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Leandro Z

Travessia dos Lençóis Maranhenses: Barreirinhas a Santo Amaro (4 dias)

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Apesar de haver bons relatos no site, espero contribuir com o meu.

  • Há 4 ônibus diários entre São Luís e Barreirinhas pela viação CISNE BRANCO, R$51, demora 5h (não procurei vans saindo do aeroporto direto pra Barreirinhas, mas existem).
  • Dizem que é melhor fazer a travessia no sentido Barreirinhas - Santo Amaro, por causa da posição do sol e do vento.
  • A estrada São Luís-Santo Amaro é relativamente nova, está boa e é mais perto que SLZ - Barreirinhas. Além disso, as lagoas de Santo Amaro são mais bonitas.
    • ATENÇÃO com a volta de Santo Amaro para São Luís, acho que não tem ônibus (se tiver, são raros) e dependemos do guia em achar uma van que ia pra lá. Geralmente, este último dia termina 12:30h e o transporte até São Luís demora 4h30min.
  • Grande parte da travessia é em areia firme e fria, então é melhor andar descalço ou com meia. Também tem inevitáveis passagens por lagoas menores, onde se molha, pelo menos, as pernas. Elas são boas para se refrescar (o tempo inteiro eu andei molhado ou úmido de propósito).
  • Melhor época: junho e julho, alguns dizem agosto e até setembro, mas nestes muitas lagoas já estão secas.
  • Preços: como junho e julho são os melhores meses, só diária do guia custa até R$250; hospedagem (café da manhã incluído), em redário, sai por R$35; jantar: R$30 a R$35; água de 2l: R$8. Converse com o guia para ver o que está incluído no preço dele (passeio pelo rio Preguiça, hospedagens e refeições, etc).
  • Cansar vai, mas com certeza vale a pena. Acredito que uns treinos de caminhada de 8km sejam suficientes para preparação.
  • Esta é a travessia mais tradicional do parque, mas tem outras de 6 até 10 dias!
  • Levar: poucas roupas (inclusive com proteção UV), meias, chapéu (nessa época, não precisa levar nada para frio, nem tênis), chinelo, protetor solar, água (pode ser comprada em cada parada),  snacks (frutas desidratadas, amendoim e castanhas), dinheiro em espécie, lanterna (não é essencial, não precisa na caminhada, mas ajuda nas hospedagens), coisas de higiene pessoal (sabonete, escova, pasta, repelente). É recomendável levar aquelas baterias portáteis, power bank, mas dá pra usar a eletricidade em algumas hospedagens.

Dia 28/jun - 1º dia: Pegamos um barco em Barreirinhas para fazer o passeio pelo rio Preguiça (R$80) por volta das 10h, o guia já nos acompanhava. O passeio é tranquilo, para em Mandacaru, onde tem um farol, também para em Caburé onde tem dunas e uma lagoa. Termina em Atins, banhamos em uma praia. Depois, final de tarde, caminhamos até Canto de Atins, cerca de 3,5h em ritmo tranquilo, sem paradas para banhos, o GPS marcou 12km de caminhada durante o dia todo (pareceu bem menos). Em Canto de Atins, tem dois restaurantes/pousada: do seu Antônio e da dona Luzia. A dona Luzia foi pioneira e é mais famosa, mas o guia disse que a fama subiu-lhe a cabeça, ficamos no seu Antônio. O camarão na chapa é o prato chefe de ambos, não é barato (com refri e água, saiu R$50 cada um o jantar), mas realmente estava muito gostoso. Dormimos em rede (R$35), local coberto com palha, com luz, mas sem paredes, até às 2:30h da manhã.

 

Dia 29/jun - 2º dia: Prometia ser o mais pesado, cerca de 17km até Baixa Grande (o quarto dia que foi o mais cansativo). Começamos a travessia por volta das 3:15h, depois de um bom café da manhã, caminhamos sob a lua cheia iluminando tudo e temperatura amena. Andamos pela praia um bom tempo, cerca de 4h (com direito a cochilada no caminho) até chegar às dunas. Valeu a pena? Sempre, no entanto, tem gente que faz este trajeto de carro e isto economiza umas boas horas. Nas dunas, subida, descida, banho em algumas lagoas. Terminamos em Baixa Grande às 12:10h. Cansei muito! O GPS marcou, durante todo o dia, uns 27km. Eu digo "durante todo o dia", porque ainda caminhávamos pelos arredores do local da hospedagem para conhecer lagoas, rios, ver o pôr-do-sol. Baixa grande é um vilarejo no meio do deserto, mas com construção de alvenaria e vegetação por perto. Almoçamos galinha caipira por R$35 (preço padrão e não é você que escolhe o que comer). Descansamos e, à tarde, fomos para uma lagoa e ver o pôr-do-sol. Dormimos, como sempre, em rede (R$35 preço padrão), sem iluminação, mas coberto com palha e "paredes". O dia seguinte seria mais tranquilo.

 

Dia 30/jun - 3º: Este terceiro dia foi tranquilo, acordamos por volta das 4:30h para sairmos às 5h, após café da manhã simples (tapioca e ovo). Caminhamos devagar, parando bastante em lagoas e terminamos antes do meio-dia em Queimada dos Britos, o GPS indicou 15km. Eu comecei a usar meia, pois vi que estava começando a formar bolha no meu pé. Almoço (R$35) era peixe (estava salgado), teve salada (artigo raro) e até sobremesa. Lagoas, pôr-do-sol, jantar e dormir cedo, porque não tem muito que fazer a noite.

 

Dia 1º/jul - 4º: De novo, acordamos umas 2:15h, tomamos café e saímos para caminhar às 3h e alguma coisa. Só terminamos à 12:30h, exaustos, em Santo Amaro. Foi o dia mais longo e mais cansativo, cerca de 28km. Neste dia, mais uma vez, é possível pegar um transporte em Vassouras, economizando assim, uns 10km. Pergunta se pegamos? Não. Faltando uns 8km (talvez 6km), o guia novamente perguntou se queríamos pedir um carro e pagar R$50 cada um. Pegamos o carro? Claro que não, só faltavam 8km! kkk. As lagoas perto de Santo Amaro são bem mais bonitas que as de Barreirinhas e, acredito eu, o turismo em Santo Amaro irá aumentar com a boa estrada até são Luís (só falta transporte).

 

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Em 19/02/2019 em 11:13, Laura Zigue disse:

Leandro, Sabe me dizer se há transporte de barreirinhas até santo amaro, ou a travessia é feita apenas por trekking?

Tem sim, não é ônibus de linha, mas o pessoal sempre conhece alguma van ou carro que está indo.

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Fui nos pequenos e nos grandes lençóis, achei um dos locais mais lindos que já conheci. É um pouco caro, para meus padrões de vida, porém vale a pena.

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    • Por leticia&MV
      Continuando meus relatos de viagem, em DEZEMBRO 2014 fui com meu marido e minha irmã para Paraíba e Rio Grande do Norte.
      Uma viagem incrível. A Paraíba tem uma comida barata e deliciosa, peixes super frescos. Fiquei no Hotel Nord Imperial na orla da Praia de Tambaú.
      O hotel nos disponibilizou um taxista por um valor muito bom, para nos buscar no aeroporto. Foi bem pontual.
      A surpresa é o sol a "pino" às 04:00h da manhã, uma delícia para quem gosta de acordar cedo e ama o sol. 
      O primeiro dia chegamos de madrugada e nos surpreendemos com a alvorada, coisa linda o sol nos recepcionando na praia de Tambaú.
      O Hotel Nord Imperial um espetáculo, café da manhã delicioso, tapioca fresquinha (coma quantas quiser), funcionários nota 10.
      Contratamos um guia para maximizar nossos dias e fazer bastante coisa, valeu muuuito a pena. Ele nos levou nas melhores praias e para comer em lugares baratos e deliciosos.

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      Ficamos um dia inteiro nessa praia de tão bom que foi.
       
      Partimos para NATAL.
      PEGAMOS UM ÔNIBUS DE PIPA PARA NATAL, DEU A VOLTA AO MUNDO, LOTADO. UM VERDADEIRO HORROR. NÃO FAÇA ISSO!!!
      Em Natal nos hospedamos no hotel Areias de Ouro (2014), próximo a orla da praia do morro do careca. Não gostei do hotel, eles nos deixaram em um quarto ruim no primeiro andar, a hospede sobre nosso quarto andava de salto alto e não nos deixava dormir, expus o caso e pedi para nos trocar de quarto (eu procurei saber e descobri que haviam muitos quartos disponíveis) simplesmente me ignoraram.
      A praia do morro docareca é divertida, muita gente, espreguiçadeira, na época era só consumir, não precisava pagar a espreguiçadeira em si.
      Na praia passa gente vendendo.de tudo.Paguei 25 reais em 50 Camarões com macaxeira.
      DUNAS DE GENIPABU

      Você vai precisar contratar um bugueiro para te levar. São dunas de areia quente, com um litoral lindo. Tem até passeio de camelo.
      Desci de tirolesa da duna para o lago, muito bom. Algumas pessoas ficam vendendo espetinho de lagosta por 5 reais (em 2014), que delícia.
      No final do passeio o guia nos levou a um restaurante ruim e caro, a única coisa que valeu foi a vista incrível.
      O TURISMO EM NATAL É MUITO EXPLORADO, ME SENTI UM POUCO INCOMODADA COM ISSO, JÁ O TURISMO NA PARAÍBA É TRANQUILO, VOCÊ É TRATADO COMO SE MORASSE LÁ, NÃO COMO TURISTA.
      Marcamos um passeio com sr que apareceu no programa Estrelas da Globo. Ele nos levaria para dar uma volta na praia pendurado em um paraquedas colorido que ele puxa com seu jipe. Infelizmente não rolou, ele mal conseguia falar pelo telefone, estava embriagado. Furou no dia do passeio.
      Ainda bem que não adiantei valores!
      Troquei pelo passeio de quadriciculo, foi maravilhoso, inclusive paramos para ver o maior cajueiro do mundo.
      No último dia deixamos para ir ao restaurante Camarões, mas como não aguentavamos mais peixe resolvemos ir a churrascaria Sal e Brasa. Nos buscaram e levaram no hotel. Super recomendo. Só para constar que depois de 30 min na churrascaria já não aguentava mais comer, era muito bem servido.
      No diaseguinte fomos pegar um ônibus de viagem da melhor empresa do Estado para retornar a Paraíba e pegar o avião. Foi desesperador, o ônibus enguiçou, chovia muito e o motorista nos largou no ônibus com as portas trancadas, pedi para abrir a porta batendo no vidro e o mesmo se irritou.
      Mais uma vez,não peguem ônibus no nordeste.
      Amei os dois estados, a comida, as pessoas da Paraíba. E pretendo voltar um dia.
      Praias incríveis!!!
    • Por dji_pedro
      PATI SELVAGEM: uma travessia de tirar o chapéu e deixar marcas
      Como toda banda de Rock a vida nos bastidores nem sempre é um mar de rosas.  É que a convivência em grupo por vezes desponta em desentendimentos que destoam do objetivo principal. É nesse contexto que o Projeto Rota das Travessias iniciado em 2016 com cinco integrantes perde alguns de seus talentos que, por hora, seguem “carreira solo” (rsrsr). Mas como o “show tem que continuar” aqui teremos uma aventura com participação de três integrantes da antiga “banda”: Eu (Djair), João e Wilson. 
      Assim como na experiência anterior em 2017, escalamos o experiente Marquinhos Soledade (@expedicao_chapada) para ser nosso guia. Dessa vez, iremos realizar a Travessia do Vale do Pati, lá no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. Entretanto fugindo um pouco do convencional optamos por deixar esse trekking mais radical fazendo um trajeto mais selvagem.  A ideia é começá-lo em Andaraí subindo o curso do Rio Paraguaçu e seu Cânion.  É uma opção que cobra maiores cuidados tanto pelo terreno como pelo isolamento. É percurso pouco testado. Muitos evitam. É um trecho do Pati esquecido, uma rota praticada por garimpeiro. A trilha exige subir muitas pedras e paredões, bem como experimentar cruzar dezenas de vezes o lado do rio de modo a encontrar melhor caminho. Sem falar da possibilidade de ocorrência de fenômenos naturais como as temíveis cabeças d’água dentro do cânion. Os primeiros dois dias se passa numa região onde possivelmente não cruzaremos com outros caminhantes. 
      Partimos de Recife numa sexta-feira (28 de junho) num voo da Azul Linhas Aéreas com destino a Salvador. Às 23h30 já estávamos na rodoviária para pegar o confortável ônibus da empresa Rápido Federal com destino à belíssima Lençóis.  Rodamos a madrugada inteira.  Às 6h da manhã desembarcamos e seguimos para a Pousada Bons Lençóis, ali mesmo na parte central da cidade.  À tarde tomamos umas cervejas para celebrar aquele reencontro e também meu aniversario: 29 de junho, dia do santo São Pedro, estou ficando mais velho, presenteie-me com essa travessia: vamos brindar!!! 
      À noite entre outras coisas e fizemos a feira coletiva que irá nos alimentar durante os cinco dias do trekking. Compramos, pesamos e separamos os pacotes dos alimentos em quatro partes. Agora cada um pode enfim fechar suas cargueiras para a pesagem final: 23 Kg (Djair), 20 kg (Wilson) e 17 kg (João). Guardamos a fração de alimento que cabia a Marquinhos para entregá-lo em Andaraí (distante 100 quilômetros da cidade de Lençóis) na manhã seguinte onde começaremos nossa travessia.
      30 de Junho – 1º DIA (domingo)
      O domingo chega. Fretamos um taxi para nos levar à Andaraí.  Encontramos nosso guia no pátio da igreja católica naquela cidade e de lá seguimos no veículo até a estrada onde tem início nossa jornada. Donana é como os moradores conhecem aquela área, uma referência a uma antiga moradora da localidade: Dona Ana. Vamos seguir a velha trilha usada por garimpeiros. 
       

       
      Uma vegetação arbustiva é o que encontramos nos primeiros metros. Seguindo um pouco e ela vai mudando. Agora temos uma área mais preservada. Árvores maiores vão ocupando os espaços. Uma ponte de madeira marca o inicio dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Daqui pra frente à aventura começa pra valer. A trilha segue paralela ao Rio Paraguaçu. O terreno é de subida, sentimos o peso nas costas.
      Enfileirados seguimos pela trilha dentro da mata. O lado esquerdo fica o leito pedregoso do rio Paraguaçu de onde se ouve o som forte de suas águas. A certeza de que estamos optando por um trecho selvagem nos obriga a muitos cuidados. Aliás, pela primeira vez iremos realizar uma expedição utilizando equipamentos de GPS: Eu com um relógio Garmin Fênix 3 HR, enquanto Wilson carregava o indispensável SPOT G3. Esse é o instrumento mais importante, pois é capaz de acionar socorro e enviar nossa localização precisa em caso de acidentes.
      Era apenas o início de nossa travessia. Mal tínhamos completados 2 km e tivemos um susto: Wilson acabou batendo a cabeça contra uma ponta de um galho ao passar por baixo dele e o resultado foi um corte na parte superior do couro cabeludo que causou um sangramento. O kit de primeiros socorros levado por Marquinhos foi logo usado e minutos depois pudemos continuar. Ufa!
      Descemos. Seguimos agora pela margem pedregosa do Rio Paraguaçu. Esse é o tipo de terreno que iríamos enfrentar nas próximas 48 horas. A visão das pedras que formam todo o conjunto é muito bonita. Nossa caminhada exige muito equilíbrio porque temos que pular pedras imensas e andar sobre elas e descer outras tantas. Executar um pulo entre pedras com 20 kg nas costas é algo que exige bastante. É preciso jeito e sorte! 

       

      No quarto quilômetro fizemos uma pequena pausa para um descanso. Nosso guia buscou se refrescar nas águas geladas do rio eu a fazer as primeiras filmagens pra não perder nada da aventura que estava apenas começando. 30 minutinhos nessa parada e já tomamos uma subida forte à direita pelo paredão do Cânion do Paraguaçu: uma trilha dura pela encosta recoberta de arbustos. Agora já estávamos a quase 400 metros de altura em relação ao ponto inicial do trekking.
      Já era quase 2h horas da tarde. Estávamos outra vez dentro do leito do Rio Paraguaçu. Havíamos cruzado apenas de 6,5 km e fizemos a parada para o almoço. Visual deslumbrante. Comentava com o João de como tudo aquilo era admirável e do privilegio de se estar ali. A imagem das paredes do Cânion recoberta de vegetação verde em contraste com a água avermelhada, com as pedras no leito, as nuvens e o céu azulado trazia mais beleza ao cenário. 
      Marquinhos assumiu a cozinha e sobre um enorme pedra fez uma mistura que seria nosso almoço: grão de bico e atum sólido. Foi bem breve nossa parada.  Seguimos a caminhada e agora já estávamos diante de uma bifurcação de cânions. Majestoso recorte de rochas que marca o encontro de dois rios: do lado esquerdo as águas do Rio Paraguaçu e do direito as do Rio Pati.  É um marco geológico de dois grandes cânions. Pela primeira vez avistamos a boca do Cânion Pati.
       

      Às três da tarde havíamos percorridos 7,7 quilômetros quando chegamos à prainha formada do lado das águas do rio Pati onde levantamos o acampamento. Aproveitamos a área de terra, sem vegetação, para fazer uma fogueira distante uns 3 metros das portas das barracas. Depois disso foi momento de aproveitando os raios do sol cair e naquelas águas de dupla identidade. O tempo passou rápido e a noite se aproximava.

      Marquinhos como de costume assumiu a cozinha preparando macarrão, linguiça defumada, tomates, cebola: o cheiro e o sabor estavam perfeitos! Depois da janta seguimos com nossas lanternas para o meio do rio. Aproveitamos uma das imensas pedras para sentar e experimentar a imagem contemplativa do céu estrelado e o som das águas naquele lugar inóspito. 

       
      Às nove da noite estávamos em nossas barracas. Marquinhos “homem bruto” resolveu lançar seu saco de dormir próximo à fogueira para passar a noite. Cabra de coragem (rsrsrs). A temperatura estava agradável. O termômetro marcava 21 graus. Foi fácil pegar no sono dessa vez.

      01 de Julho – 2º DIA (segunda-feira)
      Acordei por volta das seis e meia da manhã imaginando como seria nossa caminhada. Vamos preparar o café e começar mais um capítulo de nossa história. O dia era bonito, eu estava tranquilo e até mesmo meio lerdo (rsrsrs), por isso me atrasei um pouco retardando a partida. Somente às 9h30 iniciamos a trilha. Há uma estimativa de que o percurso possua 9 km e que os mesmos serão bem pesados.
      O Cânion do Paraguaçu ficou ali. Nosso movimento agora é à direita, dentro do Cânion do Rio Pati. Por ele iriamos saber a razão pelo qual muitos aventureiros evitam aquela rota. O nível de dificuldade do trekking aumentou bastante já nos primeiros metros. O pula-pedra passou a ser uma constante e tirar a bota para não encharcá-la logo se mostrou ilusão e perda de tempo.  Avançar sobre rochas escorregadias é uma maluquice, mas não ha outra maneira de seguir.  
       

      Os joelhos sofrem demais com o peso nas costas somados ao impacto dos saltos entre as pedras que tem que ser precisos. É força, equilíbrio e principalmente sorte: levamos 1h42 minutos para percorrer 2 km tamanha dificuldade que o terreno apresentava. Ora estávamos de um lado do leito, ora do outro. E quando nos aproximávamos do terceiro quilômetro executando umas dessas passagens entre pedras escorregadias o companheiro João tomou uma queda. Ele escorregou batendo com a canela em numa pedra dentro do rio.  Um hematoma imenso se formou no centro de sua canela. E isso nos deixou assustados uma vez que ele poderia ter fraturado a perna. Tirá-lo dali aquela altura seria impossível salvo por helicóptero.  Levamos alguns minutos cuidando do amigo e graças a Deus tudo ficou bem: uma atadura foi colocada em volta da lesão, e seguimos ainda mais cautelosos com a certeza de que não podemos errar! 
       

      O terreno continuou duro. Percorremos mais 2,5 km e de trilha. Dessa vez fizemos uma subida violenta a direita, uma trilha dentro da mata que margeia a parede do cânion Pati. Às 12h30 curta parada, dessa vez para recobrar o fôlego. O trajeto em ziguezague pelo rio, atravessando, pulando pedras é um exercício para o corpo e mente. A beleza do cânion em sua forma esbranquiçada emoldura o cenário. Outros 20 minutos de descanso. Passamos à margem esquerda desafiando pedras e vegetação da encosta. Agora temos um “tronco” fixado junto o paredão que serve como ponte evitando o caminho por uma parte escorregadia sob nossos pés. É preciso segurar na parede. 

      Saindo da parede do cânion entramos na mata outra vez.  Aqui é necessário muito empenho, forca, determinação. Tivemos que transpor um emaranhado de pedras e arvores: uma combinação que exige do corpo. O esforço ofusca a beleza daquele trecho. A única coisa que queremos é sair daquilo para um lugar amplo e sem obstáculo.  
       
      Às 13h30 paramos dentro do Cânion para almoçar: grão de bico, atum cebola e tomate foi nosso almoço. Até ali tínhamos percorridos 7 km em 5 horas de muito esforço. Não temos a certeza da distancia exata do ponto de acampamento. Os 9 km que mencionei é uma mera especulação! Retomamos a trilha e ela continuou da mesma forma: dura e técnica. Quando completamos os 10 km já estávamos bem cansados e frustrados: percebemos que nossa ideia de quilometragem tinha ido por agua a baixo.  1 km depois se fez outra parada, estava bem claro que nosso moral estava baixo: expectativa e realidade se conflitavam. 
      Somente após percorrer mais 3 km chegamos ao nosso destino: a Toca do Guariba. Já passava das 17h30 minutos. Foi preciso correr para montar as barracas sob a luz da tarde, afinal dentro do Cânion escurece mais rápido. Foram exatos 14 km percorridos naquele dia.  A Toca do Guariba é nossa morada! Aliás, esse nome é dado pelo fato de que há um corte no Cânion que forma uma cavidade onde em geral os aventureiros buscam abrigo. É uma área protegida. O nome Toca do Guariba deriva pelo fato de que é comum avistar o macaco Bugio naquela área, eles também são conhecidos pelos nomes de Macaco Barbado ou Macaco Guariba. Não avistamos nenhum, tampouco os seus sons. Aliás, nesses quase dois dias ainda não cruzamos com ninguém na trilha. De fato estamos em local isolado.

       
      A noite chegou muito depressa. Não deu pra estar no rio e tomar banho. Dessa vez a higiene foi com lenços umedecidos. Estávamos exaustos, quebrados! Jantamos às 19h: frango, macarrão, linguiça defumada e bolo de rolo! Depois disso alguns instantes de conversa e música e às 21h já estava recolhido. O dia foi pesado! 
      02 de Julho – 3º DIA (terça-feira)
      Não consegui uma boa noite de sono. Só com o amanhecer do dia foi possível apreciar a beleza do lugar. O Rio Guariba é afluente do Rio Pati. Estamos exatamente no encontro dos Cânions. Tomamos nosso café e levantamos acabamento. Às 8h30 Deixamos as cargueiras em um ponto e fomos fazer uma breve visita dentro ao Cânion do Guariba. É um cânion estreito e belo. Passamos não mais que 1 hora. E infelizmente não tivemos a sorte de ver nem ouvir nenhum Bugio na local. 
       
      Voltamos, pegamos as mochilas e fizemos uma subida pela mata. Uma acentuada inclinação nos lançava mata acima. As pernas sofridas pelos 14 km do dia anterior reclamavam a todo instante.  A ideia é chegar à casa de seu Eduardo onde vamos dormir. Agora nosso caminho é por uma linda mata. Ela reveste a encosta do cânion dando beleza única a nossa caminhada. Estamos no alto do cânion encoberto onde é possível ouvir o som das águas do Pati. 

      Seguimos firmes e confiantes por 1 hora onde fizemos breve parada para um rápido lanche. A nossa direita estava a majestosamente Serra do Império. Continuamos. Ainda estamos na mata. No quilômetro 3,5 nos desviamos erroneamente numa bifurcação à esquerda que nos levou a um curral, ops! Logo achamos a trilha certa e seguimos.
      Após 5 km de trilha, às 11h da manhã estávamos diante da primeira residência nesses três dias de trekking: a casa de seu Joia e dona Leu.  E pra celebrar aquele encontro nada mais épico do que uma cerveja gelada. Sim, é possível tomar cervejas geladas no Vale do Pati. Comemos pão caseiro feito por Dona Leu e tomamos cerveja. Pagamos 12 reais por uma long neck (eu pagaria ate 50 reais rsrsrs). Passamos alguns minutos naquela casa humilde e acolhedora. Lavamos os rostos, enchemos nossos depósitos de água e seguimos.  O terreno de seu Joia tem um visual incrível. Curiosidade daquele lugar são os avistamentos de felinos como as onças que causam receios a nativos e aventureiros que cruzam a região. Graças a Deus não tivemos nenhum susto. Mas há muita gente que já viu, ouviu seus sons ou seus rastros.


      Percorremos 8.20 e às 12h40 estávamos na residência de Seu Eduardo atualmente sob os cuidados do Domingos, seu neto.  A casa fica aos pés do Morro do Sobradinho, a beira da Boca do Cânion Cachoeirão. Ela fica exatos três quilômetros daquela de seu Joia. Compramos refrigerantes e cervejas geladas. Isso e resultado das geladeiras alimentadas a gás butano e da energia solar que abastece a casa. 

      O cansaço dos dois dias nos fez desistir do planejamento inicial que era visitar o Cachoeirão por Baixo.  Resolvemos conter o dia conversando, tomando refringentes e cervejas e uns petiscos vendidos naquela casa.  A decisão se deu pela perspectiva que tínhamos daquele trekking. Queríamos devolver o prazer da caminhada, buscar prazer efetivo. Na nossa visão acumular a visita ao Cachoeirão fazendo o bate-volta iria nos desgastar e o que precisávamos mesmo era de um tempo pra ficar à toa entre amigos.  Acertamos também em comprar a janta ali oferecida e manter o acampamento com as barracas nas dependências da propriedade. 

      Tivemos a oportunidade de conhecer um bom sujeito Catalão: Joan, ele estava de passagem em visita ao amigo Domingos. Ali contou sua vida e sua relação com o Pati. Joan mora no Capão junto com sua esposa, de nacionalidade brasileira.  Ele relatou suas experiências com a natureza e de suas habilidades como especialista em agricultura sustentável e de sua colaboração em algumas comunidades na Chapada Diamantina.
      No meio da tarde fomos tomar banho no rio Cachoeirão, ele passa nos limites da casa.  Uma pequena descida te leva às margens, grande poço e corredeiras te convidam a cair na água. Ao fundo temos uma visão incrível das paredes dos morros que formam o vale.
      A noite chegou e o jantar oferecido foi sensacional: carne de sol, estrogonofe de frango, arroz, feijão, macarrão, farofa de cenouras, abóbora, e suco. Perfeito! Comemos divinamente e continuamos até umas 21h conversando em grupo. A noite estava estrelada. Eu, Wilson e João fizemos uma pequena fogueira próxima à barraca e às 21h30 já estávamos recolhidos.

      03 de Julho – 4º DIA (quarta-feira)
      Às 6h despertamos. Dessa vez procurei me apressar pra não atrasar o grupo. O café da manha foi preparado ali bem próximo às barracas: cuscuz e ovos. 8h15 já estávamos de saída. Tomamos o caminho a esquerda no sentido da casa de Seu Tonho. Atravessamos o leito do rio Pati sobre as pedras para seguir à margem esquerda do rio. Do lado direito margeando todo o leito uma belíssima mata acompanha o curso do rio. Essa caminhada ainda cedo ganhava muita beleza. A quantidade de sons dos pássaros trazia um encantamento fenomenal. O lado esquerdo nos acompanha o Morro Sobradinho, tocado pelos raios do sol. Tudo é maravilhoso!
      Agora temos forte subida.  Logo estamos a 178 metros de altitude em relação à casa de Domingo. O visual belíssimo já nos revela ao longe o Morro do Castelo. 2 horas depois e 5.6 quilômetros fizemos a parada de descanso naquela área conhecida como “prefeitura” que na verdade é um antigo entreposto dos antigos comerciantes e produtores de café do Vale do Pati. A imagem que temos é perfeita, uma pintura que cabe em qualquer quadro.


      Nossa próxima parada será na casa de seu Aguinaldo. Deixamos a prefeitura, atravessamos o Rio Lapinha e seguimos a trilha tendo a nossa direita o imponente Morro do Castelo.  Seguimos a trilha dentro da mata. No caminho Marquinhos à dianteira nos indica com cuidado a presença de uma cobra Jararaca ali bem no meio da trilha... Imóvel e bem camuflada ela parecia buscar os raios do sol que atravessava os altos dos galhos e folhas daquele lugar. Olhar para o chão sempre, essa e a dica! 

      Um pouco adiante tivemos a oportunidade de cruzar na trilha com Seu Antônio, Seu Tonho. Havíamos passado em frente a sua casinha, logo que saímos da casa de Seu Eduardo, lembra? Seu Tonho surgiu vindo atrás da gente, dentro da mata, na trilha estreita. Montava um burro e puxava outro que levava uma cela de carga (cangalha), seguia vocalizando comandos ao animal. Uma imagem bonita. Retrato de uma historia vida. É um som bonito que ecoava por entre a mata.  De perto assistimos como são transportados todos os suprimentos dos nativos dali. O burro é o motor, o transporte. 

      Enfim, depois de três horas de relógio, 8.4 km de distância e 426 metros de ganho de elevação chegamos à casa verde onde mora o casal. Estamos agora no Pati de Cima a 932metros acima do nível do mar. Ali fomos recebidos por dona Patrícia que nos ofereceu seus deliciosos pães caseiros e latinhas de Coca-Cola geladíssimas. Podemos apreciar os sabores ofertados diante de um visual belíssimo: estamos aos pés do Morro do Castelo.  

      Alguns minutos de descanso e seguimos às 13h com nossas mochilas de ataque rumo ao alto. São 400 metros de subidas em meia a mata atlântica preservada, uma trilha íngreme que exige muito mesmo dos joelhos e muita atenção para evitar quedas.  Levamos 1h20 minutos para completar os mais de 3 km de trilhas subindo até chegar ate o Morro do Castelo no alto dos seus mais de 1.400 metros. Numa subida tão vertical, não adiantar negar: vai doer.
      O Morro do Castelo é colossalmente bonito.  O fato de existir uma gruta que atravessa todo maciço de quartzito no local faz o morro ganhar ares ainda mais mágicos. É espetacular o conjunto da obra. Adentrar na gruta mexe com a imaginação. Ela possui aproximadamente 800 metros de extensão e para cruza-la se faz necessário o uso de lanternas: a escuridão é total. Não esqueçam as lanternas e muito, muito cuidado ao caminhar, pois há Pedras soltas e pontiagudas por todo percurso.


      Ao cruzar a extensão da gruta temos do outro lado um visual incrível do Vale do Calixto, ele está no lado oposto ao Vale do Pati. É magico, é incrível! Estamos a mais de 1.400 metros do nível do mar e para onde se olha é um mar de beleza que agrada aos olhos e ouvidos. É o som dos ventos soprando forte que impressiona. 

      Diante de tanta beleza muitos e muitos clicks, mas já é hora de retornar para Casa de Seu Aguinaldo que está 400 metros abaixo. É hora de descer aproveitando a luz do sol. Temos uma trilha dentro da mata e é bom não vacilar. Levamos 1h pra refazer o caminho de volta. 
      Ao chegar corri, junto com o João, para armar nossas barracas na área de frente à residência. Wilson preferiu contratar um pernoite num dos quartos da casa.  Nesse momento a temperatura começava baixar um pouco. O sol estava refletindo sem força nas bordas das paredes do Vale. Já estava imaginando a temperatura da água que iriamos tomar banho. Apelei por um aperitivo.  Eu e João provamos umas doses de cachaça para ver se a coragem aparecia. Nem sei se isso ajuda. Fomos ao banho: água gelada da mísera!
      Contratamos o jantar e não nos arrependemos. Dona Patrícia caprichou: carne de sol, macarrão, arroz, salada crua e suco de maracujá. João que não come carne foi contemplado com uma omelete preparada com exclusividade. Todos felizes e de barriga cheia. Ao termino do jantar, enfim seu Aguinaldo apareceu e conversamos bastante. Ele falou de sua vida, da rotina naquele lugar e os desafios de se viver ali. O clima era úmido e a temperatura na casa dos 18 graus. Não tardamos buscar o aconchego de nossas barracas, Wilson se recolheu ao conforto do quarto. É nossa ultima noite dentro do Vale do Pati.
      04 de Julho – 5º DIA (quinta-feira)
      Último dia. Acordei às 6h30. O termômetro marcava 14 graus. O som das águas do Rio Lapinha correndo, dos pássaros cantando e voando pertinho da barraca e a imagem do Morro do Castelo diante de nós marcavam o inicio daquele nosso derradeiro dia no Vale do Pati. Eu já sentia saudades de cada momento. Por outro lado, nosso amigo e guia estava com dores estomacais e apresentava também quadro de diarreia. Ficamos preocupados com a condição física dele. Ninguém merece ficar doente na trilha. Retardamos um pouco a saída. Marquinhos sinalizava que já estava tudo ok, então tínhamos que partir.

      Às 9h010 saímos da casa de seu Aguinaldo. Subimos a trilha e seguimos pulando pedras no curso do Rio Lapinha e após caminhar 1.7 km a gente chegava à Cachoeira das Bananeiras.  Seguindo o curso daquele rio e 1h 15 depois de nossa partida (2,5 km) estávamos na Cachoeira do Funil que se apresenta belíssima. Cruzamos o leito para pegar a trilha que fica na parte de cima da encosta, próxima a queda d´água. Minutos depois chegamos a Cachoeira da Altina. Ali havia um pequeno grupo de turistas. É uma cachoeira um pouco menor que a do Funil. Deixamos a Cachoeira da Altinha (nome que faz referencia a uma antiga moradora que ali lavava as roupas da família) e tomamos o caminho novamente à esquerda, atravessando o rio e subimos uma trilha íngreme pela mata.

      Chegamos à igrejinha. Percorremos 4 km contados a partir da casa de Seu Aguinaldo.  Ali é a Casa de Seu João. Ela está próxima da Ladeira da Rampa que dá acesso ao Mirante do Pati e os Gerais do Rio Preto.  Ali é uma casa que também oferece serviços de recepção aos aventureiros com comida e hospedagem.  Lavamos os rostos e tomamos nossas ultimas latinhas de refrigerante dentro do Vale. O sol do meio dia castigava forte. São os testes finais de resistência depois de cinco dias de trekking. Doente, Marquinhos sentia bastante cada passo. Tive pena do nosso Leão da Montanha.

      Ao meio dia e meio estávamos no Mirante da Rampa. 6 km separam a casa de seu Aguinaldo do Mirante do Pati. E o visual a 1.337 metros é de tirar o fôlego. Ali enxergamos toda extensão do Vale do Pat: é o lugar perfeito para fazer aquelas fotos clássicas. Mas não podemos demorar. Temos horário marcado para nosso resgate lá no Beco, em Guine. O motorista Ari nos aguarda!
      As 13h10 seguimos nossa jornada pelo magnifica planície que forma as Gerais do Rio Preto. O terreno é um platô de campo rupestre, não há arvores naquele trecho, o lugar é belíssimo. A partir do Mirante, depois de 1,3 km cruzamos o riozinho que dá nome aquele local, o Rio Preto. Seguindo por mais 3.27 km estávamos enfim diante da descida de Aleixo. Eu diria que A Rampa e a Descida do Aleixo são tecnicamente iguais. A diferença e a ordem das coisas. Assim iniciamos nossa descida sob o calor das às 14h em direção ao ponto de encontro. Percorridos mais 2.1 km de trilhas chegamos ao final de um dos trekking mais bonitos desse pais.  Foi sensacional! Agora vamos voltar pra Lençóis!
       

       























































      Pati_Selvagem_-_Uma_Aventura__-_31_-08.docx


    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Preparação
      Mais uma vez começamos um planejamento para uma trip em grupo, e acabamos terminando em dois só, kkkk.
      Levantamos muita informação, dados, e dicas. Não é segredo algum que minhas viagens geralmente não contam com guia contratado, eu mesmo navego e planejo tudo. De posse das informações, havíamos levado dois meses aprendendo sobre a Serra dos Órgãos, talvez por isso as pessoas desistiram. Tiveram tempo de pensar no que fariam. Encarar uma grande aventura exige mesmo espírito livre.
      A Grande Jornada
      Em 19/07/19 saímos de Campo Mourão às 00:00, foram 1.100 km de estrada, cerca de 17h de viagem. Ainda bem que um dos passageiros que me acompanhou (BlaBlaBla Car) se dispôs a dirigir entre São Paulo e o Nova Iguaçú. Foi um dia todo na estrada. Chegamos em Terezópolis já se passavam das 17:50; o primeiro furo da viagem. Eu havia estimado chegar em Tere dia 20/07 antes das 17h e conseguir viajar até Petrópolis no mesmo dia ainda, dormindo próximo da portaria lá. Doce ilusão, já era noite e tive de procurar um camping ainda, mas tudo certo os Óreas (deuses da montanha) sempre fazem certo.
      Paciência ... tenha paciência.
      Levantamos acampamento ás 06:00, que é a hora que abre (deveria abrir) o Parque em Tere. Chegamos na portaria para guardar o carro e lá estava um aglomero de gente, logo fiquei sabendo que a recepcionista não tinha chegado. Foram 45min de espera, enquanto isso ia aumentando a fila. Quando a mulher chegou já armou-se um fuzuê danado, o povo queria brigar ao invés de me deixar fazer checkin. Com muito trabalho consegui fazer o meu checkin e deixei o povo lá batendo boca.
      Com o carro estacionado voltei para a portaria na esperança de um Uber me levar a Petro. Outra trabalheira danada, uns cinco motoristas recusaram a viagem, chegaram a pedir dinheiro por fora pra fazer o carreto, mó sacanagem. Mas o sexto Uber não hesitou e nos levou ao destino.
      Dia 1, subida, subida, s u  b   i    d     a      .        .          .
      Às 10:15 começamos a trilha, foram 7h de subidas sem fim, mas com um visual de tirar o fôlego, até o desgaste físico passa desapercebido diante da exuberância da mão verde.
      Quase todo o dia foi por dentro do Vale do Bomfin subindo suas encostas. Quase no fim do dia chegamos a Isabeloca de onde já podemos avistar a Baía de Guanabara e os Castelos do Açú, nossa parada para dormir. No final da tarde, o pôr do Sol visto do Morro do Açú foi apaixonante. Leia mais aqui.




       
      Dia 2, sobe e desce, sobe e desce...
      O segundo dia é o mais intenso de toda a travessia, e provavelmente um dos mais belos dias que você pode passar na vida. Toda a cadeia da montanhas da Pedra do Sino ficam de frente para nós. A navegação também é mais complicada, presenciamos alguns grupos perdidos (geralmente pessoas sem experiencia ou fanfarrões).
      A cada descida uma subida maior esperava do outro lado, mas tinha-mos a certeza que o visual depois da ascensão e durante a próxima descida seriam ainda mais incríveis. Foram cerca de 8 km, caminhamos por 6 morros (Morro do Açú, Morro do Marco, Morro da Luva, Morro do Dinossauro, Pedra da Baleia e Pedra do Sino), é nesse trecho também que ficam os obstáculos mais difíceis (Elevador, Lajão, Grotão e Cavalinho). Eu particularmente me apaixonei pela pedra conhecida como Garrafão, talvez seja a lembrança que ela me traz que tenha me conquistado. Foi um dia realmente incrível e às 17h novamente chegamos no Abrigo. Ainda tive tempo de tomar um banho frio numa tarde de 4º C. Leia mais aqui



       
      Dia 3, uma corridinha para encerrar a travessia.🏃‍♂️
      Levantei com o escuro e subi novamente na Pedra do Sino contemplar a sinfonia de Apolo ao empurrar seu Astro sobre as montanhas.
      Saímos do abrigo às 07:15, a partir daí só descida praticamente uma trilha bem relax, com a oportunidade de avistar Teresópolis de cima, o Morro da Caledônia e os Três Picos no horizonte. De brinde uma vista por entre as montanhas da Granja Comari, onde um dia já treinou uma seleção de dar medo. Chegamos na barragem às 11:00 fizemos a trilha suspensa e conhecemos o encanto (Cachoeira Peri e Ceci) onde nasceu uma obra prima nacional: "O Guarani". Deixei a tralha no carro e tomei a trilha para o mirante do cartão postal, logo na entrada li que tinha 1.200 m, e eu com pressa; ainda tinha 1.110 km de rodovia até a casa. Não deixei me abalar, liguei a Go Pro e saí em disparada, em 15 min estava de frente para a formação que encantou os portugueses. Mais 15 min estava novamente no carro, exausto agora.




      Reuni tudo, dei uma parada para repor as calorias e às 14:00 rumava novamente para o Paraná, dessa vez tive de dirigir sozinho por 16h. 06:30 do dia 24 de julho eu deligava o carro com aquela sensação de euforia, sinônimo de missão cumprida, só no aguardo da próxima. Leia o relato completo aqui.
       
    • Por hoaken
      Saalve, galera, tudo bem??
       
      Gostaria de saber se vocês conhecem trilhas em Curitiba e Região Metropolitana, pra fazer trekkings novos sem ter que viajar....
      Eu só conheço as trilhas de Quatro Barras e Piraquara:
       
      Anhangava Pão de Loth Caminho do Itupava Morro do Canal Morro do Vigia Torre Amarela  
      Conhecem alguma outra?
       
      Desde já, agradeço aí, pessoal!
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
      Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
      que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
      todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
      – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
      Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
      Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
      incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
      começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
      descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
      desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
      fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
      então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
      vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
      A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
      compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
      aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
      que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
      caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
      cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
      Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
      dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
      no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
      independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
      seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
      as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
      testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
      incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
      real beleza que veríamos.
      Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
      acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
      complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
      do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
      tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
      aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
      forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
      Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
      obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
      que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
      encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
      jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
      partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
      se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
      23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
      Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
      possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
      ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
      forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
      dela e partiríamos assim que possível.
      Primeiro dia
      A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
      equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
      em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
      cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
      levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
      meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
      travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
      pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
      temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
      assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
      encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
      lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
      os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
      sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
      planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
      Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
      pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
      acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
      pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
      pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
      2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
      não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
      do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
      grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
      muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
      descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
      notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
      o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
      afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
      possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
      primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
      Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
      para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.
      Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
      De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
      consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
      ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
      queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
      com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
      aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
      adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
      das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
      para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
      dia que nascia.
      Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
      Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
      diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
      para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
      que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
      pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
      base da cachoeira vermelha, às 8h.
      Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
      as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
      bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
      quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
      Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
      possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha
      Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
      da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
      a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
      de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
      Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
      intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
      antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
      Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
      subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
      pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
      frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
      essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
      base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
      dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
      Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
      12h.
      Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
      Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
      e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
      fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
      2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
      o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
      das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
      sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
      voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
      base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
      acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
      Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
      a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
      a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
      verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
      perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
      companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
      de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
      Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
      que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
      montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
      que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
      superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
      mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
      emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
      lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
      iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
      um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
      até a parede quase vertical do acampamento base.
      Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
      atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
      rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
      Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
      existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
      essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
      caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
      vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
      horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
      cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
      porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
      que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
      de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
      bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
      escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
      Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
      significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
      legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
      uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
      de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
      nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
      com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
      naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
      vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
      nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
      A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
      do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
      de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
      dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
      tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
      e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
      recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
      roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
      e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
      dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.
      Segundo dia
      Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
      ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
      dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
      barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
      barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
      Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
      às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
      havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
      vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
      eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
      queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
      normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
      toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
      barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
      parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
      e a PM compensava o desconforto.
      Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
      peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
      tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
      que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
      em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
      encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
      mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
      apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
      Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
      limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
      de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
      água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
      retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
      Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
      com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
      ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
      nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
      travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
      fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
      considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
      explorando os arredores da trilha tradicional.
      Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
      mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
      sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
      ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
      mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
      caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
      fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
      gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
      camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
      altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
      Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
      com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
      quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
      havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
      passagem, na travessia full anterior.
      Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
      Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
      anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
      10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
      direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
      à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
      e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
      possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
      um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
      caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
      o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
      aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
      dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
      encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
      e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
      cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
      retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição
      bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
      consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
      dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
      forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
      para cima.
      Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
      parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
      pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
      de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
      a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
      Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
      maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
      o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
      CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
      Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
      Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
      apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
      acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
      do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
      seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
      nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
      eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
      correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
      encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
      a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
      do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
      retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
      Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
      agua até o final da tarde do dia seguinte.
      Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
      Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
      hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
      termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
      hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
      águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
      vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
      mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
      das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
      para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
      da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
      com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
      pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
      Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
      caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
      em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
      o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
      barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
      partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
      Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
      dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
      no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
      tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
      confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
      acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
      segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
      dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
      passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
      ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
      mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
      utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
      a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
      de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
      isolante “casca de ovo”.
      Terceiro dia
      Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
      amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
      3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
      pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
      consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
      para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
      de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
      se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
      previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
      a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
      íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
      para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
      caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
      ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
      minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
      2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
      apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
      lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
      visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
      uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
      Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
      estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
      o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
      para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
      pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
      mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
      tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
      cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
      instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
      destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
      vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
      “safar a onça”.
      Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
      Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
      com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
      avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
      instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
      atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
      como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
      estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
      deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
      colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
      buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
      ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
      Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
      busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
      água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
      estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
      buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
      estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
      posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
      afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
      descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
      do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
      queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
      duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
      Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
      a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
      avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
      não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
      Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
      dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
      “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
      mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
      e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
      machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
      sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
      novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
      e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
      estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
      para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
      ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
      Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
      enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
      Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
      Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
      apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
      havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
      o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
      dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
      e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
      cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
      10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
      vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
      liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
      com o sol rachando tudo e a todos.
      Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
      recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
      sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
      minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
      escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
      atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
      minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
      de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
      pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
      do grupo em que estava.
      O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
      poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
      Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
      progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
      minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
      curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
      No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
      Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
      colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
      andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
      Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
      não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
      agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
      percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
      imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
      resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
      próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
      generosos goles.
      Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
      vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
      preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
      Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
      com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
      contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
      Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
      Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
      esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
      biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
      A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
      cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
      mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
      conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
      percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
      e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
      Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
      tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
      você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
      possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
      perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
      preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
      suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
      quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
      fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
      Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
      picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
      cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
      na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
      necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
      caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
      evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
      algumas passagens.
      Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
      há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
      refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
      que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
      posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
      essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
      montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
      isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
      desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
      que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
      apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
      motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
      abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
       


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