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Diego Minatel

O nosso norte é o sul: Atravessando Brasil e Argentina até Ushuaia ou O caminho para o fim do mundo

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Parte 1 - De Rio Claro até Timbó: o mesmo início de outra vez

"Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram." Religião e Repressão, Rubem Alves

Desde que comecei o mestrado, eu sabia que no final iria viajar pela patagônia. Em duas oportunidades havia planejado conhecer a terra dos ventos e nessas duas vezes refuguei para ver outros lugares. Dessa vez não tinha como fugir, seria a patagônia. Porém, não sabia como seria essa viagem. Não havia nada planejado, somente recordações de planejamentos passados. Depois do turbilhão, pelo qual passei, contatei o Matheus e disse somente: - Bora viajar até Ushuaia com pouca grana?. Não fazia ideia de como seria, nem sei mesmo se tinha certeza da viagem, mas ele topou e agora tinha que ir.

Matheus é um amigo que conheci na graduação. A proximidade entre nós veio a partir de trabalhos sociais dos quais participávamos. Depois disso, fizemos estágio na mesma empresa, dividimos um apartamento e fizemos o nosso primeiro mochilão juntos após o fim da faculdade. Depois cada um seguiu sua vida em lugares distintos do Brasil. Antes da viagem o Matheus estava morando em uma ecovila em Piracanga na Bahia. 

Costumeiramente, toda sexta-feira noite o pessoal de casa toma umas cervejas em frente de casa. Numa destas sextas o Leandro e Flávia pararam para conversar. A Flávia trabalhou muitos anos com minha mãe e o Leandro é caminhoneiro. Conversando com o Leandro, ele disse que estava sempre fazendo o trajeto até Joinville. Na hora já perguntei se teria como dar carona pra duas pessoas. Prontamente, ele disse que sim, mas que não necessariamente seria ele o caminhoneiro que iria nos levar. Assim, de maneira inusitada a viagem ganhou forma. Iriamos começar por Joinville.

Depois de definido a primeira parada da viagem, veio em mente um destino que eu sempre tinha muita curiosidade em conhecer, a Serra Catarinense. Dei uma pesquisada rápida no couchsurfing e entrei em contato com a Leandra. Desde o princípio ela mostrou-se disposta a nos receber e, consequentemente, marcamos a data da nossa chegada em Urubici conforme a disponibilidade da Leandra. Entre a data de chegada em Joinville e o início dos dias em Urubici tinha cerca de quatro dias. Precisava preencher esses dias. Anos antes tinha iniciado meu mochilão solo pelo Brasil por Timbó, uma pequena cidade próxima de Blumenau, e tinha sido muito bem recebido pela família Nasato nesses dias, além de ter sido muito feliz ao lado deles. Tinha saudades daqueles dias. Assim, entrei em contato com a Brunê e expliquei a minha nova viagem que se iniciava e da minha vontade de estar ali de novo. Ela topou nos receber também. Agora o início do mochilão estava definido, sabíamos que iriamos pra Joinville, Timbó, Urubici e em algum momento Ushuaia. 

Era um domingo, dia 18 de novembro, acordei cedo e arrumei a mochila. Fiquei a manhã toda ouvindo música, pois sabia que sentiria falta disso. (Nas minhas viagens não levo música no celular e muito menos fones de ouvido. O motivo disso é porque gosto de estar em contato em todo momento com o lugar que estou, observando cada detalhe.) Almocei e fiquei aguardando o Matheus chegar de Piracicaba. Creio que era umas duas horas da tarde quando o Matheus chegou junto a seu pai. Nos cumprimentamos e ele parecia muito animado pela viagem que se anunciava. Depois de uns vinte minutos o Leandro chegou. O Leandro não seria o caminhoneiro que ia conosco até Joinville, mas ele veio nos buscar para levar até a empresa que sairia o caminhão. Colocamos nossas mochilas no carro, me despedi da minha mãe e partimos.

Chegamos na transportadora e logo o Leandro nos apresentou ao Capitão, o caminhoneiro que iria nos levar. Ficamos um tempo conversando. Ajeitamos nossas mochilas junto a carga. O Matheus nunca havia viajado de caminhão e estava todo animado com tudo aquilo. Subimos na gigantesca cabine do caminhão e pela janela demos o último adeus para o Leandro. 

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Foto 1.1 - A transportadora

Acho que o Leandro é o personagem mais importante desta viagem. Se não fosse ele e seu pontapé inicial, talvez nem tivéssemos saído de casa. Mesmo não viajando por aquela rota nesses dias, ele foi atrás de alguém que faria o trajeto e conseguiu nos colocar naquele caminhão. Nos dias que antecederam a viagem eu e o Matheus pouco nos falamos, pois eu estava recluso pela perda da minha vó. Apesar de ter fechado passar por Timbó e Urubici, a partida não era certa. Quando recebi a ligação do Leandro com a confirmação do caminhão, senti que tinha que partir e deixar a estrada me levar. Só nesse momento tive a certeza que partiria. Leandro, muito obrigado por tudo e por fazer acontecer essa viagem.

Estamos na estrada e vamos percorrendo a Washington Luís. Logo seguimos pela Anhanguera sentido São Paulo. A excitação de todo começo de mochilada me contamina. O clima dentro do caminhão é muito bom. Seguimos o caminho dando risadas. O Capitão é um cara gente boa demais, mineiro que há muito tempo vive em Rio Claro, é chamado de Capitão por causa do futebol, diz ele que fala bastante durante o jogo e sempre é o capitão dos times que joga. Os assuntos orbitavam entre futebol e mulheres. Clima leve, pista sem congestionamento. Entramos na Régis Bittencourt e, em seguida, paramos pra tomar um café e aproveitamos pra ver um pouco do jogo do tricolor. Seguimos na estrada. Chovia muito. Paramos pra outro café e comemos a torta feita pela minha mãe. Antes da meia noite chegamos em Curitiba. Paramos em um galpão da transportadora e arrumamos nossas coisas pra dormir ali, lá pelas quatro/cinco da manhã pegaríamos carona com outro caminhão até Joinville.  

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Foto 1.2 -  A estrada

Quase não dormi nessa noite, até ali estava sem isolante térmico e dormi direto no chão e estava frio, mas não foi esse o motivo de eu não pregar o olho. Tinha uma cadela no cio no galpão e com isso uns vintes cachorros estavam na frente do galpão do lado de fora. A algazarra era grande. Eles ficavam se batendo no portão, enquanto a cadela uivava. Quando o silêncio tomou conta do galpão, já era hora de partir. Nos despedimos do Capitão e pegamos carona com o José. José é um cara muito tranquilo e que gosta muito de música sertaneja. Apesar de estar com muito sono, consegui conversar bastante com o José. Gostei bastante dele. A viagem foi tranquila. 

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Foto 1.3 - O galpão

Chegamos em Joinville e nos despedimos do José. Fomos até a rodoviária e checamos que não havia mais linhas que faziam Joinville/Timbó, com isso teríamos que ir pra Blumenau e depois Timbó. Compramos nossas passagens para o início da tarde e fomos até a Decatlhon comprar algumas coisas que faltavam. Comprei uma calça e uma camiseta segunda pele e também o isolante térmico. Na rodoviária vimos ônibus saindo para a cidade de Doutor Pedrinho (risos), já vi muitos nomes ruins de cidade, mas acho que Doutor Pedrinho é o pior deles, se alguém me falasse que era de Doutor Pedrinho (antes de saber da existência da cidade) eu ia achar que ela morava em um clínica ou estava de favor na casa do Pedrinho. Fomos pra Blumenau e chegando na rodoviária já estava saindo o bus para Timbó. Entramos no ônibus. No final da tarde estávamos em Timbó. Saímos caminhando pela cidade e todo carro que passava por nós buzinava ao nos ver com aquelas mochilas. Imaginamos naquele momento que seria muito fácil pegar carona, ledo engano. Sentados no meio fio esperando a Brunê (que estava voltando de um camping) viramos atração turística e os carros continuavam com o buzinaço. Depois de um tempo a Brunê surgiu na rua, que saudades eu estava. 

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Foto 1.4 - Única foto de Joinville que tiramos

Brunê é uma guria cheia de talentos. Hoje em dia junto com a Mel, comanda um restaurante vegano em Timbó chamado Aruanda. Ela está sempre sorrindo e coloca em prática quase todas as ideias que tem, enfim, ela tem atitude.    

Seguimos pra casa dela e fomos recepcionados pela Mog e suas lambidas. De longe vi a Rose (mãe da Brunê) e eu abri o sorriso nesse momento, parece clichê ou repetição, mas tinha muitas saudades. Na outra vez que estive na casa dos Nasatos, passei boa parte do meu tempo conversando com a Rose, é muito fácil ficar horas jogando conversa com a Rose. Dei um abraço forte e logo estávamos conversando na mesa da cozinha. Em seguida o Pini (pai da Bruna) apareceu também pela cozinha. Pini é um cara gente boa demais e logo que soube que nossa próxima parada seria Urubici tentou verificar com seus contatos se havia algum caminhão que podia nos levar pra lá. Não havia nenhum caminhão, mas só a atitude dele querer ajudar me deixou muito feliz naquele momento, fez eu ter mais certeza que tinha tomado a decisão correta de ter partido. 

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Foto 1.5 - Grafite mais que bacana no quintal da casa da Brunê

Timbó é uma cidade de pouco mais de quarenta mil habitantes. A maioria dos seus habitantes dormem com o portão aberto e quase não há problemas de violência na cidade. Apesar de ser pequena, Timbó tem um importante polo industrial com diversos tipos de industrias. Diferentemente do restante do Brasil, a cidade tem empregos de sobra e a saúde familiar instaurada no município funciona muito bem. Resumidamente, é um lugar calmo e cheio de oportunidades, e com certeza eu moraria ali. 

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Foto 1.6 - Belezura de casa em Timbó

No outro dia, acordamos cedo e fomos para o centro de Timbó. Resolvemos a questão de banco para o restante da viagem e sacamos o dinheiro que levaríamos em espécie. Depois compramos uma panela com tampa para cozinhar na estrada. De resto ficamos na frente do rio Benedito apreciando o cartão postal da cidade, que é uma ponte que atravessa o mesmo rio. No meio da tarde fomos pra Aruanda apreciar a gastronomia das meninas. Que comida boa. Nesse dia tinha um feijão com beterraba que era mais que bom. Depois voltamos para casa dos Nasatos e ficamos proseando com o Pini pelo resto da noite, ele ainda nos apresentou a iguaria pão com presunto, queijo e picles. Gostei bastante.  

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Foto 1.7 - Cartão Postal de Timbó

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Foto 1.8 - Rio Benedito e a casa enxaimel

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Foto 1.9 - Matheus modelando

No dia seguinte o Matheus acordou cedo e foi ajudar as meninas no restaurante. Ele trabalhou um pouco com gastronomia vegana na ecovila que ele morava e havia comentado sobre uma receita de lasanha que conhecia, as meninas gostaram da ideia e resolveram colocar no cardápio neste dia. Enquanto Brunê, Matheus e Mel trabalhavam no restaurante, eu fiquei na casa e coloquei a prosa em dia com a Rose, ficamos quase a manhã toda conversando e depois fui para a Aruanda almoçar. Aruanda é uma quebra de paradigma em Timbó, pois numa cidade onde há dois grandes frigoríficos e pouca gente conhece a alimentação vegana é um negócio arriscado abrir um restaurante vegano, mas as meninas abraçaram a ideia e abriram o primeiro restaurante vegano de Timbó. E nos dias que fiquei pelo restaurante muita gente comeu por lá, parece que está dando muito certo.

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Foto 1.10 - Entrada da Aruanda

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Foto 1.11 - Aruanda

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Foto 1.12 - Aruanda

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Foto 1.13 - Aruanda

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Foto 1.14 - Aruanda

Depois do almoço eu e o Matheus fomos caminhar até o jardim botânico da cidade. O lugar é bem longe do centro da cidade. Paramos por um momento pra tomar o primeiro Laranjinha da viagem. Sou viciado nesse refrigerante que mais se parece com um líquido radioativo e que só acho por Santa Catarina. O jardim botânico é um lugar bem bonito e como é de se esperar cheio de verde. Esse dia estava muito quente. Passamos boa parte da tarde ali e voltamos para a Aruanda. 

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Foto 1.15 - Jardim Botânico de Timbó

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Foto 1.16 - Jardim Botânico de Timbó

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Foto 1.17 - Jardim Botânico de Timbó

Na volta para a Aruanda, a Brunê perguntou se queríamos ir para Rio dos Cedros, pois ela iria levar uns equipamentos no centro holístico de lá. Dissemos "Bora". Aqui pela primeira vez minha vista ficou encharcada de tanta beleza nesta viagem. O caminho entre Timbó e Rio dos Cedros é lindo demais, cheio de morros, rios e verde, é coisa de cinema. Fiquei em silêncio e como um cachorrinho coloquei a cabeça pra fora do carro pra ficar admirando aquela belezura de caminho. Chegamos no centro holístico, caminhamos um pouco pelos arredores e conhecemos o Luis. 

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Foto 1.18 - Matheus, Mel, Brunê e eu (foto tirado momentos antes de irmos para Rio dos Cedros)

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Foto 1.19 - Centro holístico em Rio dos Cedros

Luis é um uruguaio de uns quarenta e cinco anos (um chute!) e que vive no Brasil desde o segundo Rock in Rio. Ele é um artista plástico que utiliza materiais recicláveis em suas obras. Sua história com o Brasil é meio maluca. Ele viajou para o Brasil de carona para assistir o Rock in Rio. Chegando em Porto Alegre ele teve algum problema e não conseguiu viajar para o Rio, e teve que ver numa televisão o show. Depois seguiu até Santa Catarina de carona, ao cruzar o estado ele ficou uns três dias na pista sem conseguir carona, ele queria chegar em Balneário Camboriú. De saco cheio resolveu ir caminhando e depois de trinta dias ele chegou em Balneário e é onde está até hoje. Ele enfatizava que caminhava 7km a cada período, ou seja, 7km pela manhã, 7km a tarde e 7km de noite, todos os dias. Luis é um sujeito peculiar e nos cantou a bola dizendo: - Aqui em Santa Catarina é muito difícil conseguir carona. 

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Foto 1.20 - A belezura de casa em Rio dos Cedros

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Foto 1.21 - Matheus, Brunê e Luis

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Foto 1.22 - Eu camuflado no verde de Rio dos Cedros

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Foto 1.23 - O centro holístico

Ficamos a noite vendo as obras do Luis. Confesso que fiquei fascinado por uma que era o desenho de uma rua comum cheia de casas em volta, mas com a diferença que a faixa de pedestre ocupava toda a rua. Quando ele explicou que a intenção da obra era dizer que a rua é dos pedestres e não dos carros, nesse momento eu só podia sorrir.  

Na volta paramos em um bar no centro de Timbó. Bebemos umas brejas, filosofamos sobre a vida e a situação política do país, e demos muitas risada também. Chegamos de madrugada na casa dos Nasatos, arrumamos nossas mochilas, pois queríamos sair bem cedo para a rodovia. Tinhamos que chegar em Urubici no dia seguinte e a ideia era fazer o trajeto de carona, então decidimos sair o mais cedo possível.

Acordamos bem cedo e seguimos para Indaial. Saímos sem se despedir da Rose e o Pini (eles estavam dormindo), isso me deixou meio mal. A Brunê nos deixou na pista. Acho que dei uns três abraços de despedida nela. Agora era eu, o Matheus e a rodovia. 

Nesta parte da viagem eu ainda estava meio travado por tudo que havia me acontecido. Não conseguia aproveitar com plenitude a viagem, mas estar junto da família Nasato me fez mais que bem. As conversas com a Rose me fizeram pensar muito sobre como encarar toda aquela bagunça na qual estava minha mente. Sou só gratidão a Brunê, Rose e Pini por ter me recebido mais uma vez e dessa vez com o Matheus. Muito obrigado de coração, e espero que tenham muita vida nessa vida maluca. Um beijo na alma.

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Parte 2 - A Serra Catarinense vista por Urubici

“Nunca temamos com os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos. Temamos a nós mesmos. Os preconceitos, esses são os ladrões; os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?! Preocupemo-nos apenas com o que ameaça nossa alma.” Os Miseráveis, Victor Hugo

Ficamos a manhã toda na rodovia em Indaial na tentativa de pegar uma primeira carona pra Ibirama. Caminhamos pela rodovia a procura de um bom lugar pra pedir carona, esse lugar não surgiu. A estrada estava entupida de caminhões. A primeira vista parecia que seria fácil conseguir, mas era só impressão. No fim da manhã começou a chover e vimos que não seria fácil chegar em Urubici nesse mesmo dia. Não queria perder o couchsurfing, tinha muita vontade de conhecer Urubici. As palavras do Luis estavam frescas na memória e parecia mais uma premonição, então decidimos desistir das caronas e ir de ônibus.

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Figura 2.1 - O insucesso das caronas em Indaial

Uma coisa que me irrita um pouco tanto em Santa Catarina como no Rio Grande do Sul é a falta de informação de linhas e horários de busões pelo estado, além dos atendentes também não saberem informar nada mais do que os horários de saída na própria cidade. Assim, as únicas informações que tínhamos pra chegar em Urubici era por Floripa. Eu sabia que se seguíssimos para Ibirama a chance de termos sucesso e pegar algum ônibus que chegasse próximo de Urubici era grande, mas a falta de informação nos tornou conservadores e optamos de ir por Floripa, isso faria a gente dar uma volta bem maior.  

Voltamos pra Blumenau e de lá conseguimos um BlaBlaCar até Floripa. O interessante nesse ponto da viagem é que a guria que nos levou até Floripa faz um tipo de Uber nesse trajeto Blumenau/Floripa pelo BlaBlaCar. Ela coloca dois horários fixos todos os dias neste trajeto e se dá um número mínimo de pessoas ela segue viagem. Não sei bem o que acho sobre isso, porque a chance dela desmarcar a viagem é grande demais. A viagem foi engraçada, a moça só falava de tragédias que havia acontecido naquela rodovia, só estava eu e o Matheus como passageiros. Rezei para a lei da atração não se fazer valer (risos). As rodovias por Santa Catarina nunca decepcionam e este trecho é lindo demais. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a guria da direção. O valor que ela cobra por pessoa neste trecho é de trinta reais, sendo que por trecho ela pode receber um valor bruto de cento e vinte reais. Em um dia ela faz duas viagens Blumenau/Floripa, o que equivale a quatro trechos, o que dá um valor bruto de 480 reais por dia. Isso parece uma boa grana, mas quase nunca o carro vai cheio e o maior agravante é que o carro não é dela. Ela aluga o carro por um valor de 120 reais o dia, fora o seguro, pedágio e a gasolina. Sai do carro naquele dia com a impressão que aquele negócio dela não era uma boa ideia.

Anos antes quando eu fiz meu mochilão pelo Brasil não consegui couchsurfing e refuguei conhecer a serra catarinense, e acabei indo para a região dos cânions na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com isso, a serra virou um assunto mal resolvido. Queria muito estar lá. Por isso, deu um certo alívio chegar na rodoviária de Floripa e ter a certeza que manteríamos o combinado com a Leandra e chegaríamos naquele mesmo dia em Urubici. 

Urubici é uma pequenina cidade de pouco mais de dez mil habitantes situada na serra catarinense. As principais atividades da cidade são o turismo e a produção de frutas. A cidade se destaca por ter registrado a temperatura mais fria da história de nosso país (-17,8 graus registrado no Morro da Igreja no ano de 1996). 

Chegamos em Urubici já era quase meia noite, saímos caminhando pela cidade a procura da casa da Leandra. Mesmo com o horário, a Leandra nos recebeu com o sorriso no rosto, já a Kalyssa nos recebeu com suas lambidas e mordidas intermináveis. Conversamos bastante antes de dormir e a Leandra se mostrou muito alegre e alto astral. Faz pouco tempo que a Leandra está no couchsurfing, mas o que me chamou a atenção foi que ela estava meio desacreditada com a plataforma até então, porque vinha diversos pedidos de hospedagem para ela onde a galera (geralmente casais) fazia exigências pensando que a casa dela era um hotel. Não sei bem ao certo o que as pessoas acham o que é o couchsurfing, mas me entristece ver isso, porque uma má experiência para quem hospeda pode ser motivo da pessoa sair da plataforma e assim, tirar a oportunidade de muitas pessoas de conhecer um lugar por uma ótica diferente. 

A casa da Leandra é uma belezura de lugar. Hoje em dia ela ganha a vida alugando dois quartos de sua casa no Airbnb. Recentemente ela reservou um quartinho para disponibilizar no couchsurfing. A casa é toda aconchegante. A ideia da Leandra com o Airbnb é de se dar a oportunidade de viver viajando no futuro. Ela sente muita necessidade de sair de Urubici para conhecer novos lugares e novas pessoas. Acredito que ela esteja naquela fase de amarras e insegurança, e que falta apenas um impulso para sair viajando. Ela virou mãe muito cedo e teve que ralar muito pra criar os filhos. Hoje seus dois filhos já vivem suas próprias vidas. Creio que as amarras se foram, mas ainda é preciso superar a insegurança pra partir. 

Vou falar um pouco da minha experiência de partida. Só fiz meu primeiro mochilão com 27 anos, mas desde os 16 ou 17 anos sentia vontade de mochilar, principalmente para Machu Picchu. Os anos foram passando e sempre colocava outra coisa na frente da mochilada. Primeiro foi uma olimpíada do conhecimento, depois o trabalho, mais tarde o vestibular, graduação e trabalho novamente. Na graduação tive um descolamento entre pensamentos. Eu era muito convicto do que queria pra mim, pois sou de família humilde e ouvi a minha vida inteira que só estudando seria alguém na vida. Então, o que eu fiz foi estudar. Estudei muito. Tive muitas oportunidades com o estudo, mas ao mesmo tempo conforme ia ampliando o conhecimento técnico eu sentia um vazio dentro de mim. Estava ganhando muita coisa de um lado e de outro estava perdendo muitas outras coisas. A balança da vida é algo complicado. E esse vazio começou a desaparecer quando comecei a participar dos projetos sociais, como o Projeto Rondon e a TETO. A causa social que sempre esteve junto a mim ganhou prioridade e aquilo me fazia bem. Comecei a me contextualizar dentro da sociedade e queria de alguma forma ajudar. Estar no interior do Brasil ou dentro de favelas, me fez ser uma pessoa melhor, pois me fez perder diversos preconceitos. Ahh, como esses projetos me faziam bem. Quando a graduação terminou e me distanciei destes projetos, sentia a necessidade de viver o diferente novamente, de injetar vida em minha vida e a forma que encontrei foi mochilando. Por isso para mim, mais importante que viajar é como se viaja. Demorei dez anos para conseguir partir, agora pra mim a partida é fácil, pois quando vejo que endureço com a vida é hora de lembrar a quantidade de coisas boas que existem no mundo e o quanto que tenho a aprender com essa legião de boas pessoas que te ajudam sem mesmo saber quem é você. Não sou hipócrita de achar que essa é a única forma, para mim é a que funciona hoje, mas certamente num futuro próximo terei que buscar outras formas de não deixar a vida se escapar de mim. Acredito que cada pessoa que anseia mochilar, ao menos uma vez, terá que enfrentar seus próprios medos e encontrar a sua maneira de vivenciar esse mundo louco, mas cheio de belezas humanas e naturais. 

Acordamos cedo, como de costume. Pegamos umas dicas de lugares pra conhecer com a Leandra e decidimos seguir a pé para a cachoeira do Avencal. A cachoeira fica distante uns 8km da casa da Leandra. O acesso se dá na rodovia que liga Urubici com São Joaquim. Caminhamos na esperança de conseguir uma carona até a entrada do parque onde fica a cachoeira. O dia estava quente demais. Caminhamos e caminhamos. Para todo veículo que passava nós esticávamos o dedão na esperança de conseguir uma carona. Que saudades das Chapadas nessa hora, que mesmo sem pedir as pessoas ofereciam carona. A frase do Luis estava na cabeça e decidimos seguir caminhando sem pedir carona, e foi muito bom apesar do sol. Existem dois parques para avistar a Cachoeira do Avencal, fomos direto pro segundo, conforme conselho da Leandra. No primeiro mirante se paga cinco reais para entrar e se tem uma visão bem ruim da cachoeira. Sorte que a Leandra nos preveniu. No segundo mirante, que é o mais antigo, se paga sete reais na entrada e se tem uma bela vista da cachoeira. Ficamos um bom tempo ali, comemos nosso lanche e voltamos caminhando. Na volta o caminho é só descida e a visão da serra é lindíssima.

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Foto 2.2 - O início da caminhada

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Foto 2.3 - Na esperança de uma carona

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Foto 2.4 - Subindo

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Foto 2.5 - Não entre nessa

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Foto 2.6 - Quase lá

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Foto 2.7 - A cachoeira do Avencal

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Foto 2.8 - A cachoeira do Avencal

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Foto 2.9 - A cachoeira do Avencal

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Foto 2.10 - Para além da cachoeira

Voltamos para a casa da Leandra, ainda era meio da tarde. Ela nos emprestou duas bicicletas e partimos para o Morro do Campestre. A pedalada foi boa. Tivemos que acelerar algumas vezes por causa de cachorros que estavam louquinhos para morder nossos pés. É possível  avistar o morro de longe e quanto mais se aproxima mais lindo ele vai ficando. Depois de pouco mais de uma hora de pedalada chegamos ao pé do morro. Pagamos acho que dez reais de entrada e deixamos as bikes na entrada para subir a pé. Mais vinte minutos de caminhada e chegamos. Exploramos todo o morro. Pela tarde o tempo começou a fechar e as nuvens pintaram o céu. Por muito tempo foi somente eu e o Matheus no Morro do Campestre. Que belezura de lugar

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Foto 2.11 - .A subida de a pé até o Morro do Campestre

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Foto 2.12 - O bonitão do Campestre se anunciando

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Foto 2.13 - Matheus fazendo seu desejo após atravessar o portal

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Foto 2.14 - O cenário visto do topo do Morro do Campestre

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Foto 2.15 - Eu e o portal

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Foto 2.16 - E o céu se fechou

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Foto 2.17 - Explorando um pouco mais

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Foto 2.18 - Eu e a pose de sempre

Na volta pedalamos mais tranquilamente. Caraca, como é bom pedalar. Cheguei a pensar em fazer essa viagem de bicicleta, foi a ideia que mais ficou em minha mente, mas não foi dessa vez, entretanto só de estar ali pedalando aquele trechinho a sensação de liberdade e autonomia era grande demais. Chegamos e cozinhamos um macarrão com atum, ficou meio bosta, mas a Leandra mentiu dizendo que estava bem bom. O dia foi bem corrido, bem cedinho já estávamos dormindo.

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Foto 2.19 - Matheus e a volta de bike

Acordamos e vimos que chovia muito e a previsão era que choveria o dia todo. Assim, tiramos o dia pra tentar ajeitar alguma carona no futuro. Neste dia conversamos com muitos frentistas, donos de restaurante, etc. Todos diziam que seria muito fácil se fosse pelo meio de dezembro, na época de colheita das frutas, mas que por agora seria difícil. Fizemos o nosso dever de casa, tentamos. Era um sábado, dia de final de libertadores e eu e o Matheus estávamos muito afim de assistir o épico River x Boca. Foi difícil demais achar um boteco para ver o jogo. Sentamos e ficamos acompanhando a história do apedrejamento do ônibus do Boca. Fiquei bem chateado com tudo aquilo, queria demais que rolasse aquele jogo. Voltamos para casa da Leandra e o Matheus cozinhou uma lentilha bem encorpada. Ficou boa demais. Dessa vez a Leandra elogiou com razão. O Aílton irmão da Leandra jantou conosco nesse dia também. 

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Foto 2.20 - A Catedral de Urubici

A Leandra sabia que nossa principal intenção na cidade era conhecer o Cânion Espraiado. O Cânion fica mais de 40km do centro da cidade, então não daria pra ir caminhando. Caronas seria quase impossível, a cidade estava vazia naquele final de semana e os poucos que trafegavam por lá não se mostraram muito receptivos em oferecer carona. Neste sábado a Leandra conseguiu um carro emprestado para o dia seguinte nos levar até a entrada do Espraiado. O Aílton se prontificou de ir dirigindo, pois nem eu, nem Leandra e Matheus dirigem. Cara, nesse dia fui dormir mais que feliz, ver a Leandra e o Aílton se mobilizando para que nos dois tivéssemos a oportunidade de conhecer o Espraiado é das coisas mais bonitas que aconteceu nessa viagem. 

Acordamos cedo e partimos para o Espraiado. O dia se anunciou todo ensolarado, com pouquíssimas nuvens no céu. O caminho até a entrada é bem bonito, primeiro pega-se um rodovia asfaltada e depois um pista toda de terra. A Kalyssa foi junto e fez a festa dentro do carro. Chegamos cedo na entrada da trilha, nesta parte seguiu somente eu e o Matheus. A Leandra e o Aílton voltaram pra Urubici e combinamos um horário pra nos encontrarmos no mesmo lugar. Deste ponto até o Espraiado são 8km, e seguimos caminhando. O caminho é uma belezura, todo envolto de montanhas, árvores, flores e um rio para embelezar ainda mais o cenário. A caminhada foi tranquila. Quando chegamos no ponto mais alto era possível avistar o Cânion Espraiado. Quando eu o avistei sai correndo. A neblina estava subindo e começando a esconder o Espraiado. Pela minha experiência com cânions, sabia que era questão de minutos para que a neblina tomasse conta de todo o cânion. Enfim, corri. Chegamos na borda do cânion e ainda era possível ver o seu contorno. Seguimos caminhando pela borda. Como tinha chovido no dia anterior, o terreno parecia um brejo e atolamos umas duas vezes pelo caminho. A neblina dominava. Sentamos para comer. Quando terminamos tudo estava encoberto por neblina, não era possível enxergar mais que um metro na frente. Nessa hora o respeito a natureza tem que existir, e assim cuidadosamente seguimos o caminho para longe da fenda do cânion. Ainda ficamos um tempo no topo de uma cachoeira. No inicio da tarde iniciamos a trilha de volta ao ponto de encontro. A volta foi tranquila. Quando avistamos o ponto de encontro a Kalyssa estava junto da Leandra caminhando.

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Foto 2.21 - O ponto inicial

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Foto 2.22 - Que belezura!

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Foto 2.23 - Matheus caminhando

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Foto 2.24 - Eu e essa beleza de lugar

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Foto 2.25 - Matheus e essa foto show

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Foto 2.26 - O caminho pro Espraiado

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Foto 2.27 - O momento que decido correr

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Foto 2.28 - O Espraiado e a invasão de nuvens

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Foto 2.29 - A chegada na fenda

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Foto 2.30 - Eu e o Espraiado

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Foto 2.31 - Uma pose desnecessária

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Foto 2.32 - A nuvem

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Foto 2.33 - Matheus desaparecendo na neblina

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Foto 2.34 - O único lugar que não estava tomado por neblina

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Foto 2.35 - Que agora estava começando a ser tomado pela neblina

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Foto 2.36 - O topo da cachoeira

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Foto 2.37 - A cachoeira vista de cima

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Foto 2.38 - O caminho de volta

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Foto 2.39 - O caminho de volta [2]

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Foto 2.40 - Leandra e Kalyssa

No caminho de volta pra casa da Leandra paramos na Gruta Nossa Senhora de Lourdes. A gruta abriga uma mini igreja ao ar livre com direito a uma cascatinha que deságua do lado do altar. Coisa linda de se ver. Nunca tinha visto nada parecido. Depois eu e o Matheus fomos para o mercado e compramos os ingredientes para fazer cachorro quente e também umas cervejas, afinal meu aniversário era no dia seguinte. Pela noite comemos e bebemos. Demos risadas e a despedida já marcava o tom da conversa.

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Foto 2.41 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes

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Foto 2.42 - Gruta Nossa Senhora de Lourdes

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Foto 2.43 - Eu, Matheus, Kalyssa, Leandra e Thayran (filho da Leandra)

Acordamos cedo, fizemos uns lanches para levar na viagem. Resolvemos seguir de ônibus até o nosso próximo destino. Nos despedimos da Leandra e seguimos para Bom Retiro e depois Lages.  

Essa etapa da viagem foi das mais importantes. Eu e o Matheus conversamos bastante sobre como estava dando certo a viagem até aqui e que só faltava encaixar algumas caronas para tudo ficar perfeito. Nos dias em Urubici também conversamos muito sobre a necessidade de ter raiz em algum lugar e tentar fazer algo por esse lugar, e de alguma forma retribuir as oportunidades que tivemos nessa vida. Outra coisa da qual filosofamos um pouco foi que era fácil encontrar beleza em qualquer lugar enquanto se é viajante, mas que o principal desafio é ter essa mesma perspectiva no lugar em que estamos no dia a dia. 

Leandra, como eu te disse pessoalmente, muito obrigado por ter me dado a oportunidade de conhecer sua cidade e essa beleza que é a serra catarinense. Espero, de coração, que você consiga realizar esse seu sonho de conhecer novos lugares, de conhecer a visão de mundo de novas pessoas e de caminhar pelo desconhecido. Espero também que nunca perca sua alegria e que deixe as coisas acontecerem no seu devido tempo, mas quando partir for uma necessidade insuportável, apenas vá. Afinal, haverá diversas Leandras por ai de coração aberto para te ajudar em seu caminho. Novamente, obrigado e um beijo na alma.

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@Diego Minatel, sempre gosto de ver como você narra a experiência humana das suas viagens, a marca das pessoas que você encontrou pelo caminho.

As fotos ficaram incríveis! E gostei da legenda da foto 2.5! :) 

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2 horas atrás, LF Brasilia disse:

@Diego Minatel, sempre gosto de ver como você narra a experiência humana das suas viagens, a marca das pessoas que você encontrou pelo caminho.

As fotos ficaram incríveis! E gostei da legenda da foto 2.5! :) 

@LF Brasilia fico feliz em saber que esteja curtindo esse relato também. Ainda tenho muita coisa pra escrever 😉

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Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões

“Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.” Guerra e Paz, Leon Tolstoi

Quando ainda estávamos em Urubici decidimos cruzar a fronteira entre Brasil/Argentina por Uruguaiana. Com isso quis passar por São Miguel das Missões. Eu já conhecia a cidade (e curto demais esse lugar), mas o Matheus não conhecia ainda. Assim, quis colocar uma cidade histórica no roteiro e de alguma forma presentear o meu amigo que parou sua vida na Bahia para me acompanhar nessa aventura aleatória até o fim do mundo. O problema que eu não tinha nenhum contato em São Miguel, somente em cidades vizinhas das quais não queria parar por agora. Tentei couchsurfing e nada. Resolvi entrar em contato com uma das pessoas cadastradas pelo facebook. Mandei uma mensagem explicando nossa viagem e pedindo um quintal no qual poderíamos acampar. Recebi uma resposta com o nome de um casal que poderiam nos receber. Entrei em contato com o casal e o inesperado aconteceu, eles iriam nos abrigar na nossa estadia por São Miguel. Confesso que fiquei com receio de usar essa tática do facebook e a pessoa me entender errado. Em contrapartida, fiquei mais feliz da conta com essa inesperada hospedagem. 

Chegamos em Lages pelo meio da tarde. A rodoviária é bem organizada e espaçosa. Um bom lugar para se dormir. Iriamos pegar um ônibus de madrugada para Vacaria. Então, passaria meu aniversário dentro da rodoviária de Lages. Sai caminhar pela cidade, enquanto o Matheus cuidava das mochilas. Lages impressionou pela quantidade de pessoas bonitas. Quando eu voltei o Matheus estava sendo interrogado pelo chefe de segurança da rodoviária. Queriam saber quem eram nós e o que era aqueles isolantes térmicos que carregávamos, depois que viram que tínhamos passagens deram uma sossegada. Logo, eu fiquei cuidando das mochilas, enquanto era a vez do Matheus caminhar pela cidade. Fiquei deitado num canto da rodoviária e por todo aquele tempo um segurança não tirava os olhos de mim. 

Achei engraçada essa higienização dentro da rodoviária e assim tirar baderneiros, indigentes ou pessoas que perturbem a "paz" da rodoviária, só deixar quem for embarcar. Não vou entrar no mérito se é certo ou errado. O que chamou a atenção foi um acampamento indígena Kaingang (acho que eram Kaingang, mas podem ser Xokleng) na parte de fora da rodoviária. A cidade faz um grande esforço para manter a ordem num espaço público como a rodoviária, mas fecha os olhos para um problema real como a dos indígenas que vivem no relento na fria Lages.  Assim, preferem sitiar a rodoviária para que os índios não perambulem ou durmam por lá do que realmente resolver o problema. Já vi esse tipo de situação em diversas cidades do oeste de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Não sou muito fã de fazer aniversário. Pra mim estar ali aguardando na rodoviária e esquecer que fazia aniversário era o ideal. Quando a noite chegou o frio veio junto. As duas da madrugada seguimos para Vacaria. Chegamos era quatro horas da manhã. Na hora que sai do ônibus senti o maior frio da minha vida. Chegava a doer. A rodoviária de Vacaria estava fechada e não estava com a vestimenta mais adequada. Que frio da porra. Já não conseguia mais raciocinar. Até que achamos um hotel/bar que estava aberto e fomos até lá para nos abrigar. Pedimos um café e ficamos sentados tremendo. Permanecemos no local até quase oito horas da manhã. Depois fomos para a rodoviária e pegamos o ônibus para Santo Ângelo. A viagem foi tranquila. Pela janela ou eu via pastos ou eu via plantações de arroz. No fim da tarde chegamos em Santo Ângelo e seguimos para São Miguel das Missões.

São Miguel das Missões é uma cidadela de quase dez mil habitantes. A cidade teve origem nas reduções jesuíticas presentes na região pelo século XVII conhecidas como os sete povos das missões. Os setes povos das missões são São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Lourenço, São João, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo. Esses setes povos são o berço da colonização do Rio Grande do Sul. São Miguel das Missões abriga o sítio arqueológico de São Miguel do Arcanjo, que é um patrimônio mundial declarado pela UNESCO, que acomoda as ruínas das reduções jesuíticas daquela época.  

Chegamos em São Miguel já era mais de sete horas da noite. Caminhamos rumo a casa da Karine e do Mário. Passamos pelas ruínas. A casa deles ficam muito perto da entrada das ruínas. Batemos na casa e o quarteto de cachorros veio nos recepcionar. Todos latiam. Logo a Karine chegou com seu sorriso característico. Sentamos pra conversar e nos conhecer. O quarteto peludo foi apresentado, são três shitzus (Marley, Maia e Zeca) e a poodle Laica. Gostei de todos, mas o Zeca é um cachorrinho especial, ele é amoroso, companheiro, farrista, engraçadinho e quando você está sentado ao bater palmas ele pula no seu colo e fica só no chamego. A conversa com a Karine foi bem boa. Ela contou sobre a sua história e explicamos melhor nossa viagem. O tempo estava meio chuvoso e a previsão era que para o dia seguinte seria chuva o dia todo. A Karine disse para aproveitarmos e já ir assistir o espetáculo Som e Luz nesse mesmo dia. Então, fomos.

O espetáculo Som e Luz é algo realmente diferente, é uma belezura de espetáculo. Todos os dias pela noite é contada a história das missões jesuíticas na região com apenas luzes apontadas nas ruínas e com narração da Fernanda Montenegro. Tudo isso ao ar livre. Saber um pouco mais sobre a relação de dominação dos jesuítas com o povo guarani e depois a resistência guarani com os colonizadores é de encher os olhos. É a verdadeira história do nosso país contada de uma forma magistral e bela. Gosto demais da forma que é contada, alçando verdadeiros heróis da nossa história como o índio Sepe Tiaraju, o líder da resistência guarani. Vou copiar aqui o trecho que explico melhor o motivo da guerra, esse texto fiz no outro mochilão que passei por São Miguel.

"A ruína na verdade é o sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (patrimônio mundial da UNESCO), na época das missões jesuítas foram instauradas várias "comunidades" onde viviam os evangelizadores (jesuítas) com os ameríndios, que nesse caso foram os Guaranis, com propósito de impor a crença cristã e os costumes de vida do europeu. Vale a pena dizer que nessa época esse território era espanhol, e depois de dezenas de anos vivendo em "harmonia" (jesuítas e guaranis), os espanhóis queriam restaurar o domínio de Colônia do Sacramento e assim "trocaram" a região das missões por Colônia com os portugueses, assim as comunidades teriam que ser esvaziadas. Os guaranis não aceitaram sair de onde, agora, eram suas terras. Guerra-pós-guerra os portugueses dizimaram os guaranis da região e reassumiram a "ordem", mas não sem antes criar um herói entre os guaranis, Sepé Tiaraju, líder da resistência guarani. As guerras também foram às responsáveis por deixar em ruína o lugar." Caminhando por quase todo o Brasil, Uruguai e um pouco de Venezuela em seis meses de estrada, Diego Minatel

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Foto 3.1 - O espetáculo Som e Luz no sítio arqueológico São Miguel de Arcanjo

Voltamos já era quase onze horas da noite. Conhecemos o Mário, marido da Karine, e o filho do casal, o João que tinham acabado de voltar do futebol. Nessa noite a pacata São Miguel teve um capítulo que tirou a tranquilidade da cidade. Enquanto eu, Matheus, Karine e Mário conversávamos pela noite, os vizinhos do lado bebiam mais além da conta e ficaram badernando a noite toda. O problema que um deles saiu de carro bêbado e atropelou uma senhora e saiu sem prestar socorros. No outro dia só se ouviu falar sobre esse acontecimento pela cidade.

Acordamos cedo (já virou redundante escrever isso). Dormimos no ateliê do Mário. Mário e Karine são artesões e boa parte dos artesanatos vendidos nas lojinhas que ficam em frente da entrada do sítio arqueológico são feitos por eles. O Mário ainda trabalha como segurança nas ruínas pelas noites. Ou seja, eles tem uma relação direta com as ruínas, mas isso é história pra depois. Nesse dia, ao acordar o Marião já veio com sua térmica do Internacional e com a cuia de chimarrão. Fizemos uma roda de mate ao som de música gaúcha. Gosto de música gaúcha. Ficamos ali conversando mais um pouco  e se conhecendo melhor. 

Acho interessante a função social do chimarrão. As pessoas se reúnem em volta dele e aproveitam para colocar a conversa em dia. Enquanto tem água na térmica a conversa continua. E a roda de chimarrão é feita várias vezes ao dia. Gosto de chimarrão, mas gosto mais de estar numa roda de chimarrão jogando conversa fora. E foi numa dessas rodas de chimarrão com o Mário que ele se mostrou um cara todo participativo na vida da cidade. Ele é treinador de futebol de salão da garotada da cidade e também na comunidade indígena. Ainda é presidente de associação de turismo de São Miguel. Acompanha o grupo de dança do centro de tradições. Eu e o Matheus brincávamos com ele dizendo que ele seria o próximo prefeito da cidade, mas de verdade, seria uma boa. 

Depois fomos para as ruínas. A entrada custa quatorze reais. Não vou falar muito sobre as ruínas, vou deixar as imagens falarem por si. É uma belezura de lugar. A energia que o lugar transmite é demais. Apesar do passado relacionado as missões jesuíticas, as ruínas de São Miguel das Missões também é um símbolo da resistência guarani contra os colonizadores. E isso que me encanta. Afinal, máximo respeito aos guaranis.

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Foto 3.2 - As Ruínas de São Miguel das Missões ou Sítio Arqueológico de São Miguel de Arcanjo

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Foto 3.3 - Que belezura

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Foto 3.4 - Tentando o enquadramento perfeito

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Foto 3.5 - Sou a resistência, todo respeito ao povo guarani

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Foto 3.6 - A vista do interior

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Foto 3.7 - A minha foto favorita

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Foto 3.8 - Matheus e as ruínas

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Foto 3.9 - A porta

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Foto 3.10 - O fundo

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Foto 3.11 - O topo

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Foto 3.12 - Outro ângulo

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Foto 3.13 - Minha cara amassada e a beleza das ruínas

Não fomos os primeiros viajantes que a Karine e o Mário hospedaram. Por incrível que pareça eles hospedaram por duas oportunidades pessoas que também estavam viajando para Ushuaia. Nessas duas ocasiões eram casais que viajavam de Kombi. Porém, foram situações diferentes de hospedagem. No nosso caso fomos cara de pau ao extremo entrando em contato no facebook. Com esse pessoal de Kombi a Karine conheceu pela cidade enquanto os mesmos turistavam e assim, trouxe-os para casa. Karine tem um coração gigantesco. O curioso é que essas duas viagens de Kombi tiveram problemas mecânicos no meio da viagem, com isso os viajantes tiveram que desistir de Ushuaia e voltar pra casa ou mudar o rumo da viagem. Confesso que fiquei com um pouco de medo desse histórico da Karine (risos). Brincávamos que tiraríamos essa zica dela.

Depois de voltar das ruínas almoçamos com a Karine. Conversamos mais um pouco com ela. Sempre bom conversar com a Karine. Um tempo depois caminhamos para conhecer a fonte missioneira. Fomos caminhando devagarzinho. Chegamos na fonte e ficamos trocando ideia por bastante tempo. Quando estávamos voltando veio um temporal. Tomamos muita chuva. Encontrávamos abrigo, secávamos e quando achávamos que dava pra seguir, chuva novamente. E foi assim, tomamos chuva umas quatro vezes. 

Nesse dia a Karine nos contou a história dela e do Mário. Quando ela era estudante do ensino médio em Constantina/RS veio numa excursão escolar conhecer as ruínas em São Miguel das Missões. Nessa viagem ela conheceu alguns meninos da cidade de São Miguel e um deles, chamado Lucas, se encantou por ela e ficou todo o dia pentelhando ela. Eles acabaram se beijando e trocando telefones. Por meses trocaram cartas, mas depois veio um hiato de mais de um ano. Num dia o Lucas ligou para Karine convicto que queria voltar a vê-la. Ele viajou até Constantina e conheceu toda sua família. Assim, os dois foram estreitando as relações. Em um dia foi a vez da Karine ir visitar o Lucas em São Miguel. Nesse dia ela descobriu que ele não se chamava Lucas, e sim Mário (risos). Mário quando era moleque aproveitava o fluxo de turistas nas ruínas para paquerar as gurias de outras cidades, e sua tática em conjunto com os amigos era trocar de nome ao se apresentar pras gurias, e Lucas foi o usado com a Karine. Ele só não imaginou que se apaixonaria naquele dia. E depois continuou com a mentira para não se passar por mentiroso (risos). No fim, ele se explicou para a Karine e se acertaram de vez. E estão juntos a quase vinte anos e são o casal símbolo das ruínas de São Miguel.

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Foto 3.14 - Karine e Mário, o casal das Missões (foto que peguei no facebook da Karine)

E o mais curioso de tudo é que naquele dia faziam exatos vinte anos que os dois se conheceram. Eles iam sair numa noite romântica, mas no inicio da noite o Mário nos chamou pra tomar umas cervejas. Fiquei meio encabulado a principio. No fim, eles decidiram passar essa noite conosco. Que honra a nossa. Na frente da casa tomamos umas brejas, e eu não parava de rir com o Mário contando a sua versão da história do Lucas. O Mário é um cara gente boa demais. Depois saímos de carro, ao som de Raça Negra e do desafinado coral dentro do carro conhecemos um pouco mais do interior da cidade. Raça Negra une os povos (risos). Foi bom demais esse momento. Depois voltamos e comemos umas pizzas pra comemorar. No final do jantar, eu e o Matheus agradecemos a Karine e ao Mário por aqueles dias mais que especiais. Na verdade, não há palavras para agradecer tudo que eles fizeram por nós, mas tentamos. Terminamos o dia assistindo o final do jogo do Atlético Parananense contra o Fluminense pela semifinal da sulamericana. Antes de dormir eu e o Matheus conversamos sobre como tudo aquilo tinha sido bom demais. Estávamos atraindo coisas melhores que imaginávamos e tínhamos certeza que no dia seguinte as caronas aconteceriam.     

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Foto 3.15 - João, Mário, Laica (no chão), Karine, Zeca (escondido entre a Karine e o Matheus), Matheus, Marley, Maia e eu.

Antes das sete da manhã saímos de São Miguel das Missões. O Mário nos deixou no posto que fica no trevo que dá acesso a cidade (mais ou menos 15km). Nos despedimos pela última vez do Marião e agora outra vez iriamos tentar seguir nosso caminho por meio de caronas. 

Nunca imaginaria que voltaria para São Miguel tão cedo. Três anos depois estava eu lá, novamente. Da outra vez foi só uma visita, já dessa vez vivi um pouquinho a cidade e tive o prazer de conhecer o casal que as ruínas uniu. Karine e Mário, não consigo traduzir em palavras o que vocês significaram para mim nessa viagem ou o quanto gosto de cada um de vocês. Nada do que eu falar vai equiparar o quão bom vocês foram, o que eu tenho que fazer é aprender com o exemplo de vocês e tentar ser um cara melhor daqui pra frente. Muito obrigado por tudo, de coração.  

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2 horas atrás, FlavioToc disse:

Excelente o relato. Uma história agradável de ler.😁

@FlavioToc, valeu man! Ainda tem muitos quilômetros a percorrer nessa história 💪

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    • Por Diego Minatel
      Para mim é algo realmente complicado traduzir em palavras os momentos vividos nos dias da minha viagem. Viagem esta que não se traduz num simples mochilão ou turismo de longa duração. Foi o encontro de uma pessoa comum com seu sonho de andar por terras que tanto o inspiraram, terras mãe da esperança, terras de homens e mulheres feitos de histórias e de coração, corações gigantescos. O sentimento que fica depois de quase seis meses na estrada é o de gratidão, do agradecimento as infinitas pessoas que ajudaram esse pobre viajante das mil e uma maneiras possíveis, para vocês meu muito obrigado.

      Foto 1 - A companheira de viagem
      Tinha uma vida igual a tantas outras, era bem razoável por sinal, mas a vontade de caminhar e estar frente a frente com o novo me atormentava todos os dias. Queria conhecer com meus olhos as diferenças, os sotaques, as comidas, as belezas. Desejava não ter pressa, fazer tudo no seu tempo necessário, não estar preso a rotina dos dias e principalmente aprender. Sim, aprender, não com fórmulas prontas e nem sentado dentro de uma sala de aula. Queria aprender com experiências. Queria conhecer pessoas. De alguma forma queria fugir da minha vida cotidiana, não por ela ser ruim, mas pelo desejo de se conhecer e assim, quem sabe, voltar uma pessoa melhor. Quando esse sentimento passou a ser insuportável decidi que tinha que partir.
      Por um ano ajuntei algum dinheiro, queria ficar seis meses na estrada. A grana não era o suficiente, mas suficiente era a minha vontade. Dei um ponto final no trabalho. Abri o mapa e não tinha ideia por onde começar. Decidi não ter um roteiro, apesar de ter muitos lugares em que eu queria estar.
      Assim começa a minha história (poderia ser de qualquer um). O relato está dividido da seguinte forma:
      Parte 1: de Rio Claro ao Vale do Itajaí
      Parte 2: Cânions do Sul
      Parte 3: de Torres a Chuí
      Parte 4: Uruguai
      Parte 5: da região das Missões a Chapecó
      Parte 6: Chapada dos Veadeiros e Brasília
      Parte 7: Chapada dos Guimarães
      Parte 8: Rondônia
      Parte 9: Pelas terras de Chico Mendes, Acre
      Parte 10: Viajando pelo rio Madeira
      Parte 11: de Manaus a Roraima
      Parte 12: Monte Roraima y un poquito de Venezuela
      Parte 13: Viajando pelo rio Amazonas
      Parte 14: Ilha de Marajó e Belém
      Parte 15: São Luis, Lençóis Maranhenses e o delta do Parnaíba
      Parte 16: Serra da Capivara
      Parte 17: Sertão Nordestino
      Parte 18: Jampa, Olinda e São Miguel dos Milagres
      Parte 19: Piranhas, Cânion do Xingó e uma viagem de carro
      Parte 20: Pelourinho
      Parte 21: Chapada Diamantina
      Parte 22: Ouro Preto e São Thomé das Letras
      Parte 23: O retorno e os aprendizados
      O período da viagem é de 01/10/2015 a 20/03/2016. De resto não ficarei apegado nas datas exatas em que ocorreram os relatos que irão vir a seguir, tampouco preocupado em valorar tudo. Espero contribuir com a comunidade que tanto me ajudou e sanar algumas dúvidas dos novos/velhos mochileiros.
    • Por matheusinacioca
      E aí, tudo bem
      Estou terminando de organizar minha viagem e preciso de algumas dicas...
      Meu voo de ida chega em Buenos Aires dia 19.01.19 (onde já tenho reservado no HOSTAL MILLHOUSE AVENUE até dia 22.01.19) e meu voo de volta sai de Ushuaia dia 23.02.19; concluindo assim 36 dias de roteiro.
      Meu segundo destino depois de BNA é Bariloche (vou de ônibus, empresa: VIA BARILOCHE). A partir de Bariloche a ideia é ir para el Bolsón, el Calafate-el Chaltén, Puerto Natales (parque Torres del Paine), e por fim, Ushuaia. Pretendo fazer todos esses trajetos de bus... 
       
      Minhas duvidas são em relação da quantidade de dias que reservo para cada cidade... Pensei da seguinte maneira:
       
      BUENOS AIRES: 3-5 dias
      BARILOCHE: 4 dias (até pensei em ficar mais, mas devido ao preço da cidade não sei se convêm)
      EL BOLSON: 4 dias
      EL CALAFATE: 3 dias
      EL CHALTEN: 5 dias
      PUERTO NATALES (P.TOR.PAINE): 6 dias
      USHUAIA: 5-7 dias.
       
      *Outras duvidas:
      1.devo agregar no trajeto: Villa la Angostura??... vi que tem bastante coisa legal por lá.
      2. de el Calafate vou para Puerto Natales, onde o objetivo é fazer o Parque Torres del Paine, acho que vou acabar optando pelo W, alguém tem alguma dica sobre??
      3. posterior ao Parque Torres del Paine, tenho que voltar para el Calafate pra descer até Ushuaia, trajeto que pretendo fazer de ônibus, vi que tenho que ir primeiro para Rio Gallegos... seria interessante reservar 1-2 dias para conhecer está cidade? ou melhor sigo direto para Ushuaia?
      4. en el Calafate, no glaciar Perito Moreno... minitrekking vs. big ice... já li tanto sobre isso que ainda não consegui decidir... alguém que fez, tendo em conta os valores, vale a pena o Big Ice?
      5. el Chaltén, pode fazer camping no Fitz Roy??
      6. Estendo para 5 dias em Buenos Aires antes de descer para Bariloche, ou 3 já está de bom tamanho?? quero conhecer Tigre tb...
       
      Desde já muito obrigado galera
    • Por matheusinacioca
      E aí, tudo bem
      Estou terminando de organizar minha viagem e preciso de algumas dicas...
      Meu voo de ida chega em Buenos Aires dia 19.01.19 (onde já tenho reservado no HOSTAL MILLHOUSE AVENUE até dia 22.01.19) e meu voo de volta sai de Ushuaia dia 23.02.19; concluindo assim 36 dias de roteiro.
      Meu segundo destino depois de BNA é Bariloche (vou de ônibus, empresa: VIA BARILOCHE). A partir de Bariloche a ideia é ir para el Bolsón, el Calafate-el Chaltén, Puerto Natales (parque Torres del Paine), e por fim, Ushuaia. Pretendo fazer todos esses trajetos de bus... 
       
      Minhas duvidas são em relação da quantidade de dias que reservo para cada cidade... Pensei da seguinte maneira:
       
      BUENOS AIRES: 3-5 dias
      BARILOCHE: 4 dias (até pensei em ficar mais, mas devido ao preço da cidade não sei se convêm)
      EL BOLSON: 4 dias
      EL CALAFATE: 3 dias
      EL CHALTEN: 5 dias
      PUERTO NATALES (P.TOR.PAINE): 6 dias
      USHUAIA: 5-7 dias.
       
      *Outras duvidas:
      1.devo agregar no trajeto: Villa la Angostura??... vi que tem bastante coisa legal por lá.
      2. de el Calafate vou para Puerto Natales, onde o objetivo é fazer o Parque Torres del Paine, acho que vou acabar optando pelo W, alguém tem alguma dica sobre??
      3. posterior ao Parque Torres del Paine, tenho que voltar para el Calafate pra descer até Ushuaia, trajeto que pretendo fazer de ônibus, vi que tenho que ir primeiro para Rio Gallegos... seria interessante reservar 1-2 dias para conhecer está cidade? ou melhor sigo direto para Ushuaia?
      4. en el Calafate, no glaciar Perito Moreno... minitrekking vs. big ice... já li tanto sobre isso que ainda não consegui decidir... alguém que fez, tendo em conta os valores, vale a pena o Big Ice?
      5. el Chaltén, pode fazer camping no Fitz Roy??
      6. Estendo para 5 dias em Buenos Aires antes de descer para Bariloche, ou 3 já está de bom tamanho?? quero conhecer Tigre tb...
       
      Desde já muito obrigado galera


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