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Wesley Felix

Mochilão La Paz, Uyuni (BOL) – Salta, Córdoba (ARG) – San Pedro do Atacama, Santiago (CHL) - Arequipa, Cusco (PER)

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DOWNHILL

 

Como disse anteriormente, ouvi falar do Downhill lendo um dos relatos para a viagem, como todos dizem ser obrigatório, confirmei com Rodrigo se não era uma furada e ele afirmou que não, não tinha muita noção de como seria, só estava preocupado se não haveria muitas subidas, porque apesar de fazer, algumas vezes, ciclismo urbano na minha cidade, não tinha um dos melhores condicionamentos físicos que conheço.

O bom da No Fear, é que ela é uma agência prestadora de serviço direta, logo o custo é menor por não haver intermediários. Quando fui fechar o passeio, a atendente foi muita simpática e solicita, mesmo se não estivesse na companhia de Rodrigo conseguiria ter fechado o passeio sem maiores problemas, o bom de ter ele por perto foi que pude tirar todas as dúvidas de forma mais simples e rápida, no momento estavam sendo oferecidas quatro tipos de bike (a mais simples tinha um custo de Bs 380,00; as duas intermediárias, uma de menor amortecimento e a outra com amortecimento traseiro estavam custando Bs 400,00 e Bs 420,00 – mas ela faria a melhor no mesmo preço que a de menor qualidade – e por fim a bike mais top tinha um custo de Bs 450,00), escolhi a intermediária de melhor qualidade, no passeio estavam inclusos todos os equipamentos, café da manhã, almoço ao final do passeio, banho de piscina e transporte para o ponto de início do passeio e volta para La Paz com entrega no hostel.

Como disse na dica do hostel, tem que se levar em consideração a localidade, por um lado a localização do meu hostel era muito boa, mas por ser longe do centro a van da agência não passava por ele, assim tive que sair as sete da manhã para estar na sede da agência as oito, quando iniciaria os preparativos para o passeio. Já havia deixado tudo pronto na noite anterior, acordei quinze minutos antes das sete só para trocar de roupa e escovar os dentes, mas ocorreu o que temia desde o início da viagem, acordei com uma senhora diarreia, como só havia comido as saltenhas, uma banana e algumas uvas, não tinha muito mais o que sair do corpinho haha, então tomei um banho e mesmo apreensivo fui para a agência, optei por não tomar nenhum remédio que havia levado e como previ não ocorreu mais nenhuma manifestação do meu intestino pelo resto do dia.

 

DICA: O café da manhã do hostel era das 07h30min até as 09h30min, e se por algum motivo você tiver a necessidade de sair antes do início do café, pode-se deixar avisado na recepção, que na maioria dos hosteis a equipe prepara algo para que possamos levar ou comer na hora, neste primeiro momento não sabia disso, mas neste hostel eles também faziam esse serviço, então fica a dica pra vocês.

 

O caminho até a agência foi relativamente tranquilo, apesar de ir apresado com medo de me atrasar, as dicas do Rodrigo ajudaram bastante, mas precisei do meu telefone pra ter certeza que não me perderia, acabou que cheguei dez minutos antes das oito e o mercado das bruxas nem tinha aberto ainda. Na agência fui o primeiro a chegar, eles deram as roupas para provar e optei por tirar a calça jeans que estava e coloquei meu short, além de não sentir todo o frio que os outros aparentavam sentir, durante o passeio sairíamos do clima frio da altitude e entraríamos no clima tropical da floresta, a descida sai dos 5.000 metros de altitude e termina nos 3.000, por isso essa mudança de clima e temperatura, e para não ter que fazer a troca durante o passeio já fui pronto da agência mesmo, além da bike, compõe os equipamentos, luvas, cotoveleiras, joelheiras, um conjunto calça e jaqueta de couro e capacete. Não preciso nem dizer pra levar óculos de sol e um sapato fechado, esses por sua conta.

O pessoal que foi pego pela van só começou a chegar as 08h30min, depois de todos prontos e vestidos fomos em duas vans até o ponto de partida, aos pés das montanhas que cercam La Paz, uma paisagem mais que bela, tirando o lixo que alguns insistem em jogar no local. Ali são conferidos os itens de cada um, passado as informações mais importantes pelos guias e fazemos um test drive nas bikes para pegarmos o ritmo delas. Nosso grupo ficou dividido entre quem falavam inglês e os que falavam espanhol, ainda bem que não havia um para os que não falavam nem um idioma nem outro, mas deu pra entender tudo e depois das recomendações passadas demos início a descida.

Acho que nenhum dos adjetivos que possa usar vão descrever o que vi e senti nesse passeio, é tudo muito, mas muito, mas muito lindo, rápido e emocionante. Pegamos uma velocidade incrível nesse percurso de asfalto, cheio de curvas, e com o céu relativamente nublado deixando as montanhas com seus picos em neve ainda mais belas, como a rodovia é muito boa, em alguns momentos onde não há transito, podemos simplesmente esquecer a estrada e observar a paisagem, é uma emoção única, de verdade, vale muito tudo aquilo, inclusive o termo de responsabilidade que assinamos onde retiramos qualquer tipo de culpa e ajuda por parte da agência, afinal não leva o nome de estrada da morte por acaso.

Antes de concluir esse percurso por asfalto, há um túnel, e ao seu lado uma passagem das bicicletas, passagem essa de terra e cascalho, como entrei embalado nele, quase atropelo o ciclista a minha frente e ocorre o primeiro acidente, por sorte de centímetros não foi dessa vez, mas serviu para mostra o que estava por vir. Logo em seguida após a passagem do túnel, a van de apoio nos espera para levar até a próxima estrada e continuarmos o percurso. Nesse meio caminho aonde vamos de carro existem algumas subidas, por isso não seguimos de bicicleta e eles aproveitam para servir o café da manhã – pão com ovo, água ou Coca-Cola e uma banana – mesmo estando com medo de ocorrer alguma ação adversa ao ingerir alguma comida, ativei o modo f***-se e comi tudo, além de estar com um pouco de fome, sabia que ia precisar de energia mesmo sendo descida o restante do caminho.

O restante do passeio é em estrada de terra, muito parecida com o percurso de chegada em La Paz quando vim de ônibus, havia chovido e apesar de seca havia trechos ainda molhados. Para iniciar essa parte da descida tirei o conjunto de roupas dado pela agência e guardei junto com minha mochila de ataque dentro da van, esse foi o único momento da viagem que senti falta de um repelente, mas acabou que o protetor solar deu conta de espantar os mosquitos, por isso acabei por não listá-lo nos itens para levar na viagem, mas se tivesse feito à trilha Salkantay em Cusco teria de tê-lo comprado, já que parte dessa trilha envolve floresta também.

A paisagem nesse trecho não tem muitas variações, nem por isso deixa de ser menos magnífica, mas a concentração aumenta muito na estrada, logo de cara presenciei o primeiro acidente, e olha que teve vários, nenhum que justificasse o nome da estrada que fica em uma placa logo no início do trilha. A dica é nunca usar só um freio e deixar o espirito de competitividade em casa, não é uma corrida pra ver quem chega primeiro e sim um passeio pra ver quem chega vivo, no mais, na descida todo santo ajuda, então usar os freios e controlar a velocidade é vital.

 

MOMENTO DESABAFO: Durante o percurso acabou que minha bike perdeu o freio traseiro, mano do céu, quando estava em uma das curvas, no embalo, cadê o freio, ai por instinto acionei o dianteiro com mais força, alta velocidade mais freio dianteiro é igual a capote na certa, por sorte havia as defensas ou guard-rails impedindo que fosse jogado abismo abaixo e consegui bater de lado num primeiro momento só capotando num 360º completo seguindo a proteção metálica, sério pessoal, no momento minha coluna estralou todos os ossos que possui, tipo “Snickers – mata sua fome”, eu só pensei, estou paraplégico, mas a adrenalina é tão grande que a gente só pensa em se levantar rápido pra ninguém ver nossa vergonha, quando vi que estava inteiro, sem um único aranhão e com a bike completa, só agradeci a todos os santos e deuses e universos e simbora de novo, como estava bem pensei, vou controlar melhor a velocidade e moderar no freio dianteiro, ledo engano, a gente pega uma velocidade tão grande que se não tiver os dois freios não damos conta, já na próxima curva quase me esborracho no paredão de pedra e na outra novamente outro capote, dessa vez um 180º, de novo a defensa de proteção me salvou do abismo, mais uma vez sem um aranhão, então resolvi captar o sinal e esperei o apoio pra tentarmos arrumar o freio traseiro, acabou que o guia optou por trocar de bike comigo pra não ter muito atraso até a próxima parada de apoio.

Não preciso nem dizer que a bike deles são as melhores, e acredite, só quando tu anda nelas e senti a diferença, da pra entender como vale a pena investir um pouco mais na melhor, não que não consigamos concluir de boa o percurso mesmo com as bikes mais inferiores, mas a diferença é muito grande. Pra quem puder e quiser, fica a dica.

 

Depois que paramos insisti em voltar pra minha bicicleta, mas ele achou melhor que seguisse na dele – já que insiste – terminamos o percurso por volta das três horas da tarde, à medida que avançamos vamos nos deparando com algumas vilas e povoados, a paisagem sempre linda e de momento em momento paramos para tirar algumas fotos para o álbum que a agência nos envia depois. Já no momento da chegada após passarmos por uma queda d’água no meio da estrada (creio que por causa das chuvas), tem um pequeno trecho plano e com leves subidas, nada que impeça qualquer pessoa de concluir com êxito o passeio.

 

DICA: No nosso grupo haviam pessoas de todos os lugares do mundo, de vários tipos físicos e idades, um australiano com quem consegui trocar algumas palavras em inglês já era um senhor de quase oitenta anos, e deu um banho em mim diga-se de passagem, já que na chegada tem uma subida interessante, eu era o quarto a chegar, mas desci para empurrar a bike enquanto ele tomou minha posição e ainda tirou onda. Então se o seu receio for por conta do condicionamento físico, vá sem medo porque é muito tranquilo.

 

Depois de concluído o trajeto, vem o merecido descanso. O ponto final é uma parada as margens de um rio com piscinas naturais creio – na verdade não fui até elas porque minha coluna deu sinal de vida assim que acabou a descida então preferi ficar deitado em um banco até a partida –, e além das piscinas todos ganhamos uma camisa da agência e podemos almoçar a vontade no restaurante, além de tomar um banho decente nos banheiros. Talvez a essa altura você esteja pensando que não comi nada, erouuu (lembre do meme do Faustão), parti pra cima sem dó, e estava muito bom todo aquele banquete, comida muito gostosa. Barriga cheia e banho tomado, era hora de voltarmos pra La Paz, em um percurso longo e lento, já que agora teríamos que subir de volta aos quase 4.000 de altitude e mesmo a rodovia sendo um tapete, o excesso de curvas não permite imprimir uma grande velocidade.

 

DICA: Muitos passeios podem ser feitos sem o intermédio de agências, com um bom mapa, relatos e condicionamento físico é perfeitamente possível fazer por conta os badalados trajetos. Essa era minha intenção em Cusco diga-se de passagem, fazer a trilha Salkantay até Machu Picchu, seguindo o relato do @victor machado aqui do site, Salkantay Trek Completo, sem guia. Mas no caso do Dawnhill não recomendo, primeiro porque é necessário ter os equipamentos e o mínimo de apoio se algo der errado, além do que a volta para La Paz vai exigir muito condicionamento já que é subir quase 1.500 metros de altitude pedalando, no mais o preço dos alugueis de bike e proteção devem ficar muito próximos do gasto com a agência, então nesse caso vale considerar o custo beneficio.

 

A maioria do pessoal apagou na volta, mas a vista era estupenda e as músicas que tocavam pra todos ouvirem era a mais pura popular boliviana, pense numa sofrência doída, deixa qualquer Pablo no chinelo. Quando chegamos a La Paz já era mais de oito da noite, a van foi deixando parte do pessoal nos seus hosteis e eu fiquei na agência já que o motorista não iria ao meu por ser muito fora de mão. Como precisava mesmo acertar os detalhes de horário e ponto de saída no passeio do dia seguinte, pois quando o comprei ainda não estava certo se fechariam um grupo para a Chacaltaya ou se teria que me encaixar em outra agência, acabou que fui encaixado mesmo, e como a van iria direto, o ponto de encontro mais viável foi a Catedral Maria Auxiliadora, qual já conhecia o caminho.

O retorno para o hostel foi dramático, ao tentar seguir as referencia que o Rodrigo havia passado – indo pelas ruas mais movimentadas, já que o caminho pelo qual vim de manhã era mais seguro só a luz do dia –, terminei por me perder, e feio, quando vi já tinha avançado quase um quilômetro a frente de onde deveria entrar para o meu hostel, e o ar começou a faltar e o frio a chegar. Nesse momento parei perto de um grupo de jovens me sentei e saquei meu telefone, não sei se olhava mais pro mapa ou pros lados com medo de alguém levá-lo, refiz o percurso na minha cabeça, no qual deveria seguir até uma praça de referencia, me perdi mais um pouco, mas consegui chegar, depois foi só alegria quando fui reconhecendo o caminho para o hostel.

Ao chegar encontrei no quarto Juan, um francês que hablava um pouco de espanhol, nos cumprimentamos, mas ele não queria muito papo – francês. O que foi bom, pois além de um bom banho tinha que arrumar meu mochilão ainda, queria muito fazer o Titicaca, mas isso significaria sair de La Paz e depois retornar para ir a Uyuni, e como já tinha decidido que não passaria duas vezes por um mesmo lugar optei a ir direto para o salar, assim já perdi as contas de quantos motivos tenho para regressar a esta cidade.

 

DICA: Todos os hosteis por qual passei, permitem que deixemos nossas coisas mesmo que com a diária encerrada, no geral os check-out’s enceram-se às onze horas ou meio dia, mas se tiver um passeio que só termine pela tarde, podemos fazer o check-out antes de sair para o passeio e deixar o mochilão guardado para pegá-lo na volta. Dessa vez não foi meu caso, uma porque não sabia, e mesmo que soubesse a essa altura, não seria interessante voltar do ponto de parada final do passeio e retornar ao hostel só para pegar o mochilão, já que pretendia ir para a rodoviária de pé dois ao invés de pegar um táxi. Se me arrependo, não perca o próximo capítulo, neste mesmo horário, neste mesmo canal, haha, não contavam com minha astúcia, não é.

 

GASTOS: Dia 18.09 (terça-feira).

 

Nenhum centavo = Bs 0,00

 

No Fear Adventure, eles promovem uma série de passeios, pra conseguir um bom desconto o ideal é fechar um grupo com várias pessoas e um pacote de passeios cada. Corre até uma lágrima dos olhos deles.

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Paisagem no ponto de partida para o passeio.

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Vista durante a primeira parte do trajeto.

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Tudo pronto, e lá vamos nozes.

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Uma das paradas do grupo já na segunda parte do percurso.

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Felicidade define, essa americana estava há dois meses mochilando, sem falar nada de espanhol, mas com um alto-astral contagiante.

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Acabou que formamos um trio, o de capacete é um brasileiro, Lucas, há mais de seis meses mochilando.

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@Wesley Felix Gratidão por ter acompanhado e feliz de ter colaborado para essa trip massa. Obrigado por ter lembrado... Seu roteiro tá completo, continua ai que estou aguardando os próximos capítulos. Forte abraço!!!

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@Diego MoierGrato sou eu irmão, de verdade, teu relato foi a base para montar toda a minha trip, espero sinceramente que o universo lhe retribua toda disponibilidade e humildade em que viveu e depois descreveu tudo, se o roteiro tiver se aproximado do seu e do @rodrigovix, já me dou por satisfeito, muita luz pra vocês rapazes, abraço.

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CHACALTAYA E VALLE DE LA LUNA

 

            Na manhã de meu último dia em La Paz despertei novamente com uma forte dor de barriga, mas dessa vez como havia comido mais no dia anterior as consequências também foram maiores, como havia despertado mais cedo para terminar de aprontar minha mochila de ataque, foi o tempo de ir e voltar no banheiro algumas vezes. Sai do hostel as 07h50min e optei por nem pegar minhas frutas na geladeira e nem tomar café da manhã, apenas um suco rápido, fiz meu check-out já com o mochilão nas costas, me despedi dos funcionários do hostel e desci a ladeira até a Catedral, na descida tudo é ótimo, comprei um garrafão de água de seis litros e consegui estar no ponto de encontro dez minutos antes do horário previsto, as oito e meia. Dessa vez estava bem agasalhado, durante esses dias em que estive em La Paz as manhas começavam com 5º C e sensação um pouco mais baixa, ainda assim não sentia tanto frio, as roupas foram recomendações por conta da montanha que subiríamos logo cedo, amarrei minha jaqueta na cintura e me sentei aos pés das escadas em frente a igreja.

            A van atrasou um bom tempo, até o momento que chegou um casal de mochileiros em um táxi, apesar do inglês inexistente de minha parte, consegui arrancar a nacionalidade israelense deles e indicar um café a frente, ao contrário de um casal de franceses que também chegaram depois, os israelenses eram simpáticos e pareciam mais perdidos que eu, quando isso ocorre a gente se dá conta que não somos os únicos nessa situação e isso é até encorajador, não olhando pelos desafios dos outros, mas simplesmente por saber que todo mundo tá no mesmo barco e quem têm mais experiência é por que já passou pelo que estamos vivendo agora.

 

MOMENTO DESABAFO: Esse casal de Israel foi bem interessante, quando o taxista retirou as mochilas deles do porta malas, deu pra entender ele dizendo “essa é a igreja que vocês têm que esperar” o homem franzino claramente não entendia espanhol como constatei depois, foi ai que o taxista olhou pra mim e disse: - Olha, eles devem ir no mesmo passeio que você, fica perto deles e ajuda no embarque. Eu só sorri afirmativamente. A princípio eles ficaram bem receosos, na deles mesmo, depois o homem tirou uma moeda do bolso e deu para um dos mendigos que estavam no alto da escadaria junto à porta de entrada da igreja, nesse momento a fila de idosos ao lado ainda era pequena, notei que ele comentou algo com sua mulher e era no sentido de surpresa diante daquela pobreza toda, foi então que puxei assunto com ela, o básico de inglês a gente sabe – apesar de demorar em entender a nacionalidade deles – depois disso tudo, fluiu, indiquei o café do outro lado da rua e vi que iriamos no mesmo passeio. Quando falamos que somos brasileiros eles abrem um sorriso muito bacana de se ver, é bem legal mesmo. Depois fiquei pensando, a gente se acha louco, mas imagina um casal de israelenses, sem falar nada do idioma local, e sem ter noção da realidade local, porque o modo como ele se impressionou com aquele pedinte, foi no mínimo interessante de se observar, no mais, se aquele taxista fosse um mal caráter, ele poderia sacanear ou dar um golpe tranquilamente em ambos, acho que o universo é muito bom para nós mochileiros, porque se fossemos pensar mesmo, não sairíamos do nosso bairro e a vida nem valeria a pena.

 

            Quando nossa van chegou foi uma luta pra entrar com mochilão, mochila e garrafa d’água, parecia uma sardinha dentro, éramos um grupo bem grande de pessoas, em torno de quinze creio, e a maior parte brasileiros, foi uma festa só, ao longo do caminho passamos pela cidade de El Alto, quando subi com Rodrigo pelo teleférico ele passou algumas informações sobre a cidade, mas disse que não havia muitos pontos de interesse para se conhecer, as impressões que tive é que o transito é ainda mais intenso que o de La Paz e as feiras de rua ainda maiores.

            À medida que as duas cidades vão ficando para traz é possível notar a imensidão urbana que ambas formam, e a medida que nos aproximamos da montanha, a vista do caminho, uma estradinha íngreme – onde não passam dois veículos lado a lado, com muitas pedras e neve – e que vai serpenteando a montanha em curvas e mais curvas é sensacional, logo acima podemos avistar os cumes das várias montanhas que rodeiam La Paz, todos ainda com neve, é uma imagem indescritível, mesmo.

 

DICA: Deixe para fazer a subida à montanha no seu último na cidade, para assim auxiliar a aclimatização devido a grande altitude em que está se encontra, a base de onde partimos para o cume está a 5.300 metros de altitude, sendo que a subida para o topo é bem íngreme, de 300 metros, com seu ponto final nos 5.421metros de altitude.

O modo mais fácil e seguro para chegar a Chacautaya é por intermédio das agências, elas oferecem o transporte, guia e incluem o Valle de La Luna no passeio, pelo menos na No Fear não havia diferença de preços com ou sem o Valle, então fechei o pacote dos dois passeios pelos mesmos cem bolivianos, mais as entradas que possuem ingresso pago a parte. Pra quem quer fazer de modo independente também é possível, basta contratar um táxi e pagar a entrada, esse trajeto de descida da base pela estrada de acesso é feito também por ciclistas em busca de muita emoção, pois não há defensas para salvar pessoas tipo eu, que saem capotando por ai, por fim o preço acaba sendo maior, no entanto não haverá limite de tempo para ficar na montanha nem a convivência com outras pessoas, caso prefira. Por fim, agora sim, também há como personalizar o passeio na própria agência, mas isso depende de um grande numero de pessoas no grupo ou desembolsar um valor maior, assim além de ficar mais tempo, ainda existe a opção de caminhar até o outro lado da montanha, onde o carro da agência recolhe os aventureiros.

E independente do modo como vai, leve roupas de frio, venta muito no topo e dependendo de como for sua caminhada e do grupo, você poderá passar mais tempo lá, óculos de sol é indispensável assim como protetor solar, água e algo que de energia rápido como chocolate, alguma fruta ou barras de cereais.

 

            A sede da estação está completamente abandonada, assim sendo não havia muito que ver nesse espaço, logo iniciamos a subida e foi ai que eu senti a altitude de vez, o coração dispara, tropeça quase para, só pode que o Tiago Iorc foi compor lá essa música, porque é assim mesmo, simplesmente a gente puxa e não vem oxigênio, o coração palpita muito forte e falta força pra continuar a subida, o frio também vem forte com o vento, acabou que fui ficando para traz, e precisava parar a cada dez passos no começo. Além de mim outro brasileiro também estava bem cansado, mas nem de longe ofegante como eu, e ainda aproveitava para parar e tirar um monte de fotos, a israelense não conseguiu dar continuidade, em compensação o marido dela acompanhou ela até o terço da montanha, me ultrapassou correndo, foi até a metade, voltou para vê-la e depois voltou a me ultrapassar já na metade do caminho, Nossa Senhora que fôlego e eu que não dava um boliviano por ele, acabou que eu e o outro brasileiro fomos um incentivando o outro, quando cheguei na metade parava a cada vinte passos e quando já dava pra ver o topo a cada trinta, acaba que a gente vai pegando o ritmo com passadas mais curtas e ritmadas, mas o incentivo ajuda muito além de um pouco de chocolate que tinha levado (ainda do downhill), só depois de comê-lo que consegui ter mais um pouco de forças, quando chegamos ao topo, valeu de mais tudo, é uma sensação de superação sem igual, ventava muito, mas a vista era magnífica, ao horizonte, bem longe é possível ter um vislumbre do Titicaca, além das várias outras montanhas que cercam La Paz e que são muito mais desafiadoras como a Huayana Potosí, que o Rodrigo era guia e me convidou para escalar em uma próxima oportunidade.

            Tão logo chegamos, já iniciamos a descida, nosso grupo estava só nos esperando mesmo e torcendo por nós – isso é muito bacana –, estava usando meu coturno e tirando a parte que machucava os dedos, ele deu conta do recado, fui o primeiro a chegar à base, para surpresa de todos, o segredo é saber onde pisar, pois há muitas pedras soltas e tínhamos que manter uma distância de quem ia a nossa frente para evitar acidentes, já disse que na descida todo santo ajuda e graças a Deus não ocorreu nada de errado com ninguém do grupo. Quando voltamos à base é que a maioria do pessoal começou a sentir os efeitos da altitude, algo que agora não ocorria comigo, as principais reclamações eram de dor de cabeça e tontura, momento de dividirmos água, algumas folhas de coca que sobraram e irmos para a van, onde o pessoal mais afetado poderia descansar. A descida da base pela estrada de acesso foi bem mais emocionante que a subida, mas o motorista era fera e deu conta tranquilo, mesmo tendo um momento onde todos congelaram, pois a neve havia derretido um pouco e invadido ainda mais a estreita pista, mas fora isso foi tranquilo, muito mais de que ter que voltar a La Paz e cruzar toda a cidade em horário de pico para irmos ao Valle de la Luna.

            Se ver o caótico trânsito de La Paz era engraçado, estar nele era horrível, acho que demoramos quase quatro horas para atravessar toda a cidade, por mais que o motorista escolhesse ruas alternativas, sempre tinha que voltar para alguma via principal, e ai era espera e mais espera, todos já estavam impacientes dentro da van, até os paulistanos acostumados aos engarrafamentos da metrópole brasileira, aproveitei pra conhecer melhor o pessoal, só não me pergunte o nome deles, mas de resto eram tudo gente boa. Já haviam feito Cusco e então fui pegando umas dicas, principalmente para a Montanha Colorida, acabou que fiquei completamente desanimado, o mesmo parceiro que subiu em ritmo mais lento para fazer a Chacaltaya comigo mais cedo, havia feito a Rainbow Mountain e me relatou da dificuldade que teve, idêntico a mim mais cedo – apesar de ir lentamente, ele não sentiu a falta de ar – a diferença entre as montanhas, segundo ele, é que a Chacaltaya é mais íngreme, no entanto nós já a iniciamos praticamente no topo, já a Rainbow tem um percurso de oito quilômetros para serem vencidos em mais ou menos oito horas, se for por agência, sendo que seu início se da nos 4.000 metros de altitude e termina nos 5.200 de altitude, ou seja, é muito mais desgastante, mas isso era coisa para se preocupar depois, em Cusco.

            Pois bem, vencido o trânsito, chegamos ao famoso Valle de la Luna, o lugar possui uma estrutura massa, pagamos a entrada e logo tivemos acesso aos banheiros, e depois começamos o passeio, a geologia do lugar é realmente muito diferente, possível de ser notada em alguns paredões que circundam a cidade, mas ali podemos ver de perto, tocar e caminhar pelas passarelas entre os diferentes terrenos, segundo o guia, o americano Neil Armstrong foi quem comparou o lugar ao terreno lunar ao conhecer La Paz ainda na década de sessenta do século passado. E realmente é muito diferente de tudo que já havia visto, mas confesso que imaginava a lua diferente, mas enfim, quem sou eu.

 

DICA: Se quiser fazer o passeio ao Valle por conta, é mais que possível, ele fica a menos de trinta minutos do centro e é possível chegar de ônibus ou táxi – pagar a entrada que é em separado mesmo até pelas agências –, a diferença é que a agência disponibiliza um guia que vai explicando algumas curiosidades no caminho, acredito muito que compense fazer o passeio casado por agência, Chacaltaya e Valle, é só ir preparado para enfrentar uma temperatura negativa no topo da montanha e depois alternar para mais de 30º C durante o passeio a tarde em um ambiente desértico, que tudo dará certo. Durante nosso passeio encontrei o Lucas e americana, diga-se de passagem, eles estavam por conta, como a maioria dos passeios que estavam fazendo nos seus mochilões, mesmo trocando contato, acabou que não conseguimos nos falar mais, mas foram grandes amigos durante o período em que estivemos juntos, tipo aquele lance de atrair quem está na mesma sintonia que a gente, gratidão.

 

            Acabado o passeio, a van me deixou em frente à No Fear, me despedi do grupo que seguiria para o Brasil – como pessoas normais que eram, La Paz é geralmente o ponto final dos mochileiros –, já eu estava apenas no início de meu mochilão e agora iria caminhando em direção a rodoviária, as dicas do Rodrigo já tinham se ido da minha cabeça a tempo, estava confiando nos aplicativos do celular, mas como queria um caminho menos movimentado que a avenida principal, tentei seguir pelas ruas paralelas, tentei me organizar sentado em um movimentado ponto de ônibus na praça da Igreja São Francisco, o objetivo era mentalizar os mapas para evitar ficar sacando o telefone a todo momento, um mochilão, uma mochila, um garrafão de água, aqueles coturnos e a rodoviária que parecia tão perto no mapa, só parecia mesmo.

            Atravessei a avenida para ir em direção a rodoviária, mas era uma passagem subterrânea um tanto estranha, pensamos, “se não formos roubados agora, depois que não seremos mais”. Acabou que nem foi tão perigoso assim, é só fazer cara de mal e sair gritando, eu sou Zé Pequeno porra, as pessoas respeitam a gente.

            Mas voltando a falar sério, sai em uma rua muito estranha, então fui subindo para uma mais movimentada logo acima, aquele dia eu não estava nada bem, a cada meia quadra eu tinha que fazer uma parada pra descansar, tipo sentar e descansar mesmo, não tinha fôlego para encarar nem as descidas mais longas, quando pensei em pegar um táxi o preço cobrado era o mesmo que no dia em que fui da rodoviária para o hostel, pensei com meu eu, “deve ser essa cara de doença sua”, porque não era possível, pra variar meu mapa no telefone não estava abrindo agora, os créditos haviam acabado e eu não sabia que tinha que salvar os mapas com antecedência para ter acesso off, Windows Phone, perfeito. Fui tentando me comunicar com as pessoas, pra pegar a direção correta, não tenho certeza quantos pares de vezes ouvi falarem, desce mais quatro quadras que é logo ali, depois mandavam voltar ou ir direção completamente oposta, continuei seguindo por onde achava certo, desci para ruas paralelas sempre que achei que podia estar ficando perigoso, e ia olhando o teleférico, ele era uma referência mais confiável, mas nessa altura sabia que estava bem longe da rodoviária, foi quando estava sentado nas escadarias em frente a saída de uma igreja que uma senhora muito distinta me olhou como se eu não fosse um mendigo e sorriu – certeza que foi um anjo que Deus mandou –, antes de responder por onde deveria ir, ela quis saber se estava bem ou precisava de ajuda, apesar de sentir uma fraqueza e falta de ar, estava bem inteiro, acho que o ódio pelo coturno me manteve vivo, depois que ela indicou certinho o trajeto, tive que andar mais um quilômetro, mas agora já reconhecia os pontos que o Rodrigo me indicou, quando cheguei na esquina que da de frente ao terminal foi um grande alívio, depois dessa estava pronto pra outra como viesse, ah tá.

            Cheguei ao terminal pouco depois das quatro da tarde, fui à procura das agências que vendem a passagem para Uyuni, o pessoal na entrada fica gritando o tempo todo anunciando os destinos e tentando captar os passageiros que chegam, dei uma volta por todo o lado direito e depois fui voltando pelo esquerdo, já perto do meio da estação encontrei duas agências que faziam o trajeto para Uyuni, escolhi a Titicaca (Trans Titicaca Bolívia), não estava esperando muito do ônibus apesar da fotografia estampada na parede – só perguntei se teria banheiro e ela prontamente afirmou que sim –, marquei meu assento, preenchi a burocracia toda a mão, na hora de pagar a moça não tinha troco, então aproveitei para ir comprar umas frutas e trocar o dinheiro pra ela, paguei a passagem, depois o ticket de uso do terminal e fui aguardar o embarque que só ocorreria as 22h00min, mas tinha que estar na plataforma de embarque trinta minutos antes, a outra agência tinha previsão de saída as oito da noite, mas chegaria as cinco da manhã em Uyuni, nos relatos era isso mesmo, mas optei por chegar mais tarde, ainda bem por isso.

            Quando deu o 21h30min fui em direção ao embarque, o ônibus já estava na plataforma, pelo menos no terminal da capital os horários são cumpridos a risca com muita organização, e surpresa, foi o melhor ônibus que andei na vida, três poltronas leito por fileira, jantar, que comi tudo, diga-se de passagem, no entanto no banheiro só se pode urinar, só fui descobrir depois de me encher de banana e do leve jantar oferecido, bom que não precisei usá-lo para outros fins, depois de conferirem que todos haviam pagado a taxa de uso do terminal, fomos liberados para seguir viagem pela noite que passaria mais frio em minha vida, pelo menos até o presente momento dessa escrita.

 

GASTOS: Dia 19.09 (quarta-feira).

 

Água 6 litros = Bs 16,00

Entrada Chacaltaya = Bs 15,00

Gorjeta para o guia (ele foi muito atencioso na subida da montanha) = Bs 20,00

Entrada Valle de la Luna = Bs 15,00

Passagem para Uyuni (Titicaca) = Bs 130,00

Uma caixa de suco de maçã e 05 bananas = Bs 9,00

Taxa de uso do terminal = Bs 1,50

Balas, caneta e moedas para cholas = Bs 5,00

 

TOTAL DOS GASTOS – Bs 211,50 / R$ 133,00 na saída de La Paz.

Observando o movimento da cidade enquanto aguardava a van para irmos a Chacaltaya.

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Caminho para Chacaltaya.

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Estação de sky desativada e ponto de partida para o cume.

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Enfim no topo.

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É neve mesmo.

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Entrada de Valle de la Luna.

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E olha quem encontrei no passeio, minha dupla preferida.

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Valle de la Luna, segundo o guia, Armstrong revelou ser essa geologia similar a da lua, com exceção da vegetação e vida.

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Agência Titicaca, já no terminal rodoviário.

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UYUNI

 

Ainda no terminal de La Paz estava sentindo um frio absurdo que só foi aumentando dentro do ônibus, então logo após terminar minha pequena refeição e no apagar das luzes dei um jeito de vestir meu conjunto segunda pele, calça moletom, minha camisa, a blusa fleece, gorro e luvas, era tudo o que tinha na mochila de ataque, pois havia deixado minha jaqueta no mochilão acreditando que não faria tanto frio dentro do ônibus, mas pelo amor de todos os santos, eu estava simplesmente tremendo, e fui alternando entre dormir e tremer de frio, quando acordava tremendo conseguia ainda olhar a excelente estrada e sua vista – escolhi a poltrona três com visão panorâmica, mas logo dava um jeito de cair no sono de novo, assim tinha menos percepção do frio, que insistia em me acordar – e foi essa luta o caminho todo até chegarmos à pequena Uyuni antes das sete da manhã, quando o ônibus parou já estávamos sob a luz do sol há um tempo, minha esperança era que ele começasse a aquecer o ar logo, mas a sensação de frio só aumentava e quando desci do ônibus só fazia tremer e soltar fumaça pela boca, nariz e acho que até orelhas. Chegou um momento que estava na fila para pegar o mochilão e não conseguia mais controlar de tanto que tremia, me afastei até a calçada – não há terminal de ônibus na cidade – e soltei o meu inseparável garrafão de água, nesse momento um senhor me abordou para fechar o passeio para o salar – super normal, o pessoal fica há espera dos ônibus que vem lotados de mochileiros e turistas e ficam em cima da gente que nem agentes de turismo mesmo –, acho que meu cérebro congelou por um minuto e só disse que iria pegar meu mochilão e esperar uns amigos brasileiros para irmos juntos – apesar de congelando, lembrei das dicas de não aceitar o primeiro que aparecesse, mas a dica quase correta é, perguntar o preço e depois ver se há alguém mais barato – no momento essa foi a única desculpa que consegui pensar, e não era totalmente mentira, ainda no ônibus havia ouvido um sotaque português muito nítido, minha esperança era encontrá-los enquanto pegava meu mochilão, mas após fazê-lo e não ouvir nada, fui indo em direção ao meu garrafão, que sempre permaneceu no meu campo de visão, e depois de pegá-lo, já me afastando um pouco da multidão, nesse momento um outro senhor aparece diante de mim e pergunta se eu já tinha agência, só falei que não e dessa vez perguntei seu preço, quando ouvi que estava abaixo das minhas referências de relato abri um sorriso, mas ainda havia outra questão a perguntar e antes de abrir a boca ele já emendou, vamos até a agência que lá tem um aquecedor e depois vou te levar em uma cafeteria pra que possa comer algo quente, se ele tivesse dito isso antes de falar o preço eu já teria ido com ele de cara, mas mesmo tremendo igual uma vara verde (nunca vi, mas minha avó sempre usa essa comparação) ainda estava raciocinando bem, e morrer de frio parecia a coisa mais urgente a se evitar no momento, a questão do passeio poderíamos ver depois.

 

DICA: A travessia do salar é feita por várias agências, procure sempre as diretas ao invés das intermediárias, a mais conhecida é a Esmeralda Tours, mas a operadora em que fechei o pacote foi a Ever Green Travel, acabei dando muita sorte, pois o meu pacote incluía o passeio pelo salar de três dias e duas noites, as refeições, acomodações de pernoite e o transfer da fronteira até San Pedro do Atacama já no Chile, tudo por Bs 750,00 – enquanto que outras pessoas no meu grupo que fecharam diretamente tiveram que pagar cinquenta bolivianos a mais pelo mesmo pacote. Segundo o dono da agência faltava apenas uma pessoa para fechar a “cota” dele, e essa cara era eu.

Existem várias modalidades de passeio, desde apenas um dia, dois e uma noite, e mais que três dias e duas noites, apesar deste ser o mais popular por fazer a ligação entre a Bolívia e Chile, a faixa de preços vai variar conforme o nível de experiência e personalização que estiver disposto a vivênciar, os passeios são fechados em grupos de seis pessoas mais o motorista, que será o responsável pelo grupo durante todo o tempo, desde a questão das refeições, rotas, lugares de parada, ajuda com as fotos em perspectiva, e horários.

Quando disse mais acima que a dica quase correta era ver o preço de várias agências antes de fechar com a mais barata, o “quase” fica por conta da qualidade do serviço que também deve ser levado em consideração, preços muito abaixo dos encontrados em relatos, por exemplo, podem envolver veículos em péssimas condições, problemas com os motoristas, entre outros, por isso procure agências referenciadas, já que ter problemas nesse tipo de passeio pode ser algo bem complicado.

Outra dica é fazer o passeio a partir da Bolívia para o Chile, ele acaba sendo em média, vinte por cento mais barato do que o caminho inverso, tudo no Chile é mais caro – tudo.

 

Quando li os relatos da chegada em Uyuni, não me lembro de ler sobre essa abordagem das agências, acho que justamente por que o pessoal chegava no primeiro horário a cidade, entre quatro e cinco da manhã, nesse caso o pessoal descia dos ônibus e iam direto para as cafeterias em busca de fugir da morte congelante – isso é unanimidade, mas só me apercebi quando estava lá – e uma vez lá dentro são abordados ou conseguem formas grupos e se organizar para ir em busca das agências e fechar os passeios. Já o meu caso foi diferente, após seguir com o senhor para seu veículo e depois para a agência, ele ligou o aquecedor e foi me mostrando como seria o passeio, todos os pontos de passagem, o transfer incluso, o modelo de veículo, os valores que deveria ter disponível para fazer a travessia, entre outras coisas – mas só de estar em um lugar quente eu já estava bem mais feliz, como o preço estava abaixo do que esperava, fiquei um pouco preocupado com a qualidade do serviço, mas só poderia confirmar depois que começasse o passeio – a única coisa que pedi com um pouco de ênfase foi a possibilidade de me encaixar em um grupo que tivesse algum brasileiro ou falante de português, e ele disse que conseguiria fazer esse encaixe, mas precisaria sair pra confirmar antes, e me deixaria aguardando um pouco na agência para depois me levar a cafeteria.

 

MOMENTO DESABAFO: Essa viagem foi muito abençoada, quando me levantei com meu garrafão de água, o agente da Ever Green parecia que estava me observando, só aguardando para me abordar, apesar do frio fiquei receoso de que pudesse ser algum golpe, cara a gente tá sozinho, entrando em um carro com um completo desconhecido, acho que o Brasil cria uma paranoia tão grande na gente que tudo pensamos ser algum tipo de golpe, ou coisa de serial killer, quando não é, ou oremos pra não ser né. No mais se ele não tivesse aparecido, sinceramente não tinha muita noção do que fazer, nos relatos base para o meu, o pessoal ia em direção as cafeterias, mas no momento ficamos muito perdidos, é muito frio mesmo, por isso procure, se possível, alguma companhia, vá muito bem aquecido, e se conseguir falar, pergunte onde ficam os lugares para comer algo, a cidade é bem pequena, uma vez nesses ambientes tem wi-fi e aquecimento, dai pra resolver qualquer problema é um pulo.

 

Assim que paguei o passeio ele me levou até a cafeteria para que pudesse comer alguma coisa enquanto ele agilizaria os preparativos para o passeio, agora já não estava mais tão frio e na sua ausência me livrei do conjunto segunda pele, à medida que o sol vai aquecendo o ar, tudo fica mais suportável, mas aquela madrugada havia feito dois graus negativos, por isso de todo aquele frio que senti. Já na cafeteria tomei um café americano e antes de sair usei a casa de banho do estabelecimento, já que durante o passeio acesso a banheiro só nas paradas ou na hospedagem ao fim do dia. De volta à agência, agora aberta, ainda demoraríamos mais uma hora para partir, então pedi algumas dicas para chegar a uma casa de câmbio, já que tinha o dinheiro contado para finalizar o passeio, mas precisava compra mais algumas coisas, além do que queria conhecer um pouco da pequena cidade, agora muito simpática aos meus olhos, com o sol no céu e sem aquele frio tremulante.

Tirei fotos da praça e outros monumentos, depois aproveitei para comprar uma meia de lã grossa, nem tanto pelo frio, mas por conta do coturno que engolia minhas meias à medida que ia andando e como ele seria meu parceiro de caminhada pelos próximos três dias – tínhamos que nos acertar de um modo ou de outro, triste ilusão –, como já estava lá aproveitei pra comprar um cachecol também, achei muito colorido como tudo na Bolívia, mas era bacaninha. Depois continuei minha jornada em busca das casas de câmbio, só achei uma aberta e o preço era o pior de toda a viagem, troquei o básico apenas para garantir que teria dinheiro boliviano até minha chegada ao Chile.

 

DICA: Apesar de não ter levado dólares e do real estar no pior momento do ano devido às incertezas da eleição, deveria ter me atentado mais para a questão cambial, cidades muito turísticas são péssimas pra troca de moeda, Uyuni e posteriormente San Pedro foram prova disto, enquanto em La Paz paguei R$ 1,00 por cada Bs 1,60 – em Uyuni por cada real só consegui Bs 1,40. A diferença no Chile foi mais ou menos parecida, a cada R$ 1,00 consegui apenas S 140,00 - 145,00 – enquanto a cotação do dia marcava para cada real S 160,00 (pesos chilenos). Se tivesse sido um pouco mais esperto, teria comprado a moeda chilena em La Paz mesmo. Para ter certeza basta interagir nos fóruns e comunidades de viajantes e perguntar como está a cotação nessas cidades mais turísticas e procurar a cotação do dia na internet, nas grandes cidades e capitais fora do país de origem, a variação negativa ocorre, mas é bem menor do que em cidades turísticas dentro do próprio país, uma mochileira que encontrei em San Pedro havia cambiado dinheiro em La Paz com uma cotação em pesos chilenos muito melhor do que eu estava pagando em San Pedro, dentro do próprio Chile. E por ultimo, nem todas as casas de câmbio aceitam a moeda brasileira, logo quanto menos concorrência, menor a oferta e maior o custo.

 

Na volta aproveitei pra comprar mais água e um refrigerante, o motivo da água era para ter uma garrafa menor durante a viagem já que ficar com o garrafão o tempo todo era de mais também, quando retornei na agência estava tudo pronto, terminei de pegar o que usaria no dia e coloquei na mochila de ataque – o mochilão vai em cima do carro muito bem amarado e coberto, então pegue o que vai necessitar porque depois só na parada pela noite – o principal a não se esquecer são os lenços umedecidos, protetor solar, papel higiênico pra ficar tranquilo e uma blusa de frio, estou contando que nesse momento você já estará apenas de camiseta e com óculos de sol no rosto. Como ainda faltavam alguns minutos coloquei o telefone pra carregar e esperamos mais um pouco enquanto a caminhonete havia ido buscar o pessoal do meu grupo em uma das cafeterias, depois de voltar para a agência iriamos seguir direto para o primeiro ponto do passeio – o cemitério de trens.

 

GASTOS: Dia 20.09 (quinta-feira).

 

Passeio Salar de Uyuni (três dias e duas noites + refeições + pernoites + transfer até San Pedro do Atacama) = Bs 750,00

Café Americano (dois pães, geléia, café com leite e um copo de suco) = Bs 23,00

Uma meia de lã e cachecol = Bs 45,00

Bebidas (agua 2l + Sprite 500 ml) = Bs 12,00

Troca de moeda (R$ 1,00 = Bs 1,40) – R$ 50,00 = Bs 70,00

 

TOTAL DOS GASTOS – Bs 830,00 / R$ 518,75 em Uyuni

 

Prédio público em Uyuni.

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Prédio do relógio na praça principal.

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Monumento Dakar.

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Antes de viver do turismo a cidade era essencialmente mineira, e seu surgimento teve forte ligamento com uma linha ferroviária, na rua onde se encontram boa parte das agência, inclusive a Ever Green, há vários monumentos recontando essa história.

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O SALAR

 

Quando entrei no carro dei de cara com o grupo que seriam meus companheiros pelos próximos dias de viagem pelo salar, o motorista Carlos, boliviano que ganha à vida trabalhando como guia já a um bom tempo, no princípio um tanto calado e na dele, mas foi fundamental para todo o passeio ter transcorrido perfeitamente, além de mandar bem na cozinha foi o responsável por nossas fotos panorâmicas em perspectiva, além da melhor playlist possível. Ao seu lado o navegador Renato, brazuca, que não era bem um navegador como num rally, ele era turista igual nós, mas um cara com uma energia lá em cima, muito viajado e comunicativo, e com uma força de palavra muito grande. Como fui ao meio atrás, ao meu lado tive a companhia de duas mulheres incríveis, a Sinara – moradora da capital paulista super conectada e pró ativa – e a Neuza, uma portuguesa que estava em um mochilão de oito meses até então, começou pela Ásia e terminaria no Brasil, quando então voltaria para casa, todos falantes da língua portuguesa, quando nos demos conta da mais que feliz coincidência foi uma alegria geral, não só porque éramos todos lusófonos, mas nosso grupo estava em uma energia muito bacana, na mesma sintonia mesmo, tanto que não tivemos nenhum tipo de problema de interação nem convivência, pelo contrário, viramos amigos de infância e viagem, pelo menos enquanto durou, ainda haviam dois integrantes que iriam se juntar a nós nesse dia ao longo do salar, um casal francês de amigos, e que foram uma grata surpresa, mais a frente revelo o por quê do grata.

O primeiro ponto de parada foi o cemitério de trens, um lugar aos arredores da cidade onde ficaram depositados vários vagões e locomotivas já em avançado estado de deterioração devido estarem expostos às intempéries, apesar de não ter nada de especial na atração e não haver por parte dos guias nenhuma explicação voluntária do porque daquilo tudo, é um bom lugar para tirar algumas fotos, mesmo estando repleto de turistas, tipo, muitos mesmo, vale o registro e é uma primeira forma de interação do grupo. Nesse momento me dei conta que havia deixado meu celular carregando na agência, por sorte ainda estávamos perto da cidade e o dono da agência prontamente atendeu ao pedido de Carlos para trazer o celular até ali, mas isso era só um prenuncio do que aguardava meu parceiro de viagem. Acabou que ainda deu tempo de tirar umas fotos do lugar e não deixar passar em branco.

De volta ao carro agora era hora de começarmos a adentrar o salar, num primeiro momento de transição é uma mistura das cores de terra e o branco do sal, mas quanto mais avançamos mais o branco vai dominando a paisagem até que a sensação é como se estivéssemos em meio a mais pura neve até onde a vista alcança. Primeiro fizemos uma rápida parada obrigatória em um vilarejo onde se vendem de tudo para turistas com um pouco mais de grana, coisa obrigatória mesmo e tão logo olhamos por olhar uns suvenires e tiramos algumas fotos, já demos seguimento à viagem. Ainda em meio a essa área de transição paramos rapidamente para observarmos uma espécie de mina d’água em meio ao deserto de sal, com propriedades curativas, mas não recomendáveis, claro que como bons turistas que somos aproveitamos mais do que a explicação de Carlos e provamos para ver se a água que brotava era salgada mesmo, e é era, tipo de parar os rins e cair à língua, mas estamos todos vivos para contar a história.

Depois dessa rápida experiência que pode nem ser vivida a depender do motorista, a próxima parada era um ponto de apoio onde faríamos nossa refeição de almoço, o local é muito bacana, conta com banheiros e mesas onde cada grupo é servido, o preparo da comida fica por conta do guia que nos liberou para conhecer os arredores enquanto ele preparava tudo. Nesse ponto há um monumento do Rally Dakar, além da praça das bandeiras de todos os países que por ali, alguém passou, e claro que a brasileira estava mais que presente, e apesar da concorrência e disputa, deu pra todo mundo fazer seu registro, nem que para isso tenha que ser no grito e correria, ainda bem que estava muito bem acompanhado porque não sou muito disso, ou melhor, não era. A comida era simples e gostosa, acho que pela primeira vez comi carne de lhama, mesmo o guia tendo dito que não, com um riso sínico na cara, mas a menos que os bois da região – que nem existem, diga-se de passagem – mudem de gosto devido a altitude, aquilo era lhama, e como comi lhama sabendo que era lhama depois, aquilo era lhama, ou melhor, alpaca.

A tarde foi para conhecer o salar, agora já éramos um ponto naquele infinito branco, em dado momento começamos a puxar assunto com nosso motorista calado, ai nosso navegador de bordo indagou o que ocorreria se ocorresse algum imprevisto como um pneu furado – já que estávamos em meio a um deserto de verdade, mas ao invés de areia como logo pensaríamos, era sal que tínhamos em nosso arredor – acho que deu tempo para o Carlos responder e bingo, um pneu furou, não foi por acaso que disse que Renato tem um grande poder de palavra, apesar de um constrangimento inicial e muito riso, rapidamente nosso motorista resolveu o problema com a ajuda de outro carro que estava por perto, tática que eles usam para evitar problemas como de se perderem na imensidão do salar.

Problema resolvido, demos seguimento ao passeio pelo deserto branco, até que paramos para fazer a tomada de fotos obrigatória desse momento, por ser muito plano e só ter o azul do céu e o branco do sal como tela de fundo, basta um pouco de imaginação e um bom fotografo para criarmos vários cenários diferentes e brincar com as perspectivas e objetos a mão, no nosso caso, o Carlos desempenhou as funções de fotografo já que estávamos apanhando um bocado para pegar as manhas, e ainda usamos um dinossauro de brinquedo e um rolo de papel higiênico, não sei quanto tempo durou toda aquela brincadeira, mas acredito ter sido para todos do grupo, o ponto alto do passeio naquele dia, claro que vimos muita coisa linda, paisagens de tirar o folego, mas essa interação em grupo foi algo simplesmente sensacional.

 

DICA: Capriche no protetor solar, protetor labial e não esqueça os óculos de sol, apesar de ventar muito e dar uma sensação de frio constante, o sol também não da trégua e queima, muito.

 

Fotos tiradas, agora seguimos para o próximo ponto de parada, a Isla Incahuasi, também conhecida como ilha dos cactos gigantes, é um lugar muito intrigante, onde algumas plantas conseguem se desenvolver há algumas centenas de anos, o local é o topo de um vulcão que ficou submerso no processo de formação do salar. Depois de pagarmos a entrada para a trilha e que também da acesso aos banheiros, podemos percorrer um caminho demarcado que leva no seu ponto mais alto ao mirante da Plaza 1º de Agosto, de lá podemos ver todo o salar e a cordilheira ao fundo, além da Ilha do Pescado, os carros e pessoas na entrada, outros carros ao longe cruzando a imensidão do salar, enfim, o caminho é muito tranquilo e o guia nos dá o tempo necessário para percorrermos o percurso no nosso ritmo até voltar a base, junto a trilha também há estruturas que lembram ou são corais petrificados, muito interessantes e que provam as transformações que nosso planeta sofreu e continua sofrendo no seu processo de formação.

Nesse ponto recebemos a companhia do casal de franceses que completariam nosso grupo, no começo eles estavam meio na deles, mas tem que ser muito chato pra não se contagiar com um bando de brasileiros juntos, e bingo, eles estavam vibrando na mesma sintonia que nós, apesar do idioma ser uma barreira, com exceção de mim, todos arranhavam um inglês então deu pra fazer uma comunicação bacana e interagirmos mutuamente. Quando disse lá atrás sobre eles serem uma grata surpresa, é pela fama que os franceses carregam de serem um tanto metidos para nossos padrões tupiniquins, o que não era o caso, pelo menos não com eles.

Da Ilha dos cactos seguimos para outro ponto no salar para apreciar o pôr do sol, momento de mais fotos, tentar brincar com o sol em perspectiva, mas sem o Carlos para nos guiar, acabou que a tentativa de segurar o sol ou relembrar o Dragon Ball Z não ficou das melhores, mas rendeu muitas risadas. Depois que o sol se pôs, fomos conhecer nossa hospedagem onde passaríamos a noite, um hotel de sal em meio ao salar, agora não me recordo se tudo era de sal, mas o quarto era desde o chão até á cama. Uma vez instalados, além de uma deliciosa refeição que incluiu vinho, salsichas com batata e sopa, pode-se pagar por um banho quente, o que é aconselhável, tendo em vista que na noite seguinte essa opção se quer existe.

O dia começou cedo, café da manhã tomado, mochilões em cima da caminhonete e começamos o segundo dia pelo salar, na verdade a partir desse ponto já começamos deixar o branco do salar para avançarmos em direção a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, o primeiro ponto de parada foram os trilhos de trem que um dia já cortaram toda a região, rápido momento para fotos e para apreciarmos os picos que circundam toda a paisagem, depois fomos convidados a explorar algumas formações rochosas esculpidas pela erosão do vento, a visão dos vários picos de montanhas e vulcões com o céu e sol logo acima dão uma perspectiva de dimensões únicas, nesse dia também começou a visita nas lagoas da região, são várias, no entanto estavam já bem secas devido a época do ano, o período de chuvas só teria início na próxima estação e os picos das montanhas quase já não tinham mais neve que após o período de chuvas são responsáveis por manterem os lagos cheios de água e vida devido ao degelo.

Nosso almoço foi junto à Laguna Hedionda, nela havia um bom grupo de flamingos, além do cheiro forte por conta dos elementos minerais que compõe toda sua formação, na verdade são a misturas de diferentes elementos que dão as diferentes colorações as lagoas da região, além da lagoa, o local conta com uma estrutura receptiva aos turistas, o que inclui restaurantes, banheiros e locais para pernoite, tudo muito colorido, nesse dia nada de lhama, o almoço foi frango e acho que tivemos arroz também, comida boa e deliciosa e o melhor, sem dores de barriga. Depois do almoço descansamos um pouco em algum ponto longe do sol que castigava, ou simplesmente fomos apreciar a vista da enorme lagoa. À tarde o ponto alto do passeio foi a Arbol de Piedra no deserto de Siloli, já próximo a entrada da Reserva, ali além do monumento principal, podemos escalar as formações ao redor e tirar algumas fotos, antes, no trajeto ao longo do deserto, nosso motorista nos incentivou a descer e caminhar por um “labirinto de pedras” onde além das enormes rochas de ambos os lados, encontramos gelo, tipo do nada e derretendo ao sol da tarde, e também roedores conhecidos como Vizcachas, que nos rendeu boas fotos e risadas.

Tiveram outras lagoas das quais não vou me lembrar do nome, tanto neste dia quanto na manhã seguinte, mas são várias mesmo, no entanto o destaque fica para as principais, já as fotos não, qualquer poça – e se tinha um flamingo então – já era motivo de uma paradinha pra esticarmos as pernas e dar utilidade aos nossos celulares, já que sinal não existe. Por fim chegamos ao posto de controle de entrada das pessoas para acesso a Reserva, ali todos descem, pagam a entrada e podem carimbam o passaporte, já que é de graça, por que não. Depois seguimos até chegarmos ao ponto onde dormiríamos, junto a esse ponto fica a Laguna Colorada, de um vermelho lindo e nessa altura misturada ao branco de algum elemento mineral que estava aparente devido a seca, ao longe haviam alguns flamingos e o que o grupo foi fazer – descansar como os demais é que não foi – seguindo a liderança dos franceses, fomos um a um atrás do outro, a princípio a ideia era contornar a lagoa, mas chegamos em um terço dela e logo o sol iria se pôr, como ainda tínhamos que voltar, fomos um a um retornando – na verdade subestimamos seu tamanho e tivemos que admitir a derrota, além do que o vento forte e cada vez mais frio era bem convincente – de volta aos alojamentos, podemos enfim descansar um pouco até a hora do jantar, óbvio que como bons brasileiros que somos, pensamos em fazer uma fogueira ou pelo menos uma festa – coisa da Sinara, eu só dei o apoio imoral necessário –, mas essa possibilidade logo foi frustrada por nosso guia, dormir cedo era a única opção possível já que antes das cinco deveríamos estar em pé para iniciarmos o último dia de passeio.

Foi a noite mais fria de toda a viagem, menos dez Celsius, apesar de não ter sentido o frio, passamos uma noite bem agasalhados e saímos preparados para o primeiro ponto do passeio – os Gêiseres Sol de Mañana, o motivo de sairmos tão cedo é que a atividade dos gêiseres é mais intensa pela manhã, antes do sol nascer –, ainda no local de pernoite tomamos um quente café da manhã e nos preparamos para dividir o grupo, como Renato e nosso casal francês não seguiria para o Chile eles iriam em outro carro, neste primeiro momento apenas seus mochilões, nossa separação só ocorreria depois.

Nosso caminho até os gêiseres foi ao som de musica brasileira dos anos 90 e 2000, axé, sertanejo e Gabi Amarantos, acho que aqueles europeus nunca viram um bando de gente mais sem futuro que nós brasileiros, até prometer de fazer a coreografia da Joelma se tocasse Calipso foi prometido – não preciso nem dizer de quem partiu as ideias e animação, meu apoio era apenas imoral mesmo. O caminho até os gêiseres é feito mais ou menos em comboio pelos motoristas, e mesmo assim a chance de errar era grande, mas logo chegamos ao ponto de apreciação desse interessante fenômeno, apesar de estar bem escuro e não podermos avançar muito por entre as rochas esfumaçantes, foi muito valida essa experiência. Depois seguimos em direção aos banhos termais, que é opcional para cada um, dessa vez não entrei, apenas as meninas, e foi nesse ponto onde nosso grupo se dividiu, nos despedimos de nossos amigos de Salar que retornariam para Uyuni enquanto nós continuaríamos em direção ao Chile, eles ainda percorreriam os mesmos pontos que nós antes de encerrar o passeio, mas devido a logística, em outro carro que não iria até a fronteira.

De volta ao carro, seguimos agora na companhia de duas belgas para o Desierto de Dalí, o pintor espanhol – algumas de suas obras lembram muito as magnificas paisagens locais, mesmo ele nunca tendo estado ali. Um dos últimos pontos de parada antes da fronteira foi a Laguna Verde, aos pés do Vulcão Licancabur que divide Bolívia e Chile, a vista é indescritível de verdade, passados o momento de contemplação já era hora de começarmos a preparar os espíritos para a despedida dessa jornada, agora era encarar os tramites fronteiriços entre os dois países e seguir para uma nova etapa da viagem, San Pedro do Atacama.

 

DICA: O processo de saída da Bolívia é relativamente simples, antes de irmos em direção as vans que nos levam da fronteira para a cidade chilena, temos que dar baixa da nossa entrada no país, o escritório boliviano é bem simples, e o processo é apenas de carimbar o documento emitido na entrada, no entanto o agente de imigração boliviano cobra uma taxa para tal baixa, essa pratica é irregular, uma vez que tal cobrança não existe nem para a entrada, nem para a saída, em nenhum país por qual passei, diga-se de passagem. Como havia lido a respeito dessa ação já bem conhecida, combinei com a Sinara que não pagaríamos e que até falaríamos que éramos jornalistas se fosse necessário, algo que não foi preciso, no entanto fica a dica, apesar de ser um valor muito baixo, quinze bolivianos a época, o ato é ilegal e um exemplo claro de corrupção contra estrangeiros.

 

MOMENTO DESABAFO: A Sinara estava na minha frente no momento de passar pela imigração, dentro do escritório forma-se uma fila de quatro ou cinco pessoas, a desculpa dela para não pagar foi exigir um comprovante do pagamento da taxa, algo que se quer se cogita existir, pois é irregular, segundo ela o agente coçou a cabeça e a mandou embora sem pagar a taxa. Como fui logo em seguida, entreguei o passaporte e o papel de entrada emitido pela imigração em Guayaramerín, o agente sequer olha pra conferir se a gente é a gente mesmo, apenas pede o dinheiro enquanto prepara os papéis, como resposta ao seu pedido eu disse que era brasileiro e que minha embaixada não havia instruído em nada sobre pagamentos para saída da Bolívia – em um espanhol relativamente entendível e preparado com muita calma, mano – nesse momento o agente me fuzilou com os olhos e se levantou da cadeira, eu só pensei, tô fu****, vou ficar preso nos confins da Bolívia por conta de míseros quinze bolivianos. O agente foi até a fila e mandou todos esperarem do lado de fora e só entrarem um por vez após a saída de quem estava lá dentro – foram os segundos mais tensos de toda a viagem, naquele momento tinha certeza que seria preso ou no mínimo levaria umas cacetadas –, mas ele apenas se sentou com ódio, carimbou meu passaporte e mandou-me sumir dali, assim que voltei a respirar consegui sacar um sorriso de alívio na minha cara. Na verdade o que ele queria era que ninguém mais ouvisse para evitar novas recusas em pagar a propina. Mas além desse relato, acabei por ler outro onde um brasileiro quase fora preso por policiais bolivianos em meio ao trajeto por uma das estradas do país, mesmo estando com toda a documentação correta, o que os policiais queriam eram dinheiro para não criar problemas, enfim, ter sorte também é necessário para evitar esses tipos de situação na viagem por países com problemas institucionalizados de corrupção, depois desse momento, só torço para que nossos agentes de polícia e fronteira não ajam como alguns de nossos vizinhos, nem contra nós brasileiros – algo que nunca vi – e ainda menos contra estrangeiros, porque é o momento de maior fragilidade e impotência de um turista, estar no meio do nada, sem acesso aos meios de comunicação ou imprensa e ter que lidar com pessoas de baixo valor moral e humano.

 

GASTOS: Dia 20.09 (quinta-feira).

 

Entrada Isla Incahuasi = Bs 30,00

Banho Quente = Bs 10,00

 

GASTOS: Dia 21.09 (sexta-feira).

 

Entrada Reserva Eduardo Avaroa = Bs 150,00

 

GASTOS: Dia 22.09 (sábado pela manhã).

 

Bs 0,00

 

TOTAL DOS GASTOS – Bs 190,00 / R$ 122,85 no Salar.

 

Cemitério de Trens.

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Nascente d'água em meio ao salar.

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Praça das bandeiras.

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Interior do ponto de parada para o primeiro dia de almoço.

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Bastidores das fotografias em meio ao salar.

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Ilha dos cactos.

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Vista do salar a partir do mirante no topo da Ilha.

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Pôr do sol na companhia do melhor grupo possível (a esquerda o casal de amigos franceses, ao fundo a portuguesa Nelza, e os brasileiros Renato e Sinara.

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Vista da Laguna Hedionda.

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Vizcacha do deserto.

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Arbol de Piedra.

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Laguna Colorada.

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Gêiseres Sol de Mañana

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Nascer do sol junto as termas.

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Laguna Verde e o Vulcão Licancabur ao fundo.

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    • Por Leandro Freire
      Prefácio.
      Segue meu relato desta viagem incrível que finalmente consegui realizar com minha Esposa Josi e nossos dois filhos, Ana Clara 9, Vitor Hugo 12, em Janeiro de 2019.
      Já vou avisando que sou um pouco detalhista demais, acabo me empolgando e escrevendo muito. Então se você não tem paciência, paciência, OK ? 
      Infelizmente eu fui anotando algumas informações, como gastos, nomes de alguns lugares onde comemos ou dormimos, tudo em um aplicativo de notas do celular, e por alguma cagada minha, acabei apagando o arquivo, portanto algumas dessas informações serão baseados nas minhas lembranças que, vou confessar, já não está mais aquelas coisas...
      Tudo começou a muitos anos atrás, quando eu passava de bicicleta por uma Rodovia que cruzava a cidade, e vi um cara parado no semáforo com roupas de Couro, uma moto grande com vários adesivos colados de bandeira dos países vizinhos, cheio de malas na garupa, bandeirinha do Brasil balançando ao vento atrás,  etc.
      A Moto estava toda suja, do tipo que rodou o mundo. Ele tirou o capacete por uns segundos talvez pelo calor que fazia no dia, e percebi que era um senhor já de idade, com barba fina e longa, cabelos compridos atrás mas careca em cima.
      Ele percebeu que eu o olhava com curiosidade e então acenou me comprimentando com a cabeça e com um Joinha. Eu retribuí o cumprimento, o semáforo abriu, ele seguiu seu rumo, eu o meu, e esqueci.
      Algumas semanas depois, assistindo TV tarde da noite, o cara tava lá dando entrevista no antigo programa Jô 11 e Meia. Eu quase caí do sofá. Caraca, conhecia ele, aquela barba fina e esticada,  até me cumprimentou, era meu amigo. E foi aí que conheci sua história.
      Ele se chamava Miragaia Renê Angelino. Um advogado que morava em São Paulo e que já tinha feito viagens incríveis de Moto. Procurem no youtube que tem várias entrevistas dele. Nessa entrevista ele havia recém lançado um Livro chamado ‘Minha Moto eu e a América’ onde ele contava sua viagem por 45.000 KM rodados em 90 dias pela América do Sul com uma moto. E eu ali, nem piscava. Minha cabeça anos 90 pensava que essas coisas mirabolantes só existiam na Europa.

       
      Me empolguei tanto com a entrevista que comprei o livro do meu novo amigo que me cumprimentou no semáforo e que era escritor e aventureiro..
      Eu, que até então estava acostumado a ler apenas Agatha Christie ou Os Sertões (mentira, só Agatha Cristie), fiquei tão fascinado com o livro que quando terminei de ler, disse pra mim mesmo ‘One Day I will do something similar´.
      Na verdaade, na verdaaade, eu disse ‘One Day, farei algo parecido’, pois só One Day que sabia falar em Inglês. O resto falei em Português mesmo. Aliás não sei falar inglês até hoje, usei o Google Tradutor na frase acima. 🙈
      Só que essa vontade de ganhar o mundo, na época soava mais ou menos como aquela vontade do garoto que sai do cinema querendo ser o Batman, ou da menina querendo virar a Cinderela... Soavam como coisas inalcançáveis.
      Quem nasceu na mesma época que eu, (façam as contas, não vou falar a década, ok?) sabe que as facilidades de hoje, com essa infinidade de informações, tecnologias, GPS e nichos de pessoas que compartilham os mesmos gostos, hobbies e principalmente valiosas informações e experiências, praticamente não existiam.
      Então tudo parecia ser algo distante ou até impossível, e a minha realidade era a de um garoto sem dinheiro, sem o Canal Discovery, sem informações, e que não tinha nem um gato pra puxar pelo rabo. Eu só tinha uma Bicicleta velha que ganhei de um tio, que só funcionava o freio traseiro e ainda tinha uma solda horrorosa no meio do quadro.
      Então, entre os estudos e espinhas, o tempo foi passando e aquele livro se perdeu no fundo do guarda-roupa.
      As responsabilidades, boletos, namoro, boletos, noivado, contas, casamento, móveis, faturas, filhos, carnês... vão chegando e tomando conta da sua vida. Alguns deles em proporções cavalares inclusive.
      De repente, eu tava chegando nos 40renta.
      Vira e meche, eu reencontrava o livro, pensava na vida, guardava o livro, e vida que segue.
      As vezes me pegava pensando: “Meu Deus, to aqui preocupado com o vencimento dos boletos, mas quem tá vencendo é minha vida, e vida não dá pra prorrogar, parceiro”.   E quem entra na casa dos ´enta´ , não sai mais... Quarenta,  cinquenta ...
      Quero deixar um parêntese aqui, antes que alguém tenha a impressão que eu não estava feliz com minha vida atual, ou infeliz com meu casamento, filhos etc... Muito pelo contrário, Sou eternamente grato a Deus pela família maravilhosa que tenho. Mas faltava pra mim, aquela cerejinha do bolo. Aquela conquista de fazer algo diferente.
      Um dia procurando qualquer coisa no guarda-roupas, achei o tal livro de novo. Fiquei olhando pra ele, pensando, remoendo... e então veio o estalo, decidi. Finalmente firmei um Contrato comigo mesmo, vamos conhecer San Pedro do Atacama. Isso foi a mais de 3 anos atrás.
      Hoje tenho 42 anos, Moramos em Maringá, interior do Paraná e temos um Renault Logan 1.0 ano 2012, batizado carinhosamente pelas crianças de BARTOLOMEU. É nosso pau pra toda obra, escola, trabalho, mercado, passeio, etc. Comprei ele já bastante rodado no final de Dezembro de 2017, mas estava bem conservado. 15 dias depois, Janeiro de 2018, já saímos para uma viagem com ele, e fomos conhecer o Uruguai.
      A ideia na época já era ir para o Deserto do Atacama, pois eu já tinha assinado aquele contrato comigo mesmo, só que adiamos porque uns amigos iam para o Uruguai de carro, já tinham tudo certo, roteiro etc,  e eu não me achava ainda tão maduro o suficiente para encarar as cordilheiras, e então resolvemos ir juntos para o Uruguai. País lindo, maravilhoso e tudo mais. Nossa primeira viagem longa de Carro.
      Na verdade o meu contrato já almejava o Atacama ainda em Janeiro de 2017, um ano antes do Uruguai, mas uns amigos iam para o Rio de Janeiro de carro e mudamos os planos, resolvemos ir juntos também.
      Já viram que sou muito influenciável né?! Preciso trabalhar mais isso. 🙈
      Mas o Rio de Janeiro é outra História, o Uruguai também e já estou me desviando muito do assunto. Foco Leandro, foco...
      No fundo, a gente camuflava a insegurança de ir pro Atacama sozinhos trocando de planos aos 45 do segundo tempo. Não que as viagens com os amigos eram menos interessante. Foram igualmente ótimas. Mas não era aquela conquista que eu queria, sabe? Atacama soava como algo épico, sei lá.
      Eu tinha um certo receio de atravessar as Cordilheiras e chegar ao Atacama com o Bartolomeu. É um carro baixo, pesado e com motor de carro popular.
      Ainda mais pelos seus Cento e tantos mil KM que ele já tinha na bagagem. Ele já tava ficando banguela. E as subidas que encontraríamos nas cordilheiras talvez precisasse de um carro mais jovem, bombadão.
      Vez ou outra eu lia alguns relatos de uns malucos que fizeram viagens parecidas com carro baixo, mas quase sempre são carros menores, mais leves, mais novos ou com motores mais potentes. O Bartolo era o contrário de tudo isso.
      Outro detalhe que me fazia esquentar a cuca é que eu estaria com filhos e tudo fica mais complicado caso dê algum problema na estrada, ou talvez alguém passe mau com alguma comida diferente, ou com a Altitude.
      Já pensou dar algum problema no Carro num lugar deserto, num país pouco conhecido e ainda com crianças? Não rola.
      Mas também, se eu fosse esperar o Momento Ideal, ter dinheiro suficiente para poder ir de avião, com o preço que pagaria nas passagens ida e volta, depois contratar agências de Viagens para os passeios, tudo multiplicado por 4? Não to podendo.
      Outra opção seria então esperar conseguir dinheiro para comprar um Veículo maior, mais novo, mais potente, quem sabe até algum com tração 4x4 né?
      Só que essas opções acima me fariam entrar numa hibernação do tipo ‘A Espera de Um Milagre’. E vocês com certeza conhecem muitas pessoas que vivem assim, esperando o Momento Certo para dar o primeiro passo.
      Só pra ilustrar melhor, minha mãe que também mora em Maringá, tem 64 anos e um sonho de vida, conhecer Foz do Iguaçu. Só que ela ainda não foi porque as condições ideais que ela imagina que precisa, ainda não surgiram. E são só 400KM daqui até lá.
      Então Leandro, toma Jeito. 
      Depois que voltamos do Uruguai, eu já tava deitando em viagens internacionais. Experiente e tudo. Então um dia olhei pro Bartolo, olhei pra Josi, fechei os olhos, estufei o peito, e falei:
      - Atacama 2019?
      - Bora!
      - Fechô!
      E então os preparativos começaram.
      Dai em diante minha vida meio que virou de cabeça.
      Agora eu só pensava nisso. Bitolado o tempo todo.
      Pesquisas e mais pesquisas, muitos cálculos de quanto preciso de dinheiro, quantos dias, rotas, curiosidades sobre os lugares que iriamos passar, vídeos no youtube etc etc etc...
      Se eu ouvia um Bom dia, eu já tava respondendo Buenos Dias.
      A vantagem de fazer uma viagem como esta viagem de carro, é que além de ficar bem mais barato, eu não ficaria preso à somente San Pedro de Atacama, pois teria todo o trajeto até chegar lá, e vi que tem lugares incríveis pelo caminho que valem a pena conhecer. E dá-lhe Google..
      Seguro Carta verde, Cambão, Salinas Grandes, Mau de Altitude, Laguna Miscanti, Pesos Argentinos, Seguro Soapex, Cartão de Crédito Internacional, Costa de Lipan, Filhos, Kit de Primeiros Socorros, roupas, folha de Coca, Seguro viagem, Humahuaca, Protetor Solar, Paso Jama... Meu Deus, era uma infinidade de informações pra assimilar e organizar.
      Fui alimentando um Check-List de tudo que precisaria providenciar. Entre tantos itens para me preocupar teve um que eu não abriria mão, um Pneu estepe Extra. Pois seriam centenas de quilômetros sem estrutura nas cordilheiras, sem posto de gasolina, sem civilização. Seria só nós, o vovô Bartolo e Deus. E já dizia o ditado: Quem tem dois tem Um. Quem tem um não tem Nenhum...
      -Preciso de um estepe extra!
      Mas eu também iria fazer a troca dos pneus atuais. Eles estavam menos de meia vida, e para uso na cidade ou viagens curtas até daria. Mas para o Deserto com certeza seria arriscado.
      Fiz um orçamento e os 4 pneus passavam dos Mil Reais. Era o preço. Pneus bons não são baratos.
      Dai, fui pesquisar no OLX para comprar um estepe Extra, poderia ser usado sem problemas. Dai que encontrei um anúncio de um Cara que estavam vendendo 4 pneus novos com rodas e tudo. O valor era metade do preço que eu iria pagar só nos pneus em uma loja. E Vinha com as Rodas já. Que LUCK hein Leandro. Já resolvia 2 Problemas, ficava com 4 Pneus Novos e usava um dos que já tinha como Estepe Extra.
       Lá dizia que as medidas da furação das rodas que vinham era 4x100. Até então eu nem sabia o que significava isso, só sabia que alguns carros usam rodas com 4 parafusos, outros com 5 e assim por diante. Pesquisei então as medidas das rodas do meu carro e eram exatamente 4x100 também. Que sorte de novo, hein Leandro. Liguei pro cara, e em menos de 1 hora eu já tava com as rodas e pneus novos em casa.
      Coloquei um pneu no porta-malas para ver o espaço que ocupava. Minha esposa não gostou nem um pouco, pois um pneu extra ocupava um espaço enorme. Mas fazer o que ? A nossa segurança falava mais alto. Então, com o bico deste tamanho, ela desistiu de levar o guarda-roupa todo.
      Fui até um borracheiro, e pedi que ele passasse os pneus novos para as rodas que ja estavam no carro, e consequentemente os pneus velhos nas rodas que vieram pois elas eram de Ferro e mais feias.  
      Uma outra coisa que eu queria muito, mas tava naquela indecisão, era de atravessar as Cordilheiras por um Caminho e Voltar por outro. A opção mais Curta, Sensata, econômica e Segura seria ir e voltar pelo Paso Jama, pois a pista é toda pavimentada desde a Argentina até o Chile e Relativamente mais movimentada. Outra opção seria o Paso Sico, que dizem ter paisagens incríveis, mas a pista não tem pavimentação em um longo trecho na parte da Argentina, e bem mais deserta. Bem mais arriscado com certeza.
      Mas descidi sim ir por uma via e voltar por outra. Meio Loucura com as crianças eu sei. Mas eu tinha 1 Estepe extra, né?
      Desculpe, mas percebi que esse prefácio já tá grande demais, eu falo demais, e vocês já estão tendo paciência demais. Então sem mais delongas... vou pular pro dia da partida.
      >>FF>>
      Dia 06/01/2019 - 4hs – Madrugada de Domingo.
      .........
    • Por ekundera
      Patagônia - El Calafate, El Chaltén, Puerto Natales, Punta Arenas, Ushuaia - Fevereiro/2019 - 20 dias
       
      Planejamento para viagem
       
      Meu planejamento para a Patagônia aconteceu com uma antecedência de uns 6 meses, quando achei promoção de passagem pela Aerolíneas Argentinas. Comprei a chegada por El Calafate e a saída por Ushuaia, mas eu penso que o melhor itinerário para conhecer a região seja fazer o inverso, terminando por El Calafate. Acho interessante a viagem ir surpreendendo a gente cada vez mais de forma crescente, para a gente se encantar por cada lugar, sem achar que é mais do mesmo ou que o anterior tenha sido melhor.
       
      As hospedagens eu reservei pelo Booking, mas antes eu comparei com o Airbnb, mas não estavam assim tão vantajosos para compensar ficar em casa dos outros, tendo o trabalho de ter que combinar a chegada. De qualquer forma, achei essa parte de gastos um pouco alta, com diárias um pouco acima da média. E além disso, os lugares com melhor localização ou avaliação já não tinham mais vagas. Penso que a reserva para a região tenha que ser feita com maior antecedência.
       
      A melhor forma de se vestir na Patagônia, pelo menos para o período que fui, é usando umas 3 camadas. A primeira camada, com uma camiseta dry fit, porque ela absorve o suor e não fica encharcada, não deixando esfriar ainda mais em contato com a pele. A segunda camada, com uma blusa térmica (a minha preferida é um modelo que não seja tão aderente ao corpo, como a marca Wed’ze que encontrei na Decathlon). A terceira camada, um casaco que proteja por dentro e com material impermeável por fora, de preferência com capuz e que não seja tão volumoso, porque a gente tira em vários momentos e incomoda carregar na mão.
       
      Na parte de baixo, eu usava só a calça térmica primeiro e uma outra calça por cima. Não usei calça jeans nos passeios, levei essas com bolsos dos lados (achei uma que gostei demais numa loja de produtos para pesca). Levei também um par de luvas de couro fino, sem ser volumosas, gorro, cachecol, bota tipo tênis para trilha. Em alguns momentos eu pensei em comprar uma proteção para o rosto, estilo balaclava, mas eu fui adiando e depois já não compensava mais no final, mas eu tive muitas oportunidades para usar nos diversos passeios com vento gelado.
       
      Como eu faria conexão em Buenos Aires, a maior parte do dinheiro que levei foi o nosso real, para comprar pesos argentinos no banco do aeroporto. Algumas cédulas de reais que estavam com algum risco de caneta ou um leve rasgadinho eles não aceitaram e me devolveram. Eu também levei alguns dólares por precaução, para outros gastos que fossem necessários, que eu só usei para pagar algumas hospedagens (muitas cobravam 5% a mais se fosse pagar no cartão) e também para trocar por alguns pesos chilenos quando mudei de país.
       
      Para os passeios, é bom ter uma mochila para carregar lanche e água, além de ter as mãos livres quando a gente precisa se apoiar sempre durante as trilhas cotidianas. Óculos escuros também são essenciais para proteção do reflexo da neve. Quanto aos bastões para trilha, eu particularmente não tinha e não achei assim tão essenciais, mas muita gente que usa gosta, já que eles apoiam em caminhadas mais difíceis, além de diminuir um pouco o esforço dos joelhos.
       
      Na primeira cidade que cheguei, uma providência que tomei no primeiro dia foi comprar um chip para celular. Fiz um plano pré-pago para 20 dias na Claro, com 3gb por cerca de 30 reais. No entanto, não usei na viagem toda porque em El Chaltén não havia sinal (disseram que a Movistar poderia funcionar lá) e no Chile teria que pagar roaming.
       
      Para diminuir a quantidade de dinheiro que eu levaria, preferi reservar e pagar antecipadamente a maioria dos passeios que faria. Para um ou outro passeio, eu vi recomendação que era bom deixar reservado, podendo haver maior procura durante a alta temporada, correndo o risco de não ter vaga se comprado na véspera. Mas eu vi gente comprando lá mesmo, daí não sei se essa recomendação faz muito sentido.
       
      El Calafate
       
      Minitrekking Perito Moreno
       
      No primeiro dia, eu já havia deixado comprado o passeio do minitrekking ao Perito Moreno diretamente no site da Hielo & Aventura. Pelo que fiquei sabendo, somente esta empresa está autorizada a fazer o trekking no gelo. Quando outras empresas comercializam esse passeio, na verdade elas estão intermediando a venda, que terá a Hielo & Aventura como prestadora de serviços. Portanto, é bom comparar os preços para ver o melhor.
       
      No dia do passeio, a van da empresa passou no hotel no horário combinado e passou em alguns outros hotéis para pegar mais alguns turistas. Um tempinho depois, a van foi substituída por um ônibus com maior capacidade de pessoas e assim partimos para o Parque Nacional de Los Glaciares. Um funcionário do Parque entra no ônibus e faz a cobrança da taxa de visitação de todos os visitantes. Caso vá fazer outro passeio dentro do Parque outro dia, é concedido desconto, ficando mais barato comprar, por exemplo, para dois dias na mesma compra do que comprar separadamente a cada dia que for visitar.
       
      No dia em que fui no passeio, o grupo fez primeiramente o trekking na geleira e só depois que explorou as passarelas. No entanto, vi outras pessoas que fizeram o inverso, começando pelas passarelas e finalizando pelo trekking. Não sei dizer se é devido às condições climáticas, coisa que pode favorecer uma mudança na ordem das coisas, mas se trata do mesmo passeio e se vê a mesma coisa.
       
      Dentro do Parque, o ônibus estacionou e os turistas puderam usar o banheiro antes de pegar o barco para ir ao encontro do Perito Moreno. Enquanto o barco avança, a geleira vai se descortinando à frente e todo mundo quer ir para fora para fotografar de todos os ângulos porque realmente é lindo e não é todo dia que a gente vê esse cenário. Mas o vento gelado do lado de fora realmente é bem intenso. Chegando na outra margem, há uma edificação de madeira, com banheiro e área para se sentar, onde também podemos deixar nossos pertences enquanto dura a caminhada sobre o gelo.
       
       
       
      Depois de atravessar umas passarelas meio rústicas e andar um pouco nas margens do Lago Argentino, chegamos no lugar onde são colocados os crampones sob nosso calçado e começamos a caminhada na geleira, com algumas instruções do guia sobre a melhor forma de pisar. O circuito que fazemos no minitrekking não é difícil, não é cansativo, levando entre 1h30 e 2h. Todos andam em um ritmo parecido, em fila, com todos praticamente pisando um no rastro do outro. É necessário que todos usem luvas (de qualquer tipo serve) porque, se alguém escorrega e bate a mão no gelo, pode se cortar. Mais uma vez, a gente quer tirar foto de tudo quanto é jeito e a experiência é incrível. Ao final da trilha, os guias oferecem bombom e preparam uma bebida com gelo do glaciar para brindar àquele momento.
       
       
       
      Após retirar os crampones, retornamos ao local onde deixamos os pertences e ficamos um tempo livres para explorar o lugar e fazer um lanche. É importante frisar que na margem onde se encontra a geleira não são vendidos alimentos e o barco demora um pouco para retornar para o outro lado. Eu havia deixado guardado na geladeira da pousada desde o dia anterior um sanduíche para levar, além de bastante água. É bom levar também outras coisas para petiscar ao longo do dia, tipo barra de cereais, frutas ou biscoitos.
       
      No meio da tarde, o barco nos levou de volta para a outra margem para a continuação do passeio. Pegamos o mesmo ônibus do início e rumamos em direção às passarelas de contemplação do Perito Moreno. As passarelas são extensas e há bastante para andar por elas, num sobe e desce de escadas para tirar fotos em vários ângulos. Para quem já caminhou pelas passarelas das Cataratas do Iguaçu, vai ver certa semelhança. Nesses pontos também presenciamos momentos em que pedaços da geleira despencam na água, gerando um espetáculo bem estrondoso. Próximo das passarelas, existe estrutura com banheiro e venda de comida e bebida, mas o monopólio deixa sempre os preços um pouco salgados.
       
       
       
      No final, todos se reúnem no local e horário estipulados previamente e são levados aos respectivos hotéis ou ficam no centro, como preferirem.
       
      Navegação Rios de Gelo
       
      Para o segundo dia, eu havia comprado previamente o passeio pela empresa Patagónia Chic. A van passou na pousada e rumamos para o porto para fazer a navegação Rios de Gelo. Recomendo gravar bem a van e o motorista, porque quando a gente volta é uma confusão de vans que fica difícil saber qual é a nossa. Como eu já tinha a entrada do Parque Nacional, comprada no dia anterior para dois dias, não precisei pegar a fila para pagar e já fui direto para a embarcação. Pelo frio e chuva que estava lá fora, achei o interior do catamarã bem aconchegante, e no começo achei até meio monótono.
       
      Como é um passeio bem confortável, em que a gente não precisa andar ou se esforçar, achei bem numerosa a quantidade de pessoas idosas. Em alguns momentos, eu me senti numa espécie de cruzeiro da terceira idade, com velhinhos cochilando, enquanto a guia falava num ritmo que embalava feito canção de ninar.
       
       
       
      Um tempo depois de navegação, a gente começa a passar por icebergs e se aproxima de montanhas nevadas que deixam qualquer um extasiado. Já não havia mais chuva e muita gente já se arriscava a sair do conforto para tirar umas fotos do lado de fora. Como a embarcação diminui a velocidade em vários momentos, apesar do frio no exterior, dá para sair em alguns momentos e gastar espaço no cartão de memória.
       
       
       
      A navegação também se aproxima das grandes geleiras Upsala e Spegazzini, além de ir contando aspectos sobre a região, deixando o passeio bem informativo. É incrível a dimensão que essas geleiras alcançam e o espetáculo visual que produzem. A todo momento todos querem fotografar e tem hora que fica difícil achar um espaço sem ninguém para gente também levar recordações desse passeio incrível.
       
       
       
      O catamarã tem serviço de comida e bebida, mas muita gente leva o seu próprio lanche. Como é um passeio que dura a manhã toda e um pedaço da tarde, é bom estar preparado para isso.
       
      Glaciarium, Glaciobar, Laguna Nimez
       
      Saindo do estacionamento da Secretaria de Turismo Provincial, no Centro da cidade, há vans gratuitas de ida e volta ao Glaciarium com regularidade a cada meia hora a partir das 11h. Como a quantidade de assentos na van é limitada, é bom chegar um pouco antes para conseguir sentar, senão terá que esperar o próximo horário (aconteceu isso com os últimos da fila quando fui). O acesso é rápido e a visão do Lago Argentino pelo caminho é linda.
       
       
       
      O Glaciarium é um centro de interpretação com exposição de painéis, vídeos e outros recursos sobre as geleiras, com um arsenal de informações sobre o clima daquela região. De modo geral, a maioria das informações sobre o clima e as geleiras está distribuída em painéis e infográficos em espanhol e em inglês ao longo das paredes do lugar. Como vi muita gente falando bem das exposições, eu até achei que fosse gostar mais, mas a verdade é que achei meio monótono e de interesse para quem deseja conhecer de maneira mais a fundo do assunto. Como em alguns passeios a gente acaba ouvindo dos guias algumas informações sobre as geleiras, a ida ao Glaciarium acaba sendo repetitiva e, ouso dizer, até dispensável para quem não tem muito tempo na cidade.
       
      O Glaciobar fica no mesmo prédio do Glaciarium, com acesso na portaria do lado por uma pequena escada que leva ao subterrâneo. O ambiente é praticamente todo em gelo internamente, inclusive os copos em que as bebidas são servidas. A temperatura é perto de -10°C e na entrada são oferecidas roupas e luvas térmicas para suportar o frio intenso. O ingresso dá direito a consumir as bebidas disponíveis no local por 25 minutos. É uma experiência curiosa e talvez seja interessante só para fotos, mais do que pelas bebidas, já que eu procurei algumas vezes pelo garçom para repor a bebida e ele estava cuidando de outras coisas, demorando um pouco a reaparecer.
       
       
       
      Na volta da van do Glaciarium, fui a pé até a Laguna Nimez, que está próxima da região central. Trata-se de uma reserva natural, onde há uma trilha curta para percorrer ao redor da pequena lagoa. Lá se avistam pequenas aves e vegetação típica, com algumas placas informativas pelo caminho. Basicamente é isso e não achei interessante, já que nos outros passeios vi as mesmas coisas, mas em dimensões maiores. Para quem curte mais a contemplação de patos e algumas outras aves, talvez o passeio possa ser melhor proveitoso.
       
       
       
      El Chaltén
       
      Chegada na cidade
       
      Peguei o ônibus às 8h da manhã em El Calafate e cheguei a El Chaltén às 11h. Como eu havia feito a compra com antecedência pela internet no site da empresa Chaltén Travel (plim-plim! olha o merchandise), pude escolher a primeira poltrona na parte superior, de onde se tem uma bela e ampla visão. E o cenário quando está perto de chegar na cidade é mesmo de encher os olhos, já que El Chaltén fica cercada por montanhas nevadas.
       
      Já na entrada da cidade, antes do ônibus chegar no terminal, ele passa pelo Centro de Visitantes e todos descem para ouvir as instruções sobre as trilhas e a segurança dos visitantes. São separados dois grupos, cada um para um idioma (espanhol ou inglês), pega-se um mapa das trilhas ao final e daí todos estão liberados para voltar ao ônibus para finalmente chegar no terminal. El Chaltén é uma cidade pequena, onde se faz praticamente tudo a pé, então chegar nas hospedagens é rápido. Além disso, as trilhas são muito bem sinalizadas e não dependem de auxílio de guia, podendo qualquer pessoa fazê-las de forma independente.
       
      Como eu tinha uma tarde livre pela frente, resolvi fazer duas trilhas curtas, cujo ponto de partida é o Centro de Visitantes, na entrada da cidade. A caminhada mais curta é para o Mirador de los Cóndores, com 1 quilômetro para ser percorrido em cerca de 45 minutos (ida + volta = 2km, 1h30). O início da trilha é plano e fácil, mas depois vira uma subida em uma pequena montanha, que faz a gente se cansar um tantinho. No final, a gente é brindado com uma visão panorâmica da cidade, dos rios que passam por ela e das montanhas ao redor.
       
       
       
      Como no meio do caminho para o Mirador de los Cóndores havia uma bifurcação com uma placa indicativa para outra trilha, cheguei até esse ponto e daí parti para o Mirador de las Águilas. É uma trilha de 2 quilômetros a serem percorridos em cerca de 1 hora (ida + volta = 4km, 2h). Como sempre, a gente se cansa mais na última parte, subindo um pequeno morro. Lá de cima, a gente tem a visão dos montes mais famosos vizinhos da cidade, Cerro Torre e Fitz Roy, um pouco envolvidos nas nuvens, mas uma vista linda.
       
       
       
      Laguna Torre/Cerro Torre
       
      Para o segundo dia, minha intenção era pegar a van para a Hostería El Pilar e, a partir dali, fazer a trilha para a Laguna de los Tres, na base do Cerro Fitz Roy. Como não havia mais vaga na van, deixei comprado o bilhete para fazer essa trilha no dia seguinte. Então mudei os planos e parti para a trilha rumo à Laguna Torre, aos pés do Cerro Torre. São cerca de 9 quilômetros a serem percorridos em cerca de 3 horas (ida + volta = 18km, 6h). Munido de sanduíche, alguns bilisquetes e água na mochila, parti para o início da trilha no final da Av. Antonio Rojo, lado oposto à entrada da cidade. Depois de subir uma escadaria bem acessível, precisamos vencer uma subida bem íngreme num pequeno monte, de onde se inicia a sinalização para a Laguna Torre.
       

       
      Ao longo do caminho, vi mais turistas europeus do que latinos e muita gente simpática que sempre se cumprimenta quando se cruza. Perto do início da trilha, já precisamos dar a volta em algumas montanhas, passando por um caminho próximo ao despenhadeiro, onde vemos rios correndo lá embaixo. Os momentos mais difíceis são quando as subidas são insistentes, somadas com grande irregularidade do terreno, de forma que precisamos achar a pisada que nos impulsione cada vez mais para cima. Como em vários pontos das trilhas há riachos com água potável, é fácil repor a água que levamos. Quanto a banheiro, só em dois momentos: no Mirador del Torre e quando passamos pelo acampamento D’Agostini, que fica já bem próximo à Laguna Torre. O banheiro nada mais é que uma cabine fechada com um buraco no chão, bem nojentinho mesmo.
       

       
      Uns poucos minutinhos depois do acampamento, a gente já se depara com a Laguna Torre à nossa frente, emoldurada pela geleira que desce até a base das montanhas que a margeiam. Dentro da pequena lagoa, alguns blocos de gelo de vários tamanhos conferem uma maior beleza ao cenário. Ao redor da lagoa, pelo lado direito, a trilha sobre o monte leva ao Mirador Maestri, com mais 2 quilômetros a serem feitos em cerca de 1 hora. É uma caminhada puxada, com subida e bastante pedra de todo tamanho pelo caminho e a gente sua no frio para fazer. A vista nesse ponto é do fundo da lagoa, onde a gente consegue ter uma visão mais ampla da geleira tocando a água.
       

       
      Laguna de los Tres/Cerro Fitz Roy
       
      Com o transporte para a Hostería El Pilar já comprado, a van me pegou na pousada cerca de 8h da manhã e mais alguns turistas em outras hospedagens. Eram quase 9h quando desembarcamos no início da trilha, de onde começamos a caminhada rumo à Laguna de los Tres, aos pés do Cerro Fitz Roy, maior montanha de El Chaltén, um grande paredão de granito com inclinação vertical que desafia muitos escaladores.
       
      A trilha tradicional de El Chaltén até a Laguna de los Tres é de 10 quilômetros, com tempo estimado de 4 horas (ida + volta = 20km, 8h), sendo levemente abreviada quando partimos da Hostería El Pilar. Além disso, indo por um lugar e voltando pelo outro, o caminho proporciona duas visões diferentes para o passeio. Há mirantes distintos para o Fitz Roy em ambos os caminhos, então certamente haverá também lembranças fotográficas em maior quantidade de ângulos. Ambos os caminhos possuem subidas cansativas em alguns trechos que fazem a gente suar mesmo no frio. O ponto onde as duas trilhas se encontram é no acampamento Poincenot.
       
       
       
      Logo após o acampamento, identificamos uma placa no pé de uma subida, informando que a partir dali está o último quilômetro para a trilha em um nível difícil, com tempo estimado em 1 hora. À medida que caminhamos, a subida vai exigindo cada vez mais esforço, com degraus, pedras, inclinações variadas, neve, gelo, pequenos arbustos, água derretida da neve, enfim, precisamos tomar fôlego em vários momentos para continuar. Quando olhamos para trás, vemos que a inclinação do morro é bem íngreme, que dá certo medo. Mas ao mesmo tempo, a visão ao redor é linda e bem fotogênica, com toda a vegetação coberta por neve, cercada por montanhas também nevadas ali do lado.
       
      Depois de muito esforço e várias paradas, suando um tanto, a chegada ao topo proporciona uma das visões mais lindas que vi na viagem. Se eu fosse escolher apenas uma trilha para fazer, de todas as que fiz, essa é a que eu escolheria como preferida. A Laguna de los Tres tem uma cor linda e estava toda cercada pela neve. Do Mirador Maestri, que é o ponto onde chegamos após a cansativíssima subida, avistamos neve em todo o nosso redor. Adicionalmente, de todas as visões que tive do Fitz Roy dos diversos lugares na cidade, este foi onde consegui enxergá-lo inteiramente, sem o manto de neblina encobrindo parte dele.
       

       
      Após um tempo de deslumbramento, a descida do morro cansa um pouco, mas agora é mais rápido e a gente já sabe o que esperar no fim da caminhada de volta. Em certo ponto no caminho para El Chaltén, haverá uma bifurcação onde a gente pode escolher ir pelo mirador ou pela Laguna Capri. Escolhi a Laguna e achei linda a cor esmeralda de suas águas contrastando com o branco da neve das montanhas ao redor. Bem próximo da Laguna, está o acampamento Capri, onde também existe banheiro.
       

       
      Como não há ônibus saindo direto de El Chaltén para Puerto Natales, no dia seguinte voltei para El Calafate para ficar mais um dia na cidade e pegar o ônibus que saía para o meu próximo destino. Foi um dia perdido, que não quis fazer muito esforço, então me hospedei do lado do terminal para não ter muito trabalho.
       
      Puerto Natales
       
      Chegada na cidade
       
      Com passagem já comprada pela internet com antecedência na empresa Cootra, peguei o ônibus em El Calafate às 7h30 da manhã. Como a viagem atravessa a fronteira da Argentina para entrar no Chile, é necessário apresentar passaporte no guichê da empresa no terminal. A chegada em Puerto Natales estava prevista para às 13h, então levei também alguns belisquetes para não morrer de fome.
       
      Na fronteira do lado argentino, todos descem do ônibus para carimbar a saída do país na imigração. Como tem fila e nem todos cabem dentro do pequeno espaço de atendimento, a fila do lado de fora vai sofrendo com o vento gelado até terminar o processo. Com todos de volta ao ônibus, rapidamente chegamos no território chileno, em que todos descem novamente para carimbar o passaporte, mas desta vez a bagagem também é inspecionada. Após o atendimento no guichê, passamos malas e mochilas no raio-x e, se houver produtos in-natura de origem animal ou vegetal, não é autorizado levar. As pessoas têm que jogar fora inclusive frutas, mesmo que seja uma unidade para consumo imediato.
       
      Com todos devidamente autorizados, chegamos ao terminal de Puerto Natales no início da tarde. Após me instalar na pousada, saí com uns dólares em mão para trocar por pesos chilenos em alguma casa de câmbio no centro. Um fato que achei curioso na cidade foi que muitos estabelecimentos comerciais fecham para o almoço e só abrem às 15h, como foi o caso das casas de câmbio que me indicaram na hospedagem. E as refeições na cidade eu achei bastante caras, de modo que eu revezava entre pratos e comidas rápidas para ficar dentro do orçamento.
       
      Puerto Natales é uma cidade pequena, com um centro cujo ponto de referência é uma praça principal, a Plaza de Armas, e nos seus arredores estão algumas pequenas atrações turísticas, como a catedral, o museu histórico, a região portuária, uma ou outra escultura em pequenas praças ao longo da costa, o mercado de artesanato, que achei minúsculo e com muita pouca opção de produtos. É uma cidade tranquila, basta essa parte da tarde para conhecê-la, não mais que isso. Na verdade, o que me levou até ali foi ter a cidade como base para conhecer o Parque Nacional Torres del Paine, onde estão as famosas montanhas de mesmo nome.
       
       
       
      Full day Torres del Paine
       
      Para o primeiro dia, eu havia reservado pela internet com a empresa Patagonia Adventure o passeio Full day Torres del Paine. A van passou na pousada às 7h30 da manhã, pegou mais alguns turistas e iniciou o passeio com visita ao Monumento Natural Cueva del Milodón. Trata-se de uma grande caverna onde foram encontrados vestígios de um animal pré-histórico de cerca de 3 metros de altura, semelhante a uma preguiça gigante. É um passeio curto, onde recebemos informações sobre a fauna extinta da região, além de entrar na caverna e ver a estátua que reproduz o milodón.
       

       
      Logo após, a van ruma para o parque nacional, onde pagamos entrada e iniciamos a exploração aos principais atrativos naturais. Tivemos a sorte de encontrar um grupo de guanacos (parentes da lhama) e avestruzes na beira da estrada. O passeio passa por alguns mirantes com rios e lagoas emoldurados por belíssimas montanhas nevadas, faz uma parada numa área com mais estrutura, próximo ao Lago Grey, onde há restaurante, em que podemos comprar alimentos e bebidas, claro que um pouco mais caros do que na cidade, então muita gente leva o seu sanduíche.
       

       
      Nessa área do Lago Grey, ficamos livres durante um tempo para ir até a praia de areia grossa ou cascalho, passando por uma ponte de madeira e cordas, que balança um pouco, mas é bem segura e resistente, e podemos avistar o Glaciar Grey um pouco ao longe. Apesar de no dia eu não ter visto, podem aparecer blocos de gelo flutuando na água. Durante essa caminhada na praia de cascalhos, em vários momentos o vento era tão forte que muitas pessoas precisavam firmar os pés no chão para não ser derrubadas.
       
      As montanhas principais, que são as torres, com os três “cornos” verticais, a gente vê a uma certa distância, a partir de diversos pontos e mirantes, que eu achei melhor fazer um passeio no dia seguinte para complementar a visão mais de perto, com uma trilha exaustiva de um dia.
       

       
      Trekking mirador base das Torres del Paine
       
      No segundo dia na cidade, eu havia reservado com a mesma empresa do dia anterior (Patagonia Adventure) o tour guiado até a base das Torres del Paine. É um passeio de dia inteiro e com muita exigência de vigor para seguir o ritmo dos dois guias que lideram o grupo. Como não há lugar para comprar comida ou bebida pelo caminho, já deixei comprado meu sanduíche desde o dia anterior e guardei na geladeira da hospedagem. Água é bom levar bastante também, além de lanchinhos para aguentar o dia inteiro quase sem parar. Achei ótimo levar frutas secas e castanhas que encontrei no centro da cidade.
       
      A van passou na pousada às 6h30, pegou outros passageiros e rumou para o Parque Nacional. O ingresso que pagamos no dia anterior vale para esse dia também, mas é necessário colocar nome e número de documento quando fazemos a compra no primeiro dia, além de solicitar o carimbo na recepção do parque. Algumas pessoas que esqueceram de pegar o carimbo no dia anterior conseguiram mostrar que estiveram lá no dia mostrando fotos, mas é bom não correr o risco de se prejudicar tendo que pagar duas vezes.
       
      A van para no estacionamento do parque, onde há banheiros, e os guias oferecem bastões de trekking para quem quiser usar e daí iniciamos a caminhada de cerca de 11 quilômetros (ida + volta = 22km). Para não correr o risco de demorar demais a ir e voltar, eles impõem um ritmo moderado à trilha, indo um na frente e outro atrás do grupo. Em pouco tempo já estamos subindo ladeiras cansativas e praticamente sem parar durante um longo tempo. Ao longo do caminho, paramos no acampamento El Chileno, onde é possível usar o banheiro mediante pagamento (1 dólar/500 pesos chilenos).
       

       
      A caminhada tem momentos de terreno plano, ficando mais fácil seguir o mesmo ritmo da maioria, mas tem também momentos que a subida vai diminuindo nosso ritmo e a gente precisa recuperar o fôlego muitas vezes. A última parte da trilha é mais pesada, onde a gente vai serpenteando montanha acima, passando por muitas pedras de diversas alturas, servindo de degraus pra gente impulsionar a próxima pisada pra vencer os obstáculos. A dificuldade é alta nessa última parte, mas não é tão longa quanto o trekking para a Laguna de los Tres, na base do Fitz Roy.
       
      O visual das três torres de perto é muito lindo, e lá na sua base a gente encontra muitos mochileiros que se sacrificaram por dias em acampamentos para fazer os circuitos por todo o seu entorno. Esta é outra opção para conhecer o lugar e vivenciar por mais tempo aquela experiência, mas é bom estar muito bem equipado, porque as condições climáticas não são das mais fáceis de encarar.
       

       
      Em relação ao trekking guiado, comparando com as trilhas que a gente faz por conta própria em El Chaltén, eu achei um pouco mais pesado a que fiz em Torres del Paine, já que eu não ditava o meu ritmo e, por isso, permanecia cansado por mais tempo. Mas como o Parque Nacional fica distante de Puerto Natales, cerca de 2 horas de carro, a gente acaba precisando do transporte muito cedo para chegar até ali. Só por isso que eu achei vantajoso contratar o passeio, mas para quem está em grupo e aluga carro, pode ser interessante fazer a caminhada até a base das torres por conta própria, já que o caminho é sinalizado e a gente encontra muita gente fazendo o trajeto.
       
      Punta Arenas
       
      Atrações na cidade
       
      Peguei o ônibus de 8h30 saindo de Puerto Natales a Punta Arenas, com passagem comprada antecipadamente pela internet na empresa Bus-Sur. São 3 horas de viagem. O terminal da empresa fica no centro da cidade, bem próximo à Plaza de Armas, a principal praça da cidade. Então é fácil ir a pé até a hospedagem se estiver perto dessa região.
       
      Punta Arenas é uma cidade bem charmosinha, com um centro muito bem organizado e bonito, com algumas atrações interessantes para visitar. A Plaza de Armas tem uma enorme escultura do português Fernão de Magalhães, responsável pela primeira navegação ao estreito de Magalhães, onde está localizada a cidade. O índio que compõe a escultura no centro da praça é a maior atração entre os turistas, já que se acredita que tocar o seu pé traz sorte.
       

       
      Ao redor da praça, as edificações são muito bonitas, e dentre elas está o Museu Regional de Magalhães, um lugar suntuoso em que o piso original, para ser conservado, precisa que usemos sobre ele protetores de tecidos nos pés, oferecidos na entrada. O que achei muito ruim foi o horário de funcionamento do museu, somente até às 14h, quando tive que sair rapidamente de lá, quase expulso pelos funcionários impacientes em encerrar as atividades do dia.
       
      Próximo dali, está o Museu Maggiorino Borgatello, com uma grande quantidade de informações sobre a região e que vale a visita. Um pouco mais adiante, próximo ao cemitério da cidade, há o Monumento al Ovejero, uma obra em tamanho natural a céu aberto, representando um trabalhador rural com suas ovelhas, cavalo e cachorro.
       
      Algumas quadras acima da Plaza de Armas, está localizado o Cerro de la Cruz, um ponto mais alto que serve como mirante, acessível por uma grande escadaria. De lá, é possível ter uma vista panorâmica da cidade e do Estreito de Magalhães.
       

       
      Outra atração, mas um pouco mais distante, já na saída da cidade, é o Museo Nao Victoria, a réplica da embarcação usada por Fernão de Magalhães no século 16 para a primeira viagem de circunavegação feita pelo português no Estreito que recebeu seu nome. Achei a chegada ao lugar meio complicada porque a motorista do Uber se perdeu e teve que dar uma volta grande para finalmente conseguir localizar. É possível subir e explorar a embarcação por dentro, assim como outra réplica que está do lado, usada no século 19 para a tomada do Estreito de Magalhães. O vento lá em cima é forte e gelado.
       

       
      Em Punta Arenas, há uma região comercial com zona franca, livre de impostos, com shopping e alguns grandes mercados multidepartamentais. O shopping eu não achei grande coisa, apesar de livre de impostos, os produtos encarecem para chegar à cidade pelo transporte. Achei até interessante um grande mercado que entrei, onde há de tudo um pouco, inclusive souvenirs, mas comprei só umas poucas coisinhas pequenas e baratas para não sofrer com o peso na mala e no orçamento.
       
      Islas Marta e Magdalena
       
      O principal passeio que me levou à cidade foi a navegação até as ilhas Marta e Magdalena. Reservei o passeio pela internet na empresa Solo Expediciones, mas esse foi o único que o pagamento ficou para ser feito no próprio dia.
       
      Às 6h30 da manhã me apresentei no escritório da empresa, bem próximo à Plaza de Armas, fiz o pagamento e entrei no ônibus que levava ao porto, que fica próximo. Todos desembarcamos do ônibus e entramos no catamarã em um dia chuvoso, mas a chuva só estava na cidade e não durante a navegação. Ao longo da navegação pelo Estreito de Magalhães, o guia em espanhol e inglês dá algumas informações, enquanto podemos avistar o espetáculo das barbatanas das baleias subindo até a superfície da água para respirar. Como a água é mais escura, não dá para vê-las abaixo da superfície, então não dava para saber onde elas apareceriam para registrar o momento.
       
      Um tempo depois, chegamos próximo da margem da Isla Marta, que é bem pequena, um rochedo com uma enorme quantidade de leões marinhos. Nessa ilha, contemplamos somente à distância, não é autorizado desembarcar nela por razões de proteção do ambiente dos animais. Como a embarcação fica parada por um tempo em frente à ilha, é possível ir para fora, sem o incômodo do vento muito forte, para registrar os leões marinhos em seu descanso matinal. Na ilha os animais estão protegidos das baleias, seus predadores, e podem nadar no seu entorno, protegidos por uma camada de algas que envolve o ambiente.
       

       
      Em seguida, fomos para a ilha Magdalena, onde todos desembarcamos para uma caminhada de cerca de 1 quilômetro no ambiente dos pinguins. O caminho é delimitado por um corredor de cordas, para não ultrapassarmos, que leva até um farol mais adiante na ilha. Como temos 1 hora para explorar o lugar, é bem tranquilo, sobra tempo, além de ser uma caminhada bem leve e sem dificuldades.
       
      Há uma grande colônia de pinguins na ilha Magdalena, que passam cerca de 6 meses por ali, durante primavera e verão, a temporada mais quente para troca de penas. Uma ressalva: só é quente no ponto de vista deles. Uma grande quantidade de buracos no chão, usados como ninho pelos pinguins, está espalhada pelo caminho onde andamos. Além de se protegerem do frio com a troca da plumagem, os ninhos também deixam filhotes a salvo dos predadores que rondam a todo momento, pássaros oportunistas, esperando algum descuido de um pai desatento.
       

       
      O passeio termina cerca de 12h e o ônibus nos leva de volta ao ponto de partida, no centro da cidade. Achei muito agradável, além de leve e não durar um dia inteiro, não precisando sacrificar o almoço.
       
      Ushuaia
       
      Chegada na cidade
       
      A saída de Punta Arenas foi às 8h15 da manhã pela Bus-Sur, com bilhete comprado pela internet. Como iria sair da Argentina para entrar no Chile, necessário apresentar passaporte no guichê antes de embarcar no ônibus. A previsão de chegada em Ushuaia era às 20h15, mas chegou cerca de18h30, mesmo assim foi uma viagem muito cansativa. Como não há paradas em lugares onde há comida, é bom levar o arsenal porque é praticamente um dia inteiro na estrada.
       
      Cerca de 2 horas depois de sair de Punta Arenas, o ônibus chega na travessia de balsa no Estreito de Magalhães, todos descem e embarcam na balsa, assim como todos os veículos que estão em fila aguardando. A travessia foi tranquila e rápida, menos de 30 minutos, mas já ouvi falar que pode ser mais demorada, dependendo da agitação das águas. Ao embarcar novamente no ônibus, como pode haver vários outros parecidos, é bom saber diferenciar qual o nosso. Eu mesmo quase entrei em outro, imagina onde iria parar.
       
      Um bom tempo de viagem depois, chegamos na fronteira, onde recebemos o carimbo de saída do Chile. Um pouco mais adiante, pegamos mais uma vez o carimbo de entrada na Argentina. Diferentemente da imigração no Chile uns dias atrás, na Argentina não pediram para fiscalizar a bagagem, foi um processo burocrático mais rápido. Depois de um longo tempo, finalmente chegando próximo a Ushuaia, o ônibus vai passando por uma região de montanhas, com curvas fechadas, mas com um cenário lindo. Achei que o assento do lado direito é beneficiado com a melhor vista.
       

       
      A melhor localização para se hospedar em Ushuaia é o mais próximo possível da Av. San Martí, que é a rua principal, longa e plana. As ruas que cruzam a San Martí em direção contrária à costa ficam em subidas bem cansativas. Os passeios partem dessas proximidades, onde está a zona portuária, as agências de turismos, pontos de vans e táxis, alguns museus, a placa do “fim do mundo”, a Secretaria de Turismo, onde tem internet gratuita e informações diversas aos turistas, bem útil. Na Secretaria também podemos carimbar o passaporte com dois modelos de estampa, é grátis.
       

       
      Pinguinera e Navegação pelo Canal Beagle
       
      Deixei reservado com antecedência pela internet no site da empresa Piratour o passeio desse dia. A Piratour é a única empresa que tem autorização para desembarcar na Isla Martillo, então qualquer outra empresa que também ofereça a caminhada com os pinguins na ilha apenas intermedeia a venda, tendo como responsável pela prestação do serviço a Piratour.
       
      O passeio iniciava com os turistas se apresentando no quiosque da empresa às 7h30 no píer. Como dura até o meio da tarde, é bom levar um lanche reforçado. Pegamos o ônibus com guia em inglês e espanhol e tivemos uma parada junto à floresta de árvores que sofrem a ação do vento muito forte e crescem para um lado, por isso sendo chamadas de “árvores bandeiras”. Logo após, chegamos na Estancia Harberton, onde há um pequeno museu de ossos de baleias e outros animais marinhos.
       

       
      O grupo de turistas é dividido em duas partes, enquanto uns vão direto para a Pinguinera, os demais ficam na Estancia na visita guiada; logo depois, revezam os grupos. O bote para a Isla Martillo leva um grupo reduzido de cerca de 20 pessoas, não podendo haver grande quantidade de gente por vez na ilha.
       
      É uma travessia curta, logo desembarcamos na Isla Martillo. Como visto na Isla Magdalena, ali também é um lugar onde há grande quantidade de buracos que servem de ninhos para os pinguins e o caminho para os turistas percorrerem é delimitado. Mas diferentemente da Isla Magdalena, na Isla Martillo não há um caminho para seguir por conta própria até o final da visita. Durante todo o tempo, a guia estava com o grupo e sempre chamava atenção quando havia muita proximidade com os animais.
       
      Na Isla Martillo, eu vi uma quantidade maior de pinguins concentrados em grupos, seja descansando próximos aos ninhos, seja na beira da água para pescar peixes. Dá para ver mais de uma espécie de pinguins, todos muito simpáticos.
       

       
      O frio era intenso por causa do vento insistente, então depois de uma quantidade de fotos, acho que muita gente já estava pronta para voltar até mesmo antes da 1 hora disponível na ilha. No meu caso, como eu já havia feito a visita na Isla Magdalena anteriormente, comparando com a Isla Martillo, eu preferi a primeira porque tinha maior liberdade para explorar a área maior e usar o tempo andando e vendo um pouco além do que a guia mostrava.
       
      Logo que voltamos à Estancia Harberton, os dois pequenos grupos que revezaram na Isla Martillo se juntaram de novo em um só e todos embarcaram num catamarã para a navegação no Canal Beagle. Em alguns pontos do Canal, navegamos em águas que dividem Argentina e Chile, sendo possível enxergar inclusive o povoado mais austral do mundo, Porto Williams, no Chile, o último do hemisfério sul.
       

       
      O passeio guiado é bem informativo, passando por lugares de destaque, como a Isla de los Lobos, um rochedo em forma de ilha com enorme quantidade de lobos marinhos estirados ao sol. Passamos também pelo Farol les Eclaireurs, o “farol do fim do mundo”, em uma pequena ilha com muitos pássaros aquáticos. Nesses pontos, o catamarã fica parado por uns minutos para ser possível ir até o lado de fora sem um vento tão hostil.
       

       
      Parque Nacional Tierra del Fuego
       
      Contratei esse passeio em uma agência aleatória que entrei no dia anterior na Av. San Martí. Não me lembro do nome, mas o passeio é bem padrão entre todas as agências que vemos pela cidade. A duração é de apenas meio dia. A van passou na minha pousada às 8h da manhã e levou todos para a estação do “Trem do Fim do Mundo”. Para aqueles que iriam fazer o passeio de trem, esses pagaram algo como 120 reais para um trajeto de cerca 1 hora a uma velocidade de uns 20 km/h. Como eu achei bem desinteressante, segui com os demais que preferiram fazer o trajeto na van, conhecendo alguns recantos do Parque Nacional enquanto o trem não chegava.
       

       
      No passeio do Parque Nacional, fazemos algumas trilhas rápidas e fáceis com um guia com vistas para vários lugares, como lagos, bosques, montanhas, mar. Muitas das vezes, o guia deixa o grupo explorar por um tempo o lugar, até a van nos levar para o próximo. Há lugares bem bonitos, com mirantes para as belezas naturais da região, mas eu acho que eu apreciaria ainda mais se já não tivesse visto tantos outros lugares ainda mais lindos, daí a gente acaba comparando um pouco.
       
      É no Parque Nacional onde está o “Correio do Fim do Mundo”, uma casinha charmosa de madeira sobre estacas no Canal Beagle que funciona durante o verão. Lá são vendidos cartões postais, selos e outros souvenirs, sendo possível ao viajante enviar correspondência do correio mais austral do mundo. Pena que os itens vendidos no correio são sempre bem mais caros do que na cidade.
       

       
      Também no correio é possível ser atendido pelo “carteiro do fim do mundo” para levar estampado no passaporte o selo e o carimbo do lugar por 3 dólares. A foto contida no selo é do próprio carteiro que atende ali, mas a gente percebe que já se passaram muitos anos desde quando ele passou a figurar no souvenir que levamos com sua cara no fim do mundo.
       
      Trekking Laguna Esmeralda
       
      Nesse dia pela manhã, fui até a Secretaria de Turismo me informar sobre as formas de chegar até o início da trilha para a Laguna Esmeralda. Procurei também uma loja de aluguel de roupas e acessórios para os passeios no frio. Escolhi uma bota impermeável cano alto. Depois de ver o estado da trilha, cheia de lama por todos os lados, sem opção de desviar da sujeira, achei um ótimo investimento que salvou meu calçado.
       
      Os meios de transporte que considerei para chegar no início da trilha foram táxi ou van. O táxi cobrava um valor equivalente a uns 110 reais (somente ida), enquanto a van cobrava cerca de 45 reais (ida e volta), então fui para o ponto em que as vans saem e esperei por cerca de uma hora, já que o serviço funciona com no mínimo 3 passageiros.
       
      O trajeto até o início da trilha é na estrada, cerca de 18 km. Encontrei alguém anteriormente na cidade que havia falado que fez esse percurso inteiro saindo da cidade a pé, mas eu preferi poupar um pouco o esforço. O lugar onde chegamos para iniciar a trilha fica num ponto mais alto e nesse dia fui surpreendido pela neve caindo nesse lugar, um cenário lindo, com uma cobertura branca pelo chão e vegetação, numa temperatura de 2°C.
       
      A trilha tem cerca de 4 quilômetros, com tempo estimado de 2 horas (fiz em 1,5 hora). Grande parte da caminhada é feita dentro de um bosque, com marcações em azul nos troncos das árvores, indicando o caminho para que a gente não se perca. Ao longo do caminho, como havia chovido durante a noite anterior, era impossível fugir da lama. Há também alguns pontos de subidas que cansam um pouco, mas não são tão extensos, dá para andar em uma toada bem constante.
       
      Quando a gente sai do meio do bosque e começa a andar por um descampado, a marcação do caminho passa a ser por estacas amarelas. Nesse trajeto, a lama e a terra mais fofa estão por todo lado e não dá para contornar o caminho. Em alguns pontos, até afunda um pouco, daí é bom ter cuidado onde se pisa, sendo útil procurar troncos e pedras para dar maior segurança. Mas depois que a gente se livra, segue ao longo de um riacho e já está pertinho da lagoa.
       

       
      A Laguna Esmeralda fica bem no pé de montanhas nevadas e é muito bonita. A cor das águas no dia que fiz o passeio não estavam na cor esmeralda porque o sol não saiu hora nenhuma, mas com sorte de um pouco de sol no dia do passeio, o passeio será ainda mais fotogênico.
       

       
      Saí com a bota muito enlameada, aliviado por não precisar permanecer com ela pelo resto da viagem. Peguei o transporte de volta e fui devolver o calçado na loja e restituir o meu, que havia ficado por lá.
       

       
      Atrações para um dia tranquilo na cidade
       
      No último dia em Ushuaia, eu só partiria à noite, então deixei a mala pronta na pousada, fiz check-out e aproveitei para fazer passeios mais leves, que não precisavam de deslocamentos por carro. Fui ao museu do presídio, onde também funciona galeria de arte e museu marítimo, no final da Av. San Martí. O lugar funcionou como prisão, quando os presos argentinos eram enviados para trabalhar e construir a cidade, onde os cidadãos comuns não tinham interesse em morar, dado o seu isolamento e frio constante.
       
      Achei meio cara a entrada para o museu, em torno de 60 reais, acaba não sendo um estímulo para todos visitarem. A primeira parte do museu traz uma grande quantidade de maquetes de embarcações de países diversos, muito bem feitas e detalhadas, com suas histórias que as fizeram importantes para a navegação. A segunda ala é maior e lá constam a história do presídio, seus presos mais famosos e uma variedade de artigos que fazia parte daquela realidade. Existe visita guiada, mas não coincidiu com o horário que eu estava lá. Mais adiante, há também o museu de arte, mas essa ala só abriria às 16h, então não visitei.
       

       
      Perto dali, visitei a Galeria Temática de História Fueguina, um prédio bonitinho, onde funciona um bar, a galeria mesmo fica nos andares de cima. É um museu de visita rápida, com reprodução de cenários e pessoas em tamanho natural, numa sequência fácil de percorrer, ao mesmo tempo em que a gente vai ouvindo o audioguia (idioma a escolha, inclusive português). São histórias que envolvem os elementos que estamos visualizando, e sua relação com o mundo da época que o cenário retrata. Acaba sendo um bom resumo de muita coisa que a gente viu nos diversos passeios na região.
       
       
    • Por Jeanjcfm1
      E aeee Mochileiros.... passagens compradas.... abaixo um rascunho do meu roteiro e as cidades que irei passar. Vou com pouco dinheiro mas com muita disposição... 

      12/03 - Chego em CUSCO. 
      16/03 - Ica ( Huacachina)
      17/03 - Paracas
      20/03 - LIma ( Direto para Huaraz) 
      20/03 - Huaraz
      23/03 - Lima
      26/03 - Brasil

      Aceito dicas de hostels, agências e passeios.... se tiverem algum grupo no Whatzaap, me adicionem  027997203920


       


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