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Aventura selvagem na Groenlândia

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Introdução

Meus colegas mochileiros, depois de muito rodar por esse mundão, finalmente chegou a hora de conhecer o gigante de gelo que há tanto tempo eu sonhava. No início desse ano, comprei as passagens com a estatal Air Greenland por 1595 coroas (1147 reais) de Copenhage a Ilulissat, mais 1208 coroas (869 reais) de Ilulissat a Kangerlussuaq, e outras 1595 coroas de Sisimiut a Copenhage. Já a ida e volta à Europa foi comprada com as baratas passagens flexíveis da 123Milhas.

Seguiram-se meses de planejamento e treinamento físico (pois faria sozinho uma travessia dificílima na tundra Ártica), até partir no começo de junho para Lisboa. Lá, passeei por Évora e comprei os alimentos desidratados para a aventura groenlandesa, bem como a tenda tarp de trekking da Decathlon, com apenas 920 g. Os demais equipamentos eu já possuía, com exceção dos bastões de caminhada que não podem ser levados como bagagem de mão e o cartucho de gás que é proibido no transporte aéreo; portanto, foi comprado no destino final.

Dia 1

Foi com um avião grande e confortável terceirizado pela Air Belgium que passamos sobre a enorme calota polar, desembarcando no final da tarde no principal aeroporto em Kangerlussuaq, para uma conexão. De verde só o nome do território mesmo, que foi uma jogada de marketing viking na Idade Média pra atrair novos moradores.

Gelo eterno

Bem em frente ao aeroporto fica o único supermercado do vilarejo, que possui menos de 600 habitantes. Até que a variedade e os preços me surpreenderam (a Groenlândia não cobra imposto sobre bens e serviços), ficando no nível ou um pouco abaixo de outros países nórdicos, já que quase nada além de carne de caça e pesca é produzido localmente.

Supermercado de Kangerlussuaq

Usando o ônibus de linha, fui até o albergue de Kangerlussuaq. A partir de 225 coroas (162 reais), é a hospedagem mais barata do território. Ainda assim, é bem completo, mas com horário restrito de entrada e necessidade de saco de dormir próprio.

Albergue de Kangerlussuaq

Eu estava considerando fazer um passeio longo de 695 coroas (499 reais) à calota polar, mas o tour já havia esgotado para esse dia – os turistas começavam a chegar na temporada de verão. Então, larguei a mochila e fui dar uma caminhada num frio de respeito, próximo aos 0 graus. Passei pelas típicas construções baixas, quadradas e coloridas, até encontrar uma cachoeira congelada nos arredores do vale quase infértil.

Cachoeira congelada

Do outro lado da vila, atravessei o rio quem vem da geleira. Nessa hora, a neve começou a precipitar de forma cada vez mais acentuada, deixando a paisagem ainda mais desoladora e me forçando a retornar à hospedagem.

Nevasca em Kangerlussuaq

Enquanto preparava meu jantar de supermercado, fiquei conversando com o Bjørn, norueguês que já havia visitado todos países do mundo. A noite não veio, como aconteceria até o fim da viagem devido à alta latitude, então precisei colocar uma máscara no olho para dormir.

Dia 2

Amanheceu com neve para todo lado, quando embarquei no pequeno turboélice na curta e cênica viagem até Sisimiut, a terra dos icebergs.

Aeroporto de Kangerlussuaq

Por incrível que pareça, conheci duas senhoras brasileiras no terminal aeroviário, aproveitando assim o transporte delas até o centro. Com quase 5 mil habitantes (o que deve aumentar em 2 anos quando terminarem a reforma do aeroporto para receber voos internacionais), é a terceira maior cidade e o principal destino turístico da Groenlândia.

Porto e cidade de Ilulissat

De um lado, o porto de pesca e transporte, do outro, criadouros de cães de trenó, fundamentais para a economia. Há quase tantos desses animais quanto humanos aqui, mas eles precisam ficar separados – a lei proíbe que haja cães de estimação.

Canil de Ilulissat

Perambulei pelas vias centrais, onde havia certo movimento de pedestres, veículos leves e pesados.

Num dos supermercados, peguei uma refeição simples pronta e por 19 coroas (14 reais) uma garrafa de 330 ml da Qajaq (= caiaque, invenção groenlandesa), cerveja artesanal feita com gelo de iceberg. Poderia ainda ter optado por caviar, já que é uma iguaria nativa, o que não sairia tão caro quanto no Brasil.

Comida e bebida de supermercado de Ilulissat

Embora haja certa quantidade de resíduos nas áreas residenciais e periféricas, ainda assim, as moradias são fotogênicas. Além de casas, boa parte da população nativa inuíte mora também em baixos e longos prédios residenciais.

Casas de Ilulissat

Contudo, o principal fica sobre o mar. O fiorde de gelo de Ilulissat é um belíssimo Patrimônio da Humanidade que protege a geleira mais produtiva do mundo fora da Antártida. Em qualquer ponto da cidade você consegue admirar os icebergs que cercam a costa rumo a outros mares, e os barcos de passeio e pesca entre eles.

Fiorde gelo de Ilulissat com barco

Depois de economizar uns trocados usando o wi-fi do centro de visitantes e o banheiro do ginásio esportivo, comprei a janta no supermercado da rede Brugseni, onde voltei algumas vezes e até fiz amizade com um inuíte.

Após, fui em direção à primeira das 4 trilhas oficiais na zona do patrimônio. Subi uma escadaria, caminhei um pouco na tundra Ártica, e com essa vista, armei minha barraca para uma “noite” solitária e gratuita.

Acampamento na tundra com icebergs de Ilulissat

Dia 3

Continuei pela trilha, subindo e descendo alguns morros e a tundra com manchas de neve, sempre com a vista do mar de gelo. Nesse caminho encontrei uns poucos exemplares da fauna, como o pisa-n'água-de-pescoço-vermelho (Phalaropus lobatus), ave migratória que já foi vista no Brasil.

Ave do Ártico em Ilulissat

Encerrei o sendeiro assim que passei por um dos diferentes cemitérios cobertos de neve, com cadáveres provavelmente preservados pela temperatura.

Cemitério congelado de Ilulissat

Ainda visitei dois dos museus de Ilulissat, a um custo de 100 coroas dinamarquesas (72 reais). O primeiro fica na casa do explorador polar Knud Rasmussen. É interessante, pois ensina sobre a história da Groenlândia desde antes de Cristo até o pertencimento ao Reino da Dinamarca, além de Ilulissat, fundada no século XVIII como um entreposto comercial dinamarquês.

Museu de história de Ilulissat

Enquanto isso, o museu de arte apresenta, entre outras coisas, pinturas e artesanatos com madeira e osso.

Museu de arte de Ilulissat

Segui ao outro lado da cidade, onde iniciei a segunda trilha, que é a mais difícil de todas, pois essa já começa com o chão coberto de neve, além de montanhas.

Trilha nevada em Ilulissat

Algumas horas passaram-se entre duas paredes rochosas e algumas afundadas na neve, até que eu atingisse o ponto mais alto. Como o sol já estava baixando e o lugar que eu estava possuía uma vista cênica, decidi acampar lá mesmo – novamente, sem ninguém por perto.

Acampamento nas montanhas de Ilulissat

Dia 4

O que eu não contava era com o vendaval que faria na madrugada. Foi tão forte que algumas amarras soltaram; com isso, precisei sair do meu saco de dormir quentinho e encarar os -7 °C que faziam para colocar a barraca de pé.

Pela manhã, desci a trilha até chegar ao ponto costeiro mais próximo da geleira, onde há tanto gelo que mal se vê o mar.

Mar de gelo de Ilulissat

Com a proximidade do fim, encontrei outros turistas na região. Almocei com essa vista, conectando em seguida com a outra trilha, nas plataformas que passam pelo sítio arqueológico do antigo vilarejo primitivo de Sermermiut. Pena que no local não há resquícios visíveis.

Por fim, visitei o museu do centro de visitantes do patrimônio de Ilulissat, num edifício de arquitetura excêntrica. São 150 coroas (108 reais) para aprender sobre glaciologia com tecnologia.

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Dali, andei até o aeroporto, pegando um voo de retorno a Kangerlussuaq à noite. Consegui achar um canto escuro e silencioso para dormir no próprio aeroporto, que permanecia aberto, já que possui um hotel (caríssimo) dentro dele.

Dia 5

Descansado, retirei parte dos equipamentos e alimentos que eu havia deixado no guarda-volumes do aeroporto de Kangerlussuaq para, no final da manhã, iniciar a longa travessia da Arctic Circle Trail, 9 dias de autossuficiência por 165 km de tundra Ártica desabitada.

O começo foi pelo asfalto esfacelado, onde passavam alguns veículos. Uma dessas rachaduras revelou o permafrost (solo congelado).

Já ao sul, a parte mais antiga do vilarejo foi construída por americanos no começo da década de 1940, junto com o aeroporto, por ser uma base aérea.

Estrada velha de Kangerlussuaq

Não foi fácil andar com cerca de 20,5 kg no corpo, principalmente porque meus ombros já estavam um pouco doloridos das trilhas em Ilulissat.

Doze quilômetros depois, já terminada a morena glacial que desemboca do rio que corta o povoado, cheguei ao fiorde onde fica o pequeno porto, que recebe até mesmo cruzeiros. Ali fica o bairro mais distante, Kellyville, com algumas casas isoladas e a antena da antiga estação de pesquisa atmosférica Sondrestrom, agora desativada.

Porto de Sondrestrom

Nessa hora a estrada já de terra deixa o mar e sobe para o interior, passando por belos lagos cercados de turfeiras encharcadas que me acompanhariam por toda trilha.

Lagoa descongelada fora de Kangerlussuaq

À distância, vi meu primeiro grupo de renas (Rangifer tarandus), o mamífero mais presente na travessia. Somente com o zoom da lente da câmera pude identificá-las. Como são caçadas há milênios, quase sempre fogem dos humanos.

Grupo de renas na tundra

Assim, terminei a caminhada do dia ao chegar ao fim da estrada, 19 km depois, no lago onde fica o trailer de Hundesø. Esse é um dos abrigos desabitados que ficam ao longo do caminho, sendo as únicas construções humanas. Assim como a maioria das cabanas, possui cama, mesa, assento, banheiro seco, pia sem água, aquecedor à combustão, ferramentas e restos de comida e gás.

Trailer de Hundesø

Cheguei no momento certo, pois um vendaval seguido de chuva surgiu ao redor por horas a fio.

Enquanto preparava o jantar de arroz com lentilha em meu fogareiro portátil e observava pela janela do trailer, vi um animal se aproximando. Era uma raposa-do-Ártico (Vulpes lagopus foragoapusis), animal fascinante que não é fácil de ser observado! Pra piorar, muitas dessas raposas estão com raiva (doença), o que não era o caso dessa, pois assim que me viu, partiu em disparada.

Raposa do Ártico

Dia 6

Após tomado meu café da manhã com leite em pó, granola e frutos desidratados (o mesmo de todos os dias), fui até o lago parcialmente congelado para contemplar a paisagem. Vi um grupo de gansos-canadenses (Branta canadensis) e um casal de patos-rabilongos (Clangula hyemalis), espécie do Ártico que muda a cor da plumagem no inverno, assim como a raposa e outros animais.

Patos no gelo

O gelo no lago era tanto que transbordava pra margem. Nesse dia ameno para padrões groenlandeses (máxima de 13 °C), cruzei por outras lagoas, brejos e trilhas alagadas que dificultavam o progresso, além de morros rochosos, num total de 19 quilômetros.

Arctic Circle Trail

Mais adiante no dia, vi uma ave de rapina alto no céu, e um casal de lagópodes (Lagopus muta) em terra, sendo um pardo e outro com penas brancas.

Lagópode com pelagem de verão

Meus ombros já estavam bem doloridos, quando enfim vislumbrei a cabana de Katiffiq.

Cabana de Katiffiq

Junto a ela e seu lago, havia duas renas mansas que não se abateram com a minha presença. Fiquei curtindo o momento, enquanto descansava.

Rena bebendo água do lago

Só que eu não estava sozinho. Duas garotas e um rapaz americanos estavam repousando quando entrei no pequeno abrigo, que lotou.

Sentei um pouco fora e calcei chinelos para secar meus pés, que estavam absurdamente enrugados de água. Depois, jantei miojo e capotei.

Dia 7

Uma das americanas sentiu o drama e desistiu da trilha, regressando a pé até Kangerlussuaq, enquanto os demais partiram quando eu ainda estava dormindo. Esse dia foi plano, sempre ao redor do Lago Amitsorsuaq, parcialmente congelado, e suas praias de seixos rolados e areia.

Lagoa com pedras e gelo parcial

Na companhia de alguns passarinhos, atravessei um aglomerado de salgueiros, que aqui não passam de arbustos, mas o que dificultou foi o vento forte, seco e frio (sempre contra), que piorou os já rachados lábios, além dos alagamentos no caminho. Tanto foi que cheguei no fim do dia com a visão de um olho meio perturbada.

Vinte e um quilômetros depois, atravessei um derrame de gelo pra atingir, do outro lado do grande lago, a cabana da vez (Canoe Center), que é a maior de todas. Construída pra um propósito não realizado, tem algumas canoas à disposição e é dividida em cômodos com vários beliches, um deles para os americanos (foi a última vez que os vi) e outro pra mim, tendo até mesmo painéis solares para recarregar os aparelhos. Utilizei em meu smartphone, nas baterias da câmera, em dois powerbanks e no Spot (comunicador/rastreador satelital).

Cabana Canoe Center

Dia 8

Dormi bem essa noite, e ainda consegui faturar uns chocolates (que depois de comer descobrir estarem vencidos) e refeições liofilizadas que outros aventureiros deixaram de presente.

Antes do lago sair de vista, vi outra dupla de lagópodes tranquilos, que me deixaram fotografá-los.

Lagópode com pelagem de inverno

Com quase 23 km, foi um dia longo e desafiador. Primeiro, pelo solo brejoso em muitas partes, onde não havia bota impermeável que saísse ilesa.

Tundra empoçada

Uma longa, mas pouco caudalosa cachoeira, surgiu do alto de um morro. Ela se uniu a alguns pequenos rios, que precisei saltar, desembocando em outro corpo d’água lêntico.

Cachoeira na trilha da Groenlândia

Nesse ponto, estava ingressando na antiga área de caça dos inuítes, um patrimônio mundial chamado de Aasivissuit-Nipisat, que me acompanharia quase até o final da aventura.

Pisei em um pouco de neve compactada, para enfim começar uma longa subida. Só que nesse momento, acabei me perdendo da trilha principal pouca sinalizada e o GPS não ajudou muito. Tentei pegar um atalho para me unir à trilha mais adiante, mas acabei me afastando ainda mais, isso no meio de vários morros rochosos quase verticais que precisei superar, com o vento soprando forte.

Aventureiro na trilha da Groenlândia

Perdi um bom tempo, mas consegui encontrar um dos montes de pedra e um rastro de trilha, sem precisar regressar no caminho. Um pouco mais de ascensão, para somente às 21 h chegar no pequeno abrigo de Ikkattooq, o mais elevado da travessia.

Cabana montanhosa de Ikkattooq

Fiquei preocupado, pois, embora tivesse me recuperado na última noite, novamente minha visão estava turva.

Dia 9

Felizmente, o problema passou e não se repetiu, com o cuidado extra que tive dali em diante. Embora meu corpo estivesse dolorido, reajustando o peso na mochila, consegui aliviar os ombros.

Sem banheiro ali, tive que sentir o vento batendo no traseiro enquanto executava um agachamento.

A primeira visão desse dia foi a de lebres-do-ártico (Lepus arcticus groenlandicus) na encosta de uma montanha. Foi a segunda aparição dessa espécie, mas novamente longe demais para ser observada com detalhes a olho nu.

Lebres do Ártico

Desde o dia anterior, havia reparado em fezes roxas de aves. A minha suspeita de que seriam bagas-do-corvo (Empetrum nigrum) foi confirmada quando vi as pequenas esferas negras surgirem aos poucos no caminho. Com um suave gosto doce e ácido, mas com micronutrientes, são comestíveis também por humanos.

Frutas baga de corvo

Nesse momento, me dei conta que eu estava a pelo menos 4 dias de distância de qualquer assentamento humano!

Com pouco mais de 11 km até o abrigo seguinte (distância mais curta da trilha), caminhei tranquilamente. Com um pouco de subida inicial, tive a vista do maior brejo de todo o caminho, que incluiria uma temida travessia de rio.

Maior banhado da trilha

Rapidamente descendo as rochas com o apoio dos bastões de caminhada, cheguei à base onde precisei optar entre atravessar um trecho reto menor de trilha em banhado e passar a pé pelo rio, ou então arrastar-me por toda essa várzea sem trilha e procurar uma ponte que havia sido instalada no final. Escolhi a primeira opção; logo, as botas foram literalmente pro brejo.

Na hora da travessia, o nível estava acima do joelho e com uma força considerável, o que foi um pouco perigoso. A temperatura da água era o de menos, pois o sol ajudava nesse que foi o trecho mais quente da trilha, tanto que fiquei ali sentado secando ao ar livre, enquanto comia minhas barras de proteína e carboidrato. O que não esperava era que os primeiros mosquitos (terríveis no verão a ponto de ser preciso andar com uma tela no chapéu) já estariam incomodando.

Secando os pés depois da travessia de rio

Prossegui pelo limite entre a área encharcada e a encosta do morro, pisando vez ou outra em terreno úmido, mas plano, coberto por salgueiros-do-ártico (Salix arctica) desfolhados e bétulas-anãs (Betula nana) verdes.

Salgueiros e bétulas

Passadas algumas renas fugitivas depois, alcancei outro bonito fiorde.

Fiorde no meio da trilha ártica

Muito próximo estava a cabana de Eqalugaarniarfik. Ali cumpri minha missão voluntária de deixar uma mensagem escrita para que os visitantes não larguem seus resíduos ali, para que os levem até o final. Dizem que isso é um problema, pois não há coleta periódica ao longo da temporada. Como fui antes, encontrei pouco.

Interior da cabana de Eqalugaarniarfik

Dia 10

O dia iniciou com uma subida de respeito, deixando a cabana para trás.

Montanhas e a cabana de Eqalugaarniarfik

Então, o tempo começou a fechar, até que o vento se somou à chuva congelada e à névoa. Enquanto isso, eu passava por lagos e por manchas isoladas de neve.

Quando estava transpondo uma tundra avermelhada, a chuva engrossou a ponto dos meus trajes impermeáveis não aguentarem mais.

Tundra com neve

Apressei o passo, pois começou a nevar, e bastante. Ao fim de 19 km, me abriguei na primeira cabana que vi, a Innajuatooq I.

Logo troquei de roupa e preparei um jantar reforçado, enquanto observava tudo ao redor ficar branco de neve, mesmo que a poucos dias do verão começar.

Chão com neve em Innajuatooq

Dia 11

Foi incômodo encarar o frio que abatia, tanto que precisei sair com uma camada extra de roupas. Pra piorar, os trajes do dia anterior não haviam secado.

Logo encontrei a Innajuatooq II, escondida pela nevasca da noite anterior. Maior que a de onde fiquei, tinha banheiro, mas pelas pegadas havia sido ocupada por outrem.

Essas pegadas me ajudaram a enfrentar um grande desafio no dia. Começando, a ponte natural na travessia de um rio.

Ponte de gelo

À medida em que eu subia uma elevação, as plantas ficavam cada vez mais escassas, e a neve ia tomando conta da paisagem.

Trilha com neve, plantas e água

A orientação já não era mais possível, quando o vale seguinte se mostrou estar quase que completamente branco, e ainda por cima com um lago congelado oculto. Na tentativa de parar de afundar na neve, pois meus pés já estavam sem sensibilidade do frio molhado, parei de seguir as pegadas e fui para a lateral do morro. Só que não deu certo, acabei escorregando e me machucando um pouco.

Trilha na Groenlândia com muita neve no chão

De volta à neve, foram longas horas com os pés duros, embora a distância total não chegasse a 18 km. Enfim, a choupana de Nerumaq se apresentou à vista, assim como um casal gente boa dos países bálticos. Foi sorte tê-los encontrado, pois meu papel higiênico havia recém-acabado.

Aventureiros na cabana de Nerumaq

Dia 12

Esse dia foi mais agradável, mas constaram uns quantos rios que demandaram tempo para encontrar pontes de gelo e cruzá-los.

Rio com pedras na trilha nevada

Outro ponto interessante foi a floresta de salgueiros, que aqui atingiam até 2 metros, um recorde pra esse ambiente inóspito. Altos, secos e densos, incomodaram um pouco.

Salgueiros altos

Passado um lago onde vi até alevinos, decidi lavar a cabeça num rio, pois há muitos dias só usava lenços umedecidos na higiene corporal.

Ao subir o relevo, me deparei com o cênico fiorde de Kangerluarsuk Tulleq. Do outro lado da água, havia algumas casas de veraneio, mas nem sinal de humanos presentes.

Cabanas no fiorde de Kangerluarsuk Tulleq

Com menos de 16 km caminhados até então, optei por dormir minha penúltima noite no barraco mais adiante, o de Kangerluarsuk Tulleq Syd.

Mochila na cabana de Kangerluarsuk Tulleq

Dia 13

Altamente motivado pelo fim da trilha, apesar de toda fadiga acumulada no corpo e hematomas nos pés e mãos, abandonei a casinha. Não contava, porém, que esse seria o dia mais difícil de todos.

Logo de cara, uma tremenda ascensão vertical até um passo de montanha. De cima, ampla vista para o fiorde como recompensa.

Aventureiro no morro acima do fiorde Kangerluarsuk Tulleq

Curiosamente, também havia um "chalé" banheiro perdido na montanha, o qual fiz bom uso.

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O desafio intensificou a seguir, com muita neve a ser trespassada. Majorou o problema quando um rio subterrâneo impediu minha travessia. Mesmo seguindo pegadas alheias, quando atingia o leito dele, eu afundava na água congelada.

Lago congelado e neve nas montanhas

O resultado disso foi que fiquei molhado e precisei seguir de quatro até atingir a margem esquerda do rio, e dali em diante, ir em frente. Só que esse lado era mais complicado, pois a neve estava mais fofa e havia menos terra que no lado direito. Enquanto isso, meu aparelho Spot que poderia ser usado em um eventual resgate, já se encontrava com a bateria num nível crítico.

Pensei seriamente em desistir, pois minha situação estava preocupante. Apesar de tudo, persisti. Cerca de duas horas depois, consegui finalmente atravessar até a margem direita e, logo depois, tive a vista do solo predominante numa descida.

Trilha com montanhas em Sisimiut

Faltavam poucos quilômetros para chegar em Sisimiut, mas quando atingi a estação de esqui (desativada nessa época), outro longo trecho de neve se apresentou perante mim. Felizmente, a única dificuldade dessa parte foi o equilíbrio, pois pude aproveitar o rastro de um veículo 4x4 que compactou a neve, deslizando dentro dele.

Dessa forma, em breve tive a vista mais bela de todas, a da segunda maior cidade da Groenlândia (com menos de 6 mil habitantes). Enfim, estava chegando ao final!

Cidade de Sisimiut à distância no fim da tarde

Com a energia renovada, continuei a descida, contornei o lago pela esquerda, passei pelos canis e atingi o núcleo urbano de construções coloridas.

Casas coloridas de Ilulissat com montanhas ao fundo

A única parada foi no supermercado, pois minha última barra de proteína havia terminado muitas horas atrás, e eu precisava de comida de verdade.

Depois, cruzei a ponte, onde fica a marina e o porto, caminhando mais alguns quilômetros até que, às 22:30 h, ou seja, mais de 12 horas e 25 km depois do começo do dia, eu finalmente chegara ao destino final, o aeroporto de Sisimiut! Que alegria!

Matheus Hobold Sovernigo equipado em Ilulissat

Todavia, seu terminal estava fechado. Com isso, usei uma mesa de piquenique externa para jantar e, no mato ao lado, armei minha tenda para a última noite. Agora oficialmente foi o fim da trilha, conforme registrado em meu aparelho.

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Dia 14

Ingressei no minúsculo terminal, donde embarquei num turboélice que refez meu trajeto de 9 dias até Kangerlussuaq, com a diferença que tomou menos de meia hora para tanto!

Interior do terminal de Ilulissat

Na curta conexão antes de voar a Copenhage, aproveitei para provar no restaurante do aeroporto uma iguaria típica local: hambúrguer de boi almiscarado. Valeu as 125 coroas (90 reais), relembrando que a Groenlândia tem um alto custo de vida.

Hambúrguer de boi almiscarado

Conclusão

Me despedi dessa terra admirável, com paisagens deslumbrantes e ainda bastante selvagem, o que deverá mudar um pouco com a ampliação dos aeroportos para receber o turismo internacional em massa.

Foram longos e duros dias de trilhas, com a compensação das paisagens e animais fascinantes, além da mais pura tranquilidade. Se desconectar completamente do mundo às vezes é necessário.

Ainda que estivesse um tanto cansado física e mentalmente, dali parti para outro território exótico nórdico. Passei 10 dias mochilando nas Ilhas Faroé, antes de tomar o caminho de volta a meu país...

Apreciou meu relato e deseja ver em minhas redes sociais os vídeos e fotos dessa aventura extrema, bem como de outras tantas, ou então adquirir algum de meus livros? Acesse então o link Rediscovering the World e até a próxima aventura :)

Featured Replies

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@Schumacher Como fala no relato,parece que as casinhas nas quais ficou são abandonadas no meio do nada.Lógico que elas foram construidas por alguém e essas pessoas devem ter interesse em cuidar delas..Como fala esteve sozinho praticamente o tempo todo?

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Elas foram feitas antigamente pros moradores de Kangerlussuaq e Sisimiut fazerem a travessia de trenó no inverno, e mais recentemente para os trilheiros. São mantidas principalmente pela ONG Destination Arctic Circle, mas também pelos moradores e trilheiros. Sim, como fui um pouco antes do verão, só encontrei um trio em uma cabana e uma dupla em outra, ninguém mais nem durante a caminhada em si.

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Que relato absurdo, vindo de um brasileiro. Normalmente vejo muitos gringos fazendo essas travessias, até mesmo pelo alto custo que tem pra nós aqui, então ver um BR chegar lá é show demais!

Legal ver também falar sobre o spot, que nos vários relatos que vi aqui, quase não vejo ninguém mencionar, e em uma situação mais extrema pode salvar a vida...

Belo trabalho tanto no relato detalhadíssimo, como nas imagens

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Valeu, meu camarada! Realmente, não fiquei sabendo de mais ninguém nem da América Latina que tenha feito essa travessia, mas eu tava muito a fim, me preparei e fui atrás! Espero que incentive outros brazucas✌🏼

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Meu caro, sou teu fã. Pelas viagens que vc faz, e por relatá-las.

  • 2 anos depois...
Postado
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Parabéns, maravilhoso, é o primeiro relato que leio de um brasileiro na Groelândia, muito legal! Imagino que deve ter gente que perguntou o que vc foi fazer lá? Não deve ter nada pra ver lá...

Sabem de nada, viajar é vida! Tem gente que não sabe o que é aventura, conhecimento de novas culturas, descobrir lugares, se surpreender, ter aquele frio na barriga por ir onde quase ninguém que a gente conhece foi...

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