"Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar."............................
No centro do Estado de São Paulo, a 200 km da sua capital, uma região de incontáveis atrações naturais, ainda se mantém muito longe do turismo de massa, ainda que sua cidade mais famosa, BROTAS, acabe por cooptar a maioria do turismo, se intitulando a Capital da Aventura no Estado. Mas a região vai muito mais além do que a sua cidade mais famosa, na verdade, são dezenas de cidade compondo uma grande região turística, mas que sinceramente, até para mim que vivo ao seu redor, me soa um pouco confuso. Costuma-se denominar algumas cidades como CHAPADA GUARANÍ, que seriam cidades encima de uma grande mesa basáltica, um incrível chapadão, uma espécie de, guardando as suas devidas proporções, Chapada Diamantina Paulista.
Acontece que, embaixo desses chapadões, também temos pequenas cidades de belezas muito cênicas, aliás, são cidades que recebem as águas que despencam das mesas e é por onde se pode acessar algumas cachoeiras. Mas não é só isso, são cavernas, formações rochosas, vilarejos charmosos, trilhas para motocross, jeep, bicicleta, formações rochosas, morros testemunhos, mirantes de perder o fôlego. Algumas dessas cidades compõe o CIRCUITO DA SERRA DO ITAQUERI e outras o circuito CHAPADA GUARANÍ, na verdade, uma salada difícil de compreender porque várias cidades acabam por fazer partes de todas as denominações e como a região é gigante, o governo do Estado e secretaria de turismo, ainda dividiu em outra região que chamou de circuito CUESTA PAULISTA.
Já fazia anos que o Thiaguinho me cobrava uma pedalada nessa região e como eu não me manifestava, colocando uma data, ele simplesmente me forçou a sair da moita e numa sexta-feira à tarde me informou que passaria na minha casa, sábado à noite e me pegaria com seu carro, porque já era hora da empreitada sair do papel. Coube a mim elaborar um roteiro, já que, apesar de frequentar muito a região, eu nunca tinha me aventurado sobre 2 rodas, então decidi que o nosso ponto de partida seria a minúscula e pacata IPEÚNA, uma charmosa cidadezinha de meia dúzia de habitantes, onde eu pretendia estacionar o carro e fazer um circuito tranquilo, de uns 60 km de pedaladas, subindo a chapada e voltando para o mesmo lugar.
Por volta das 8 da manhã, estacionamos na praça central de Ipeúna, bem da rua abaixo da sua igreja central, em frente da base policial. O Thiaguinho sacou logo sua bike de última geração e eu tomei posse de um trambolho fabricado na década de 80, uma bicicleta bem conservada, mas sem as tecnologias atuais, apenas algumas mudanças aqui e ali, mas no final do dia, eu iria descobrir que não havia sido suficiente.
O nosso caminho seguiu exatamente pela rua que estávamos e em poucos minutos, numa curva, deixamos o asfalto e ganhamos as estradas de terra junto à uma bifurcação. Logo o caminho desembesta para baixo e desce até um vale e aí a subida desafia nossa capacidade de pedalar, ainda com o corpo frio, mas eu logo arrego e empurro ladeira acima e quando se estabiliza, a estrada vira um amontoado de areia e logo à frente, uma bifurcação junto à uma placa, faz a gente parar e admirar os paredões avermelhados da Serra do Itaquerí, de frente para uma formação característica conhecida como CABEÇA DE ÍNDIO. É a primeira vez que o Thiaguinho tem contato com essa paisagem e realmente, é uma visão lindíssima e surpreendente por estar tão perto da capital e ser conhecida por poucos.
A previsão de mal tempo não se confirmou, o sol já queima sem piedade e na bifurcação, pegamos para a direita e vamos seguir como quem vai ao encontro da Cabeça de Índio e cerca de 6 km desde a cidade, uma porteira lateral nos chama a atenção para um mirante espetacular para a grande formação rochosa, então nos detivemos por um tempo para um gole de água e uma foto.
O terreno parece que vai se estabilizar, mas hora ou outra, nos deparamos com alguma ladeira e o calor inclemente da manhã, vai minando nossas energias. O cenário é muito bonito e nossa direção vai seguir o caminho que nos levará para a subida da serra. Antes de subir a serrinha, eu pretendia deixar as bikes escondidas e tentar reencontrar a Gruta da Boca do Sapo, mas achei que perderíamos muito tempo nela, haja visto que esse roteiro eu havia estabelecido para ser feito em 2 dias e estava apenas adaptando a quilometragem para um único dia, então passamos batidos e iniciamos a subida da serra, abandonaríamos a planície local e subiríamos de vez para os chapadões, era hora de ganharmos altitude.
Nossa pedalada inicial então chega ao km 12, que de bicicleta poderia significar absolutamente nada, mas diante do terreno arenoso e das primeiras subidas intermináveis sob um sol escaldante, já faz a gente começar a botar a língua de fora. No início da subida da serra o terreno vai se elevando lentamente, mas não dá nem 300 metros e pedalar já não é mais opção, não só pelo terreno inclinado, mas pelas grandes pedras que inviabilizam a progressão montado nas bikes . Empurrar bicicleta ladeira acima é um martírio que vamos absorvendo, um sofrimento que é preciso passar, sob o pretexto de que quando chegarmos lá encima, tudo vai ser diferente, e é vivendo nessa ilusão que nos apegamos à nossa força interior e quando atingimos uns dois terços do caminho, nos deparamos com um MIRANTE que nos faz voltar a sorrir novamente e continuar acreditando nas mentiras que a nossa cabeça criou.
Como não há sofrimento que dure para sempre, uma última curva da serra é deixada para trás e do nosso lado direito, meia dúzia de eucaliptos força a nossa parada e mesmo que ainda não seja definitivamente o fim da subida, será ali que abandonaremos provisoriamente a estrada, em favor de uma TRILHA que sai à direita e entra num capinzal alto, tão escondida que se não forçar passagem na alta vegetação inicial, quem não conhece e não tem nenhuma referência, passará batido.
Levamos cerca de 45 minutos empurrando as bicicletas para ganharmos quase todo o chapadão e agora, vamos abandoná-las no mato e ganharmos a trilha a pé, rumo a uma das grandes joias da Serra do Itaqueri . Então, forçando passagem no capim alto, uns 10 metros depois a trilha surgirá, aberta e bem consolidada, vai se curvar para a esquerda e descerá meio que em nível até começar a despencar de vez, curvar quase 90 graus para a direita, onde encontraremos uma arvore monstruosa e começar a percorrer um paredão de arenito que estará a nossa direita.
Não há erro, é preciso se manter quase que colado nos paredões, às vezes não mais que 5 metros de distância deles, passamos por um filete de água que despenca de cima do próprio paredão, onde poderemos abastecer os cantis, contornamos um terreno encharcado até que surpreendentemente, daremos de cara com a enorme boca da GRUTA DO FAZENDÃO.
Para quem chega, pode se surpreender com as pichações do passado, mas hoje praticamente essa prática cessou e mesmo não havendo nenhuma fiscalização, pelo estado que encontramos a trilha, percebemos que a gruta quase não está sendo visitada. Ao subir as pedras que antecedem a entrada da gruta, é possível sentir a grandiosidade do seu pórtico. A gruta do Fazendão é daqueles lugares que sempre gosto de levar os amigos e apresentar como sendo parte do meu quintal, já que a maioria do meu círculo de amizades, ligadas ao mundo de aventura, são de gente da Capital Paulista e eu acabo por me tornar um dos poucos representantes do interior. Uma vez inventei de trazer uns amigos na gruta, alguns deles jamais haviam entrada numa caverna antes, apesar de já serem exploradores que já rodaram meio mundo. E mesmo os que já estiveram em cavernas, nunca tinha entrado em cavidades areníticas, onde em algumas é preciso se rastejar feito um lagarto. E um desses amigos passou mal, deu pit, simplesmente teve uma crise de pânico e tivemos que evacuar a gruta às pressa, o que no final, rendeu muita zoeira e altas risadas.
Nos apossamos das nossas lanternas e subimos os blocos de pedras, que num passado muito distante, desmoronou do teto. No início, a impressão é que a gruta não passa de uma pequena cavidade, baixa e sem muito interesse, mas em um minuto a desconfiança da lugar a grandiosidade . Um corredor gigante se abre e o teto se eleva e nos surpreende, porque 2 minutos depois, a escuridão absoluta toma conta do lugar e quem não está familiarizado com esse tipo de ambiente, já começa a ter um desconforto. Num primeiro momento, a gruta é horizontal, anda-se em pé porque o espaço é amplo, com um grande corredor . O teto é alto , mas o chão apresenta irregularidades , onde algumas fendas vão deixando os visitantes de primeira viagem, um pouco desconfiádos.
Eu sigo à frente, fazendo as vezes de guia, mas já conhecedor dos caminhos que vão levar aos becos mais aventureiros, rapidamente abandono o caminho fácil e desimpedido , em favor de uma greta a direita do caminho, encostando na parede da caverna., onde desço por uma pequena rampa até me ver de frente à um buraco de rato.
É aqui que começa a brincadeira, num buraco de uns 50 centímetros de largura por uns 10 metros de comprimento, iremos adentrar no corredor de arenito, nos rastejando feito vermes, encostando nossas barrigas no chão e ganhando terreno metro à metro , até nos vermos dentro de um grande salão no centro da terra, com seu teto alto , sua temperatura gelada , uma cena iluminada pelas luz das nossas lanternas, como quem adentra nas histórias de Júlio Verne.
O Thiaguinho passou muito bem e parece se encantar com o novo ambiente e mesmo eu, acostumado à exploração de cavernas desde os primórdios da minha vida de aventura, ainda consigo me surpreender com esse mundo fascinante.
Uma nova passagem em formato de um pequeno pórtico, nos leva para outro salão, tão grande quando os 2 primeiros e a saída desse terceiro salão, é pela esquerda, subindo rastejando numa rampa , que vai passar por uma perigosa e profunda fenda e então virando para a direita, chegando ao salão dos morcegos , um amontoado de centenas deles, que estão agrupados no teto e ao sentirem nossa presença e nossas lanternas, tomam conta da caverna, voando de um lado para o outro, às vezes trombando nas nossas cabeças.
A saída é retornar para a esquerda, cruzando por uma passarela natural sobre a fenda que havíamos passado, com cuidado para não cair em outras cavidades, avançando lentamente, vagarosamente, até perceber ao longe, um facho de luz que nos indica a saída ou seja , o nosso ponto de partida. Foi uma exploração proveitosa e antes de deixarmos a gruta para trás, fizemos uma parada para um lanche e um gole de água.
Retornamos pelo mesmo caminho que viermos, agora subindo lentamente até reencontrarmos nossas bicicletas e ganharmos novamente a rua. Ainda iremos subir por uns 200 metros até que o terreno se estabiliza de vez, definitivamente agora, estamos em cina da CHAPADA PAULISTA, galgamos com dificuldade, mas enfim subimos à grande mesa . Logo à frente cruzamos por uma lagoinha à nossa esquerda, onde penso em me jogar , mas menos de 5 minutos , também à nossa esquerda, uma lagoa gigante desafia a minha capicidade de resistir, mas não resisto e não faço nenhuma questão. Jogo a bike no capim, tiro meu tênis e com roupa e tudo , saio correndo e me jogo na água. O calor tá de lascar e o Thiaguinho vem junto e em um minuto, somos dois moleques se regozijando nas aguas mornas .
Voltamos à estradinha até que ela chega a uma espécie de “T”, aí vamos pegar para a direita. Estamos agora indo ao encontro da Cachoeira da Lapinha e estradinha ao chegar a um cruzamento em forma de triangulo, nos obriga a viramos para a direita e aí vamos descer pra valer, tentando segurar os freios até quando ela se estabiliza, passa por uma floresta de eucalipto e aí temos que nos deter junto a um pequeno riacho que despenca no vazio, formando a cachoeira em questão.
A CACHOIERA DA LAPINHA, também é conhecida como Cachoeira do Carro Caído, devido a uma carcaça de um veículo que se encontra nos pés da queda. No passado, a gente explorou todo o vale vindo por baixo, mas a cachoeira estava com pouca água e não há propriamente uma trilha que se possa chegar partindo de cima, mas com um pouco de habilidade e sem medo dos riscos, é possível descer pela esquerda dela, desescalando uma parede perigosa, mas não ali onde a queda despenca, claro, tem que se afastar uns 300 metros, cair no leito do rio e subir até onde ela despenca.
Nos despedimos da Cachoeira, atravessamos a pontinha e seguimos adiante, apreciando as florestas de eucaliptos e sempre seguindo na principal, nosso rumo vai tomar a direção do Bar do Valentim, onde está a Cachoeira São José, sempre atentos as placas. Da Cachoeira da lapinha até a Cachoeira São José, serão exatos mais 6 km de pedalada e é um caminho belíssimo e agradável, por ser quase só descida e quando lá chegamos, nossa quilometragem vai bater exatos 25 km, pouca coisa, mas não se engane, a atividade não foi feita só de pedalar, então, já um tanto cansado, estacionamos junto ao bar, onde dezenas de pessoas se amontoam, gente de bike, de moto, de jeep, corredores de montanha, ali é parada para todas as tribos.
O bar é onde se pode tomar umas cervejas, uns sucos, comer alguma coisa ou somente descer as escadarias e ir tomar um bom banho na CACHOEIRA SÃO JOSÉ, porque a entrada é gratuita. A cachoeira não é muito alta e suas águas escuras são proveniente de terrenos areníticos com rochas basálticas, portanto, a água é avermelhada, meio cor de barro, mas com o calor que está fazendo, não vamos ficar de mi-mi-mi e não demorou muito pra gente se enfiar embaixo dela e lá ficar, aplacando o calor intenso dessa final de manhã.
Uns 15 anos atrás, eu havia chegado até aqui, mas vindo motorizado, foi quando nosso 4x4 atolou dentro de um rio e eu e minha filha ficamos horas tentando desatolá-lo, lutando contra o tempo e contra uma tempestade que se avizinhava, não levasse a gente embora caso enchesse o riacho. Acampamos próximo ao bar, mas não chegamos nem a conhecer a Cachoeira, que estava fechada. Então a partir de agora, todo o caminho à frente seria uma novidade também para mim.
Montamos nas bicicletas e prosseguimos, mas não deu nem 500 metros, fomos obrigados a desmontar novamente. O cenário que nos foi apresentado era surpreendente, sem aviso prévio, um cânion de proporções gigantescas surgiu à nossa frente. E não posso nem negar que desconhecia a sua existência, já que tinha ideia que havia uma cachoeira que despencava ali nas redondezas do bar, mas nunca que eu iria imaginar que seria daquela magnitude.
O CÂNION PASSA CINCO, me desconcertou, ainda que a grande cachoeira de mesmo nome, tivesse a sua vista muito prejudicada. Mas era mesmo surpreendente, um gigantesco abismo com bem mais de 100 metros de altura, de onde 2 quedas d’agua se precipitavam no vazio, emolduradas por uma floresta verdinha.
Claramente, por ali seria impossível descer ao fundo do cânion, então retomamos o arremedo de estrada e em mais 1,5 km, numa bifurcação tripla, vamos quebrar para esquerda e uns 150metros depois, vai surgir à direita, uma trilha que irá nos levar definitivamente para dentro do cânion. Estamos na TRILHA DO LISINHO, uma trilha somente para quem pratica motocross, com veículos especializados e com experiência vasta no assunto, evidentemente, não é nem de longe uma trilha para bicicletas, mas como ninguém havia nos dito nada, embicamos a nossa bike e fomos nos fuder naquela desgraça.
Logo no começo, já vimos que seria uma encrenca, mas sem conhecer, esperávamos que o terreno melhoraria mais à frente. Ledo engano, cada vez foi é piorando mais. As valetas eram capaz de engolir nossa bicicletas e era praticamente impossível pedalar e quando tentávamos, não era raro cairmos nos buracos e termos nossas canelas dilaceradas pelos pedais que batiam nas paredes laterais e voltavam nas nossas pernas. Aquilo foi um verdadeiro inferno, ainda que a gente se divertisse com a pataquada que acabamos nos metendo, a descida foi minando nossa energia, já que o calor ainda se mantinha insuportável.
Levamos uma meia hora ou mais para chegar ao fundo do cânion, mas mesmo assim, as trilhas ainda se mantinham confusas, parecia que não iam dar em lugar nenhum e empurrar as bicicletas já foi se tornando um verdadeiro martírio. Claro, a gente não se deu conta de que estávamos tomando decisões erradas e que deveríamos ter abandonado as bikes e seguido á pé por dentro do cânion, até conseguirmos interceptar as grandes cachoeiras. Mas chegou uma hora que a gente resolveu voltar, simplesmente o dia já começava a escorregar por entre os dedos e já havíamos passado das 14 horas e aí nos demos contas que não tínhamos mais tempo para explorações, era hora de voltar ao nosso roteiro original.
Dentro do cânion, junto ao rio que corta todo o vale, resolvemos que deveríamos atravessar para o outro lado, tentar achar um caminho que subisse as paredes opostas do vale, porque voltar pela trilha do Lisinho, estava fora de cogitação. Então atravessamos o rio com as bicicletas nas costas e ao chegarmos no centro do cânion, o horizonte se abriu e interceptamos uma sede de fazenda totalmente abandonada, um lugar lindíssimo, onde chegava uma estrada. Essa estrada ao chegar ao casarão abandonado, se transformava numa trilha que ia se enfiando para dentro do cânion, indo na direção do fundo dele, onde estavam as cachoeiras. Seguimos essa trilha por uns 5 minutos, mas logo desistimos de vez, o tempo urge, era chegado a hora de pular fora dali.
Analisamos o mapa, vislumbramos uma saída por uma perna do cânion, na verdade, outro cânion lateral. Então tomamos o rumo de quem vai em direção a entrada do vale, passamos por mais uma casa abandonada, subimos uma trilha pela sua esquerda até chegarmos ao outro cânion, onde uns bois mal-encarados nos deram as boas-vindas, louco para nos dar umas chifradas. Ali começamos a subir, na esperança que no seu final, houvesse um caminho que nos levasse para cima das paredes, ainda que tivéssemos que carregar as bikes nas costas.
Mas não adiantou, o caminho não tinha saída. Estávamos presos, não havia mais o que fazer, tínhamos que retornar, repensar nosso caminho, agora havia chegado a hora de achar uma rota de fuga. O Thiaguinho voltou rápido, eu já começava a capengar com aquela bicicleta pesada e na ânsia de alcançá-lo, meti marcha no meio da trilhinha junto ao pasto, mas um tronco estacionado fora das minhas vistas, foi o obstáculo que faltava para eu bater com a roda dianteira e ser catapultado barranco abaixo, eu de um lado, bike do outro, canela arrebentada e guidão entortado, o chão é o refúgio dos trouxas sobre 2 rodas.
Levanto-me, ainda puto, mas logo estou rindo sozinho da situação. Alcanço o Thiaguinho e tomamos o rumo da saída, passamos pelos bois, pulamos uma cerca de arame e ganhamos uma estrada larga, onde uma ponte decrepita, impede a passagem de carros. Em poucos minutos passamos por uma única casa que parecia ser habitada e ganhamos a estrada em definitivo, assim que cruzamos mais uma ponte, de onde era possível avistar sobre nossos cabeças, o MORRO DO GORILA, uma linda formação de arenito.
Verdade seja dita, a tarde praticamente já se foi e o dia já é capenga, apesar de ainda haver sol. Depois de atravessar a ponte , a estrada de areia vai seguir quase em nível, o que ajuda a gente a conseguir peladar um pouco mais forte, mas não demora muito, observo que o Thiaguinho para imediatamente à frente e sem perceber, desvio rapidamente de uma cascavel que por um pouco não picou a picou a perna dele, foi muita sorte. Dois quilômetros depois, passamos por um bar, que estava fechado , mas um senhor nos indicou que se quisessemos voltar pra Ipeúna, teríamos que virar a direira e seguir pedalando até o curral de uma fazenda, onde deveriamos contornar pela direita e nos apegarmos à estrada principal.
Como sol ja está bem baixo, os paredões do nosso lado direito, vão ficando belíssimos. Mas se o cenário é de tirar o fôlego, o caminho é de tirar a nossa paciência. O areião vai travando a gente , a pedalada não desenvolve, eu praticamente não tenho mais água, a comida acabou faz horas . Claro que poderiamos buscar socorro em algum sitio próximo, pelo menos pra buscar uma hidratação, mas a vontade é de chegar, de encerrar . As pernas já pedalam no modo automático, a minha bicicleta começa a dar sinais que o freio não quer mais funcionar e cada vez, preciso fazer mais força com as mãos.
E a gente pedala, e à frente dos nossos olhos, vão ficando para trás uma infinidade de pequenas propriedades rurais, choupanas jogadas à beira do caminho, matutos e seus animais de estimação, bois, vacas, cavalos, tratores, carroças, plantações, riachos , capões de mato, num sobe e desse sem parar, até que nem eu, nem equipamento aguentam mais . Os freios da bicicleta se foram, a minha capacidade de seguir pedalando , virou pó. Sou um homem entregue ao meu próprio sofrimento, ao meu desespero individual. Não consigo nem mensurar o que o Thiaguinho deve estar pensando de mim, também estou numa condição que nem me importo mais , sou só um homem morto que não caiu porque ainda me resta um brio interior, tentando resguardar o ultimo vestigio de dignidade que me sobrou.
Já fazia mais de hora que o sol havia nos abandonado, quando uma tempestade desabou sobre nossos ombros. A noite era tão escura , que eu mal enxergava o Thiaguinho , que desembestou na dianteira, ladeira abaixo e quando tentei acionar os freios, as rodas trepidaram, balançaram de um lado para o outro e eu me vi totalmente desamparado , virei passageiro daquela geringonça dos anos 80. A velocidade só fazia aumentar, pensei em me jogar pro barranco, mas as valetas laterais teriam me moído no buraco. Tento manter a calma, mas as minhas energias depois de mais de 12 horas de pedalada, me levam a um transe de resiliência. Penso em pular, mas aí me vem a lembrança, o dia em que eu e meu irmão, numa infância distante, nos jogamos de cima de uma bicicleta sem freio, numa ladeira da nossa aldeia e acabamos sendo trucidados pelo chão. Enfio o tênis na roda traseira, mas o solado do maldito é daqueles tênis de atletismo e o atrito não resolve porra nenhuma. Mesmo assim, continuo tentando e quando vejo que o terreno se arrefeceu um pouco, boto os pés no chão e ao encontrar um amontoado de areia, pulo, como quem pula de um caminhão desgovernado, mas sem soltar as mão da bicicleta. Fico no cai, mas não cai, danço conforme a ondulação do terreno, até que quando me vejo estabilizado, largo mão daquela merda e me esparramo na areia molhada, enquanto o veículo do satanás, de duas rodas, segue seu caminho até se deter mais à frente. Eu não sou mais ninguém, o ciclista animado da manhã, agora parece um ser que não consegue se sustentar sobre as próprias pernas , estou acabado, a vontade é sentar e chorar.
Agora a coisa ficou feia de vez. Até então, a minha capacidade de pedalar já não existia mais , só que agora, sem nada de freios, eu não conseguia nem descer as ladeiras montado, porque naquela escuridão avassaladora, não conseguia ver nada , saber se a ladeira era perigosa ou não. Então, eu subia empurrado e descia empurrando, enquanto a chuva fria castigava nossa cacunda. E nem quando o Thiaguinho me chamou a atenção para as luses da cidade, que se apresentou à nossa frente , eu me animei. Mas eu continuei, cabeça baixa , moral abaixo do volume morto . As cãibras surgirem , era algo inevitavel , a cada 15 ou 20 minutos, lá estava eu, jogado ao chão, com os musculos enriquecidos, dores tão fortes quanto a minha vergonha diante da situação.
Só quando passamos enfrente aos campings , foi que me dei conta que estavamos perto do asfalto e quando lá chegamos, minha vontade era de jogar a bicicleta fora , porque eu já não tinha mais forças nem pra pedalar no terreno plano e firme, por isso empurrei na maior parte do tempo, até que quase NOVE da noite, desembocamos em definitivo na PRAÇA CENTAL de Ipeúna, quase 13 horas de pedaladas e então , nos sentamos à frente da barraca de lanches e quando o sanduiche de costela atingiu a minha corrente sanguinia , uma lagrima escapou dos meus olhos.
Quando o Thiaguinho lançou o convite, pensei em recusar, eu estava fisicamente destruído por atividades ligadas a outros esportes tradicionais. Mas achei que seria deselegante deixá-lo na mão, já que era uma promessa antiga , que eu vinha adiando, mesmo assim , deixei bem claro que só iria com o intuito de fazer um belo passeio, apenas pra mostrar parte da região pra ele. O problema, é que a maldita palavra "passeio" jamais fez parte do nosso vocabulário, quando a gente inventa algo, será sempre acima da nossa capacidade de bom senso. O suposto passeio, se tornou numa jornada de quase 13 horas , um epopéia de achados e perdidos , que misturou montain bike com exploração de cavernas, mergulho em lagoas, descida à cânions, banho de cachoeira, pedaladas em trilhas e pastos sem caminhos . Saímos em busca de uma jornada tranquila, voltamos destruídos pela aventuda que encontramos pelo caminho.
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Ola pessoal.
Esse aqui é um relato da travessia do Complexo Lagamar, localizado na divisa do litoral do SP/PR.
Iniciamos essa trip no dia 01 de Maio por Paranaguá onde pegamos um barco até a vila principal do Parque Nacional do Superagui e de lá seguimos na caminhada até a Vila de Marujá, na Ilha do Cardoso, chegando no dia 04.
O total dessa caminhada chegou a pouco mais de 40 km.
Estavam na trip, eu, a Márcia e o Wilinha. Durante essa caminhada pegamos chuva intensa com frio e ventos e nos dois últimos dias um Sol muito forte.
Fotos + imagens do Google Earth com trilha plotada estão no Google +:
Feriado prolongado de 4 dias do 1º Maio chegando e o frio e a chuva (típicos do Outono) nada de dar as caras, então pensei numa trilha no litoral e como a Márcia já tinha comentado comigo sobre a llha do Cardoso, surgiu a idéia de fazermos a Travessia do Lagamar, começando pelo Parque Nacional do Superagui (PR) e terminando na Ilha do Cardoso (SP).
Peguei algumas dicas da Revista do Beck e fiquei estudando a melhor opção para essa travessia e devido à logística, tanto da ida como da volta, optamos por iniciar em Paranaguá e terminando na Ilha do Cardoso.
Algumas pessoas se mostraram interessadas, mas no final só o Wilinha que resolveu embarcar nessa empreitada comigo e com a Márcia, talvez em parte pela mudança no tempo que prometia chuvas intensas naquele final de semana do feriado.
No final vimos que a chuva não chegou a atrapalhar, mas sim o Sol muito forte que apareceu nos últimos dias da travessia (esse sim, tornou o final da caminhada muito cansativo - se pegássemos Sol no 1º dia íamos sofrer muito).
Marcamos de eu e a Márcia encontrarmos o Wilinha na Rodoviária do Tietê por volta das 23h30min de Quarta-feira (30/04) para embarcar as 23h45min em direção à Curitiba pela Viação Itapemirim.
Nosso objetivo era chegar na cidade por volta das 06:00 hrs e com isso a tempo de embarcar no ônibus das 06h30min pela Viação Graciosa em direção a Paranaguá, mas não contávamos com um atraso do ônibus que só foi chegar em Curitiba por volta das 07:00 hrs.
Por sorte tinha outro ônibus saindo as 07h30min, mas para nossa infelicidade já estava lotado e com isso restou a opção de comprar para o horário das 08h30min pela Viação Princesa dos Campos, chegando em Paranaguá pouco antes das 10:00 hrs com tempo bom e Sol.
Agora nós tínhamos que procurar algum barco que seguisse para o Superagui e lá fomos em direção ao cais, próximo ao centro histórico da cidade.
Lá um barqueiro estava juntando algumas pessoas (tinham + - 10), mas na opinião dele insuficiente para realizar a saída do barco.
Torcíamos para que chegassem mais pessoas, mas em vão.
Nossa alternativa era pegar um barco para Guaraqueçaba e de lá tomar outro para o Superagui, mas sem a certeza de chegar no Superagui naquele dia.
Quando já estávamos com essa opção acertada, a Ana (uma das 10 pessoas que também iriam para o Superagui) veio com uma boa notícia.
Ela tinha encontrado ali próximo o César (dono do barco Megatron e que sempre faz esse trecho) e já que ele estava de saída para o Superagui tudo se encaixou perfeitamente, marcando a saída para as 12:00 hrs e como tínhamos bastante tempo até lá, fomos conhecer uma parte da cidade, onde existem belos casarões e depois comer alguma coisa.
O valor era de $35,00/pessoa e saímos pouco depois das 12:00 hrs e só restava uma dúvida: o mar estava agitado e talvez tínhamos que chegar no Superagui por Guaraqueçaba, a fim de evitar o mar aberto e suas ondas fortes, mas em contato por rádio com a ilha, disseram que dava para chegar por mar aberto.
Mas não contávamos com a garoa que começou a cair assim que passamos próximo da Ilha das Peças, pois era um sinal de que poderíamos pegar ventos fortes e ondas quando chegássemos em mar aberto e foi o que aconteceu.
Até o César avisou que o barco ia dar uma chacoalhada.
Não demorou muito e logo o barco subia e descia onda e por pouco o que eu comi em Paranaguá não serviu de alimento para os peixes.
A ânsia de vomito foi grande e em alguns momentos o barco teve de desligar o motor para esperar algumas ondas fortes passarem.
Passamos apertado por esse trecho, mas conseguimos.
Refeitos do susto, chegamos no Superagui as 14h20min com chuva e o tempo totalmente fechado.
Para nossa tristeza, a chuva que a meteorologia tinha previsto estava chegando no litoral naquele dia. Depois do desembarque, fomos nos esconder da chuva até que ela diminuísse e depois seguimos para o Camping do Pacheco, que estava vazio.
Um casal e mais uma pessoa (que vieram no barco) também foram para esse mesmo camping e com a trégua da chuva deu para montar as barracas e ainda cobri-las de lona, fornecida pelo Seu Pacheco.
O local é plano e dispõe de energia elétrica e chuveiro quente. Existe até um fogão a gás com algumas panelas (ideal para quem não tem fogareiro). O valor era de $5,00/pessoa.
Depois das barracas montadas, eu, a Márcia e o Wilinha fomos caminhar pela praia e procurar algum bom lugar para comer.
Ainda passamos no Bar Akdov (local onde normalmente tem forró) e marcamos de jantar no restaurante em frente ao trapiche e aqui conhecemos um casal de Curitiba e ficamos conversando durante um bom tempo.
Voltamos para o camping já de noite e por volta das 20:00 hrs todos os 3 já estavam dentro da barraca e só uma coisa nos deixou preocupados: pouco depois de começarmos a dormir a chuva voltou e mais forte ainda e não parou mais, chovendo a noite toda.
Logo pela manhã, vimos que as lonas tinham resistido a intensa chuva e não deixaram entrar água nas barracas, mas percebemos que a chuva não ia parar e não tivemos alternativa senão o de desmontar as barracas e seguir na caminhada mesmo.
Por volta das 09:00 hrs nos despedimos de Seu Pacheco e seguimos em direção à Vila de Barra de Ararapira, ainda acerca de 27 Km.
Aqui a única opção é pegar uma trilha que segue por dentro da ilha, evitando com isso a travessia da foz de um rio que deságua na praia, que é muito difícil, ainda mais com as chuvas intensas.
A trilha para a Praia Deserta sai próxima do camping (na dúvida é só perguntar ao Seu Pacheco) e depois de uns 5 minutos segue por uma bifurcação da direita e logo chegamos em algumas casas e aqui existe uma placa apontando trilha para o lado direito.
Daqui para frente a chuva diminuiu e seguimos pela trilha sem erro.
Depois de uns 40 minutos de trilha, chegamos ao primeiro obstáculo: a travessia de um pequeno rio com largura de uns 5 metros e pela cor escura da água parecia ser bem fundo.
Eu e o Wilinha voltamos alguns metros e entramos na mata para tentarmos encontrar algum desvio para que pudéssemos atravessar o rio em um lugar seguro, mas em vão.
Quando estávamos voltando, encontramos a Márcia tentando atravessar o rio e deu para ver que ali não era tão fundo, para sorte nossa.
Com a ajuda de um galho todos atravessamos sem maiores problemas e seguindo a trilha ainda passamos por mais uns 3 rios, porém não tão fundo quanto o primeiro e quando já estávamos chegando perto da praia, a chuva voltou e aqui encontramos um casal de bikers que estava vindo de Barra de Ararapira.
Disseram que teríamos problemas quando chegássemos na Vila, porque a maré estava alta e os rios que desaguavam perto da Vila estavam bem cheios (Seu Pacheco tinha passado para gente de que deveríamos pegar uma trilha na mata para evitar a região da praia onde a maré estava alta, então não ficamos preocupados com isso).
O casal de bikers tinha tido dificuldades para encontrar o caminho, na qual a gente estava, pois eles não viram a trilha e tinham continuado pela praia, mas quando chegaram na foz do rio, tiveram que retornar, porque a travessia naquele ponto estava impossível.
As 10h40min nos despedimos deles e mais alguns metros chegamos na areia da praia.
Aqui o vento estava contra e o frio e a chuva dificultavam ainda mais a caminhada. De vez em quando a chuva diminuía, mas ela não parava.
Devido à chuva e aos ventos, a maré estava alta e quase não sobrava espaço na areia da praia para a caminhada.
Alguns trechos tivemos que seguir pelo barranco, onde havia vegetação e a areia não estava tão fofa.
Pelo GPS do Wilinha, nosso ritmo de caminhada estava em 3,5 Km/h.
Por volta das 13h30min a chuva e o vento cessaram e com isso paramos mais uma vez para descansar e fazer um lanche em frente a uma trilha que dá acesso a algumas casas de pescadores.
Com as roupas encharcadas retomamos a caminhada, mas agora sem a chuva, o frio e o vento.
Até aumentamos o ritmo da caminhada, Junto da areia encontrei uma bola de futebol infantil e fui chutando ela durante um bom tempo.
Passamos ainda por alguns rios que desaguam na praia, mas todos de fácil travessia.
A água desses rios é um pouco salobra devido a mistura com a água do mar, por isso traga água da Vila.
As 15h20min paramos novamente na entrada de um pequeno sítio, marcado por um tanque de reservatório preto trazido pelo mar e enquanto estávamos comendo começaram a surgir os primeiros raios do Sol.
Nesse momento a dona do sitio (D. Jandira) apareceu e ficamos conversando por um certo tempo.
Dizia que sua família sobrevive da pesca, mas é um lugar longe de tudo.
As 15h40min retomamos a caminhada, agora mais tranquilos porque já podíamos ver a Ilha do Cardoso ao fundo.
Conforme íamos contornando a Ilha e adentrando pelo canal, percebemos que não ia ser tão fácil chegar na Vila.
Nesse ponto da entrada do canal, a maré alta fez estragos na praia, derrubando inúmeras árvores e impedindo o acesso a Vila pela areia da praia.
Agora era procurar a trilha que entrava na mata à esquerda informada pelo Sr. Pacheco, mas com as arvores caídas não ia ser fácil encontrar o início dela.
Por sorte, quando estávamos chegando, encontramos um barqueiro que nos orientou sobre o local exato, onde a trilha se inicia e depois de uns 10 minutos avançando por entre as árvores caídas, achamos o início dela e aqui tivemos que subir o barranco que separa a mata da praia (as coordenadas geográficas desse ponto da entrada da trilha estão no final desse relato).
Depois de uns 20 minutos seguindo por trilha no meio da vegetação alta, voltamos para a praia, mas saímos em um ponto onde a maré permitia a caminhada pela areia e daqui pra frente tivemos que atravessar alguns rios e em um certo trecho só foi possível com o barco do Reginaldo (o mesmo que nos orientou sobre a entrada da trilha), pois o rio estava bem fundo por causa das chuvas.
Ainda caminhamos alguns minutos pela areia da praia e as 17h20min chegamos em frente ao Camping das Palmeiras que é uma das primeiras casas de Barra de Ararapira.
O lugar estava vazio e sem ninguém para nos atender - o local não é gramado, mas pode ser uma boa opção para acampar.
Seguimos Vila adentro até chegar na Igreja onde encontramos um orelhão que funcionava através de ondas de rádio (o único em um raio de vários kms).
Perguntamos a um morador (Seu Coto) sobre a travessia do canal até a ilha do Cardoso e ele disse que poderia fazer e cobraria $5,00/pessoa, que estava ótimo para gente.
Sobre o camping falou que poderíamos ficar em seu próprio quintal e que cobraria $5,00/pessoa também.
Não pensamos 2x e montamos nossas barracas no mesmo local de outros mochileiros que tinham ficado por lá 5 dias.
Eu e a Márcia usamos o chuveiro quente da casa e depois nós três ficamos conversando com Seu Coto durante um bom tempo e em seguida fomos preparar nosso jantar na varanda da casa.
O que nos deixou muito contentes foi ver um céu totalmente estrelado sem uma nuvem sequer.
A única coisa chata foi o furto de nosso salame por alguns gatos que estavam na varanda, que estavam mais famintos que a gente.
Marcamos com Seu Coto que iríamos atravessar o canal por volta das 08:00 hrs e em seguida fomos dormir. Pouco antes das 07:00 hrs acordei com o Sol forte batendo na barraca e tirei algumas fotos desses primeiros raios.
Ainda conseguimos ver alguns micos-leões da cara preta comendo coquinhos, próximos da casa.
Era uma quantidade grande de micos. Dava para notar que os maiores carregavam alguns filhotes nas costas.
Depois de vários clics fomos desmontar as barracas.
Agora era se despedir de todos e cruzar o canal de barco em direção ao Pontal do Leste, já na Ilha do Cardoso onde desembarcamos depois de 10 minutos (as 09h30min).
Aqui é o extremo sul do estado de SP e daqui seguimos por um caminho passando por algumas casas até chegar na praia onde iniciaríamos a longa caminhada de 15 km até a Vila de Marujá.
Conforme avançávamos pela praia em direção a Vila, o Sol castigava mais e mais e o cansaço já era bem maior que o dia anterior mesmo sendo uns 12 km a menos de caminhada.
O problema era encontrar trechos de sombra e o único estava a + - 1h30min de caminhada.
Quando chegamos em alguns pinheiros paramos para descansar e comer alguma coisa e ficamos aqui por uns 40 minutos.
Bem ao longe já conseguíamos ver alguns banhistas na praia, próximos de Marujá ainda a cerca de 1 hora.
As 13h20min chegamos na Vila e a primeira coisa que fizemos foi procurar algum camping para montar a barraca e ainda conhecer a Praia da Lage.
Ficamos no Camping da Débora e acertamos com ela o café da manhã para o dia seguinte.
No local funciona também uma pousada, mas já estava lotada. Depois de instalados seguimos para a Praia da Lage que estava a cerca de 1 hora de caminhada, mas quando estávamos passando pelo costão eu e a Márcia resolvemos parar ali mesmo para apreciar o pôr do Sol.
Logo voltamos para o camping e durante a noite ainda fomos procurar um local que vendesse a famosa cataia, que na verdade é uma pinga misturada com folhas da planta.
A impressão que tivemos é de ser uma pinga mais forte, nada mais. Ainda passamos no Restaurante do Beto para acertar o barco em direção a Cananeia para o dia seguinte as 14:00 hrs.
O mais difícil da noite foi aguentar o barulho de um forró e música ao vivo que estava próximo dali, que só foi terminar por volta das 02:00 hrs da madrugada.
No dia seguinte o Wilinha seguiu com um amigo dele para levar um grupo de turistas a uma cachoeira próxima e eu e a Márcia fomos para a Praia da Lage onde ficamos até as 11h30min.
Nessa praia quando estávamos atravessando o costão, uma onda muito forte (era a ressaca do ciclone que estava chegando) molhou a câmera fotográfica e dali em diante não pude tirar nenhuma outra foto. De volta ao camping arrumamos nossas coisas e seguimos para a frente do Restaurante do Beto de onde o barco iria sair.
O barco na verdade é uma voadeira e só estávamos eu, a Márcia, o Wilinha, o Beto, um amigo e o filho dele. O valor ficou em $35,00/pessoa.
A travessia de Marujá até Cananeia levou cerca de 50 minutos e o visual é lindo - vários outros pequenos canais vão aparecendo ao longo do trecho e tivemos a oportunidade de ver várias vezes golfinhos, tanto no canal quanto na chegada em Cananeia, onde aportamos pouco antes das 15h30min.
Agora era comprar as passagens para São Paulo no horário da 16h30min o que não foi difícil, já que o ônibus estava relativamente vazio.
O problema foi que ao longo do percurso foi parando várias vezes para pegar mais passageiros e quando chegamos em Registro, encontramos um outro ônibus que estava saindo em direção à São Paulo e tínhamos a informação de que esse outro ônibus iria chegar mais cedo em Sampa, então não pensamos 2x - trocamos de ônibus na hora e sem pagar nada a mais por isso, chegando no Terminal Barra Funda pouco depois das 22h30min.
Depois eu posto algumas dicas e infos úteis
Abcs
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