Ir para conteúdo
View in the app

A better way to browse. Learn more.

Mochileiros.com

A full-screen app on your home screen with push notifications, badges and more.

To install this app on iOS and iPadOS
  1. Tap the Share icon in Safari
  2. Scroll the menu and tap Add to Home Screen.
  3. Tap Add in the top-right corner.
To install this app on Android
  1. Tap the 3-dot menu (⋮) in the top-right corner of the browser.
  2. Tap Add to Home screen or Install app.
  3. Confirm by tapping Install.

Olá viajante!

Bora viajar?

Expedição Andes por aí - Curitiba a Machu Picchu -10200 km de Renault Symbol.

Postado
  • Membros

A viagem antes da viagem

Meu nome é Marcelo e, naquele fim de 2017, eu estava prestes a embarcar em uma aventura que por meses existiu apenas na cabeça, nos mapas e nas conversas de garagem.

O destino final era daqueles que soam quase míticos quando pronunciados em voz alta: Machu Picchu.

Mas chegar até lá exigiria bem mais do que apontar o carro para o norte. Eu seguiria de Curitiba acompanhado de três parceiros de jornada — Edmar, Renata e Isabel — atravessando cinco países, cruzando fronteiras, altitudes, desertos e expectativas. O plano era ousado: sair em 26 de dezembro de 2017 e retornar apenas em 24 de janeiro de 2018, após trinta dias de estrada pela Argentina, Chile, Bolívia e Peru.

Nos levaria um guerreiro improvável: meu Renault Symbol 1.6, ano 2013. Sem glamour, sem pose de aventureiro profissional, sem patrocínio. Apenas honestidade mecânica, porta-malas valente e coragem compartilhada.

Desde junho eu vinha me preparando. Revisões, manutenções, melhorias, equipamentos extras, listas e mais listas. Cada parafuso apertado parecia dizer que o sonho estava ficando sério. Também providenciei aquilo que ninguém posta em foto, mas salva viagens: seguros de saúde, Carta Verde e SOAPEX para o Chile.

Enquanto muita gente imagina que aventura começa quando o motor liga, eu aprendi outra coisa: a verdadeira viagem começa quando alguém troca o “seria legal” pelo “eu vou”.

E agora faltavam poucos dias.

Nesta etapa os custos foram estes:

Seguro Carta Verde= R$ 60,00 para 30 dias (só Argentina) pela Seguros Proteges, de São Borja-RS.

Seguro Soapex do Chile= R$ 34,00 para 12 dias pela internet.

Seguro de saúde= R$ 252,00 para cada, pela Assist Card por intermédio do site SegurosPromo . com . br.

Troca de óleo, filtro do óleo, filtro de combustível, filtro do ar condicionado e filtro de ar = R$ 205,00

Então o custo inicial (fora a troca de peças na revisão) é de R$ 551,00

A seguir vou detalhar o roteiro pretendido.

 

 

Editado por Marcelo Manente

  • Respostas 91
  • Visualizações 35.6k
  • Criado
  • Última resposta

Usuários Mais Ativos no Tópico

Most Popular Posts

  • Marcelo Manente
    Marcelo Manente

    1º Dia - 26/12/2017 - De Curitiba a Itá Ibaté, Argentina - 1080 km Quando a aventura ainda se mede em quilômetros Toda grande aventura tem um começo menos glamouroso do que se imagina. Em vez de ruína

  • Marcelo Manente
    Marcelo Manente

    2º Dia - 27/12/2017 - De Itá Ibaté a Salta, Argentina - 1000 km Retas sem fim e a alegria de seguir juntos O segundo dia repetiu a liturgia clássica das grandes expedições terrestres: acordar cedo, or

  • Marcelo Manente
    Marcelo Manente

    3º Dia - 28/12/2017 - De Salta a San Pedro de Atacama, Chile - 515 km Quando a viagem enfim ganhou altitude Depois de uma noite bem dormida em Salta, acordamos renovados e fomos ao café da manhã com a

Posted Images

Featured Replies

Postado
  • Autor
  • Membros

16º Dia – 10/01/2018 - Cusco a Desaguadero – 534 Km
Na estrada de volta, entre despedidas e almoço frustrado

Depois da overdose de beleza para os sentidos, iniciamos o retorno ao Brasil.

Mas ainda havia muito chão pela frente e algumas atrações pelo caminho. A viagem de volta nunca é apenas volta. Ela vem carregada de lembranças frescas, conversas acumuladas e aquela sensação estranha de estar indo embora sem querer ir.

Tomamos café, arrumamos as tralhas no carro e nos despedimos de Cusco logo pela manhã.

Este seria, em tese, um dia sem grandes atrações e sem muitas paradas.

Quer dizer...

Sem muitas paradas além das oficiais e das incontáveis paradas para o xixi. Kkkkkk.

Saímos novamente pela Ruta 3S. A estrada era muito boa, porém cruzava diversas cidadezinhas pelo caminho, o que obrigava a reduzir bastante a velocidade e atrasava o rendimento.

Nada grave.

Só aquele tipo de trajeto que parece rápido no mapa e demorado na vida real.

Passamos por Juliaca, cidade já famosa entre viajantes pelo caos urbano e pelo trânsito bagunçado. Não por acaso, muitos a apelidam carinhosamente de Julinhaca.

E honestamente... entendemos o apelido.

Seguimos viagem até Puno, onde resolvemos almoçar. Encontramos um restaurante próximo ao porto que parecia promissor pelo preço e pelos pratos exibidos.

Era armadilha.

Eu, Renata e Isabel pedimos truta na chapa.
Edmar pediu paella.
André e Isaac escolheram arroz com frutos do mar — ou talvez o contrário, a memória já embaralha o cardápio.

Sentamos e esperamos.

Primeiro chegaram os pratos de André e Isaac. Depois veio o do Edmar. E os nossos... nada.

Esperamos mais. Mais quarenta e cinco minutos. Nada.

Quando completou aproximadamente uma hora, levantamos indignados, fomos embora sem comer e ainda reclamando em alto e bom tom.

O nome do estabelecimento era: Puerto Estación – Av. Del Puerto 362 – Puno. Fica aqui o registro histórico: fujam deste lugar.

Saímos de lá com fome, mau humor moderado e a certeza de que às vezes o maior risco de uma viagem não está nas montanhas, mas no restaurante escolhido.

Seguimos então para Desaguadero, margeando o Lago Titicaca.

O trajeto passa por uma longa sequência de pequenas cidades e povoados. A paisagem se tornava realmente bonita quando o lago aparecia ao lado, vasto e silencioso, lembrando de tempos em tempos que ainda estávamos em uma das regiões mais emblemáticas dos Andes.

Ao chegar em Desaguadero, abastecemos o carro e fomos procurar hospedagem.

Encontramos um hotel simples, colado na rodovia, sem charme algum, mas funcional para uma noite de descanso: Hostal El Sol.

Àquela altura da viagem, luxo significava cama razoável e porta que fechasse.

Fomos jantar em algum lugar próximo, voltamos e dormimos cedo.

No dia seguinte sairíamos cedo para buscar café da manhã, porque o hostal não oferecia nada.

Quase não tiramos fotos este dia.

IMG_20180110_100147974_HDR.jpg

IMG_20180110_120857807_BURST000_COVER_TOP.jpg

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Autor
  • Membros

17º Dia – 11/01/2018 - Desaguadero / Peru a Desaguadero / Bolívia a Uyuni – 620 Km
O dia em que viajamos dentro do caos

Olha o textão...

Neste dia já prevíamos algumas tretas, pois eu havia errado no planejamento e adiantado em um dia a saída de Cusco. Mal sabia eu que isso acabaria sendo providencial, porque o trajeto seria uma coleção quase ininterrupta de problemas.

Acordamos cedo para procurar café da manhã antes de cruzarmos para a Bolívia.

Às 7h30 da manhã não encontramos praticamente nada aberto. Seguimos então direto para a fronteira e às 8 horas demos saída nos passaportes.

Só que a saída do carro era em outro setor. E esse setor só abriria às 8h30.😭

Restou esperar.

Nesse meio-tempo até encontramos um lugar vendendo café da manhã, mas era no estilo peruano: algo muito mais próximo de um almoço para nós brasileiros. Compramos umas besteiras e fomos comendo dentro do carro mesmo.

Foi então que recebemos a notícia do dia: O Rally Dakar estaria em deslocamento pela cidade.

E pior: As estradas estariam bloqueadas.

Putz. O que fazer?

Às 8h30 finalmente abriu o setor de saída de veículos do Peru. Demos baixa na documentação e seguimos pela ponte sobre um braço do Lago Titicaca até a aduana boliviana.

Lá entramos na fila da migra, como eles chamam a imigração.

Preenchemos formulários, depois fomos ao setor da declaração jurada do carro — etapa fundamental. Sem esse documento, segundo nos disseram, o veículo poderia até ser apreendido sem chance de devolução.

Preenchi mais papelada, pediram cópias de documentos (feitas ali ao lado), e todos os passageiros ainda precisaram preencher outro formulário.

Apesar da fama de lentidão para entrar na Bolívia, ali levamos cerca de uma hora, o que até consideramos razoável.

O problema verdadeiro estava adiante.

Seguimos em direção à estrada e, como já sabíamos, tudo bloqueado.

Ficamos parados um bom tempo. De vez em quando passava uma moto do rally ou algum carro de apoio.

Começamos a pensar no pior:

Será que teríamos de dormir mais uma noite ali?

Enquanto aguardávamos, Isaac puxou conversa com um policial encarregado da barreira. Papo vai, papo vem, e sem pedir propina nenhuma, o guarda sugeriu uma solução quase cinematográfica:

Se colocássemos adesivos do Dakar no carro, alguma bandeira e esperássemos o momento certo, ele nos indicaria quando seguir junto com carros de apoio.

Saímos pela cidade caçando qualquer coisa relacionada ao rally.

Não achamos adesivos.

Mas encontramos bonés e uma bandeira. Pronto.

Improviso feito, bandeira presa no bagageiro, um boné comigo, outro com André e Isaac.

Depois de alguma espera surgiram dois carros de apoio das motos do rally entrando justamente pela rua onde estávamos.

O guarda fez sinal.

Entramos correndo nos carros e seguimos atrás deles.

André ia na frente e, a cada bloqueio, falava em inglês com os guardas. Como ninguém entendia direito, acabavam nos liberando.

Foi genial.

Como não queríamos passar por La Paz, para evitar o caos da cidade e novos bloqueios, desviamos por uma estrada de terra em Laja, seguindo para Viacha e retornando à Ruta 1 em Villa Remedios. Erro estratégico.

Era um trecho de estrada péssima, cheio de buracos e poeira, onde nos sentimos participantes do próprio Dakar.

Não vale a pena esse desvio.

Melhor seguir até La Paz e fazer vinte quilômetros a mais no asfalto.

Depois dessa fase, veio o alívio:

Pista dupla. Asfalto ótimo. Tudo parecia encaminhado para uma viagem tranquila até Uyuni.

Pensamos errado.

Ao chegar próximo de Oruro, havia uma fila gigantesca de caminhões e carros. Alguns motoristas já davam meia-volta e retornavam pela contramão.

Pensamos em acidente. Não era.

Tratava-se de uma greve em apoio aos médicos, por causa de medidas promulgadas pelo presidente Evo Morales.

Resultado: Mais bloqueios. Mais desvios.

Mais ruas de terra esburacadas em bairros que pareciam bombardeados, de tantas obras e destruição.

Saíamos para ruas laterais, retornávamos à rodovia, encontrávamos novo bloqueio, desviávamos outra vez.

Repetimos esse ritual várias vezes até finalmente escapar daquela zona de guerra urbana. Nem almoçamos.

Mais uma vez seguimos viagem com fome.

Depois disso, enfim, a estrada foi tranquila até Uyuni.

Chegando lá, fomos ao hotel e conseguimos adiantar a reserva que originalmente era para o dia seguinte.

André e Isaac não tiveram a mesma sorte e precisaram ficar em outro hotel, mais caro.

Mas ainda faltava o problema final do dia:

Não havia vaga de estacionamento para meu carro.

E como ele apresentava defeito na trava do bagageiro traseiro, que não fechava mais direito, eu não quis deixá-lo na rua.

Então montamos um esquema de cooperação viajante:

Deixei o carro na garagem do hotel onde André e Isaac estavam hospedados e dormi por lá com eles.

Crise resolvida.

Combinamos que no dia seguinte sairíamos cedo para procurar uma agência e fazer o tão esperado passeio de um dia pelo Salar de Uyuni.

Jantamos. Dormimos. E quase não tiramos fotos.

Nem dava tempo. Estávamos ocupados demais sobrevivendo ao roteiro.

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Autor
  • Membros

18º Dia – 12/01/2018 - Uyuni – 0 Km
O salar dos sonhos... e a Toyota rebelde

Mais um dos grandes dias dessa viagem.

Tomamos café da manhã e, por volta das 9 horas, já estávamos todos no centro de Uyuni em busca da melhor oferta para o tour de um dia pelo Salar. Conversa daqui, pergunta dali, comparação acolá, encontramos o melhor preço com a empresa Ripleys Tours — acredite se quiser kkkkk. Pagamos 140 bolivianos por pessoa, algo em torno de R$ 67,00 na época.

Às 11 horas, uma Toyota da empresa foi nos buscar nos hotéis e demos início ao passeio. A primeira parada foi o famoso cemitério de trens, e o local estava lotadíssimo. Confesso que nunca entendi muito bem o fascínio por aqueles vagões abandonados, enferrujando no meio do deserto e oferecendo mais risco de tétano do que poesia industrial. Mas é parada obrigatória em praticamente todos os roteiros, então fomos lá cumprir tabela turística.

Depois seguimos para a vila de Colchani, onde há lojas de artesanato de sal e todo tipo de lembrancinha possível. Também achei um lugar meio “pega turista”, mas faz parte do pacote. Foi justamente ali que começou uma chuva forte e repentina. Meu coração gelou. Pensei: pronto, estragou o passeio inteiro. Felizmente era apenas uma chuva típica de verão andino. Esperamos pouco mais de vinte minutos e, quando a água diminuiu, voltamos ao carro.

A partir dali começou o que realmente importava: entrar no salar.

Seguimos em comboio, acompanhando as Toyotas da frente, porque em alguns trechos a água estava bem alta — creio que acima da metade das rodas. A sensação de avançar por aquela imensidão branca alagada era surreal. Fomos primeiro aos chamados Olhos do Salar, pontos onde a água brota da crosta salgada. Bem ao lado formava-se um espelho d’água perfeito, e ali começamos a tirar centenas de fotos. O lugar estava simplesmente maravilhoso. Fiquei atordoado com a beleza. Era tudo aquilo que eu queria ter visto na viagem anterior e não consegui.

Depois seguimos para uma área seca, ideal para as famosas fotos de perspectiva forçada. Garrafinha gigante, gente esmagando amigo com o pé, poses impossíveis e risadas sem fim. Em seguida fomos ao monumento do Dakar, símbolo da passagem do rally pela região, e logo depois ao famoso hotel de sal, onde nos serviram o almoço. E diga-se: almoço muito bom.

Comida feita, retornamos ao salar para continuar a sessão infinita de fotos. O dia caminhava para ser absolutamente perfeito.

Mas aí veio o perrengue.

Já havíamos saído da área principal do salar e, exatamente quando passávamos por cima de um trilho de trem depois de Colchani, a Toyota simplesmente morreu. Apagou do nada. O motorista tentou ligar uma vez. Depois outra. Depois várias. Nada.

Nessa hora já bateu um certo susto. Descemos todos rapidamente e empurramos o carro para fora do trilho, porque ficar parado em cima da linha parecia uma péssima ideia. Levamos a Toyota até o lado de uma casa próxima e o motorista continuou tentando ressuscitar a máquina, sem sucesso.

Não teve jeito.

Ele precisou ligar para a empresa pedindo outro veículo.

Depois de uns vinte minutos chegou o resgate motorizado. Embarcamos no novo carro e retornamos a Uyuni, agora cansados, mas felizes demais com o que havíamos vivido.

À noite saímos para jantar, comentamos o dia inteiro como quem revive um sonho e depois fomos dormir.

Porque alguns lugares são tão impressionantes que até quando dão problema continuam inesquecíveis.

 

Editado por Marcelo Manente

  • Marcelo Manente changed the title to Expedição Andes por aí - Curitiba a Machu Picchu -10200 km de carro.
Postado
  • Autor
  • Membros

19º Dia – 13/01/2018 - Uyuni, Bolívia a Calama, Chile – 415 Km
Barro, Dakar e a longa travessia até o Chile

Acordamos cedo, tomamos café e ficamos aguardando André e Isaac chegarem do hotel onde haviam dormido. O plano era simples: abastecer, pegar a estrada e seguir rumo ao Chile.

Só que estávamos em dias de Rally Dakar, e nessa época nada era simples.

Fomos até o posto de gasolina na entrada de Uyuni, mas a rodovia estava interditada por causa da passagem do evento. Tivemos de praticamente pedir licença para atravessar a via bloqueada e conseguir abastecer. Para sair da cidade foi outro malabarismo: várias ruas fechadas, desvios improvisados e um pequeno labirinto urbano até finalmente alcançarmos a Ruta 5, que depois vira Ruta 701.

O trecho seguinte era o famoso caminho de 215 km de terra até a fronteira.

Rodávamos devagar porque havia chovido durante a noite e a pista estava marcada por trilhos de barro onde o ideal era manter o carro encaixado. Em certos momentos parecia que o carro seguia sozinho dentro daqueles sulcos.

Até que surgiu um caminhão no sentido contrário.

Ele vinha ocupando o espaço e não demonstrava nenhuma intenção de sair do caminho. Para evitar problema, precisei tirar o carro do trilho principal. Foi aí que tudo desandou. Ao lado havia um barro liso e traiçoeiro. Tentei corrigir, segurar no volante, manter a linha... mas o carro só escorregava. Em poucos segundos deslizou e foi parar em uma pequena depressão ao lado da estrada.

A famosa cena que todo viajante teme.

Nessas horas você sente falta de um 4x4.

E nessas mesmas horas você valoriza andar em comboio com outro carro — ainda mais quando esse outro carro está preparado e conduzido por amigos parceiros como André Luiz e Isaac Prates.

Obrigado, amigos.

Rapidamente me mandaram instalar o gancho dianteiro para poderem guinchar o Symbol. Edmar e Isabel saíram do carro. Renata preferiu ficar dentro para não enlamear ainda mais o tênis. O problema é que o gancho estava guardado debaixo do estepe. Ou seja: tive de esvaziar praticamente o porta-malas inteiro, por dentro do carro, em meio a bagunça.

Depois de uma pequena escavação arqueológica automotiva, encontrei a peça, rosqueei no carro e fomos ligar o cinto de reboque.

Só que o cinto não alcançava.

Ainda bem que eu havia levado uma corda trançada estilo caminhoneiro. Emendamos corda e cinta, fizemos a gambiarra oficial da expedição e puxaram o carro para fora.

Missão cumprida.

Quem saiu do carro voltou com uns dois quilos de barro grudados em cada pé. Depois de alguma limpeza improvisada, seguimos viagem.

O restante do trecho até a fronteira correu sem novos sustos. Chegamos por volta das 12h45 e demos de cara com uma placa devastadora:

Aduana fechada das 12h30 às 14h30.

E nós, para manter a tradição, sem comida no carro.

Restou esperar com fome e mau humor controlado.

Foi nessa longa espera que tivemos um episódio nada agradável dentro do carro. Enquanto eu estava do lado de fora aguardando, lá dentro ficaram Isabel, Renata e Edmar. A Renata lia um livro, enquanto a Isabel, sempre comunicativa, puxava conversa para passar o tempo. Em determinado momento, já sem paciência, a Renata disparou de forma bastante ríspida:

Será que dava pra parar de falar que eu estou lendo?!

O silêncio que veio depois pesou mais que qualquer altitude andina.

Isabel não respondeu nada. Apenas fechou a cara e se calou. Edmar reclamou imediatamente da falta de educação da Renata. O clima ficou péssimo dali em diante, daqueles que se sente mesmo sem ninguém dizer mais nada.

Só no dia seguinte, com os ânimos mais frios, a tensão se dissiparia.

Quando finalmente reabriu, demos baixa nos passaportes bolivianos mediante a tradicional “agilização informal” de 15 bolivianos. Mas o setor responsável pela saída do carro continuava fechado.

Só reabriu às 15 horas.🤬😡😤 ( E mal sabia eu que eles não deram baixa na saida do carro, anos mais tarde tive de pagar multa para pode entrar na Bolívia novamente).

Concluída a burocracia boliviana, seguimos para a imigração chilena. Lá o procedimento foi sério: mandaram retirar mochilas, malas e bagagens dos dois carros, fizeram revista completa e verificaram tudo com calma.

No total, levamos cerca de três horas para vencer as duas aduanas. Se tivéssemos chegado em horário normal, talvez uma hora bastasse.

Mas viagem longa também é feita dessas ironias.

A recompensa veio logo depois. A estrada chilena até Calama era toda asfaltada, lisa como tapete. E mais que isso: o visual compensava qualquer estresse. O trajeto entre Uyuni e Chile é belíssimo, com paisagens abertas e o imponente vulcão Ollagüe ao fundo, soltando suas eternas fumacinhas como se observasse silenciosamente a passagem dos viajantes.

Chegamos a Calama já cansados e resolvemos pernoitar ali mesmo.

Jantamos em uma lanchonete, encontramos um hotel chamado Juku, de bom custo-benefício, e fomos dormir.

Depois de um dia assim, cama simples vira suíte presidencial.

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Autor
  • Membros

Dia 20 – 14/01/2018
Calama a San Pedro de Atacama – 101 km
O retorno ao oásis e a paz depois das tormentas

Depois de tantos dias de estrada dura, fronteiras confusas e pequenos aborrecimentos, aquela manhã nasceu sem pressa. O trecho até San Pedro era curto, quase um descanso concedido pelo destino. Tomamos café calmamente, arrumamos as tralhas no carro e deixamos Calama para trás. Antes, abasteci o carro. Eu conhecia bem a famosa fila do posto escondido dentro de um hotel em San Pedro e não queria desperdiçar tempo precioso de liberdade esperando combustível.

A rodovia seguia seca e silenciosa, cercada pela vastidão mineral do deserto. Em certo ponto surgiu à margem da estrada uma capelinha erguida em memória de alguém que ali perdera a vida. Mas chamá-la de capelinha seria injustiça. Aquilo parecia um cenário inteiro construído para desafiar o esquecimento: quase do tamanho de uma pequena casa, adornada com flores artificiais, bancos, a lataria completa de um carro e uma fotografia enorme do falecido observando o horizonte. Parei para fotografar. No norte do Chile existe esse costume de homenagear os mortos nas rodovias, porém jamais eu havia visto algo tão grandioso. Era tristeza transformada em monumento.

Seguimos viagem e, aos poucos, começaram a surgir as cordilheiras de sal, primeiras sentinelas anunciando a chegada de San Pedro de Atacama. Paramos num mirante. O branco mineral das montanhas contrastava com o céu limpo e profundo, criando uma paisagem que parecia saída de outro planeta. Tiramos fotos, respiramos fundo e seguimos adiante.

Ao entrar na cidade, reencontramos aquele clima único de San Pedro: ruas de terra, casas baixas de adobe, mochileiros de todas as partes do mundo e a sensação constante de que o tempo ali anda em outro ritmo. Procuramos hospedagem e logo encontrei o Hostal Puritama, na continuação da rua Caracoles. Não era barato para os nossos padrões viajantes, mas os quartos eram excelentes, em estilo cabana, com banheiro privativo e ótima localização. Depois de tantos hotéis duvidosos, aquilo nos pareceu quase luxo.

Saímos então para passear pelo centrinho, rever lojinhas, fotografar cantos charmosos e simplesmente sentir a atmosfera do lugar. Na praça central escolhemos o Restaurante La Plaza. Vieram pratos generosos, saborosos, e duas jarras de Quilmes estupidamente geladas — algo quase sagrado naquele calor seco do deserto. Entre um gole e outro, a vida parecia enfim recompensar os perrengues recentes.

No fim da tarde fomos ao Vale de la Luna. Caminhamos entre cavernas de sal, formações rochosas esculpidas pelo vento e cenários tão áridos quanto belos. Quando chegou a hora do pôr do sol subimos à grande duna. Lá em cima havia gente do mundo inteiro esperando o mesmo espetáculo. E ele veio. O céu incendiou-se em tons de cobre, vermelho e violeta enquanto as sombras avançavam sobre o vale. Por alguns minutos, ninguém parecia falar alto. Até o turismo em massa se curvou diante da beleza.

Voltamos já de noite para o hotel. Compramos empanadas e uma garrafa de vinho e improvisamos nosso jantar nas mesas ao ar livre. Naquela refeição conversamos longamente sobre tudo o que havíamos vivido até ali: os sustos, os risos, as estradas intermináveis, as paisagens que pareciam sonho e os pequenos conflitos inevitáveis de tantos dias juntos. Cada lembrança arrancava novas histórias, e percebi que a viagem já começava a se transformar em memória mesmo antes de terminar.

Entre um gole e outro combinamos também o plano da manhã seguinte: eu, Edmar e Isabel iríamos cedo às Termas de Puritama, em busca de águas quentes e descanso merecido no coração do deserto. Só essa ideia já parecia um prêmio depois de tantos quilômetros rodados.

Depois do jantar, cada um seguiu seu rumo. Edmar saiu animado pela cidade em busca de alguma paquera. André e Isaac recolheram-se cedo. Renata partiu para seu tour astronômico, determinada a desvendar os céus do Atacama. Foi então que Isabel me convidou para tomar um vinho em seu quarto.

Sentamos, servimos as taças e começamos a conversar. O tempo passou sem pressa. Falamos da vida, dos caminhos que nos trouxeram até ali, das pessoas que fomos e das que talvez ainda seríamos. Havia no ar uma proximidade delicada, feita mais de silêncios e olhares do que de palavras. Mas eu hesitava.

Durante a viagem eu a ouvira dizer, em conversas com Renata, que não queria se envolver com ninguém, que homem era para usar e depois descartar. Aquilo batia de frente com minha natureza. Sempre fui do tipo que sente demais, que se entrega fácil, que se apega quando devia apenas sorrir e seguir adiante. Eu temia que um passo em falso transformasse encanto em ferida.

Assim seguimos naquele jogo manso de indiretas, risos contidos e frases que queriam dizer mais do que diziam. Quanto mais a noite avançava, mais crescia em mim a vontade de ficar — e mais forte também o instinto de fugir.

Depois de muito papo, levantei-me, despedi-me e voltei para o meu quarto. Caminhei sozinho pelo corredor carregando comigo aquela velha e perigosa sensação: a de que às vezes o coração quer justamente aquilo de que deveria escapar.

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Autor
  • Membros

Dia 21 – 15/01/2018
San Pedro de Atacama a Purmamarca – 412 Km

Como disse no último relato, pela manhã eu, a Isabel e o Edmar resolvemos ir às termas de Puritama. Para mim seria uma alegria a mais, visto que da última vez eu queria ir e fui voto vencido. Pegamos a estrada logo cedo para chegar às 8:30 h no máximo. São apenas 35 km, mas se sobe de 2400 m para 3600 m de altitude.

Chegando na entrada fiquei frustrado, pois só abriria às 9:15 h. Tivemos que esperar uns 20 minutos. O pior era que combinamos de sair de San Pedro ao meio-dia para seguirmos até Purmamarca, na Argentina.

Assim que abriu, entramos e estacionamos o carro a uns 500 metros das termas, pois só podia parar mais perto quem contratara pacote turístico. O preço foi de 15 mil pesos, algo em torno de 88 reais.

Na verdade eram piscinas naturais incrustadas num vale entre montanhas ásperas, de beleza quase irreal. Ao redor das águas brotavam grandes touceiras de pãina, altas e ondulantes, como plumas douradas sopradas pelo vento do altiplano. O verde vivo da vegetação contrastava com as pedras claras e o tom seco das encostas, criando um cenário que parecia pintado à mão.

Nós três nos esbaldamos na primeira piscina, que tinha agradáveis 32 graus. A Isabel e o Edmar ficaram por ali mesmo, entregues ao descanso e à contemplação. Eu, inquieto como sempre, fui avançando até a última, entrando em cada uma delas e tentando registrar em fotos aquilo que a câmera jamais conseguiria traduzir por completo.

Depois de percorrer todas as piscinas naturais, voltei para onde a Isabel estava. Ficamos ali nos divertindo, trocando risadas e lançando indiretas um ao outro, naquele jogo leve e provocador que às vezes vale mais do que qualquer declaração aberta.

Voltamos para a cidade e o restante do grupo já nos esperava. Compramos algumas empanadas, refrigerantes e coisas para beliscar, e pegamos a estrada. Assim que se sai de San Pedro começa uma longa subida até 4480 m, sem descanso para o carro. O Symbol estava com um problema no marcador de temperatura e o ponteiro oscilava como se fosse ferver a qualquer instante. Por isso fui bem devagar, a uns 40 km/h, enquanto o André e seu filho seguiram na frente. De tempos em tempos eles paravam para me esperar.

Passamos pela entrada da Bolívia, no Paso Hito Cajón, que leva à Reserva Eduardo Avaroa, depois pelas formações dos Monges de Pacana, pelo Salar de Tara e finalmente atingimos a segunda maior altitude da viagem: 4839 metros. Chegamos à aduana, fizemos os trâmites e a revista do carro, bem tranquila, e seguimos viagem.

Muitos quilômetros adiante passamos pelo Salar Salinas Grandes, que também tinha uma lâmina d’água refletindo o céu de um dos lados da estrada. Pena que, quando estávamos para ver a Cuesta del Lipán e suas incontáveis curvas, entramos numa neblina espessa que nos acompanhou até perto de Purmamarca.

Chegando à cidade não achávamos hotel com estacionamento por um preço compatível com nossos bolsos. O André e o Isaac acharam um com garagem, mas nós quatro preferimos ficar em outro e deixar o carro praticamente diante do quarto, embora na rua. Hotel Killari, recomendo.

Depois de um bom banho saímos para jantar e voltamos ao hotel. Combinamos de fazer o Paseo de los Colorados e subir em alguns morros para fotografar a cidade no dia seguinte.

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Autor
  • Membros

Dia 22 – 16/01/2018
Purmamarca a Salta – 155 Km (via La Cornisa)

Acordamos cedo para aproveitar as últimas horas naquele cenário de sonho e fomos fazer o Paseo de los Colorados. É uma caminhada de cerca de 3 km ao redor do Cerro de los Siete Colores, tranquila de percorrer e de uma beleza constante, dessas que obrigam a parar a todo instante para fotografar ou apenas admirar. Num ritmo manso, entre fotos e comentários, completamos o trajeto em cerca de uma hora e meia.

Na noite anterior já havia ficado decidido que não passaríamos mais um dia inteiro em Purmamarca. Eu, sinceramente, queria ficar. Lugares assim têm algo que prende a gente sem explicar direito. Mas viagem em grupo é sempre feita de vontades compartilhadas, então seguimos o combinado.

Depois da caminhada já emendamos a subida do morro que oferece a visão privilegiada da montanha colorida e da pequena vila aos seus pés. Fomos devagar, encarando o aclive sob o sol da manhã. No primeiro tope, André, Isaac e Renata resolveram parar por ali, achando o restante arriscado demais. Eu, a Isabel e o Edmar seguimos adiante mais um bom trecho. Lá de cima, a recompensa veio generosa: Purmamarca parecia uma miniatura viva, encaixada entre montanhas pintadas por mãos divinas.

Descemos satisfeitos, demos mais uma volta pelas barracas de artesanato e voltamos ao hotel para o check-out. Com as tralhas guardadas no carro, ainda sobrou tempo para mais um giro pelas lojas antes do almoço. Escolhemos o Kuntur Resto Bar, um lugar muito agradável, com música ao vivo e mesas ao ar livre sob árvores de galhos caídos, lembrando salgueiros-chorões. Almoçamos sem pressa, como quem tentava adiar a despedida.

Depois pegamos os carros e seguimos rumo a Salta pela estrada antiga conhecida como La Cornisa. Uma via estreita, sinuosa, onde em alguns pontos parece passar apenas um carro por vez. Em compensação, é linda. Mata fechada, paredões úmidos, curvas dramáticas e aquela sensação boa de estar atravessando um caminho antigo, cheio de histórias. A lentidão imposta pela estrada — em muitos trechos não passávamos de 40 km/h — acabava sendo um convite para contemplar.

Chegamos a Salta já no fim do dia. Pesquisando pelo Booking encontramos um hotel de excelente custo-benefício. Para nossos padrões mochileiros, era praticamente luxo: o Patios de Lerma, elegante, confortável e ainda com duas piscinas de hidromassagem na cobertura, que aproveitaríamos no dia seguinte.

Saímos a pé para sentir a cidade. Caminhamos pelo centro iluminado, jantamos tranquilamente e voltamos para dormir. Naquela noite a Isabel surgiu usando um vestido pela primeira vez em toda a viagem, deixando as costas à mostra. Eu fui logo atrás do grupo, em silêncio e sorrindo sozinho, apenas admirando a cena e agradecendo intimamente aos deuses da estrada. Hehehe.

Depois de tantos desertos, montanhas e estradas improváveis, Salta nos recebeu com jeito de recompensa.

Editado por Marcelo Manente

Postado
  • Colaboradores

Xexelo, boa noite! Que relato extraordinário.

Como vocês fizeram na questão do dinheiro gasto nos países visitados?

 

Antonio Carlos

Postado
  • Autor
  • Membros
Em 16/02/2018 em 20:52, antoniocalves disse:

Xexelo, boa noite! Que relato extraordinário.

Como vocês fizeram na questão do dinheiro gasto nos países visitados?

Antonio Carlos

Ola Antonio, obrigado.

Eu e o pessoal preferimos levar Reais e Dólares para ir trocando aos poucos. O Edmar tinha ido até o Paraguai uma semana antes da viagem e se deu bem, lá ele trocou reais por dolar, soles e peso argentino e garantiu taxas melhores, principalmente nos soles peruanos que ele conseguiu 1 por 1.

Eu usei umas duas ou três vezes o cartão para sacar pois não levei reais e dólares suficientes. O gasto total foi de mais ou menos R$ 6000,00 por pessoa. Mas eu não sou de anotar as coisas por isso não tenho certeza. Pode ser um pouco mais ou menos. Lembrando que disso, 900 reais é só para Machu Picchu ::dãã2::.

A cada país que chegávamos fazíamos o câmbio. Alguns lugares era bom, como na fronteira da Argentina com o Brasil onde conseguimos 1 por 5.55 pesos argentinos e outros ruins, como no Atacama onde conseguimos 1 por 172 pesos Chilenos.

 

Abraço.

Participe da conversa

Você pode postar agora e se cadastrar mais tarde. Se você tem uma conta, faça o login para postar com sua conta.

Visitante
Responder

Conteúdo Similar

Account

Navigation

Pesquisar

Pesquisar

Configure browser push notifications

Chrome (Android)
  1. Tap the lock icon next to the address bar.
  2. Tap Permissions → Notifications.
  3. Adjust your preference.
Chrome (Desktop)
  1. Click the padlock icon in the address bar.
  2. Select Site settings.
  3. Find Notifications and adjust your preference.