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Serra Geral - Travessia Morro da Igreja - Cânion Laranjeiras


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TRAVESSIA MORRO DA IGREJA – CÂNION LARANJEIRAS

(URUBICI A BOM JARDIM DA SERRA – SC)

 

Ou “Expedição Era do Gelo”

 

 

Passo a relatar a seguir uma travessia que mobilizou montanhistas dos três estados do Sul do Brasil em prol de um objetivo comum: a consolidação do Parque Nacional de São Joaquim e a consagração do direito de acesso às áreas de conservação federais sob gestão do ICMBio. O relato é extenso e as fotos não estão todas publicadas aqui. Veja ao final os links para o material complementar.

 

Travessia realizada entre os dias 07 e 10 de junho de 2012 (feriado de Corpus Christi), entre o Morro da Igreja e dois pontos distintos de saída – Cânion Laranjeiras e Serra do Rio do Rastro - realizada em conjunto pelo pessoal da AMC – Associação Montanhistas de Cristo (Getulio, Otávio Luiz, Serginho, Cirlene, Cover, Soraia, Thomas, Ingrid, Luís Delfrate e Zeca Reinert – todos do Paraná), Rodrigo Mioto e Fernando Faria (Santa Catarina), Marcelo Juká e Tiago Korb (Rio Grande do Sul).

 

 

 

ANTECEDENTES E PLANEJAMENTO:

 

A ideia de fazer uma travessia pelos platôs da Serra Geral, seguindo as escarpas entre o Morro da Igreja e a Serra do Rio do Rastro, nos municípios catarinenses de Urubici e Bom Jardim da Serra, já povoava o meu imaginário há alguns anos, fruto do meu encantamento com as belezas daquela região, descortinadas em algumas viagens e incursões rápidas, seja rodando de jipe, caminhando ou cavalgando por aquelas bandas.

 

Tal intento foi reavivado ao “viajar” algumas vezes pelo Google Earth na região, pois com o meu “retorno” ao montanhismo e ao trekking em 2010 comecei a estudar as possibilidades de pernadas mais sérias na área, estimulado ainda mais pelas fotos de alguns trekkings na região, postadas por usuários do Site Panorâmio, que fornece as imagens georreferenciadas visualizadas no Google Earth.

 

Pouco tempo depois me deparei com uma discussão aqui no Mochileiros.com sobre o Parque Nacional de São Joaquim, onde se debatia justamente a existência “real” do Parque e a obrigatoriedade de contratar condutores credenciados para poder trilhar na sua área de abrangência (veja AQUI o tópico). Ali a discussão ganhou corpo e me levou, junto com outros usuários do Fórum (em especial o companheiro Mioto), a travar contato com o Chefe daquela Unidade de Conservação administrada pelo ICMBio, o Sr. Michel Omena, com o qual estabelecemos um diálogo bastante profícuo no sentido de liberar o acesso de trekkers e montanhistas preparados na área sem a necessidade de contratar guias turísticos, mediante o preenchimento de alguns requisitos. Também passamos a conhecer melhor os esforços empreendidos para tirar o Parque “do papel” e conciliar os diversos interesses, muitas vezes conflitantes, sobre a área. Recebi dele por e-mail, em certa ocasião, farto material informativo sobre o histórico do Parque desde sua criação, desafios e problemas enfrentados em diversos momentos, bem como as iniciativas adotadas, dentro da estrutura e regras existentes, para viabilizar a consolidação do PARNA e a conservação da área.

 

No seio das discussões naquele tópico (que se estenderam por meses), em jan/2012, falando sobre a elaboração do Plano de Manejo do PARNA e a situação da regulamentação das visitas, obtivemos do Mioto (que pouco antes conversara pessoalmente com o Chefe do Parque, em Urubici) a notícia de que em breve estaria sendo regulamentada a visitação e permanência por meio de uma Portaria, permitindo o acesso livre da necessidade de condutores (mediante o preenchimento de alguns requisitos) mesmo antes da conclusão do Plano de Manejo do PARNA. A notícia logo fez disparar o coração dos mochileiros que acompanhavam o tópico: a possibilidade de uma travessia (livre e autorizada) dentro do PARNA São Joaquim, proscrita desde 2009, era agora algo tangível! Graças à proatividade do Chefe do Parque, Sr. Michel Omena, provavelmente, ao menos em parte, sensibilizado pela nossa participação e pressão saudável nas discussões.

 

Foi só o Mioto postar esta informação e logo as nossas cabeças irrequietas começaram a imaginar e traçar planos para “a travessia”, como datas possíveis, roteiros e logística. Desde o início o percurso-base estava definido na cabeça de todos = Morro da Igreja – Serra do Rio do Rastro, seguindo o máximo possível as bordas das escarpas da Serra Geral, uma das regiões mais belas de todo o Estado de Santa Catarina, seja pelos marcantes aspectos geográficos e geológicos envolvidos, seja pela rara beleza cênica presente. A data logo ficou definida para o feriado de Corpus Christi – entre os dias 07 e 10/06/2012, pelo entendimento de que seriam necessários 4 dias para a magnitude do projeto.

 

Desde a sinalização favorável até a data de realização da travessia transcorreram mais de 4 meses de conversas, estudo e planejamento para que tudo ocorresse de forma tranquila e segura. A região que seria atravessada em nosso trekking, apesar de não apresentar elevada variação altimétrica ou grandes dificuldades técnicas, trazia alguns percalços que não poderiam ser menosprezados, como grandes áreas de charcos, trechos de mata fechada, a constante possibilidade de nevoeiros densos capazes de impedir a navegação visual (a famosa “viração”) além do mais temido deles: o frio, constantemente abaixo de zero nos meses de outono/inverno, pois se trata da região mais fria de todo Brasil e onde quase todos os anos temos a presença de neve!

 

Definidos o trajeto-base e a data, passamos a nos debruçar sobre as cartas topográficas e as imagens de satélite da região estudando as peculiaridades do terreno para definir o traçado de uma rota viável diante da topografia dos morros, campos e platôs que povoavam nosso percurso. Foi um trabalho notável pela precisão (como se notará no desenrolar do relato), em grande parte realizado pelo amigo Otávio Luiz, que após alguns esboços desenhou a rota principal pelo Google Earth tendo em conta a topografia e vegetação, além de marcações importantes, como pontos de abastecimento de água. Nesta fase também colaborou o companheiro Mioto, que traçou caminhos alternativos e detalhamentos da rota separados em trechos. A mim coube basicamente os primeiros esboços, a revisão e algum detalhamento sobre os traçados do Otávio, a marcação de pontos de referência no terreno, como cumes e fazendas bem como a criação de possíveis rotas de fuga por estradas da região. Tudo isso tinha um único objetivo: produzir material de navegação abrangente e completo. Primeiro, para conhecer previamente o terreno, da melhor forma possível e, em segundo, levar nos nossos aparelhos de GPS tudo gravado para o caso de ser necessário navegar sem visual – situação muito comum na região por conta da viração, fenômeno metereológico caracterizado basicamente por denso nevoeiro que se forma rapidamente, encobrindo vastas extensões de terreno e que limita sobremaneira o alcance visual. Não poderíamos nos dar ao “luxo” de sequer correr o risco de nos perder. Estaríamos fazendo uma “reinauguração” de travessia dentro de um Parque Nacional, uma espécie de “piloto” e não queríamos de forma alguma comprometer o trabalho de convencimento até aqui arduamente realizado junto à Administração do PARNA.

 

Como eu havia lido vários relatos sobre travessias anteriores na área que pretendíamos cruzar e em várias delas haviam referências a dificuldades (algumas inesperadas), além das cartas e imagens de satélite resolvi estudar com mais cuidado as imagens de outros trekkers que andaram pela região. Neste processo me deparei várias vezes com imagens muito nítidas e esclarecedoras de aspectos importantes da vegetação e relevo local, que me chamaram a atenção e bastante nos ajudaram. Entre esses fotógrafos que trilharam antes pela região destacavam-se nomes como: Valdo Balbinot, Ênio Frassetto e Ademir Sgrott ... Todos profundos conhecedores da região.

 

Diante disso resolvi buscar deles alguma informação que considerassem importante, algum aspecto que poderia ter passado desapercebido e mesmo a solução de algumas dúvidas que nos acometiam nas diversas horas que passamos analisando as imagens de satélite e as cartas topográficas da região (como se sabe as IS nem sempre são de boa qualidade e via de regra as cartas estão desatualizadas). Como a internet aproxima as pessoas! Disparei alguns e-mails e, “voi-lá”!, logo tinha alguns “pareceres” sobre a região, desde a topografia, vegetação e condições do terreno até dicas sobre autorizações de passagem pelas fazendas na região do PARNA (nem todas desapropriadas como deveria ter ocorrido, pois o Parque ainda não está totalmente regular sob o aspecto fundiário). Destaco aqui a grande quantidade de fotos e informações repassadas pelo hoje amigo Valdo Balbinot, de Porto Alegre, que me enviou um verdadeiro dossiê sobre os Aparados da Serra e nos forneceu dicas valiosas para o percurso. Ao amigo os nossos mais sinceros agradecimentos mais uma vez!

 

Com o roteiro pronto, munidos de mapas, nossas tracklogs e informações mais do que suficientes sobre todos os pormenores do nosso percurso a ansiedade aumentava à medida em que a data se aproximava. Havia sobretudo o fantasma das condições metereológicas – sempre determinantes neste tipo de atividade, e sobre o qual não podíamos intervir... Mas haviam ainda alguns pontos não definidos que precisávamos enfrentar. Um era a logística, do qual em parte dependia também a definição final do grupo. Outro era a própria autorização “oficial” do Parque Nacional, sobre a qual ainda pairavam algumas dúvidas. Cada qual a seu tempo...

 

Enfrentamos primeiro a questão logística. Em nossa opinião, a melhor solução desde o início passou pela locação de uma van dadas as dificuldades práticas de utilizar o transporte regular de ônibus (horários péssimos + necessidade de baldeações = perda excessiva de tempo). Descartamos também ir de carro, tanto pelo cansaço que causariam aos trekkers-motoristas (seriam afinal 480 Km de deslocamento para quem partia de Curitiba) quanto pela pequena capacidade de transporte e necessidade de posterior resgate dos mesmos. Com a escolha da van, vinha o segundo ponto, bem desgastante, que era a definição final do grupo que faria a travessia. Desgastante pois quando se fala em “Serra Geral” e fazer uma travessia pelo PARNA São Joaquim, quem é do Sul sabe que se trata de um momento raro, especial mesmo, pelas belezas daquelas paragens... E é aí que o “bicho pega”, pois o número de interessados cresce absurdamente! Facilmente lotaríamos uns 3 ônibus de pessoas dispostas a encarar o frio extremo da região para ter esta oportunidade, mas como isso não é possível, vamos administrando os pedidos de diversos amigos que nos procuram sabendo “por alguém” que projetávamos um trekking de tal magnitude para o feriadão.

 

Com um limite de 15 pessoas estabelecido (lotação máxima da van) e alguns nomes “hors concours” em razão da sua participação, desde o início, na discussão sobre o PARNA São Joaquim, praticamente não 'sobravam' vagas. Foi nesta fase que dissemos muitos “não” e, nos perdoem os companheiros que ficaram de fora, não se tratou em momento algum de favorecer ou excluir ninguém, o critério foi bem objetivo – saibam disso. Desde o início este projeto nasceu para ser limitado em número de integrantes, especialmente em vista da necessidade de autorização do PARNA, das regras de mínimo impacto em ambientes naturais e da própria segurança do grupo, além das dificuldades logísticas inerentes.

 

Com um grupo “grande” e a logística definida faltava o último dos fatores importantes do projeto que de alguma forma dependiam de nossa atuação: a autorização formal da administração do Parque Nacional de São Joaquim.

 

“Como assim?!” Podem perguntar alguns, por dois motivos/posições:

 

1)- Já não estava concedida a autorização? Como vocês montam toda a estrutura para a travessia sem saber se terão a autorização? e

 

2)- Para quê autorização? Façam na “raça”, “por baixo dos panos” ora!!!

 

Primeiramente, o caso é que já tínhamos fortes indicativos de que a autorização seria concedida. A nossa apreensão, no final, recaía sobre o tamanho do grupo, algo maior do que o usualmente recomendado para este tipo de atividade, especialmente em um Parque Nacional, o que acabou não sendo problema. Na semana anterior, com as previsões climáticas desenhando um cenário de frio extremo e até possibilidade de neve na região para o feriado, ficamos apreensivos sobre a possibilidade da administração do parque, justificadamente, desautorizar a travessia. Era um risco palpável, concreto, devido ao agravamento das condições metereológicas. Houve até notícia de graxaim encontrado congelado "em pé" na região... Imaginem!

 

Em segundo lugar, fazíamos questão, desde o início, de solicitar e ver concedida a autorização formal do PARNA São Joaquim como forma de quebrar o paradigma e “pressionar” legitimamente a administração do parque sobre os interesses dos trekkers e montanhistas na área, assim como para valorizar a atuação dos profissionais que o administram, criando antecedentes para manter as “porteiras abertas”, como se diz na gíria aqui do Sul. Nosso interesse sempre foi e continua sendo pelo diálogo com as autoridades ambientais, ainda que discordemos de alguns pontos e soluções de gestão adotadas para as UC's. Respeitamos para sermos respeitados – essa é a nossa regra. Não é pela afronta ou desrespeito que conquistaremos algum direito, mas pela argumentação e participação efetiva nos fóruns institucionais adequados às discussões que originam os planos de manejo, que em regra tornam-se a “lei” de cada unidade de conservação. Inclusive fica a convocação para que as entidades ligadas ao montanhismo em Santa Catarina (alô FEMESC!) envolvam-se e participem dessa e de outras discussões em torno das UC's naquele estado.

 

E a autorização? Saiu, claro! Mas apenas poucos dias antes da data marcada para o início da expedição recebemos o e-mail do Sr. Michel Omena que chancelava a nossa autorização (ufa!). Tudo pronto enfim.

 

 

 

PRIMEIRO DIA:

 

Em síntese, saímos de Curitiba 22:30h abaixo de chuva na quarta-feira, 06/06, véspera de feriado, com destino a São José e depois Santo Amaro da Imperatriz (SC), onde embarcariam nossos 2 colegas de Santa Catarina, Mioto e Fernando. Rodando durante a madrugada conseguimos dar umas cochiladas no caminho e chegamos cedo a Urubici, cerca de 5:30h. Reinava um frio “daqueles” de “renguear pingüim”. Como ainda era muito cedo e precisávamos aguardar para pegar nosso “salvo conduto” na sede do ICMBio e depois tomar nosso café da manhã, tiramos mais uma soneca na van estacionados em frente ao prédio do órgão ambiental, aguardando o tempo passar. Às 7h, já de posse da carta de autorização, encontramos os 2 companheiros gaúchos que gentilmente ficaram acampados no gramado da casa do Zé Marcos, guia turístico e dono da agência Serra Sul. Ao lado da agência tomamos um delicioso e reforçado café da manhã na padaria Beckhauser, agendado por telefone com a proprietária no dia anterior, que se dispôs a abrir seu estabelecimento mais cedo do que de costume para nos atender. Em seguida tocamos para o Morro da Igreja, cujo acesso agora é inteiramente asfaltado desde a cidade com a conclusão das obras na SC-439. Na estrada que sobe o Morro da Igreja um grande movimento de veículos, especialmente no trecho final, em frente à base militar. Muitos carros e desorganização dos motoristas congestionando a estradinha estreita, já que a manhã fria e sem uma única nuvem sequer no céu descortinava plenamente todas as paisagens que a vista alcança de lá, atraindo muuuiiita gente ao mirante em frente à base. Ainda assim conseguimos ver por segundos um graxaim correndo no campo ao lado do portão da base militar.

 

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A visão ali era um misto de beleza e terror, e já dava indícios do que encontraríamos pela frente nos próximos dias. Beleza em razão do maravilhoso cenário que já se vislumbra dali. O terror era por conta do caótico congestionamento de pessoas e veículos que se apinhavam em tão curto espaço físico. Este seria passageiro, enquanto aquela foi perene durante toda nossa jornada. Ali topamos também com os primeiros sinais de gelo, outra coisa que nos acompanharia praticamente todos os dias na travessia e era abundantemente visível no entorno do mirante, acumulando-se nas pequenas poças nas beiradas da pista e nas lajes de pedra próximas, gelo com cerca de 2 cm de espessura!!! Muito vento e um frio intenso também se faziam presentes e incomodavam um pouco. Já se passava de 8:30h quando chegamos no mirante. Tiramos algumas fotos e manobramos com alguma dificuldade a van (contamos com a ajuda dos militares da FAB, que gentilmente abriram para nós os portões da base permitindo-nos manobrar a van com a carreta de bagagem, pois a estradinha ali na frente estava impossível)... Um tenente da FAB com o qual conversei rapidamente, todo encapotado, ficou abismado quando soube que iríamos atravessar os campos do outro lado e dormir em barracas naquele frio, especialmente com as previsões aterradoras para o feriado... Rsrsrs.

 

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Abandonamos a muvuca do mirante em frente à base e descemos a estradinha, retornando rumo a Urubici por uns 3 Km até o portão que dá acesso ao “morro da antena”, ponto inicial da nossa jornada. Enquanto descarregávamos nossas mochilas alguns carros com turistas pararam para nos perguntar o que iríamos fazer... Todos se assustavam quando contávamos! Rsrs. Descarregadas as mochilas, calçadas as botas e acertados os últimos detalhes com o motorista da van, jogamos as pesadas mochilas cargueiras nas costas e iniciamos a jornada propriamente dita. Um a um os companheiros atravessaram o portão metálico e seguiam morro acima pela precária estradinha de manutenção da instalação no topo, que aparenta ser uma repetidora de rádio. Já passava das 10h da manhã, sol alto no céu e, mesmo assim, onde havia alguma sombra nas beiradas da pequena estradinha, gelo aparecia em abundância, formando até estalactites de água congelada nos pequenos barrancos.

 

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Rapidamente atingimos o topo do morro da antena e dali tiramos algumas fotos aproveitando o visual alucinante já no início da caminhada. Ali, Mioto, Fernando e Tiago Korb tomaram a dianteira seguidos pelo Zeca, sob o pretexto de adiantar a caminhada, pois combinaram de levar um termômetro de max/mín que seria deixado na antiga Fazenda Caiambora de onde seria resgatado no outro dia pelo Sérgio Sachet Jr.(Graxaim), guia da região que acompanharia outra expedição na região (veja o relato deles AQUI). Logo descemos todos a crista, transpondo uma cerca de arame farpado, a primeira de muitas ao longo da travessia. Rapidamente cortamos pelo campo seguindo uma trilha batida, entrando na mata, mais abaixo. Em pouco mais de 40min atingimos o fundo do vale, atravessando um pequeno charco, uma matinha nebular e logo depois o famoso Rio Pelotas, ainda pequeno próximo das suas nascentes.

 

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Nosso objetivo imediato a partir dali era um grande platô gramado, visível por quem olha do Morro da Igreja e cuja vista privilegiada da Serra Furada queríamos usufruir. Para nosso azar, entretanto, logo que subíamos uma elevação que antecede esse platô a viração começa a cobrir toda a borda do platô e fecha todo o visual para o lado do MI e Pedra Furada. O grupo pára para descansar e lanchar. Um pequeno destacamento do grupo larga as cargueiras e sobe o morrote à frente confirmando a ausência completa de visual só na área do platô, especialmente na linha de borda, pois ao redor o céu encontra-se completamente límpo. Dali enxergamos mais abaixo o quarteto que se desgarrara hora antes voltando do platô a passos largos. Ficamos alguns minutos no topo do morrinho, lanchamos e respiramos para repor o fôlego gasto na subida... Arriscamos algumas investidas próximas, subindo uma elevação rochosa ao sul e depois a borda mais próxima do platô. A viração só aumentava e, estranhamente, se mantinha apenas sobre o platô e as elevações próximas da borda.

 

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Retornamos para vale anterior, onde deixamos as cargueiras e o restante do grupo estacionara para descansar e almoçar. Quando chegamos encontramos o Zeca que acompanhara um tempo o trio Tiago Korb, Mioto e Fernando. Estes já haviam novamente deixado o grupo e se adiantaram bastante, sem levar rádio para comunicação e sem maiores “combinações”. Como a viração aumentando e sem visual das bordas, decidimos seguir dali o rumo originalmente traçado, um pouco afastado das bordas das escarpas, acompanhando “por cima” o vale do Rio Pelotas, seguindo as curvas de nível das elevações que o limitam pelo leste.

 

Andamos por cerca de 2h quase ininterruptamente e, de uma elevação, avistamos ao longe, no fundo do vale, as ruínas da Fazenda Caiambora (abandonada), marcada por característicos muros de taipa (pedras), nas margens do Rio Pelotas. Nada do “trio ligeiro” como passaremos a nos referir aos 3 caminhantes “desgarrados”. Pensamos que eles iriam nos reencontrar naquelas imediações tendo em vista a instalação do tal termômetro na sede da antiga fazenda, mas não foi o que aconteceu pois nem sinal vimos dos três mesmo perscrutando o horizonte com o binóculo. Daquele ponto em diante ficamos cientes de que os três agiriam por conta própria e de forma independente, o que nos chateou um pouco. Fazer o quê?... Eram trekkers experientes e bem equipados, que seguissem seu caminho. Azar! Pensamos. Perderiam a maravilhosa polenta da janta. Rsrs! Tocamos em frente. O frio da tarde já se fazia sentir, uma vez que o sol já baixava no horizonte e o vento em alguns pontos incomodava bastante, obrigando a sacar agasalhos das mochilas.

 

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A região deste início de curso do Pelotas, também conhecida como 'Campos de Santa Bárbara' é muito aprazível, com uma paisagem dominada por campos limpos e ondulados, entrecortados por variada sucessão de morros e vales, emoldurado por um maciço de elevações cobertas de mata que se erguem a oeste-noroeste. Elevando-se no horizonte atrás de nós vislumbrávamos o Morro da Igreja e seus indefectíveis domos de radar e antenas de comunicação. Nossa rota de caminhada evoluía invariavelmente contornando pequenas elevações e atravessando um ou outro pequeno vale que surgia transversalmente ao vale principal do Pelotas.

 

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Com o sol descendo no horizonte, o pouco tempo de luz nos requeria buscar um local adequado para acamparmos. Nessa altura do dia nosso grupo se estendia por uns 500 metros, formado por vários pequenos destacamentos, cada um caminhando no seu ritmo mas sempre ligados uns aos aos outros, seja por contato visual seja por rádio (levamos 3 pares dos versáteis “Talk About” Motorola, de 1,5W, que deram conta do recado durante os 4 dias de travessia com apenas 2 jogos de baterias). Logo nossa vanguarda informava ter encontrado um local ideal: um pequeno platô limpo cercado por um muro de pedra e vegetação mais densa, que nos dava boa proteção contra o vento.

 

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Ali, naquele resquício do que fora uma antiga mangueira da fazenda de gado, armamos nossas barracas. Logo que o sol se pôs, cerca de 17:30h, o frio já se tornara intenso e nos obrigava a andar totalmente encobertos pelas vestimentas de frio. Cristais de gelo começavam a se formar sobre as barracas e tudo o que estivesse exposto ao tempo. Apesar da ausência quase absoluta de vento o frio fora das barracas era tremendo. Cozinhamos a nossa janta comunitária sobre uma pequena laje de pedra onde montamos os fogareiros e preparamos alguns tira-gostos para amainar a fome enquanto tomávamos um mate e preparávamos o prato principal: uma deliciosa polenta campeira. Tudo regado com sucos e alguns goles de graspa e cachaça que levamos apenas para "esquentar". Mesmo com o frio que aumentava a cada minuto, jantamos e ainda ficamos "proseando" por mais de uma hora em volta dos fogareiros.

 

Nos encasulamos cedo em nossos sacos de dormir e, uma vez aquecidos, dormimos maravilhosamente. Praticamente não sentimos o frio de -11/-10°C que nossos dois termômetros “tabajaras” registraram fora das barracas quando delas saímos às 7:30h. As barracas e tudo em volta estava coberto pelo manto branco da forte geada que assolou a madrugada. De longe, em alguns lugares no campo mais baixo parecia até que havia nevado, de tão branco que estava. As garrafas de água deixadas fora das barracas amanheceram completamente congeladas. Botas e meias, úmidas de suor do dia anterior deixadas no avanço das barracas amanheceram endurecidas. Duas poças grandes de água próximas do acampamento pareciam feitas de vidro e congelaram completamente, a ponto de se ter dificuldade para quebrar o gelo, de tão espesso. O ar matinal, gélido, fazia doer até os ossos. O jeito era manter por baixo das roupas de caminhada as peças de segunda pele com as quais dormimos. Acima de nós um céu azul profundo, limpíssimo. Nem sequer sinal de nuvens ou viração até onde a vista alcançava. De um lado o sol, tímido, elevando-se lentamente sobre a encosta à nossa frente. De outro lado, acima do vale, um disco branco contrastava o azul dominante: a lua, ainda alta, dividia com o sol o espaço do firmamento.

 

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Alguns voltaram para as barracas e esticaram um pouco o sono, outros tiravam fotos e procuravam se mexer para espantar o frio, agilizando um café quente nos fogareiros, nos quais crepitavam panelas cheias de água postas a ferver para o preparo da refeição matinal e lavagem das panelas usadas na noite anterior. Logo, com a algazarra, todos se reúnem em volta dos fogareiros onde se prepara um desjejum reforçado, como ovos mexidos, pão sírio com queijo provolone defumado e salame, entre outros. Terminada a refeição, passa a reinar a faina acelerada de ajeitar toda a tralha de acampamento e montar novamente as mochilas para o segundo dia de caminhada...

 

 

 

SEGUNDO DIA:

 

O sol já estava alto e todos apressados em finalizar as mochilas após a primeira noite acampados. O “tempo ruge” dizia o Otávio, e todos compenetrados em socar roupas e equipamentos nas pesadas cargueiras, que a despeito de toda a comilança da noite anterior pareciam ainda mais volumosas e pesadas que antes. Uma olhada rápida pela área de acampamento e facilmente o confundiríamos com uma área atingida por um tornado, tamanha era a bagunça. Todos haviam aproveitado os muros da mangueira de pedra e os galhos das árvores próximas para pendurar calçados e roupas úmidas ou enregeladas pela forte geada da madrugada, aguardando que os raios do sol matinal as descongelasse ou secasse. As botas, em especial, endurecidas e geladas, eram deixadas por último para serem calçadas, na vã esperança de que estivessem menos desconfortáveis após pouco mais de uma hora no sol, tempo insuficiente para a tarefa do degelo.

 

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Logo, um a um, todos apresentam-se prontos para partir. Já eram 10h da manhã e estávamos bem atrasados em relação ao cronograma planejado inicialmente de começar a caminhar por volta das 9h. O plano era continuar subindo a lateral esquerda do vale à nossa frente, onde corria um afluente do Rio Pelotas, para em um ponto mais alto atravessá-lo em um ponto mais favorável. Vislumbrávamos bem no alto (a leste) uma passagem mais fácil e traçamos um rumo para atingi-la. Assim fomos. Passados alguns charcos e um riachinho menor, acompanhando as curvas de nível por pouco menos de 1 km do ponto de acampamento fizemos a transposição do rio no trecho previsto, atravessando a mata ciliar e o leito de pedras, onde o rio era mais estreito e o vale menos profundo. Novamente alguns se abasteceram de água e se refrescaram, já que o calor do sol somado ao esforço da caminhada com as cargueiras já começava a se fazer sentir.

 

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Galgávamos agora as encostas de um outro morro maior, acompanhando as curvas de nível em direção a uma nova linha de morrotes rumo sudeste. À nossa frente agora tínhamos uma longa linha reta de uma cerca de arame farpado que apontava para o céu e parecia não ter mais fim, numa enorme rampa. Vencemos a sucessão de elevações e rampas descampadas e, algumas centenas de metros acima atingimos uma dobra no terreno para, logo acima, divisar uma cachoeira no mesmo riacho que vínhamos seguindo e que delimitava a área de um imenso platô que se estendia a leste e a nordeste, atingindo novamente as bordas da serra. Logo depois de passar pela cachoeira o terreno à nossa virou um enorme brejo. Tentamos desviar alguns dos charcos mas caíamos em outros, tanto de um lado como de outro da cerca, cuja linha de palanques resolvemos acompanhar novamente por se assentar sobre terreno mais firme do que o restante à sua volta, dando certo sentido àquela famosa troça “firme que nem palanque em banhado”. Rsrs! Buscávamos agora a borda da serra, acompanhando a lateral de um morrote, rente à tal cerca infinita, que neste trecho se elevava acima do nível do campo, o que nos dava algum terreno firme para caminhar, além da visão mais privilegiada, do alto. Logo vão surgindo, deslumbrantes, novas visões da travessia: ao Norte as pontas da Serra Furada e, logo ali, a nossos pés, as escarpas da Serra Geral. Não há dúvida que largamos as cargueiras e fizemos uma parada para apreciar as vistas privilegiadas da borda, tanto dos campos ao norte quanto da serra abaixo, fotografando as belezas da área.

 

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Passados os momentos de euforia e contemplação, 1h depois nos reagrupamos e voltamos à realidade da caminhada. Começamos a subir frontalmente a elevação que vínhamos contornando junto à cerca, agora com destino aos imponentes platôs mais acima, cercados por paredões de rocha, que nos anunciavam visões ainda mais majestosas do que as divisadas há pouco. Para isso, além do aclive, vencemos um trechinho curto de mata e uma cerca. No alto resolvemos almoçar (pretexto para uma outra pausa de contemplação e descanso). Dali a vista de 360º mostrava, além do Morro da Igreja e Serra Furada, os paredões imediatamente anteriores, a imensidão dos campos “interiores” e boa parte dos platôs e elevações que se sucediam em direção ao Sul, nosso caminho dali para frente, permitindo mesmo vislumbrar parte do Cânion Laranjeiras, mais ao longe.

 

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Daquele ponto confirmamos também visualmente a nossa rota para a tarde daquele dia, que seguindo nossa expectativa (traçada antes no GPS e cartas) deveria nos levar por uma longa descida, nos afastando um pouco da borda da serra para contornar alguns obstáculos como morros cobertos de mata e escarpas acidentadas. Devem-se destacar aqui também as belezas dos campos interiores: diversas áreas de mata nativa repletas de araucárias e muitos afloramentos rochosos. Alimentados e bem descansados, muitas fotos depois, ajeitam-se as mochilas novamente e “pernas-prá-que-te-quero”! Já são 14:15h e lá estamos novamente em movimento seguindo para o sul. Após quase 2 horas de pernada pelos campos, contornando algumas elevações e matas nos deparamos com o que visualmente seria um grande vara-mato. Após algumas explorações do nosso “batedor” oficial, o companheiro Zeca Reinert, que em vários momentos da travessia despontaria com o rádio para desbravar os trechos de mata à nossa frente, logo descobrimos que a transposição da mata era bem mais tranquila do que imaginávamos. Ao final dela saímos num enorme descampado plano com vários trechos de charco, o qual vencemos ilesos (pés secos) para sair em outra descida de vale e outro trecho aparentemente complicado de vara-mato. Breve parada para elocubrações e novamente nosso batedor oficial se embrenha na mata para verificar o caminho. O grupo aproveita a pausa para descanso e reidratação enquanto a equipe de navegação se debruça sobre a carta e o mapa no GPS para estudar as alternativas de caminho. Não tem jeito, é por aqui mesmo, concluímos... Logo isso se confirma pelo rádio. Zeca, o desbravador, informa que o mato pode ser contornado lá embaixo. Tocamos a descer a encosta. Chegando na borda da mata, damos de cara com uma área de erosão onde a água de chuvas torrenciais escavou o terreno em obediência à Lei da Gravidade, buscando o fundo do vale e seu riacho, depois da mata. Varamos por uma cerca de arame já meio caída e, seguindo a erosão, contornamos uma ponta de mata chegando a uma ampla área de banhado.

 

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Ali, na borda da mata, nas sombras “eternas”, vários pontos de gelo depositado pela forte geada da madrugada anterior ainda eram visíveis. Mantos de gelo e poças congeladas em plenas 16:30h da tarde... Irrompemos com cuidado pelo trecho de banhado chegando no riachinho. Abastecemos de água já pensando no estoque para acampamento logo mais e seguimos, agora subindo a encosta do outro lado do pequeno vale, passando a acompanhar o zig-zag de uma trilha de gado que galgava as curvas de nível. Como a luz do dia já findava estávamos de olho em possíveis locais de acampamento. Com o pouco tempo de luz do sol, o vento frio de fim de tarde já nos castigava, obrigando a vestir os abrigos corta-vento. Subimos uma, duas encostas de morros gramados que se mostravam à nossa frente, e aos lados. Do alto de uma delas vislumbramos campos mais para o “interior” com algumas cabeças de gado reunidas. Dali vimos ainda um platô elevado mais adiante que nos parecia um bom local para acampamento. Resolvemos ir até lá e montar acampamento. O local não era protegido como na noite anterior, mas viável, tendo em vista que não havia muito tempo de luz natural e surgira uma viração que restringia muito a visibilidade. Nem pensamos muito e já fomos sacando as barracas das mochilas e buscando os melhores pontos no campo plano, cheio de pedras e de bosta de vaca. Pensávamos sempre em abrigar as entradas das barracas do vento sudoeste, de onde poderiam vir, segundo as previsões metereológicas, as rajadas de vento mais fortes. A noite caiu rápido e o frio extremo cobrava seu preço, mesmo sem vento - por sorte, o que aumentaria ainda mais a sensação de frio. Todos encapotados e enregelados, rapidamente aprontamos nossa cozinha, numa pequena laje de pedra onde empilhamos algumas pedras para servir de banquinhos.

 

Barracas montadas e vestidos com as roupas mais grossas para o frio noturno, logo teve início o festival de gastronomia que sempre acompanha nossos acampamentos. Soraia prometia desde a noite anterior um “escondidinho de carne seca” e todos se aglutinavam em torno dos fogareiros procurando ajudar como possível a concretizar o cardápio. Uns ferviam água, outros serviam tira-gostos (calabresa frita, queijo provolone), todos beliscam e vários tomam mate (a pequena cuia do gaúcho Marcelo Juká rodou muito nessas noites) e as panelas de purê de batata semipronto, no fogo, começavam a ficar no ponto. Logo a carne seca desfiada da Vapza vai ao fogo para refogar com os temperos para ser misturada ao purê de batata... Huuuummmm!... O cheiro deixa todo mundo de água na boca! Logo uma fila de pratinhos se forma e começamos a servir a iguaria. Todos comem e se lambem. Realmente a receita estava muito boa, digna dos melhores restaurantes. Depois dizem que a gente passa mal nestes acampamentos! Rsrs!

 

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Só que o prato principal não era tão abundante e, sozinho, mesmo servido depois de alguns petiscos não foi suficiente para saciar os 11 caminhantes famintos. Todos voltam pros fogareiros em busca de algo mais para complementar o rango. Depois da janta, muita prosa, uns goles de cachaça e graspa para esquentar e mais algumas porções de calabresa frita para complementar o forra-bucho e o pessoal começou a ficar com sono (e frio!) e resolvemos ir para as barracas. Nessa noite fui para a barraca na primeira onda posto que estava bem cansado. Tomei meu “banho de gato” com lenços umedecidos para reduzir a inhaca e naquele frio de “renguear cusco” me troquei e me enfiei no saco de dormir. Mesmo com o frio absurdo logo estava aquecido devido aos contorcionismos necessários para me ajeitar no saco de dormir Deuter Orbit -5°C tamanho grande (L). Já havia comprado o tamanho maior (para pessoas com até 2m, segundo a tabela do fabricante) e mesmo assim sofria com o tamanho apertado do SD. Porcaria! Pensei, pelo menos ajuda a esquentar... Rsrs! Deve ser parte da tática do fabricante para esquentar o usuário... de raiva! Pensei, sarrista comigo mesmo.

 

Ouvia ainda as vozes do povo na “cozinha” contando causos e rindo. Logo, com o calor do abrigo eu literalmente “empacoto”. Minutos depois (que pareceram horas), o meu companheiro de barraca, Otávio, se recolhe e acaba me acordando, o que faz parte da convivência numa barraca para 2 pessoas não muito espaçosa como a que dividíamos. Trocadas algumas palavras, novos contorcionismos para me ajeitar numa posição confortável novamente e lá vamos nós para os braços de morfeu.

 

 

 

TERCEIRO DIA:

 

Na penumbra do amanhecer, ainda sem os raios solares, do ponto alto em que estávamos não tínhamos visão clara dos campos abaixo de nós, mas ao nosso redor tudo estava congelado. Nova geada havia castigado os campos e nossas barracas amanheceram cobertas com uma fina camada de gelo, menor do que a acumulada no acampamento anterior por estarmos num local mais alto, mas assim mesmo experimentamos um frio respeitável. Obtivemos média de -8°C para 2 termômetros diferentes. Logo, com todos de pé, o acampamento agita-se. Ao norte, as silhuetas do Morro da Igreja e da Serra Furada são quase perfeitamente visíveis. O sol começa a despontar com seu disco dourado e flamejante no horizonte e começamos a perceber a extensão da geada nos campos mais abaixo: tudo branco até onde a vista alcançava. Logo todos correm para fotografar os primeiros momentos do sol e as suas luzes no horizonte. Momentos mágicos em que todos se empolgam e se emocionam com a beleza proporcionada pelo espetáculo do astro-rei.

 

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Muitas fotos e algumas “macaquices” depois, estamos tomando nosso desjejum, cada um à sua maneira: uns fritam ovos com bacon, outros comem frutas, alguns biscoitos, outros sanduíches com pão de forma. Eu esquento na frigideira um disco de pão sírio recoberto de fatias de salame e queijo provolone defumado com ervas, que derretido logo vira um pequeno rolo e é devorado rapidamente com uma canecada de cappuccino instantâneo reforçado com leite em pó e canela, uma delícia! Logo um segundo “sanduíche-charuto” desses vai para o fogo e também é devorado. Nestas atividades longas de caminhada, além de uma boa janta é muito importante um bom café da manhã para garantir bom ânimo e a energia necessária para as atividades do dia.

 

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Com o desjejum devidamente deglutido, as atenções passam a se voltar para as barracas molhadas com o degelo e todas as tralhas que precisam ser organizadas nas mochilas. Nova agitação. Tudo vai sendo desmontado, secado e dobrado ou enrolado para caber nas enormes mochilas. Rápida pausa para estudar o terreno adiante de nós e confrontá-lo com as cartas topográficas e GPS. Assim traçamos visualmente a rota para os próximos quilômetros de terreno visível, coincidindo com a previamente traçada em no Google Earth e gravada no GPS. Nossa navegação até aqui vinha sendo primorosa. Elevações, vales, vara-matos e rios, tudo vinha coincidindo com nossas marcações prévias e em grande parte isso foi fruto, além do trabalho de observação do Otávio no traçado da rota, da colaboração do amigo Valdo Balbinot, com suas fotos e dicas. Só o atraso devido ao baixo rendimento da pernada até aqui é nos preocupava. No primeiro dia ficamos quase 4 km aquém do que pretendíamos caminhar, o que em parte recuperamos no segundo dia, mas ainda estávamos com 6 km de atraso acumulado em relação ao previsto. Em parte isso foi fruto do cansaço que exigiu paradas mais longas de descanso (especialmente no primeiro dia, pois muitos não dormiram direito na van e isso prejudicou um pouco o rendimento). No segundo dia a culpa foi do atraso no levantamento do camping (iniciamos a jornada 10h) e depois o desfrute mais alongado das belezas proporcionadas pelo caminho.

 

Iniciamos a jornada do dia às 9h, morro abaixo, para logo depois subir um conjunto de elevações e galgar uma crista de morros, de onde avistávamos muitas cabeças de gado e as instalações de uma fazenda a oeste. Ali chegamos novamente na borda dos Aparados e fizemos algumas fotos da área, seguindo a linha da escarpa por um trecho curto, visto que em frente teríamos que desviar uma elevação abrupta, com um imponente paredão de pedra. A subida pela linha da borda seria pouco proveitosa, pois havia muitas pedras e uma subida bem íngreme, por isso nosso traçado previa contorná-la seguindo a curva de nível. Da elevação imediatamente anterior já tínhamos vista quase completa para o Cânion Laranjeiras, antevendo a colossal formação geológica que logo alcançaríamos... Contornado o obstáculo, do outro lado a visão deste cânion era ainda mais bonita. Dali vislumbramos também as dificuldades que o dia nos reservava: vários trechos de vara-mato, alguns deles parecendo bem densos, como já prenunciavam as imagens de satélite.

 

Continuamos a contornar o morro coalhado de pedras e descemos um pouco para seguir uma trilha batida, provavelmente de gado, buscando nos poupar da altimetria e dos pedregulhos, andando por terreno pouco mais plano. Eram 10:15h e o sol já nos castigava com o calor e a água estava escassa pois era o trecho mais longo sem água em todo o trajeto, visto que andamos praticamente todo o início da manhã pelo “alto”, apenas com nossas reservas do dia anterior. Como avistamos uma sanga para oeste, com boa aparência, a cerca de 700 metros de onde andávamos, resolvemos enviar alguns “voluntários” para coletar água para o grupo, que parava para descanso e lanche. Lá se foram Thomas, Zeca e Serginho com várias garrafas pet. Devidamente abastecidos do precioso líquido nos pusemos em marcha novamente, agora cruzando a vastidão de campos ondulados, num leve aclive que nos levaria novamente para as bordas. Logo, ao atingir a borda, sem poder continuar diretamente para o sul em razão da enorme fenda, desviamos rumo sudoeste, acompanhando as escarpas, agora descendo em direção a uma extensa cerca de pedra no fundo de um vale crivado de pedras, que mais pareciam plantadas no campo como se fossem parte de uma lavoura. Ali, sinais claros da criação de gado: cochos ao longe, cercas de arame e algumas cabeças de gado pastando pelas proximidades, além de muito, muito esterco. Cruzamos o vale e galgamos uma elevação mais pronunciada que nos levaria ao alto de uma crista. Ali uma nova visão esplendorosa do Laranjeiras, agora integral, nos surpreenderia. Como daquele ponto a visão era ampla e bonita e o terreno à frente exigiria alguma análise para traçar o percurso, fizemos uma pausa para descanso e fotos. Do alto, com amplo alcance visual, procuramos com o binóculo algum sinal do “trio ligeiro”, mas nada. Até aquele momento nenhum contato visual ou por telefone com eles. Pelos nossos cálculos eles deveriam estar umas 7 ou 8 horas à nossa frente.

 

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Como estávamos atrasados com relação ao cronograma planejado para atingir a Serra do Rio do Rastro e antevendo que no ritmo que estávamos mantendo não conseguiríamos concluir a travessia toda sem comprometer um mínimo de “qualidade” na exploração de nossa passagem pelo Cânion Laranjeiras – um dos pontos altos da expedição, confabulamos rapidamente e decidimos por concluir a travessia pela Fazenda Santa Cândida, ponto já previamente marcado como possível rota de fuga e onde facilmente a nossa van poderia nos recolher. Daquele ponto, ao mesmo tempo em que analisávamos o terreno à frente, aproveitamos a existência de sinal e fizemos contato via celular com o nosso motorista, responsável pelo resgate no domingo. Informamos sobre nossos planos de sair pela referida fazenda e combinamos os detalhes. Em seguida enviei torpedos para os celulares dos companheiros do “trio ligeiro”, contudo sem qualquer resposta imediata deles.

 

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Concluída a pausa derivamos para o leste (esquerda) e descemos uma encosta para em seguida atravessar um trecho extenso de mata nativa em declive. Nosso objetivo primário a partir daqui era atingir a borda norte do Cânion Laranjeiras o mais rápido possível visando explorar o que desse da borda do cânion e estabelecer um ponto de acampamento nas suas proximidades. Como sempre o Zeca, nosso batedor, adiantou-se para investigar a passagem pela mata e com o rádio orientou o grupo. Dali até a borda do Laranjeiras vencemos uma sucessão de vara-matos e descampados, ora subindo, ora descendo encostas de morros até chegarmos num altiplano pouco antes do cânion, com belo visual das imediações, onde começamos a seguir os resquícios de uma estrada que se embrenhava na vegetação do morro, cruzando-o em direção aos campos mais abaixo, nos limites do cânion.

 

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Ali, quase no início da estradinha encontramos um cachorro branco, um guapeca viçoso que nos anunciava a proximidade da Fazenda Santa Cândida, a única que existia nas redondezas e cujas instalações sabíamos estar logo atrás de um grande morro coberto de vegetação cerrada que se erguia depois do vértice do Laranjeiras. Imediatamente surgiu um nome para o simpático cachorro: “Polar”. Seguimos a tal estrada que inicialmente subia em leve curva para depois se embrenhar no mato e quase sumir, virando uma picada em meio à vegetação, agora descendo pelo morro em meio a xaxins gigantes e terreno bastante turfoso. Cerca de meia hora depois atingimos a base de um grande descampado plano que emoldura toda a face norte e o vértice do Cânion Laranjeiras, repleto de turfeiras e com um grande charco bem na saída do mato. O cão Polar, mais esperto e conhecedor da região, saiu do mato num ponto bem próximo à borda e depois cortou caminho pelo campo, saindo bem longe de nós, contornando o banhado.

 

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Aqui o espetáculo proporcionado pelas vistas do magnífico cânion era agora completo e, à medida que íamos nos aproximando cada vez mais de suas bordas (que passamos a seguir), mais detalhes eram revelados aos nossos olhos. Já se passavam das 15:00h e ainda teríamos que encontrar um ponto de pernoite em breve, mas diante da magnitude daquela atração ninguém mais estava preocupado com isso. Todos curtiam o momento e tiravam fotos, enquanto lentamente caminhávamos rente das bordas observando e registrando tudo, embasbacados. Quando nos aproximávamos do “famoso” grupo de araucárias na borda do cânion, clássico entre as fotos do lugar, eis que ouvimos um barulho forte de helicóptero mas nada enxergávamos. Prestando mais atenção percebemos que o aparelho vinha pelo fundo do cânion e eis que se ergue perto das bordas, sobre o vértice do cânion por alguns instantes, sobrevoando o campo para logo em seguida fazer meia volta e retornar. Provavelmente um vôo panorâmico fretado por algum abastado turista “aéreo”. Cada um conhece a natureza como quer (ou como pode) – enquanto um bando de “malucos” mochileiros caminhava naquelas “lonjuras” um endinheirado passeia de helicóptero sobre o mesmo trecho. Coisas da vida moderna.

 

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Ali, próximo às araucárias, um de nossos companheiros, o Luís, também quase sobrevoa o cânion... Com a cargueira nas costas e com a câmera na mão, meio distraído, dá alguns passos em direção à borda e, sem perceber, pisa em um buraco fundo (de mourão de cerca, provavelmente), a pouco mais de 1 m do precipício. Dupla sorte naquele momento: primeiro por ter caído enfiando a perna quase inteira no buraco, o que evitou de certa forma que caísse para a frente (e consequentemente no abismo), pois o peso da mochila fatalmente o iria impelir naquela direção caso tivesse apenas tropeçado. Segundo pois mesmo tendo enfiado a perna quase toda no buraco, não se machucou... Poderia ter quebrado a perna. Um belo susto que só eu e outro companheiro, por andarmos atrás dele testemunhamos. Já imaginaram o tamanho da caca se o cara me cai lá de cima!

 

Após contornar toda a borda norte percorrendo as bordas das diversas fendas secundárias e da principal, próximo ao vértice tomamos o rumo de uma cerca de arame farpado em direção à floresta que se ergue pela encosta do morro próximo, contornando-o e nos afastando do cânion. Ali um grande charco nos obrigou a caminhar com atenção e buscar uma porção de terreno mais alto, galgando parte da encosta mais descampada do morro, contornando a vegetação pelo leste. Logo passamos por outra cerca e subimos outro descampado rumo a uma pequena crista. Subidinha cansativa naquela altura do dia em que as energias já não estavam sobrando e as cargueiras pareciam pesar mais. Pelas nossas lembranças e marcações no GPS, não muito distante dali (cerca de 400m) deveria haver uma estradinha (o caminho que liga a fazenda às bordas norte, leste e sul do Laranjeiras). Nossa ideia inicial era seguir aquela estradinha (a única passagem) para acampar num ponto mais a leste, perto das bordas do cânion. Só que o tal morro, além de ser coalhado de charcos possuía uma mata muito densa em toda a sua volta, praticamente impenetrável sem usar o facão. Percebemos que teríamos muito trabalho para abrir o mato no peito e no facão até encontrar a estrada e não dispúnhamos de muito tempo para isso. Logo escureceria pois já se passava das 16:30h. Desta feita mudamos nosso plano inicial de passar longe da sede da fazenda naquele dia e resolvemos encarar a pernada até as casas, procurando buscar um ponto de acampamento lá próximo, negociando com os moradores. Lá fomos nós, divididos em 3 grupos menores.

 

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Atingimos uma elevação e vimos ao longe as casas da Fazenda Santa Cândida. Na chaminé uma fumaça denunciava gente em casa. Nosso pelotão mais avançado – Cover, Luís e Marcelo já desciam o campo repleto de charcos e pouco distavam do lago da fazenda. Mais atrás eu com o segundo grupo e, mais longe ainda vinha o pelotão fecha trilha, com o pessoal que ficara mais atrás.

 

Poucos minutos de caminhada e os cães da fazenda já nos denunciavam. Nossa vanguarda já estava na mangueira em frente a uma das casas onde havia um rebanho de carneiros. Chamam o pessoal da casa e aparece um casal na porta (os caseiros), primeiro nos olham meio desconfiados, logo se soltam e conversam. Contamos resumidamente o que fazíamos ali. Nisso o pessoal vai chegando, chegando. A certa altura a D. Izoé, que negociava com nossa companheira Soraia a possibilidade de um banho quente (as meninas vinham sonhando com isso desde que decidimos concluir nossa expedição pela fazenda) exclama assustada: “Nossa! Olha Assis, tem mais uns quantos descendo ali”. Era o restante do grupo com o pelotão principal, mais 6 ou 7 pessoas que vinha atravessando o campinho em frente ao lago e à casa... Rsrsrs. Acho que ela pensou que estavam sendo invadidos.

 

Rápida conversa com o casal e seu filho e pedimos pro caseiro, Sr. Assis, nos deixar acampar ali por perto. Ele nos mostra um descampado a uns 300-350 m da sede (!), ao lado da estrada e emenda rápido um “eu levo vocês lá”, calçando as botas brancas de borracha e montando um cavalo que já estava encilhado no galpão ao lado da casa. A nossa companheira Soraia, espertinha, já negociara o seu banho com a D. Izoé, esposa do caseiro e ficou por ali mesmo. Os demais seguiram o tiozinho e, chegando no descampado, começaram a faina de arrumar o local de acampamento. No caminho seu Assis nos informa que havia encontrado com o “trio ligeiro” cedo naquela manhã, cerca de 8:30h, horário que eles cruzaram pela área perto da sede. Segundo ele os 3 haviam seguido rápido em direção ao sul e que eles o avisaram que outro grupo seguia atrás eles. Naquele momento confirmamos nossas previsões de que o trio estava a cerca de 1 dia à nossa frente. Naquele fim de tarde um vento frio nos castigou um bocado enquanto montávamos acampamento.

 

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Logo, com as barracas montadas começamos a preparar o que comer. Uns tomam mate. Começamos a preparar os tira-gostos para amainar a fome. A ideia era preparar o que sobrara de comida para aliviar nosso peso na volta, foi quando percebemos quanta comida havia sobrado. Nisso a segunda menina da fila vai para o banho e, passados mais alguns momentos, a terceira também. Banho só seria possível para as meninas, sentenciou a D. Izoé, assustada com o tamanho do grupo.

 

A janta foi uma fartura só: calabresa frita, salame, queijos (pelo menos uns dois tipos), azeitonas, arroz e até um rodízio de macarronada. Até o Otávio, adepto ferrenho do “ultralight” – “leve e rápido”, estava com sobra de comida... Acho que todos esperavam comer mais com o frio para repor as calorias – e via de regra todos levaram comidas calóricas. Comemos bem, e ainda sobrou alimentação para pelo menos mais uma janta. Bom, pensamos por fim, melhor sobrar do que faltar...

 

No tempo em que conversávamos e cozinhávamos para nos esquentar, Otávio, Thomas e Sérgio, que foram até a sede da fazenda acompanhar as meninas na ida e volta dos banhos quentes, aproveitando as viagens para abastecer de água, nos revelam que o Sr. Assis preparara um fogo de chão dentro do galpão ao lado da casa e nos convidou para nos servirmos do fogo ali, caso desejássemos. Como já havíamos nos instalado com todos os apetrechos e já cozinhávamos a algum tempo onde estávamos, acabamos declinando do convite, até porque entendemos que iríamos incomodar o casal com a nossa algazarra ao lado do rancho, visto que o pessoal no campo dorme cedo. Ficamos sentados no campo até cerca de 22:30h, em volta dos fogareiros, beliscando e conversando, já com saudades do que vivíamos naqueles 3 dias. Um a um o grupo ia diminuindo à medida que os companheiros iam dormir, até que o silencia reina absoluto. Todos se recolhem. No dia seguinte combinamos como missão explorar as bordas do Cânion Laranjeiras, o que havia instigado o grupo.

 

 

 

QUARTO DIA:

 

Refeitos pela noite de sono, acordamos cedo. Neste dia não temos a geada pela manhã apesar do frio - em parte resultado da sensação térmica, visto que onde acampamos estávamos sujeitos a um vento mais forte do que nas outras noites. No céu já havia sinais, ao norte, de mudanças climáticas. O volume de nuvens era visivelmente maior do que nos dias anteriores e sentíamos uma maior umidade no ar. Nosso objetivo neste dia era sair leves do acampamento para explorar o que fosse possível das bordas do Cânion Laranjeiras (as barracas ficariam montadas com todo nosso equipamento).

 

Tomamos um desjejum reforçado, procurando e, com o nosso objetivo em mente, saímos cerca de 8:30h da sede da Fazenda Santa Cândida seguindo por uma estradinha que a liga às redondezas do Cânion, cortando caminho pelo grande morro em frente, não antes de cumprimentar o simpático casal que toma conta da fazenda e pagar a taxa de R$ 5,00 por pessoa cobrada para visitação do cânion. Num percurso de cerca de 40 minutos em meio à mata já estávamos saindo no descampado (na verdade um baita de um charco) que separa a mata espessa da encosta do morro das escarpadas bordas do Cânion. Lá fomos procurando o máximo possível resguardar nossos pés da água do banhadão, que por vezes chegava fácil aos 50 cm de profundidade.

 

Muitos pulos e atoladas depois, cerca de 20 minutos, e a maioria com os pés molhados, atingimos a borda norte do Cânion pelo lado da fazenda, próximo do vértice principal, e começamos a percorrê-la, nos deleitando com o espetáculo que se descortinava à nossa frente. As gigantescas paredes esbranquiçadas do Cânion Laranjeiras desafiando as nossas câmeras. Poses e fotos nos pequenos mirantes de rocha e muita contemplação, inclusive do fundo do cânion. Seguimos até a cachoeira principal (existe outra menor perto do vértice), não sem antes ter que desviar o rio que a alimenta, tendo que andar quase 1 Km para dar a volta e observá-la pelo lado leste, de onde se tem o melhor ângulo. Depois da grande volta ao riacho e de várias fotos, parte do grupo seguiu para a borda leste e sul, atravessando outro longo trecho de charcos e campo, contornando um grande trecho de mata.

 

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Do outro lado o visual era tão ou mais encantador do que o das paredes do lado norte: com o céu quase sem nuvens, a vista alcançava, desimpedida, toda a baixa planície catarinense e as suas cidades e vilas, além das serras secundárias e seus entrecortes, que se estendem dos platôs do Laranjeiras em direção aos terrenos mais baixos. Como havia pouco tempo disponível a permanência ali foi curta (já passava de 12:00h e nosso transporte logo chegaria à fazenda, conforme combinado). Olhando em direção noroeste já se percebia uma maior deterioração das condições climáticas que certamente nos atingiria em breve e o grupo retornou em passo acelerado, pois além da caminhada de retorno pelos charcos e pelo barro da estrada até a fazenda ainda precisávamos desmontar nosso acampamento.

 

De volta ao acampamento foi o que fizemos. Em ritmo acelerado, acompanhados pelo receio de que o nosso motorista poderia ter problemas para encontrar a fazenda, desmontamos nosso acampamento e ajeitamos nossas mochilas para o retorno. Lá pelas tantas, com a maioria das mochilas já prontas ou quase, eis que surge na estradinha a van do Cléio (Zapvan), nosso motorista particular... Grande visão! Naquela hora, cerca de 13:30h, o céu já estava encoberto de nuvens e o vento só aumentava, com claros sinais de chuva.

 

Um a um carregamos nossas mochilas na van onde também trocamos de roupa e passamos a ficar mais à vontade com calçados e pés secos e roupas limpas, pois havíamos deixado na van mudas de roupas e calçados limpos para o retorno. Agora era só enfrentar a estradinha de 13 km até o centro urbano de Bom Jardim da Serra e ali almoçar. Nos programamos para almoçar na Churrascaria Cascata, aos pés da Cascata da Barrinha, ao lado do Portal Turístico da cidade, na SC-438. E os 3 “apressadinhos”? Enquanto estávamos na estrada de terra entre a Fazenda Sta. Cândida e a cidade de Bom Jardim da Serra recebemos um SMS deles informando que acabavam de chegar no mirante da Serra do Rio do Rastro.

 

Rapidamente vencemos a estradinha até Bom Jardim da Serra e chegamos à churrascaria por volta das 14:45h. Almoçamos conversando, já relembrando alguns dos momentos vividos na travessia e, com aquela sensação de missão cumprida, tristes por estar voltando subimos na van para ir resgatar o “trio ligeiro” no Mirante da Serra do Rio do Rastro, poucos km adiante. Quando ali chegamos a chuva já caía sobre nós. Entramos no pátio de estacionamento do mirante e logo avistamos as 3 figuras de mochilão nas costas, assustados (medo de serem deixados para trás? Rs!), mas já recompostos da caminhada e de roupa trocada. Soubemoa sli que até banho tinham tomado no posto da Polícia Rodoviária enquanto nos esperavam. Com a pequena parada para embarcar os três, alguns correram para os muros do mirante em busca de algumas derradeiras imagens serra abaixo, mas a chuva já engrossava e acabamos abreviando a parada para pegar a estrada, agora retornando a Urubici, onde deixaríamos os dois gaúchos para resgatarem seu veículo (estacionado no pátio do ICMBio), abastecer a van e descer a serra rumo a Florianópolis para liberar os dois companheiros catarinenses.

 

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Chuva, chuvisco, chuvarada. O chuviscão logo se transformou numa bomba d'água e chovia torrencialmente. Eram cerca de 17:00h e baixava uma neblina, forte em alguns trechos da serrinha entre Bom Jardim e Urubici. Nosso motorista, atento, seguia em velocidade reduzida, pois com a chuva e a neblina, em pista simples e com bastante movimento nos dois sentidos não dava para brincar. Chegamos a Urubici já em completa escuridão, cerca de 18:15h. Parada na sede do ICMBio para nos despedir dos gaúchos, ainda abaixo de chuva. Aquele clima de fim de festa já contagiava a todos. Nova parada no posto Ipiranga, no centrinho, comprar água e algumas guloseimas para o caminho enquanto nosso motorista abastecia a van para o retorno. Logo estávamos seguindo viagem pela SC-430 e, pouco depois, pela BR-282.

 

Foi uma longa volta. Muito movimento, com pista simples, resulta em filas intermináveis de veículos no retorno de feriados, especialmente na BR-282 rumo a Floripa. Seguimos assistindo a filmes em DVD na TV da van. Alguns cochilam. Em Santo Amaro da Imperatriz entregamos o Fernando. No trevo de acesso a cidade de Palhoça e à BR-101 o movimento intenso nos fez amargar quase 1 hora num trânsito congestionado até chegar na entrada de Floripa, onde entregamos o Mioto, num posto à beira da rodovia, em São José. Agora seria tocar até a “cidade sorriso”. Eram mais de 22:30h quando deixamos as cercanias da capital catarinense. Muita chuva na estrada. Ainda fizemos uma parada rápida num posto para mais um lanche. De volta à estrada a maioria agora dorme, todos bastante cansados. Somos acordados pelo Cléio, nosso motorista, na entrada de Curitiba. Nosso ponto de desembarque seria na Rodoferroviária, no centro da cidade, de onde todos poderiam tomar táxis para casa com segurança naquele horário (1h). Ao estacionar no ponto combinado, rapidamente todos se despedem e tratam de carregar suas mochilas e bolsas para um dos táxis estacionados. Embarcados, logo entrego o Cover e a Soraia em casa, pois moramos no mesmo bairro. Outra rápida despedida e, poucos minutos depois sou eu quem finalmente chega em casa. Finda a epopéia! Bate aquela tristeza misturada com cansaço pelo fim da viagem. No box do chuveiro o banho quente já não me reconforta tanto quanto o desejo de voltar a caminhar nas pradarias e platôs da Serra Geral! ... Em breve voltarei!

 

 

* * * * * *

 

AGRADECIMENTOS

 

Tão importante quanto realizar uma expedição como esta é agradecer àqueles que, de alguma maneira, colaboraram para torná-la possível. Meus agradecimentos especiais:

 

- A DEUS, pela vida e bençãos concedidas - em especial o maravilhoso tempo que desfrutamos e nossa segurança em todos os momentos.

- Aos amigos de caminhada da AMC e Marcelo Juká, com quem trilhei esses caminhos... Foram 4 dias muito intensos sob todos os aspectos!

- Ao amigo Valdo Balbinot, pelo incentivo, fotos e dicas valiosas sobre a região, terreno e atrativos. Valeu!

- Ao Ênio Frassetto, por suas dicas sobre as fazendas da região e autorizações.

- Ao Parque Nacional de São Joaquim, na pessoa do seu administrador, Sr. Michel Omena, pela autorização de ingresso e permanência na área do PARNA, sem a qual não realizaríamos essa travessia.

- Ao nosso motorista, Cléio, da Zapvan, que nos levou e trouxe em segurança.

- À equipe da Panificadora Beckhauser, de Urubici, por terem aberto suas portas mais cedo para nos atender no café da manhã (excelente) e pela atenção.

- Ao Zé Marcos, da Serra Sul Ecoturismo, de Urubici, por sua costumeira prestatividade ao ceder seu gramado para nossos companheiros gaúchos pernoitarem.

- Ao casal responsável pela Fazenda Santa Cândida, em Bom Jardim da Serra, Sr. Assis e Sra. Izoé, pela hospitalidade.

 

* * * * * *

 

Integrantes da Expedição

 

Getulio Rainer Vogetta / Otávio Luiz T. de Freitas / Thomas Ostermayer / Ingrid Ostermayer / Giancarlo Castanharo - Cover / Soraia Giordani / Sergio Augusto de Lima / Cirlene Carvalho / Luiz Delfrate / Zeca Reinert / Rodrigo Mioto (*) / Fernando Faria (*) / Marcelo Jucá / Tiago Korb (*)

 

(*) “Trio ligeiro” – como relatado, se distanciaram do grupo principal já no primeiro dia e concluíram a travessia até o mirante da Serra do Rio do Rastro por volta das 14:20h de domingo, dia 10/06/2012 (4º dia), tendo caminhado cerca de 66 Km segundo os dados de seus GPS.

 

O grupo principal percorreu nos 3 dias e meio de jornada cerca de 46 Km totais (aferidos em GPS), incluindo a exploração das bordas do Cânion Laranjeiras realizada no domingo, dia 10/06/2012.

 

 

[linkbox]VEJA TAMBÉM:

 

:: Album de fotos da Travessia (Getulio) - no Ipernity ::

:: Tracklog da Travessia (até o Cânion Laranjeiras e exploração das bordas) - por Getulio ::

:: Tracklog da Travessia (até Serra do Rio do Rastro) - por Tiago Korb ::

:: Tópico mochileiro que originou a travessia ::

:: Relato do Grupo KOT - Keep on Trekking, guiado pelo Graxaim e publicado no Trekking Brasil ::

:: Relato Mochileiros.com - Mochilando no frio de julho pelo PARNA São Joaquim ::

:: Blog da Associação Montanhistas de Cristo ::

:: Site oficial do Parque Nacional de São Joaquim ::

:: Wikipédia - Parque Nacional de São Joaquim ::

.[/linkbox]

 

.

 

Vejam mais algumas fotos:

.

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  • Membros de Honra

Parabéns, show de bola o relato.

Nem preciso falar, mas... foi muito legal caminhar com todos vocês: Getúlio, Mioto, Fernando, Marcelo Juká, Tiago Korb e galera AMC, nem preciso comentar que melhor que os visuais da serra Geral só a companhia dos amigos. Companhia é tudo!!!

Foram 4 dias intensos, aonde pegamos chuva só na van, tanto na ida como na volta. Durante a caminhada céu azul, sem uma nuvem...

Só mais uma coisa, quem quiser repetir a façanha, por favor, peçam permissão ao PARNA S. Joaquim, assim sempre manteremos a porteira aberta para nós, montanhistas conscientes.

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  • Membros de Honra

Obrigado Mochileiro Peregrino!

 

Também esperamos que esse roteiro se consolide como uma opção em travessia no PARNA, como outras possíveis ali, pois o parque é muito mais do que a Pedra Furada!

 

 

Valeu Otávio!

 

Como sempre fomos brindados com ótimas companhias, visuais tremendos e condições climáticas perfeitas!

Já estou com saudades de lá... Em breve voltarei à região.

 

Abraços!

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  • Membros

Parabéns pelo relato Getulio, extremamente detalhado e muito bem escrito. ::otemo::

Pelo que li, nossos grupos iniciaram praticamente no mesmo horário, porém em lados opostos do PARNA. Começamos a caminhada na sede do parque na localidade de Santa Bárbara, e seguimos até as margens do rio Pelotas aonde ele recebe as águas do rio do Bispo, em uma antiga estação de criação de trutas. Nosso objetivo era no segundo dia atravessar o rio e seguir para as bordas, mas como seria impossível fazer isto sem nos molhar ::Cold:: , o grupo preferio seguir pela margem esquerda do rio e consequentemente permanecer no vale. Um dos objetivos desta expedição era acampar com frio, e no segundo dia amanhecemos com -11°C.

O visual também foi fantástico, com muitos vales, cachoeiras e muito gelo. Neste percurso permanecemos o tempo todo dentro da área do PARNA, o que me permitiu mapear a trilha para no futuro implementar uma travessia auto-guiada (desejo do Michel). Mas acredito que esta opção saia somente depois do plano de manejo.

 

Com certeza esta região tem muto a desenvolver ainda. E com as atividades de montanhismo crescendo, a procura se tornará cada vez maior.

 

Abraços.

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  • Membros

Getúlio

Muito legal o relato. Bem escrito e bom de ler. Deu saudade lembrando de tudo. Aproveito para repetir que gostei muito da ótima companhia de todos, o que contribui para tornar uma caminhada dessas tão prazerosa. Espero estarmos juntos qualquer hora, tomando mate por essas trilhas e montanhas.

 

Abração!

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  • Membros de Honra

Grande Marcelo, foi muito bom tomar chimarrão contigo!!! Só não tomei mais porque se assim o fizesse teria que sair da barraca de madrugada pra "regar a moita", sem chance naquele frio...

Sérgio, uma pena que não nos encontramos, seria legal conhecê-lo pessoalmente, ainda mais numa trilha que considero das mais bonitas do Brasil.

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  • Membros de Honra
Parabéns pelo relato Getulio, extremamente detalhado e muito bem escrito. ::otemo::

Pelo que li, nossos grupos iniciaram praticamente no mesmo horário, porém em lados opostos do PARNA. Começamos a caminhada na sede do parque na localidade de Santa Bárbara, e seguimos até as margens do rio Pelotas aonde ele recebe as águas do rio do Bispo, em uma antiga estação de criação de trutas. Nosso objetivo era no segundo dia atravessar o rio e seguir para as bordas, mas como seria impossível fazer isto sem nos molhar ::Cold:: , o grupo preferio seguir pela margem esquerda do rio e consequentemente permanecer no vale. Um dos objetivos desta expedição era acampar com frio, e no segundo dia amanhecemos com -11°C.

O visual também foi fantástico, com muitos vales, cachoeiras e muito gelo. Neste percurso permanecemos o tempo todo dentro da área do PARNA, o que me permitiu mapear a trilha para no futuro implementar uma travessia auto-guiada (desejo do Michel). Mas acredito que esta opção saia somente depois do plano de manejo.

 

Com certeza esta região tem muto a desenvolver ainda. E com as atividades de montanhismo crescendo, a procura se tornará cada vez maior.

 

Abraços.

 

 

Grande Graxaim!

 

 

Agradeço suas palavras! Realmente estávamos trilhando em sentidos diferentes naqueles mesmos dias dentro do PARNA. Vi inclusive o relato do pessoal de Blumenau que tu guiou (KOT). Só fiquei sabendo que você estaria na mesma área na véspera de nossa saída para a expedição, aí não deu para combinar nada contigo. Andei analisando o roteiro que fizeram e que também é clássico no PARNA, muito bacana e sem dúvida uma ótima opção para ser explorada na área. Continuo torcendo para que as coisas evoluam bem quanto à estruturação do PARNA e seu plano de manejo.

 

Grande abraço!

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      *INFORMAÇÃO*: Essa travessia é realizada em área particular é OBRIGATÓRIO solicitar AUTORIZAÇÃO para passar nas propriedades do Campo dos Padres e arredores. Vamos respeitar os proprietários e manter o local aberto para que possamos continuar com nossas travessias e trekking.
      Entrar em contato com a Fazenda Búfalo da Neve.
      Instagram: @fazendabufalodaneve  via direct
      Fone: 48-99152 1277 Lucas Philippi  - 48-99617 7552 Arno Philippi
      Caso não tenha experiência em travessias autônomas, recomendo entrar em contato com a empresa de trilhas e travessias Expedicionários que organizam travessias para a região do Campo dos Padres, eles conhecem muito a região e com certeza vc poderá aproveitar muito mais.
      Instagram: @expedicionarios_sc via direct
      Fone: 49-99945 5000 Renan Hermes
      No Rio dos Bugres contatar o Abrigo 1500
      Instagram: @abrigo1500 via direct
      Fone: 49-99180 9621 Elói
      *IMPORTANTE*
      -NÃO FAÇA FOGO NUNCA – Use fogareiro
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      -TUBOSTÃO (Vamos todos começar a usar esse banheiro) nesta região estão muitas nascentes importantes de SC, é necessário mantermos o meio ambiente em equilíbrio e limpo. Temos outras áreas de montanha do Brasil como o Pico Paraná e Pedra da Mina que já estamos tendo problemas sérios de contaminação por conta das fezes, papel higiênico e dos lenços umedecidos deixados nos “banheiros” ao redor das áreas de acampamento. O TUBOSTÃO serve para vc levar tudo isso de volta para a sua casa e descartar no lixo.

      Mais uma vez nesse lugar maravilhoso da serra catarinense. O Campo dos Padres é aquele lugar fantástico que te encanta em cada coxilha, cada araucária, cada curva de rio, cada cachoeira, cada canion...
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      E também temos a influência da rota dos tropeiros que vieram atrás do gado dos jesuítas e das mulas de Viamão para levar para as minas de ouro de Minas Gerais. Haviam muitas rotas, a rota principal saia de Viamão no RS, subia a serra na região de São Francisco de Paula, e passava pelos Ausentes, Bom Jesus, Coxilha Rica, Lages até a feira de Sorocaba em SP, e de lá até as Minas Gerais. Porém haviam inúmeros outros caminhos regionais interligando toda a região a rota principal. Nessas rotas se comercializava de tudo um pouco dependendo da região de origem, desde mulas, gado, suínos, charque, couro, mel que vinham da serra. Como cachaça, farinha de mandioca, feijão, milho, trigo, utensílios e outros vindo do litoral. E assim Santa Catarina foi se interligando em todas as regiões formando uma tradição tropeira ligada ao campo e a lida com o gado.

      Mas vamos ao Campo dos Padres então...
      Essa minha ida a região foi dividida em duas etapas. A primeira na Fazenda Búfalo da Neve onde fiquei 3 dias em um rancho tropeiro explorando a região e conhecendo um pouco das suas belezas. E a segunda quando fiz uma travessia solo de 42km pela Serra da Anta Gorda que corta o Campo dos Padres de Leste a Oeste saindo do Rancho da Fazenda Búfalo da Neve até a cidade de Urubici.
       
      Parte 1
      Fazenda Búfalo da Neve
      Eu já havia falado para o Lucas de como eu havia gostado do Campo dos Padres, então ele disse que qualquer hora que ele fosse para o Rancho me convidaria para conhecer melhor a Fazenda Búfalo da Neve, dito e feito, ele me mandou uma mensagem me convidando para a segunda quinzena de julho de 2021 irmos para lá.

      Combinamos então de sair na segunda dia 12/07, me encontrei com o Lucas e mais o Renan e partimos para a Serra. Chegamos em Urubici por volta do meio dia e fomos ao supermercado fazer as compras do rango com direito a churrasco, carreteiro e lentilha, bem em cima da hora para o mercado fechar, mas deu tempo ainda de encher o carrinho. Sacolas cheias rumamos em direção ao Campo dos Padres pela estrada que liga Urubici a Serra do Corvo Branco, aproximadamente 25km saindo de Urubici entra a esquerda em direção ao canion do Espraiado e segue mais uns 10km, passamos pela Pedra da Águia uma imponente formação de arenito que chama a atenção pelo formato. Seguimos pelo vale do rio Canoas, esse vale é muito lindo com paredões de ambos os lados e muitas araucárias coroando o caminho, logo adiante começa a subida de uma serra que em dias de sol os carros pequenos tem que ter atenção, já em dias de chuva se torna difícil subir podendo ficar no caminho. Uma vez lá em cima, há um cruzamento que vai para o canion do Espraiado e outro para o Morro da Cruz (que um sem noção renomeou de balanço/montanha infinita...) logo ali paramos o carro no campo, na entrada da antiga estrada da serraria. É importante consultar antes onde pode parar o carro, pois ali há várias propriedades particulares.

      Aqui existe uma antiga estrada que era utilizada por uma serraria nos tempos de corte de araucária, já a muito tempo abandonada e hoje está intransitável mesmo para 4x4, sendo possível passar somente a pé ou a cavalo. E pensar que toda essa região foi devastada para a exploração da araucária que foi uma das principais economias de exportação de SC, também foi com parte dessas araucárias que Brasília foi construída, sendo usado como caixaria para o concreto... que triste fim teve nossas araucárias. Importante salientar que onde estão os campos, sempre foi campo natural, onde foi cortado as araucárias é onde hoje ainda se vê araucárias e mata que na época foram poupadas por serem pequenas, e outros lugares de mata de araucárias deu lugar a agricultura.

      Pegamos nossas mochilas e fomos adicionando a comida comprada no supermercado. Tudo pronto e partimos pela trilha que tem 10km pela mata em direção ao rancho. Esta trilha conduz até o Campo dos Padres. Lá adiante pegamos uma outra trilha que o Lucas conhecia que iria sair do outro lado do morro da Laurinha. Paramos por uns minutos por ali para arrumar uma cerca que os búfalos haviam arrebentado e logo em seguida aparece uma búfala com um bezerrinho. Depois de seguir sempre subindo pela trilha, mas nada muito inclinado chegamos em um faxinal (campo cercado de mata) plano e fomos até um platô que tinha uma vista linda do canion do Rio Canoas.

      Ali encontramos 2 cavalos que tocamos para o lado do rancho com o intuito de pega-los para montaria. Fomos seguindo a trilha que leva até o rancho e encontramos mais alguns cavalos que acabaram pegando outra trilha que subia um morro, ali nos dividimos onde o Lucas e eu subimos atrás dos cavalos e o Renan seguiu pelo carreiro até o rancho. Quando íamos subindo tentando encontrar os cavalos, cruzou por nós um zorrillo que é o mesmo animal protagonizado pela Warner como “Pepe Le Gambá” que na realidade não tem nada a ver com o gambá nosso que é um marsupial e visualmente lembra um grande rato. O zorrillo tem hábitos noturnos e é famoso por soltar um mijo muito fedorento quando ameaçado, ele tem coloração preta com uma listra branca desde a cabeça até o rabo que é bem peludo e volumoso. Ele logo sumiu na capoeira e seguimos adiante tentando ver se achava o zorrillo e também os cavalos, mas estes foram embora e se embrenharam pelo mato. O por do sol neste momento estava lindo e paramos alguns momentos para fotografar, mais abaixo já se avistava o rancho e pra lá descemos para encontrar o Renan e se instalar.



      O rancho da Fazenda Búfalo da Neve é uma cabana de madeira de dois pisos, toda pintada em óleo queimado. Em anexo está a estrebaria e também uma mangueira de taipa de pedra circundando. Ela está cercada entre muitos vassourões e algumas pequenas araucárias, camuflando-se assim com a paisagem ao redor. Aos olhos menos atentos passaria despercebida. Logo ao abrir a porta principal nota-se o chão de terra batida coberta por grandes pedras de basalto e troncos cortados em rodelas. É um ambiente único de uns 6x6m aproximadamente com uma coluna de tora de madeira bem no meio sustentando as vigas que suportam o piso superior. Uma escada ao fundo dá acesso ao segundo andar e embaixo da escada a porta do banheiro. Pendurado em uma das paredes estão os arreios usado para a montaria dos cavalos. Sendo composto pelo baixeiro, a sela, chincha, sobrechincha e pelego; também tem o cabresto, o freio, rédea e os estribos. Ainda tem pendurado os itens de uso do peão como o pala, capa campeira, chapéu, jaquetas, a soiteira e o rabo de tatu. E finaliza com a cangalha e bruaca que são usadas para carregar no cavalo ou mula para o transporte de carga. Junto a janela desta parede tem uma rede pendurada, que eu imagino que deve ser um bom local para descanso e espera no verão em dias molhados e chuvosos . Logo a esquerda da porta de entrada está a mesa acompanhada de bancos rústicos ao redor, coberta com uma toalha destas de tecido plástico com motivos florais, em cima da mesa um botijão de gás onde está acoplado um lampião (já que não tem luz na cabana). Havia alguns potes, uma caixa de fosforo, um cesto com alguns pinhões, ovos, limões e batata doce que já estavam um pouco passados querendo apodrecer, provavelmente sobraram dá última vez que alguém pousou no rancho. Pendurado na parede uma sacola destas de supermercado com um jogo de baralho, havia também um chapéu, uma bolsa, uma trena e uma pá apoiado na parede. Um grande baú serve como banco e dentro dele estão guardados vários alimentos que cada um que vem passar uns dias acaba trazendo. Sal havia uns 3 sacos quase cheios (não precisa mais levar sal!!! Já tem bastante.), um pote com temperos diversos, macarrão, arroz, alguns pães esquecidos em sacos plásticos já embolorados (jogamos na fogueira), entre outros mantimentos. Na parede oposta a parede dos arreios tem outra porta e logo ao lado uma pilha de madeira já cortada e rachada para o fogão a lenha que está ao lado. Este fogão tem uma base toda de pedra com a chapa de ferro e uma porta para pôr a lenha no queimador. Preso no teto em cima do fogão tem um varal de madeira onde estavam pendurados para defumar um pedaço de charque, linguiça e umas cascas de laranja. Também em alguns momentos apareceram ali algumas meias... ao lado uma janela permite a entrada da luz e ajuda a fumaça a sair também. Bem na frente do fogão tem duas cadeiras cobertas de pelego que mais parecem um trono pela posição privilegiada na frente do fogo, e sempre disputada para poder aquecer os pés. Na parede do fundo tem um móvel feito de madeira talhado no local com um tanque destes plásticos que serve de pia, pendurado na parede e na estante estão os utensílios de cozinha como os pratos, panelas, bacias, talheres e alguns temperos. Ali apertado ao lado da pia já começa a escada de madeira que leva ao segundo piso, embaixo da escada um grande baú e algumas peças de roupas penduradas. A porta do banheiro está bem ali. O banheiro é de chão batido com um estrado de madeira, tem uma pequena pia, um vaso sanitário destes de caixa de puxar a cordinha para dar a descarga. Pendurado no teto por uma corda em uma roldana tem um velho galão de óleo diesel que serve como chuveiro tendo na parte superior do galão um buraco cortado e na parte de baixo um cano colado com registro e todo furado. A medida para um bom banho é duas chaleiras de água fervendo para quatro de água da torneira. A agua que abastece a cozinha e o banheiro vem de captação direto de uma vertente, onde por meio de mangueiras leva água corrente para o rancho. Subindo pela escada penduradas no corrimão tem várias daquelas canecas de chope de porcelana antiga de baile, um lenço escoteiro, uma lanterna e um rádio de pilhas. O andar superior é um grande quarto com camas e beliches feitos de madeira do local, tudo bem rústico, já que é feito de tabuas com suas frestas que servem para oxigenar o ambiente, sem forro e de telha aparente. Com janelas em todas as paredes, de onde se tem uma vista privilegiada tanto do nascer do sol quando do poente. Um lugar de descanso depois de um dia de lida no campo ou aventuras pelo Campo dos Padres. Anexo ao fundo está a estrebaria onde se ordenha as búfalas, é toda fechada de parede de madeira com uma grande porta, um pequeno canto serve de deposito para as ferramentas, além de sal e outras coisas. O mais bacana desse anexo é o telhado, que é verde, ou seja, feito de terra coberto com gramíneas do local.
       




      Já dentro no rancho tratamos de abrir todas as janelas para tirar o cheiro de fechado e logo fazer um fogo no fogão a lenha. Arrumar as coisas para nos instalar e começar a janta. Fomos buscar umas pedras para improvisar o fogo de chão para o churrasco. O Lucas já foi preparar uma bela lentilha, enquanto ele picava o bacon, cebola e alho; eu e o Renan preparamos o fogo e o churrasco campeiro com direito a costela e carne de porco. Enquanto a comida ia sendo preparada, cada um com seu goró ia molhando a goela e batendo um bom papo. Fazia uns 11° C, noite agradável, o churrasco foi ficando pronto e nós só beliscando. Depois veio a lentilha bem saborosa e quentinha para aquecer o fim de noite. Eu acabei não dormindo nas camas, optei por estender meu isolante e saco de dormir no chão mesmo, onde tive uma bela noite de sono.
      No dia seguinte fizemos um pão de caçador típico escoteiro, até gravamos uns vídeos que logo eu faço uma edição bacana. O Lucas e o Renan me ajudaram a preparar, foi feito uma fogueira e preparado a massa e depois assada enrolado em gravetos na brasa. Mas eu salguei demais a massa... kkkkkk mas tava bom assim mesmo. Saiu até um café tropeiro aquele que ferve a água e o pó do café junto e depois joga uma brasa viva na chaleira para descer o pó. Barriga cheia e café tomado, o Lucas montou uns sanduiches de queijo e mel de bracatinga.



       
      Começamos nossa trilha do dia, o objetivo foi ir até o morro mais alto da Fazenda Búfalo da Neve na borda dos peraus. No caminho passamos por outra propriedade onde tem uma casa azul e o galpão com uma grande mangueira de taipa ao redor. Mais adiante fomos até uma pequena cascata e depois subimos o morro até o ponto mais alto a 1715m.



      Descemos o morro ao norte e chegamos na trilha dos índios e de lá até as margens do rio Canoas. Logo ali no meio do vale onde passa o Canoas e está a casinha azul, tem uma coxilha isolada com uma araucária solitária em seu topo e ali mesmo tem um cercado de taipa com um pequeno cemitério dos antigos moradores destas fazendas. Infelizmente contam que ali é um cemitério jesuíta, o que não tem nada a ver. Seguindo o rio Canoas logo a frente tem uma pequena cachoeira que forma um grande poço que deve ser perfeito para um dia de banho no verão. E logo adiante de volta ao rancho.
      Chegando no rancho eu disse que estava com muita vontade de comer sapecada de pinhão que já fazia anos que não comia. Pegamos alguns pinhões que estavam guardados na cabana, juntamos algumas grimpas do chão e empilhamos uma em cima da outra e despejamos os pinhões em cima, peguei o isqueiro e taquei fogo. Aquelas grimpas inflamaram e foram queimando e sapecando o pinhão, quando apagou sentamos ao redor e fomos pegando na mão os pinhões levemente queimados, ainda quente e em brasa, esfregando na mão, queimando a pele e sujando de carvão. Que lembrança boa eu tive e assim fomos comendo um a um.







       
      Já dentro na cabana acendemos o fogo do fogão e esquentamos água na chaleira para o banho. Confesso que não botei fé no chuveiro naquele frio, mas foi um banho muito bom e bem quente. Enquanto isso o Lucas foi cortar cebola, alho e o resto de carne e gordura do churrasco da noite anterior para preparar um “carreteiro” que no final das contas virou uma sopa de arroz muito boa... kkkkkk. Essa noite estava mais fria chegou a fazer 6°C, aproveitei e sentei no trono de pelego posicionado bem na frente do fogão com a desculpa de cuidar do fogo. Numa caneca eu ia tomando a sopa de arroz com lentilha. O som rolava no celular do Lucas com uma seleção de rock bem eclética e o bate papo ia seguindo. As vezes íamos lá fora conferir o termômetro e ver a noite que estava muito bonita. Mas o frio logo nos mandava entrar... kkkkk.
      No dia seguinte tivemos um belo nascer do sol com direito a algumas fotos. No café da manhã rolou chapati preparado pelo Renan na chapa do Fogão, onde comemos com queijo e mel de bracatinga. Também eu fiz pão de queijo escoteiro na frigideira e o Lucas passou algumas térmicas de café.



       
      Saímos em direção ao canion do Rio Canoas para explorar as cachoeiras e grotas. De um mirante se tem a vista da primeira queda de uns 15m. Pegamos uma trilha que descia aos pés desta cascata, onde chegamos quase embaixo dela, mas estava bem frio para um banho. Depois seguimos o rio alguns metros adiante até alcançar o topo da outra cachoeira do Canoas, essa sim deve ter quase 100m de queda e a vista de cima impressionava.



      Subimos a trilha novamente e fomos atrás de outra trilha usada pelos búfalos que descia pela margem esquerda até a base dessa cachoeira, é uma descida íngreme, mas bem tranquila, tem até um ponto com cordas amarradas, mas desnecessário seu uso. Já lá embaixo na margem do rio, as pedras estavam bem lisas pela umidade jogada pela força da cachoeira. Levei um tombo, mas logo levantei e me recuperei. Tiramos as fotos clássicas de praxe na base da cachoeira e quando fomos sair levei outro tombo, esse doeu um pouco e esfolou as canelas, mas nada que não superasse, mesmo que saísse mancando... kkkkk.


      Andamos rio abaixo até o rio bater em um paredão e formar um grande poço de remanso, ali haviam vários vestígios de côco de capivara, porém não vimos nenhuma. Aproveitamos para descansar um pouco e almoçar. Nosso almoço neste dia foi outra sapecada de pinhão que fizemos ali mesmo as margens do rio. Ô coisa boa!!!

      Explorei um pouco ao redor do rio canoas, onde neste ponto já estava imerso dentro do imponente canion, com paredões imensos de arenito esculpidos nos últimos milhões de anos pelo rio. Seguimos rio acima por um afluente do Canoas, ali encontramos a outra trilha que subia pela margem direita para o campo e deixamos nossas mochilas, marcando o início da trilha.  Dali em diante entramos em uma grota bem estreita entre grandes paredões, fomos subindo por dentro do rio até onde não era mais possível pois alcançamos uma cascata bem alta de uns 80m chamada de leão baio, pois ali próximo haviam achado rastros deste grande felino.





       
      Voltamos pelo mesmo caminho até o ponto onde estavam as mochilas e subimos a trilha, lá em cima achamos uns rastros com o gramado todo revirado, pensei que poderia ser de cateto fuçando o chão, mas havia pegadas que não eram de cateto, essas pegadas formavam 3 dedos salientes, depois o Marcio o capataz da fazenda nos disse que era rastro de capivara, claro havíamos visto lá embaixo no rio as fezes delas. Ali nesse ponto tem um mirante natural com uma vista de frente da cachoeira, mais umas fotos e depois voltamos em direção do rancho. No caminho passamos por um chassi de caminhão abandonado e já deteriorado pelo tempo. Mais um vestígio dos tempos das serrarias que ali existiam, havia também muitas estradas por onde esses caminhões passavam para transportar a madeira que hoje já viraram trilhas intransitáveis para qualquer veículo.



      Já no rancho encontramos o Márcio que havia chego naquele dia lá. O fogo já estava aceso e ali ficamos proseando um pouco. O Lucas prometeu que hoje sairia o carreteiro, mas desta vez foi de linguiça e bacon e pouca água... se não ia virar sopa de novo. Kkkkkkk. Em relação a comida nunca comi tão bem. Tudo que preparamos ficou muito bom. Está seria nossa última noite, o tempo já estava virando. Fomos dormir cedo pois o dia seguinte prometia.
      Logo pela manhã cada um foi se preparando, o dia estava nublado e meio carrancudo. Nesse meio tempo o Marcio estava na estrebaria ordenhando as Búfalas, fazia anos que eu não tirava leite, então aproveitei para fazer um Camargo que consiste em ordenhar o leite direto na caneca com café e tomar. Lembrei de quando eu ia passar as férias na casa da minha vó no sítio. Terminei de arrumar minha mochila, nos despedimos já que o tempo iria mudar logo. O Lucas e o Renan iriam voltar até o carro e ir embora, o Márcio ia ficar a próxima semana no rancho cuidando das coisas e esperando um grupo de trilheiros organizado pelos guias da @expedicionarios_sc que iriam dormir no rancho no próximo final de semana. Esses caras são profissionais e conhecem muito bem a região e as trilhas e organizam trekking para pequenos grupos para conhecer o Campo dos Padres, é uma boa pedida para quem quer uma experiência bacana com mais segurança. Já eu ia seguir sentido oeste pela serra da Anta Gorda até Urubici.






       
      segue parte II - Travessia Serra da Anta Gorda
    • Por Marlon Escoteiro
      Parte 2
      Travessia solo da Serra da Anta Gorda
      1°dia de travessia – Rancho Búfalo da Neve até Abrigo 1500 – 17km
      No ano passado em julho de 2020 eu havia feito a travessia do Campo dos Padres relato aqui .. https://www.mochileiros.com/topic/93114-travessia-do-campo-dos-padres-%E2%80%93-sc-%E2%80%93-julho-de-2020-%E2%80%93-80-km-em-5-dias-%E2%80%93-do-c%C3%A2nion-espraiado-morro-da-boa-vista-at%C3%A9-o-morro-das-pedras-brancas/   no sentido sul-norte saindo da Pedra da Águia as margens do rio Canoas, passando pelo canion Espraiado e cruzando todo o Campo dos Padres seguindo o rio Canoas até a sua nascente, subi o Morro da Boa Vista e ainda passei pelo morro do Chapéu, o Arranha Céu e morro das Pedras Brancas terminando as margens da BR 282. Mas o nome “Serra da Anta Gorda” havia me chamado a atenção na carta topográfica, essa serra ia desde o morro da Boa Vista até Águas Brancas em Urubici, eu até já tinha estudado pelo google maps um trajeto por ali. Então dessa vez de novo no Campo dos Padres resolvi fazer a travessia leste-oeste por essa serra que divide Urubici e Bom Retiro.
      As 8h20 pus a mochila e parti em direção a Serra da Anta Gorda saindo por trás do rancho até o Canoas, cruzei o rio e subi a antiga estrada que ligava o Campo dos Padres a Urubici pelo Rio dos Bugres, estrada essa, abandonada onde só passava cavalo e a pé. Logo na subida vi muitas gralhas azuis fazendo um estardalhaço sobre as araucárias, parei um pouco para observar e tentar tirar alguma foto. Logo alcancei o topo e fui seguindo a estrada que ia dando a volta pela margem esquerda de um afluente do rio Canoas, formava um pequeno canion, esse foi o canion da grota que no dia anterior entramos nele até a cascata do Leão Baio. Lá adiante cruzei o vértice deste canion e teve outra subida até o topo da Serra da Anta Gorda nos campos, ali próximo havia uma casa e um galpão já abandonados na margem direita do canion bem no topo protegido por uma coxilha, mas fora da estrada. Porém não cheguei perto e fui seguindo a estrada/trilha, dei uma parada para mastigar umas castanhas e tomar agua era umas 10h da manhã, também já me preparei, pois a chuva estava vindo e fazia bastante frio e vento.

       

      Ali era uma área de campo de altitude e segui adiante pela estrada até uma pequena descida que já estava bastante erodida onde havia uma outra casa com galpão também abandonados logo atrás meio que escondidos, cruzei outro arroio e vi dois cavalos, um branco e outro preto que ficaram só de olho em mim.

      Passei por eles e cheguei em uma mangueira velha de madeira toda quebrada, ali a trilha principal ia a direita, mas logo entrava na mata que estava na encosta norte em direção a Bom Retiro, preferi seguir a da esquerda na encosta sul voltada para Urubici e subi um morrinho e logo a chuva veio com força e junto a serração, minha ideia era seguir pelos campos ao invés de ir pela mata, mas ali havia muito banhado então decidi subir para a direita em direção a mata e alcançar a estrada de novo. Era uma estrada/trilha bem marcada sentido sudoeste, tendo uma elevação a minha esquerda e a direita o vale do Paraiso da Serra e por ali fui andando por um bom tempo, a chuva só piorava e o frio aumentava, minhas mãos expostas segurando o bastão já estavam congeladas e a minha capa de motoqueiro já estava passando água pelas costuras.
      Logo adiante a frente abriu para o campo do vale do rio dos Bugres e a estrada dava uma volta no morro agora sentido sudeste até um galpão cercado de uma mangueira de taipa bem robusta, cruzava um rio que formava um pequeno canion do rio dos Bugres e a estrada ia acompanhando pela margem esquerda até passar uma porteira grande e cruzar o rio sobre uma ponte. Já a direita havia uma propriedade habitada que era a estancia Bonin, passei bem próximo seguindo a estrada a direita em direção ao Abrigo 1500 que era o meu destino daquele dia. No caminho havia uma plantação de pinus Ellioti a direita e eu estava bem tranquilo trabalhando a minha respiração ao estilo Win Hof, ritmo cadenciado, tentando espantar o frio para ver se esquentava, o passo era firme, derrepente do lado esquerdo da estrada do meio das vassouras do campo me aparece um javaporco... tomei um susto, mas ele também, e cada um correu para um lado... Boa parte da Serra Geral está tendo problemas com Javalis e com a cruza deles com porcas que viram o “javaporco” que são enormes, destroem plantações fuçando o chão e comendo de tudo, podem ser muito agressivos e perigosos, por isso muito atenção com eles. Como vi que não veio atrás de mim, segui adiante no meu passo que já estava firme em meio a chuva que seguia forte me molhando cada vez mais. Parei adiante por uns minutos e logo passou um carro que buzinou e seguiu em direção a cachoeira do rio dos Bugres.
      Em pouco tempo lá pelas 14h e com aproximadamente 17km percorridos cheguei também no Abrigo 1500, que é a propriedade que tem a vista da cachoeira do Rio dos Bugres e camping. A princípio eu iria acampar, mas chovia tanto e eu estava tão molhado e com frio que pedi permissão para pernoitar no galpão pelo valor do camping, o Sr. Elói foi muito gentil e falou que não tinha problemas, inclusive me convidou para entrar em sua casa e me aquecer no fogão a lenha e secar minhas roupas. A rede elétrica não chegava até ali, e a luz era obtida por placas solares que davam conta de tocar a geladeira e algumas lâmpadas e tomadas. O camping custa R$ 30,00 e eles servem pastel e paçoca de pinhão, nem pensei duas vezes e pedi a paçoca que foi meu almoço e estava uma delícia. Depois a esposa dele pôs mais pinhão na chapa e fiquei ali tomando um café e comendo pinhão. Também estava ali o Romeu que havia passado por mim de carro com a família, e ficamos conversando um pouco sobre trilhas e Urubici.
      Logo em seguida a chuva deu uma trégua e fui dar uma volta pelo campo do camping e acessar os mirantes da cachoeira dos Bugres. São 2 mirantes acessados por uma pequena trilha, tem um deck de madeira para segurança e uma vista incrível da cachoeira que é uma das maiores de Santa Catarina com 218m, em um dos mirantes é possível ver duas grandes cachoeiras a dos Bugres e outra numa grota próxima e abaixo o vale/canion que forma o rio dos Bugres. Seguindo pela borda onde está o camping tem outra grota mais a direita de um outro afluente dos Bugres que vinha da serra formando outra grande cachoeira. É um excelente lugar para acampar e curtir a paisagem desta região do Campo dos Padres e rio dos Bugres, uma ótima estrutura, recomendo acampar ai no Abrigo 1500.




       
      Ao norte atrás da propriedade está a continuação da Serra da Anta Gorda, que segundo o Sr. Elói tem esse nome pois ali haviam muitas antas e algumas bem gordas, que hoje infelizmente não vemos mais na região. Também ali no topo daquela serra foi encontrado uma ponta de flecha de pedra lascada da tradição Umbu, mais um sinal do nome Bugres. A tradição Umbu foi um grupo muito antigo de caçadores e coletores que deixaram muitos vestígios na região em forma de pontas de flecha, estima-se que esse grupo antecessor das demais etnias indígenas esteve aqui entre 13 e 4 mil anos e habitavam toda a região do planalto de araucárias e campos rupestres.
      No galpão havia umas mesas com chão de madeira e junto está a estrebaria que é onde se ordenha as vacas, já na terra batida, uma caveira de búfalo todo pintado de preto ornava pendurado na parede, e alguns equipamentos para ordenha e arreios. Comecei a preparar minha janta, que seria polenta com queijo e bacon; sai do galpão para buscar um pouco de água, quando voltei dei conta que meu queijo havia sumido, pensei quem foi o gatuno que surrupiou parte da minha janta, dei uma olhada ao redor e achei um pedaço do queijo no plástico todo comido e rasgado e um gato escondido entre as madeiras na estrebaria. Achei o meliante e junto a sua ninhada. Deixei o queijo para eles, e eu que pensei que era os ratos que gostavam de queijo... ou será que por causa do sabor rato ao queijo que os gatos gostam também... Janta pronta, estava muito bom, só faltou o queijo para dar mais sabor... já consegui me aquecer um pouco com a refeição quente.
      Montei embaixo de uma mesa o meu isolante de eva, isolante inflável, travesseiro e o saco de dormir, pus minha roupa de dormir que é composto de uma meia de lã merino, uma calça e blusa térmica segunda pela, e uma blusa de lã sintética que tenho desde os meus 14 anos e sigo usando ela sempre. Além da touca e de uma luva de fleece. Está noite fez 6°C. Ao lado do saco de dormir deixo sempre uma garrafinha com água, meu afrin em caso de nariz entupido e a lanterna a mão. Guardei as comidas na bolsa de cozinha e pus dentro da mochila ao meu lado com “um olho no peixe e outro no gato”. E assim fui dormir, pois o dia seguinte ainda tinha muito chão pela frente.
      2° dia de travessia – Abrigo 1500 até Urubici – 25km


      Acordei as 6h30, já fui guardando minhas tralhas de dormir, vestir minha roupa de trilha e tomar um café. Meu café em travessia consiste sempre em café passado na Pressca (tipo de prensa francesa de acrílico) pão com polengui, salame e “queijo” (quando tem...), carrego também para lanche de trilha uma garrafa pet com um mix de castanhas, uvas passas e gotas de chocolate, além de uma barra de chocolate, particularmente tenho levado o chocolate Talento da Garoto por ter uma quantidade grande de calorias, ser gostoso e ter muitas versões. Mochila pronta e café tomado, sai do galpão e dei de cara com o frio, me despedi do Sr. Elói e aproveitei o dia de céu azul para ir de novo nos mirantes da Cachoeira do Rio dos Bugres para curtir mais um pouco a paisagem.




      Depois passei pela casa de novo e logo atrás segue a trilha que sobe até a Serra da Anta Gorda novamente, a irmã do Sr. Elói é a única moradora naquela região acima, apesar de ter outras casas e galpões, porém desocupados. Fui seguindo o caminho por um faxinal bonito, corria um arroio sobre uma laje de pedra, parei para umas fotos.



      E logo a frente a trilha subia forte até a cumeeira da serra e dali se tinha uma vista linda ao norte do Paraiso da Serra e de um mar de montanhas, a leste se via o Morro da Boa Vista e Morro do Chapéu. Fui seguindo pelos campos ora margeando a borda norte, ora para o sul.


      Neste momento senti arder a sola do meu pé próximo ao dedão, a meia e o tênis estavam molhados então já sabia o que poderia ser. Parei logo em seguida e tirei meus tênis e meias, torci as meias que estavam encharcadas, sequei meu pé e passei uma pomada de vick vaporub que é o santo remédio do montanhista podendo ser usado para muitas coisas. Deixei meu pé respirar e aproveitei para comer meu chocolate e castanhas e curtir a paisagem. Depois colei um esparadrapo, calcei minhas meias e tênis novamente. Segui adiante e fiquei monitorando, o segredo para bolhas é fazer os primeiros socorros logo no primeiro sinal de irritação e vermelhidão, não pode deixar levantar a bolha, se não é problema. Caminhei todo o trajeto sem problemas. No meu caminho ainda cruzei algumas vacas e cercas, até que vi mais abaixo a uns 500m ao sul a propriedade da família do Sr. Elói, fui contornando o morro por cima até que chegou na estrada de acesso a propriedade e onde chegava também a rede elétrica.



      Ali a estrada era transitável de carro. Resolvi tentar seguir fora da estrada pelos campos, mas algumas vezes não tinha como até que fui descendo até uma propriedade bem grande onde havia bastante gado e de ali em diante seria só por estradas. Achei alguns pinhões debulhados pelo caminho e fui enchendo o bolso até que mais pra frente parei embaixo de uma araucária e fiz outra bela sapecada de pinhão, não sabia quando teria a oportunidade de novo, já que fazia muitos anos que eu não comia, ai aproveitei para curtir esse momento de fazer a pilha de grimpa, por fogo e os pinhões e sentado no chão ir pegando pinhão por pinhão sapecado, queimado pelo fogo com partes ainda em brasa, ia esfregando na mão, queimando e sujando de carvão, e assim fui me deleitando com essa iguaria serrana. Fiquei imaginando essa região a alguns séculos atrás ainda antes dos tropeiros com os diversos povos indígenas que por aqui haviam passado coletando pinhão, obviamente que o pinhão sapecado deveria ser a principal forma de comer essa rica e proteica semente da araucária nos meses frios de inverno.


      Logo fui seguindo pela estrada, abrindo e fechando porteira e passando por um corredor de araucárias que por muitas vezes formava um túnel no caminho. Era uma paisagem muito bonita e bucólica. Logo começou a descida bem forte ziguezagueando a estrada, em um certo momento encontro um pônei com uma franja muito estilosa, me aproximei dele, mas ele não quis muita conversa.


      E assim segui até a base da estrada e dei de cara com um bosque de araucárias todo varrido, grimpas amontoadas e uma entrada tipo de condomínio. E aí percebi que eu já havia chegado em um ponto turístico de Urubici chamado de Cavernas dos Bugres, que na realidade não são cavernas e sim paleotocas. Essas estruturas eram tocas que foram escavadas pelos gliptodontes, os tatus gigantes da megafauna que eram do tamanho de um fusca. Mais tarde diversas etnias indígenas (tradição Umbu, LaKlãnõ-Xokleng, Kaingangs...) ocuparam de forma aleatória essas tocas, deixando ali alguns registros rupestres, além de pontas de flechas e outros artefatos líticos. São diversos túneis de até uns 100m de extensão, ora se interligando, ora se sobrepondo. Havia dois conjuntos de túneis e logo abaixo corria um arroio. Dentro destes túneis haviam alguns morcegos e vários opiliões que são uma espécie de aracnídeo de cavernas. São estruturas baixas, tendo que andar levemente abaixado e algumas vezes até engatinhando. Aproveitei que já era 13h e o bosque de araucárias ali, sentei no gramado tirei meu tênis e almocei meu sanduiche de polengui, salame e mel de bracatinga. Só faltou o queijo.... kkkkk









      Seguindo a estrada abaixo há um portão fechando a rua e ali tem a pousada da Caverna Rio dos Bugres, fui barrado de forma agressiva e mal-educada por um homem dizendo que ali era propriedade particular e que eu tinha que pagar uma taxa, ai eu falei tudo bem, quanto é? Eu pago! Falei que não sabia que aqui era propriedade particular uma vez que passei por várias propriedades estrada acima. Aí ele falou que ele era dono de tudo ali, e eu passando por aqui poderia sumir uma vaca, e as câmeras dali me pegariam então eu seria o culpado... falei: pera ai loco! Tá me chamando de ladrão?? Sou montanhista e estou vindo de longe desde o canion espraiado, passando por várias propriedades, pedindo autorização a todos, mantendo todas as porteiras, cercas e animais como estavam, aí ele disse que não precisava mais pagar, mas tinha que avisar não sei quem... Infelizmente temos ignorantes assim, ainda mais para quem trabalha com turismo me pareceu muito despreparado e totalmente focado no dinheiro e na cobrança pela passagem pois o ponto turístico era propriedade dele, não sei se a estrada realmente é ou não. Porem precisa melhorar a abordagem. Então fica a dica de quando passarem aqui, já vir com dinheiro na mão. Passado esse contratempo segui pela estrada que ia margeando o Rio dos Bugres que dá nome a localidade, uma área rural muito bonita, com muitos sítios e chácaras, havia bastante criação de gado, cabra, também hortaliças e pomares. Mais adiante já alcancei o asfalto que liga Urubici ao Corvo Branco e fui até o camping Hospedagem Rural Nossa Senhora das Graças, um lugar muito bacana com uma ótima infraestrutura para acampar, tem também espaço para motorhome e chalés para alugar, recomendo o lugar. E ai finaliza essa minha jornada desde o Canion Espraiado, passando pelo Campo dos Padres, Serra da Anta Gorda, Rio dos Bugres e Urubici.
       
       


    • Por Marlon Escoteiro
      Travessia do Campo dos Padres – SC – julho de 2020 – 80 km em 5 dias – Do Cânion Espraiado, Morro da Boa Vista até o Morro das Pedras Brancas

      *INFORMAÇÃO*: Essa travessia é realizada em área particular é OBRIGATÓRIO solicitar AUTORIZAÇÃO para passar nas propriedades do Campo dos Padres. Vamos respeitar os proprietários e manter o local aberto para que possamos continuar com nossas travessias e trekking.
      Entrar em contato com a Fazenda Búfalo da Neve.
      Instagram: @fazendabufalodaneve  via direct
      Fone: 48-99617 7552 Arno Philippi – 48-99152 1277 Lucas Philippi
      *IMPORTANTE*
      -NÃO FAÇA FOGO NUNCA – Use fogareiro
      -LEVE TODO O SEU LIXO EMBORA
      -TUBOSTÃO (Vamos todos começar a usar esse banheiro) nesta região estão muitas nascentes importantes de SC, é necessário mantermos o meio ambiente em equilíbrio e limpo. Temos outras áreas de montanha do Brasil como o Pico Paraná e Pedra da Mina que já estamos tendo problemas sérios de contaminação por conta das fezes, papel higiênico e dos lenços umedecidos deixados nos “banheiros” ao redor das áreas de acampamento. O TUBOSTÃO serve para vc levar tudo isso de volta para a sua casa e descartar no lixo.
       
      Vamos a Travessia
      Essa travessia eu tinha combinado com meu parceiro Bernhard que já havia ido comigo em Itatiaia, porém tive um imprevisto na empresa e acabamos não indo. Sorte nossa, pois foi bem na semana do tal ciclone bomba que destruiu muita coisa em Santa Catarina e no Campo dos Padres não foi diferente, tem áreas de mata lá que parece que passou um trator derrubando tudo. Neste interim entrou em contato comigo o Rafael @dinklerafa perguntando sobre a travessia solo que eu havia feito entre Urubici e Bom Jardim da Serra pelo PNSJ. E que ele estava programando vir para a serra catarinense fazer uma travessia, eu disse que ainda estava em aberto ir para lá e assim combinamos a parceria para a travessia. Marcamos então nos encontrar em Urubici na Pedra da Águia no vale do Rio Canoas no domingo a noite. O meu amigo Bernhard começou a trabalhar naquela semana infelizmente mas por sorte minha foi em Lages, e aproveitei a carona com ele saindo de Itajaí.
      1° Dia – Pedra da Águia
      Este dia já começou de noite. Kkkkkkk cheguei no ponto de encontro quase as 20h, garoava um pouco naquele momento quando o Bernhard me deixou no Vale do Rio Canoas junto a propriedade Pedra da Águia que serve como base para camping e estacionamento para aqueles que vão para o Cânion Espraiado. Chamei na casa e ninguém atendeu apesar de as luzes estarem acesas e ter carro ali estacionado, tão pouco sinal do meu parceiro Rafa que a esse momento já deveria estar por ali, dei uma olhada ao redor para ver se já não estava acampado, mas não encontrei. Aproveitei o ultimo facho de luz do farol do carro e montei próximo ao rio minha barraca. Quando estava ajeitando minhas coisas o Rafa aparece do meio do nada! Ele disse que o taxista deixou ele uns 5 km adiante já em direção ao Cânion Espraiado e ele teve que voltar andando pela estrada na chuva. Ali nos conhecemos e fomos conversando, um cara muito bacana. Enquanto preparávamos nosso rango o papo fluía. Acertamos alguns detalhes referente a travessia como um todo e do próximo dia também, o qual ao invés de seguir o caminho tradicional pela estrada para alcançar o Cânion Espraiado, sugeri então contornar a Pedra da Águia e passar por trás dela e seguir até a borda da Serra Geral próximo ao Corvo Branco e então seguir sentido norte bordeando os peraus até chegar ao Cânion Espraiado. Logo em seguida fomos dormir para descansar.

      2° Dia – Pedra da Águia até o Cânion Espraiado – 12km de trilha

      Acordamos cedo, ainda estava meio nublado mas entre as nuvens já víamos que iriamos ter um dia limpo pela frente. Enquanto a água ia fervendo para o café íamos desmontando o campo e arrumando a mochila. O vale do Rio Canoas nessa região é muito bonito com a vista da Pedra da Águia de fundo as araucárias na extensão do vale e o rio descendo suavemente entre as pedras. Após tudo pronto começamos nossa caminhada as 8h, os cachorros vieram nos seguindo uma parte da estrada e foram dispersando um a um, mas sobrou um pretinho que nos acompanhou toda a trilha. Logo quando contornamos a pedra da Águia passamos pela casa do Candimiro e ficamos ali um tempo de prosa com ele que nos autorizou passar pela propriedade e assim seguimos nosso rumo. Uma subida suave por uma antiga estrada que já não passa mais carro.



      Depois de uma hora e pouco de trilha chegamos a borda da Serra Geral ao sul estava a estrada da Serra do Corvo Branco na direção norte o Cânion Espraiado, paramos para curtir o visual e tirar fotos, naquele momento nos preocupamos um pouco com o cachorro pretinho que vinha nos seguindo. O caminho todo foi bordeando a serra seguindo a estradinha abandonada na margem direita do Espraiado. Em um certo ponto chegamos em uma depressão onde formava um pequeno Cânion afluente do rio Canoas em direção oposta a borda da serra geral ali tinha uma pequena faixa de mata para cruzar e adiante seguimos andando pelos campos, banhados e turfeiras que seriam uma constante em toda a travessia e também curtindo o visual do Cânion. 


      Passado das 13h paramos de frente para a cachoeira do Adão para almoçar. Tinha sobrado um macarrão com linguiça Blumenau da noite anterior e já pus na panela, ainda fervi água para um bom chá de hortelã com gengibre e ali ficamos contemplando aquele visual. Quando retornamos a caminhada vimos logo acima do vértice do Cânion que havia um objeto retangular e ficamos imaginando o que poderia ser, o Rafa falou que poderia ser uma placa informativa eu já pensei que fosse tipo um deposito/armário de madeira para guardar o material do pendulo.  Quando chegamos lá a nossa surpresa foi que era uma geladeira da Cervejaria Patagônia, eles estavam fazendo um comercial publicitário. Ali encontramos também a Carol proprietária da Fazenda Espraiado e ela nos indicou ir na cachoeira e avisou que a outra parte da borda do Cânion estava proibido passar por problemas de vizinhos e uso da área. Descemos até a cachoeira, que na realidade são 2 uma primeira menor que forma um baita poço para banho e a queda principal que desagua por 86m Cânion abaixo. Neste momento flagramos o pretinho abocanhando alguma coisa no mato e quando vimos era um tipo de roedor que em seguida ele soltou no chão.



      Logo fomos em direção a sede da fazenda onde é o camping e hostel do Cânion Espraiado. Ali conversamos com o Jacaré do Cânion que trabalha na fazenda, acertamos com ele o valor de R$ 40 pelo pernoite em camping, comemos um pastel muito bom e montamos nossa barraca, depois ficamos no galpão crioulo ao redor do fogo de chão proseando e tomando uma cerveja Patagônia com o Jacaré. Aproveitei para secar minhas meias, com os furos que minha bota tinha e os banhados no caminho esse seria um problema que eu enfrentaria todos os dias com os pés molhados. Também recarregamos o celular e aproveitamos para mandar as últimas mensagens pois a partir dali não teria mais sinal pelos próximos 4 dias. Preparei minha janta uma bela polenta com bacon e conversando com o pessoal, falaram que a partir dos 2 próximos dias viria uma frente fria muito forte. Pegamos umas dicas da trilha para o próximo dia cedo em direção ao Morro da Antena (agora montanha infinita) para ver o nascer do Sol e em seguida fomos dormir.




       


       
      3° Dia – Cânion Espraiado – Campo dos Padres – parte alta do Rio Canoas - 18km de trilha

      Acordamos as 4h30 pois queríamos estar as 7h para o nascer do sol. Já fomos desmontando a barraca e o frio já era forte na escuridão da madrugada, havia um pouco de gelo no sobreteto da barraca. Após tudo desmontado tomamos um café passado pelo Jacaré dentro do galpão e comi meu pão sírio com polengui, queijo e salame, além do meu super brownie com malto e dextrose além de algumas castanhas (esse seria meu cardápio de café da manhã de todos os dias). As 6h horas seguimos pela trilha por entre a mata até o topo do morro da Antena e já no chapadão do cume presenciamos várias poças de água congeladas.


       
      As 7h05 foi o alvorada sobre um mar de nuvens aos nossos pés e um céu limpo sobre nossas cabeças, a vista do Cânion espraiado lá de cima é linda e ainda é possível ver toda a extensão da Serra Geral com destaque para as Pirâmides Sagradas e o Morro da Igreja. Estive nesse morro em 2001 subimos eu e o meu amigo BIG Daniel Casagrande de Toyota Bandeirante, na época ainda havia a Antena em pé, hoje ela foi derrubada, lembro que nós curtimos o visual por ali e quando decidimos ir embora atolamos a Toyota e quem disse que conseguimos tirar.... foi uma longa história e uma grande aventura. Voltando a 2020, nossa ideia original era seguir bordeando até chegar no rio canoas, pois pela carta teria somente 2 faixas de mata pra cruzar morro acima. Mas ai o Jacaré nos indicou seguir pela estrada e lá adiante passando a porteira entrar na antiga estradinha, eu sabia que havia essa trilha, mas tinha receio de seguir pois era uma mata grande, e imaginava ter vários caminhos por conta do gado.





      Mas enfim mudamos nosso plano inicial e seguimos então pelo caminho sugerido. Logo que passamos a porteira eu vi uma estradinha seguindo adiante e outra descendo, supus que essa seria a estrada, ledo engano..... descemos o morro e cortamos a estradinha para lá embaixo tentar encontrar ela de novo, havia um morro bem grande de mata a frente que se estendia a leste até a borda da serra e para o lado oposto a oeste entre esse morro havia uma encosta suave de mata e a borda do profundo Cânion do rio canoas, a trilha só podia ser nesta encosta suave e fomos descendo mas não encontrei a estrada. Seguimos adiante pela mata até chegar ao rio que já formava um pequeno desnível, pensei que já fosse o começo do Cânion afluente do Cânion principal do rio canoas. Demos uma volta enorme em círculo e voltamos para o mesmo lugar. Seguimos acompanhando a estrada e tentamos mais uma vez descer na direção daquela encosta, mas a mato tava muito fechado voltamos mais uma vez para a estrada e então decidimos seguir a estrada, logo adiante vimos uma casa e antes de chegar nela uma entrada a direita com cara de estrada abandonada. Só podia ser essa. Bingo! Já era 12h passado e então paramos ali na estradinha e fizemos nosso almoço o meu seguiu o mesmo cardápio do café da manhã sendo pão sírio, polengui, queijo e salame e chá de hortelã com gengibre, e assim foi todos os dias. Depois de 40min de pausa retornamos a trilha. A trilha é em uma antiga estrada abandonada que não é mais possível transitar de carro nem de 4x4, somente a pé ou a cavalo, uma descida suave por entre a mata de araucárias até chegar em um pequeno rio que corria sentido Cânion do rio canoas. Esse era o ponto mais baixo e após o rio a trilha começava a subir. “A algumas horas atrás chegamos bem perto deste rio porem a mata estava muito fechada e o rio afunilava em um brete e não conseguimos achar um caminho para passar e acabamos voltando”.



      Lá adiante na trilha encontramos um barraco destruído e depois cruzamos com um pequeno rio onde fomos seguindo ele rio acima até a trilhar sumir no mato, ali percebemos que em algum lugar lá atrás teríamos que ter contornado o morro. Resolvemos então subir aquela encosta de mata bem fechada com muitos xaxins, bambus e mata nebular. Foi um momento um pouco tenso pois já eram umas 17h sabíamos que estávamos no rumo certo, mas não na trilha e onde estávamos não tinha como acampar. Fomos mirando o topo tendo as copas das araucárias ainda iluminados pelo sol. Quando alcançamos então a parte mais alta abriu um pequeno descampado sujo com vassouras, porem plano e com condições de acampar. Decidimos seguir ainda um pouco mais adiante até as margens do Rio Canoas, mas de qualquer forma não fomos muito longe e acampamos por ali mesmo. Aquela noite prometia muito frio, tratamos de montar nossas barracas e a escuridão já tomou conta e o frio veio junto. Arrumei minhas coisas e tratei de ferver uma água para o chá e picar o bacon, quando comecei a fritar o Rafa já sentiu o cheiro maravilhoso do bacon, e ele com aquela comida liofilizada dele. Prometo que vou tentar de novo, nem que seja levar para uma noite a liofilizada, confesso que ainda venho tentando uma comida boa e leve sem abrir mão de certos luxos que conquistei nesses 30 anos de acampamentos, mas que agora com a idade e falta de tempo para treinar a boa forma já não posso mais carregar tanta coisa, sei que tenho que diminuir peso. Nesta travessia eu pesei item por item antes de sair de casa, desde celular, meia, cueca, itens de primeiros socorros, comida, enfim tudo grama por grama e encontrei que eu carregava no corpo 3kg contanto botas, roupas, bastão...; na mochila mais 24kg contando 4 litros de água que me dispus a levar mesmo com a fartura de água da região somente para testar meu consumo e uso em cozinha. É muito interessante pesar pois sempre imaginamos o quanto levamos, mas só anotando tudo e fazendo um verdadeiro checklist é que sabemos o quanto de peso realmente carregamos e não sabemos.

       
       
      Depois da janta ainda era cedo e não conseguiria dormir, então decidi sair da barraca para ver o céu estrelado, minha saída noturna não demorou mais que o suficiente para ir ao banheiro e voltar correndo para a barraca de tanto frio que fazia. Nessa noite os termômetros bateram negativos os - 8ºC dormi no limite do frio essa noite.
       
      4° Dia – Parte alta do Rio Canoas – Cemitério – Borda da Trilha dos Índios – Morro do Campo dos Padres – Morro da Boa Vista - 15 km de trilha

      Acordamos pelas 6h mas o frio era tanto que não deu vontade de sair do saco de dormir, o sobreteto da barraca do Rafa congelou a condensação, neste quesito estava muito satisfeito com a minha Naturehike Cirrus pois o layout dela permite uma boa ventilação e evita o acumulo de condensação, mas vi que tinha que fazer alguns ajustes no sobreteto para incluir mais 2 pontos de cada lado para fixar mais espeques e poder abaixar mais a lona para o vento não entrar tanto em dias frios. Também tive minhas meias congeladas e a água nas garrafas estavam congeladas. Já pus a água para ferver e fazer meu café na Pressca e ao mesmo tempo já ir guardando minhas coisas. Mas foi difícil desmontar a barraca, os dedos doíam de tanto frio. Eram 7h30 e saímos, vimos que 1h30 era o tempo que precisávamos para começar o dia. Logo adiante avistamos uma cabana bem bonita de madeira que é a sede da Fazenda Búfalo da Neve, passamos ao lado e seguimos adiante descendo a encosta do vale do rio canoas até atingir suas margens, havia muita geada no pasto e as poças d´água no caminho estavam congeladas e também partes do rio onde a água estava parada.







      Aproveitamos para repor nossos cantis e tirar fotos com os pedaços de gelo. Essa parte é muito linda, o vale com os morros de mata de araucárias, o rio e suas curvas e os campos formavam uma bela paisagem. Fomos subindo o rio e logo alcançamos uma pequena cachoeira e uma taipa de pedra logo acima formando um caminho de tropeiros e por ali seguimos dando uma grande volta para desviar a várzea do rio que formava um banhado e suas turfeiras. Logo adiante vimos 1 casa azul e 1 galpão passamos por ela e logo a frente no vale havia um morro isolado, pelas minhas contas ali deveria ser o cemitério. Uma subida íngreme e logo no topo já vimos um quadrado de taipa e ali estava o cemitério, haviam 3 túmulos com cruz, uma lapide que não conseguimos ler e ao que parecia algumas covas abertas. Interessante imaginar um lugar inóspito daquele que outrora pessoas moravam ali em um passado não muito distante, mas longe da civilização. E tinham que ali mesmo enterrar seus entes queridos, escolheram um belo lugar para ser os Campos Elíseos destas pessoas.





      Logo descemos a encosta em direção ao rio canoas e dali iremos a leste para alcançar as bordas da Serra Geral. Naquela altura quando atravessamos o rio canoas ele era tão límpido e cheio de plantas aquáticas, uma pintura natural. Subimos uma pequena encosta e por acaso encontramos a trilha dos índios que liga a Anitápolis, dali subimos uma pequena mata e já no topo paramos para almoçar e contemplar a vista. O dia estava lindo e podia ver o horizonte bem longe, sendo possível ver a serra do tabuleiro e o contraste do mar mais a sudeste. Depois do almoço fomos bordeando os peraus tendo o Morro do Campo dos Padres na nossa direção e mais a noroeste o Morro da Boa Vista que é o ponto mais alto de Santa Catarina onde iriamos acampar. Para alcançar o morro do Campo dos Padres tivemos que dar uma volta para contornar a mata e depois seguir por uma subida bem íngreme. Bem ao longe no colo onde ligava esse morro com o morro da Boa Vista avistamos 2 capatazes campeando o gado. Alcançamos o topo do morro e ficamos um tempo ali contemplando uma das vistas mais bonitas da trilha. Depois seguimos em curva de nível até o colo e em seguida partimos para cima do Morro da Boa Vista, neste momento o Rafa começou a ficar sem água e chegou até a coletar um pouco nas turfas, eu ainda tinha água dentro do meu teste de consumo e cozinha, e ofereci para ele um pouco caso precisasse.
       





       
      Já no topo vibramos pois éramos as pessoas mais “altas” em solo catarinense, localizamos o marco geodésico e ali ao lado acampamos com a porta das barracas virada para o nascer do sol, porem naquele momento presenciamos um lindo pôr do sol, tiramos muitas fotos e vídeos e ficamos curtindo aquele momento. Já dentro da barraca tratei de fazer meu ritual de limpar e secar os pés úmidos dos charcos e passar vick vaporub, um santo remédio para o montanhista já que serve para muitas coisas. Pela primeira vez na vida levei lenço umedecido e tomei meu banho de gato, gostei do resultado melhor que toalha úmida. Tratei logo de me vestir pois fazia muito frio aos 1827m de altitude. Nesta noite cozinhei uma invenção que fiz com sopão+arroz+bacon, porem o arroz não cozinhou o suficiente e o sopão já começou a empelotar, não gostei nada. Ainda bem que sempre levo como emergência 2 pacotes de miojo e tive que atacar um com linguiça frita e queijo ralado. Durante a noite sai para ver o céu, estava menos frio que a noite anterior, mas ainda sim muito frio, consegui ficar um bom tempo ali observando as constelações e algumas estrelas cadentes, também vi ao longe a luminosidade das cidades como da grande Floripa que formava um grande clarão a leste e a oeste uma área menor porem mais luminosa a cidade de Lages. Me recolhi ao aconchego da minha barraca e dormi. Acordei com o vento batendo forte na barraca, chegando até a entortar as varetas, mas a barraca segurou bem. Não dormi muito bem pois volte e meia acordava com o vento.




       
      5° Dia – Morro da Boa Vista – Arranha Céu – Morro da Bela Vista do Guizoni – Campos de Caratuva - 17km de trilha

      O vento batia forte na barraca, o céu estava bem nublado predizendo que o tempo estava mudando. Como montei a barraca a sotavento, pude deixar a porta aberta e curtir o nascer do sol no horizonte enquanto preparava meu café foi um alvorada fantástico mesmo com o céu nebuloso. Tomei meu delicioso café com brownie e pão sírio/queijo/salame a combinação perfeita e rápida para o desjejum.



      Logo em seguida desmontamos todo o acampamento. Nesse dia pude testar melhor uma pratica que encontrei para usar o banheiro de forma confortável e privativo (uma dica para as mulheres). A minha barraca Cirrus tem como desmontar o tapete e o mosquiteiro interno sem desmontar a lona do sobreteto e assim deixar o chão somente na grama. Desta forma com toda a mochila arrumada ficando somente o sobreteto e a armação por último, pude dentro da barraca mesmo pôr o meu jornal no chão com cal e dar uma cagada tranquila, depois só por mais cal em cima, embrulhar o jornal, por numa sacola plástica e aí dentro do tubostão. Usei um cano de pvc de 100mm com 2 caps nas extremidades e vedou muito bem, sem cheiro nenhum ou vazamento, tem na internet como fazer. Porem só achei um pouco pesado. Da próxima vez vou testar um pote de tampa larga e de rosca de 1l que tenho em casa, pois é bem mais leve e o volume é o suficiente para uns 4 dias de trilha.
      Saímos as 8h40 para a trilha o vento era muito forte e o sol já raiava, inclusive quando fui desmontar a lona ela quase sai voando. Nos protegemos bem e começamos a descida pelo colo do Boa Vista com o Morro do Campo dos Padres que é o divisor de águas do rio Canoas e do rio Itajaí, paramos numa pequena nascente e enchemos nossos cantis e seguimos bordeando a Serra Geral. Lá pelas 11h passamos pelo rio Campo Novo do Sul que corre aos pés do Morro Bela Vista do Ghizoni e demos uma parada para um banho rápido e gelado além de aproveitar que paramos fomos almoçar. Nesse momento o tempo voltou a nublar e esfriar. Depois deste descanso subimos até a rampa que dá acesso ao Ghizoni e deixamos nossas mochilas ali e demos uma esticada até o pico do Arranha Céu que estava na borda do Cânion que na outra ponta estava os Soldados do Sebold. Voltamos as mochilas e subimos mais uma rampa e deixamos a mochila novamente e caminhamos por 2h ida e volta no chapadão do Ghizoni por um grande charco de turfeira até subir os matacões do topo onde havia o marco geodésico, ali era o terceiro ponto mais alto de SC e o Morro da Igreja é o segundo.




      O tempo já estava piorando e voltamos até a mochila já passava das 16h e vimos que não alcançaríamos o objetivo do dia, pois quando olhamos ao longe vimos que iriamos cruzar a parte mais estreita do campo dos padres onde havia perau e Cânion para os dois lados, e tínhamos pelo menos 2 morros com mata para subir e cruzar. Conseguimos somente cruzar o primeiro que tinha uma trilha bem fechada com muitos caminhos de gado até chegar num ponto bem estreito com perau e uma antiga taipa utilizada para cercear o caminho do gado e não cair precipício abaixo. Chegamos em um campo que vimos lá do Ghizoni que tinha uma vegetação diferente, a princípio eu imaginava ser de vassourão, mas a tonalidade era outra, quando chegamos lá me surpreendi em constatar que eram o bambuzinho caratuva bem comum na região do Pico Paraná e que eu nunca tinha visto por essas bandas. Ali a cerração começou a fechar então decidimos já achar um lugar plano para acampar. Montamos nossa barraca bem ao lado da trilha que era bem demarcada e única. Não deu nem uma hora e caiu um temporal, era tanta chuva e vento que tínhamos que manter tudo bem fechado. Fizemos nossa janta nessa condição, uma das escolhas que fiz pela barraca cirrus foi o avanço um pouco maior para que me possibilitasse cozinhar em condições de chuva e vento e também espaço para 2 pessoas para que a cargueira ficasse dentro da barraca. Acabamos dormindo cedo nesse dia. Apesar que durante a noite levantei algumas vezes para conferir se estava tudo em ordem e seco na barraca, pois foi a primeira chuva torrencial que ela pegava, choveu a noite toda, e tudo se manteve seco. Passou no teste.
      6° Dia – Campos de Caratuva - Morro das Pedras Brancas – Localidade das Pedras Brancas -  BR 282 - 18km de trilha

      Lá pelas 7h a chuva parou, levantamos e já fomos tomando nosso café e desmontando as coisas. A trilha a nossa frente era um rio de tanta água, fomos secando o que dava na barraca para guardar na mochila e as 8h30 saímos e logo entramos na mata que estava muito molhada e fomos subindo o aclive em diagonal, era uma trilha bem batida na encosta que descia ao Cânion do Rio Campo Novo do Sul, havia muitas árvores caídas e quebradas por conta do ciclone bomba que havia atingido a região a uma semana atrás. Quando saímos no topo o sol já despontava meio tímido, mas a chuva já havia ido embora. Tinha uma bela vista do Morro do Ghizoni e do Cânion logo abaixo.


      E fomos seguindo pelos campos e cruzando algumas faixas de mata, banhados e turfeiras até chegar ao istmo como uma “ponte” de 5m de largura que ligava o campo dos padres até o Morro das Pedras Brancas, ultimo resquício de planalto ligado a Serra Geral. Já era 12h30 atrasamos meia hora pelas nossas contas, mas ainda sim estávamos muito longe do nosso destino final que era a BR 282 onde tínhamos combinado com nosso amigo Bernhard de o encontrar as 17h. Descemos a trilha íngreme aproximadamente 500m de desnível, nesse ponto o estrago do ciclone foi bem maior, a destruição era grande por toda a trilha. Alcançamos a estrada e fomos seguindo tendo o vale do rio Santa Barbara como caminho. Passamos pela comunidade das Pedras Brancas e precisávamos de sinal de celular e internet para avisar a todos que tudo estava bem e comunicar o Bernhard que estávamos ainda 1h atrasados. Aí passamos por uma propriedade que indicava “informações pousada do vô Chico” paramos ali e conhecemos o vô um senhor nascido ali e bem gente boa que nos emprestou a internet e nos deu uma carona até a estrada. Sorte nossa pois ainda havia uns 7 km a frente com subidas e descidas, mas uma estrada rural muito linda tendo sempre as Pedras Brancas ao fundo como destaque e o vale do Rio que vinha esculpindo um bonito Cânion. Chegamos a BR e encontramos nosso amigo e assim termina nossa pernada. Somamos 80 km de trilha no total





       


























    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Costurando
      Nossa aventura começa ao acaso, não que nunca planejássemos percorrer a Serra Geral Catarinense, mas não estava nos planos de 2020. No entanto, uma tal de pandemia resolveu estancar nosso planejamento, e aos 45 do segundo tempo conversando com um amigo de Tubarão resolvemos seguir para essa região pouco frequentada.
      De início achei que não conseguiria, o primeiro contato com o pessoal da região assustou, uma agência enviou um orçamento de rei, junto de uma ameaça; argumentava ser a única a ter acesso à região, de outra forma eu nem deveria tentar ir. Passado o susto, conversei novamente com meu amigo que me disse ser possível fazer sem agência sim. Então comecei a garimpar. Acabei encontrando o relato aqui no mochileiros do Marlon procurei ele, que foi baita parceiro e me passou contatos dos donos da fazendas e dicas da região.
      Fim de agosto e lá fomos nós, eu e a Bruna. Como não consegui autorização com uma das propriedades (que fica em um ramal da travessia), e também não consegui mais companhia resolvemos inovar e fazer um circuito na região saindo do Cânion Espraiado indo até o Lageado e retornando ao ponto de partida. Pagamos pelas autorizações R$ 200,00 em duas pessoas para permanecer nas terras 3 dias. Negociamos no Espraiado estacionar lá durante a travessia, sem custo. Se hospedaríamos lá por 2 noites depois.
       
      O Tempo Fechou
      Saímos no dia 29/08 às 08:00 da manhã, dia limpo, coisa linda. Logo de início a subida é pesada, e para piorar a trilha é em meio a pedras de todos os tamanhos até a Montanha do Infinito. Lá de cima dava para avistar no horizonte os Campos reluzentes a alguma milhas de distância. Mal conseguíamos esperar ansiosos por caminhar naquelas banda sob um céu limpo e noite estrelada.


      Os primeiros  6 km foram tranquilos, em meio a mata de araucárias, por uma trilha (estrada antiga abandonada), basicamente um declive. Nesse trecho a única dificuldade são as pedras soltas e os vários canais de água e lagos onde os búfalos (existem muitos na região) tomam seus banhos. Avistamos duas cachoeiras distantes em meio a mata, até aí acreditamos que iríamos passar nelas. No entanto me contaram que algumas dessas provavelmente nunca ninguém foi até lá (eu filmei uma com o drone na volta, corre no youtube que tem lá).

      Depois do km 6 a coisa complica, subidas longas com pedras soltas, um descuido e o tornozelo já era. Em vários trechos a trilha some e se confunde com carreiros dos búfalos, fácil se perder e parar nos perais dos cânions. Depois dos 10 km a trilha bifurca para a Grande Cachoeira do Canoas e Casa Azul. Seguimos para a cachoeira. A trilha some em meio ao banhado e as vassouras (vegetação baixa e de muitos galhos). Adentramos um trecho de mata com muitas araucárias, trecho em que encontramos os proprietários das terras montados em cavalos e acompanhados por cães enormes. Eles ainda insistiram que passássemos no rancho para um café, porém nosso tempo não permitiu.


      A essa altura o tempo já fechara, a viração tomava conta. Tivemos dificuldade para achar a cachoeira, houve um incêndio recente ali, e a trilha havia desaparecido por completo, só restara as vassouras e com a viração não dava para ver o horizonte. Na primeira investida fomos surpreendidos por um perau de uns 400 m, ouvindo a queda tentamos progredir pela borda, mas a mata se fechou deixando a situação arriscada. De volta nas vassouras demos mais uma investida e poucos metros a frente se abriu um campo baixo e pudemos avistar a queda superior. A queda maior só avistamos de relance, como a hora já havia adiantado, e o tempo pegando escolhemos não se arriscar muito nas bordas do cânion.

      Retomamos a caminhada, consultando o mapa a cada 30 min. 2 km e saímos nos campos, a caminhada ficou mais fácil. Até a Casa Azul abandonada é possível identificar a estrada antiga. O lugar é mágico, cercas de taipa, o Canoas, a cabanha, o cemitério, e aquele cenário todo coberto pela névoa, de tirar o fôlego e insinuar miragens. Descemos e acampamos do lado do rio. Como o fogo passara por ali também, não foi difícil achar um descampado para dormir. Apagamos fácil depois dos 22 km, e a noite gelada e úmida num breu total envolvida pela neblina.

      No dia 2 começamos cedo, às 06:15 já estávamos encharcados em meio a vegetação rasteira. Com alguma dificuldade chegamos às bordas da Serra, a visibilidade variava entre 100 e 50 metros. Mesmo perante as condições climáticas que encontramos a imponência dos cânions impressiona e assusta, com uma visibilidade ruim dessas seria um terror acabar ladeira abaixo.


      Seguimos pelo vale da nascente do Canoas. Alguns quilômetros à frente estávamos novamente nas partes altas, contornamos o Morro do Campo dos Padres e descemos para a Cachoeira do Rio Campo Novo onde paramos. Devido as péssimas condições do clima (a visibilidade agora não chegava a 30 m) e o horário já adiantado, resolvemos esconder as cargueiras e seguir até o Morro da Bela Vista do Guizhoni (1804 m) o terceiro mais alto do Estado, retornando sem ir até o Lageado. Subir o Bela Vista não foi fácil, cerca de 2 km, parte em uma carrasqueira de pedras e a outra em meio ao charco dentro da mata nebular, sem trilha demarcada, foi um banho por completo, nem a roupa impermeável deu conta. Atingimos o pico, idos meio-dia. E o clima só piorava, uma pena, não conseguimos ver nada. Retornamos sob as mesmas condições, a única diferença foi que durante a descida houve um relapso no tempo e pudemos enxergar o horizonte, foi incrível.



      De volta nas cargueiras, retomamos a marcha para o Morro da Boa Vista (1824 m, o mais alto do Estado e o terceiro do Sul do Brasil). A volta até a Bifurcação perto do Morro do Campo dos Padres foi mais tranquilo, já conhecíamos o traçado, o que facilitou bastante. Afinal, nesse dia foi ainda pior a navegação. A trilha não é definida, existem muitos caminhos de vaca e muita variação do relevo, como não dava para ver na cortina de névoa seguimos o relevo, nas vezes que tentei seguir por trilhos quando consultava o mapa já havíamos saído consideravelmente da rota. De início tentei me referenciar durante as curtas aberturas entre as nuvens, mas logo percebi que aquela oscilação mudava a paisagem e nós acabávamos seguindo pontos de referência distintos (muito parecidos), o que nos levava a se perder.

      Depois de passar por um longo campo de turfas chegamos de volta à bifurcação. Largamos as mochilas e atacamos o Morro do Campo dos Padres, subimos rapidinho, e quando olho no mapa, puts, errei. Viro pro lado e com atenção percebo uma sombra medonha em meio ao branco da viração. Se jogamos, a subida é hard, um paredão 60º forrado de gramíneas, uma subida engatinhando, o mais incrível é que só víamos o paredão mal enxergamos um o outro. 30 minutos e uns 400 m percorridos com elevação de 300 m, chegamos no céu, kkkkkk. Mal víamos os arbustos do entorno, mas estávamos lá,  o mapa confere dessa vez.

      Descemos ladeira abaixo, literalmente. E partimos para o Boa Vista, pela carta de navegação, caminhamos por uma crista (meio larga) cerca de 1 h e 30 min, sempre que chegávamos no pé de algum cume ficávamos animados por ter chego. Ao consultar o mapa, era falso. Foram 3 falsos cumes e meio a visibilidade negativa, isso acabou com a graça da chegada. Depois de subir o verdadeiro levamos uns minutos conferindo a carta para comemorar com certeza a chegada.
      Montamos acampamento no cume sob um vento de 60 km/h, parecia que a barraca iria decolar. Entocados na barraca, dormimos igual pedra (foram mais 21 km nesse dia). Passou a noite ventando forte e tomado pela neblina, esta amanheceu implacável (de novo, hshs) no dia 3.

      Levantamos acampamento e seguimos pelo sul do Morro para o vale do Canoas. Em meio dos charcos e turfas. Passamos por muitos córregos e em um dos vários cânions que se formam por ali encontramos três cachoeiras vizinhas. Saímos novamente na trilha dos índios, margeando a borda da Serra Geral. Mais uma vez não vimos nada.


      Cortamos o Campo dos Padres tomando a trilha por trás da casa azul. De início foi fácil segui-la. Mas não demorou muito até se perdermos e passar 40 min caminhando nos caminhos de búfalos das encostas até avistar lá embaixo um pedaço da antiga trilha. Descemos aliviados, os pés ardiam, A Bruna com bolhas arrastando-se. Paramos para almoçar e furar as bolhas, só assim para continuar.


      Estávamos novamente na trilha demarcada e o tempo abrira, víamos as araucárias imponentes ao nosso lado e no horizonte por vezes vimos a silhueta da montanha infinita. Seguimos, carrasqueira a frente. Eram já 18:00 quando pisamos na estrada que leva ao Rancho do Cânion Espraiado. Chegamos no rancho exaustos, molhados e com um vento de mudar cavalo de invernada. Não fosse a hospitalidade do pessoal do Espraiado, deixar acamparmos dentro do celeiro, teríamos uma noite conturbada. Durante a madrugada as rajadas davam a impressão de que o próprio celeiro iria tombar. Agora que estávamos de volta, no dia 4 amanheceu limpo e pudemos aproveitar as vistas do Cânion Espraiado (fica para o próximo relato).




    • Por Marco_AV
      Fala galera! 
      Faz um tempo que não posto nada aqui, nesse período de pandemia acabou não dando pra fazer muitos dos planos que tinha pra esse ano, mas realizei uma viagem rápida de 10 dias pro sul do Brasil recentemente e gostaria de compartilhar com vocês.
      Gosto sempre de planejar minhas viagens por meio de planilhas, vou compartilhar abaixo o modelo que eu utilizo, fiquem a vontade para utilizar também.
      Floripa - Outubro 2020.xlsx
      Bom, nossa viagem partiu de Jaguariúna, interior de SP com primeiro destino a Curitiba. Posteriormente, Florianópolis, Urubici, Imbituba e retorno. Foram na verdade 9 dias e fizemos a viagem inteira de carro. O roteiro está abaixo:

       
      Eu vou fazer o relato de cada cidade nos comentários para não ficar muito extenso cada post.
      Espero que gostem!
       

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