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Olá viajante!

Bora viajar?

Expedição Andes por aí - Curitiba a Machu Picchu -10200 km de Renault Symbol.

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A viagem antes da viagem

Meu nome é Marcelo e, naquele fim de 2017, eu estava prestes a embarcar em uma aventura que por meses existiu apenas na cabeça, nos mapas e nas conversas de garagem.

O destino final era daqueles que soam quase míticos quando pronunciados em voz alta: Machu Picchu.

Mas chegar até lá exigiria bem mais do que apontar o carro para o norte. Eu seguiria de Curitiba acompanhado de três parceiros de jornada — Edmar, Renata e Isabel — atravessando cinco países, cruzando fronteiras, altitudes, desertos e expectativas. O plano era ousado: sair em 26 de dezembro de 2017 e retornar apenas em 24 de janeiro de 2018, após trinta dias de estrada pela Argentina, Chile, Bolívia e Peru.

Nos levaria um guerreiro improvável: meu Renault Symbol 1.6, ano 2013. Sem glamour, sem pose de aventureiro profissional, sem patrocínio. Apenas honestidade mecânica, porta-malas valente e coragem compartilhada.

Desde junho eu vinha me preparando. Revisões, manutenções, melhorias, equipamentos extras, listas e mais listas. Cada parafuso apertado parecia dizer que o sonho estava ficando sério. Também providenciei aquilo que ninguém posta em foto, mas salva viagens: seguros de saúde, Carta Verde e SOAPEX para o Chile.

Enquanto muita gente imagina que aventura começa quando o motor liga, eu aprendi outra coisa: a verdadeira viagem começa quando alguém troca o “seria legal” pelo “eu vou”.

E agora faltavam poucos dias.

Nesta etapa os custos foram estes:

Seguro Carta Verde= R$ 60,00 para 30 dias (só Argentina) pela Seguros Proteges, de São Borja-RS.

Seguro Soapex do Chile= R$ 34,00 para 12 dias pela internet.

Seguro de saúde= R$ 252,00 para cada, pela Assist Card por intermédio do site SegurosPromo . com . br.

Troca de óleo, filtro do óleo, filtro de combustível, filtro do ar condicionado e filtro de ar = R$ 205,00

Então o custo inicial (fora a troca de peças na revisão) é de R$ 551,00

A seguir vou detalhar o roteiro pretendido.

 

 

Editado por Marcelo Manente

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Dia 23 – 17/01/2018
Dia de descanso em Salta

Dia de descanso. Depois de tantos quilômetros rodados, curvas, fronteiras e madrugadas na estrada, enfim teríamos um dia apenas para bater perna e deixar o corpo respirar. Tomamos o café da manhã do hotel — um dos melhores de toda a viagem — e seguimos para o centro da cidade para conhecer o famoso Museu de Alta Montanha.

O museu é excelente, moderno e muito bem organizado. Naquele dia a múmia em exibição era A Donzela, a mais bem conservada das três encontradas. Tivemos sorte, pois existe um revezamento entre elas justamente para evitar desgaste. A visão impressiona profundamente: o rosto sereno, os traços preservados, a aparência tranquila de quem apenas dorme. É algo que mistura fascínio histórico e um certo silêncio respeitoso.

Depois dessa visita seguimos caminhando pelo centro histórico. Entramos em igrejas, cruzamos praças arborizadas, observamos fachadas antigas e o movimento tranquilo de Salta. É uma cidade bonita de se percorrer a pé, dessas que entregam detalhes aos poucos.

Na hora do almoço o grupo se espalhou. Uns queriam comer em determinado lugar, outros preferiram voltar ao hotel. Eu e a Renata resolvemos procurar algo por conta própria e acabamos entrando num restaurante bem simples ao lado do hotel mesmo. A comida era apenas comível, daquelas refeições sem alma, feitas só para matar a fome e seguir adiante.

À tarde o tempo começou a ameaçar chuva. Eu, o Edmar e a Isabel decidimos então aproveitar as hidromassagens que havia na cobertura do hotel. Eram pequenas, quase feitas para apenas duas pessoas. Quando cheguei, a Isabel até me convidou para entrar junto com ela e o Edmar, mas eu ainda receoso, sem saber bem como lidar com aquele jogo de aproximações, preferi ficar na outra banheira.

Mesmo separados por poucos metros, conversamos longamente outra vez. Entre brincadeiras, comentários soltos e olhares que diziam mais que frases inteiras, a tarde foi passando devagar. Mais tarde André e Isaac apareceram para fazer companhia. A Renata preferiu descansar no quarto.

Foi uma tarde preguiçosa e merecida. Ficamos ali lagarteando na água quente, conversando bobagens e sentindo, talvez pela primeira vez na viagem, que não precisávamos correr para lugar nenhum.

À noite, o Edmar mais uma vez saiu para paquerar pela cidade. Renata e Isabel preferiram ficar no hotel. Eu até as convidei para ir junto conosco, mas recusaram. Talvez a Isabel estivesse um pouco chateada, pois mais cedo eu comentara com ela que havia achado a recepcionista do hotel muito bonita — uma manobra diversionista da minha parte, dessas feitas para despistar o coração e confundir a cabeça.

Eu saí com André e Isaac para jantar no Patio Ameghino, na mesma rua do hotel, duas quadras abaixo. O lugar funcionava como uma espécie de praça de alimentação charmosa: vários restaurantes reunidos no mesmo espaço. Você escolhia o prato em diferentes cardápios e o garçom buscava cada pedido. Pedi uma parrilla, e acertei em cheio.

Foi então que, em meio à carne fumegante e ao papo solto da mesa, chegou no celular um vídeo das duas no hotel. Renata e Isabel dançavam, riam e faziam graça como quem manda um recado sem escrever palavra alguma. Uma provocação bem-humorada, dessas que misturam ciúme, brincadeira e vontade de ser lembrada. Ri sozinho olhando a tela. Algumas mensagens vêm em silêncio, outras vêm dançando em cima da cama.

Salta nos ofereceu exatamente o que precisávamos naquele momento: descanso, conforto e um raro luxo chamado calma.

Editado por Marcelo Manente

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Dia 24 – 18/01/2018 - Salta a Cachi a Cafayate – 320 km
Entre neblinas, cardones e pedras que parecem navegar

Acordamos cedo, aproveitamos mais uma vez aquele excelente café da manhã do hotel e tratamos de acomodar as tralhas nos carros. O plano era ambicioso e sedutor: cruzar paisagens famosas do noroeste argentino até chegar a Cafayate. Saímos de Salta com o céu fechado e logo entramos na estrada rumo a Cachi, que prometia vistas espetaculares entre montanhas e florestas.

Prometia.

A chuva caiu fina no começo, depois mais firme, e conforme subíamos a Cuesta del Obispo a neblina foi engolindo tudo ao redor. O trecho de serra, que dizem ser um dos mais bonitos da região, virou um corredor branco onde mal se via a curva seguinte. Seguimos atentos, devagar, atravessando cerca de vinte quilômetros de terra úmida até reencontrar o asfalto. Naquele momento a paisagem era puro mistério — existia, mas se recusava a se mostrar.

E então, como num passe de mágica, ao alcançar o alto e entrar no Vale Calchaquí, as nuvens ficaram para trás.

O mundo se abriu em luz. Surgiu diante de nós o Parque Nacional Los Cardones, uma imensidão silenciosa tomada por milhares de cactos. Havia cardones por toda parte, em pé como sentinelas antigas, alguns finos e retos, outros tortos, outros enormes, todos espalhados até onde a vista alcançava. Era como atravessar um exército vegetal plantado no meio do nada. Parávamos a todo instante para fotografar, incapazes de seguir adiante sem guardar um pouco daquela estranheza magnífica.

Antes de chegarmos a Payogasta cruzamos a famosa Recta de Tintin, uma reta quase surreal riscando a paisagem andina. Ali parecíamos cercados de cactos por todos os lados, como se estivéssemos avançando lentamente por um mar verde de espinhos silenciosos. A estrada seguia firme adiante e nós, pequenos diante daquela vastidão.

Ao fim do parque chegamos à pequena Payogasta, quase uma pausa no mapa. Ali já apareciam os primeiros sinais do vinho da região. Soubemos que dali vinha um dos vinhos cultivados em maior altitude do mundo, plantado a 3.111 metros. Na Argentina custava algo perto de 300 reais — preço de relíquia líquida.

Seguimos até Cachi, cidade simpática, branca e tranquila, daquelas que parecem convidar o viajante a ficar mais do que o planejado. Almoçamos no restaurante Viracocha, bonito e acolhedor, com comida excelente. O almoço só entrou para a história por um detalhe involuntário: a Isabel encontrou um parafuso no prato. Provavelmente havia se soltado da tampa de alguma panela. Entre o espanto e a gargalhada geral, ao menos ela não precisou pagar a conta.

Depois de Cachi o asfalto termina e começa novamente a poeira. E que poeira. A estrada segue longa, seca e monótona por um tempo, até que a natureza resolve compensar tudo de uma vez. Aos poucos surgem as formações da Quebrada de las Flechas, um cenário tão estranho quanto hipnotizante. Rochas finas, inclinadas, pontudas, alinhadas como se fossem ondas petrificadas ou velas de navios encalhados no deserto. Um lugar de beleza quase extraterrestre. Paramos muitas vezes, sem pressa, apenas admirando.

Já no fim do dia chegamos a Cafayate, terra de vinhos e calor. Como a intenção era economizar para gastar em garrafas, escolhemos o hotel mais barato que encontramos: duzentos pesos a noite. Bem simples, quase no limite da honestidade, mas tinha cama, banho e café da manhã — o suficiente para quem viajava com espírito esportivo.

À noite saímos para jantar. Na praça central escolhemos um restaurante que possuía uma pequena fábrica de cerveja artesanal dentro do salão. A ideia parecia excelente. Pedimos empanadas, provamos as cervejas da casa e... infelizmente eram ruins de dar dó. Daquelas que fazem a pessoa olhar o copo e pensar onde tudo deu errado.

Rimos bastante, terminamos a noite do jeito que se terminam as boas viagens: cansados, satisfeitos e já curiosos pelo dia seguinte.

 Expedição Andes por Aí - Dia 25 – 19/01/2018
Cafayate – 100 km
Entre vinhos, nuvens e afinidades

Acordamos e fomos tomar o café da manhã que, como já era esperado pelo padrão do hotel, era bem fraquinho. Nada que atrapalhasse, afinal o dia prometia — e já tinha sido combinado na noite anterior que começaríamos pelo Museu do Vinho.

Seguimos até lá, pagamos a entrada (valor que se perdeu na memória) e entramos. O museu surpreende: extremamente moderno, com uma proposta interativa cheia de telas, projeções e ambientes sensoriais. Em um dos espaços, o chão simula água correndo, criando uma imersão bem interessante. Há também uma maquete de Cafayate onde projetam o nascer e o pôr do sol ao fundo, um detalhe simples, mas muito bem feito. A exposição conta a história da vitivinicultura na região de forma envolvente. Eu e a Isabel, cada vez mais em sintonia, conversávamos sobre os vinhos que gostávamos enquanto percorríamos as salas — como se o ambiente conspirasse a favor daquela conexão.

Saindo dali fomos direto para a primeira vinícola: a Quara, escolhida estrategicamente por oferecer visita guiada gratuita. Chegamos no momento certo e já nos juntamos a um grupo que estava iniciando o tour. Aprender o processo de fabricação do vinho é sempre interessante, mas sejamos honestos: o ponto alto são as degustações. E ali tivemos uma boa surpresa — os vinhos estavam entre os mais baratos da cidade, cerca de 65 pesos.

Depois disso, seguimos praticamente em modo “maratona enológica”. Visitamos várias vinícolas ao longo do dia. Como muitas cobravam pelas visitas guiadas, adotamos uma estratégia simples e eficiente: degustar, fotografar e seguir para a próxima. Voltamos ao centro para almoçar na praça principal e depois retomamos o circuito.

O tempo, porém, não ajudava. O céu permaneceu nublado e cinzento durante todo o dia, o que prejudicou um pouco as fotos — Cafayate, com sol, costuma ser ainda mais vibrante. A última parada foi na vinícola La Vasija Secreta, logo na entrada da cidade, fechando o roteiro com chave tranquila.

Uma curiosidade que só descobriríamos no último dia de viagem: os vinhos estavam ainda mais baratos em Bernardo de Irigoyen, já na fronteira com o Brasil. Chegamos a pagar cerca de 8 reais por garrafas que, no Paraná, custariam 30% a 40% mais caro — reflexo direto dos impostos elevados sobre vinhos importados.

À noite fomos a uma parrillada indicada por um garçom da cervejaria do dia anterior. Mais uma vez sentamos juntos, rimos, conversamos, e aquele clima leve de fim de viagem começava a se instalar. Como se o destino ainda quisesse nos presentear, descobrimos uma festa de vinho caseiro acontecendo quase ao lado do hotel. Dezenas de pequenos produtores oferecendo suas criações, servindo degustações generosas e mantendo viva a essência mais simples e autêntica da cultura local.

Ali, entre copos, risadas e conversas soltas, a viagem começava a se despedir.

Na prática, aquele foi o último dia com atrações. Os próximos seriam apenas de estrada. Ainda tentamos encaixar mais alguma coisa no roteiro final, mas a chuva tratou de encerrar qualquer plano alternativo.

Fomos dormir cedo.

No dia seguinte, a estrada nos chamaria de volta para casa.

Editado por Marcelo Manente

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Expedição Andes por Aí -

Dia 26 – 20/01/18 - Cafayate a Charata – 718 km
Quando o retorno também exige coragem

Dias finais da viagem. Depois de tantos cenários grandiosos, aventuras improváveis e histórias acumuladas, chegava a hora inevitável de apontar o carro para casa. Toda grande jornada tem esse momento agridoce: o corpo já sente o cansaço, mas a alma ainda queria seguir estrada adentro.

Acordamos cedo, pois a pernada seria longa. Tomamos café, acomodamos as tralhas no carro e caímos na ruta 40. Os primeiros quilômetros ainda nos brindaram com a beleza generosa do vale de Cafayate. Vinhedos, montanhas recortadas e aquela luz seca do norte argentino nos acompanhavam como uma despedida elegante.

Seguimos até Amaicha del Valle, cidade que eu e o Edmar já conhecíamos da viagem anterior. Dali a estrada volta a subir a pré-cordilheira, serpenteando entre paisagens ásperas e belas, até alcançar Tafí del Valle, pequena joia incrustada nas montanhas, repousando ao lado de um lago como se tivesse sido pintada à mão.

Depois veio a descida da serra. Uma longa sucessão de curvas estreitas cortando uma floresta inesperada, úmida e verde, contraste absoluto com os cenários áridos que vínhamos atravessando havia dias. Centenas de curvas depois, chegamos enfim à planície do norte argentino.

Foi ali que a tecnologia resolveu nos testar.

O André e o Isaac, que vinham à frente, seguiram o que mandava o GPS deles. O caminho era diferente do meu aparelho e também diferente do trajeto que eu havia feito em viagem anterior. Resultado: uma roubada clássica. Além de mais longo, o desvio nos presenteou com estradas esburacadas, trechos lentos e, para coroar a obra, cerca de trinta quilômetros de terra e poeira. Daquela poeira insistente que entra no carro fechado, gruda na pele e faz a gente mastigar barro sem querer.

Quando finalmente voltamos à ruta correta, eu imaginava que o pior havia passado.

Ingenuidade minha.

Logo notamos várias regiões alagadas e com muito barro na estrada. Depois soubemos que havia chovido muitos dias naquela região, com enchentes e transtornos em diversas áreas. A paisagem tranquila escondia armadilhas úmidas prontas para pegar qualquer desatento.

Eu já estava apertado para fazer o famoso “número 1”, mas o próximo posto ainda parecia distante. Avisei o André que, assim que encontrasse um lugar seguro para encostar, faria uma parada estratégica. Mais adiante surgiu uma entrada de fazenda. Parecia firme, seca, confiável. Parecia.

Assim que saí do asfalto o carro começou a deslizar de lado. Na mesma hora pensei: “de novo não...”

De novo sim......

Não consegui retomar a tração e o carro atolou mais uma vez. Para ajudar, o André entrou com o Jeep para socorrer e também começou a escorregar. Mesmo com 4x4, o barro queria vencer todo mundo naquele dia. Tivemos de empurrar lateralmente o carro dele para que voltasse ao asfalto e pudesse iniciar a operação resgate.

Mandei o Edmar correr para longe e sinalizar a estrada, porque o Jeep precisou ficar parcialmente parado na pista para me puxar. Em segundos engatamos o cabo de reboque, organizamos tudo na correria e, felizmente, poucos instantes depois meu carro estava de volta ao asfalto, livre da armadilha lamacenta.

O Edmar voltou correndo, soltamos os cabos e partimos sem trocar muitas palavras. Às vezes o silêncio é só respeito ao ridículo da situação.

Depois daquele episódio, decidi solenemente não parar mais em acostamento nenhum até segunda ordem. Se fosse preciso, chegaria em Charata em estado de emergência fisiológica.

Seguimos viagem sem novos sustos até finalmente alcançar a cidade de Charata. Lá encontramos um hotel bom, embora nada barato. Tomamos banho, jantamos e dormimos cedo. O corpo já pedia repouso, e a estrada do dia seguinte ainda nos aguardava.

Nos últimos dias de uma viagem assim, a gente descobre que voltar também é uma aventura.

Expedição Andes por Aí - Dia 27 – 21/01/2018
Charata a San Ignacio Mini – 667 km
Despedidas, piscina e promessas no ar

Mais um dia essencialmente de estrada. Depois de tantas montanhas, desertos e cenários improváveis, agora o roteiro era feito de retas longas, postos de gasolina e cidades passando pela janela. Era o tipo de etapa em que a mente viaja mais do que o carro.

A única parada estratégica aconteceu em Corrientes, no Banco da Patagônia, onde precisei sacar alguns pesos porque a grana já andava curta. Para quem viaja pela Argentina com cartão Mastercard, sempre considerei esse banco uma das melhores opções para saque. Nos dias finais da jornada, cada nota retirada parecia render o dobro.

Mas o grande fato daquele dia não tinha relação com dinheiro nem com quilômetros.

Era dia de despedida.

Na saída de Posadas nos separaríamos do André e de seu filho Isaac, companheiros desde o segundo dia de viagem. Cruzamos fronteiras, enfrentamos poeira, barro, aduanas, panes, desvios e maravilhas naturais lado a lado. Depois de tanto tempo dividindo estrada, já parecíamos uma pequena caravana familiar.

O André, com seu vozeirão inconfundível e jeito autoritário e pragmático, era também uma figura simples e solícita quando a situação apertava. Quantas vezes resolveu pepinos com a naturalidade de quem nasceu pronto para isso. O Isaac seguia tranquilo, sempre equilibrado, e suas dicas certeiras pelo rádio walk talk muitas vezes nos salvaram de erros e desencontros.

Eles tomariam rumo a Foz do Iguaçu. Nós seguiríamos para San Ignacio. Nos despedimos ali mesmo, entre carros estacionados e clima agridoce. Quando retomamos a viagem, sentimos falta quase imediata das conversas pelo rádio. O silêncio no carro parecia estranho, como se faltasse uma peça importante na engrenagem daqueles dias.

Chegamos a San Ignacio e começamos a procurar hospedagem. Logo encontramos indicação do SIHOSTEL - Adventure San Ignacio, um hostel muito bem estruturado e com uma bela piscina. Bastou olhar para decidir.

A tarde estava nublada e nem tão quente assim, mas como a viagem já dava sinais de despedida resolvemos aproveitar. Fomos para a piscina eu, o Edmar e a Renata. A Isabel, friorenta como sempre, disse que não entraria. Ficou olhando de longe, enrolada em suas convicções térmicas.

Durou pouco.

Depois de ver nossa animação, desapareceu por alguns minutos e voltou usando um biquíni lindo, pronta para se juntar a nós. A água pareceu até esquentar. Tiramos muitas fotos dos quatro juntos, rindo daquela alegria simples de fim de tarde.

Em certo momento ela ficou segurando a borda da piscina e batendo pernas. Perguntei se sabia nadar. Disse que não. Imediatamente me ofereci para ensinar. Coloquei meus braços sob seu corpo para que pudesse praticar as braçadas parada, flutuando. Foi uma cena inocente por fora e perigosíssima por dentro. Eu tentava parecer professor, mas o coração sabia que era aluno.

Quando anoiteceu, a realidade financeira bateu à porta: estávamos todos meio quebrados. A Renata, claramente incorporando o espírito de cupido, sugeriu que eu e a Isabel fôssemos comprar coisas para preparar a janta.

Saímos nós dois pelas ruas da cidade, conversando sem pressa. As indiretas, que há dias circulavam discretas, já começavam a se tornar quase diretas. Compramos macarrão, molho, uma lata de milho errada, um vinho bem fuleiro e mais algumas bugigangas culinárias.

Voltamos ao hostel e fizemos uma macarronada na cozinha comunitária. Jantamos entre risadas, bebemos o vinho barato e ruim, depois ainda atacamos um licor que eu havia comprado em algum ponto da viagem. O clima estava leve, divertido, e eu e a Isabel seguíamos naquele duelo silencioso de provocações e sorrisos, enquanto o Edmar e a Renata se divertiam jogando lenha na fogueira.

Depois da janta fomos dormir.

O último dia estava chegando. E às vezes o fim de uma viagem começa justamente quando algo novo parece prestes a começar.

Expedição Andes por Aí - Dia 28 – 22/01/2018
San Ignacio a Ponta Grossa e Curitiba – 848 km
Toda estrada termina, toda memória continua

Acordamos cedo, pois ainda nos esperava uma bela pernada até o Paraná. A ideia inicial era visitar as famosas ruínas de San Ignacio Mini antes de seguir viagem, uma despedida cultural elegante para encerrar a aventura. Mas o dia amanheceu chovendo, cinzento e pouco convidativo. Depois de alguns minutos de indecisão, vencemos pela praticidade: arrumamos as tralhas no carro e resolvemos partir direto.

Nem sempre o último dia permite romantismos.

Na fronteira, porém, ainda cedemos a uma última tentação argentina: comprar mais alguns vinhos. Perdemos uns quarenta e cinco minutos entre garrafas, contas mentais e aquela sensação clássica de quem já está indo embora, mas ainda quer levar um pedaço do país no porta-malas.

Depois disso demos saída da Argentina e seguimos rumo ao Brasil.

A estrada correu longa, cansativa e silenciosa em alguns trechos. Era diferente dos primeiros dias, quando tudo era expectativa. Agora havia cansaço no corpo, poeira invisível na alma e uma coleção de histórias ainda frescas na cabeça. Chegamos a Ponta Grossa por volta das 20 horas.

Ali começaram as despedidas finais.

Primeiro deixei a Isabel em seu apartamento. Nos despedimos com um abraço longo e apertado, daqueles que dizem muito sem precisar de palavra alguma. Havia promessas escondidas nas entrelinhas, perguntas ainda sem resposta e uma vontade nítida de que aquilo não terminasse ali.

Depois seguimos para deixar o Edmar em sua casa. Mais um grande abraço, sincero e cheio da cumplicidade de quem dividiu milhares de quilômetros, hotéis improváveis, sustos mecânicos, risadas e memórias que já nasciam lendárias.

Então segui viagem apenas com a Renata para Curitiba.

No caminho, agora só nós dois no carro e sem plateia, resolvi perguntar de uma vez o que havia pairado no ar durante tantos dias: a Isabel estava mesmo a fim de mim ou tudo aquilo era apenas brincadeira?

A Renata respondeu sem rodeios. Disse que a Isabel estava muito interessada e que, de certa forma, havia ficado decepcionada por eu não ter chegado mais junto.

Naquele instante pensei: por que não?

Chegamos em Curitiba por volta das 22 horas. Despedi-me da Renata em frente ao seu apartamento no centro e segui os últimos quilômetros sozinho. Quando finalmente parei o carro em casa, depois de 10.200 km, senti aquele misto estranho de exaustão e vazio que só grandes viagens provocam.

Entrei em casa diferente de como havia saído.

Foi uma viagem maravilhosa, vivida ao lado de pessoas queridas que jamais esquecerei. Conheci lugares sonhados por anos, culturas diferentes e por vezes exóticas. Passamos por perrengues, pequenas brigas, reconciliações, fome, raiva, barro, altitude, panes e sustos. Mas passamos também por algo maior: o deslumbramento de ver com os próprios olhos lugares paradisíacos que antes existiam apenas na imaginação.

Tudo isso ficou gravado para sempre em minha memória — e na memória de quem esteve junto.

E quanto à próxima viagem?

Ah... essa já começava a ser planejada antes mesmo de eu desligar o motor.

Editado por Marcelo Manente

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Xexelo, boa noite!

Mais uma pergunta.

Que chip de celular vocês usaram na Argentina e Chile.

Antonio Carlos

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O que fica quando a estrada termina?

Toda grande viagem termina duas vezes: primeiro quando se encosta o carro na garagem, depois quando a saudade começa. A Expedição Andes por Aí acabou oficialmente naquela noite em que voltei para casa depois de 10.200 quilômetros rodados, mas, na verdade, ela continuou viva dentro de mim por muito tempo — e continua até hoje.

Foram dias intensos, costurados por estradas improváveis, altitudes absurdas, cidades caóticas, desertos silenciosos, montanhas gigantescas e paisagens que pareciam inventadas por algum artista exagerado. Dormimos em hotéis simples, outros surpreendentemente bons, enfrentamos poeira, barro, fome, fronteiras lentas, desencontros, sustos mecânicos e os inevitáveis atritos que nascem quando pessoas convivem por tantos dias espremidas entre bancos de carro e expectativas diferentes. Ainda assim, nada disso diminuiu a beleza do percurso; pelo contrário, deu a ele verdade.

Porque viajar de verdade não é colecionar cartões-postais. É rir no meio do problema. É empurrar carro atolado gargalhando. É dividir um prato quando a comida atrasa demais. É aprender a esperar, a ceder, a observar. É descobrir que o mundo é imenso, variado, às vezes confuso, e ao mesmo tempo incrivelmente acolhedor.

Também ficaram as pessoas. Cada uma com seu jeito, suas manias, seus silêncios e exageros. Em viagens assim, os companheiros deixam de ser apenas companhia: viram parte da paisagem emocional da jornada. Quando lembro de Machu Picchu, lembro dos rostos ao meu lado. Quando lembro do Salar, lembro das risadas. Quando lembro das longas retas e curvas intermináveis, lembro das conversas no rádio, das provocações, dos planos improvisados e das emoções que iam surgindo sem pedir licença.

Voltei diferente. Um pouco mais cansado, certamente. Um pouco mais pobre também. Mas muito mais rico de mundo. Descobri que coragem nem sempre é fazer algo grandioso; às vezes é só ligar o carro cedo e seguir adiante, mesmo sem saber direito como será o caminho.

E se existe uma lição final dessa aventura, talvez seja simples: a vida recompensa quem se move.

Como disse Jack Kerouac: “Porque no fim das contas, você não vai lembrar do tempo que passou trabalhando no escritório ou cortando a grama. Suba aquela montanha.”

P.S. – Quando a melhor paisagem ainda estava por vir

Mas a estrada, caprichosa como sempre, ainda guardava uma última surpresa.

Depois da viagem, eu e a Isabel começamos a trocar mensagens cada vez mais frequentes. O que antes eram brincadeiras, indiretas e sorrisos atravessados durante o percurso, agora virava conversa longa noite adentro. As palavras foram ficando mais doces, mais sinceras, mais necessárias. O tom leve ganhou profundidade. O companheirismo da estrada começava a se transformar em algo maior.

No dia 03/02/2018, ela me convidou para ir a Ponta Grossa jantar. Fui buscá-la já com aquele frio bom na barriga de quem suspeita que a vida está prestes a mudar de rumo. Quando ela apareceu, vestindo um tomara-que-caia de parar qualquer pensamento racional, entendi que certas curvas do destino não vêm sinalizadas.

Jantamos, conversamos, rimos como quem já se conhecia havia muito mais tempo do que o calendário permitia. E entre olhares, silêncios cheios de sentido e aquela sensação rara de estar exatamente onde se deveria estar, começamos a namorar.

No fim das contas, entre desertos, montanhas, fronteiras e milhares de quilômetros rodados, eu fui procurar paisagens inesquecíveis… e encontrei amor.

Algumas viagens terminam no mapa. As melhores continuam no coração. E a Isabel foi a melhor curva do mapa...

Editado por Marcelo Manente

  • 2 semanas depois...

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