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divanei

Travessia Pindamonhangaba a Campos do Jordão

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Pindamonhanga a Campos do jordão

 

Já passava das cinco da tarde, quando joguei minha mochila nas costas

e sai quase sorrateiramente sem que minha filha percebesse, provavelmen-

te teria que escutar seu choro, querendo ir junto, e eu teria o maior prazer

em levá-la comigo, se tivesse mais idade. Quando desembarco em campinas

neste quinze de julho, apesar de não ser feriado, não encontro mais passa-

gem para Pindamonhangaba, e nem para qualquer outra cidade do vale do

Paraíba, a solução foi ir para capital, onde consegui com muito custo uma

passagem até Taubaté.

 

Passa da meia noite quando finalmente o ônibus da Pássaro marrom en-

costa na rodoviária nova da cidade. Desço do ônibus feito cachorro que a-

cabou de cair da mudança, sem saber para onde ir, pois transporte para Pin-

da , só ás cinco e meia da manhã. Resolvo achar um pulgueiro para dormir,

coisa que fiz com extrema competência, pois lugar pior do que aquele , em

que eu dormi, duvido que exista. Depois de uma péssima noite de sono, lá es-

tava eu, correndo feito um doido para chegar até o terminal, e pegar o ôni-

bus para Pindamonhangaba. Chegando a Pinda, o objetivo era encontrar

com uns primos meus que estavam acampados no bairro de Ribeirão Grande ,

junto a uma fazenda que é a sede nacional da filosofia Hare Krishna.

 

A nossa intenção era realizar uma travessia de montanha, que se iníci-

aria em um bairro chamado “Bairro do Pinga”, passaria pelo morro de mesmo

nome, subiria até o pico do Itapeva, já em Campos do Jordão, e desceria a Ser-

ra da Mantiqueira, até a fazenda Hare Krishna. Portanto as sete da manhã

embarco no ônibus, que em pouco mais de 40 minutos me deixa a 2 km da fa-

zenda Hare Krishna. Jogo a mochila nas costas e ponho-me a marchar neste

trecho final. Logo alcanço duas pessoas com quem puxo conversa. Descu-

bro que um deles pertence à fazenda Hare, e enquanto eu tento sem suces-

so arrancar alguma informação que poderia me ser útil, o indivíduo can-

tarola um mantra, do qual não consigo entender nenhuma palavra. Fi-

nalmente depois de meia hora encontro com os meus primos, e sem perder

muito tempo arrumamos nossas mochilas para o início da travessia, ou me-

lhor, eu arrumo a minha mochila, porque meu primo fez o favor de esquecer

a dele, e eu tive que carregar a bagagem praticamente sozinho. Tudo certo

e resolvido, a mulher do meu primo nos levou até o início da trilha, a uns 30

quilômetros da fazenda. Despedimos-nos dela, e prometemos nos encontrar

no dia seguinte, na própria fazenda.

 

Nossa caminhada começa na estradinha rural, que vai adentrando o

vale do Pinga, cada vez mais encostando nos paredões gigantescos da Serra

da Mantiqueira . Depois de alguns minutos, após cruzarmos um pequeno ria-

cho, tropeçamos em uma porteira preta, que não estava prevista no roteiro.

Voltamos um pouco para nos informarmos em uma casa próxima. As pala-

vras da gentil moradora não foram muito animadoras. Ela nos disse, que a

trilha que procurávamos , deixou de existir a muito tempo. Por falta de uso,

o mato tinha tomado de volta o que lhe pertencia, e a muito tempo ninguém

conseguia fazer mais esta travessia, inclusive alguns escoteiros tentaram

subir a montanha, mas não tinham alcançado nenhum sucesso . Alertou-nos

ainda para tomarmos cuidado com as onças, que estavam atacando muito

os animais da região. Quanto a isto não me preocupei, histórias de onças eu

já ouvira em quase todos os lugares, essa era só mais uma. Mas o caso da

trilha que desapareceu, isso sim me deixou preocupado. O roteiro que eu se-

guia, já tinha mais de dez anos e não era muito claro. Resolvemos arriscar,

afinal de contas não tínhamos nada a perder, só a nos perder. Voltamos a

porteira preta, e depois de uma análise, descobrimos que ela havia sido pin-

tada, e que sua cor original era azul, justamente a porteira que constava

em nosso mapa. A estradinha agora subia pra valer e depois de passar por

uma bica de água, entrou na mata, até finalmente terminar em uma portei-

ra,e em mais cinco minutos de caminhada, chegamos a um degrau na montan-

ha, onde pudemos ter a nossa primeira grande visão de todo o Vale do Paraí-

ba e de todo o vale que havíamos bordejado . Aqui há uma casa, que foi re-

formada a pouco tempo, sua construção data da década de 50 , e o proprietá-

rio, o sr Luís Reis, nos recebeu muito bem . Enquanto batíamos um bom papo,

um esquilo exibido, brincava em um mourão de cerca. O seu Luís também dis-

se que alguns rapazes haviam passado por ali na semana passada portando

um GPS, mas não conseguiram chegar a lugar algum . Contrariando mais uma vez os proguinósticos negativos, seguimos nosso caminho.

 

A pequena estrada, agora deu lugar a uma estreita trilha, que em

mais alguns minutos nos levou a uma enorme casa de caboclos . Feita de

madeira e barro, esta construção muito antiga, hoje simboliza a decadên-

cia desta região. Nela mora apenas um indivíduo, que teima em tentar so-

breviver neste pedaço de terra tão hostil. Aqui não há energia elétrica ou

qualquer outro indício de progresso, e até a casa não tarda em desmoro-

nar. Continuamos subindo a trilha, até que depois de quinze minutos trope-

çamos em duas casas em ruína. Uma delas totalmente destruída, a outra a-

inda se segurava em pé. Mas servia somente, como moradia para dezenas de

morcegos. Foi nesta decrépta habitação que recolhemos em um pequeno ri-

acho a última água disponível que teríamos para o resto da travessia.

 

Daqui para frente começava o nosso pesadelo. Procuramos, mas não

encontramos trilha alguma que nos levasse ao alto da serra, como estava

descrito no roteiro. Tentamos todas as direções, mas não obtivemos sucesso

em nenhuma delas. Calculo que perdemos a trilha um pouco abaixo das ca-

sas em ruína. Resolvemos então enfrentar o mato no peito, guiando-nos a-

penas pela bússola. Prefiro subir por uma canaleta de água, onde havia al-

gumas bananeiras plantadas. O caminhar é lento e dificultoso, os cipós in-

sistem em agarrar-se nas nossas mochilas. De repente ouço um barulho de

algo correndo no mato. Meu primo mata logo a minha curiosidade. Dá um

pulo pra cima e grita: “É um tatu, um tatu galinha” . Eu não sabia que o cara

era especialista em tatus. Finalmente emergimos da mata no topo desta ser-

ra. Que prazer estar aqui, sentir o vento no rosto e poder observar toda a

beleza da Serra da Mantiqueira, com seus paredões gigantescos, seus vales

profundos recobertos com a mais bela mata, que o olho de um ser humano

pode apreciar a Mata Atlântica, patrimônio da humanidade. Daqui já avista-

mos o Pico do Itapeva, que será alcançado só no dia seguinte. Também já a-

vistamos daqui o Morro do Pinga, nosso próximo objetivo a ser alcançado.

 

Depois de um bom descanso, retomamos a trilha que se metia no meio de

enormes samambaias, na direção noroeste. Em alguns minutos a trilha sim-

plesmente desapareceu e tivemos que seguir nossa intuição. Seguimos bor-

dejando o vale do Bonfim a nossa direita. De repente estávamos travados

em uma parede rochosa sem ter para onde ir, tentando adivinhar para que

direção o diabo desta trilha havia seguido. Parados ali feito lagartixa na

pedra, resolvemos tentar achar a trilha mais abaixo, mas para isto seria

preciso tentar descer da parede. Foi quando meu primo com uma atitude to-

talmente desastrada e até meio irresponsável resolveu pular da pedra, na

vegetação logo abaixo. Resultado, o chão estava mais longe do que ele

pensava, e o cara caiu feito uma jaca madura e por pouco não bateu a cabe-

ça em uma enorme pedra que estava logo abaixo de nós. Passado o susto,

descemos ao selado logo abaixo e reencontramos a trilha procurada.

 

Estávamos agora com a encosta do Morro do Pinga, subindo a nossa es-

querda, mas nossa trilha não ia até o topo, continuava seguindo para nor-

deste até chegar de novo a floresta. Entramos na mata, mas de repente

sem nenhuma explicação, a trilha, que já não era clara subtamente desapa-

receu. A incerteza começava a tomar conta de nós. Havíamos chegado até

ali na raça, mas as coisas agora estavam muito complicadas. Tentei achar

a trilha no meio da floresta, infelizmente sem sucesso. Saímos da mata para

tentar achar outra solução, e depois de muito procurar achamos um rabo

de trilha meio apagada. A trilha não era lá grande coisa, mas pelo menos ser-

viu par nos dar alguma noção de direção. Tínhamos que tentar achar ago-

ra, uma cerca, que nos faria mudar radicalmente de direção. Claro que

não encontramos cerca alguma, mas depois de meia hora de caminhada com-

seguimos localizar o tal selado que teríamos que atravessar. Chegando

lá achei uma trilha mais nítida, que se iniciava depois de uma porteira de

arame farpado. No começo a trilha até era bem aberta, mas depois de algum

tempo, ela também desapareceu, e mais uma vez toca a gente ter que rasgar

o mato no peito. Nesta briga incansável com a vegetação, acabei caindo em

um buraco, que engoliu a minha perna, que acabei não quebrando por pura

sorte. De repente a mata acabou e vimos surgir diante de nós, dois gigan-

tescos vales, um a direita e outro a esquerda. O da esquerda nos deixava

ver ao longe, algumas casinhas, que indicava ser ali o tal bairro de Piracu-

ama descrito no nosso mapa. Já o da direita, nos proporcionava uma lin-

da visão de suas matas verdes e preservadas. Percebemos depois de algum tempo que a única maneira de cruzarmos os dois vales, seria pelo selado logo a baixo. Mas como chegar até lá? Se trilha alguma conseguimos encon-

trar. Ora, do mesmo jeito que chegamos até aqui, abrindo trilha no peito. A

vegetação agora não era mais composta de árvores, mas sim de samambaias

de mais de dois metros de altura. Que sufoco!! Prosseguíamos lentamente,

vencendo a vegetação centímetro por centímetro, até esbarrarmos em al-

gumas árvores isoladas, a meio caminho do selado. Paramos para descan-

çar um pouco.

 

O sol já ameaçava se jogar atrás da serra, e nós ali parados no meio

de lugar algum, sem um centímetro plano e limpo para acampar. Escalei

uma das árvores para melhor avaliar nossa posição. Estava cansado e

com algumas dores pelo corpo, e dali de onde estava a melhor solução

seria mesmo continuar seguindo em frente, até tentar alcançar a mata lo-

go abaixo, pelo menos lá teríamos como achar algum lugar que desse para

montar uma barraca. A decisão que tomamos se mostrou logo acertada e

em menos de meia hora estávamos caminhando dentro da mata, até que avis-

tamos ao longe o que parecia ser o telhado de alguma habitação perdida

por estas paragens. Chegando ao local vimos que se tratava apenas de cai-

xas para apicultura. E em mais um minuto desembocamos no que deveria ser

no passado uma estradinha, que hoje não passava de uma mera trilha um

pouco mais larga.

 

O local era perfeito para acampamento. Gramado, plano e seco. O único problema é que não tínhamos mais água, e não era ali que

acharíamos o precioso líquido, pois estávamos muito longe dos vales, onde

provavelmente algum riacho cristalino e gelado pudesse nos abastecer.

Do final desta estradinha, onde pretendíamos acampar, encontramos

uma trilha bem batida, com sinal de que era bem utilizada pelo pessoal da

região. Mas de onde vinha? Para onde iria? Enquanto meu primo se recom-

punha e descançava no nosso futuro acampamento, fui investigar. Subi pela

trilha durante uns dez minutos. A trilha serpenteava montanha acima e

talvez, nos fosse útil no dia seguinte . Mas foi nesta trilha que encontrei,

para nossa sorte, dois pés de laranjas lima carregados . Posso dizer que foi a destruição da lavoura. Colhi o tanto de laranjas que uma pessoa magre-

la, de 58 kg podia carregar. Voltei ao acampamento, e enquanto meu primo

montava a barraca, fui investigar a parte da trilha que descia ao vale, pra

ver se achava água. O sol já acabará de se recolher a oeste e reinava sobre

o vale apenas a penumbra, que dava ao local um ar de mistério e fascínio e

enquanto eu caminhava pela trilha, ouvia apenas o barulho do vento e do

riacho, que provavelmente corria a centenas de metros abaixo. Caminhava

a passos largos, quase correndo. Foi quando de repente cai e bati o joelho em uma pedra. A dor era tanta que fiquei ali caído, uivando para o vale, fei-

to lobo. Levantei-me e recuperado da dor e do susto, continuei descendo e

percebendo que nada encontraria, resolvi voltar.

 

Temos que agradecer muito, a sorte e a nossa competência de termos

conseguido chegar até aqui neste fim de dia, como é bom poder tirar nossas

botas e apreciarmos uma janta quentinha. Mesmo que nossa comida não pas-

se de uma mera lata de feijões, enriquecida com uma lata de sardinha e um

pouco de queijo ralado. Se tivéssemos encontrado água podíamos nos dar ao

luxo de cozinhar um bocado de arroz, mas não podemos reclamar. A lua es-

tá clara, não há nenhuma probabilidade de chuva. Já são quase sete horas

da noite e antes mesmo que eu me recolha para dentro do meu saco de dor-

mir, meu primo já havia apagado. Foi um dia longo e cansativo e novas aven-

turas nos esperavão no dia seguinte.

 

Antes das 06 da manhã já estávamos de pé. Desmontamos acampamento

e sem mesmo tomar café, por motivos óbvios, nos pusemos a caminhar. O nos-

so mapa dizia que deveríamos seguir para o oeste, até encontrarmos a tri-

lha principal, que subia do vilarejo de Piracuama. Mas a trilha de conecção

a esta trilha principal, não mais existia e então resolvemos ariscar a subir

pela trilha batida que havíamos encontrado no dia anterior, acreditando

que ela se encontraria com a trilha principal, já quase no meio da montan-

ha. Caminhávamos com muito vigor e a passos largos, aproveitando a tem-

peratura fresca da manhã. Conforme amansávamos na trilha, atrás de nós

iam surgindo vistas de montanhas e vales mais distantes, sinal que ganhá-

vamos altura com grande rapidez. Em pouco tempo a trilha entrou na mata e virou de vez para oeste, confirmando a nossa suspeita. E em quarenta mi-

nutos a dita cuja surgiu em nossa frente, sem aviso prévio e nos fez comemo-

rar este golpe de sorte, ou de competência.

Esta nova trilha deve ser muito antiga, pois se apresenta larga e

bem consolidada. Provavelmente é usada por tropeiros e viajantes, que pro-

curam encurtar o caminho entre o Vale do Paraíba e o sul de minas, claro,

passando primeiro por Campos do Jordão. Por ela é possível até, com muita

perícia e habilidade, subir de moto.

 

Subíamos de vagar, aproveitando para apreciar , quando a mata fecha-

da abria uma janela, as casinhas de Piracuama, quilômetros abaixo de nós.

A caminhada era gostosa e desimpedida. Sobre nós passavam as frondosas

copas das enormes árvores, nos oferecendo sombra que ajudava a arrefecer o calor. Andávamos no ritmo de um pé na frente do outro, quase sem

conversar, apenas ouvindo o som do mato, da batida do coração e do ar de

nossos pulmões. Eu na frente, o Lindolfo atrás . Às vezes desviávamos dos

profundos sulcos que iam aparecendo na trilha, causados provavelmente

pelas patas dos cavalos que eventualmente frequentam estas paragens. Foi quando em uma curva da trilha, de repente, sem que eu esperasse, sur-

giu eu minha frente, algo que eu jamais esperaria encontrar nesta trilha.

Algo que eu já vinha sonhando ver, nestes quase quinze anos de caminhada

em lugares remotos. Caminhadas em florestas e montanhas, em vales e ca-

vernas, em serrado e plãnices . Lugares desertos em que passei dias sem ver viva alma. E agora ali estava , e eu não estava sonhando, era real. Ali na

minha frente se encontrava o maior carnívoro das nossas matas, o mais te-

mido, o mais lendário, o mais folclórico, aquele que não perdoa ninguém,

aquele que come bicho, come gente. Aquele que mete pânico nas pessoas da

cidade e do campo. O bicho? A famosa e espetacular ONÇA. Isso mesmo, uma

onça. Uma onça adulta. Uma ONÇA PARDA. Uma Suçuarana. E agora eu es-

tava ali, frente a frente com a “comedora de homens” frente a frente a cin-

co metros de distancia. Ela caminhava em minha direção, com a cabeça bai-

xa, caminhava como um enorme gato. Tem um ditado que diz que você , nun-

ca estará certo de sua coragem , antes que se encontre com o perigo . Acre-

ditem, medo algum eu tive. Se tivesse tido, diria sem problema algum. Não

quero aqui me fazer de grande corajoso, pois não o sou. Apenas estou pas-

sando o que senti ao ficar cara a cara com a “fera”. Esperei tanto por este momento, que a única coisa que consegui sentir, foi uma emoção e um prazer

imenso de estar ali. Não fiquei mudo, pelo contrário, soltei um grito, para

denunciar ao meu primo a presença do bicho. “Uma onça, uma onça,olha Lin-

dolfo,uma onça” . Nesta hora o maravilhoso animal levantou a cabeça, me

olhou nos olhos, deu meia volta e entrou no mato. No mesmo instante,pude-

mos ouvir um miado que parecia ser de seu filhote . Sim, ela estava acompa-

nhada. Ouvimos também os passos da onça na mata, ao nosso redor, parecia

que ela não queria se distanciar de sua cria. Subimos os próximos metros

da trilha com todo cuidado, não queríamos que o animal se sentisse acuado.

Caminhei os próximos minutos na trilha, quase sem sentir os pés tocar

o chão, estava inebriado, não sabia se ria ou se chorava. Ri e chorei, chorei

copiosamente, escondendo as lágrimas atrás dos meus olhos de acrílico.

 

Em menos de uma hora, cruzamos uma porteira e a trilha nos cuspiu

fora da mata e nos lançou a um degrau na montanha. Ventava tanto que

era quase impossível para nós ficarmos em pé. A vista era com certeza a ma-

is bonita da caminhada, até agora. Dali já avistávamos o pico do Itapeva e

toda a extensão da Serra da Mantiqueira, com seus enormes picos bei-

rando os 2800 metros. Depois de um breve descanso, adentramos em um reflo-

restamento e logo depois já caminhávamos com a ilustre presença das ara-

ucárias. Finalmente chegamos a uma rústica habitação e pudemos enfim nos

afogar de tanto beber água, cedida gentilmente por um caboclo habitante

desta região. Ele também nos serviu um revigorante café e algumas bana-

nas. Despedimos-nos deste novo amigo e em vinte minutos já estávamos com

a rampa de acesso ao Pico do Itapeva sob os nossos pés.

 

Quem vem a turística Campos do Jordão, dificilmente deixa de vir ao Pi-

co do Itapeva. Ponto obrigatório, o Itapeva talvez seja o pico mais turístico

do Brasil. Chegva-se aqui por uma estrada asfaltada, e bem conservada. Nes-

ta época de inverno toda a nata da sociedade, principalmente paulistana,

vêm desfilar com seus carrões importados e suas roupas de grife . Se como

formação rochosa o pico não é grande coisa, em contra partida a vista que

ele proporciona é fabulosa.

Subimos a rampa de concreto, deixando para trás as lojinhas que vem-

dem roupas de lã e outras inutilidades mais. Enquanto caminhávamos em di-

reção ao topo, os ricos nos fulminavam com olhar de reprovação. Possivel-

mente nossas roupas destoavam da maioria. Parece que na visão deles éra-

mos viajantes do tempo. Talvez, do tempo das cavernas. Estendemos nossa

bandeira no topo, tiramos algumas fotos, brindamos com refrigerante ge-

lado, mandamos os burgueses a merda e seguimos nosso caminho.

 

Por mais três quilômetros,caminhamos por uma estradinha de terra ,

sempre com o Vale do Paraíba a nossa direita . E em quarenta minutos, em

uma curva da estrada encontramos a trilha que nos levaria de volta ao

vale. No começo a trilha é praticamente uma estrada, que serpenteia entre

o reflorestamento de pinus. O caminhar é bem agradável, e por todo tempo a sombra é nossa companheira. Não demora muito e a trilha propriamente dita aparece. É uma trilha batida, larga e de fácil caminhar. Nos surpreen-

de o esplendor desta floresta, com suas árvores de grande porte. De den-

tro da mata não se avista muita coisa. A caminhada de resume em por um pé

na frente do outro, com o cuidado para não se esborrachar nos desníveis

que vão surgindo a nossa frente. Com pouco mais de uma hora de caminha-

da chegamos a um platô na montanha. Um ótimo lugar para acampar, com

vistas desimpedidas para quase todos os lados. Que lugar lindo!! Quem me

dera se tivesse tempo para ficar a tarde toda apreciando o mundo daqui de cima. Não é a toa que três grandes religiões escolheram este lugar para construir seus templos. O templo Hare Krishna, uma religião indiana, o

Santo Daime, uma religião criada nos confins da Amazônia e o templo da re-

ligião católica, representada pela basílica de Aparecida . Mas o tempo é

curto e após um breve descanso, nos lançamos novamente montanha abai-

xo. Perdíamos altura rapidamente e eu ia à frente com o passo acelerado,

tão acelerado que acabei deixando meu primo para trás, e ele meio desaten-

to, acabou pegando um desvio errado na trilha e foi parar do outro lado do

vale. E foi só através de seus gritos que consegui localiza-lo, e traze-lo de volta a trilha principal. Falando em perder a trilha, não sei onde foi que

deixamos escapar a trilha de conexão que nos levaria direto para o templo

Hare . Acabamos passando batidos e fomos parar a uns três quilômetros a direita de onde deveríamos ter saído. Toca enfiarmos a cara de novo na

mata e nos guiarmos apenas pela intuição na direção do templo. Às vezes a-

vistávamos apenas as torres do templo, dando-nos a sensação de estarmos

caminhando em direção aos templos perdidos na selva do Camboja.

 

Finalmente chegamos a fazenda Nova Gokula, que em sânscrito, signi-

fica lugar onde as vacas são protegidas. Passamos pela Vila Védica, vila

construída para que os devotos pudessem levar uma vida de extrema simpli-

cidade. Adentrar na área do templo, é se sentir como se estivéssemos na

própria Índia. Do seu topo soa uma música que acalma a alma. As mulheres

com suas roupas extremamente coloridas e com suas pintas de argila na

testa, simbolizando os chacras, faz esquecermos por alguns instantes que

estamos no Brasil. Enquanto meu primo corre para avisar sua família que

chegou vivo. Fico sentado por alguns instantes nas escadarias do templo,

admirando aquelas pessoas totalmente estranhas a minha cultura.

 

Como já passava das duas da tarde, aproveitamos para experimentar

a deliciosa comida vegetariana, que aqui eles chamam de ¨prachada¨ (todo

alimento oferecido a krishna, deus). Antes de pegarmos o caminho de volta

para casa, ainda vimos dezenas de vacas sagradas tentarem enfiar seus chi-

fres bentos em um pobre porquinho. A situação foi muito cômica, menos para

o porco, é claro. Se há pessoas que cultuam a vaca como um verdadei-

ro santo, mesmo sendo um animal totalmente sem graça e sem poesia. Posso

garantir que nesse final de semana ao me deparar com a onça, me encontrei

com ¨deus¨. É, isso mesmo. Foi um privilégio que muito pouca gente já teve.

Quantos passam à vida toda morando no pantanal e na floresta amazônica

sem nunca ter avistado uma onça. Talvez agora eu faça parte do pequeno

grupo dos iluminados, dos escolhidos. A única certeza que tenho, é que ao

me encontrar com este deus de nossas matas, descobri ser este um deus do

bem, e que de assassino nunca teve nada. Ao ficarmos frente a frente, nos

olhamos e nos respeitamos. Cada um seguiu seu caminho. Ela, floresta aden-

tro e nós, montanha acima.

 

 

Divanei / julho de 2005 .

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Refazer os roteiros do Beck ( q já datam de quase uma década e merecem uma boa atualizada!) dá nisso! Sao prova de persistência e total desprendiamneto! O Pinga realmente é vara-mato atualmente, eu q o diga.. vc nao viu ainda o Vista Alegre e tantos outros..

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É Augusto

Antes de postar o relato eu perguntei como é que se fazia, você não me disse nada . Agora já estou sabendo . Também não sou escritor, apenas quis compartilhar com outros as experiências de uma boa caminhada .

Valeu , obrigado pela dica .

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Jorge ,

Já fiz o Vista Alegre e realmente você tem razão . A trilha acabou, tivemos que abrir mato no peito e isto é uma triste constatação, as pessoas estão sempre fazendo as mesmas coisas e deixando algumas trilhas desaparecerem do mapa .

Um abraço .

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Bom se o problema eram as letras maiúsculas . PROBLEMA RESOLVIDO !!!!!!!!!!!!!!!!

Esta internet é muito cheia de frescura mesmo . Vou para as montanhas que é lá que é o meu lugar , rsrsrsrsr.........

Um abraço .

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Mas eu nem imaginava que vc escrevia em letras maiusculas.

 

Mas blz, o texto ficou bom.

Aguardamos mais relatos hein. ::otemo::::otemo::::otemo::::otemo::::otemo::

 

 

Abcs

 

 

 

É Augusto

Antes de postar o relato eu perguntei como é que se fazia, você não me disse nada . Agora já estou sabendo . Também não sou escritor, apenas quis compartilhar com outros as experiências de uma boa caminhada .

Valeu , obrigado pela dica .

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Olá Divanei

 

Meus parabéns pela travessia !

Em janeiro de 2004 tentei faze-la duas vezes, sem sucesso. Aliás, quando você relatou que o seu Luis havia dito de alguns rapazes de GPS eu até pensei que fosse nós (mas não bate com a data do seu relato, em julho de 2005). Aliás (2), quando eu passei o olho pelo seu relato, antes de o lêr na íntegra, cheguei a desconfiar que era o meu relato modificado ! Pois passamos exatamente pelos mesmos lugares e mesmas dificuldades, mas em nosso caso pela falta de tempo não tivemos a oportunidade de tentar seguir mais, e tivemos que voltar. Pelas minhas contas, você levou uns 3 ou 4 dias para essa travessia ? Você tem o tracklog desta travessia ? Fiquei com vontade de tenta-la novamente ! Mas certamente vou levar bastante água -- nós também sofremos com isso em nossa incursão.

 

Meu relato sobre nossa incursão está em http://blog.blag.us/morro-do-pinga/'>http://blog.blag.us/morro-do-pinga/

 

Estarei de olho por uma resposta neste fórum, mas também peço a gentileza de me contatar para batermos um papo sobre nossa aventura !

fortes abraços e boas aventuras !

Lex Blagus - [email protected] - http://blog.blag.us/

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Então Blagus ,

Fiz esta trilha seguindo o roteiro antigo do Sergio Beck .Trilha realmente não existe mais, mas depois de passado o perrengue , acho que não é difícil de faze-la . Assim que você emergir depois dos sítios após a casa do seu Luis, é só seguir até um ponto em que encontrará um selado que liga os dois vales, acho que é o único ponto possível para passar . Ali existe uma trilha, depois de uma cerca de arame( se é que tudo isso ainda existe) e no final quebre a direita, talvez sem trilha e ande uns 50 métros . Desça a esquerda varando o mato e samambaias, porque não ha trilha alguma . Você vai chegar na mata, ai vai ficar mais fácil de andar. Siga enfrente e você chegará em uma trilha bem aberta, foi o local onde acampamos . A trilha seguirá para a esquerda, subindo o morro até se conectar com a trilha principal que sobe de Piracuama e dai pra frente não tem erro, a trilha vai sair la na estrada que vai ao Itapeva, e a descida acho que você já sabe, não deve haver problema .

Mas tudo isso é muito superficial, falar é fácil , mas na hora do vamos ver é complicado . Nós ficamos muito tempo perdidos lá e sofremos muito . Quanto ao tempo de caminhada, 2 dias são mais do que suficiente, se você não se perder muito . Um dia até o Itapeva e depois mais um ´para descer até o templo .

Bom mais se você quiser mais detalhes ou até mesmo falar comigo, terei o maior prazer em

ajudá-lo . Entra lá na minha páguina do Orkut, é só procurar por Divanei Goes de Paula.

Um abraço e boa sorte .

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Senhores, editores :

Achei legal a criação de um tópico só para as travessias. Não sei qual foi o critério usado para transportar os relatos para lá. Se for possível gostaria que esse relato também mudasse para o outro tópico(trilhas e travessias) . Um abraço.

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Oi Divanei,

Não tinha achado esse ainda. É que nós estamos caçando todos os tópicos pra mandar pra lá. Se achar mais que encaixe lá me envie uma MP ou se cadastre como colaborador que fórum dos colaboradores tem todas as infos sobre esta mudança e você já é na pratica um grande colaborador da comunidade. ::cool:::'> ::cool:::'>

 

Abraço,

 

Silnei

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Muito bom o relato. Mesmo que você tenha atribuído parte do sucesso à sorte, parabéns!

Pretendo fazer essa travessia nesse feriado (12-15 de novembro), mas não tenho o livro do Sergio Beck que você citou. Há algum lugar onde eu possa encontrar mais detalhes da trilha, como algum mapa ou até mesmo rascunho? Não tenho GPS e, dada a aparente dificuldade de navegação da travessia, não queria arriscar apenas com o roteiro e um mapa de satélite. Espero que você veja o post a tempo de responder. Bom, isso tudo se o tempo permitir...

Abraço!

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Carbonecaio,

Infelizmente não consegui ver o post a tempo, pois teria o maior prazer em ajudá-lo. Tomará que você tenha se dado bem na trilha, ou melhor , no vara mato(rsrsrsr). Não creio que o livro do beck iria ajudá-lo muito por lá , já que está pra lá de desatualizado.Um abraço.

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Marcelo,

Se for só a trilha que sobe da fazenda não é necessário mapa algum, pois a trilha é muito aberta e frequentada, é so perguntar lá na Nova Gokula que eles te informão. Agora se for a volta completa a coisa se complica, parece que pouca gente frequenta esta trilha e ela está praticamente fechada e você terá que varar algum mato. Dê uma lida no relato e vê se consegue entender. Se não conseguir é só dar um grito, que eu vou tentar ajudar. Um abraço.

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cara...a ultima vez que eu perguntei onde começava a trilha lá na nova gokula,eles nem ao menos souberam me dizer de onde se tratava!

o pessoal de lá são poucos os que conhecem a região...nem as cachoeiras eles sabem?!!?

mas se é aberta,então não tem muito problema...

pelo menos,dá para brincar um pouco...hehe

ah!!!

esta trilha do hare,é a que para no platô que é dito no relato de viagem?!

pois se for,quero tirar umas fotos de lá!

abcs

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Bom marcelo,

Recapitulando : Na verdade na travessia completa usamos duas trilhas, uma que sobe até o Pico do Itapeva e outra que desce até a fazenda Nova gokula. Tudo isso para dar uma volta completa. Você póde subir pela trilha da fazenda até o Itapeva e depois voltar por ela mesmo. A trilha é realmente muito batida.

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Aproveitando o conhecimento de voces da regiao, faz tempo que me interessei em fazer uma trilha saindo da Fazenda Hare em direção ao Pico do Itapeva ( não sei se é bem pelo morro do Pinga, já tinha ouvido falar que essa trilha tava num varamato só) e esticando até o Pico do Diamante. Só que os relatos que tenho sao antigos e as poucas infos mais atuais que encontrei deixavam um alerta para ocorrencias de assalto no Diamante e no selado e no valezinho que o separa do Itapeva... (cheguei a ver num blog fotos de placas em Campos do Jordão com as indicações para chegar ao Pico do Diamante encobertas, meio que na intenção de )

 

A duvida, se é que alguem tem pernado por lá: como está essa regiao hoje, mais segura? Dá pra pensar em pernada por ali ou é melhor continuar deixando pra lá?

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Cris,

A trilha que sai da fazenda não é a mesma do morro do Pinga. Mas é claro dá para interligar as duas , fazendo uma volta completa, bom para quem deixou o carro na fazenda hare. A trilha que sai da fazenda é super segura, pois já entra por propriedade particular(liberada, ou pelo menos era). Da fazenda já cai no mato e na montanha e nem pilantra que fazer esforço nenhum para assaltar alguem. O final da trilha já é quase no Itapeva, lugar muito movimentado e seguro. Já a trilha que sobe pelo vale do morro do pinga é bem selvagem e só ficará aberta quando se encontrar ocm a grane trilha que vem la do bairro de Piracuama, mais ai você já estará no meio da montanha, sem os possíveis perigos.Já o Pico Diamante não faço a minima ideia de onde é. Espero ter ajudado, qualquer coisa é só perguntar. Um abraço.

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O Diamante fica um pouco a frente do Itapeva, a sudoeste e tambem dá pra chegar lá de carro. Li infos de duas trilhas que ligam os dois, acho que a mais conhecida é a Trilha da onça - nas fotos de um passeio do Augusto em Campos do Jordao, lá no pico do Diamante , aparece a trilha clara subindo o proximo morro na direção do Itapeva.

Mesmo no Google Earth dá pra intuir por onde ela passa - do Itapeva, desce em direção ao "lago", e toca pra sudoeste pelo selado, cruzando areas de mata e areas de "pasto" até o diamante. E é justamente nesse trecho que eu li sobre os relatos de assalto.

 

Mas é bom saber que da fazenda Hare sentido Itapeva é mais tranquilo... pelo menos essa ai dá pra desencavar...

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