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Prólogo

Virou costume.

Nas ocasiões sociais, volta e meia um amigo ou parente solta a frase: “E aí, qual sua próxima caminhada?”. Confesso que fico surpreso, pois fiz pouquíssimas trilhas até hoje. Inclusive não faz muito tempo eu ia de carro à padaria da rua de baixo. Porém, pelos caminhos sinuosos da vida, acabei me encontrando pelas trilhas afora. E nos últimos tempos a resposta para tal pergunta era: “vou caminhar em torno do Mont Blanc, cruzando as fronteiras da França, Itália e Suíça.”

Fiquei ciente desta trilha através dos relatos do Elias, do portal Extremos. Antes de pesquisar mais detalhes, a primeira palavra que me vinha à cabeça relacionada ao Tour era “neve”. Ainda não a conhecia pessoalmente. Seria uma ótima oportunidade, somado ao desafio físico mais intenso que a trilha demandaria. Valeria a pena cruzar o oceano para isso.

Iniciei então as pesquisas sobre o TMB. Destaco algumas informações interessantes:

  • A trilha percorre cerca de 170 km (dependendo da rota e das variantes escolhidas, pode aumentar um pouco) em torno do Mont Blanc, atravessando 3 países: França, Itália e Suíça. O sentido pode ser horário e anti-horário, sendo o último o mais tradicional (e que eu optei).
  • Não há um lugar oficial de início. Tradicionalmente a maioria das pessoas inicia em Les Houches. Optei por fazer o mesmo, apesar de vir pela Itália. Teoricamente seria mais prático iniciar por Courmayeur. Porém descobri que dessa forma, os últimos 4 ou 5 dias formariam a sequência mais dura do percurso. Iniciando por Les Houches, quebraria estes dias difíceis em 2 partes.
  • A duração do Tour pode variar entre 8 e 12 dias, dependendo do preparo e disponibilidade de tempo.
  • O período para se fazer a trilha é restrito ao verão (final de Junho até meados de Setembro) pois a neve e o mau tempo inviabilizam boa parte da rota no restante do ano. O inverno de 2018 na Europa fora rigoroso, então eu estava ciente de que poderiam haver algumas complicações na trilha por conta do degelo mais tardio em algumas rotas.
  • Pode-se contratar agência com guia, autoguiada (sem o guia, mas com as hospedagens e orientações de rota providenciadas) ou seguir por conta própria, fazendo pessoalmente as reservas. Optei pela última opção, após descobrir que a trilha é bem sinalizada. Encaro o planejamento como uma parte interessante da aventura.
  • As hospedagens variam entre hotéis e albergues nos vilarejos, e abrigos de montanhas nas partes mais isoladas. Muita gente segue acampando, porém é bom atentar que nem todo trecho possui permissão para camping.
  • Voando do Brasil, as cidades mais práticas para se pousar são Genebra, Paris ou Milão. Fui por Milão pois faria um tour pela Itália após a caminhada.

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DIA 0 – Les Houches

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Cheguei em Chamonix na parte da manhã, vindo de Courmayeur. Fui dar uma volta na cidade para matar o tempo até o horário de check-in no albergue de Les Houches, às 14h. A cultura de esportes outdoor e alpinos é exalada por todo o local, com diversas lojas de grandes marcas da área e turistas desfilando com suas roupas e mochilas técnicas.

No início da tarde tomei um ônibus para Les Houches (há linhas de ônibus que circulam pela região – Le Tour, Argentiere, Chamonix, Les Houches, etc. Custam 2 euros o trecho ou 3 euros o ticket para o dia todo).  A atmosfera do albergue (Gite Michel de Fagot) já me era familiarpor conta da experiência no Caminho de Santiago, 2 anos antes. No meu quarto, conheci uma figura com a qual eu conviveria (e que foi responsável por alguns momentos divertidos) por toda a trilha, Park, um coreano de 63 anos. Após o jantar coletivo, fui dormir e tentar descansar para o início do Tour no dia seguinte.

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DIA 1 - Les Houches a Les Contamines (18,4 km)

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Inaugurando a rotina dos abrigos de trilha, acordei cedo, tomei café, arrumei a mochila e parti para a caminhada do dia. Logo no início, descobri que uma boa parte das pessoas sobe ao primeiro passo de montanha (Col de Voza) pelo teleférico. Corta cerca de 5,5 km e uma subida quase 600m. Mas meu objetivo era caminhar 100% do tour. Subida cansativa para um início de trilha. E o caminho em si não era muito interessante.

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Chegado ao passe, tomei um café em um estabelecimento por lá. A partir dali há 2 opções de caminho. Uma mais tranquila, pelo vale, e outra mais pesada, pelos passos de montanhas. Neste dia peguei a trilha mais complicada. Queria as vistas dos topos das montanhas.

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A partir dali, a subida ficou bem pesada. Trilhas de terra em ziguezague sem uma parada para respirar. Quase no passo mais alto do dia (Col de Tricot), vejo que o caminho em frente estava coberto de neve. Era meu primeiro contato com ela, e seria complicado. Instalei os spikes que comprei para as botas e subi tranquilo, com velocidade, me achando. Então logo atrás me aparece um bando de adolescentes que seguiam sem os spikes. andando tranquilamente e sem escorregar, feito o Legolas do Senhor dos Anéis. Depois cruzei com outras pessoas também sem o equipamento. E eu era o único tonto com aquele aparato. Paciência... Pelo menos fui prudente. Não sabia andar na neve e tomei precauções por isso.

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Chegando ao Col de Tricot, me deparei com uma vista espetacular. Muitas pessoas paravam ali para comer e apreciar o local. Resolvi comer também um sanduíche que levava. Fiquei um bom tempo ali em cima até resolver continuar. Teria que encarar uma descida pesada. E meus joelhos sempre foram um problema nas trilhas. Mas depois de muito treino e uma perda considerável de peso corporal, o joelho não reclamou. Mas a descida acabou sendo um pouco complicada. A trilha beirava grandes barrancos, com muitas pedras soltas e em alguns pontos, pouco restava de um caminho desmoronado. Quase escorreguei algumas vezes. Ao final da descida, cheguei ao Refuge de Miage. Tomei uma cerveja, cuidei dos pés e segui em frente.

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Durante todo o trajeto até aqui o tempo manteve-se aberto e o sol rachando. Já eram 3 da tarde e segui para a segunda subida, mais curta que a anterior. Pena que o tempo fechou em torno do Mont Blanc e não pude avistá-lo durante a tarde. Logo, peguei a última descida até o local onde eu iria pernoitar. Foi relativamente tranquilo. Mas a medida que a cidade se aproximava, parecia que a trilha não acabava nunca. Enfim cheguei ao albergue. E ao procedimento de sempre: depois de caminhar 10 horas, tomar banho, lavar a roupa (com as costas reclamando) e jantar. E mais uma cerveja para fechar a noite. Foi a trilha mais difícil que fiz até hoje. Por enquanto, sem maiores dores ou cansaço. Mas teria mais 10 duros dias pela frente.

 

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DIA 2 - Les Contamines a Refuge La Croix du Bonhomme (13,2 km)


Na noite anterior, durante o jantar, um saudita que estava fazendo o tour em sentido oposto (horário) me disse que algumas variantes à minha frente estavam meio perigosas. Muito por conta da complicação em se orientar através grande quantidade de neve cobrindo as trilhas. Sabendo disso, tentaria me informar com detalhes sobre as condições da trilha antes de decidir seguir ou não por algum caminho.

O caminho do dia seria uma subida constante até o passo du Bonhomme. Meu destino final seria um refúgio de mesmo nome, mais à frente. A trilha saindo de Les Contamines seguia ladeando um riacho, cuja água proveniente do degelo de verão já demonstrava certa força e volume. O dia estava claro, mas por um bom tempo caminhei sob as sombras das montanhas ao redor do vale.

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Não havia andado muito e passei pelo refúgio de Nant Borrant. Pensei em fazer uma parada para um café, mas não vi movimento e segui em frente. A partir dali o caminho seguia através pastos de gado, serpenteando pelo vale e subindo em direção às montanhas ainda cobertas de neve à frente. Aquela paisagem alpina ao meu redor me parecia saída de filmes. Apesar de viver em um estado montanhoso – Minas Gerais – estas eram de outra linhagem, inédita aos meus olhos. Várias pausas para fotos eram inevitáveis (e nem eram a famigerada desculpa para tomar aquele fôlego).

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Ao atingir determinada altitude, começaram as travessias de campos de neve. Neste dia eu estava disposto a testar a caminhada sem os spikes, depois do excesso de zelo do dia anterior. Foi mais tranquilo do que eu imaginara. A trilha de pegadas já escurecida se destacava na brancura da neve. E pisar nesta área já amaciada pelos passos dos pioneiros tornava a travessia bem mais fácil, somado ao fato de ser somente subida.

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Conheci um casal de brasileiros por ali (os únicos conterrâneos que vi durante todo o restante do tour). Após uma breve parada no passo para um descanso, seguimos para o Refúgio la Croix du Bonhomme. O caminho até lá, apesar de curto, foi um pouco mais complicado. Nos perdemos algumas vezes em trilhas não muito claras e cruzamos alguns campos de neve mais escorregadios. Mas chegamos com relativa tranquilidade.

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Já no refúgio, acomodei minhas coisas no quarto e fui tomar uma cerveja. Os brasileiros seguiriam caminho, pois planejavam completar o tour em 8 dias. Não havia forma de lavar roupa por ali, então apenas pendurei as peças do dia para tomar um sol. O banho quente estaria disponível às 17h, com um detalhe: apenas 2 minutos por pessoa (nestes refúgios a água quente é bem limitada, então os banhos têm que ser rápidos). Uma fila já se formava em frente aos banheiros alguns minutos antes (2 duchas para homens e 2 para mulheres). A cada pessoa que saía, já de banho tomado, uma salva de palmas se iniciava do corredor, tornando a espera um pouco mais divertida. O jantar foi servido às 19:30, e lá conheci algumas pessoas de diversas nacionalidades. A seleção brasileira jogaria contra a Sérvia pelas eliminatórias da Copa do Mundo, às 20. Mas não havia tvs por ali. E a internet 4g só funcionava em um ponto da varanda. Mas consegui acompanhar o placar. Após o jantar, fiquei lá fora, tomando uma cerveja e apreciando uma lua cheia que surgia por trás das montanhas geladas, enquanto a luz do dia se esvaía.

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DIA 3 - Refuge La Croix du Bonhomme a Rifugio Elisabetta (19,2 km)

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O dia amanheceu nublado. Um nevoeiro espesso pairava sobre o abrigo e tapava a vista das montanhas ao redor. Eu deveria decidir se seguiria a descida até Les Chapieux ou iria pela variante pelo passo des Fours. Esta variante encurtaria a distância até o refúgio Des Mottets, porém prometia ser tecnicamente difícil e, conforme falado pelo Saudita em Les Contamines, havia muita neve e estava fácil se perder ou mesmo cair por lá. Um francês que eu vinha encontrando pelo caminho me convenceu a seguir por Les Chapieux, por conta do tempo feio. Posteriormente, um casal de suecos que havia passado pela variante me disse que eu havia feito a escolha correta. Que cruzaram por lá com tranquilidade por conta da experiência prévia com a neve, algo que seria difícil para alguém sem tal habilidade.

Não se passou muito tempo de caminhada e o tempo se abriu. Foi uma descida monótona através de caminhos rochosos. Em Les Chapieux, parei em um refúgio para um café. O caminho adiante seguia pelo asfalto, iniciando uma extensa subida pelo vale.

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A caminhada prometia ser fácil e monótona, mas é nessas horas de desatenção que a trilha cobra seu preço. Peguei um caminho errado e não cruzei o riacho que ladeava a estrada. Alguns quilômetros à frente o caminho terminava em uma pequena hidrelétrica. Eu teria 2 opções: voltar 30 minutos e subir novamente pelo outro lado, ou tentar cruzar o leito quase seco do riacho aos pés do paredão. Resolvi tentar a travessia. Havia uma escada de marinheiro na parede da margem onde eu me encontrava. Desci a mesma e cruzei pelo leito. Apesar de não haver grande volume de água, a mesma ultrapassava a altura das minhas canelas, então foi inevitável encharcar as botas. E o medo dos pés molhados causarem bolhas surgiu. Mas não podia voltar atrás na decisão e subi o barranco da outra margem, tomando finalmente a trilha correta.

O caminho continuava pelas encostas das montanhas, sempre subindo pelo vale. Ao meio dia cheguei ao refúgio Des Mottets, onde fiz uma parada para uma cerveja e uma tentativa de secar as botas e trocar as meias. Pendurei as meias molhadas na mochila e passei a fazer paradas frequentes para trocá-las.

Após alguns quilômetros de subida, alcancei o passo de la Seigne, onde se cruza a fronteira da França para a Itália. E naquela altitude, cruzei alguns campos de neve, algo que eu já havia me acostumado a fazer e não me gerava mais preocupação.

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Cruzado o passo, seguia-se uma descida leve e logo caminhava por uma planície rodeada por montanhas nevadas, cenário muito bonito. E alcancei assim o destino do dia, o Refúgio Elisabetta. O responsável pelo local, Davide, era um italiano que havia morado alguns anos em Salvador, portanto falava bem o português. Acomodei minha mochila no dormitório, onde experimentaria pela primeira vez a experiência das camas coletivas no tour: três andares de plataformas em madeira sustentavam colchões colados lado a lado. Um pesadelo para os mais frescos. Mas eu já estava naquele espírito de encarar o que viesse. Não seria um problema para mim. Banho ligeiro, jantar devorado, segui para a cama para descansar para a caminhada do dia seguinte.

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DIA 4 - Rifugio Elisabetta a Courmayeur (15,7 km)

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A caminhada do dia prometia ser tranquila. Uma subida pesada, mas curta, se destacava na primeira metade, e o restante seria uma longa descida até a cidade de Courmayeur. Mas o destino se encarregaria de providenciar alguns obstáculos para acrescentar alguma emoção à trilha.

Segui por alguns quilômetros um caminho praticamente plano até o lago Combal, onde uma bifurcação dividia a trilha para o caminho tradicional (pelo alto) e para a variante (pelo vale), que era recomendada em caso de mau tempo. Eu vinha caminhando nos últimos dias com 2 jovens singapurianos. Um deles estava com uma bolha infeccionada em um dos pés e andava com dificuldade. Resolveram por isso tomar a variante mais leve, enquanto eu seguiria por cima. Nunca mais os encontrei. Escutei rumores de que haviam abandonado a trilha posteriormente, mas não pude ter certeza.

A subida, apesar de íngreme, foi sendo vencida com tranquilidade. Porém, logo no início, o primeiro desafio: pedaços de uma ponte de gelo sobre um riacho haviam desabado. Eu me deparei com duas escolhas: tentar cruzar o riacho pulando sobre algumas pedras emergentes, ou subir pela margem ainda coberta de neve e tentar achar outro ponto para cruzar. Porém essa subida era bem inclinada e o ponto de cruzamento, incerto. Resolvi arriscar pelas pedras. Fatalmente acabei pisando algumas vezes no leito do riacho e encharcando minhas botas. A partir dali, tomei o mesmo cuidado do dia anterior: paradas constantes para secar os pés e trocar as meias molhadas.

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Ao final da subida, alcancei o ponto mais alto do tour (2.430m). O tempo aberto e a posição proporcionavam uma vista espetacular das montanhas e glaciares e do próprio Mont Blanc. Fiquei ali por um tempo enquanto deixava as meias e botas ao sol para secar um pouco.

Segui caminho, e logo no início da longa descida até Courmayeur, um campo de gelo que aparentava ter a mesma dificuldade de todos os anteriores, revelou-se bem mais perigoso. Estava bem escorregadio (neve ainda dura) e havia uma grande inclinação para baixo no trecho final. Qualquer passo em falso ou escorregada, seria uma queda montanha abaixo. Foi a primeira vez que fiquei com medo real no TMB. A cada vacilada, a sensação de "morri", caracterizada por uma corrente gelada que subia a espinha e só não arrepiava meus cabelos por conta da ausência dos mesmos...

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Passado o aperto, continuei a descida, que seguiu tranquila dali para frente. Fiz uma parada no refúgio Maison Vieille para almoçar. Depois, uma descida íngreme e monótona até Courmayeur, que colocaram meus joelhos à prova. Se não sentisse dor após esta, estaria 100% recuperado das dores que sentia nas descidas de trilhas anteriores. E não precisaria mais das incômodas joelheiras, que nessa altura, só ocupavam espaço na mochila.

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Aproveitei a estrutura de Courmayeur para lavar uma boa parte da roupa. É uma cidade cara, então a lavanderia custou mais caro que um bom jantar. Mas ter as roupas limpas é muito bom também. E nem sempre temos como lavar e secar as mesmas nos refúgios. Também fiquei em um hotel neste dia. Aproveitaria um pouco de privacidade, espaço e conforto para variar. Mas os dormitórios e camas coletivas não estavam sendo de nenhuma forma um problema para mim. Meus padrões de conforto mudaram muito nos últimos anos com estas experiências em trilhas. Desapego sendo aprendido e exercitado.

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DIA 5 - Courmayeur a Rifugio Bonatti (12,2 km)


Acordei tarde para aproveitar o café da manhã do hotel. Tenho comido relativamente pouco se contar o esforço físico. As comidas dos refúgios sao bem regradas, e não é raro eu caminhar por 8 horas somente com o café da manhã no estômago.

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Hoje resolvi seguir a trilha comum, no lugar da variante. De Cormayeur, uma subida íngreme pelo bosque, que levou cerca de 2 horas, terminava no Refugio Bertone. De lá, o caminho bifurca para a trilha oficial ou para a variante pelos passos de montanha.

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O caminho que segui era praticamente plano a partir dali, seguindo pelas encostas das montanhas que cercavam o vale. Um cenário bem diferente do dia anterior, com muitos campos floridos, resquícios da primavera que mal terminara. A vista por todo o percurso era sensacional. Cruzei com muitos habitantes das cidades ao redor, que aproveitavam o bom tempo (me disseram por lá que uma sequência de dias de tempo aberto como aqueles era bem raro por ali) para subir a trilha e aproveitar o sol. Muita gente de roupa de banho lá em cima, deitados na grama ou fazendo piquenique. Também vi muitos corredores que treinavam para a ultramaratona que ocorre anualmente por ali.

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O ponto negativo da trilha mais “fácil” foi a presença massiva de grupos de caminhantes. Dá para diferenciá-los pelas roupas caras e muito limpas, mochilas pequenas e a tendência bizarra de andarem sempre em bando, colados uns aos outros, com velocidade reduzida. Isso causava um certo congestionamento no caminho, pois é difícil ultrapassá-los nas trilhas estreitas. Seria legal se as agências/guias reforçassem algumas boas práticas de trilha, como ceder passagem e não fazer tanto barulho.

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O caminho foi tão tranquilo que demorei a chegar ao destino do dia, pois ficava enrolando sentado curtindo a paisagem. Como esse semi-descanso poupei as minhas pernas, pois o dia seguinte prometia ser pesado. No refúgio Bonatti, onde pernoitei, novamente vi muitas pessoas que claramente eram habitantes dos vilarejos em ao redor, que faziam pequenos trechos em bate-volta para curtir o local. Este refúgio possui, na minha opinião, uma das mais espetaculares vistas da trilha, com um paredão de montanhas nevadas (incluindo o Mont Blanc) à frente. Pena que não me permitiam ficar do lado de fora depois das 22, pois eu pretendia tirar algumas fotos do céu estrelado e o dia estava muito propício. Paciência...

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DIA 6 - Rifugio Bonatti a La Fouly (19,8 km)

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Depois do trajeto tranquilo do dia anterior, o mapa de altitude prometia um dia mais pesado para hoje. Um sobe-desce de respeito. Mas creio que o corpo já se acostumou, pois achei o percurso bem tranquilo. O único percalço, bem no início, foi uma ponte de gelo perigosamente fina, sobre um riacho. Optei por passar pela água (com bota molhada eu sei lidar, com risco de queda do gelo, não...). Os anos da adolescência jogando Super Mario se justificaram e consegui pular de pedra em pedra sem molhar os pés. Alguns corajosos arriscavam cruzar a ponte de gelo. Faziam um desvio para cima, na esperança da mesma estar menos fina. Mas não havia como se certificar. Era arriscado.

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A subida do dia foi bem íngreme. Mas subi com tranquilidade, tentando ultrapassar alguns grupos que caminhavam em fila. Uma cerveja no refúgio Elena, no meio do percurso, ajudou a dar um gás. Chegando ao passo Ferret, parei para ficar de bobeira e tirar fotos. Ali era também a fronteira entre Itália e Suíça.

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Continuando para o lado suíço, a trilha agora constituía em uma longa descida até o vilarejo de La Fouly. Logo no início, um campo de gelo que parecia assustadoramente íngreme se revelou como apenas uma ilusão de perspectiva. E eu já estava me acostumando com o caminhar no gelo. Fiquei tão confortável que levei o primeiro tombo, felizmente em uma parte sem perigo algum.

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Vi algumas pessoas mancando e descendo de lado, reclamando de dor nos joelhos. E eu com minhas joelheiras aposentadas, guardadas dentro da mochila. E apesar de estar andando por locais cercados por montanhas cobertas de neve, faz muito calor durante o dia e o sol está de rachar. Estou com queimaduras piores do que quando vou à praia, apesar de parar sempre para reaplicar protetor. Quem diria que sairia do Brasil para pegar um bronze nos Alpes.

La Fouly é um vilarejo suíço bem característico, com chalés de madeira, flores coloridas nos jardins e varandas e claro, a cadeia de montanhas nevadas em volta. Há uma pequena estrutura com caixa eletrônico, mercado e uma loja de equipamento esportivo. Os dormitórios coletivos dos hotéis seguem o padrão dos refúgios, com colchões dispostos lado a lado, colados uns aos outros. Isso geralmente não representava problema para mim, até esta noite em especial.

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DIA 7 - La Fouly a Champex (16,9 km)

Sr Park, o coreano que eu havia conhecido no primeiro albergue, estava no mesmo quarto que eu. E falava dormindo. Se fosse somente pelo barulho, não me incomodaria. Mas a entonação estava engraçada e eu segurava o riso, sem conseguir dormir. Outras pessoas no quarto tentaram acordá-lo, mas sem sucesso.

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No guia que usei como referência, o caminho de hoje era descrito como o mais fácil de todo o Tour. Comprovei a veracidade. A trilha não subiu para os usuais passos de montanhas, e sim seguiu cortando pelo vale, em meio aos intermináveis bosques de pinheiros suíços. E, no terço final, caminhei por outro desses típicos vilarejos suíços, com os já familiares chalés de madeira e seus paredões de lenha para o inverno. E claro, muitas flores enfeitando-os.

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Dali até Champex, o destino do dia, a trilha segue uma subida um pouco mais pesada, passando por um bosque onde esculturas de animais cavadas nos troncos de árvores cortadas, enfeitavam o bosque. O vilarejo localiza-se às margens do lago de mesmo nome. O dia estava bonito e ensolarado e as pessoas curtiam a tarde pescando ou praticando esportes aquáticos.

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Havia, porém, um pequeno problema no meu planejamento deste dia: havia reservado um abrigo 2 km após Champex, no caminho para a variante que seguia até o passo chamado Fenêtre d’Arpette. Mas, por conta de deslizamentos de encostas, a passagem por esta variante estava fechada. Eu teria que retornar ao vilarejo no dia seguinte para seguir pelo caminho oficial.

Depois de uma subida pesada (os últimos km sempre parecem intermináveis e difíceis), cheguei cedo para o check-in do albergue, que só poderia ser feito dali a 1h. Mas me deixaram tomar banho e lavar minhas roupas, o que acabei adiantando. No decorrer da tarde vi algumas vans e ônibus trazendo grupos guiados para se hospedarem ali. Acho que eu era um dos poucos no local que fazia o caminho por conta própria. E é um pouco mais difícil interagir com as pessoas desses grupos já estabelecidos.

No abrigo não havia tv ou sinal de internet. E haveria mais um jogo da seleção brasileira pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Não sou muito fã de futebol. Mas não havia nada para fazer naquele local. Mais cedo, um irlandês com o qual eu fizera amizade, havia me convidado para assistir ao jogo em um bar em Champex. Mas isso significava pegar uma trilha de 2 km até lá, e imediatamente após o jogo, voltar para chegar a tempo para o jantar. Mas deixei a preguiça de lado e resolvi encarar a caminhada bônus. Felizmente fui compensado pelo esforço com uma vitória da seleção. E claro, tomando uma boa cerveja.

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Subi rapidamente a trilha para o refúgio após o término da partida. Começara a chover e eu temia pelas roupas no varal. Felizmente consegui chegar a tempo de recolhê-las antes de um estrago maior. Após o jantar, fui dormir cedo, às 21h. E no dia seguinte, às 6h, despertaria para mais outro dia de caminhada.

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DIA 8 - Champex a Trient (15,5 km)

 

O tempo nublado pela manhã ameaçava a caminhada com a possibilidade de chuva. Apesar dos cuidados extras com os equipamentos impermeáveis, até que ela seria bem-vinda. Um descanso para a pele já descamando sob o sol inclemente dos alpes.

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Andei pelos bosques de sempre, conversando com um grupo de israelenses que conheci nos dias anteriores. Mas logo já estava sozinho. Os diferentes ritmos de caminhada, somado à dificuldade técnica não favorecem socializações muito longas no Tour (algo que era muito comum no Caminho de Santiago em suas trilhas quase planas).

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Após uma descida suave, alcancei um vale com os seus típicos chalés rurais. A partir dali, uma longa e íngreme subida seguiria até a fazenda Alpage du Bovine. Sem problemas, pois a única subida que me amedrontava nesta viagem era a do Euro. Ali há um rústico chalé de pedra, onde os trilheiros podem descansar nas mesas externas, tomando um café com tortas variadas, enquanto curtem a vista do vale abaixo. Fiquei lá por quase uma hora, relaxando e batendo papo com alguns conhecidos.

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O sol continuava castigando, e o calor do meio dia chegava ao seu máximo. Não raro avistava algum coreano caminhando com sombrinhas. Para eles, o bronzeamento da pele é algo encarado de forma negativa.

A descida após o Bovine prometia ser suave, de acordo com o gráfico de altitude. Mas acredito que a soma do calor, da longa subida anterior, e do peso da mochila, me causavam um certo incômodo nos pés naquele dia. E descidas, ao contrário do que se imagina pelo senso comum, não raro são mais penosas para o caminhante que as subidas, pois geram um impacto maior. Essa dor nos pés me era familiar e me gerava um pouco de apreensão pela sua causa.

Algumas pessoas tinham como destino o albergue de Col de La Forclaz, quase no final do percurso. Para quem planeja fazer a variante do dia seguinte, é o local ideal para pernoitar, pois o caminho se divide por ali, obrigando a quem fica em Trient a retornar. Mas eu não tinha a intenção de fazer este caminho, devido ao inesperado cansaço que me abatera no dia. Desci então para o vilarejo, por uma trilha íngreme e com alguns trechos interditados por recentes desmoronamentos, obrigando a tomar alguns desvios.

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Passei o restante da tarde no albergue, pois não notei nada de muito interessante no vilarejo para se conhecer. Só a rotina de sempre mesmo: banho, lavar algumas roupas, uma cerveja, jantar e cama

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DIA 9 - Trient a Le Tour (14,1 km)


"Ando devagar porque já tive pressa..."

Logo pela manhã descobri o motivo da caminhada do dia anterior ter sido pesada para mim. Uma sombra que me derrubou no Caminho de Santiago e tentava novamente. Uma bolha. No mesmo pé, na mesma posição e com a dor familiar. Apareceu de vez hoje de manhã apesar de estar se manifestando a um tempo. Tenho convicção de que ela, como da vez anterior, surgiu por conta da pressa de chegar ao destino. A passada fica ruim e o suor completa o serviço. Talvez pelo tédio pelos intermináveis bosques de pinheiros, subindo e descendo através das montanhas suíças. Ou pela alimentação exagerada do ego ao ultrapassar os outros caminhantes. Queria chegar logo ao destino e corria. E o castigo veio.

Então nesta manhã decidi andar devagar. Procurei mudar a pisada. E assim segui, pegando uma subida pesada logo de início até o passo de Balme. E, de repente, estava lá em cima, sem me cansar ou sentir dores. Assim como na vida, às vezes precisamos mudar a estratégia e recomeçar devagar para atravessar alguma adversidade.

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Após cruzar o passo, me despedi dos intermináveis bosques suíços e voltei para o território nevado e rochoso da França. Estava de bom humor e com energia. O clima do dia correspondia. A previsão de tempo nublado e possibilidade de chuva acabou não se concretizando, mas a frente fria trouxe uma brisa fresca para substituir os dias quentes e penosos que me torturava. Até o Mont Blanc, sempre cheio de nuvens cobrindo seu cume, aparecia limpo, imponente na vista durante boa parte do percurso. E, pelo alto da trilha, pude enxergar toda a extensão do vale onde as cidades de Argentiere, Chamonix e Les Houches se localizavam.

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Deixando o Refúgio de Balme, há algumas opções de caminho a se tomar: Uma descida direto à Le Tour ou Argentiere, descer via teleférico até estas cidades ou seguir a variante pelo pico Aiguilette des Posettes. Como eu estava me sentindo bem, decidi por esta última. Opção acertada, pois logo após a última subida do dia, alcancei um dos pontos mais bonitos do tour. Do pico, é possível avistar todo o vale, o Mont Blanc e glaciares em volta. Fiquei por ali por um bom tempo curtindo aquela visão. E depois segue-se uma longa descida até Le Tour.

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Somando a sorte do bom tempo com a mudança do modo de andar, a caminhada de hoje foi bastante agradável. E um exemplo de como um obstáculo pode te levar a novos aprendizados e vivências. E compreender que o que importa mesmo é ir tocando em frente....

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