTE TE PAGA UM PÃO DE QUEIJO”, Paulo Potenza foi definhando em suas convicções, amoleceu as pernas, perdeu o rumo, gaguejou, fingiu demência até que não mais aguentou: “- TÁ BOM GENTE, MAS TEM QUE SER PÃO DE QUEIJO DOS GRANDES. ”( rsrsrsrsrsr)
      Uma vez decididos seguir com a expedição, nos jogamos no transporte descolado pelo Pontes e rumamos serra acima e quando chegamos ao topo, abandonamos a Osvaldo Cruz em favor de uma estradinha de terra que margeia o Rio Paraibuna e pouco mais de 1 km depois, saltamos na escuridão da noite e adentramos numa porteira. A porteira estava fechada com cadeado, mas não foi necessário pular, porque existe uma abertura lateral destinada a pedestres. A placa indicava o caminho para várias cachoeiras, mas tão pouco dizia nada sobre ser proibido passar pela estrada, mas ficamos ligeiros, não queríamos dar de cara com nenhuma guarita do Parque que nos fizesse voltar, então nos pusemos a caminhar com muita cautela, numa estradinha de terra que corta uma floresta exuberante.
      Caia uma fina garoa, tão fina que mal era sentida. Os passos eram rápidos e decididos e a noite já ia alta quando nossas lanternas iluminaram algo que nos pareceu ser uma placa ou mesmo a parede de uma casa, pelo menos foi o que nos passou pela cabeça e imediatamente, um facho de duas lanternas nos interceptou. Uma luz alta explodia na nossa cara sem que tivéssemos um poder de reação rápida. Nossa ação foi atabalhoada, corremos para o lado errado da estrada e acabamos por trombar num barranco de uns 3 metros de altura à nossa direita. Quem conseguiu, escalou o barranco e se escondeu floresta à dentro, mas os outros não conseguiram em tempo hábil e ficaram encostado nele, com a bunda de fora e a cara na terra, feito um avestruz envergonhado. A cena era trágica e cômica ao mesmo tempo. As lanternas se aproximando da gente e nós com o coração e a respiração parada, com medo de sermos pegos e deportados imediatamente para fora da rota. Ficamos ali, inertes, numa posição constrangedora, parecendo facínoras fugitivos da polícia, enquanto o cara com a lanterna na mão, gritava para que saíssemos, porque ele já havia nos vistos.
      Naquela hora, na minha cabeça, a casa tinha caído, seríamos enxotados, teríamos que dar explicações, seríamos humilhados e teríamos que engolir um fim de expedição que nem havia começado. Poderíamos ter tentado nos enfiarmos floresta à dentro, mas nem isso era mais possível, o jeito era aceitar a derrota, era preciso reconhecer que dessa vez havíamos perdido, tínhamos que sair, enfrentar nossos pesadelos de frente e antes mesmo que tentássemos qualquer discussão do que poderíamos fazer, Thiago e Pontes caíram na estrada, bem aos pés do que pensávamos ser o vigilante de alguma possível guarita que havia por ali.
      O Thiago já foi tentando se explicar e eu cheguei logo dizendo que não tinha armas, que não era caçador e nem palmiteiro, varrendo o tal segurança de cima a baixo, procurando saber onde ele carregava a arma, mas nada encontrei, o máximo que vi, foi um cara super educado, de fala mansa, um pouco assustado com a nossa presença repentina. Tratava-se de um casal de biólogos, que procuravam sapos na estrada e a expressão “ vai caçar sapos” nunca me pareceu tão atual. O biólogo se ligou logo que éramos aventureiros, muito porque, nossa roupa não deixava qualquer dúvida de que estávamos apenas a procura de aventura e não oferecíamos mal a ninguém. Ele nos perguntou para onde iríamos e eu lhes disse que dormiríamos na construção uns 5 km à frente e na manhã seguinte, voltaríamos para estrada por outra trilha. Claro, não quis dizer que a verdadeira intenção era achar a nascente do Itamambuca e descê-lo até o mar. Então, não tendo mais nada a dizer e como ele não fez menção de nos barrar, nos despedimos e seguimos enfrente, agora numa velocidade de foguete, querendo sair o mais rápido dali, antes que eles mudassem de ideia.
      Os próximos 5 km passaram voando, fomos passando por rios que atravessavam a estrada e pulando por cima de jararacas que cruzavam nosso caminho e antes da meia noite, tropeçamos no casarão perdido no meio da selva e aí vimos que se tratava de uma base de pesquisa e fiscalização, por sorte, completamente vazia. Claro, não íamos ficar dando bobeira ali, esperando que chegasse alguém que pudesse nos mandar embora, então fizemos uma parada rápida e logo seguiríamos enfrente, na intenção de acampar no mato, já na nascente do Itamambuca, mas fomos obrigados a mudar nossos planos e mais uma vez voltarmos a viver sob tensão.
      Paulo Potenza se apresenta a nós com cara de choro, dizendo que a expedição acabara para ele, que a bota nova havia destruído seu pé e que no outro dia iria voltar. Pior ainda, disse que não poderia ir a lugar nenhum naquela noite e que teríamos que pernoitar ali mesmo, na varanda da base de fiscalização. Foi um verdadeiro balde de água fria, muito porque, eu não tinha certeza de como o grupo reagiria àquela situação, se deixaria ele voltar sozinho, afinal de contas, era apenas uma estrada ou se dariam por encerrada a expedição. O certo é que fizemos de tudo para tentar recuperar o pé do Potenza, lhe enfiando remédios potentes e tentando achar uma solução para que ele seguisse e consequentemente a travessia também. Mas naquela noite ainda embaçada, teríamos que ariscar a nossa pele, teríamos que dormir ali e se tivéssemos sorte, às 5 da manhã, partiríamos para cumprir nossa jornada.
      Jogamos os sacos de dormir no chão e alguns montaram suas redes nas pilastras, mas eu apenas encostei por ali, meio que desolado e crente que a qualquer momento seríamos apanhados, portanto, mal preguei o olho e quando o relógio bateu 5 da manhã, me levantei e fiquei apressando todos para partir. O pé do Potenza estava melhor e o Júlio se propôs a trocar de bota com ele, cedendo-lhe suas botas macia para que ele continuasse e, antes mesmo que o sol resolvesse nascer, botamos o pé na estrada e demos início a travessia.
      Retomamos novamente à estradinha no meio da floresta, mas desta vez, ela se transformou numa trilha, cheio de árvores caídas onde era impossível passar qualquer carro, foi aí então que me dei conta de que a partir dali, estávamos por conta e risco e o sucesso da empreitada só dependia da nossa competência e não de interferências externas. Por mais 3 km fomos ganhando um pouco de altitude e por quase uma hora rasgamos o caminho até estacionarmos numa placa que divide os núcleos dos parques, bem encima de onde havíamos marcando o início da nascente do rio, era chegada a hora, voltar atrás já não era mais possível.
      Enfrente a placa, nos enfiamos no mato e fomos descendo levemente, nos desviando de alguma vegetação mais espinhenta, tentando escapar de um ou outro bambuzinho até que, sem ter como fugir, nossas botas empaparam. Um filete de água começou a escorrer e a cavar o chão, até que uma pequenina queda d’água nos faz pensar que estamos dentro do Itamambuca, mas 20 minutos de caminhada nos leva a um pequeno riacho, esse sim a verdadeira nascente do rio. E como é lindo e prazeroso pegar um rio com as mãos, meio palmo de água cristalina que escapa do seio da terra.

      A partir dali, só havia um caminho a seguir, o rio seria nossa trilha, nossa estrada, nosso rumo, nossa linha de salvação por pelo menos 2 dias, seria a ele que nos apegaríamos, mesmo porque, foi para isso que viemos, foi para isso que perdemos dias e dias nos debruçando em mapas e montando logística. A cada passo, a cada metro percorrido, vamos vendo o rio crescer e se enfiar em valetas cada vez maiores, onde cachoeirinhas, mesmo que ainda tímidas, vão despencando para o fundo do vale.
      Os primeiros trechos iniciais de um rio são, na maioria das vezes, feitos para contemplação, porque são planos e com vegetação exuberante, donde pequenos afluentes vão fazendo com que ele vá aumentando de tamanho, formando vários pocinhos cênicos e é um caminhar gostoso e desimpedido, mas por ainda ser bem de manhã, mesmo já ensopados, vamos tentando fugir da água, até que que alguma gargantinha nos fecha a passagem e somos obrigados a nos jogarmos nas pequenas correntezas .

      O rio vai crescendo e vamos avançando rapidamente. Partimos de 1.100 metros, que é a altitude de sua nascente, e quando chegamos a 915 metros de altitude, depois de termos avançados por quase 3 km, somos obrigados a nos determos por um momento, mesmo porque, não há mais chão para prosseguir. A nossa frente, o vazio se apresenta e a água que corria calma e serena, se joga no nada para formar uma CACHOEIRA em forma de catarata, não muito alta, mas assim mesmo de encher os olhos.

      A passagem para descer aos pés da cachoeira, parecia bem obvia pela esquerda, tanto que o Potenza e o Júlio já se encaminharam para lá, na tentativa de ganharem uma fenda e fazer a descida, mas logo esse caminho se mostrou um tanto exposto, então o Thiago e o Pontes puxaram a fila pelo caminho da direita. Uma descida bem ruim, onde tivemos que usar nossas bundas como freio para não sermos arremessados no vazio, tendo que nos enfiarmos em baixo de uma rocha gigante e usá-la como proteção até conseguirmos escorregar rente a parede e nos vermos em segurança, apreciando aquele espetáculo em forma de água caindo da pedra, uma abertura digna e da grandeza que aquele rio representa para a Serra do Mar Paulista.

      As CATARATAS DO ITAMAMBUCA, marcam definitivamente o início do encachoeiramento do rio, que vai alternar entre corredeiras e pequenas quedas, encontros com afluentes maiores. Agora era preciso muito pula pedra, sobe e desce. Muito escorrega de cima de grandes matacões para dentro da água. É mesmo um caminhar lento e cansativo, mesmo porque, estamos praticamente sem dormir e isso vai minando a nossa energia, mas não há tempo para murmúrios e lamentações, é preciso seguir e uns 100 de desnível abaixo das Cataratas, cerca de 1500 metros depois, um grande poço nos diz que é hora de nos determos por um instante, tomarmos um folego, comermos alguma coisa e aproveitarmos para estudarmos os mapas.

      Apesar de já termos andado muito, o dia mal passava das onze da manhã, mas o dia permanecia lindo, com o sol brilhando e sem nenhuma nuvem no céu. Até então, a previsão de chuvas não se confirmou e isso ajudava muito a manter o moral do grupo bem elevado. Quase sempre o Júlio seguia à frente, abrindo caminho e nos levando a perder altitude, não com muita velocidade, mas qualquer metro perdido era muito comemorado e quando podíamos, nos jogávamos para dentro do rio e virávamos passageiros da aventura, deixando com que as águas mais furiosas, nos conduzisse para mais abaixo no rio, ganhando assim metros e tempo preciosos.

      Quando o rio não nos parecia seguro, era hora de cair no mato por um breve tempo, tentando perder altitude e transpor trechos muito técnicos, onde passar sem corda poderia ser potencialmente perigoso, mas assim que víamos que o perigo havia passado, era hora de voltar ao rio e seguir por dentro dele. Uma cachoeirinha é deixada para trás, até que uma outra, mas desta vez bem grande, nos barra o caminho e nos faz novamente nos pendurarmos em barrancos até conseguirmos descer diante dela.

      É sem dúvida outra bonita queda e ele vai marcar também uma nova faze na nossa Expedição, porque após ela começa uma sequência de lajes, hora de estacionar novamente, pensar bem qual caminho seguir, porque uma oposta mal feita, uma caminho mal planejado, poderá nos tomar um tempo e comprometer nossa jornada.

      A nossa frente, o vale abriu. O rio começou a descer em pequenas cachoeiras, que iam debruçando suas águas em lajes que desciam em patamares, aparentemente lisas e impossíveis de descer. Ao lado o barranco do rio se transformou em paredes altas onde teríamos que nos desdobrarmos para tentar escapar delas. Mas o Júlio deslumbrou uma passagem, uma descida pelas lajes do rio. Aquilo era algo meio insano, mas a gente foi encontrando passagens perfeitas, nos aproveitando de pequenas ranhuras, pequenos patamares, onde fomos usando uma fita para nos dar sustentação e fomos avançando, perdendo altitude.
      Era uns quebra cabeças que iam se juntando, peça por peça, até que montamos a descida perfeita. Conseguimos descer quase 500 metros de distância da cachoeira, foi sem dúvida uma das mais bem-sucedidas descidas de rocha de todos os tempos e para comemorar, paramos numa pedra exposta ao sol para almoçarmos e planejarmos os próximos passos.

       
      Com a barriga cheia e o ânimo renovado, pela estratégia vitoriosa, retornamos nossa jornada, descendo o rio como dava, as vezes tendo que cair no mato para transpor algum trecho mais técnico. O avanço é lento, moroso e por vezes cansativo, mas é preciso continuar. Por vezes pouco nos falávamos, concentração total para descer e subir pedra, um ajudando o outro ou cada um escolhendo o caminho que mais lhe convém, prezando pela sua segurança, tentando economizar energia até que uma nova CACHOEIRA cruza o nosso caminho.

      Metade do dia já havia escorrido pelos nossos dedos já fazia mais de hora e o sol, ainda a pino, iluminou aquela cachoeira, transformando-a em alguma bela queda de águas clara do Cerrado mineiro. Nem era uma grande queda, mas se estendia de um lado a outro do rio, escorrendo suas águas numa bonita laje de pedra. A gente estava bem contente com o avanço da expedição, todo mundo bem, apesar do sono, e então, fizemos mais uma parada estratégica para jogarmos um pouco de conversa fora e guardar aquela paisagem para sempre na memória.

      Daí para frente, o rio vai se transformando, ficando cada vez mais complicado. Vamos avançando muito pouco e a altimetria não baixa de jeito nenhum. Vamos perdendo tempo em pequenos trechos técnicos, onde a passagem exige esforços descomunais, até que uma GARGANTA interrompe de vez a nossa jornada. Abrir a carta topográfica do gps era necessário, mas demos bobeira e acabamos tentando passar pela direita e fomos dar com os burros n’água. Escalamos paredes perigosas, beirando precipícios. Mas quanto mais nos enfiávamos mato à dentro, mais diminuíamos as chances de dar certo e quando resolvemos estudar a carta topográfica, foi que nos demos conta de que estávamos indo para um caminho sem volta e seríamos barrados por um afluente profundo, com chances muito poucas de conseguirmos descê-lo. Apesar de ser uma decisão sempre difícil, resolvemos voltar para a garganta, cruzamos o rio para o outro lado e só nessa ação desastrada, gastamos um tempo precioso.

      A passagem pelo lado esquerdo da garganta foi mesmo providencial. Escapamos da garganta e voltamos novamente ao rio, que continuava terrivelmente complicado, com uma infinidade de pula pedras e descidas exaustivas e quando o relógio chegou às 4 da tarde, o Potenza já começou a aloprar a gente para acampar. Eu era quase um zumbi vagando pelo rio, efeito de uma noite inteira sem dormir e um dia de atividades físicas intensas, mas não me passava pela cabeça, interromper a caminhada tão cedo, haja vista que ainda poderíamos avançar por pelo mais uma ou duas horas de sol. A minha preocupação era simplesmente porque não havíamos descido nem até a parte crítica do rio, verdade mesmo é que estávamos bem longe na cota 550, que era a passagem pelos cânions e desfiladeiros gigantes e se déssemos bobeira, não acabaríamos a travessia no tempo previsto, então protestei contra a parada, protestei veementemente.

      O empasse estava instalado no grupo. Parte queria acampar, mas eu e o Júlio achávamos que deveríamos seguir, mas como não houve um acordo satisfatório, a minoria perdeu e democraticamente, engolimos a derrota. Não que eu não gostasse de um bom acampamento com mais tempo, longe disso, sempre voto por acampar com o máximo de luz possível, mas dessa vez estávamos mega atrasados, mas acatei a decisão da maioria e nos dirigimos para uma encosta do lado esquerdo do rio e ao encontrarmos um bosque favorável, que dava para acomodar todas as redes, jogamos nossas mochilas ao chão e encerramos esse dia de caminhada, de aventuras intensas.

      Localizei 2 árvores, retirei um cipó enrolado em uma delas. Fixei meu toldo e em seguida minha rede. Uma ação que não levou mais que 15 ou 20 minutos. Era eu, um ser totalmente alienado ao ambiente, meu mundo se resumiu a mim mesmo, só ouvia murmúrios dos meus companheiros de aventuras, numa luta incessante para tentarem estabelecer um acampamento descente. Só ouvia os esporros do Potenza tentando ensinar os caras velhos de mato a montarem suas redes. Depois de tantos anos de expedições selvagens, não entendo qual a dificuldade de montar esse tipo de acampamento, algo tão simples, que poderia ser feito com os olhos fechado, mas enfim, nem tinha mesmo forças para ajudar ninguém, então minha crítica chega a ser cretina e nem deve ser levada em conta. O certo é que esquentei 300 ml de água e tentei fazer uma comida liofilizada, que outrora me agradou o paladar, mas que dessa vez, foi difícil de engolir. Então dei umas três colheradas e me joguei para dentro do meu saco de dormir e parti para outro mundo e só voltei a me ver como ser vivente, lá pela meia noite, quando me levantei para ir regar uma moita na escuridão daquela noite de verão, no centro selvagem da Serra do mar.
      Às 6 da manhã caiu uma chuva, mas não durou nem 5 minutos e já cessou. Foi a deixa para pularmos para fora da rede e desmontamos tudo. Mas eu estava preocupado, principalmente ao consultar o gps e descobrir que estávamos ainda na cota 630, uma altitude absurda diante do desafio que teríamos pela frente e era de se pensar que talvez não conseguiríamos terminar o roteiro naquele dia, o que me deixava um pouco angustiado. Às oito partimos! E a nossa partida, como sempre, já foi tendo que nos enfiarmos para dentro do rio gelado, uma atitude inevitável, já que teríamos que cruzar para a margem direita.
      A caminhada segue o ritmo do dia anterior, varando mato quando necessário e voltando novamente para o rio, perdendo altitude lentamente, escorregando para patamares mais abaixo, até que 1 hora abaixo de onde acampamos, o chão desapareceu mais uma vez, nos obrigando a nos deter, analisar o terreno e apreciar um monstro de Cachoeira que se jogava no vazio.

      Estávamos a cerca de 550 metros de altitude e ali marca definitivamente a entrada do Rio Itamambuca nas GRANDES GARGANTAS E Cânions e a partir de agora, serão mais de 300 metros de desnível para serem vencido. Hora de fazer o sinal da cruz e enfrentar o inferno de frente, hora de se apegar um ao outro e tentar escapar vivo do que há de vir.
      Não havia mais como seguir pelo rio e por isso traçamos uma estratégia tentando escalar uma parede íngreme pela direita, tentando dar a volta na abertura da garganta para podermos nos posicionar do outro lado e tentar apreciar a queda d’agua do lado oposto de onde estávamos. O Júlio seguiu à frente, escalou um arvore e isso nos fez elevar barranco acima, mas a segurança foi deixada em segundo plano, mesmo assim, passamos encostado a uma parede e fomos descendo até ganhar um patamar mais abaixo, subir outro barranco e conseguir descer até ficarmos com a CACHOEIRA sorrindo para nossa cara.

      A Cachoeira se jogava para dentro da garganta, onde era impossível descer sem equipamentos de rapel, então nos contentamos em apreciá-la lá de cima, cientes que nem sempre era possível ter o prazer de poder estar em baixo delas, mas conscientes de que éramos um dos poucos a botar os olhos nessa maravilha, onde possivelmente, como sempre digo, recebeu menos gente que o solo lunar.

      Retornamos um pouco mais acima, tentando escapar das paredes escarpadas. O terreno nos pareceu de fácil locomoção, mas as vezes as aparências tende anos derrubar. Passamos um bom tempo caminhando com uma vegetação bem favorável, apesar de termos que descer e subir elevações com algum potencial de perigo. Mas logo a coisa começou a encrencar. O terreno começou a ficar cada vez mais profundo e ver as grandes cachoeiras era possível apenas por trás das grandes árvores e aí teve uma hora que o negócio ficou mesmo feio e fomos obrigados a estacionar para uma releitura do caminho.
      Estava claro que tínhamos nos afastado muito do rio, bem mais do que gostaríamos. Mas não foi por falta de aviso, porque eu e o Júlio estávamos sempre gritando para que o rumo fosse colado às gargantas, assim, quando possível fosse, voltaríamos para a água , mas o Potenza estava sempre aprontando um berreiro quando a gente tocava no assunto, ele ficava sempre insistindo que a gente ia morrer se passasse junto aos cânions e talvez o safado tivesse até razão, mas já é sabido que parte de nós sempre presa por andar colado às paredes , mas como não há um líder eleito e nem instituído, quem grita mais leva e nisso o Potenza ganha de longe. Eu da minha parte nem fiz questão de opinar muito, mesmo porque, minha opinião não havia mudado e então, nem me estranhou o fato de terem decidido se distanciar ainda mais, tentando contornar um vale lateral perto da sua cabeceira, ao invés de ariscar uma descida de volta para ao rio.
      Ao chegarmos à cabeceira desse afluente, fomos obrigados a descer de corda ralando a cara no barranco e acabamos sendo travados num beco sem saída. Enquanto o Júlio tentava ganhar a parede oposta, Paulo Potenza insistia que deveríamos descer por dentro do próprio afluente, nos valendo de uma escadaria de pedra. A ação foi toda descoordenada, nenhuma das alternativas parecia viável, até que o Júlio conseguiu ganhar um arbusto mais acima e se jogar para o alto e puxar o resto do grupo com a ajuda da corda.

      Da minha parte, esse caminho tomado, foi uma rota escolhida com a bunda. Na continuação, teríamos que ascender uma parede de quase 90 graus de inclinação, passando com a barriga encostada a um abismo, onde era preciso e possível, apenas nos segurando com a força da alma. Pior ainda para os que vem por último, que já não tem nem mais uma lasca de vegetação para uma segurança psicológica. Minha mochila pendeu para o lado, porque o barranco insistia em querer me jogar para o abismo, fiquei vendido. Não conseguia mais ir para frente e nem retornar. Pé esquerdo travado na terra e cara encostada na pedra com a unha da mão direita grudada no musgo. A força da gravidade rindo da minha cara e eu só pensando se já não estava velho para ficar passando por isso, mas antes mesmo que eu chegasse a alguma conclusão filosófica sobre o assunto, minha mão esquerda encontra uma raiz, onde cravo minhas unhas na terra molhada e me impulsiono para fora linha da “morte”, estabilizo o corpo e dou uma banana para o abismo, ganhando a linha de arvores acima da minha cabeça.
      Uma parada para consultar os mapas e a conclusão era mais do que óbvia: teríamos que fazer uma diagonal direta para a esquerda, voltar para o rio agora era prioridade, então nos empenhamos nisso, fazendo uma descida alucinante, rasgando a floresta no peito até escorregarmos novamente para dentro do rio. Essa ação de subir e descer barranco nos tomou pelo menos umas 2 ou 3 horas de caminhada, portanto, estávamos exaustos e havidos por um bom banho e por sorte, nossa volta ao rio se deu bem em frente à uma cachoeira com um poço enorme, que nos sugou para dentro dele e lá ficamos por um bom tempo até recobrarmos as forças e o ânimo.

      Havíamos descido mais de 200 metros de desnível e nos encontrávamos a 350 metros, o que me deixou mais confiante que poderia ser possível terminar ainda hoje aquela travessia. Mas o rio não queria se entregar e continuamos a sofre muito para perder altitude, mas dessa vez ao invés de ser só sofrimento, o rio também nos deixou brincar, deslizar de cima de grandes pedras para dentro de poços incríveis, pulos cinematográficos nos fazia darmos muitas risadas, feitos crianças no parque de diversão.

      A travessia foi se alternando entre ir pelo rio e seguir pela sua margem. Tudo era questão de permissão do terreno, que as vezes parecia que nos deixaria avançar rapidamente, mas logo nos fechava o caminho, fazendo com que a gente tivesse que voltar a nadar e atravessar poços gigantes, alguns até com uns 100 metros de comprimento. Caíamos na correnteza e ela nos conduzia rio abaixo e a gente apenas se mantinha na superfície da agua, aproveitando a carona até que o rio voltasse a despencar em alguma pequena gargantinha, um pouco perigosa para continuarmos.
      Pequenas cachoeiras são tantas que é impossível contar e catalogar todas, às vezes, nem foto a gente tira. É uma descida alucinante. Entra num poço e já cai em outro, pula de cima de uma cachoeira e já é obrigado a se jogar de outra. O dia vai passando nesse ritmo, fora dali o mundo não existe, só temos olhos para a frente, não há espaço para outros pensamentos, é preciso que a concentração esteja onde se coloca os pés, onde se pula, onde se agarra, que galho ou que raiz servirá para a continuação do caminho. Cuidado com a cobra, cuidado com o buraco, fica esperto com a pedra lisa e instável.

      A tarde chegou e com ela o cansaço também se instala, então a todo momento vamos tentando encontrar alguma trilha, já que estamos abaixo dos 200 metros , mas surpreendentemente, nenhum vestígio de que algum ser humano tenha passado por ali, não no vale, talvez lá encima na crista, mas no vale nem a presença de palmiteiros e caçadores é notada , o que nos indica que o Itamambuca é um rio ainda em estado bruto , que ainda se mantém longe dos olhos humanos , mas isso nos pareceu estranho devido a estarmos num parte plana, com as margens abertas, o que facilitaria muito a subida de alguém mais ousado .
      O rio vai nos fazendo alternar de margem, entre um ou outro pulo em algum poço, que as vezes de tão grande, acaba se transformando em lago, mas chega uma hora que a nossa pergunta sobre porque não encontramos trilhas e nem sinal de gente é respondida: O rio é espremido por duas paredes gigantes e somos obrigados a escalar algumas paredes pela direita e voltar a pular grandes pedras, nos enfiando novamente dentro do rio e nos tornando mais uma vez, passageiro de correnteza. Quando era possível, caminhávamos pela sua margem esquerda, vendo passar dezenas de outros grandes poços até que um deles nos chama a atenção.
      Já se aproximava das 4 da tarde e uma nuvem marota nos ameaçava, deixando o céu escuro. Atravessamos o lago, que se chama POÇO DA PEDRA RASA e do outro lado, nos surpreendemos com uma trilha larga e consolidada, que fez nosso coração disparar, era nosso caminho de volta para casa, nossa linha de fuga de volta para a civilização, já não era sem tempo, estávamos inchados de tanto nadar.
      Pegamos essa trilha, que estava na cota dos 180 metros de altitude e por elas nos adiantamos, mas em menos de cinco minutos, o céu desabou sobre nossas cabeças e uma tempestade de verão veio para lavar nossa alma, não que precisássemos. Mas do mesmo jeito que chegou, foi embora e não tardou para que o sol voltasse a brilhar novamente. A trilha foi se enfiando mato à dentro, atravessando alguns pequenos riachos, se elevando sobre alguns morrotes e se transformou em duas, uma para esquerda e outra para direita. Tocamos para a direita, mas ela se perdeu. Voltamos e pegamos para a esquerda e ela também não nos levou a lugar nenhum, apenas nos devolveu novamente para o rio, que havia feito uma curva. Resolvemos tentar novamente para a direita e dessa vez descobrimos o erro e achamos a sequência dela, depois de algumas árvores caídas.
      A trilha atravessa mais mato e volta para o rio e o segue na paralela da direita, até que ela se abre de vez e finalmente, avistamos uma casa. Saímos nos fundos de um sítio e a pedidos do Tomaz, tivemos que passar em silêncio, mas não era preciso, não havia mesmo ninguém. A estradinha do sítio nos levou à uma porteira e como não havia nenhuma placa dizendo que era proibido sair, só entrar, pulamos o portão e ganhamos a rua.


      Uns 20 minutos de caminhada nos leva até uma fazenda de plantação de palmitos, que nos sopraram ser um antigo quilombo, que mais parece um bairro e sobre o olhar incrédulo de parte dos seus habitantes, passamos na cara dura, sem dar nenhuma satisfação, até cruzarmos um grande portão e nos pormos para fora, agora livres, sem a necessidade de dar mais conta da nossa vida a quem quer que seja. A estrada da Casanga vai acompanhar o Itamambuca de longe e uns 20 minutos depois, somos devolvidos à Rio-Santos em Ubatuba, hora de oficializar as comemorações finais, os cumprimentos da vitória, mas uma travessia concluída com sucesso.

      Todo projeto ousado, primeiro nasce de uma ideia que num primeiro momento pode parecer estúpida, até que apareça alguém e diga que é possível. Anos atrás era só um sonho, sonhado por mim e por mais 2 ou 3 malucos e agora, quando olhamos para trás, nos bate aquele sentimento de vitória, de satisfação pessoal, de saber que valeu a pena tanta dedicação. Enquanto estávamos no Centro da Selva Paulista, banhista e surfista se deleitavam na foz do Rio Itamambuca, sem nem imaginar que aquele rio calmo e manso, desaguando numa das mais famosas praias do Brasil, nasce há mais de mil metros de altitude, se jogando em cachoeiras gigantes, abrindo caminho a força na Serra do Mar. Uma grande expedição não se faz com homens bravos, mas sim de gente disposta a resistir, a aguentar as agruras da natureza, gente que carrega dentro de si o amor incondicional pela AVENTURA, e quanto a isso, esses caras que me acompanharam nessa jornada alucinante, não devem nada pra ninguém.

      (Foz do Itamambuca - foto net )

      Divanei - 2018
       
       
       
    • Por Tadeu Pereira
      Trilha Saco das Bananas ou Trilha das 10 Praias Desertas - Caraguatatuba x Ubatuba - SP 
      Praias: Praia da Tabatinga, Praia da Figueira, Praia da Ponta Aguda, Praia da Lagoa, Praia do Simão, Praia Saco das Bananas, Praia da Raposa, Praia da Caçandoquinha, Quilombo Caçandoca, Praia do Pulso, Praia da Maranduba e Praia do Sape.
      Dificuldade: Moderado
      Distância: 28 km
      Salve salve mochileiros!
           Segue o relato desta trilha fantástica situada entre Caraguatatuba e Ubatuba no litoral Norte de São Paulo, iniciada na Praia da Tabatinga a aproximadamente 20 Km da cidade de Caraguatatuba e finalizada na praia do Sape. A trilha é de nível médio com subidas e descidas mostrando belas paisagens e diversas praias. A maioria das praias são quase que desertas com pontos de água potável.  
      Partida - 17/11/20 - Ida 7:30am - São Paulo x Caraguatatuba -> BlablaCar R$45,00 - Caraguatatuba x  Praia da Tabatinga -> Ônibus R$4,65
           Partimos do bairro do Butantã em São Paulo capital onde combinamos com o motorista do aplicativo BlablaCar para sair às 7:30am. Saímos no horário marcado e fomos em 4 pessoas no carro. A viagem foi tranquila, segura, todos de máscaras pela pandemia e com duração de duas horas e meia até chegarmos ao Terminal Rodoviário de Caraguatatuba onde pegamos um ônibus do transporte público com sentido a cidade de Ubatuba. Depois de aproximadamente 35 minutos descemos no último ponto da praia da Tabatinga próximo ao Mercado Prime onde fica o início da trilha pela rua à direita do mercado. Compramos mais alguns mantimentos e água e iniciamos por volta das 11:00am a Trilha do Saco das Bananas ou Trilha das 10 praias desertas.   
       
           A trilha teve início na rua ao lado direito do Supermercado Prime pela Rua Onze onde seguimos por ruas com um terreno muito acidentado com muitos buracos e lama até chegar na entrada para a Praia da Figueira. Resolvemos não entrar nesta praia pois o tempo não estava ajudando muito e então seguimos em frente. Alguns metros a frente chegamos no Mirante da Praia da Ponta Aguda de onde se tem uma bela vista da Praia da Figueira e da Praia da Ponta Aguda.
         
                                                 (Entrada Praia da Figueira)                                                        (Estrada)
       

      (Mirante da Praia Ponta Aguda) - (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)

      (Praia da Figueira)
           Passando o mirante a trilha começa a adentrar a mata mais fechada passando por diversos pontos d'água. Andamos por mais ou menos mais 1 hora e chegamos em um casarão abandonado com várias bananeiras ao redor. Não sei a história desta casa mas parecia ser bem antiga. Neste ponta a trilha se divide em duas, para a esquerda se segue a trilha para a Praia do Simão, e para a direita se chega na Praia da Ponta Aguda. Descemos uns 15 minutos de trilha passando por um descampado até chegar na Praia da Ponta Aguda. 
       

       (Praia da Ponta Aguda) 

       (Praia da Ponta Aguda) 
            Ficamos pouco tempo na Praia da Ponta Aguda pois estávamos correndo contra o tempo que a todo momento mostrava que podia desabar com muita chuva. Retornamos pela mesma trilha que chegamos na praia e continuamos a trilha seguindo as placas rumo a Praia da Lagoa. 
       

          (Praia da Lagoa) 
           A Praia da Lagoa que faz jus ao nome contém uma lagoa que desagua no mar situada do lado esquerdo da praia. Retornamos pela mesma trilha e seguimos as placas para a Praia do Simão que a princípio iríamos pernoitar e seguir no dia seguinte.  
       
           Apesar da placa de proibido resolvemos seguir em frente e caminhamos por mais ou menos umas 2 horas neste trecho. A trilha estava muito molhada pela chuvas do dia anterior tornando o trecho escorregadio e muito difícil de render a caminhada. O tempo até que estava colaborado pois só tínhamos pego chuviscos durante o caminho, até que chegando próximo da Praia do Simão o tempo simplesmente resolveu dizer qual seria o nosso destino pelos próximos 3 dias ahahauhauhauha. 
       
           Começando com um chuva bem fina, toda aquela água que estava acumulada durante o dia resolveu cair bem na hora que estávamos chegando na Praia do Simão ahuahuah e não parou mais. Depois de vários escorregões e tombos passando por alguns trechos que sem chuva até seriam fáceis, mas com toda aquela água caindo do céu com a trilha encharcada e muito escorregadia ficaram bem complicadas. E depois de algumas horas chegamos na Praia do Simão ou Praia Brava do Frade.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)


      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Segundo moradores a Praia Brava do Frade possui este nome pois a um tempo atrás morou um frade na praia por muitos anos, razão do nome original. A praia é bastante procurada também por surfistas que buscam tranquilidade em uma praia deserta longe da badalação, mas neste dia não tinha ninguém na praia. 
           Chegamos e já montamos acampamento no meio das inúmeras árvores pensando em obter alguma sombra pra caso no dia seguinte o sol desse as caras ahuahuah. A praia tem mais ou menos 1 km de extensão com mar de águas agitadas, areia clara, praia de tombo, aparentemente com muitas correntes de retorno. Também ficamos próximos ao um ponto de água potável que fica no meio da praia formando uma pequena lagoa que com a forte chuva virou uma grande cachoeira que corria até o mar. A pernoite estava garantida, mas a chuva não parou mais aquela noite e nem no outro dia. Choveu forte, com trovoadas e muito vento o tempo todo.

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
       

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)

      (Acampamento)

      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
       
      (Bica d'água)
           Acordar em uma praia deserta certamente é um desejo de muitas pessoas, mas acordar com a praia deserta e com muita chuva também foi uma experiência muito boa com sentimento de frustração e agradecimento. Ficamos por três dias nesta praia por causa da chuva, as barracas viraram nossos lares naquele paraíso por alguns dias ahuahua. A chuva não deu trégua no segundo dia, choveu por várias horas de manhã até o meio da tarde. Tivemos que esperar por horas pra sair da barraca pra poder conhecer aquele paraíso, mas quando a chuva deu uma trégua nós saímos para desbravar e conhecer a praia. 

            Do lado direito andando pela praia existe um paredão de pedra que dependendo do volume d'água é um bom ponto para um banho de cachoeira, mas neste dia apesar de toda a chuva estava com volume baixo.  
       
      (Cachoeira)
            A chuva começou novamente e retornamos para o camping e por ali ficamos. Fizemos toda nossa comida dentro da barraca. Uso o modelo QuickHiker 2 Quechua que tem duas portas e dois grandes avanços possibilitando usar o fogareiro sem nenhum problema. Choveu o resto do dia e toda a noite. 

       
            Dormimos cedo com muita água ainda caindo, e por volta das 4:30am da madrugada a chuva resolveu finalmente parar. Resolvi sai da barraca assim que amanhecesse para ir ao banheiro e me deparei com um nascer do sol sensacional saindo lá longe no horizonte do mar. E depois de tanta chuva tive uma sensação de euforia, alegria, minhas energias se renovaram e todo aquele cenário de frustração por causa de toda aquela chuva mudou imediatamente ao ver os primeiros raios de sol naquele dia ahuahua, foi muito emocionante. Bom Diaaaaaaaaaaa!


       




      (Praia do Simão ou Brava do Frade)
           Com toda aquela animação já preparei um belo café da manhã e comecei a desmontar acampamento para seguir em frente pois além de toda aquela chuva que estava caindo antes, o mar também estava um pouco revolto e impossibilitou a travessia pela praia para poder continuar a trilha. E naquela manhã tudo isso estava ao nosso favor para poder continuar a travessia, então tomamos um café reforçado, desmontamos todo acampamento e seguimos para o lado esquerdo no final da praia onde fica a continuação da trilha. 

           No final da praia havia um acampamento fixo montado com barracas, panelas, talheres, pia, agua encanada hauahuahua. Depois de todo o perrengue que passamos com a chuva, aquele acampamento iria ser muito útil pra nós. Mas como não tivemos muito tempo de desbravar a praia, só encontramos esse acampamento quando estava saindo do Simão. Um morador local que encontramos na trilha nos disse que são de surfistas que se juntam e passam alguns dias neste local.  

       
           A continuação da trilha fica atrás deste acampamento. Neste trecho existe uma subida até chegar em um mirante que se vê toda Praia do Simão. E é neste trecho da trilha que se faz jus ao nome Saco das Bananas. Caminha-se por diversas plantações de bananas revelando belas paisagem. 


      (Mirante - Praia do Simão ou Brava do Frade)

             A caminhada neste trecho foi um pouco cansativa pois existem algumas subidas e descidas que desgastam um pouco por causa do peso da mochila. Caminhamos por uma hora e meia mais ou menos até chegarmos nas ruinas de uma escola abandonada, a Escola do Saco das Bananas construída em 1973 que atendia por volta de 25 crianças fechando em 1993 por falta de alunos. Ao lado esquerdo da escola segue a trilha para praia da Raposa e para o lado direito fica a trilha que chega na próxima praia da travessia, a Praia do Saco das Bananas. 

      (Escola E. P. G. Saco das Bananas)

           Seguindo a trilha da escola até a Praia do Saco das Bananas começamos a perceber o quanto ela é histórica com a frequente presença da Comunidade Quilombola existentes em algumas ruinas da época da escravidão. Levaram 10 minutos de descida até a praia e chegando encontramos um casarão de frente para o mar, que provavelmente seria dos donos de toda aquela plantação de bananas, encontramos uma praia pequena de aproximadamente 55 metros de largura, areias amareladas, águas cristalinas, com algumas pedras enterradas nas areias e cercada pela Mata Atlântica.

      (Praia Saco das Bananas)

      (Praia Saco das Bananas)

            Na Praia Saco das Bananas encontramos com alguns moradores que nos informaram que a praia era como um porto para os barcos levarem os produtos que os moradores cultivavam e que na sua maioria eram e é até hoje as bananas. Chegamos bem na hora que eles tinham colhido vários cachos. Nos contaram também que a trilha Saco das Bananas em alguns trechos, foram estradas construídas de pedra com intuito de facilitar o transporte de mercadorias cultivadas no roçado como: cana, mandioca, banana e outras especiarias. A praia guarda muitas histórias e muitos mistérios de sofrimento do período escravocrata e ainda sofrem até hoje com a especulação imobiliária. 

      (Praia Saco das Bananas)
           Ficamos por uma hora nesta praia contemplando e logo seguimos para a próxima praia que seria a Praia da Raposa. Retornamos até a escola e na bifurcação da trilha principal fomos para a esquerda. Neste trecho existem algumas subidas de tirar o fôlego, mas que nos proporcionaram vistas fantásticas das praias. 
       




       



           Caminhamos por uma hora e meia neste trecho até que chegarmos na entrada da Praia da Raposa, mas por causa do tempo ruim decidimos seguir em frente e não passar por esta praia. A entrada pra praia fica em uma trilha pequena onde existe uma corda para ajudar na descida ingrime. A entrada é bem pequena e fica à direita pra quem vem da Praia Saco das Bananas. Caminhamos mais alguns minutos e chegamos na Praia de Caçandoquinha. 

      (Praia da Caçandoquinha)

      (Praia da Caçandoquinha)
       
      (Rio de água doce)
           Chegando na Praia da Caçandoquinha se vê um casarão de fazenda do período escravagista mas que, por ser privada, não é aberta ao público. É uma praia de mar calmo, areias claras, muitos borrachudos, do lado direito da praia existe um riacho de água doce e contém algumas árvores centenárias propiciando ótimas sombras para ficar a beira mar. Hoje a Caçandoquinha guarda uma história de riqueza branca e sofrimento escravo, amenizado com o reconhecimento e regularização do Primeiro Reduto Quilombola do litoral norte do Estado de São Paulo.
        
      (Praia da Caçandoquinha)
           Ficamos um tempo nesta praia para descanso e aproveitamos para fazer um lanche embaixo das sombras de umas das grandes árvores centenárias que têm de frente para o mar. Ao contrario da sua vizinha, Caçandoca, esta praia é muito tranquila, não existe nenhuma estrutura para o turismo, não se chega de carro, e é pouco frequentada. Do lado esquerdo da praia existe uma trilha que leva ao Quilombo Caçandoca, nosso próximo destino. 
           Caminhando por uns 10 minutos já se chega no costão onde existe uma corda para a descida até a Praia da Caçandoca. A praia é fantástica, um paraíso quase que intocado sem construções e com uma enorme história.  De areias claras, mar calmo o lugar tem um deslumbrante vista da baía do Mar Virado, Maranduba e algumas ilhas. Esta praia por ter acesso de carros pelo km77,5 da rodovia Rio-Santos já tem um pouco mais de estrutura como alguns campings e alguns quiosques a beira mar, mas tudo bem simples.
            A região do Quilombo Caçandoca tem muita história, faz parte de uma área legalizada como pertencente aos Quilombolas remanescentes das comunidades da época do período de escravidão contando com 890 hectares.  O Quilombo Caçandoca é o mais antigo do litoral norte de São Paulo e encontra - se em um dos lugares mais belos do Brasil. A escravidão só teve um "fim" em 1888 através da Lei Áurea, mas muito tempo antes os negro já lutavam por sua liberdade. A história como a dos remanescente de Quilombos, como a da antiga Fazenda Caçandoca, mostra que a luta foi árdua, mas foi vencida, e esta parte da história é passada de pai para filho, netos e bisnetos, mantendo sempre acesa a memória da Comunidade Quilombola. 
       
      (Praia da Caçandoca)
       
           Assim que chegamos já fomos atrás de um camping pois o tempo estava fechando novamente mostrando que iria chover novamente. Sentamos no Quiosque Pastel da Vó e conversando com alguns locais, nos recomendaram o Camping do Jango que fica do outra lado da praia no canto esquerdo. Fomos até lá e fechamos por R$25,00 Reais pra cada por uma noite com banho quente. Montamos a barraca e retornamos para o quiosque Pastel da Vó para curtir o resto do dia com sol enquanto tinha.
       
         (Quiosque Pastel da Vó)
           Retornamos ao camping onde tomamos um bom banho quente, fizemos um rango reforçado e dormimos pois a chuva não deu trégua no começo da noite. No dia seguinte o sol prevaleceu no céu o dia todo, o que nos proporcionou ver o quanto aquele lugar é maravilhoso mostrando belas paisagens. Decidimos ficar mais um dia e seguir para próxima praia somente no dia seguinte.
       
      (Camping do Jango)

      (Igreja)

      (Praia da Caçandoca)

      (Praia da Caçandoca)

           (Praia da Caçandoca)

           Passamos quase que o dia todo no Quiosque Pastel da Vó, pois além do tratamento maravilhoso, a cerveja tava muito gelada e ainda nos deram o valioso repelente que os locais usam para parar os borrachudos. Uma mistura de óleo de cozinha com vinagre de álcool. A mistura funcionou e lambuzamos o corpo. Bye bye Borrachudos! huahauhau 

       (Praia da Caçandoca)

       
           Foi o dia mais quente da travessia com uma temperatura de quase 30 graus. Almoçamos pela praia mesmo, comemos porções e pasteis da Vó e tomando uma merecida gelada. Até que os preços estavam de boa, nada abusivo. Retornamos ao camping por volta das 19:00pm horas, fizemos mais um rango reforçado e descansamos para poder seguir bem cedinho para as próximas praias. 

      (Praia Quilombo Caçandoca)
                  Desmontamos acampamento por volta das 6:00am horas da manhã com um nascer do sol sensacional que fomos presenteados naquela linda manhã de Domingo.

      (Praia Quilombo Caçandoca)
           Tomamos um café da manhã reforçado, contemplamos por mais alguns minutos aquele momento e aquele lindo lugar e logo seguimos para a próxima praia, a Praia do Pulso. A trilha fica no canto esquerda da praia da Caçandoca muito próximo do camping que ficamos. .

           Caminhamos por uns 15 minutos até que chegamos em uma guarita com um guarda que nos informou como passar pela Praia do Pulso. A praia de acesso restrito tem na sua maioria acesso por condôminos. Descemos mais alguns minutos e chegamos em uma praia com um extenso gramado comunitário, areias fofas amarelas, enormes árvores proporcionando uma grande sombra em dias ensolarados, mar calmo de águas claras, porém o que chamou mais atenção foram as enormes casas chegando quase que nas areias da praia.  Não existe nenhuma estrutura para turismo, ambulantes, quiosques.

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)

      (Praia do Pulso)
           Comtemplamos por alguns minutos e seguimos até o canto esquerdo da praia onde fica a continuação da trilha. Neste trecho a trilha foi um pouco cansativa pois o sol estava bastante quente e as subidas deste trecho nos castigaram bastante. Durante a trilha vimos diversos mirantes com vistas espetaculares passando pelos fundos das casas até chegarmos aos fundos da famosa Igreja de Nossa Senhor de Fátima ou também conhecido como o Castelo dos Arautos. Uma fantástica construção de 9 mil m² parecido com castelos medievais com obras de Aleijadinho e com uma vista fantástica da Ilha do Pontal, Ilha e Praia de Maranduba e ao longe uma parte da Trilha das Sete Praias.

      (Praia do Pulso)
       


           Após passar pelo Castelo dos Arautos caminhamos por uma estrada chamada Estrada da Caçandoca até a rodovia BR101 Rio-Santos, onde seguimos por alguns quilômetros até a praia de Maranduba.

           Procuramos logo por um camping e encontramos o Camping Toa Toa que fica entre as Praias de Maranduba e Praia do Sapé. Fechamos por R$35,00 Reais e ficamos por uma noite. O Camping Toa Toa é bastante estruturado com banheiros amplos, com chuveiro quente, uma grande área gramada com vários pontos de energia, churrasqueiras, cozinha comunitária e com entrada tanto para praia quanto para rodovia Rio-Santos BR101. Montamos acampamento e saímos logo para procurar algum lugar pra almoçar e depois conhecer o local.   


      (Praia do Sapé - Ilha do Pontal)
           A Praia de Maranduba e do Sape são praias mais voltadas para banho, crianças, família. Tem uma ampla estrutura comercial e turística como quiosques, pousadas, hotéis, mercados e restaurantes. Como estávamos passando por praias quase que desertas sem ninguém a alguns dias já, esta praia foi meio que um choque pois estávamos voltando para a cidade.

      (Camping Toa Toa)

      (Praia de Maranduba)
           Desmontamos acampamento e mais uma vez o sol nos presenteou com mais um lindo nascer. Mochila feita e café tomado fomos para a rodovia Rio-Santo aguardar o ônibus para retornar a Caraguatatuba. Aguardamos por alguns minutos até prgar o ônibus sentido Caraguatatuba por R$4,65 e em 40 minutos chegamos na rodoviária. Almoçamos em um restaurante ali próximo do terminal e fechamos com um BlablaCar pra algumas horas depois por R$48,00 Reais de Caraguatatuba até São Paulo. E assim acaba mais uma trip e eu só tenho a agradecer! 
      GRATIDÃO  
      Retorno - 23/11/20 - Volta 9:00am  - Maranduba x Caraguatatuba -> Ônibus R$4,65- Caraguatatuba x São Paulo ->BlablaCar R$40,00
       
       
       
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