"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Saudações, povo da mochila.
Compartilho aqui relato de uma curta passagem pelo Parque Nacional do Itatiaia no início de maio, junto com minha esposa. Já fazia uns três anos que planejava visitar o Parque, mas indisponibilidade de datas e outros compromissos postergaram a visita. Felizmente, por ter trabalhado nas Eleições/2018, consegui certo número de dias de folga e utilizei dois na sequência do feriado do dia do Trabalhador (1º de maio), que caiu numa quarta-feira. Minha esposa tinha alguns dias de folga para tirar também e dessa forma conseguimos estender um feriado para cinco dias, e seguimos o seguinte cronograma:
Optamos por ir por Campinas pois os preços das passagens estavam mais atraentes e a distância e tempo de viagem não aumentavam tanto (40min). Em Campinas alugamos um carro: Fiat Mobi na Foco. É a segunda vez que alugamos um Mobi, não apenas por ser mais barato, mas também por ser bastante econômico (em nossa viagem para Paraty percorremos 700km com um tanque, usando Etanol!). A Foco apresentou os melhores preços mas o ponto negativo é que as lojas ficam fora do Aeroporto, então para quem tem pressa ou horário apertado, recomendo avaliar. Entretanto, a Foco Campinas oferece transporte numa Van para os clientes e o tempo de deslocamento é entre 10 e 15 min. Ainda que eu goste de viajar de ônibus, as opções de horários e pontos de parada para a região do Itatiaia são poucas e péssimas, fazendo com que alugar o carro seja o melhor custo-benefício.
Equipamento:
Optamos por pernoite no Abrigo Rebouças e em quarto na Pousada Pico da Serra Negra (com janta e café da manhã). Pernoitar no Rebouças nos ajudou também a otimizar nosso tempo, evitando, por exemplo, ir e voltar do PARNA para fazer Agulhas e Prateleiras, além de andarmos mais leves durante a travessia. Com os pernoites no Abrigo e em quarto na Pousada, pudemos levar o mínimo de equipamento e peso possível, apenas o necessário. Essa escolha nos possibilitou utilizar, durante as atividades, uma Mochila 43L e uma Mochila 36L. Para o despacho dos equipamentos que foram usados no Abrigo Rebouças (sacos de dormir, vestuário, utensílios de cozinha, etc) acabamos utilizando minha mochila de 65L. Nessa hora senti falta de um Duffel, que tornaria tudo mais simples e prático rsrs
Para cozinhar, levamos um fogareiro Nautika Apolo, um kit de panela da Quechua, talheres e outros acessórios. Quanto ao gás, como é proibido o despacho de material inflamável no avião e o Abrigo Rebouças não disponibiliza botijão, a saída foi comprar um botijão TekGás em Campinas e mandar entregar no hotel. Comprei pela internet na Corricos (www.corricos.com.br) e, por telefone, negociei uma entrega rápida. Fui muito bem atendido pela equipe da loja e providenciaram a entrega no hotel através de um motoboy.
Como o Itatiaia é conhecido por suas noites frias, levamos nossos sacos de dormir -5ºC de conforto. Passamos calor. Para quem fica no abrigo, acredito que um de conforto 0ºC ou +5ºC é suficiente. Para quem vai de carro e pode levar, uma opção é levar lençol e cobertas.
Para a travessia da Serra Negra, levamos apenas nossas roupas (camadas de aquecimento e para dormir, Crocs pendurados nas mochilas), água e alimento para 3 dias. Como estávamos sozinhos e não cruzaríamos com outros grupos, levamos também uma barraca de emergência e dois sacos de emergência, pois o peso é insignificante e são extremamente úteis em uma eventual necessidade. Estávamos com GPS de mão, e como backup, celular com App de navegação.
O Abrigo Rebouças:
O Abrigo Rebouças possui energia elétrica mas não possui - ainda, vamos ver como ficarão as coisas após a concessão - nenhum serviço de alimentação, não oferece botijão de gás, apesar de haver um fogão industrial, e não possui chuveiros quentes nem geladeira. A diária sai R$ 35,00 por pessoa, sendo necessário realizar reserva entre 30 a 7 dias de antecedência da data de entrada. A estrutura é de abrigo de montanha, com quarto e banheiros compartilhados. As camas são em beliche, havendo um gavetão para cada pessoa, localizado abaixo da cama inferior. A estrutura, apesar de rústica, é bastante confortável.
Inicialmente havíamos planejado dormir três noites no Abrigo Rebouças e pegar um táxi de Maringá para o PARNA no final da travessia, para recuperar o carro. Entretanto, após conversar com o taxista Marquinhos (tel/whats 35 8428-1059), preferi pernoitar em Maromba no dia anterior à Travessia e deixar o carro na pousada. Assim ficamos menos dependentes de terceiros e horários para retornar a Campinas.
1. Chegando…e já saindo
Saímos de Brasília na noite de terça-feira, em voo com escala da Azul. Chegando em Campinas, fomos resolver o aluguel do carro. Chave nas mãos, fomos primeiramente comprar mais algumas coisas no Extra e depois para o Hotel Casablanca (http://www.hotelcasablanca-campinas.com.br/). O hotel é bastante agradável, com ótimo custo benefício, bom café da manhã e estacionamento grátis.
Apesar da correria conseguimos descansar bem e acordamos cedo no dia seguinte para tomar um bom café-da-manhã e, às 8h, sair rumo à parte alta do Parque. A estrada é movimentada, mas excelente. Os pedágios...são aos montes - não esqueça de levar dinheiro para isso!
Pouco depois do meio-dia já estávamos no Graal Alemão, onde paramos para abastecer e almoçar. O preço da gasolina estava bom; o da alimentação, caríssimo. Como não sabíamos se haveria restaurante mais acima, acabamos comendo lá mesmo. Mas para você que está lendo, fica a dica: em Engenheiro Passos há banquinhas e restaurantes bastante convidativos, talvez o maior e mais movimentado seja o Restaurante do Juquinha. De Engenheiro Passos até o Posto Marcão é curva que não acaba mais. Felizmente a estrada estava ótima, com asfalto e pintura recentes. Mas isso até a Garganta do Registro, onde começa a estrada que leva da rodovia até o Posto Marcão. Estrada ruim, mas transitável para qualquer veículo. Para um Parque tão movimentado quanto o de Itatiaia, já deveria ter sido melhorada. Entre 1ª, 2ª e raros momentos de 3ª marcha, pouco antes das 14h estávamos no Posto Marcão. Fizemos o cadastro, pagamos o ingresso, pegamos a chave e fomos largar as coisas no Abrigo.
O estacionamento estava movimentado, pois um grupo do Exército estava fazendo reconhecimento para uma futura atividade de treinamento. Havia carros, tendas, caixas e muitos soldados. No abrigo estava tudo calmo, apenas sinais de duas pessoas. Pudemos escolher com tranquilidade nossas camas e organizar alimentos e equipamentos. Como ainda estava cedo, resolvemos ir para a Pedra do Altar. Saindo por volta das 15:30, cruzamos com o casal que estava no abrigo, voltando de um caminhada.
A trilha para a Pedra do Altar sai (também) do Rebouças e segue parte da trilha para o Agulhas Negras. Em alguns pontos, sinais da sinalização rústica da Transmantiqueira. A trilha é bastante tranquila, sem lances técnicos. Fomos com bastante calma e apreciando a paisagem e pouco antes das 17h estávamos no cume da Pedra do Altar. O céu ensaiava o pôr-do-sol e um forte vento soprava, mas tínhamos a montanha e toda a vista só para nós: de lá apreciamos Agulhas Negras, Asa de Hermes, Couto. Na descida fomos presenteados com o Agulhas Negras tingido de laranja. Pouco tempo depois de passarmos a ponte pênsil a noite caiu. Sacamos as lanternas e seguimos para o Rebouças, atrás de um grupo que voltava do Agulhas.
A noite não estava tão fria e a água gelada do chuveiro não foi tão ruim. De qualquer forma, o banho nessas situações é tomado aos poucos: mãos, pé, cabeça, pernas, tronco, e por último as costas rsrs.
No abrigo, novas pessoas. Além do casal havia agora um grupo de aproximadamente 10 pessoas que fariam a Travessia da Serra Negra no dia seguinte. Descobrimos que a cozinha do abrigo ficou pequena para tanta gente, e ainda por cima gente espaçosa: São apenas duas mesas grandes com bancos. Com muito custo conseguimos um espaço para fazer nossa janta e comer com calma. Fizemos o bom e velho macarrão com atum, acompanhado de chá. Acabamos indo dormir cedo. Infelizmente a noite foi barulhenta: roncos, despertadores tocando de madrugada sem que seus donos - ou os amigos dos donos - desligassem. Pense você: o despertador tocando quase 10 minutos, as pessoas do grupo acordando e discutindo de quem era o celular, e ninguém se movendo para desligar. Em um rompante de indignação com a inação e incapacidade das pessoas de conviver no coletivo, desci da beliche, abri a mochila alheia e desliguei o celular. “Desculpa gente, mas se ninguém desliga eu desligo”. Voltei a dormir, para 1 hora mais tarde acordar com o barulho dos soldados na área externa.
2. Agulhas Negras
Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Agulhas Negras. Por volta das 8:30 o guia Carlos da Barba Negra Aventuras (Telefone: 24 998235501), chegou no abrigo e às 9h partimos para o Agulhas Negras. O tempo estava nublado, mas o horizonte estava limpo: tempo perfeito! Nossa progressão foi tranquila e rápida até a base do Agulhas. A partir da primeira rampa o ritmo foi mais devagar, o que era esperado. O Carlos nos conduziu em ritmo muito bom e com toda a segurança. Não me prendi muito a marcar o tempo, pois estávamos ali para curtir o local e a ascensão. Que paisagem. O Agulhas é realmente um lugar muito único e considero uma das montanhas mais bacanas que já subi aqui no Brasil, pelos seus muitos lances de 'escalaminhadas' e por exigir mais que a simples caminhada. Apesar de não ser uma montanha com muitos lances expostos, pode causar medo e vertigem em algumas pessoas e, para quem não está fisicamente preparado, pode ser exigente. No cume, tínhamos novamente a montanha só para nós. Essa foi a primeira vez da minha esposa em montanha, e mesmo com receios e incertezas encarou o desafiou. Comemos algo e aí Carlos e eu fomos para o cume verdadeiro. Assinado o livro, voltamos, tiramos algumas fotos e iniciamos a descida, também em ritmo bem tranquilo, sem pressa, sem ansiedade. Chegando no Rebouças nos despedimos do Carlos, que nos encontraria no dia seguinte para irmos ao Prateleiras, e entramos. O banho dessa noite foi um pouco mais sofrido, pois estava mais frio que na noite anterior. Mas tudo bem, água fria ajuda na recuperação muscular rsrsrs. Após o banho, fomos jantar. O cardápio do dia era purê de batata instantâneo com lombinho defumado. Nessa noite o abrigo estava mais agradável e espaçoso. O grupo grande havia partido, e agora estávamos nós, o outro casal, e mais um casal que havia chegado. Só gente bacana, e bom papo rolando. A noite foi bem mais tranquila e silenciosa, inclusive porque a atividade do exército já havia terminado.
No cume verdadeiro do Agulhas Negras.
3. Prateleiras
Café-da-manhã tomado, cuscus paulista para o almoço devidamente preparado, nos arrumamos para o Prateleiras. Mochilas prontas, chave do abrigo devolvida na portaria. Acabamos saindo mais tarde, umas 9:30. Eu havia alimentado uma possibilidade de fazer Prateleiras e Couto nesse dia, mas como atrasamos a saída, o Couto ficou para uma próxima. A trilha até a base do Prateleiras é tranquila e muito bonita, como é toda a parte alta do Itatiaia. Os vales que se descortinam são dignos de receberem gravações de filmes como Senhor dos Anéis e o Hobbit. A trilha que sai do Rebouças, segundo consta, era uma antiga estrada que cruzava o parque. Tanto é que parte dela é asfaltada.
Rapidamente se chega à base do Prateleiras e é aí que começa a diversão. Apesar de mais baixo, sua ascensão é muito mais desafiadora e exigente: pedras para subir, pedras para descer, fendas, rastejo. Para quem não está acostumado, pode dar uma abalada. Apesar disso, indo com calma e com um bom guia, não há razões para se apavorar. Chegando na parte final, no primeiro trecho onde se recomenda o uso de cordas, Ana já estava cansada física e mentalmente, e decidida a ficar. Carlos então subiu e montou a corda para eu subir. Passamos rapidamente o pulo do gato e os demais trechos e enfim, cume. Que vista! Um carcará solitário numa das pontas nos observava, e observava a paisagem, certamente procurando uma presa.
Vista incrível a partir do Prateleiras.
Ana e eu na base do Prateleiras.
Ficamos algum tempo ali e Carlos me mostrou as ancoragens do rapel que é possível fazer dali, ao invés de descer pela trilha. Voltamos e encontramos a Ana e descemos para uma fenda onde almoçamos. Iniciamos o retorno e pouco antes das 15h estávamos no Rebouças. Acertamos o pagamento e nos despedimos. Pegamos o carro e partimos para Maringá (RJ). Se for seguir esse roteiro, recomendo demais se planejar para chegar em Maromba antes do pôr-do-sol. São 2h30min até lá e a estrada é bastante sinuosa, com trechos estreitos e o asfalto nem sempre conservado. Chegamos em Maringá às 17:45 e já estava escuro. Seguimos direto para a Pousada Santa Clara, que fica próxima à cachoeira Santa Clara e ao Restaurante Truta Rosa. Havia reservado um quarto com a Maria Margarida (24 992690350), bastante simpática e solícita. A pousada é bem bacana, quartos limpos e confortáveis. Deixamos as coisas, tomamos banhos e fomos jantar. O centro de Maringá é bem bacana e agradável, bastante organizado. Por recomendação do pessoal da pousada fomos no restaurante Paladar da Montanha. Apesar do prato típico ser a truta, optamos por uma picanha na chapa. Prato muito bem servido e preço muito bom. Maringá estava tão agradável que Ana quase me convenceu a ficar lá rsrs mas como sou obstinado, fui fiel ao planejamento. A região da pousada é bem agradável e silenciosa. Dormimos muito bem.
4. Travessia da Serra Negra - Pt. I
Acordamos às 5h. Já havia deixado todas as coisas separadas e o que não ia ser útil, na travessia foi para o carro. Maria Margarida gentilmente adiantou o café para nós. No estacionamento, vi um táxi de Itamonte que só podia ser o Marquinhos. Ele saiu tarde da noite de Itamonte e pernoitou no carro. Convidamos ele para tomar um café. Apesar de relutar um pouco, acabou aceitando. Às 6:30 saímos da pousada com destino ao Posto Marcão. A estrada estava tranquila e o Marquinhos é uma ótima pessoa e ótimo motorista, bastante prudente, e muito bom de papo. Deu uma aula sobre as possibilidades de passeio e lugares para visitar na região. Às 8:40 estávamos no Posto Marcão. Papéis preenchidos, cantis abastecidos, iniciamos a caminhada às 9:40. Escolhemos iniciar via Circuito dos 5 lagos, pois o outro lado, do Rebouças, já conhecíamos. A trilha já começa com uma subida, que vai ficando gradual. Nada muito intimidador, mas já dá uma agitada. O visual na primeira parte é muito bonito. O campo, lagos e o Agulhas Negras ao fundo é realmente fascinante. Depois começam os trechos nos lajeados, que dão um pouco mais de trabalho. A sinalização aqui não é das melhores e a progressão não foi muito rápida. A referência de direção é a Pedra do Altar.
No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos.
No início da Travessia da Serra Negra, via 5 lagos.
Chegando na bifurcação da Pedra do Altar, toma-se o rumo da Cachoeira do Aiuruoca. Segue-se em single-track em terreno bom, com algumas pedras, mas aqui avançamos bem. Há um ponto de água muito limpa. Infelizmente a área ao redor está visivelmente erodida e é necessário alguma intervenção. Acredito que uma ponte/pinguela aliviaria a pressão. Andamos bem até chegarmos na próxima placa, apontando a direção da Serra Negra, Cachoeira do Aiuruoca e Rancho Caído. Tomamos mais à esquerda e prosseguimos. Passamos por um trecho mais fechado, uma espécie de taquaral, até sairmos e ter a primeira visão da Cachoeira do Aiuruoca lá embaixo, onde um grupo que seguiria para o Rancho Caído banhava. Paramos para comer um pão com patê de atum e frutas secas. De lá partimos, desfrutando do belo visual do alto da serra. Não sei precisar o tempo, mas depois a trilha entra na mata fechada e assim vai por muito tempo. A trilha está bem demarcada, não deixando muita margem para erros, a não ser na área chamada de “Invernada”. Aqui duas vacas pastavam tranquilas e nos observavam quando nos aproximamos e, para trás, fica um enorme lajeado por onde cai uma cachoeira. A sinalização na invernada não está presente (ou apagou com o tempo) e, se não estivéssemos com GPS, poderíamos ter nos perdido, como já aconteceu com outros grupos. A trilha aqui segue na beira do barranco onde está a cabana, descendo e cruzando o córrego. A partir daqui ela fica bem visível. Pouco tempo depois encontra-se o rio Aiuruoca, onde pode-se abastecer as garrafas e, para os corajosos, tomar um banho. A trilha volta para a mata e por ela vai. Na área da Cabanas do Aiuruoca, um pouco de luz. Na ocasião dois rapazes estavam trabalhando na estrutura, dando a impressão de que a área será reativada como local de pernoite. Lá avistamos mais uma marca da Transmantiqueira. Seguimos pela trilha, um carreiro bem largo que aparenta ser uma estradinha. E aí foi pela mata até finalmente chegarmos na Sônia, às 17:30. Foram pouco mais de 7h30min, em um ritmo bem tranquilo, principalmente nas descidas, pois o joelho da Ana estava começando a doer.
Chalés na Pousada Pico da Serra Negra, propriedade da Sônia.
Fomos muito bem recebidos na Pousada Pico da Serra Negra pela Sônia e seus irmãos. Um deles trabalha na Posto Marcão ( e foi quem nos recebeu no nosso primeiro dia quando chegamos no PARNA), o outro é guia e também faz o serviço de levar seu carro até Maringá (R$ 250,00+R$15,00 do estacionamento). Nosso quarto já estava preparado e era bem agradável. Gosto muito de camping selvagem, mas confesso que o um quarto bacana com cama boa e chuveiro quente é algo difícil de resistir. Fizemos nossos alongamentos, tomamos banho e a noite já havia chegado com um céu bastante estrelado. O pessoal preparou uma janta reforçada com truta frita. Uma delícia!
Bem alimentados, parti para a sessão de convencimento da Ana, que estava pensando em desistir de continuar no dia seguinte. Depois de muita conversa, análise do tracklog e da dificuldade de outra alternativa a não ser prosseguir, ela aceitou rsrsrs Por isso só decidam o dia de amanhã depois de banho tomado e bem alimentados!
5. Travessia da Serra Negra - Pt. II
A noite foi revigorante. Acordamos bem descansados, tomamos um reforçado café, acertamos as contas com a Sônia, abastecemos os cantis e partimos às 8:40. Seguimos pela estrada e confundi na leitura do Tracklog, perdendo uma saída à direita antes da curva à direita. Acabamos chegando numa outra casa e uma senhora falou: “sobe tudo aí que vai achar a trilha”. Já estávamos pensando em voltar para achar o traçado oficial mas ela insistia, e depois um filho dela saiu e insistiu: “só subir tudo aí e já vai ver”. O problema é que era um baita morro bem inclinado. A insistência foi tanta que acabamos subindo e de fato, achando a trilha. A partir daí foi basicamente um single track, subindo quase 500m. Combinamos de ir em ritmo suave, sem esgotamento e aproveitando o visual, que é realmente incrível. Convém destacar que da Sônia é possível atacar a Pedra Preta - inclusive a trilha parte de uma ramificação desse segundo trecho da Serra Negra - mas é uma caminhada pesada e em geral, o pessoal dedica um dia apenas para isso. Pouco a pouco subimos e depois de 1h30min chegamos na altitude máxima daquele dia.
Sobe, sobe, sobe!
Daqui a pouco é desce, desce, desce!
A partir daí foi basicamente descer, alternando entre campo aberto e floresta, em trilha cavaleira. A erosão dessa trilha é assustadora. Há pontos nos quais a trilha está 1.8m abaixo da altura original. O trecho final, já nos sítios, é muito bonito. Foram 5h30min de caminhada e pouco antes das 14h estávamos na Cachoeira Santa Clara, limpando o corpo e fazendo a recuperação muscular em suas águas geladas. De lá andamos uns 800m até a Pousada, onde só trocamos de roupa, pois o banho já tinha sido tomado na cachoeira. Nos despedimos do pessoal e às 15h partimos. Paramos em Penedo apenas para conhecer rapidamente a cidade, comer um Hambúrguer (Kako´s) e comprar uns chocolates. Às 17h partimos rumo à Campinas, nas 5h de direção mais cansativas da vida. Afinal, foram 33km de caminhada. Chegamos em Campinas, no Hotel Casa Blanca pelas 22h. Na manhã seguinte, bem cedo, estávamos no aeroporto, chegando em Brasília a tempo de cumprir nossa jornada diária de serviço. Bota suja, alma lavada!
Trecho final, já em estrada.
Bota suja, alma lavada!
Impressões sobre os atrativos
Agulhas Negras e Prateleiras, ao contrário da Pedra do Altar e Morro do Couto, são montanhas cuja ascensão de forma autônoma exige bom condicionamento, habilidades de orientação e conhecimento técnico. Para novatos, o acompanhamento de alguém que conheça a rota e os lances técnicos e esteja com os equipamentos requeridos é essencial para garantir a segurança e o aproveitamento do atrativo. Apesar de eu ter conhecimento e experiência avançada de trekking e intermediária em escalada, ainda assim optei por contratar um guia. Com isso também evitei ter de levar equipamentos como cordas, cadeirinha e mosquetões.
A Travessia da Serra Negra é um trekking pesado. Ainda que não haja lances técnicos, são quase 19km no primeiro dia e pouco mais de 15km no segundo dia com muita variação altimétrica, principalmente no primeiro dia, o que exige bom preparo físico e mental. Não recomendo para iniciantes e pessoas sem experiência em trilhas. Caso escolha ela para uma primeira experiência de travessia com pernoite, esteja bem preparado. Na dúvida sobre sua capacidade de percorrê-la, recomendo ir com guia e comprar o pacote completo na Sônia, ou ter um carregador - isso não é nenhum demérito. Água não é um problema ao longo do percurso. A trilha está bem demarcada e visível e a navegação não é difícil. A sinalização, porém, está deficitária, principalmente nos trechos críticos (bifurcações), não sendo possível confiar apenas nela. Assim, recomendo levar um GPS ou celular com App de Navegação (Wikiloc, Avenza, LocusMaps) como referência. Utilizei esse trakclog.
Sinalização da Transmantiqueira, apagada.
Sinalização da Transmantiqueira, conservada.
Contatos:
Marquinhos (Taxista Itamonte): 35 8428-1059 (tel/whatsapp)
Pousada Santa Clara: 24 99269-0350 (tel/whatsapp)
Guia Carlos: 24 99823-5501 (tel/whatsapp)
Pousada Pico da Serra Negra: 35 9965-6515 (whatsapp)
Corricos: (19) 3258-5385
Hotel Casablanca Campinas: (19) 3272-7575