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Pô, meus joelhos doem só de ler o relato. hahaha

Excelente relato.. bem completo.

Parabéns pelo feito galera! 

  • Gostei! 1

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16 horas atrás, _Umpdy disse:

Pô, meus joelhos doem só de ler o relato. hahaha

Excelente relato.. bem completo.

Parabéns pelo feito galera! 

Obrigado, @_Umpdy

Os joelhos choram, mas somos teimosos! ::otemo::

Abraços!

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    • Por Jonas Silva ForadaTribo
      Preparação
      Mais uma vez começamos um planejamento para uma trip em grupo, e acabamos terminando em dois só, kkkk.
      Levantamos muita informação, dados, e dicas. Não é segredo algum que minhas viagens geralmente não contam com guia contratado, eu mesmo navego e planejo tudo. De posse das informações, havíamos levado dois meses aprendendo sobre a Serra dos Órgãos, talvez por isso as pessoas desistiram. Tiveram tempo de pensar no que fariam. Encarar uma grande aventura exige mesmo espírito livre.
      A Grande Jornada
      Em 19/07/19 saímos de Campo Mourão às 00:00, foram 1.100 km de estrada, cerca de 17h de viagem. Ainda bem que um dos passageiros que me acompanhou (BlaBlaBla Car) se dispôs a dirigir entre São Paulo e o Nova Iguaçú. Foi um dia todo na estrada. Chegamos em Terezópolis já se passavam das 17:50; o primeiro furo da viagem. Eu havia estimado chegar em Tere dia 20/07 antes das 17h e conseguir viajar até Petrópolis no mesmo dia ainda, dormindo próximo da portaria lá. Doce ilusão, já era noite e tive de procurar um camping ainda, mas tudo certo os Óreas (deuses da montanha) sempre fazem certo.
      Paciência ... tenha paciência.
      Levantamos acampamento ás 06:00, que é a hora que abre (deveria abrir) o Parque em Tere. Chegamos na portaria para guardar o carro e lá estava um aglomero de gente, logo fiquei sabendo que a recepcionista não tinha chegado. Foram 45min de espera, enquanto isso ia aumentando a fila. Quando a mulher chegou já armou-se um fuzuê danado, o povo queria brigar ao invés de me deixar fazer checkin. Com muito trabalho consegui fazer o meu checkin e deixei o povo lá batendo boca.
      Com o carro estacionado voltei para a portaria na esperança de um Uber me levar a Petro. Outra trabalheira danada, uns cinco motoristas recusaram a viagem, chegaram a pedir dinheiro por fora pra fazer o carreto, mó sacanagem. Mas o sexto Uber não hesitou e nos levou ao destino.
      Dia 1, subida, subida, s u  b   i    d     a      .        .          .
      Às 10:15 começamos a trilha, foram 7h de subidas sem fim, mas com um visual de tirar o fôlego, até o desgaste físico passa desapercebido diante da exuberância da mão verde.
      Quase todo o dia foi por dentro do Vale do Bomfin subindo suas encostas. Quase no fim do dia chegamos a Isabeloca de onde já podemos avistar a Baía de Guanabara e os Castelos do Açú, nossa parada para dormir. No final da tarde, o pôr do Sol visto do Morro do Açú foi apaixonante. Leia mais aqui.




       
      Dia 2, sobe e desce, sobe e desce...
      O segundo dia é o mais intenso de toda a travessia, e provavelmente um dos mais belos dias que você pode passar na vida. Toda a cadeia da montanhas da Pedra do Sino ficam de frente para nós. A navegação também é mais complicada, presenciamos alguns grupos perdidos (geralmente pessoas sem experiencia ou fanfarrões).
      A cada descida uma subida maior esperava do outro lado, mas tinha-mos a certeza que o visual depois da ascensão e durante a próxima descida seriam ainda mais incríveis. Foram cerca de 8 km, caminhamos por 6 morros (Morro do Açú, Morro do Marco, Morro da Luva, Morro do Dinossauro, Pedra da Baleia e Pedra do Sino), é nesse trecho também que ficam os obstáculos mais difíceis (Elevador, Lajão, Grotão e Cavalinho). Eu particularmente me apaixonei pela pedra conhecida como Garrafão, talvez seja a lembrança que ela me traz que tenha me conquistado. Foi um dia realmente incrível e às 17h novamente chegamos no Abrigo. Ainda tive tempo de tomar um banho frio numa tarde de 4º C. Leia mais aqui



       
      Dia 3, uma corridinha para encerrar a travessia.🏃‍♂️
      Levantei com o escuro e subi novamente na Pedra do Sino contemplar a sinfonia de Apolo ao empurrar seu Astro sobre as montanhas.
      Saímos do abrigo às 07:15, a partir daí só descida praticamente uma trilha bem relax, com a oportunidade de avistar Teresópolis de cima, o Morro da Caledônia e os Três Picos no horizonte. De brinde uma vista por entre as montanhas da Granja Comari, onde um dia já treinou uma seleção de dar medo. Chegamos na barragem às 11:00 fizemos a trilha suspensa e conhecemos o encanto (Cachoeira Peri e Ceci) onde nasceu uma obra prima nacional: "O Guarani". Deixei a tralha no carro e tomei a trilha para o mirante do cartão postal, logo na entrada li que tinha 1.200 m, e eu com pressa; ainda tinha 1.110 km de rodovia até a casa. Não deixei me abalar, liguei a Go Pro e saí em disparada, em 15 min estava de frente para a formação que encantou os portugueses. Mais 15 min estava novamente no carro, exausto agora.




      Reuni tudo, dei uma parada para repor as calorias e às 14:00 rumava novamente para o Paraná, dessa vez tive de dirigir sozinho por 16h. 06:30 do dia 24 de julho eu deligava o carro com aquela sensação de euforia, sinônimo de missão cumprida, só no aguardo da próxima. Leia o relato completo aqui.
       
    • Por casal100
      Em julho de 2.019, realizamos bate/volta nos 3 Picos mais importantes da Serra Fina (Mina, Capim Amarelo, 3 estados)
      A NOVELA: PEDRA DA MINA
      Para muitos o bate/volta na Pedra da Mina é um dos trekkings mais difíceis de se fazer em um dia, devido a quantidade de subidas e descidas fortes,  tem dois lugares complicado, até pelos nomes já dá para preocupar: o "Deus me livre" e o "Misericórdia". Sem contar os relatos de pessoas que se perderam e tiveram que ser resgatados pelo corpo de bombeiros.Diante disso, esse trekking me consumiu muito tempo e estudo (coisa que geralmente não faço). Apesar de se preparar adequadamente,  ainda assim, se perdemos justamente no início da trilha. Faz parte da aventura.
      Farei um relato diferente,  é muito difícil pessoal que se perdeu em determinado lugar, explicar o que aconteceu depois. Vou procurar descrever o máximo possível para outras pessoas não errem o início da trilha para o Pico da Mina. Apesar de ser bate/volta no mesmo dia,  tivemos que levar muita roupa de frio (na semana no pn itatiaia pegamos -4°), muita água  (3 litros cada) e comida para 2 dias (se perdemos na trilha teríamos mantimentos até o resgate), nossas mochilas ficaram com +-10 kgs.
       
      CAPÍTULO 1:  PEDRA DA MINA - Conhecendo o caminho até a fazenda Serra Fina,  início da trilha.

      16° dia - 13.07.2019 - Sábado

      1° dia - Saída de Santana do Capivari-Mg de carro, ida até a cidade de Passa Quatro comprar lanternas (1 se cabeça a $9,90 e 1 de mão  $12), luva de moto $10, pilhas, comida para  subida da Pedra da Mina. Fomos até o Paiolinho/fazenda Serra Fina  conhecer o caminho e ver se tinha onde ficar, descobrimos a casa do Zé, dono dum restaurante antes do paiolinho..

      Para não se perder durante a madrugada de carro, na subida entre Passa Quatro e a fazenda Serra Fina(na nossa previsão iríamos dormir em PASSA QUATRO, acordaríamos as 02:30 da manhã e subiríamos até o início da trilha de carro).
      Tiramos o sábado para ir de carro até lá para gravar bem esse roteiro,  quando se faz bate/volta longo e difícil, como a PEDRA DA MINA,  tem que começar bem cedo, pois pode acontecer de se perder(FOI O QUE ACONTECEU).

      Saímos do centro de Passa Quatro-Mg e chegamos no trevo da rodovia asfaltada, atravessamos e pegamos estrada que começa neste local, não pega a Br(tem um restaurante do lado esquerdo da estrada asfaltada que vai para a fazenda Serra Fina, essa estrada começa  do lado direito desse restaurante). Dirigimos +- 1 km, asfalto com muitos buracos, chegamos numa bifurcação  (tem uma placa informando que são 12 kms até o Paiolinho) viramos à esquerda e pegamos estrada de terra em boas condições, mas subida forte, depois de uns 6 kms pegamos um pequeno trecho com pedras médias(devagar, passa tranquilo), após uns 100 metros chegamos numa bifurcação  (do lado esquerdo tem uma casa amarela com piscina) seguimos reto - 1125msmm
      OBS.: Já fizemos esse trecho à pé várias vezes, no caminho dos anjos(2 vezes), na Estrada Real  (4 vezes) e no CRER (1 vez), até essa bifurcação não teríamos problema na madrugada.

      Logo depois da bifurcação tem um pequeno trecho com muitas pedras. Continuamos sempre subindo, alguns trechos com algumas pedras(tem algumas entradas de fazenda) e quebra mola. Após um tempo chegamos numa bifurcação(tem uma casinha branca em cima dum morrinho à esquerda),  SEGUE À ESQUERDA  (tem uma plaquinha branca no início desse trecho) - 1185msnm.
      Começa trecho de descida e logo à frente subidas fortes,  chegamos num entrocamento(tem um grupo escolar do lado esquerdo) continuamos reto, logo a seguir chegamos numa bifurcação que tem uma árvore bem alta, seguimos reto (NÃO vire à esquerda) (depois de umas casas - bairro PAIOLINHO) - 13 Kms desde Passa Quatro-MG - 1305msnm .
      A subida ficou mais forte,  tem um quebra mola (CUIDADO) tem duas entradas à esquerda,  CONTINUE RETO, chegamos numa virada e logo a seguir uma PONTE COM VÃO NO CENTRO (CUIDADO), depois de poucos metros chegamos na fazenda Serra Fina (muitos carros estacionados).
      Dona Maria, de Segunda-feira a sexta fica o dia todo.
      No sábado ela fica até meio dia, sai e fica no Paiolinho +- 3km(casa branca com um pé de maracujá,  em frente a escola) até domingo no final da noite. Estacionamento  $20. Se por acaso chegar na fazenda e não tiver ninguém,  deixe o carro no estacionamento e na volta paga para dona Maria,  sem problema ok
      Esporadicamente pode armar barraca no estacionamento da fazenda Serra Fina (não cobra,  mas não tem banho nem refeição).
      Obs.: acredito que se tiver chovido nos dias anteriores, dificilmente carro sem tração nas 4 rodas conseguem subir até lá.

      No restaurante do Zé, +-4kms antes da fazenda Serra Fina:
      Tem camping: $20 por pessoa por dia

       (refeição +-$25 por pessoa, frango caipira $60 só o frango inteiro) porções à parte).
      Arroz  $9
      Feijão  $9
      Salada $8 (alface tomate cebola)
      Linguiça  $15
      Boi $10
      Truta $30 porção
      Porções servem 4 pessoas.

      Tem hospedagem(na casa do Zé e da mãe) a uns 500 metros antes do restaurante:
      Casa pequena: $80 casal
      Casa grande: $80 casal
      Por pessoa: $40 por dia
      Só o banho: $10 cada
      Cozinha completa sem microondas tem fogão à lenha.
      Zé: 35 99934-6593 sem whattsap
      O sinal da operadora vivo não é constante na casa do Zé.
      Do restaurante a fazenda Serra Fina são aproximadamente 4 kms
      Se for chegar à noite tem que pedir para deixar refeição pronta para quem ficar hospedado na casa(eles deixam a comida pronta e você esquenta quando chegar, tem fogão à gás na casa que alugam).
      Negociamos com o Zé e pernoitamos na casa dele, e já deixamos encomendada a comida para o outro dia, pois chegaríamos tarde na volta do pico da Mina. Preço: $80 o casal sem caféda manhã. Jantar $25 por pessoa.
    • Por RogerioAlexandre
      Travessia da Serra Fina Full – 3 dias
      Sabe aquela sensação de que “faltou algo”? Então... havíamos concluído uma grande travessia,
      que intitulamos de Travessia da Serra Fina Full, acrescendo à travessia tradicional o cume de
      todas as montanhas próximas. Subimos, de ataque, o Tartarugão, o Ruah Menor (ou Ruah Leste
      – conforme relato de um montanhista que nos precedeu ali), os Camelos 1, 2, 3 e 4, o São Joao
      Batista (ou do avião), o Cabeça de Touro...mas não ascendemos ao cume do Ruah Maior (ou
      Ruah Norte – conforme o relato desse mesmo montanhista precursor). Ou seja, faltara algo. Na
      incursão anterior, cogitamos entre o subir ou não aquela montanha pelo horário em que
      começaríamos a ascensão, pois sendo inverno e passando pouco das 15h, seríamos obrigados a
      descer a noite, com visibilidade quase zero pela neblina que ameaçava formar, por uma região
      desconhecida, sem trilha e com a temperatura abaixo de 0C. A prudência prevaleceu e não
      fomos. Terminamos a travessia, mas o não acumear do Ruah Maior nos ficou atravessado...
      então, quando o Douglas propôs no grupo, que retornássemos à SF e repetíssemos o feito, dessa
      vez, com o Ruah Maior, não lembramos do cansaço, da fome ou do frio... topamos na hora.
      A questão agora não era “se”, mas “quando”. Temporada de montanha findando, os
      compromissos profissionais de cada um conduziram para a única data viável para 2018 ainda:
      aproveitar o feriado do Dia da Independência, 7/9, que cairia numa sexta. Sairíamos de SP assim
      que possível, para iniciar a subida à noite e aproveitar o enregelante frescor noturno para
      caminharmos mais leves, poupando peso e pernas. Só que isso nos traria outro desafio: o feriado
      cairia na sexta, de forma que teríamos apenas 3 dias nas montanhas: sexta, sábado e domingo.
      Daríamos conta?!? Procuramos nos lembrar da caminhada anterior, das sobras de tempo, das
      dificuldades, do cansaço.... Acreditávamos que sim, mas sabíamos bem como subir montanha
      no papel, na fala, difere da realidade... o somar dos infindáveis passos, o perseverar,
      independente da falta de folego... balançávamos entre o tentar ou não, quando notamos que
      seria Lua Nova. Se na travessia anterior a Lua Cheia tudo iluminava, ao ponto de trilharmos com
      as lanternas apagadas nos trechos de crista... dessa vez teríamos o mar de estrelas por
      testemunhas do feito. Foi o que bastou para nos decidirmos. Já éramos conhecedores das
      incríveis fotos da via láctea a partir da PM, e sabíamos, também que as fotos não faziam jus a
      real beleza que veríamos.
      Ao grupo original (Douglas, Marinaldo, Rodrigo e Rogério) somaram-se alguns amigos que
      acreditávamos darem conta da empreitada: Leonardo, Adilson, Zagaia. Compromissos familiares,
      complicações de saúde prejudicaram a participação do Adilson e do Rodrigo. Sob recomendação
      do Zagaia, passamos a contar com a Areli, que apesar de nunca ter feito trilha de montanha aqui,
      tinha na bagagem larga experiência em ambientes frios e estava treinando para uma corrida de
      aventura de 300 km. Não nego que a qualificação do grupo me intimidava... todos em excelente
      forma física e eu apegado ao meu sedentarismo... ante os insistentes (e pertinentes) alertas do
      Marinaldo quanto ao esforço físico que nos esperava, deixei minha habitual inércia e me
      obriguei a duas semanas de academia, com frequência quase perfeita. A posteriori, posso dizer
      que foi isso que evitou um constrangedor pedido de resgate, por total exaustão física. Nos
      encontramos nas catracas do metro Barra Funda às 15h, demos cabo do primeiro desafio dessa
      jornada, acomodando 5 cargueiras, uma dama e 4 marmanjos num (modelo do carro?) e
      partimos para Passa Quatro. Na estrada, o Leo nos informou de que o conserto da Kombi ainda
      se arrastava. Procuramos otimizar os tempos previstos e concluímos que iniciar a trilha após as
      23h colocaria em risco o êxito do primeiro dia. Então, se o Léo não conseguisse estar em Passa
      Quatro a tempo de partirmos para a Toca do Lobo até as 22h30, partiríamos sem ele; com a
      possibilidade dele nos alcançar pelo Paiolinho e seguirmos juntos. Com o avançar das horas,
      ficou claro que o Léo não poderia nos acompanhar, pelo menos nesse primeiro momento, de
      forma que acordamos com a Patrícia (que faria nosso resgate) que iríamos direto para a casa
      dela e partiríamos assim que possível.
      Primeiro dia
      A Patrícia nos deixou perto da Toca do Lobo, pouco antes das 23h e, rapidamente, nos
      equipamos e nos colocamos a caminhar. Mochilas leves, a maioria com um litro de agua apenas,
      em pouco tempo chegamos à Toca do Lobo onde fizemos a primeira foto, ajustamos as
      cargueiras e iniciamos a travessia, pouco após as 23h. Subimos a passo as encostas que nos
      levariam ao Cruzeiro e, ao pé do Quartzito fiz o primeiro reabastecimento de água, completando
      meu inventário para 1 litro. Enquanto eu buscava água (e tirava minha primeira foto dessa
      travessia, uma “flor de maio”, avistada ainda em botão na travessia da SF com meu filho, há
      pouco mais de um mês, se mostrava agora perdendo o viço em consonância com o findar da
      temporada). Os amigos aguardavam, lanchando e curtindo o visual na brisa gélida da crista e
      assim que retornei, recomeçamos a ascensão. Em pouco tempo, caminhávamos pelo
      encantador Passo dos Anjos, onde a SF revela a origem do seu nome...mesmo sob as luzes da
      lanternas, não deixa de impressionar como a crista se estreita naquela parte...aproveitávamos
      os trechos de ascensão mais suave para retomar o folego, já que nossa intenção era prosseguir
      sem paradas até o alto do Capim Amarelo. Subíamos pouco ansiosos, confiantes do
      planejamento e validando a estratégia de caminhar à noite e minimizar o peso nas cargueiras.
      Encontramos um pedaço de bastão de caminhada e passamos a levá-lo conosco, certos que em
      pouco tempo encontraríamos seu dono. De fato, não tardou, e num dos pontos de
      acampamento dos falsos cumes do CA, encontramos dois colegas montanhistas acampados há
      pouco, ainda com chocolate quente nas panelas... restituímos a parte perdida, conversamos um
      pouco, tomamos uns goles de chocolate quente e retornamos a caminhada. Pouco depois das
      2h alcançamos o cume do CA. Fizemos uma breve parada, substituímos o livro de cume, que já
      não apresentava espaços em branco e após a devida preparação do livro, identificando o nome
      do cume, sua localização, data, responsáveis pela guarda, etc, registramos a composição do
      grupo, objetivo e horário de partida, descansamos alguns minutos, procurando não perturbar
      muito aos montanhistas acampados ali e retomamos a caminhada, buscando assegurar a
      descida do CA pela trilha correta, bem à esquerda. Sem grandes dificuldades, descemos o CA,
      notando ao passar pelo Maracanã que havia pelo menos mais sete barracas armadas.... de fato,
      o último feriado dessa temporada prometia que a SF estaria lotada de caminhantes... não nos
      afetava, já que estaríamos quase que todo o tempo fora da trilha mais batida. Havia uma remota
      possibilidade de termos algum contratempo com a lotação da serra, no acampamento do
      primeiro dia, no Vale do Ruah. Para essa eventualidade, cogitávamos acampar aos pés do Ruah
      Leste, o que exigiria atravessar o capim à noite. No Maracanã, nos abastecemos com o suficiente
      para a caminhada até o Rio claro, na base da Pedra da Mina.
      Flor na encosta do Quartzito Foto: Rogério Alexandre Cristais de gelo Melano: Foto: Rogério Alexandre
      De forma geral, partimos com pelo menos dois litros, sabedores que, com o nascer do Sol, o
      consumo de água aumentaria. Com poucas paradas, em breve estávamos começando a longa
      ascensão do Melano, um dos desafios propostos quanto à regularidade da caminhada, já que
      queríamos apreciar a alvorada em sua crista, de forma a permitir registrarmos o nascer do sol
      com a lua minguante ainda visível no céu. Caminhávamos compenetrados, procurando
      aproveitar os trechos planos para trocarmos ideias e retomarmos o folego. Talvez pela
      adrenalina do desafio, a caminhada transcorreu rápida e alcançamos a crista do Melano perto
      das 5h30, passando sobre diversas poças de agua congeladas nas encostas. Fizemos uma parada
      para um rápido lanche e retomamos a caminhada, agora em passo mais tranquilo, apreciando o
      dia que nascia.
      Nascer do Sol e Lua Minguante visto na crista do Melano. Silhueta da PM contra o sol nascente. Fotos: Douglas Garcia
      Tocamos em frente pelo sobe e desce da crista do Melano, ganhando altitude devagar, na
      diferença entre as subidas e descidas infindáveis desse trecho. Aproveitávamos para apresentar
      para a Areli, as montanhas que havíamos passado desde o início da caminhada, as montanhas
      que subiríamos antes de acamparmos, nominá-las, fazer comentários e contar causos de
      pernadas anteriores por aquelas plagas. Isso nos distraia, e, quase sem perceber, alcançamos a
      base da cachoeira vermelha, às 8h.
      Preparamos as mochilas de ataque com material para emergência, lanches e água, guardamos
      as cargueiras nas moitas, atravessamos a cachoeira vermelha, buscando a trilha que começa
      bem próxima da sua queda. Fomos ganhando altitude aos poucos, pelo ombro do Tartaruguinha,
      quase que sem nenhum vara-mato e em pouco tempo estávamos aos pés do Tartarugão.
      Seguimos a mesma técnica da vez anterior, avançando meio que em paralelo, para minimizar a
      possibilidade de um acidente com as pedras soltas, que são abundantes nessa face da montanha
      Com as inevitáveis paradas para descansar, levamos cerca de meia hora para alcançar o cume
      da primeira montanha fora-da-rota da travessia planejada. Fizemos uma pausa, contemplando
      a paisagem, retomando o folego e lanchado. Verificamos que haviam poucos registros no livro
      de cume, uma incursão de um colega de montanha, desbravador de ambos os Ruah Norte e
      Leste. Registramos os nomes do grupo, algumas impressões da caminhada e das nossas
      intenções, horário de partida e destino, acrescemos dois saches de mel no kit perrengue deixado
      antes, guardamos tudo no tubo de cume e partimos para explorar parte dos ombros do
      Tartarugão, avaliando possíveis alternativas para uma travessia a partir da face sul da PM,
      subindo a partir do Vale do Paraíba. Essa avaliação acabou por consumir um tempo precioso
      pois descemos o Tartarugão em direção a PM e na face sudeste bem à direita de quem está de
      frente para a PM encontramos um ponto de agua corrente, onde nos hidratamos. Por outro lado,
      essa investigação nos causou considerável transtorno para retornar, pois os trechos de lajes na
      base são intercalados com trechos de vegetação o que exigia varar o mato, com considerável
      dispêndio de energia e tempo. Procurando manter a altitude, fomos costeando as encostas do
      Tartarugão e do Tartaruguinha, buscando a direção da Cachoeira Vermelha, onde chegamos às
      12h.
      Pedra da Mina vistas do Tartarugão. Foto: Marinaldo Bruno Contemplando o Vale do Rio Claro. Foto: Douglas Garcia
      Retomamos as mochilas e seguimos para a PM, passando pelo Rio Claro, onde nos hidratamos
      e coletamos água apenas para a subida da pedra, uma vez que acampando no Ruah, teríamos
      fartura de água. Apreciando o visual, fomos ganhando altitude e, perto das 13h estávamos a
      2978m, no cume da PM. Encontramos o Rafael preparando o acampamento para um grupo que
      o Cainã, ambos guias na SF e amigos de outras caminhadas, que fizeram a gentileza de cuidar
      das nossas cargueiras enquanto descíamos em direção ao acampamento da base da PM, no
      sentido do Paiolinho, por onde atacaríamos o Ruah Norte. Sabe aquela história de barraca
      voando? Então, por pouco não conseguem alcançar uma delas a tempo, rs... Do acampamento
      base, fizemos uso do tradicional trepa-pedra para descermos a encosta da área de
      acampamento na base da PM em direção ao Ruah, na sua extremidade NO.
      Atravessando o vale pelas lajes de pedra, cruzamos com um pequeno curso de água, avaliamos
      a direção pela qual faríamos o vara-mato da subida e tocamos para cima, com o Douglas abrindo
      a passagem e os demais procurando facilitar a volta, quase consolidando uma trilha... mas a
      verdade é que a passagem de 5 pessoas por ali, sem outros que a repitam, talvez não seja
      perceptível na próxima temporada. Sob sucessivos alertas de “caminho errado” e “voltem” dos
      companheiros de montanha que chegavam na PM via Paiolinho, com pouco mais de 40 minutos
      de vara mato, para total deleite da Areli, alcançamos o cume.
      Sob congratulações mútuas, entre respirações ofegantes, apreciamos por uns minutos o visual
      que se descortinava... ângulos incomuns da travessia, detalhes de ambas as faces da PM e das
      montanhas ao redor enchiam nossos olhos. O sentimento de respeito, ante a enormidade do
      que propúnhamos fazer, grassava em nosso peito, dividindo espaço com a sensação de
      superação e ineditismo. Verificamos no livro de cume, colocado pelo Douglas pouco mais de um
      mês antes, a ausência de outros registros, acrescemos ao “kit perrengue” um cobertor de
      emergência e dois saches de mel. Tomamos o último lanche do dia, descansamos um pouco e
      lembrando que ainda precisaríamos de duas horas para estarmos com o acampamento montado,
      iniciamos a descida do Ruah Norte procurando refazer o caminho trilhado na subida. Pegamos
      um pouco de água no pequeno curso que escorre na passagem e voltamos sob os nossos passos
      até a parede quase vertical do acampamento base.
      Usando a já consolidada estratégia de ataque em rotas paralelas fomos tocando para cima até
      atingir a área de acampamento na base da PM, onde nos reagrupamos antes de subir a PM, na
      rota tradicional de quem chega pelo Paiolinho.
      Havíamos cogitado descer a PM com as cargueiras, para depois cortar pela trilha que ouvimos
      existir na encosta da PM, ligando a área do acampamento base com o Ruah, mas abandonamos
      essa ideia pela segura, ainda que mais cansativa, opção de descer e subir a PM de ataque, pelo
      caminho já conhecido. Subimos em passos largos, recuperamos as mochilas e seguimos para o
      vale do Ruah, onde acamparíamos. Iniciamos a segunda descida da PM com o sol buscando o
      horizonte, e pouco antes do anoitecer, estávamos com as barracas prontas para a noite. Como
      cuidados adicionais, ante a afamada geladeira que o Ruah se transforma à noite, colhemos
      porções de palha para colocarmos sob as barracas, dando preferência para as folhas mais secas,
      que por conterem menos água são mais eficazes como isolamento térmico. Cedi meu cobertor
      de emergência ao Marinaldo, que, apesar da minha insistência não aceitou ficar com o saco de
      bivaque de emergência. Fizemos a primeira refeição quente, conforme o cardápio que
      escolhemos e que nos foi fornecido, abaixo do preço de custo, pela Livre Adventure Tour.
      Agradecemos muito pelo apoio, todas as refeições juntas não somavam 2 kg, o que contribui
      significativamente na redução de peso das cargueiras. Optei pelo espaguete com frango e
      legumes, porção individual, e que pelas menos de 85g de peso que faziam na mochila constituiu
      uma excelente refeição, após hidratado com os 240g de água quente recomendados. O processo
      de liofilização, preserva muito da textura dos alimentos, assim como do sabor e do seu valor
      nutricional. É sempre recomendável, para quem inicia no uso desse tipo de alimento, planejar
      com alguma folga, para verificar como se adapta aos tamanhos das porções, principalmente
      naquelas que servem duas porções. Cansados pela pernada do dia, alteramos os planos de
      vermos o sol nascer no cume do Ruah Leste, optando por estendermos um pouco o repouso e
      nos recuperarmos para o segundo dia, que prometia ser tão exaustivo quanto o que se findava.
      A temperatura caiu rapidamente, meu relógio marcando 8C pouco mais de uma hora após o pôr
      do sol, e todos se recolheram às barracas, não saindo para nada, após o jantar. Ante a previsão
      de 2C para a PM, esperava dormir bem tranquilo com o que levava de equipamento: saco de
      dormir para -4C, meias de trekking, segunda pele leve para as pernas e duas mais fortes para o
      tronco, luvas e gorro. Por praticidade e cansaço adormeci com ambas as segundas-peles, luvas
      e gorro... imaginava que acabaria por acordar de madrugada com calor, mas aí já teria
      recuperado um pouco das forças... e estava tão agradável daquele jeito, usando quase toda
      roupa que tinha disponível... dois isolantes, um de espuma e outro inflável acresciam conforto
      e luxo ao necessário. A camada de palha sob a barraca fazia as vezes de colchão e mesmo fora
      dos isolantes, o contato com o piso da barraca era agradável.
      Segundo dia
      Realmente dormi muito bem, acordando apenas às 5:00 como de hábito, quando na montanha
      ou muito ansioso com algo. As surpresas começaram ao constatar a condensação congelada
      dentro da barraca, por sobre minha cabeça... pequenas estalactites de gelo pendiam do teto da
      barraca... curioso, fui verificar a temperatura em meu relógio, que apontava -6C. Isso dentro da
      barraca... lá fora estaria ainda mais frio! Fiquei no saco de dormir, curtindo o ineditismo do
      Ruah... Pouco depois, ouvia-se o alarido normal de quando se desmonta acampamento, ainda
      às escuras e um pessoal acampado próximo de nos informou que o termômetro levado por eles
      havia marcado -9,6C às 23h e outro pessoal falar em -11,7C. Meus dedos do pé doíam de frio e,
      vencendo a preguiça com algum receio, saí do saco de dormir para verificar o estado em que
      eles se encontravam. As pontas dos dedos estavam muito avermelhadas, e temi que estivessem
      queimados de frio... fiz uma massagem vigorosa em ambos os pês e mesmo a cor não
      normalizando, senti-me um pouco melhor. Como não sairíamos em seguida e não curto ficar à
      toa na cama, vesti calca, calcei botas, coloquei o saco de dormir dentro de um estanque e sai da
      barraca para caminhar e ver o sol terminar de nascer. A esperança de que, caminhando os dedos
      parassem de gritar de frio não se concretizou, mas a beleza do sol nascendo entre o Ruah Leste
      e a PM compensava o desconforto.
      Pouco depois, o sol incidia sobre a encosta da PM e, após despir a segunda pele das pernas,
      peguei a mochila de ataque, preparada na véspera e avisei aos amigos que iria esperá-los
      tomando um pouco de sol. Subi um pouco e fiquei admirando o vale do Ruah, branco pelo gelo
      que cobria o capim ainda que as moitas superassem a altura de um homem. No ano anterior,
      em minha primeira travessia ele estava ainda mais branco, com o gelo no capim subindo as
      encostas. Talvez seja isso que encante tanto na natureza, nas montanhas... tudo está lá, nada
      mudou... mesmo assim, a experiência sempre é inédita, a vista sempre é outra. A viagem não é
      apenas pelo exterior, mas trilha-se para dentro também... para a alma.
      Agrupamos e partimos, às 6h30 para o ataque ao Ruah Leste, que com 2640m de altitude faz o
      limite leste do Vale do Ruah e fica à direita de quem, na travessia caminha em busca do Cupim
      de Boi. As mochilas de ataque continham além dos kits de perrengue, de primeiros socorros,
      água e lanches, os materiais que usaríamos nos livros de cume que iríamos passar antes de
      retornar ao acampamento: o próprio Ruah Leste, os Camelos 1, 2, 3 e 4, o do Avião e o São João
      Batista. Alcançamos o primeiro cume do dia às 8h10, fizemos uma parada para café da manhã
      com as frutas liofilizadas, chocolates, queijos e guloseimas trazidas, curtindo os diferentes
      ângulos das montanhas da Serra Fina. Verificamos não haver registros no livro de cume desde
      nossa incursão anterior, apontando que, mesmo tão próximo a concorridíssima trilha da
      travessia, ainda há montanhas tranquilas, bastando ter a disposição de ousar um pouco mais e
      fugir do convencional. Acrescemos alguns itens (mel e cobertor de emergência) ao tubo de cume,
      considerando que possam ser de grande valia para algum colega num eventual perrengue
      explorando os arredores da trilha tradicional.
      Pouco depois, 8h20 iniciamos a descida em direção ao Ruah, onde um vara-mato nos aguardava,
      mirando alguma laje que abreviasse o sofrimento. Pouco antes das 9h, passamos pela lata de
      sardinha deixada por algum excursionista pioneiro, dessa vez não confabulamos entre leva-la
      ou não... o estado de corrosão apontava algo muito antigo e estando colocada sobre uma parte
      mais elevada da laje, ela claramente tinha a intenção de marcar um ponto de passagem, e na
      caminhada anterior já havíamos deliberado mantê-la ali, pelo menos enquanto seus restos
      fossem reconhecíveis. Curiosos com a história que havia ali, condensada naquelas poucas
      gramas de folha de flandres, subimos buscando o colo entre o Pico do Avião e o primeiro dos
      camelos. A partir dali, viramos em direção norte e tocamos para cima, chegando aos 2550m de
      altitude do cume em pouco mais de 30 minutos de caminhada.
      Mantendo a mesma direção, descemos em direção ao colo entre os Camelos 1 e 2, atravessamos
      com cautela pela maior exposição do trecho e tocamos para o cume do Camelo 2, quase tão alto
      quanto o anterior. A diferença de altitude entre os dois não ultrapassa 20 m. Nesse cume,
      havíamos deixado, na incursão anterior um tubo de cume, cujo o único registro era o da nossa
      passagem, na travessia full anterior.
      Da esquerda para a direita: Três Estados, Cupim de Boi e Cabeça de Touro, vistos a partir do Camelos 2. Foto: Douglas Garcia
      Ali registramos nossa passagem, acrescemos o mel ao material de emergência deixado
      anteriormente, retomamos um pouco o folego e partimos para o Camelos 3, alcançando às
      10h15 os 2480m de altitude do seu cume. Para o Camelos 4, o caminho começa pela lateral
      direita descendo a encosta íngreme e seguindo o vara-mato desbravado na passagem anterior,
      à esquerda. Apesar de já haver palmilhado a passagem, ainda havia o receio de buracos e fendas
      e, paradoxalmente, exatamente no momento em que eu alertava a Areli e o Zagaia da
      possibilidade de haver buracos escondidos na vegetação e da necessidade de cautela, encontrei
      um deles e sumi, diante dos olhos dos dois, quase como em um passe de mágica... enquanto
      caía, esperava que a vegetação me freasse a queda, como isso não aconteceu, tratei de agarrar
      o que tinha à mão, e, às custas de dois cortes maiores nas luvas (de couro, grossas) que não se
      aprofundaram muito nas mãos, freei minha descida e me vi de ponta cabeça a uns 4 m abaixo
      dos pês do pessoal. Gritei informando estar tudo bem, e procurei me firmar antes de escalar a
      encosta, usando a vegetação como apoio. Nesse momento meu receio era que os tufos de capim
      e os poucos bambus que me via aqui e ali, não suportassem mais peso que apenas o meu e
      cedessem, caso alguém buscasse me ajudar ou caísse também. Refeitos do choque do susto,
      retomamos a caminhada com mais cuidado, uma vez que os trechos seguintes são de exposição
      bem maior e uma errada como a de poucos minutos antes, quase certo de que teria
      consequências graves. Passamos pelas partes de exposição com bastante zelo, procurando não
      dedicar mais que um olhar de relance à paisagem por mais espetacular que fosse. Da mesma
      forma que na vez anterior subimos pela direita de forma a evitar ter que dar um “salto de fé”
      para cima.
      Com maior cautela, alcançamos o totem que erguemos na vez anterior, às 11h20, fizemos uma
      parada maior, registramos a passagem pelo livro de cume, aproveitando para revestir duas
      pedras maiores com parte de um cobertor de emergência danificado. Acrescentamos os saches
      de mel ao material de emergência, descansamos um bocado e partimos explorar os arredores...
      a crista dos camelos tem um quinto cume, cerca de 30 metros inferior em altitude ao Camelo 4.
      Aproveitamos bem o tempo observando o PNI, o Cupim de Boi, o Três Estados e curtindo a pausa
      maior, fizemos um lanche mais substancial apreciando o que havíamos caminhado e o que ainda
      o faríamos antes de dar o dia por encerrado.
      CT visto do 5 Camelo. Foto: Marinaldo Bruno Retornando dos Camelos “Toca para cima”. Foto: Douglas
      Discutimos as alternativas para acampamento entre a base do CT e o bosque na descida do
      Cupim de Boi. A expectava de descer a encosta do Cupim, à noite e com cargueiras era um pouco
      apreensiva e concordamos, que se, encontrássemos um lugar, por pequeno e ruim que fosse,
      acamparíamos no bambuzal e partiríamos de madrugada para ver o sol nascer instalados no alto
      do CT. Aproveitamos o horário pouco avançado e esticamos até o próximo cume da crista, que
      seria o “Camelos 5” e curtimos um pouco o visual da SF a partir dali, com vistas inéditas para
      nós. Iniciamos o retorno com o sol brilhando forte, o que consumia nossas reservas de água, e
      eu aproveitei todos os filetes de água que encontramos para me hidratar, por fraco que fosse o
      correr de água, em quase todos consegui uns goles. Já na subida do Morro do Avião,
      encontramos uma poça maior, onde eu, a Areli e o Zagaia nos fartamos de beber. Continuamos
      a subir, buscando o cume do pico do Avião, alcançado pouco antes das 14h. Estávamos dentro
      do planejado, então fomos até os destroços do avião monomotor na encosta antes de
      retornamos ao acampamento e arrumarmos as cargueiras para o restante da pernada do dia.
      Seria o trecho que faríamos com o inventário de água totalmente ocupado, pois não teríamos
      agua até o final da tarde do dia seguinte.
      Com as cargueiras arrumadas, partimos para nos abastecer de água na cachoeira que o Rio
      Verde faz, na parte em que o vale se estreita entre o Ruah Norte e Ruah Leste. Procuramos nos
      hidratar bastante considerando a previsão de mais um dia sem nuvens, sem disponibilidade de
      termos acesso a outro ponto de água antes das 17h, já na saída da trilha. Ficamos quase meia
      hora na pequena queda, alguns de nós aproveitando para tomar um rápido banho nas frescas
      águas. Eu, levando em conta que o sol já ameaçava deixar o vale, optei por postergar mais uma
      vez meu banho naquelas águas. Nesse ponto, nos abastecemos de toda água possível nas
      mochilas e no corpo, buscando a melhor condição para a pernada final. Caprichamos nos ajustes
      das cargueiras, que agora fariam valer sua capacidade de transferir a maior parte do esforço
      para os quadris. Com 4l de água, minha mochila pesava pouco mais de 14kg, e, com os benefícios
      da observação à posteriori, devo dizer que 4l eram “pouco”. Imaginava terminar o último dia
      com água contada, carregando o mínimo de peso e administrando o consumo. Houve quem
      pegasse 6l e nenhum de nós imaginava esbanjar o precioso líquido.
      Com os últimos raios de sol se perdendo atrás da PM, deixamos o Ruah para a derradeira
      caminhada do dia, com destino ao bosque de bambus à direita do Cupim de Boi. Com as mochilas
      em seu peso máximo dessa travessia, caminhávamos de forma tranquila, procurando preservar
      o fôlego e as forças para o dia seguinte. Pouco antes das 21h estávamos no bosque, com as
      barracas montadas, nos preparando para dormir algumas horas, já que o planejado era
      partirmos antes das 4h para acompanharmos o nascer do sol a partir do cume do CT.
      Tranquilizamos o pessoal de outro grupo que já estava ali, e que havia se dividido ao longo do
      dia. Parte dos montanhistas desse grupo tinha chegado ao ponto em que acampamos na véspera,
      no Ruah, aos pés da PM e ficara no aguardo de alguns retardatários. Estimamos que eles
      tardariam no máximo duas horas, porém, com o cansaço e a progressão à noite pouco
      confortável, eles optaram por armar acampamento antes do Cupim, numa área de
      acampamento alternativa. A expectativa de um visual inédito nos inebriava, e com o cansaço do
      segundo dia apoiando, rapidamente adormecemos. Decidi não cozinhar e poupar água para o
      dia seguinte, decisão que se mostraria bastante oportuna. Apesar de não estar com fome, já que
      passara o dia com diversos petiscos, me obriguei a comer pelo menos uma barrinha de cereais;
      ou melhor, tentei me obrigar... o sono e o cansaço venceram e adormeci com a barrinha na
      mão... rs... a noite foi muito agradável e dormi direto, sem interrupções, depois que desisti de
      utilizar o isolante inflável... o saco de dormir teimava em escorregar de sobre ele, mesmo ante
      a suave inclinação em que minha barraca fora montada. Felizmente, era uma questão de luxo,
      de forma que apenas coloquei o isolante inflável de lado e adormeci sobre o bom e velho
      isolante “casca de ovo”.
      Terceiro dia
      Confirmando a fama de ser um dos melhores lugares para pernoite na travessia, a temperatura
      amena no bosque e o abrigado do vento, possibilitaram uma noite de sono espetacular. Acordei
      3h30, revisei a arrumação da mochila de ataque feita na véspera e sai da barraca para esticar as
      pernas enquanto os amigos faziam os últimos preparativos. Por mais que procurasse, não
      consegui encontrar o estojo com os óculos, e como não queria colocar a lente de contato ainda,
      para dar um período maior de descanso para as pupilas, coloquei o estojo de lentes na mochila
      de ataque, junto com soro e um pequeno espelho de sinalização, revisei a mochila, verificando
      se os itens críticos estavam lá e me preparei para iniciar a caminhada. Partimos no horário
      previsto, subindo rapidamente o Cupim e virando à esquerda, para alcançar seu cume e voltar
      a descê-lo, agora agarrando nas pedras e na vegetação. A descida naquele trecho é bastante
      íngreme, e após alguns minutos tensos, alcançamos a grande rocha que serve de totem natural
      para os que atravessam o colo entre as duas montanhas. Não deixamos de notar o quanto o
      caminho estava batido, pela passagem de sucessivos montanhistas. A montanha do começo do
      ano, nesse aspecto diferia demais daquela que alcançávamos de forma tão desimpedida. Na
      minha primeira incursão naquela montanha, ainda no início da temporada de montanhas de
      2018, foi necessário dispender um tempo considerável para avaliar por onde passaríamos equais pontos de referência teríamos ao estar no colo e depois varando o mato que apresentava,
      apenas aqui e ali, marcas de já ter sido desbravado anteriormente. Eu caminhava em passo mais
      lento que os demais, já que a minha visão era bastante limitada. Quando o Zagaia comentou ter
      visto água próximo à trilha, lembrei-me de que, no vara-mato do começo do ano, eu havia visto
      uma pequena lagoa, à esquerda da trilha.
      Com a trilha mais aberta, avançamos mais rápido do que havíamos planejado, e seguindo a velha
      estratégia de ataques paralelos, visando minimizar o risco de uma pedrada amiga, alcançamos
      o cume 6h30, a tempo de ver o nascer do sol na direção do Agulhas Negras. Fizemos uma pausa
      para um lanche à guisa de café da manhã. Aproveitei a parada mais longa para colocar, sem
      pressa, a lente de contato... com 5,25º de miopia, garanto que os contornos das montanhas
      mudam sensivelmente. Um arrepio me passou pela espinha, lembrando da descida do Cupim,
      tateando cada passo no que o colega da frente fazia, quase que às cegas. Curtimos bastante o
      cume, exploramos rapidamente duas de suas cristas, passando pelos destroços do bimotor e
      instalamos um novo tubo de cume num pico mais afastado à 2580m de altitude, após os
      destroços do avião. Junto com esse livro de cume, colocamos um kit perrengue minimalista, haja
      vista que ali não se pode contar com a chegada providencial de outro montanhista para lhe
      “safar a onça”.
      Nascer do sol a partir do Cabeça de Touro Sombra do CT na Pedra da Mina Fotos: Marinaldo Bruno
      Após estudar brevemente com o Marinaldo, a crista sudeste do CT, eu e o Douglas encontramos
      com o Zagaia e Areli que retornavam para o cume vindo da parte onde estão os destroços do
      avião. Combinamos de iniciar a descida do CT no mais tardar às 8h e nos apressamos com a
      instalação do tubo complementar, buscando iniciar a descida com o restante do grupo ou pouco
      atrás. Com o cansaço da subida, parte do grupo iniciou a descida pouco antes de nós, porém
      como desciam mais devagar nos aproximamos deles rapidamente. Novamente, utilizamos a
      estratégia de descer em linhas paralelas, cuidando para que alguma rocha eventualmente
      deslocada não atingisse ninguém abaixo. Com isso, em pouco tempo estávamos à margem do
      colo entre o Cupim de Boi e o Cabeça de Touro. Marinaldo, Areli e Zagaia, já estavam no colo,
      buscando a lagoa vista a partir da trilha de ida. A questão é que não encontraram o caminho da
      ida e estavam varando mato, na busca das referências: peladona e peladinha.
      Confiando na impressão e no que lembrava da ida, esquecendo que a fizera quase que às cegas,
      busquei a trilha que havíamos passado pouco antes com a intenção de coletar um pouco de
      água na lagoa que existe ali. Com a informação de que o pessoal que havia descido antes não
      estava voltando por ela, supus que a trilha estaria mais para a esquerda e fui no vara-mato
      buscando interceptar a trilha. Acontece que, por causa da pouca visão na ida ou não, a trilha
      estava à minha direita. Quase que certamente a trilha estava ali, entre a minha posição e a
      posição dos 3 (Marinaldo, Areli e Zagaia). Como segui à direita, conforme varava o mato, me
      afastava cada vez mais da trilha correta e o vara-mato ficava cada vez pior. Sem perceber eu
      descia, por entre as moitas de capim que, superavam os três metros de altura. Em pouco tempo,
      do chão eu não conseguia mais nenhuma referência visual, e apesar de estar com GPS ainda
      queria fazer a navegação visual. Para conseguir ver por sobre o capim e me orientar, escolhi
      duas moitas próximas e tratei de “escalar” elas até ter um panorama do entorno.
      Do alto das moitas, tudo que eu via era capim, o CT e o Cupim, de forma que ajustei o rumo para
      a encosta do Cupim, pois sabia que costeando a base havia grandes lajes de pedra que fariam o
      avançar menos custoso. Gritei “oi” buscando que a resposta indicasse a posição dos outros e
      não logrei escutar nenhuma resposta... apesar de saber que estavam lá, foi muito inquietante...
      Procurei avançar por cima das moitas, e por certo tempo se desenhou como solução ... Posso
      dizer que “nadei” no capim, ali... pois apesar de todo o esforço parecia que eu não avançava
      “nada”.... encontrei uma rocha que se destacava no mar de capim e tentei galgá-la num pulo,
      mas o capim sobre o qual eu me equilibrava cedeu quando dei impulso, me fazendo errar o pulo
      e acertar a borda da pedra com a canela esquerda... a dor excruciante me fez crer que havia me
      machucado, mas naquele momento, eu só queria saber de sair dali... dei a volta na pedra, por
      sob o capim e encontrei um lado que me permitiu galgá-la com êxito. De sobre ela, gritei
      novamente o “oi” e ouvi a resposta do Douglas perguntando onde eu estava, levantei os bastões
      e escutei um “estou vendo” muito alvissareiro. Pedi que levantasse as mãos, já que ele não
      estava com bastões e vi um movimento no capim ... acertamos de irmos um em direção ao outro
      para depois retornamos pelo caminho que ele abria em minha direção...ainda que o vara-mato
      ali não fosse tão ruim quanto o que eu havia passado pouco antes, o avanço era muito moroso.
      Para efeito de comparação, no caminho que percorri através do capim consumi 32 minutos
      enquanto na ida, atravessamos o mesmo colo em 8 minutos.
      Estar na trilha, só com o tradicional e cansativo “toca pra cima” da íngreme subida do Cupim de
      Boi, foi um grande alivio, rs... Com calma e fôlego, parando algumas vezes para que o Douglas
      apreciasse as Amarilis que cresciam em um jardim escondido,, numa quantidade que ainda não
      havíamos visto pela SF. Numa das pausas para recuperar o folego, ele comentou que elas seriam
      o tema provável de seu trabalho de conclusão de curso... identificar habitat, mecanismos de
      dispersão, a exigência do frio intenso para quebrar a dormência da gema, etc. Achei muito legal,
      e continuamos a debater o que poderia ser estudado, eu sempre procurando que fosse algo de
      cunho prático, talvez alguma aplicação fitoterápica. Chegamos ao acampamento no bosque às
      10h e rapidamente começamos a arrumar nossas cargueiras para a última pernada do dia. Uma
      vez que eu, para poupar água e por falta de apetite, não utilizara minha segunda refeição
      liofilizada, a cedi para o Zagaia e para Areli. Partimos para a última pernada da travessia, às 11h,
      com o sol rachando tudo e a todos.
      Alcançamos o cume do Três Estados pouco antes das 12h30, ficamos cerca de 10 minutos
      recuperando o folego e descansando na deliciosa sombra dos arbustos que insistem em
      sobreviver ali, apesar de todos os maus tratos que montanhistas menos afeitos à política de
      minimizar o impacto na natureza lhes impõem. Aproveitei para fazer uma cata dos lixos
      escondidos em algumas moitas de capim, à exemplo do que encontrara quando ali estive,
      atravessando a SF com meu filho, pouco mais de um mês antes. Sem muito procurar, acresci à
      minha bagagem, uma lata de sardinha, uma embalagem de macarrão instantâneo e outras duas
      de barrinha de cereais. Antes de partir, registramos a passagem no livro de cume, batemos um
      pouco de papo com um colega de montanha que chegara pouco depois e que iria esperar o resto
      do grupo em que estava.
      O sol não dava trégua e como a descida do Três Estados é toda à descoberto, desci procurando
      poupar a agua, respondendo com monossílabos e procurando manter a respiração controlada.
      Levamos pouco mais de uma hora para atingir o cume do Bandeirante.... ainda que
      progredíssemos bem, o sol abrasador fazia parecer que levávamos várias horas ao invés de
      minutos entre cada cume. No meu caso, a sede era uma presença constante, dominada com
      curtos goles de água a cada parada para recuperar o folego ou apreciar a paisagem.
      No Alto dos Ivos, fizemos nova parada e contatamos a Patrícia para programar nosso resgate.
      Consideramos que levaríamos cerca de 4 horas, a partir dali, para alcançarmos a estrada,
      colocamos uma margem de segurança de cerca de meia hora, de forma a permitir que
      andássemos sem pressa e agendamos o resgate para as 19h.
      Nesse momento eu tinha pouco mais de 1l de água. As poucas nuvens que surgiam no horizonte
      não bastavam para nos proteger do sol. Decidi que consumiria toda (ou quase) toda a minha
      agua no trecho mais exposto ao sol, deixando uma eventual sede para o trecho de trilha que
      percorre a floresta. Dessa forma, considerei levar três horas até o próximo ponto de água,
      imponto como meta, tomar 300 ml por hora, 5ml por minuto ou 75 ml a cada 15 minutos. Como
      resultado, o tempo não passava, mas a sede ficou bem administrada, permitindo chegar
      próximo do ponto de água com cerca de 300 ml que, já sob o abrigo das árvores, tomei em
      generosos goles.
      Eu e o Marinaldo seguíamos um pouco à frente, chegando no ponto de água com alguma
      vantagem em relação aos amigos e, após esperar o grupo que nos precedia se reabastecer,
      preparamos uma limonada que caiu perfeita: doce e gelada.
      Dali, segui em frente com a Areli, enquanto os outros procuravam se recuperar e matar a sede
      com a escassa vazão de água que se apresentava. Fomos perdendo altitude de forma lenta e
      contínua pela estradinha até o Sitio do Pierre e depois até a estrada, onde chegamos 18h30.
      Aproveitamos o embalo e subimos um pouco pela estada para tomar sorvete caseiro.
      Cada um escolheu a parte do gramado que mais lhe agradava e procurou relaxar enquanto
      esperávamos o resgate, rememorando a caminhada, as paisagens, petiscando o delicioso
      biscoito de polvilho, avaliando os estragos nos pés e as dores nas pernas.
      A Travessia da Serra Fina Full, foi a concretização de um sonho antigo... inserir livros e caixas de
      cumes em alguns dos principais cumes no entorno da PM.... onde, após várias tentativas,
      mapeando e explorando, avançando a partir dos relatos dos montanhistas percursores,
      conseguimos realizar. Nesse processo cumulativo de aprendizado e desenvolvimento,
      percebemos o quanto alguns trechos demandam maior cuidado, até por estarem longe de tudo
      e de todos, sem sinal de celular ou a passagem ocasional de outro montanhista por diversos dias.
      Na esperança de apoiar algum irmão de montanha que se veja numa fria nessas partes da SF,
      tomamos a iniciativa de acrescer aos livros de cume, um material básico para “safar a onça”. Se
      você que lê essas linhas, precisar utilizar esse material, pedimos que nos avise para que
      possamos planejar a reposição. Claro que, pelas dificuldades logísticas, consideramos o uso “kits
      perrengue” na necessidade, não para conforto. Cabe a cada montanhista, novato ou experiente,
      preservar e cuidar da Mantiqueira, Amantikir para os índios, nascente de inúmeros rios que
      suportam a vida nas cidades, nas vilas e nas fazendas ao seu redor e ainda mais, a muitos
      quilômetros de distância. Com certeza, a Serra da Mantiqueira, em sua imponência, é um dos
      fatores determinantes para o clima que experimentamos no Sudeste.
      Se você que lê essas linhas, já for montanhista experiente, vá preparado, pois em alguns dos
      picos fora da rota tradicional, você poderá entrar numa grande “fria” se não tomar as devidas
      cautelas. Esteja sempre com alguém experiente também, evite se aventurar solo ou considere
      na preparação eventuais imprevistos. Não descuide do “e se”... há trechos em que não são
      necessários três erros para um acidente mais grave. Como registrei acima, fizemos parte da
      caminhada à noite, mas ainda que estivéssemos voltando sobre nossos passos em vários locais,
      evitamos os trechos menos frequentados à noite, por perder algumas paisagens e pelo risco de
      algumas passagens.
      Enquanto escrevo essas linhas, relatando a travessia da SF Full em 3 dias, comentam comigo que
      há montanhistas que pretendem fazê-la em 2 dias... me perguntam o que acho, e depois de
      refletir um pouco me vem a resposta: amigo, a montanha não é minha nem sua, ela é de todos
      que a amam e cuidam, seja do sitiante que planta ao pé da serra, ou do turista "modinha" que
      posta no Instagram, ela é uma obra de Deus seja você materialista ou espiritualista. Você que lê
      essas toscas e mal traçadas linhas, saiba: se estiver na montanha e precisar, um bom
      montanhista vai ajudá-lo no que puder, apenas por estar lá e poder. Vejo
      isso naqueles irmãos de montanha, que buscam ajudar e orientar
      desconhecidos, nos guias que, pesados, sobem rindo aquelas encostas
      que tantos outros se arrastam chorando... e ainda encontram forças para
      apoiar as equipes de resgate daqueles menos afortunados, seja por que
      motivo for e independente de sua forma de pensar ou ver a vida... Forte
      abraço! Nos vemos por essas trilhas desse mundão de Deus!
       
    • Por Ronaldo Paixão
      Caminho da Fé – Pedra do Baú – Travessia da Serra Fina – Agulhas Negras e Prateleiras (PNI).
      Estou escrevendo este relato um ano depois que fiz esse passeio. Talvez eu esqueça alguma coisa.
      Eu estava precisando me desligar da vida que eu vinha levando. Estava precisando fazer o que eu mais gostava, caminhar bastante, travessias em trilhas, subir montanhas, me isolar do mundo “civilizado”.
      Tinha decidido que eu iria “largar tudo” e sair, sem saber até onde eu iria ou quando voltaria. Tinha uma grana guardada (cinco mil) e deveria ser suficiente para eu viver por pelo menos uns 3 meses.
      Falei com meu irmão que ele teria que se virar sozinho em nosso comércio. Falei com minha família que eu estava indo por não sei quanto tempo, mas que eu voltaria qualquer dia.
      Trabalhei até 31 de agosto, quase meia-noite. No dia 01 de setembro fui para um apartamento onde fiquei por 4 dias planejando lugares que queria conhecer, vendo preço de ônibus, tracklogs, etc. Na manhã de 4 de setembro parti para São Paulo e naquela noite para águas da Prata, onde minha jornada começaria.
      Como eu iria para vários lugares, diferentes um do outro, tive que levar muita coisa na mochila. Coisas que usaria em algum passeio, mas que seriam dispensáveis  em outro. Ainda assim tentei levar o mínimo possível.
      Ítens que levei:
      -    Mochila Osprey Kestrel 48 litros com Camel Back de 2 litros
      -    Dois cantis de 900 ml. Um com caneca de alumínio.
      -    Rede Amazon e tarp Amazon da Guepardo.
      -    Saco de dormir Deuter 0º
      -    4 camisas dry fit
      -    2 blusas finas de fleece.
      -    2 calças quechua de secagem rápida
      -    6 cuecas
      -    3 pares de meia
      -    1 boné
      -    1 touca
      -    1 par de luvas (daquelas de pedreiro)
      -    1 par de sandálias Quechua
      -    1 par de botas La Sportiva
      -    Kit Fogareiro + panela pequena
      -    2 isqueiros
      -    1 canivete
      -    1 colher plástica
      -    1 botija de gás Nautika pequena
      -    GPS
      -    Celular (para fotografias)
      -    Caderneta e caneta
      -    1 Anorak
      -    Corda e cordelete
      -    Bolsa de nylon (para transportar a mochila no ônibus)
       
      Caminho da Fé. Águas da Prata até Aparecida.
      Caminho da Fé – 1º dia. 30Km
      05-09-2018
      Águas da Prata (SP) até Andradas (MG).
      Início 05:15 horas e chegada 12:55 horas
      Almoço : Pavilhão hamburgueria
      Jantar: bolachas e sanduba no hotel.
      Pernoite: Palace Hotel.
      Seguindo o conselho de um cara que desceu comigo e iria fazer o caminho de bike eu iniciei cedo para evitar o sol. Só que por esse motivo fui sem comida. Só comi uns pedacinhos de rapadura que ele me deu e uma banana que ganhei de um ciclista.
      Pelo longo tempo inativo, eu senti um pouco o peso dos 17Kg que estava levando na mochila.
      Caminho da Fé – 2º dia. 36 Km
       06-09-2018.
      Andradas (MG) até Crisólia (MG).
      Partida às 08:00 horas e chegada às 17:40 horas.
      Almoço: salgadinho no Bar Constantino, comunidade da Barra.
      Jantar: miojo num banco ao lado da rede.
      Pernoite: rede 
      Subidas cavernosas. Serra dos Lima, Barra, Taguá e Crisólia. 
      Cheguei tarde, fui numa pousada carimbar a credencial e depois procurei duas árvores para esticar a rede, fazer o rango e dormir. Nesse dia não teve banho.
      Caminho da Fé – 3º dia. 38 Km
      07-09-2018
      Crisólia (MG) até Borda da Mata(MG). 
      Partida às 07:30 e chegada às 18:00 horas.
      Almoço: pastel no Bar do Maurão em Inconfidentes
      Jantar: x-salada em lanchonete perto do hotel.
      Pernoite: Hotel Virgínia.
      Feriado da Independência. Fui acordado às 6 da manhã com queima de fogos e hinos. Passagem por Ouro Fino e Inconfidentes. Desfile cívico em todas as cidades.
      No hotel em borda da mata conheci um casal de cicloturistas que estava com um carro de apoio. Consegui que levassem um pouco das minhas coisas até Estiva. Foram 6 Kg a menos para carregar.
       
      Caminho da Fé – 4º dia. 17,5 Km.
      08-09-2018.
      Borda da Mata(MG) até Tocos do Mogi (MG).
      Início às 08:00 horas e chegada às 12:40 horas.
      Almoço: um pouco de morangos colhidos no caminho.
      Jantar: Lanche na festa da padroeira.
      Pernoite: Pousada do Zé Dito. (muito boa e barata)
      Dia mais curto. A pousada ficava no calçadão principal, onde estava acontecendo a festa da padroeira. Estava difícil dormir. O jeito foi sair para a festa e tomar umas, apesar do frio que fazia de noite.
        
      Caminho da Fé – 5º dia. 21,5 Km
      09-09-2018
      Tocos do Mogi (MG) até Estiva (MG).
      Início às 09:00 horas e chegada às 14:20 horas.
      Almoço: moranguinhos (quase 1 Kg) e queijo fresco com caldo de cana.
      Jantar: Restaurante perto da pousada.
      Pernoite: Pousada Poka.
      Trecho muito bonito. Muitas plantações de morango. Muitos pássaros.
      Na pousada eu recuperei minhas coisas que haviam sido deixadas ali e já consegui ajeitar um novo transporte delas até Potim, já pertinho de Aparecida.
      Caminho da Fé – 6º dia. 20 Km
      10-09-2018
      Estiva (MG) até Consolação (MG).
      Partida às 07:30 e chegada às 12:45 horas.
      Almoço, jantar e pernoite: Pousada Casarão
      Destaques deste dia. Cervejinha gelada num bar onde um piá gordinho queria tirar uma selfie comigo. E também queria meu bastão de selfie de qualquer jeito.
      Também destaque para o canto da seriema, triste e ao mesmo tempo bonito, que se fez presente muitas vezes. Também tem a subida da serra do Caçador, cavernosa.
      Além disso, nesse trajeto é comum vermos carros de boi e também “canteiros”onde os agricultores esparramam o polvilho para secar.


      Caminho da Fé -  7ºdia. 22,5 Km
      11-09-2018.
      Consolação (MG) até Paraisópolis (MG).
      Início às 07:00 e chegada às 12:30 horas.
      Almoço: Restaurante Sabor de Minas. Muito bom e barato. Comi pra danar.
      Janta: coxinha na praça.
      Pernoite: Hotel Central
      Foi um dia especialmente marcado pela presença dos pássaros ao longo do caminho, canários, sabiás, pássaros pretos, coleirinhas, gralhas, joões-de-barro, tucanos, maritacas. E aves maiores, como gaviões, seriemas e garças brancas.
      Também vale destacar a grande quantidade de flores, principalmente nos portões das casas dos sítios.
      Caminho da Fé – 8º dia. 28,5 Km.
      12-09-2018
      Paraisópolis (MG) até A pousada da Dona Inês, que fica 4 Km depois do distrito de Luminosa, município de  Brazópolis.
      Início às 07:55 e chegada às 15:15 horas.
      Almoço: Salgadinho e coca numa mercearia em Brazópolis.
      Jantar e Pernoite: Pousada da Dona Inês.
      Foi o dia mais quente desde o início do caminho. Era meu aniversário de 52 anos e ficou marcado porque depois do jantar na Pousada, uma amiga de caminho, a Fabiana, puxou um parabéns a você, junto com as outras cerca de 20 pessoas que estavam ali. Fiquei bem emocionado.
       
      Caminho da Fé – 9º dia. 33 Km
      13-09-2018
      Pousada Dona Inês (Luminosa-MG) até Campos do Jordão (SP).
      Início às 05:45 e chegada às 18:45 horas.
      Almoço: Restaurante Araucária. Fica perto da placa que indica a entrada para a pousada da Dona Rose e da madeireira Marmelo. Comida muito boa.
      Jantar: Caldo de Mandioca com carne. NIX Caldos e lanches.
      Pernoite: Refúgio dos Peregrinos
      Na verdade, a quilometragem total desse dia foi de 51 Km porque no meio do caminho decidi que iria subir a Pedra do Baú. Isso me custou várias horas e me fez chegar em Campos do Jordão já de noite. Mas valeu muito a pena.
      O dia amanheceu lindo. Logo de cara a temida subida da Luminosa, mas que não é nada de tão difícil.
      Depois é asfalto até o fim do dia.
      A pousada Refúgio dos Peregrinos é bem diferente. Tem uma tabela de preços na parede. Você anota o que consumiu, faz as contas, paga e faz o troco. Tudo na base da confiança.

      Caminho da Fé - 10º dia. 52 Km
      14-09-2018
      Campos do Jordão(SP) até Pindamonhangaba(SP).
      Início às 06:00 horas e chegada às 17:45 horas.
      Almoço: Sanduíche em Piracuama.
      Jantar e pernoite: Pousada Chácara Dois Leões.
      Nesse dia todos os que estavam no refúgio dos peregrinos foram por Guaratinguetá, menos eu que fui por Pindamonhangaba. Descida pela linha do trem até próximo a Piracuama, com uma garoa fininha que de vez em quando virava um chuvisco.
      De tarde foi só asfalto e chuva. Cheguei na pousada já escurecendo. Foi o dia mais cansativo, pela quilometragem, pela chuva e principalmente pelo asfalto.

      Caminho da Fé - 11º dia. 24 Km.
      15-09-2018.
      Pindamonhangaba(SP) até Aparecida(SP).
      Início às 09:00 horas e chegada às 15:15 horas.
      Almoço: Pesqueiro Potim. Comida muito boa. Comi feito um louco. Aqui eu recuperei o restante de minhas coisas que tinham vindo no carro de apoio de amigos.
      Pernoite: Hotel em Aparecida.
      Esse era o último dia no caminho. Um misto de ansiedade por chegar e de nostalgia antecipada das experiências vividas e das paisagens do caminho.
      A chegada na basílica é emocionante, não importa em que você acredita, ou se acredita em algo.
      Fica a saudade dos lugares. Dos amigos. Dos passarinhos.


      Fiquei em Aparecida até segunda-feira, quando fui ao correio e despachei para casa algumas lembrancinhas que tinha comprado e coisas que tinha levado e que vi que não ia usar. A calça jeans e a camisa de passeio. Umas cordas. Um dos fleeces e a bolsa de transporte.
       
      A Vida e o Caminho da Fé.
      Durante esse derradeiro dia de caminhada me veio à mente uma analogia entre a vida e o  “caminho da fé”.
      O caminho da fé cada um começa de onde quiser, mas todos com o mesmo destino. No caminho o destino é a basílica de Aparecida, na vida a gente sabe o destino.
      No caminho as pessoas vão chegando, amizades vão sendo feitas. Uns mais lentos outros mais apressados. Uns madrugadores outros nem tanto. Uns alegres e comunicativos, outros mais quietos e introspectivos. Muitos de bike, passam pela gente voando, só dá tempo para um “bom dia”. Assim também é a vida e os amigos que vamos fazendo. Uns continuam por perto, outros se distanciam, mas continuam amigos
      No caminho não importa sua classe social, sua cor, opção sexual, grau de instrução ou idade. O destino é o mesmo para todos. Assim também é na vida.
      No caminho a jornada é longa, alguns dias são mais difíceis, parecendo que não vão terminar. Outros passam leves e agradáveis, a gente nem queria que terminassem. Igualzinho a nossa vida
      Temos que superar o cansaço, as bolhas, os pés inchados, joelhos e tornozelos doendo, a mochila pesada que nos deixa com os ombros marcados. Enfrentar as subidas, as descidas, os buracos, as pedras, a fome e a sede em alguns momentos.
      Por mais difíceis que sejam esses obstáculos, eles são superados. Ficam para trás. Igualzinho na vida.
      O caminho também nos oferece muitas coisas boas. Simples, mas inesquecíveis. Os pássaros cantando ao lado da estrada. A beleza e o perfume das flores. Os riachos que nos permitem um banho refrescante depois de uma subida cansativa. As conversas com os amigos. O pôr do sol por trás das montanhas. A janta e a cama quente que nos restabelecem para o dia seguinte. O nascer do sol de um novo dia, nos lembrando que sempre nos é dada uma nova chance de sermos felizes. Assim também acontece na nossa vida.
      Seja no caminho da fé, ou na vida, o destino a gente sabe qual é. O importante é deixar para trás o que para trás ficou. E aproveitar ao máximo a jornada.
       
      Pedra do Baú.
      Eu sempre gosto de planejar meus passeios, travessias. Mas sobre a Pedra do Baú eu não sabia nada. Só de ouvir falar, de ler alguma coisa de relance. Mesmo assim era uma coisa que eu tinha vontade de fazer algum dia, se desse certo.
      Era o dia 13-09-2018, meu nono dia no caminho da Fé. Era de manhã e eu caminhava pela rodovia, junto com um peregrino de nome Donizete, que eu conhecera na pousada da Dona Inez. Passamos por uma placa que indicava a entrada para o Parque Estadual da Pedra do Baú.
      Eu falei para ele: - Donizete, vai em frente que eu vou subir a Pedra do Baú.
      Ele disse: - Cara, isso vai demorar. Você só vai chegar em Campos do Jordão de noite. Isso se der tudo certo.
      Daí eu disse:- Tem que ser hoje. Não sei se vou ter outra chance. Quem sabe eu nunca mais passe por aqui.
      Me despedi dele e entrei na estradinha que levava ao parque. Escondi minha mochila e fui só de ataque, levando água, uma rapadura, uma paçoca, o GPS e o celular para tirar as fotografias.
      Depois de uns 4 Km cheguei onde começavam as trilhas e entrei na que indicava Pedra do Baú, face norte. Passei por uns caras que eram guias e estavam levando equipamentos de escalada. Depois de um tempo cheguei num local que tinha uma escada amarela grande, fixada na parede de pedra. Não pensei duas vezes. Subi aquela escada e depois continuei uma escalaminhada, com misto de escalada em alguns pontos, até que já estava bem alto e não tinha mais para onde subir. Estava pensando até em desistir e voltar embora, quando avistei uns caras no cume de um morro que eu julguei ser o Baú, mas acho que era o Bauzinho.

      Gritei para eles e eles responderam de volta. Perguntei como chegava na Pedra do Baú e eles me disseram para descer de novo e seguir mais em frente.
      Desci e estava chegando ao ponto em que tinha começado a subida quando vi eles vindo. Esperei por eles. Conversamos por um tempo e eles me deram as informações sobre como chegar até onde a subida começava realmente.
      Segui em frente pela trilha e pouco depois eu chegava na base da Pedra do Baú, onde um guia estava terminando os preparativos para iniciar a subida com um casal de clientes. Capacetes, corda, mosquetões, etc.
      Eu estava ali de bermuda, boné e botina.
      Eu vi aquela parede enorme e aquela sequência de grampos na pedra que eu não sabia onde terminaria. Pensei: - vou esperar ele começar a subida e assim pego uma carona. Se o negócio apertar eu peço arrego para ele.
      Foi quando ele virou pra mim e perguntou: - Vai subir?
      Falei que sim e ele disse:- Pode ir na frente então. A gente ainda vai demorar uns minutos.
      Eu pensei:- já era minha carona. 
      Era uma parede de pedra quase vertical e muito exposta, que devia ter mais de 300 metros de altura.
      O jeito foi encher o peito de ar, mirar para cima e começar a subida.
      Subi meio que com medo no começo, mas também com muita confiança Parei algumas vezes no meio para tirar fotos. Passei por mais dois guias com clientes antes de chegar ao cume. Um deles foi bem legal e me deu umas dicas sobre o percurso que faltava.
      Muitos trechos com vento forte e eu pensava: - se eu parar agora eu travo. E ia em frente. Os últimos grampos, quando se está chegando no cume são especialmente complicados, porque você tem que abandonar a “segurança” que os grampos te dão para poder chegar no cume.
      Mas depois de uns 20 minutos de subida, lá estava eu no cume da Pedra do Baú. 
      Foi um momento mágico. Bem mais do que eu esperava. O visual era incrível. Tirei foto de tudo que é jeito. Deitado sobre a beira do abismo, em pé, etc.

      Aqui vou abrir um parênteses. Apesar de estar no caminho da Fé, um caminho católico, onde se passa por muitas igrejas, as únicas vezes na vida que eu senti realmente uma presença muito forte, do que alguns podem chamar de Deus, foi quando estive no cume de alguma montanha ou embaixo de uma cachoeira. Nunca em uma igreja. Deixei de frequentá-las faz muito tempo. 
      Me lembro de ter me encontrado com “Deus”, no cume do Alcobaça (2013), em Petrópolis. Embaixo da cachoeira do Tabuleiro, literalmente, em 2013 (e agora em 2019 de novo). Nos Portais de Hércules, Travessia Petro-Tere, em 2014. No cume do Pico Paraná em 2015 (não encontrei quando retornei em 2017). Na base das Torres  e no Mirante Francês, no Parque Nacional Torres del Paine, em 2016. E agora, na Pedra do Baú.
      É uma sensação difícil de explicar. É como se você se sentisse realmente parte de um todo, de uma coisa muito maior. Se sentisse nada e tudo ao mesmo tempo. Uma paz muito grande torna conta da gente. E em todas essas vezes eu senti a presença do meu pai, já falecido.
      Restava agora a descida, que metia mais medo que a subida. Principalmente os primeiros grampos, onde tinha que se virar de costas para o abismo para alcançar os grampos. A
      Mesmo assim a  descida foi rápida e durou cerca de 15 minutos.
      Cheguei na base e peguei o caminho de volta pela trilha. Pouco tempo depois quase pisei em uma jararaca de cerca de um metro de comprimento. Ela estava junto a uma pedra onde eu iria colocar meu pé. Ela se mexeu e eu a vi. Consegui dar um pulinho e evitei pisar nela. Foi por muito pouco.
      Segui rápido pela trilha e tempo depois eu já estava de volta à rodovia, rumo a Campos do Jordão.
      A Pedra do Baú foi muito gratificante. Mais do que eu esperava. Mais do que eu merecia.
       
       
      Serra Fina.
      Fiquei em Aparecida até na segunda-feira, 17-09-2018 e daí fui para Passa Quatro (MG), onde cheguei já escuro na rodoviária local. Peguei um ônibus circular e fui para o hostel Serra Fina, do Felipe, onde fiquei até na sexta-feira quando comecei a travessia. Choveu na terça, quarta e quinta, mas na sexta a previsão era de tempo limpo que duraria tempo mais que suficiente para a travessia e por isso decidi esperar e aproveitar para descansar e ler. Mesmo assim fui até a toca do lobo, pra passear e conhecer o Ingazeiro gigante. Também fui conhecer o centro da cidade.
      A região estava em alvoroço. Dois rapazes cariocas estavam perdidos em algum ponto da travessia e vários bombeiros, guias e montanhistas estavam à procura deles. Por sorte conseguiram um ponto onde tinha sinal de celular e conseguiram passar a localização e foram resgatados. Se bem que já estavam próximos de uma propriedade rural.
      Passa Quatro é uma cidadezinha linda e é um lugar onde eu moraria tranquilamente.
      O Hostel Serra Fina também é muito bom e o Felipe é um cara nota dez. Eu me senti em casa.
      Todas as travessias que eu faço eu vou sozinho. Não que não goste de pessoas. É que eu gosto de ir no meu rítmo. Gosto de ficar sozinho. Andar sozinho. Pensar na vida, etc. A intenção era fazer essa travessia também de modo solitário.
      Mas na quinta-feira de noite chegou ao hostel uma gaúcha baixinha, menor que eu até, que iria começar a travessia na sexta também, então decidimos começar juntos. A mochila dela era enorme e certamente tinha coisa que não precisava.
       
      Começamos o primeiro dia da travessia, 21-09-2018, uma sexta-feira, mais tarde do que eu queria. Saímos da toca do lobo já era meio-dia.
      Logo no começo da travessia, primeira subida, eu percebi que ela iria me atrasar, mas já que estávamos juntos, seguiríamos juntos. Foi quando ele me disse:- Vai na frente, você anda mais rápido. Eu disse que não, mas ela insistiu. Disse que ficaria bem. Eu então dei um até logo e disse que a reencontraria no Capim Amarelo..A subida é intensa e o ganho de altitude é rápido.
      Talvez pelo “treino” feito no Caminho da Fé eu não senti muito e passei por mais gente no caminho. Primeiro por 3 mineiros (que depois se tornariam grandes amigos) e depois por outros dois caras que pareciam ser militares.
      Cheguei ao cume do Capim Amarelo eram 15:15 horas. Praticamente 3 horas só de subida. Montei minha “barraca”, que era na verdade a minha rede estendida sob a lona que tinha sido disposta como se fosse uma barraca canadense. Fiz um rango e fiquei apreciando a paisagem. Como sabia da falta de água eu decidi que não levaria comida que precisasse de água no preparo, então comi basicamente tapioca de queijo, ou de nutella, ou de salaminho, paçoca, geléia de Mocotó e castanhas, durante toda a travessia.
      Os mineiros chegaram um pouco mais tarde e armaram suas tendas. Os militares chegaram quando já estava começando a escurecer. Eles não traziam barracas, dormiram de bivaque.
      Quando já estava quase escuro chegou um grupo que iria passar direto pelo Capim Amarelo e acampar no Maracanã. Perguntei pela gauchinha e me disseram que ela tinha montado acampamento em algum local no meio do caminho. Depois disso fiquei sabendo que ela desistiu e retornou para Passa Quatro. E que depois reiniciou a travessia na segunda-feira, tendo que ser resgatada de helicóptero no cume dos 3 Estados. E que depois disso voltou mais uma vez, acompanhada de um escoteiro, só que mais uma vez desistiram, abortando a travessia na Pedra da Mina, via Paiolinho.
      Estávamos a 2490 m de altitude e o pôr do sol e a noite foram lindos e gelados. Meu termômetro marcou a mínima de 3,5ºC.

       
      O dia 22-09-2018 era o segundo dia da travessia. A intenção era dormir no cume da Pedra da Mina.
      Depois do café da manhã, junto com os mineiros, desarmei e guardei toda a tralha e deixei o Capim Amarelo para trás às 10:20 horas.
      Logo no começo encontrei uma garrafa de uísque que tinha sido esquecida pelos militares. Voltei até onde os mineiros estavam e depois de bebermos uns goles eu retornei para a trilha, levando a garrafa para devolvê-la assim que encontrasse os rapazes. Não demorou muito para encontrá-los porque eles tinham pegado uma trilha errada logo na saída do Capim Amarelo.
      Depois de muito sobe e desce, mata fechada, bambuzal, escalaminhada, trepa pedra, cheguei na cachoeira vermelha e no ponto de abastecimento de água. Estava cedo e daria para pernoitar no cume. Foi o que fiz e cheguei ao cume eram 16:40 horas.
      Chegando ao cume estendi a minha lona fazendo um teto que ligava uma parede de pedras empilhadas até o chão Estendi ali embaixo o isolante e joguei o saco de dormir por cima. Essa noite não teria o mosquiteiro. Deixei a rede guardada.
      Comi meu jantar, assinei o livro de cume e fui apreciar o fim da tarde, o pôr do sol e as estrelas aparecendo. A noite estava bem fria.
      Os 3 mineiros chegaram quando a noite já tinha caído. Ajudei eles a montarem as barracas e depois ficamos conversando até altas horas. Os militares chegaram ainda mais tarde e no dia seguinte abandonariam a travessia, descendo pelo Paioloinho.
      Essa noite teve como temperatura mínima 3,7º C, mas a sensação foi de que era uma noite muito mais fria que a anterior. Talvez pela exposição ao vento, o que não tinha acontecido pela proteção que o capim elefante fornecera na noite anterior.
      A noite foi linda, repleta de estrelas e prometia um amanhecer incrível, fato que aconteceu. O único porém foi a grande quantidade de pessoas que estavam na Mina, quase todos fazendo bate-volta, o que trouxe muito barulho até algumas horas da noite. Apesar disso dormi muito bem e acordei bem disposto. A água até aqui não tinha sido problema.

      O dia 23-09-2018 era o terceiro dia da travessia e amanheceu espetacular, apesar de muito frio. Acordei antes do sol nascer e escolhi um bom lugar para apreciar o espetáculo. Depois disso o café da manhã (sem café) e desmontar acampamento. A surpresa foi quando levantei o saco de dormir e vi que uma aranha bem grande tinha vindo se aquecer embaixo dele. Peguei a bichinha com cuidado e a levei para perto de uma moitinha de capim.
      A travessia começou mesmo já eram 10:50 horas da manhã e daí para frente decidi caminhar junto com os 3 mineiros, afinal a gente combinava bastante. E assim saímos nós 4 da Pedra da Mina, eu , o Vinícius (Vini), o Daniel (boy) e o Nelson (Bozó). E assim passamos pelo Vale do Ruah, onde abastecemos os cantis pela última vez, com água que deveria ser suficiente até as 16 horas do dia seguinte. Daí foi uma grande sequência de morros até chegarmos ao Pico dos Três Estados às 17:20 horas.
      Mais uma vez montei a lona no estilo canadense, dispus a rede com mosquiteiro dentro e esparramei minhas coisas. De noite nos reunimos junto ao triângulo de ferro que representa a divisa dos 3 estados para a janta.
      Os caras já tinham pouca água. Eu ainda tinha meus dois cantis cheios e mais um bom tanto no camelback. Dessa maneira cedi um cantil para que eles fizessem a janta e bebessem o que sobrasse. Essa noite foi a mais fria, com o termômetro marcando 2,7º C, mas o capim elefante nos protegeu bem dos ventos e deu para dormir muito bem.


      No dia seguinte pela manhã, o Bozó sugeriu que fizéssemos café. Lá se foram mais 500 ml de água. Mas foi muito bom aquele cafezinho e aquela vista que se tinha lá de cima. De lá dava para ver Prateleiras e Agulhas Negras, minha próxima empreitada.
      Era o dia 24-09-2018, nosso quarto e último dia de travessia.
      Deixamos o 3 Estados às 09:40 da manhã. 
      Esse foi um dia bem sofrido. Uma sequência de morros. Sobe e desce. Muitos trechos de mata, e bambuzal. Mas o principal obstáculo era a falta de água. Minha água era para dar tranquilamente, mas depois da janta, café e dividir com os amigos, eu tinha deixado o 3 Estados somente com a água que restava no camelback, que era pouco mais de meio litro.
      Fomos racionando, mas quando chegamos no Alto dos Ivos, todos bebemos o que nos restava de água. Foram mais 3 horas até encontrarmos água de novo.
      A falta de água aliada ao esforço físico fez com que o Vini começasse a passar mal. Mesmo assim tocamos em frente.Chegamos inclusive a beber água acumulada nas bromélias.
      Eu e o Bozó, que estávamos melhor, seguimos mais rápido enquanto Daniel ficou para trás acompanhando o Vini. Chegamos ao ponto de água e enchemos os cantis e o Bozó voltou correndo para encontrá-los e matar a sede dos amigos.
      Já eram 16:50 horas quando chegamos na rodovia BR-354, onde o resgate que eles tinham combinado estava esperando. A Patrícia, que era a dona da caminhonete de resgate me deu uma carona até Itamonte, onde seria meu pernoite. 
      Por coincidência, a Patrícia era o resgate dos rapazes que estavam perdidos quando cheguei em Passa Quatro. Como eles não chegaram no ponto de resgate no dia combinado, ela entrou em contato com os bombeiros e com a família dos rapazes.
      Era o fim da travessia. Uma das mais puxadas e mais bonitas que já fiz. Foi também a última vez que vi os amigos Daniel e Vinícius. O Bozó eu encontrei de novo em Belo Horizonte agora em maio de 2019.

      Foi uma travessia que exigiu muito, mas que ofereceu muito mais em troca. Alvoradas e crepúsculos inesquecíveis. Paisagens sem igual, amizade, companheirismo. E que deixou uma vontade enorme de retornar e fazê-la novamente.

       
      Parque Nacional de Itatiaia.
      Agulhas Negras e Prateleiras.
      Desde que eu estava no hostel em Passa Quatro, eu já estava procurando um guia para o Parque Nacional de Itatiaia. Sabia que se tudo desse certo eu terminaria a travessia na segunda-feira 24-09 e na terça-feira 25-09 queria ir para o PNI, para subir o Agulhas Negras e o Prateleiras. Durante os telefonemas para casa, eu vi que teria que voltar logo. Dessa maneira, eu teria que fazer os dois cumes no mesmo dia.
      Entrei em contato com vários guias, mas ninguém queria fazer os dois cumes em um único dia. Uns disseram que não dava. Outros disseram que não era permitido. Até que encontrei um cara. Tudo isso pela internet e pelo tal de whats app, que eu nunca tinha usado antes disso.
      Deixamos mais ou menos combinado. Ele me cobraria 300 reais pela guiada. Eu sabia que o PNI exigia equipamentos para a subida aos cumes. Eu não tinha esses equipamentos. Após o PNI eu teria que voltar para casa, minha jornada terminaria ali, portanto não precisaria mais ficar regulando a grana.
      Durante a travessia da Serra Fina a gente ficou sem contato.
      No final da travessia, o resgate dos mineiros me deu uma carona. Eu tinha planejado ficar no Hostel Picus, ou no Yellow House, mas ambos estavam fechados. Dessa forma fui com eles até Itamonte, onde me deixaram e seguiram rumo a Passa Quatro. Saí procurando hotel ou pousada e acabei ficando no Hotel Thomaz. O Hotel era bom e tinha um restaurante onde eu jantei. Só que fica bem na rodovia e eu peguei um quarto de frente para a rodovia e o barulho dos caminhões e carros freando durante toda a noite incomodou um pouco e prejudicou o sono.
      Na manhã do dia 25-09-2018, terça-feira, acordei bem cedo, tomei banho, preparei as coisas que levaria para o Parque, entrei em contato com o guia e desci para tomar o café da manhã no Hotel. Por volta das 7 horas o guia chegava de carro para me pegar e seguirmos para o parque. Durante o caminho fomos conversando e falei pra ele sobre a travessia e sobre o caminho da fé e pedra do Baú, que tinha feito recentemente. Ele também é guia na travessia da Serra Fina.
      Chegamos ao parque fizemos os procedimentos de entrada, onde um guarda-parque alertou que caso não começássemos a subida do Prateleiras até as 14 horas, não deveríamos continuar. Desse modo, às 08:45 da manhã iniciamos nossa caminhada rumo a base do Agulhas Negras. Ele apertou o passo, acho que querendo me testar. Eu fui acompanhando de boa. Paramos num riozinho para abastecer a água e fazer um lanchinho, já próximo da base.  A conversa ia progredindo e ele me falou que achava que eu era um cara que parecia estar preparado e que normalmente ele guiava por uma via conhecida como Via Normal ou Via Pontão, mas que se eu quisesse a gente poderia tentar uma via diferente, pra se divertir um pouco. Falei pra ele que ele é quem estava guiando e que por mim tudo bem. Dessa maneira subimos por uma via menos utilizada, que passa por dentro de uma espécie de chaminé que é conhecida como útero. Na verdade quando você emerge dessa “chaminé” é como se você estivesse nascendo. Não levamos capacete, nem cadeirinha, apenas uma corda e uma fita. Usamos a corda somente duas vezes, uma delas para rapelar e depois subir um lance de rocha que fica entre o falso cume e o cume verdadeiro onde fica o livro de cume. Atingimos o cume verdadeiro às 10:40 horas.


      Comemos, descansamos um pouco, apreciamos a paisagem, tiramos várias fotos e depois iniciamos a descida. Dessa vez por uma via diferente, a Via Bira.
      No início da descida um rapel de uns 40 metros por uma descida bem íngreme junto a uma fenda e uma parede. Bem legal. Foi uma descida bem bacana. Uma via bem mais interessante que a tradicional.
      Eram 12:40 quando chegamos de volta ao ponto onde tínhamos iniciado a caminhada. Fizemos um lanche rápido e às 13:00 horas partimos em direção ao Prateleiras. Desta vez sem mochila, sem corda, sem água. Só levamos uma fita de escalada, que foi usada uma única vez. Achei bem mais tenso que o Agulhas, apesar de mais rápido. Muita fenda, muito lance exposto, muito salto de uma pedra para outra com abismos logo embaixo.
      No ataque final, nos últimos 15 minutos, o cara me salvou por duas vezes. A primeira em um lance de escalada livre onde se tem que fazer uma força contrária. Como não tem "pega", a gente sobe com os pés numa face da fenda, empurrando a outra face para baixo. Complicado. Eu tava a abrindo o bico de cansaço aí ele me deu a mão e a puxada final. Depois disso, num paredão bem inclinado, tinha que começar a subir quase correndo agarrando na pedra para conseguir chegar ao fim. Faltando um meio metro para o fim dessa rampa minha bota começou a escorregar na pedra e eu fiquei sem força. Gritei ele e novamente me deu a mão ajudando a chegar. Muito tenso.
      Atingimos o cume às 13:50 e depois de alguns minutos começamos a descida. Paramos para comer uma bananinha e paçoca e descemos mais tranquilos. Às 14:58 estávamos de volta ao local onde tinha ficado o carro.
      Daí o cara olha pra mim e fala: - Agulhas e Prateleiras em 6 horas. Nada mal.
      E rachamos o bico de dar risada.

      Tinha acabado de subir dois cumes que sempre tinha sonhado. Agulhas Negras e Prateleiras. Os dois em cerca de 6 horas. Eu estava muito feliz. 
      O visual de cima dessas montanhas é incrível. Mas a experiência da subida é demais. A adrenalina a mil. Saber que um escorregão e já era. Isso não tem preço que pague.
      Acabei ficando amigo do guia e ele me deu uma carona para Itanhandu no dia seguinte, onde pegaria o ônibus de volta pra minha terra.
      Dormi mais uma noite no mesmo hotel, dessa vez num quarto de fundos e o sono foi muito melhor. Desci para comer um sanduíche de pernil numa lanchonete próxima e bebi uma coca-cola de 1 litro. Depois de todo aquele esforço eu merecia.
       

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      Na manhã da quarta-feira, 26-09, eu parti de volta para Maringá, com uma parada longa em São Paulo, de onde saí de noite e cheguei em casa na manhã de 27-09-2018.
      Decidi ir pra casa a pé. Pra caminhar um pouco. rsrsrs.
      Logo depois do almoço eu estava em casa e na manhã do dia seguinte tudo voltaria à mesma rotina de antes.
      Mas eu não era o mesmo cara que tinha saído 23 dias antes. 
      Eu tinha caminhado mais de 420 Km. Tinha estado em 3 dos dez pontos mais altos do país. Tinha visto o sol nascer e se por proporcionando espetáculos inesquecíveis. Tinha conhecido gente da melhor qualidade, o povo bom e humilde do interior de Minas Gerais.
      Dá para aguentar essa rotina por mais um tempo, numa boa.
       


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