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O nosso norte é o sul: Atravessando Brasil e Argentina até Ushuaia ou O caminho para o fim do mundo

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"No século XII, o geógrafo oficial do reino da Sicília, Al-Idrisi, traçou o mapa do mundo, o mundo que a Europa conhecia, com o sul na parte de cima e o norte na parte de baixo. Isso era habitual na cartografia daquele tempo. E assim, com o sul acima, desenhou o mapa sul-americano, oito séculos depois, o pintor uruguaio Joaquín Torres-García. “Nosso norte é o sul”, disse. “Para ir ao norte, nossos navios não sobem, descem.”

Se o mundo está, como agora está, de pernas pro ar, não seria bom invertê-lo para que pudesse equilibrar-se em seus pés?"

De pernas pro ar, Eduardo Galeano
 

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 O nosso norte é o sul, Joaquín Torres-García

Cheguei ontem pela madrugada em casa. Agora sentado na frente do computador sinto uma necessidade, quase insuportável, de contar sobre meu caminhar até o fim do mundo. Foram 50 dias de viagem e mais de 14.000km percorridos por terra. Entre ônibus e caronas percorremos o sul do Brasil e a Patagônia Argentina até Ushuaia, parando em muitos lugares nos dois países. O dinheiro era pouco, mas a vontade era muita. A necessidade que tenho de escrever deve-se as pessoas que de alguma forma nos ajudaram a realizar esta viagem ao extremo sul da América do Sul. Tanta gente boa pelo caminho. Tanta solidariedade. Tanta gratidão.

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Pela primeira vez, antes de uma mochilada, eu não estava completamente bem e seguro. Nos meses que antecederam a viagem estava escrevendo a dissertação do meu mestrado (isso, por si só, já era muita tensão) e nesse intervalo de tempo perdi meu pai, a mulher que aprendi a amar resolveu seguir sem minha companhia e quase antes de embarcar perdi minha vó. Como é de se imaginar, meu estado de espírito não era nada bom, na verdade era o pior possível. Com isso tinha muito medo de atrair coisas ruins pelo caminho, como por exemplo ser vítima de violência. Assim, resolvi mudar a ideia de mochilar sozinho e decidi ter uma companhia nessa viagem. Meu amigo/irmão Matheus embarcou comigo nessa jornada. 

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Enfim, tenho como intuito neste relato contar a história dos lugares por onde passei, minhas histórias nesses mesmos lugares e, principalmente, falar sobre as muitas pessoas (leia-se anjos) que nos ajudaram nesta viagem. Quero contar de maneira honesta os acontecimentos e os sentimentos que me permearam nesses dias, e de alguma forma quero deixar esse texto como agradecimento a cada pessoa que tornou essa viagem algo possível.

Agora vamos ao que interessa, bora comigo reconstruir essa viagem por meio de fotos e palavras!

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Parte 5 - Buenos Aires, la capital

"Há algumas coisas que não se pode aprender rapidamente, e o tempo, que é só o de que dispomos, cobra um preço alto pela aquisição delas. São as coisas mais simples do mundo, e porque leva a vida inteira de um homem para conhecê-las, a pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é a única herança que ele poderá deixar." Morte ao Entardecer, Ernest Hemingway

Chegamos em Buenos Aires. A cidade estava sitiada, pois era dia do início do G20 e tinha sido declarado feriado. (O G20 é um grupo formado pelas dezenove maiores economias do mundo (África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia) mais a União Européia. Esse grupo representa 90% do PIB mundial e tem como intuito facilitar o comércio mundial.). A rodoviária do Retiro estava fechada e descemos na rodoviária Liniers. Caminhamos na direção da estação de trem. Ao chegar descobrimos que as estações de trens e os metrôs estavam fechados, além da diminuição de frequência dos ônibus circulares. Precisávamos chegar no bairro da Recoleta, lugar que é bem próximo de onde estava sendo a reunião do G20. Entramos no ônibus e descobrimos que não se aceita dinheiro vivo como pagamento, tem que ter o cartão SUBE para utilizar os transportes públicos. O motorista nos deixou subir mesmo assim. Depois de um bom tempo de bus descemos em algum lugar do centro. 

O Matheus já havia estado em Buenos Aires e sabia se locomover um pouco pela cidade, no meu caso era a primeira vez na capital argentina. Fomos caminhando em direção da nossa hospedagem com o auxílio do Maps.me. Precisávamos de wifi para avisar a pessoa que ia nos receber que havíamos chegado. Avistamos uma cafeteria aberta e o Matheus entrou para pedir se podíamos usar por um momento a internet. Mathias, o garçom, com uma amabilidade fora do comum passou a senha do wifi para nós. Logo depois, ele trouxe quatro medialunas e dois cafés. Nesse momento pensei comigo "Nos ferramos vamos ter que pagar esse café da manhã nesse lugar caro.". Comemos e usamos a internet. O Mathias ainda trouxe água para nós. Na hora que perguntamos quanto tinha ficado o Mathias deu risada e disse que era por conta da casa. Ele ainda perguntou se queríamos levar umas medialunas para comer depois. Não levamos as medialunas para viagem, mas ficamos conversando um pouco com o Mathias enquanto a cafeteria continuava vazia. Depois de uns minutos nos despedimos do Mathias e seguimos nosso caminho. 

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Foto 5.1 - Os cafés e as medialunas

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Foto 5.2 - Mathias, o gente boa

Esse episódio do Mathias é muito importante para mim. Parece algo simplório, mas não é. Minha primeira reação ao ver ele trazendo o café e as medialunas foi duvidar da sua índole e pensar que ele havia dado a senha do wifi em troca de consumirmos aquilo. Como esse pensamento me torturou depois, me senti um hipócrita. Mathias foi coração puro e eu no meu pré conceito criei uma falsa imagem desse cara gente boa demais. 

Chegamos no nosso destino. Silvina com seu sorrisão veio nos receber. Ela mora há quatro anos em Piracanga, na mesma ecovila que o Matheus morava antes da viagem. Estava de férias e veio rever a família, tinha chegado no dia anterior em Buenos Aires. Nos próximos dias ela faria um curso de ioga em uma cidade vizinha, então esse seria nosso primeiro e único contato com ela na nossa estadia em Buenos Aires. Silvina apresentou sua mãe, Carlota, e sua casa. Tomamos mate. Minutos depois a Carlota inaugurou a pergunta que iria nos acompanhar por todos os nosso dias na Argentina. A pergunta foi "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?" (risos). Tomamos banho e logo fomos caminhar. A Silvina nos acompanhou por um tempo, depois quando já era hora dela seguir pro curso nos despedimos da Silvina e seguimos.

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Foto 4.3 - Silvina e o mate argentino

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Foto 4.4 - Matheus, Silvina e Eu (A despedida)

Caminhamos em direção ao Obelisco. Não era possível caminhar próximo do Obelisco, tinha muita polícia em todo o lugar. Assim, resolvemos sair daquela muvuca e fomos na direção do cemitério da Recoleta. Nunca tinha entrado num cemitério como atração turística. Ouvi dizer que esse cemitério é o segundo mais visitado do mundo. As lápides são gigantes e cheias de luxo, é um lugar diferente e bonito. Muitas celebridades e presidentes argentinos estão enterrados nesse cemitério, mas a principal atração é o túmulo de Evita, a mãe dos pobres.

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Foto 4.5 - A entrada do cemitério

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Foto 4.6 - O caminho para as lápides

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Foto 4.7 - A lápide de Eva Perón, a Evita

Depois passamos o resto do dia caminhando pelos arredores de Palermo e seus muitos parques. Conhecemos a incrível Florales Generica. Passamos pelo lindíssimo Planetário. No Planetário vi uma cena inédita na minha vida, sentei e parei para ver diversos youtubers brasileiros gravando vídeo naquela belezura de lugar. Eles davam diversas dicas de como ganhar dinheiro, ser rico, de viver viajando. Enfim, tinham fórmulas prontas pra tudo. Achei meio bizarro tudo aquilo. No resto do dia ficamos caminhando pelos parques de Palermo, e confesso é um mais bonito que o outro.

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Foto 4.8 - Florales Generica

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Foto 4.9 - O planetário

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Foto 4.10 - Arredores de Palermo

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Foto 4.11 - Em um dos parques de Palermo

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Foto 4.12 - Arredores de Palermo

No dia seguinte, acordamos e partimos para o bairro de La Boca para conhecer o Caminito. Caminito é um lugar bacana demais, cheio de música, dança e comida. As cores fortes dão um charme a mais ao lugar. Depois seguimos pela linha do trem e fomos conhecer a frente do estádio do Boca, a La Bombonera. Na verdade queria mesmo era ter assistido um jogo naquele caldeirão. Na volta pro Caminito avistei um grafite do Riquelme. Talvez o Riquelme seja o jogador que mais gostei de assistir. Ver o Riquelme em tintas na mesma pose em que comemorava seus gols, não teve como não lembrar das Libertadores de 2000, 2001 e 2013 (risos). Antes de irmos embora comemos um choripan (pão e linguiça).  

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Foto 4.13 - O Caminito

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Foto 4.14 - O Papa Francisco

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Foto 4.15 - As cores de La Boca

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Foto 4.16 - A espera do Tango

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Foto 4.17 - Mais cores

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Foto 4.19 - As lojas

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Foto 4.19 - La Bombonera

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Foto 4.20 - Riquelme

Na sequência seguimos de ônibus para Puerto Madero. Descemos em um lugar esquisito, depois de caminhar uns dois quarteirões percebi que estávamos numa região de prostituição. Cheio de gente mal encarada. Andamos por algum tempo meio sem saber pra onde íamos. Chegamos numa rua movimentada e nos localizamos. Caminhamos bastante. Chegamos em Puerto Madero. Em Puerto Madero tem diversas estátuas de símbolos do esporte argentino como: Juan Manuel Fangio, Ginóbili, Lucha Aimar, entre outros, mas o que chamou a atenção foi que estátua do Messi estava inteiramente depredada, não sei se isso foi depois da Copa. Outra coisa que chamou a atenção em Puerto Madero foi os carrinhos de choripan e as muitas pombas. Vimos uma cena que as pombas comiam as linguiças de um desses carrinhos enquanto a dona do carrinho fazia outras coisas. Deve ter dado um bom tempero para os próximos choripans (risos).

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Foto 4.21 - Ônibus em Buenos Aires

No outro dia, um domingo, partimos para conhecer a feira de San Telmo. A feira é incrível. Tem muita coisa legal pra ver. Tem boa música por todas as partes. Tem tango também. Muito doce de leite. Acho que nesse dia comemos meio quilo de doce de leite só de experimentarmos as amostrinhas das lojas. E ainda tem a Mafalda sentada num banquinho. Eu sou fã da Mafalda, para mim foi legal tietar ela ali. Não tem como descrever as sensações de estar ali na feira de San Telmo, com toda certeza foi a melhor parte de estar em Buenos Aires.

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Foto 4.22 - A feira de San Telmo

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Foto 4.23 - Miguelito, Mafalda, Eu e o Manoelito

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Foto 4.24 - A feira de San Telmo

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Foto 4.25 - Melhor maneira de se locomover com os filhos

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Foto 4.26 - O tango não tem idade

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Foto 4.27 - Matheus modelando, novamente

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Foto 4.28 - O teto de guarda-chuva

Pela tarde conhecemos a Casa Rosada e seus arredores. Caminhamos solitários por caminhos que normalmente estariam entupidos de gente e carros. Avançamos até perto do Obelisco. Seguimos caminhando pela Avenida 9 de Julio. Encontramos um grupo de pessoas dando abraço grátis. Abraçamos o grupo todo.

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Foto 4.29 - A Casa Rosada

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Foto 4.30 - O vazio que o G20 trouxe

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Foto 4.31 - Um prédio

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Foto 4.32 - Ao lado da Casa Rosada

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Foto 4.33 - Outra vista da Casa Rosada

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Foto 4.34 - A praça

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Foto 4.35 - A cidade vazia

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Foto 4.36 - Obelisco

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Foto 4.37 - Eu e a Buenos Aires vazia

Na Recoleta tem uns bancos distribuídos pelo bairro que parecem sofás. Fiquei diversos dias imaginando como aqueles sofás nas ruas eram chiques, mas ao mesmo tempo fiquei pensando como aquilo deveria ser fedido e um caos quando chovia. Em nenhum momento, tive a curiosidade de sentar nesses sofás. Nesse dia a curiosidade falou mais alto e sentei no banco. E a surpresa e uma sensação de burrice me contaminou. O banco é de pedra, uma pedra toda esculpida para parecer um sofá, mas é de pedra (risos). Ai fiquei dando risada sozinho de como tinha sido juvenil em achar que aquilo era um sofá de verdade.

Outra coisa que me chamou a atenção em Buenos Aires foi os sinaleiros. O sinal amarelo acende antes do verde, o que dá uma impressão da largada de uma corrida. E o sinal de pedestres fica verde junto com o de carro, explicaram que a preferência é do pedestre, mas sempre me embananava ao atravessar a rua.  

Depois encontramos a Brown, uma amiga do Matheus que estava morando em Buenos Aires. As conversas sempre voltavam para a política. Ela nos contou que sempre que conhecia um argentino ouvia a mesma pergunta "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Conosco era o mesmo. A Brown falou uma coisa que me chamou a atenção. Ela disse mais ou menos assim: "Brasil e Argentina são dois países parecidos, onde politica é tratada como futebol. Os dois países estão divididos. A única diferença que eu vejo é que aqui ninguém discute Direitos Humanos, todos entendem como conquistas inalienáveis. Já no Brasil ainda discutimos Direitos Humanos.". 

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Foto 4.38 - Matheus, Eu e a Brown

Acordamos um pouco mais tarde hoje, era o dia da partida. Conhecemos o Dani, que tinha pernoitado na casa da Silvina também, ele estava viajando por poucos dias e estava no Uruguai, atravessou o Rio da Prata para rever a Silvina, eles moraram juntos em Piracanga anos atrás. Ele já seguiria de volta pro Uruguai no mesmo dia. Tomamos café da manhã com a Carlota nesse dia. Conversamos bastante.  Pela primeira vez tivemos a oportunidade de ter uma conversa de longo prazo com a Carlota. Descobrimos que ela é psicóloga e socióloga. Uma mulher cheia de opiniões e uma boa visão de mundo. Foi muito boa essa conversa e ficou aquele gostinho que devíamos ter feito isto antes. A Carlota ainda ensinou o Matheus a preparar mate. Já era mais de meio dia, demos um abraço apertado na Carlota e seguimos para a rodoviária do Retiro. 

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Foto 4.39 - Dani, Matheus, Carlota e Eu.

Os dias, na capital argentina, foram tranquilos. Apesar de não querer passar por cidades grandes, me surpreendi com a beleza da cidade. Sua arquitetura toda harmônica é uma beleza pra vista. O G20 esvaziou o centro da cidade, e isso se mostrou bom para nós que pudemos caminhar tranquilamente por todos os pontos turísticos da cidade. Caminhamos muito, muito mesmo, mas sempre devagarinho. Saíamos cedinho da casa da Carlota e voltávamos no meio da noite. A calmaria, desses dias, foi muito boa e ainda tive a sorte de conhecer a tão badalada capital argentina. E muito obrigado para Silvina e Carlota por nos acolherem. Muchas gracias y besos!

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Parte 6 - O começo da Ruta 3 e o mar de Claromecó

"Exageramos sempre as coisas que não conhecemos." O Estrangeiro, Albert Camus

Quando convidei o Matheus a encarar essa viagem comigo, ele ainda estava na ecovila em Piracanga. Nessa ecovila moram alguns argentinos e já passaram outros diversos hermanos por lá. Assim, os argentinos da ecovila sabendo da viagem, que o Matheus logo iniciaria, resolveram ajudar com contatos pela Argentina. A Silvina conversou com sua mãe e tivemos hospedagem em Buenos Aires. Depois o pessoal passou contato de um casal, Carlos e Ana, que haviam morado na ecovila e que hoje moram em Tres Arroyos.  

Pegamos o ônibus com destino a Tres Arroyos, pagamos bem baratinho pela passagem. Tres Arroyos fica a quase 500 km de distância de Buenos Aires, seria uma longa viagem. Entramos no ônibus e agora sim a nossa busca pelo fim do mundo tinha começado. Quando pela janela do bus eu avistei pela primeira vez a quilometragem da Ruta 3 o coração disparou. Até então a viagem estava sendo boa demais, demais mesmo, mas eu sentia que estávamos adiando o nosso principal objetivo e agora o adiamento tinha terminado. A Ruta 3 nos levaria para Ushuaia e agora viajávamos sobre ela. 

A Ruta 3 é uma rodovia que tem 3079 km de extensão. A rodovia se inicia nos arredores de Buenos e termina na Bahia de Lapataia em Ushuaia. Ela corta toda a Patagônia Argentina margeando o Oceano Atlântico. A Ruta 3 é uma (a outra é a Ruta 40) das duas mais importantes rodovias da argentina. A Ruta 3 se caracteriza por ser reta e plana em quase todo o trajeto.

A viagem foi tranquila, ganhamos uma caixinha com alguns doces de café da tarde. Tinha um alfajor de morango sensacional. Uma guria que estava sentada do nosso lado ao ver nossas caras de esfomeados deu sua caixinha para nós. Depois fiquei a olhar pela janela do ônibus. O sol estava descendo na direção da minha janela. Peguei o sol de frente toda viagem, mas mesmo assim não parava de ver aquela belezura dos pampas. Eu vejo muita beleza na imensidão, e o pampas é isso, uma imensidão de mesmos cenários por milhares de quilômetros. Mas que lindeza é o descer do sol nesse lugar. Sol que se pôs apenas as nove horas da noite. Quando a noite tomou conta, já não sentia mais meu rosto que estava todo queimado de sol. Pouco depois de escurecer totalmente chegamos em Tres Arroyos. 

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Foto 6.1 - Os Pampas pela janela do ônibus

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Foto 6.2 - A Ruta 3

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Foto 6.3 - Um pouco mais da vista do ônibus

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Foto 6.4 - Mais um pouco

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Foto 6.5 - O descer do sol nos pampas argentinos

No dia anterior o Carlos por mensagem tinha nos perguntado se queríamos conhecer Claromecó, uma cidade praiana perto de Tres Arroyos. Respondemos "Bora" ou melhor, como estávamos na argentina tivemos que adaptar e respondemos "Buera". Assim, chegamos em Tres Arroyos e conhecemos o Carlos, já em seguida entramos na sua caminhonete e partimos para Claromecó.

O Matheus e o Carlos conversavam na frente. Eu me desconectei do mundo ao avistar pela janela da caminhonete o mar de estrelas no céu. Que lindo estava aquele céu. Fazia algum tempo que não via um céu tão bonito. Das coisas que mais gosto de fazer é ficar paralisado olhando o céu. A paixão surgiu na adolescência quando eu queria ser astronauta, ficava imaginando eu sendo o explorador daquele montão de desconhecido. Depois o céu foi a forma que encontrei de matar a saudade das pessoas que não estão mais entre nós. Assumi aquela história que é contada na infância como verdade e passei a acreditar que quando uma pessoa amada se vai ela vira uma estrelinha. Quantas boas lembranças me veio naquele momento. Os olhos marejaram e fiquei com vontade de ter um corda de tamanho infinito pra puxar de volta aquelas estrelinhas que tanta falta faziam para mim.

Depois de quase uma hora de viagem chegamos na casa do Carlos e da Ana em Claromecó. Com um sorriso gigante e um abraço apertado a Ana nos recebeu. Não tinha como não sorrir com aquela alegria que ela estava ao nos receber. Ela tinha preparado uma jantar de recepção. Não tínhamos comido o dia todo, além daqueles doces no ônibus. Então, comemos como dois cães famintos. Só depois as conversas se reiniciaram. 

Carlos e Ana são terapeutas holísticos e vivem entre Tres Arroyos e Claromecó. Eles atendem nas duas cidades, mas preferem a calmaria de Claromecó. São seguidores do Prem Baba e apaixonados pelo Brasil, já estiveram diversas vezes pelo país e moraram em Piracanga por uma temporada.
 
Até então estávamos alheio as notícias do mundo, de propósito por sinal. Nesse dia perguntei aonde seria a final da Libertadores da América e fiquei surpreso em saber que foi Madrid a cidade escolhida para o épico River x Boca. O campeonato de futebol do nosso continente, que em seu nome homenageia nossos libertadores do colonialismo europeu, teria seu maior capítulo na capital espanhola ou seja a capital dos colonizadores. San Martin e Simon Bolívar devem ter se revirado em seus túmulos. Parecia uma piada de mal gosto essa escolha. Carlos era pontual em dizer: "Não tem mais graça essa final".

Ficamos até altas horas conversando e tomando mate. Fiquei surpreso em saber que os dois eram fãs do Porta dos Fundos. Conversamos sobre o vídeo do Porta, que tinha saído a pouco tempo, que satiriza o então candidato a presidência (que naquele dia já era presidente eleito) que acredita que os africanos foram os únicos responsáveis pela época da escravidão. O vídeo fez a conversa seguir para o tema do racismo no Brasil e a Argentina. Concluímos que a propagação dessas teorias absurdas sobre a escravidão brasileira mostram o quanto vivemos num país com um racismo enraizado e ao mesmo tempo velado. Sempre acreditei que a escravidão na Argentina foi feita em sua grande maioria com indígenas, mas o Carlos explicou o passado do seu país. A Argentina chegou a ter 50% de população negra, mas com a abolição da escravatura os negros foram usados como "bucha de canhão" na Guerra do Paraguai, depois foram largados a margem da sociedade e hoje são apenas 3% da população argentina. Diferente do racismo velado do Brasil, na Argentina o racismo é mais explícito. A ironia de toda essa história é que o símbolo da cultura argentina, o Tango, foi inventado pelos negros. 

No outro dia já no café da manhã começamos as conversas. Ficamos um bom tempo na mesa batendo papo sobre tudo. O assunto desse momento que me vem a memória é sobre a paixão incondicional dos argentinos pelos seus ídolos. Na verdade essa paixão exacerbada sempre me encantou, não existe meio amor lá. Carlos não gosta muito desse amor todo, dizia que tira um pouco da racionalidade. Evita, Che, Mafalda, Maradona e agora o Papa Francisco são os ídolos master desse país chamado Argentina. Mas me diz, como o Maradona não seria "Dios" aqui? Em 1982 a Argentina declarou guerra contra a Inglaterra, nesse momento o país era uma ditadura e o nacionalismo tomava conta da população. Assim, o governo achou que era hora de recuperar a posse das ilhas Malvinas, que estavam sob o domínio inglês. A guerra não durou 2 meses e a Argentina saiu derrotada. Em 1986, quartas de final da Copa do Mundo, Argentina e Inglaterra estão frente a frente novamente. Agora no campo de batalha do futebol. Talvez esse é o único campo de batalha que os sulamericanos lutam de igual pra igual com os europeus. Nesse jogo épico Maradona se transforma em Deus. Primeiro faz um gol de mão e logo em seguida dribla o time todo inglês pra fazer o gol mais emblemático de todos os tempos. No final do jogo ao ser perguntado sobre o gol de mão, resumiu em "Foi a mão de Deus" (risos). Dando a entender que aquele fato era um reparação histórica, só não da pra entender se quando ele se referia a Deus era sobre ele mesmo ou sobre o divino. 

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Foto 6.6 - Nosso novo lar

Saímos para caminhar pela orla. Primeiro passamos em frente do Castillo de Claromecó. Essa é uma construção que lembra um castelo medieval, mas por falta de recursos o dono não terminou a construção. O Carlos contou que o Castillo foi uma prova de amor do dono com a mulher, ele queria que a mulher vivesse como uma rainha. Porém, o dinheiro acabou antes da esposa virar uma nobre. O Castillo é todo bonitão e quebra a paisagem da orla de Claromecó composta de uma infinidade de areia. 

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Foto 6.7 - A lateral do Castillo de Claromecó

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Foto 6.8 - O Castillo de Claromecó

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Foto 6.9 - O Castillo na paisagem

Depois caminhamos horas e horas pela orla. As conversas seguiam. A Ana precisava fazer um atendimento e nos deixou no meio da caminhada. Continuamos o caminhar. Era a minha primeira vez em uma praia argentina. Molhei os pés e água estava congelante. A praia é toda charmosa e não tinha quase ninguém. Claromecó é como uma cidade fantasma, fica vazia quase todo o ano, e somente no verão a galera vai para lá, mas em dias ensolarados a Ana disse que a cidade de Tres Arroyos se muda inteira para Claromecó.

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Foto 6.10 - O mar

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Foto 6.11 - Ana e Carlos

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Foto 6.12 - O farol

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Foto 6.13 - Matheus, Ana e Carlos

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Foto 6.14 - A orla

Enquanto caminhávamos pela areia da praia de Claromecó surgiu um cachorro todo engraçadinho. Ele não tirava os olhos dos nossos pés. O Carlos já o conhecia e disse que ele gostava de comer areia (risos). Ai o Carlos foi lá e chutou um pouco de areia pra cima, o dog ficou maluquinho e pulou em direção da areia voadora com a boca aberta. Eu chorei de dar risada. E assim ele nos acompanhava na esperança que chutássemos areia pro alto. Chutei várias vezes e o bichinho não cansava. A melhor parte foi quando sai correndo chutando areia e ele veio atrás como louco, só fomos parar com a correria na água gelada do mar, e põe gelada nisso. 

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Foto 6.15 - O cachorro maluquinho

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Foto 6.16 - A praia

Uma coisa que Carlos nos contou que me chamou a atenção foi que a maior paixão do argentino é o automobilismo e não o futebol. Não sei o quanto isso é verdade, mas nunca tinha prestado a atenção nisso. Nos contou sobre os diversos eventos de automobilismo que ocorrem no país. Disse também que em determinada época o país se dividia entre GM versus Ford, tamanha era a rivalidade dos amantes de automobilismo. E toda vez que saímos para caminhar mostrava os Claromachines, que são carros adaptados que não podem circulam nas cidades, mas circulam em lugares como Claromecó. Os Claromachines são como as gaiolas aqui no Brasil, mas tem uma diversidade muito maior, principalmente esteticamente falando. Tinha uns bem engraçados.

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Foto 6.17 - Claromachine

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Foto 6.18 - Outro Claromachine

No fim da orla a Ana estava nos esperando de carro. Entramos no carro e fomos conhecer a reserva florestal de Claromecó. O lugar é bem bonito, mas dois anos antes teve um incêndio que quase exterminou a floresta. As marcas são bem visíveis ainda hoje. Depois do incêndio a prefeitura liberou a população a cortar madeira na região morta da floresta. Essa madeira é utilizada pela população para abastecer o sistema de calefação das casas.

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Foto 6.19 - A floresta de Claromecó

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Foto 6.20 - Mais um pouco da floresta

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Foto 6.21 - Un pouquito más

Voltamos para casa. O Carlos e a Ana prepararam um almoço vegano sensacional. Foi demais aquela comida. Logo depois eles foram tirar a famosa "siesta". Eu e o Matheus voltamos pra praia e ficamos por lá o resto da tarde. Ficamos trocando ideia a beira mar. Depois subimos até o farol da cidade, lugar que se tem a melhor vista da cidade.

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Foto 6.22 - De frente ao farol

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Foto 6.23 - O farol e eu

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Foto 6.24 - Claromecó 

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Foto 6.25 - O pôr do sol

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Foto 6.26 - Matheus e o mate

No caminho de volta estávamos conversando distraídos. Passamos por um ônibus e depois de uns 10 segundos olhei de novo para o busão e me recordei do filme Na Natureza Selvagem. O ônibus lembrava muito o "Magic Bus" do filme. Só pensei naquela hora em tirar a foto característica do Chris McCandless vulgo Alex Supertramp.

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Foto 6.27 - O Magic Bus

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Foto 6.28 - Foto referência Na Natureza Selvagem

Voltamos e as boas conversas continuaram. A noite chegou e estava frio. As madeiras queimando na lareira iluminavam o ambiente. A essa altura já estávamos viciados em mate argentino e o Matheus já dominava a arte de preparar o mate. Ficamos o resto da noite assim, tomando mate e conversando sobre tudo. Desde de temas complexos até bobeirinhas do cotidiano. Ana e Carlos falaram sobre a volta de Piracanga até Tres Arroyos de carro. Carlos tem descendência holandesa e nessa viagem quis passar por Holambra para conhecer um pouco mais de suas raízes. Holambra fica cerca de cem quilômetros da minha cidade, é tão pertinho, mas eu não conheço. Eles gostaram bastante de Holambra. Depois seguiram para região de Blumenau para a Ana conhecer um pouco mais de sus raízes alemã. Ela ficou feliz em saber que as tiaras floridas que ela usa por achar bonito, era algo tradicional da cultura alemã. Depois tiramos uma foto todo mundo junto e fomos dormir.

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Foto 6.29 - Carlos, Ana, Matheus e Eu

Acordamos cedo e a Ana preparou um bom café da manhã. Tomamos mate. Arrumamos as mochilas e colocamo-as na caminhonete. Entramos no carro e seguimos para Tres Arroyos. Dentro do carro o silêncio tomava conta. Agora conseguia ver o caminho que dias antes tinha percorrido no escuro. Tudo muito bonito por sinal. O Carlos chamou a atenção pelo fato que na Argentina os terrenos a beira pista não são colados na pista como no Brasil. As cercas se iniciam mais ou menos a uma distância de quinze metros da rodovia. Depois notei que por toda a Argentina é assim. Ele não soube explicar o porque daquilo. Talvez seja pensando numa futura ampliação das rodovias. Chegamos em Tres Arroyos e o Carlos nos deixou num posto da YPF na saída da cidade sentido Bahia Blanca. Ana e Carlos iriam trabalhar pela cidade em seguida. Despedimos dos dois com abraços apertados. Ana não parava de sorrir. Assim, eles se foram e ficamos mais uma vez em companhia da estrada.

Claromecó é um lugar que nunca imaginei conhecer, na realidade nem sabia de sua existência. Estar ali em suas ruas vazias me fez pensar o quão bom é não ter planos. A falta de planos tinha me levado ali, e estava muito feliz em poder conhecer aquele lugar mágico na companhia da Ana, Carlos e do Matheus. Como eu gostei de estar ali. Tenho muitas saudades daqueles momentos. O Carlos sempre pontual em suas observações, me fez refletir sobre muita coisa. Ele é um cara inteligente demais e com uma visão aberta de mundo. Ana se destaca por sua alegria e por sempre estar sorrindo, me fez sentir em casa. Conhecer um pouco mais da história argentina pelo olhar da Ana e do Carlos me enriqueceu bastante. Buenos Aires, Tres Arroyos e Claromecó são três cidades que tive a oportunidade de conhecer por causa da distante Piracanga. Nesses primeiros dias de Argentina, ouvi quase sempre o nome de Piracanga. Fiquei com muita vontade de conhecer o lugar que de alguma forma estava conectando nossa viagem em terras argentinas.

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Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn

"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa." O Outro Pé da Sereia, Mia Couto

Fomos para a saída do posto da YPF em Tres Arroyos na Ruta 3. Ficamos com o dedão erguido por pouco mais de uma hora. Até que escutamos alguém gritando, olhamos para trás e tinha um carro parado, uma moça quase saindo pela janela fazia sinal para irmos com eles. Pegamos nossas coisas e saímos correndo rapidamente com medo que o carro partisse sem nós. Entramos no carro e conhecemos o German e a Micaela, pai e filha. O Matheus logo se ofereceu para preparar o mate. Olhei do lado e ele tinha derrubado um monte de erva no carro, era a primeira vez que preparava mate numa carona. Depois que a cuia passeou por todos nós e recebemos a aprovação do mate, a conversa começou.

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Foto 7.1 - Mochilas em Tres Arroyos

Os dois estavam indo pra Bahia Blanca, a Micaela tinha acabado de se formar em bioquímica e estava indo buscar seu diploma. Mal começou a conversa e a pergunta já veio "Brasil, como puede eligir Bolsonaro?". Demos risada, afinal todo mundo perguntava isso. A conversa prosseguiu e descobrimos que o German é educador físico. Ele faz todo tipo de esportes e é torcedor do River Plate. O assunto girou em torno de futebol por um tempo. A Mica é torcedora do San Lorenzo. Depois falamos o que fazíamos da vida e explicamos a nossa viagem, German ficou bastante curioso com a inteligência artificial. A Micaela nos contou sobre a sua viagem caronando pela Patagônia antes de entrar na faculdade. Falaram dos planos de conhecer o Brasil, em especifico Balneário Camboriú (Balneário faz muito sucesso na Argentina). German gosta de subir montanhas e no final de ano ia subir um vulcão perto da divisa com o Chile.

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Foto 7.2 - German, Matheus, Micaela e Eu

O German sempre buzinava quando passava na frente de uma mini estátua cercada de aparatos e bandeiras vermelhas na estrada. Como a curiosidade é grande perguntei o porquê daquilo. Ele contou que a estátua se referia ao Gauchito Gil,  esse gaúcho é tipo um santo protetor (ou companheiro) de quem está dirigindo na estrada. A adoração é visível, em todos os lugares a beira pista tem esses santuários e todos os motoristas buzinam ao ver a imagem de Gauchito Gil na estrada.

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Foto 7.3 - Gauchito Gil (Foto tirada em Rio Gallegos, coloquei aqui só pra ilustrar)

Depois de quase três horas de viagem e de boas conversas, chegamos em Bahia Blanca. A Micaela desceu do carro para ir em busca do seu diploma. Só deu tempo de falar tchau. Nós seguimos com o German que foi mais avante na cidade para facilitar nossa vida. Demos um abraço bem forte no German e o Matheus presenteou-o com duas fitinhas do Senhor do Bonfim. Nos despedimos do German e seguimos caminhando até a Ruta 3 novamente. Caminhamos por mais de uma hora para chegar numa bifurcação que diziam que era o melhor caminho para pedir carona. Era um ótimo lugar, pois tem um posto da Axion gigante e tinha centenas de caminhões parados ali. Tinha certeza que seria fácil prosseguir dali.

A ideia era seguir adiante, não importava qual cidade iríamos ser deixados, desde que fosse caminho para o sul. Assim, fomos primeiro conversar com os caminhoneiros parados. Recebemos um monte de não. Uns diziam que o caminhão era rastreado. Outros diziam que iam no sentido contrário, mas minutos depois seguiam rumo ao sul. As conversas só renderam com os caminhoneiros que realmente seguiriam sentido Buenos Aires. Fizemos amizade com um caminhoneiro que a mulher dele é brasileira. Depois fomos para a pista, havia umas três pessoas que também tentavam seguir pro sul. Ficamos um pouco ali, mas como fizemos fila a nossa chance era pequena. Voltamos para o posto e tentamos a abordagem direta novamente. O curioso que tinha um caminhoneiro maratonista no posto, ele saiu do caminhão de shortinho e tênis de corrida e ficava correndo em círculos no posto. Não entendi bem porque ele andava em círculos, ele poderia seguir pela pista e depois voltar, mas ele rodava como dentro de um autorama. Era engraçada essa cena. Continuamos com as abordagens e não obtivemos sucesso. Logo começou uma chuva bem forte, o que nos forçou a continuar por ali dentro do posto. A chuva prosseguiu por toda a tarde. Já era quase noite e resolvemos desistir das caronas e prosseguir de ônibus.

Nesse ponto é importante fazer algumas reflexões. Eu acredito muito em energia, dessas que você sente ao estar do lado de uma pessoa. Quando fomos para a pista pedir carona, tinha um cara lá pedindo carona também. Conversei um pouco com ele e senti que ele transmitia uma energia muito ruim. Não quis ficar perto dele e por isso abortamos pedir carona na pista, pois ele meio que seguia a gente. Quando a chuva veio com força ele se abrigou dentro do posto também, mais uma vez conversei com ele e dessa vez me senti pior ainda ao lado dele. O Matheus disse que sentiu o mesmo. Não gosto de fazer diferença com ninguém, mas aquele cara me passava algo muito ruim. Eu e o Matheus tínhamos combinado que dormiríamos ali mesmo no posto naquele dia. Tinha um monte de caroneiro ali, ninguém conseguiu sucesso naquela tarde e já estava pra escurecer. Assim, as chances de prosseguir com carona eram mínimas. Não quis dormir no mesmo lugar que aquele cara e decidimos ir para rodoviária e seguir de ônibus noturno para Puerto Madryn. O pouco de dinheiro que tínhamos nos tornou conservadores naquele momento. Esse nosso conservadorismo fez ficarmos frustados no caminho até a rodoviária. Talvez tenha sido a maior frustração da viagem, pois sabíamos que dali uma hora a carona ia surgir. Era questão de tempo apenas. Mas nessa hora resolvemos deixar a racionalidade de lado e ouvir o coração. Coração que dizia pra sairmos correndo dali.

Chegamos na rodoviária e tivemos sorte, pois compramos a passagem para Puerto Madryn com outro super desconto. Depois fui no mercado comprar uns pães para comermos de janta. Voltei e sentamos para comer num lugar isolado da rodoviária. Uns cachorros gigantes vieram conosco. Dava uma dó comer em volta dos pidões. Cada mordida que eu dava eles avançavam um pouco mais em minha direção. Pareciam esfomeados. Então, joguei pão para eles, mas se mostraram frescos por não ter quase recheio e não comeram (risos). 

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Foto 7.4 - Dois dos famintos

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Foto 7.5 - Moço dá um pedaço

O ônibus chegou já era quase uma hora da manhã. Subimos no ônibus e segundos depois de me sentar na poltrona já estava dormindo. Acordei era noite ainda. Olhei o céu pela janela e o céu estava estrelado demais. Que maravilha. Paramos em Viedma para mais passageiros entrar. Agora oficialmente estávamos na Patagônia. A viagem prosseguiu. Depois de passarmos por Las Grutas o dia já se anunciava. O busão acelerava e agora só ia no sentido sul. Pela janela via guanacos correndo pela paisagem. Eram muitos guanacos. No meio da manhã o ônibus estacionou na rodoviária de Puerto Madryn. Enfim, pisei com meus próprios pés na tão esperada Patagônia.

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Foto 7.6 - A Ruta 3 pela janela frontal do ônibus

A Argentina é um país dividido em vinte e três províncias (semelhante aos estados brasileiros) e mais a cidade autônoma de Buenos Aires. Cinco dessas províncias estão localizadas na Patagônia e são elas: Rio Negro, Néuquen, Chubut, Santa Cruz, Tierra del Fuego. O território patagônico corresponde a metade do território argentino. Quando passamos por Viedma e Las Grutas cortávamos a província de Rio Negro, ao cruzar para Puerto Madryn ingressamos na província de Chubut.

A Patagônia tem esse nome por causa do Fernão de Magalhães. Como se sabe Fernão de Magalhães foi o homem que planejou circum-navegar o globo terrestre. Essa viagem foi a primeira circum-navegação da história da humanidade. Porém, Fernão morreu antes de terminar essa façanha, faleceu nas Filipinas. Entretanto, foi o primeiro homem a navegar pela Patagônia e posteriormente pelo Estreito de Magalhães. Quando atracou na Patagônia (ainda não tinha esse nome a região) pela primeira vez, avistou os ameríndios da região e pensou que fossem gigantes (pois a média européia naquela época era de 155 cm e os ameríndios da patagônia mediam mais de 180 cm). Ao escrever essa experiência para a coroa espanhola, descreveu aqueles seres como patagão, ou seja, aqueles que tem pés grandes. E assim, foi que a região foi batizada como Patagônia, a terra dos gigantes ou a terra do pé grande.

A rodoviária de Puerto Madryn é muito bonita e organizada. Estava um calor do cão. Ficamos sentados um pouco nos bancos, planejando os próximos passos. Precisávamos de internet e o wifi da rodoviária estava fora do ar. Caminhamos até o shopping. Antes caminhamos pela orla da cidade. Que mar maravilhoso, uma das colorações mais bonitas que já vi. Chegamos no shopping e  conseguimos acessar a internet e mandar mensagem para o Carlos avisando que havíamos chegado. O Carlos estava pelo centro e falou que já passava pra nos buscar. Cinco minutos depois ele parou com o carro na frente do shopping. Entramos no carro e logo começamos a conversar. Ele nos levou para o mirante da cidade, bem bonito por sinal. Depois nos levou para a casa dele. Ele teria que trabalhar pela tarde.

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Foto 7.7 - O mirante

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Foto 7.8 - As bandeiras

Encontramos o Carlos pelo couchsurfing, fazia alguns dias que estávamos em contato com ele. Não sabíamos o dia exato que iriamos chegar, mas por sermos brasileiros ele sempre foi muito solicito. Não tínhamos 3g no celular, então depois que saímos de Claromecó não conseguimos mais falar com o Carlos. Ele sabia que podíamos chegar a qualquer momento. Nisso ele hospedou uma francesa sob a condição se nós chegássemos ela teria que procurar outro lugar pra ficar. Só fui saber disso depois. A francesa partiu para um hostel e nós chegamos. Ao menos ela ficou na casa do Carlos por alguns dias. 

Carlos é professor de inglês do ensino público. Ele é um cara que já morou em tudo que é lugar da Argentina, desde do extremo sul da argentina (Ushuaia) até o norte, na realidade ele é do norte argentino. Ele é o cara mais apaixonado pelo Brasil que já conheci. Os programas televisivos que assiste são brasileiros, as músicas que ouve são brasileiras, as comidas que mais gosta são do Brasil. Ele fala muito bem português e o motivo principal de ter nos aceitado em sua casa era pra treinar o seu português.

Pela tarde fomos caminhar pela orla. Levamos nossa térmica e ficamos boa parte da tarde mateando a beira mar. Depois fomos até o cais, onde os cruzeiros atracam. Tava rolando um protesto com algum desses navios, mas eu não entendi o porquê do protesto, queria ter compreendido aquela situação. Depois fomos até o Museu Oceanográfico. O museu é todo organizadinho e cheio de boas informações da rica fauna marítima de Puerto Madryn. A cidade é o principal ponto de estudo da baleia franca no mundo, pois nessa região é onde ocorre o acasalamento desses mamíferos, em consequência disso a baleia franca é o grande símbolo da região. Uma coisa que me chamou atenção nesse museu é que dizia que o aumento de lixo, aumentou o número de gaivotas cocineras por ali e com o aumento dessas gaivotas começou a diminuir o número de baleias francas. Fiquei uns minutos tentando adivinhar o porquê disso. Não achava uma relação entre gaivotas e baleias. Desisti de encontrar as resposta por mim mesmo e li a explicação. O motivo era que as gaivotas atacavam as baleias causando ferimentos que infeccionam e levam essas baleias ao óbito. Nunca iria imaginar isso. Diziam que quando era poucas as gaivotas elas bicavam as baleias mortas somente, para retirar algum nutriente, mas com o excesso da população de gaivotas elas começaram a atacar as vivas também. Achei bizarra essa situação, nem na minha imaginação fértil iria supor que uma população de gaivotas colocaria em risco a sobrevivência das baleais franca na Terra. 

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Foto 7.9 - O lado B de Puerto Madryn

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Foto 7.10 - A orla de Puerto Madryn

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Foto 7.11 - Eu e o mar

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Foto 7.12 - A visão do cais

Depois fomos olhar os preços dos rolês mais famosos de Puerto Madryn. Tudo caro demais. Acho que o lugar mais caro da Patagônia. Os dois passeios mais famosos são Península Valdés e Punta Tombo. Peninsula Valdés é uma reserva ambiental onde a fauna é riquíssima e concentra todo os tipos de animais da região, além de ser o principal ponto de observação das baleias francas. Punta Tombo é um local que abriga uma gigantesca colônia de Pinguins de Magalhães, onde vivem mais de um milhão de pinguins em determinada época. Por agências não havia chance de nós conhecermos nenhum dos dois lugares.

O interessante de Puerto Madryn é que tem bandeiras do País de Gales por todo o canto da cidade. A cidade foi colonizada e fundada por galeses, assim como as cidades vizinhas Trelew e Rawson.

Voltamos para a casa do Carlos já era noite. Carlos apresentou sua playlist de música só com músicas brasileiras. Tocou desde É o Tchan até IZA. Ele prefere as músicas mais animadas. Ivete Sangalo quase sempre aparecia na lista. Enquanto a música rolava, eu e o Matheus começamos a preparar a lentilha para a janta. Carlos ficava meio tímido em falar português, mesmo sabendo a palavra que usar ele nos perguntava antes para ver se tava certo. Sempre tava certo. Ele conhece gírias que nem eu conheço. A lentilha ficou pronta. Carlos comeu conosco e elogiou bastante a comida. E tava muito boa mesmo. Comemos muito nessa noite. Depois falamos com o Carlos sobre os altos preços das agências. Ele nos aconselhou a tentar a sorte por carona. Decidimos ir até a entrada da Península Valdés no dia seguinte e ficar ali esperando uma carona. A península é gigantesca e só tem como fazer de carro, pois de um ponto para outro tem mais de cem quilômetros.  Para chegar na Península Valdés é necessário ir até Puerto Pyramides uma cidadela distante cem quilômetros de Puerto Madryn. 

Ainda era noite quando caminhamos rumo a rodoviária. Seis horas da manhã e já estávamos partindo para Puerto Pyramides. Dormi boa parte do trajeto. Uma hora o guarda me acordou para eu pagar o valor da entrada, por estar adentrando numa reserva ambiental. Seguimos até o ponto final em Puerto Pyramides. Caminhamos até a orla e água tinha uma cor lindíssima. Conseguia ser mais bonita que de Puerto Madryn. Depois ficamos sabendo que teríamos que voltar muitos quilômetros para a bifurcação que leva na Península Valdés. Caminhamos de volta. O sol estava muito quente. Não havia nuvens no céu. Continuamos a caminhada. Erguíamos o dedão da esperança pra quem passava de carro. Depois de caminhar por mais de meia hora a Luciana parou seu carro. Ela achava que estávamos indo para Puerto Madryn, explicamos que queria irmos pra entrada da península. Ela é muito simpática. Depois de alguns minutos nos deixou na bifurcação. Despedimos-nos da Luciana e fomos tentar a sorte ali, na esperança que alguém se solidarizasse conosco e assim, teríamos a oportunidade de conhecer a Península Valdés.

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Foto 7.13 - O início do dia em Puerto Pyramides

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Foto 7.14 - Caminhando no sentido contrário de Puerto Pyramides

Ficamos postados na frente da placa que indica o início da península. O calor estava insuportável, mas o vento estava muito forte. Assim, não dava para tirar o corta vento. Os carros que passavam por ali eram poucos. Alguns carros até paravam para conversar, mas nada de sucesso. O misto de calor e vento tava infernal. Para amenizar a espera, ficávamos imaginando qual seria o carro que pararia para nós. Eu tinha certeza que seria um carro vermelho. Todo carro vermelho que passava eu ia com mais gana pedir carona, mas nada. Com o tempo aquela famosa frase "O não você já tem, só falta a humilhação" fez valer. Tentávamos de todas as formas (nem todas, risos) chamar a atenção dos motoristas para conseguir uma carona.   

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Foto 7.15 - A cara da derrota

O passeio na península é demorado, precisa de no mínimo umas seis horas. Já era quase meio dia e o fluxo de carros ali já não existia mais. Decidimos ir pra orla Puerto Pyramides e aproveitar o resto do dia na praia. Quando estávamos saindo avistamos um motorhome vindo em nossa direção. Tentamos uma última vez. Para nossa surpresa eles pararam. Antes de falarmos algo, o motorista perguntou se queríamos seguir com eles. Não me contive de felicidade naquele momento. Agora pela primeira vez viajaria em um motorhome.

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Foto 7.16 - A serenidade no olhar de quem viajaria de motorhome pela primeira vez  

O casal dono do motorhome é o Facu e a Cynthia. Facu é argentino e a Cynthia alemã, se conheceram em Santigado do Chile enquanto a Cynthia tirava seu tempo sabático e viajava o mundo, e Facu trabalhava por lá. Depois disso ela voltou algumas vezes para Argentina para rever o Facu. Quando o dinheiro acabou foi a vez do Facu ir pra Alemanha ver a Cynthia. Depois disso nunca mais se separaram. Eles já viveram em diversos países por quase todos os continentes. A forma deles viajar é trabalhar por um tempo, ajuntar dinheiro e depois viver outro tempo viajando. Agora estavam iniciando uma viagem de motorhome (recém comprado) que sairiam da Patagônia e terminaria na Península de Yucatán, no México. Tem um terceiro integrante nessa casa ambulante, é o Chihuahua Seymour. 

Eu e o Matheus estávamos animados de estar ali. Facu e Cynthia são gente boa demais. O Facu estava dirigindo bem devagarinho, pois era a primeira vez que o motorhome era posto num terreno daquele. Assim, fomos devagarinho e conversando. O cenário em volta pouco mudava. Vegetação rasteira por todos os lados. De vez em quando avistávamos alguns guanacos no caminho. Quando isso acontecia a Cynthia ficava toda animada. Depois paramos, pois o Facu queria testar seu drone. Acho que não pode drone ali, mas mesmo assim o Facu ergueu voo. 

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     Foto 7.17 - Facu e Cynthia

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Foto 7.18 - O caminho

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Foto 7.19 - O olhar, do gente boa, do Seymour

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Foto 7.20 - Eu fazendo amizade com o Seymour e a Cynthia

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Foto 7.21 - Facu levantando voo

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Foto 7.22 - A foto aérea

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Foto 7.23 - Matheus e o motorhome

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Foto 7.24 - Hahahaha

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Foto 7.25 - Viagem que segue

A viagem continuou. Lembro de uma cena bacana demais. Estávamos todos quietos e a Cynthia começou gritar para o Facu parar. No primeiro momento achei que tinha acontecido algo, mas logo que saímos a Cyhthia apontou para um montão de aves (parecido com avestruz) correndo. Subimos em cima do motorhome para ver melhor. Aquele momento me lembrou aquele cena de Jurassic Park que os dinossauros correm pelo parque. Foi demais aquilo.

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Foto 7.26 - Facu, Eu, Matheus e Cynthia (Eu e o Matheus parecemos dois cachorrinhos, horrível a foto)  

Depois de mais de uma hora de viagem chegamos a Punta Delgada. A entrada fica do lado de um restaurante. Quando começamos caminhar com o Seymour, veio uns guardas falar que não era permitido cachorros. Foi uma choradeira até permitirem a entrada do Seymour na condição que ele sempre estaria no colo de alguém. Fomos até o mirante. Aquele mar é magnífico. Hoje olho para as fotos daquele lugar e de forma alguma as imagens conseguem descrever a beleza que tenho guardada nos olhos. Colocando o óculos de sol do Facu o cenário ficava mais encantador ainda, tudo ficava fluorescente. 

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Foto 7.27 - O caminho

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Foto 7.28 - Punta Delgada

Depois seguimos viagem. No interior do motorhome não tinha ventilação e toda areia que entrava no carro ficava alojada por ali, então viajávamos num poeirão. Vimos mais um monte de guanacos pelo caminho. Pouco tempo depois chegamos na Punta Cantor. Saímos para conhecer o lugar. Fiquei junto com o Seymour e ficamos bem amigos, algo que surpreendeu a Cynthia, pois ele era bem grudado com ela. Não tivemos sorte em relação as baleias, não conseguimos ver nenhuma. Por dezembro elas seguem para a Antártida e começam a voltar para Puerto Madryn entre junho e julho.

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Foto 7.29 - Punta Cantor

Continuamos a viagem e uns cinco minutos depois chegamos em uma Pinguinera. A Cynthia estava maluca para ver pela primeira vez os pinguins, na verdade acho que todos nós estávamos. Conseguimos chegar bem pertinho deles, era possível ver eles dentro das tocas. O jeito de caminhar do Pinguim de Magalhães é bem engraçado e ver aquilo ao vivo é demais. Lembro que um pinguim chegou pertinho de um grupo de turistas e todos os turistas ficaram se derretendo por ele, o pinguim se agachou, virou a bunda pra cima e deu um cagão que mais parecia um tiro. Dei muita risada. A sensação de estar ali naquela natureza intocada, vendo a vida selvagem em seu esplendor é de encher os olhos. Eu era só risos e sorrisos ali.

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Foto 7.30 - A Pinguinera

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Foto 7.31 - Pinguins ao fundo e a natureza do lugar

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Foto 7.32 - Outra visão do lugar

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Foto 7.33 - O pinguim

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Foto 7.34 - A chegada do pinguim

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Foto 7.35 - Matheus na Pinguinera

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Foto 7.36 - A pose do pinguim

Ficamos por ali perto e comemos. Tava quente demais, a sorte que eles tinham muita água gelada, pois a nossa água já tinha acabado fazia um tempo. Esse dia estava lindo, não havia nem sinal de nuvens no céu. Eu procurava nuvens e não encontrava, dos céus mais bonitos que já vi na vida. Descansamos um pouco e antes de partimos de volta para Puerto Pyramides tiramos a foto oficial do grupo.

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Foto 7.37 - Seymour, o motorista

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Foto 7.38 - Eu, Seymour, Facu, Cynthia e Matheus

A volta foi tranquila. Facu nos disse que só costuma dar carona para pessoas que não têm cara de maluco, mas que no nosso caso abriu uma exceção (risos). Chegamos em Puerto Pyramides e era hora de se despedir desse trio que nos proporcionou um dia fora de série. Já nos referíamos um ao outro como irmão ou hermano. E foi com um "Gracias, hermano!" que abri os braços para dar um forte abraço no Facu. Ele ainda disse "Viajero ayuda viajero, siempre!". Depois fui dar o forte abraço na Cynthia. Por fim, fui me despedir do meu parceirinho Seymour. Facu e Cynthia iriam ajeitar suas coisas, pois partiriam no outro dia cedo para Esquel e depois Bariloche. Nós seguimos para aproveitar um pouco da praia de Puerto Pyramides.

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Foto 7.39 - Puerto Pyramides

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Foto 7.40 - A praia

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Foto 7.41 - O mar

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Foto 7.42 - Puerto Pyramides de frente

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Foto 7.43 - Belezura de lugar

Voltamos para Puerto Madryn e os efeitos do sol já era visível em nossas peles. Não havíamos passado protetor solar. O Matheus estava rosa. Descobri que a exposição solar na Patagônia é muito mais danosa do que em outros lugares. A Patagônia está localizada sob um grande buraco na camada de ozônio. Assim, quase não existe proteção natural contra raios ultra violetas. Os índices de pessoas com câncer de pele na Patagônia Argentina é muito maior do que nas outras partes do país.

Nesse dia nunca vou me esquecer do presente que o Carlos me deu. Pela noite queria sair até a orla para fugir da iluminação e assim conseguir ver as estrelas na Patagônia. Carlos olhou meio cético dessa minha ideia. Ele tinha planejado sair com uns amigos nessa noite. Por diversas vezes ele disse que levaria nós de carro até a praia, não queria que ele mudasse seus planos pra seguir uma ideia boba minha. Enfim, acabamos cedendo e entramos no carro do Carlos. Visitamos toda a orla de Puerto Madryn e para minha surpresa a orla é mais iluminada que o interior da cidade, ai entendi o ceticismo do Carlos. Foi bem legal ver a orla e observar que toda a cidade vai para lá nas noites de calor. Já era onze horas da noite e tinha centenas de rodas de mate por toda praia, famílias inteiras reunidas, crianças brincando, muita conversa e risadas por todos os cantos. Foi bonito de se ver aquilo. A população aproveitando a cidade. No carro o som que nos acompanhava era do Queen. Depois o Carlos seguiu pela rodovia, cada vez mais o escuro ficava mais escuro. Tocava Radio Ga Ga e aumentamos o som no máximo. Não fazia ideia para onde estávamos indo, mas a energia do momento estava boa demais. Mais alguns minutos cortando o escuro de carro e o Carlos parou o carro no meio do nada. Não entendi direito o porquê daquilo. Ai ele me disse para sair. Quando sai nada entendi, não via nada. Até que eu olhei pro céu. Tinha até me esquecido das estrelas. Que belezura de cena. O céu tava tão tão povoado. O Carlos ainda teve a sensibilidade de desligar o som do carro. Fiquei por alguns minutos ali de cabeça pra cima olhando o céu estrelado. Tão bonito tudo aquilo. Dei um abraço no Carlos como forma de agradecimento e voltamos pro carro. O Queen voltou a tocar no rádio e o volume foi no máximo. Agora enquanto avançávamos na pista as luzes de Puerto Madryn ficavam mais intensas. Voltamos pra casa. Carlos se arrumou e ainda deu tempo de encontrar seus amigos. Fui dormir felizão.

Na manhã seguinte o Carlos comprou faturas para comermos de café da amanhã. Faturas são como os nossos pães doces, mas com uma variedade maior e vem tudo misturado os sabores. Fizemos café que havíamos trazido do Brasil para complementar o desayuno. Ele nos contou que quando morava num apartamento a beira mar ali em Puerto Madryn, na estação das baleias era possível escutar o esguichar das baleias por toda a noite. Deve ser demais vivenciar aquilo. O dia estava muito quente e decidimos passar a tarde na praia. Fomos pro mercado comprar umas cervejas, gelo e uns salgadinhos. Seguimos para uma praia fora da cidade, a preferida do Carlos. Chegamos e tive uma surpresa em ver que a praia toda era de pedras e pra completar tinha um navio naufragado na nossa frente. Primeira vez que estava num lugar como aquele.

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Foto 7.44 - Eu, Matheus e o Carlos (nunca imaginei que tiraria uma foto no supermercado rsrs)

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Foto 7.45 - O caminho da praia

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Foto 7.46 - O caminho da praia [2]

Colocamos nossas cadeiras de praia no lugar. Havia muita gente. O legal é que cada pessoa se protegia de um jeito. Muitas pessoas levavam barracas pra se proteger do sol e do vento. Outros ficavam dentro das cabines das caminhonetes. O sol castigava, devia estar uns quarenta graus. Nunca imaginei que estaria sentado numa cadeira de praia num sol tipico brasileiro no meio da Patagônia. Ai fui pro mar, molhei os pés e congelei. Desisti da ideia do mar e voltei a sentar. Pouco tempo depois o Matheus foi pra água, com mais coragem ele mergulhou naquele mar glacial. Meio segundo depois ele se levantou e saiu correndo do mar. Não parava de tremer. Dizia que doía até os ossos. Eu só dava risada com aquela cena e me senti o espertão em abortar o mergulho.

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Foto 7.47 - A chegada na praia

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Foto 7.48 - A praia e o náufrago

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Foto 7.49 - Nós e a praia

Horas depois chegou uma família amiga do Carlos. Um casal com três crianças. Eles trouxeram uma bebida bem boa, era tipo uma ice de limão e vodka muito comum na Argentina, mas não me recordo o nome. Com gelo ficava melhor ainda. Ficamos ali trocando ideia por muito tempo e a temperatura cada vez ficava mais quente. De repente o tempo mudou completamente. Uma tempestade de areia começou. O vento era forte demais. Juntamos nossas coisas e nos protegemos no carro. A tempestade durou uma hora mais ou menos. Naquela hora fiquei feliz que aquela praia era de pedras, pois nas praias de areia no centro de Puerto Madryn aquela tempestade deve ter sido terrível. Seguimos de volta. Paramos no topo de um morro onde avistamos toda a praia por ângulo diferente. Chegamos na casa do Carlos e ficamos de bobeira pelo resto da noite.

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Foto 7.50 - Matheus e a praia de pedras

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Foto 7.51 - A praia

Conversamos com o Facu uns dias depois e descobrimos que eles estavam na estrada no momento daquela tempestade. O motorhome saiu da pista. Eles ficaram bem assustados com a situação e decidiram que aquele carro não estava preparado para os ventos da patagônia. Abortaram a ida para Esquel e Bariloche, estavam retornando para Buenos Aires. De lá começariam a subida para o México. Fiquei triste em saber disso. Facu e a Cynthia estavam animados com a Patagônia e deve ter sido difícil para eles tomarem essa decisão. Porém, a viagem tem que continuar.

Era uma segunda-feira, acordamos e comemos o resto das faturas. Fizemos as plaquinhas de papelão para os nossos próximos destinos. Tomamos mate e café. Terminamos de arrumar as mochilas. Carlos nos deu uma carona até o posto YPF na saída de Puerto Madryn. Demos um abraço forte no Carlos e mais uma vez eramos nós e a estrada. 

Recordar este trecho da viagem é muito bom para mim. Tanta coisa aconteceu nesse intervalo de poucos dias. Primeiro tivemos a oportunidade de conhecer e viajar com o German e a Mica. Quanta gratidão por isso. Em seguida, assumimos os riscos (mesmo que imaginários) e não bancamos os cabeçudos, deixamos a viagem flexível e mais uma vez mudamos os planos. Adentrar a Patagônia para mim era pagar uma dívida com o passado. Muitas vezes tinha planejado e me imaginado ali, mas agora realmente pude colocar os meus pés na terra dos ventos. E que bom que foi nesse momento. Conhecer o Carlos e seu coração gigantesco foi demais. Não tenho palavras para agradecer tudo o que ele fez por nós e por ter sido nossa companhia em nossos dias em Puerto Madryn. Depois no 45 minutos do segundo tempo na Península Valdés apareceu o trio Cynthia, Facu e Seymour. Tento não ser repetitivo, mas quanta gratidão por tudo isso. Pela primeira vez (sei que digo isso toda hora!) me desconectei de todo o passado recente e fui só presente. Presente no presente. Esses dias foi um presente do presente. Na pista novamente eu compreendi o que estava escancarado desde o início, as pessoas que estavam surgindo no caminho eram as melhores de cada lugar. E tinha que ser assim, quebrando a cara num momento para ser presenteado com o melhor depois. German, Mica, Carlos, Cynthia e Facu muito obrigado por tudo, um beijo na alma de cada um de vocês. Para o pequeno Seymour desejo uma vida cheia de carinho em forma de cafunés. 

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Em 17/01/2019 em 15:31, Diego Minatel disse:

Parte 4 - Do Brasil para a Argentina

Acabei de ler esta parte e ri alto... gente que comédia esse Wagner!

Adorando seu jeito de contar a história, tb gosto de escrever sobre as impressões e sensações, mais do que descrever os lugares! Depois quero aprender a linkar cada post como vc fez, fica super organizado!

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15 horas atrás, Juliana Champi disse:

Acabei de ler esta parte e ri alto... gente que comédia esse Wagner!

Adorando seu jeito de contar a história, tb gosto de escrever sobre as impressões e sensações, mais do que descrever os lugares! Depois quero aprender a linkar cada post como vc fez, fica super organizado!

@Juliana Champi valeu pelas palavras, fico muito feliz em saber que está gostando do relato. Também prefiro escrever sobre as sensações e pessoas, acho que no fundo é o que fica das viagens. O  Wagner é figuraça hahaha

Quando quiser aprender a fazer os links me manda uma mensagem que te explico direitinho como faz, é bem facinho.

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Parte 8 - O anjo do carro vermelho

"Qual é a sua estrada, homem? - a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?" On the Road, Jack Kerouac

Conversamos com os caminhoneiros parados, nenhum sucesso. Fomos para a saída do posto da YPF, por ali erguemos o dedão e ficamos. Era um domingo bem cedo em Puerto Madryn, quase não havia fluxo de carros e caminhões. Estávamos animados e nos divertíamos ali na estrada. Os minutos passavam e o que eu mais via eram motoqueiros viajando no sentido contrário. Possivelmente, eles estavam voltando de Ushuaia. Caminhamos um pouco mais avante, quem sabe não daria sorte um novo lugar. Depois de mais alguns minutos um ônibus vazio passou por nós, ergui o dedão com um sorriso no rosto. O ônibus parou e o motorista nos convidou a subir. 

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Foto 8.1 - Tentando carona na Ruta 3 na saída de Puerto Madryn

José, o motorista, nos avisou que iria até Trelew, uma cidade vizinha a quase 70km ao sul de Puerto Madryn. Sentamos no ônibus vazio. José logo passou seu tereré com suco de laranja. Caralho, como estava bom aquele tereré. Logo ele nos explicou que estava indo buscar os engenheiros da Aluar que vivem em Trelew para um dia mais de trabalho. A Aluar é uma empresa de alumínio argentina, sua filial em Puerto Madryn é a principal geradora de empregos da cidade. Ele falou que é prestador de serviço da Aluar e os seus dois ônibus trabalham diariamente na rota Puerto Madryn/Trelew transportando os funcionários da empresa.

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Foto 8.2 - A visão do Matheus no ônibus

O José é um cara bacana demais. Como eu gostei dele, sei lá, ele transmite uma buena onda. Ele já foi caminhoneiro por muitos anos, morou no Paraguai e Itália, e conhecia a Argentina toda. O tereré era herança dos seus dias de Paraguai. Ele gostava de falar sobre o vento patagônico, dizia "Aqui venta forte 330 dias por ano". O vento de Puerto Madryn era forte até, mas me abstenho de falar dos ventos por enquanto. Toda vez que José falava, ele falava sorrindo. 

Ele começou a nos contar sobre os dinossauros da Patagônia. Disse que os maiores dinossauros que existiram viveram pelas terras patagônicas. Enfim, a Patagônia é a terra dos gigantes, primeiro os dinossauros gigantes e depois os homens gigantes que assustaram Fernão de Magalhães. Falava com orgulho dos dinossauros, disse para visitarmos o Museu Paleontológico de Trelew. Quase na chegada de Trelew tem uma estátua de tamanho real de um Titanossauro, o maior dinossauro de que se tem notícia, com mais de 20 metros de altura e 40 metros de largura. José parou o ônibus para que pudéssemos conhecer o maior dinossauro já descoberto.

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Foto 8.3 - Titanossauro

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Foto 8.4 - Titanossauro por outro ângulo (Não ter ninguém ao lado do Titanossauro não dá a noção exata do seu tamanho gigantesco)

Depois seguimos viagem até chegarmos em Trelew. Já era quase a hora dele recolher os funcionários e voltar para Puerto Madryn. Mesmo assim, o José cortou toda a cidade e nos deixou no posto da Axion na saída para Comodoro Rivadavia. A porta do busão se abriu, nos despedimos do José com um abraço. Pulamos para a fora do ônibus, com uma buzinada o José se despediu pela última vez.

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Foto 8.5 - Eu, Matheus e o José   

O tempo com o José foi curto, não mais que uma hora e meia, mas foi daqueles momentos que depois que passam você diz "Mano, que cara gente boa da porra!". Não bastou ele dar uma carona pra gente, ele desviou o caminho para conhecermos o Titanossauro, depois foi até a saída da cidade para facilitar a nossa vida. Tenho quase certeza que ele chegou atrasado para buscar os funcionários da Aluar. Sabendo disso as atitudes dele se tornam muito mais especiais para mim. 

O objetivo agora era conseguir uma carona para a próxima cidade que era Comodoro Rivadavia, distante a 400km de Trelew. Começamos pelo começo e fomos conversar com os caminhoneiros que estavam estacionados no posto. Algumas boas conversas surgiram disso, mas nenhum êxito em relação a carona. Fomos para a saída do posto e ali começamos o revezamento de dedões erguidos. Meia hora cada um a beira pista. Só tinha nós pedindo carona. A rodovia estava meio deserta. Os poucos carros que passavam, paravam logo adiante num campeonato de futebol infantil que estava tendo naquela tarde. Eu tinha certeza que um carro vermelho nos daria carona naquele dia e repetia isso toda hora. 

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Foto 8.6 - As mochilas na saída do posto da Axion em Trelew

Nessa tarde começamos elaborar algumas teorias sobre as caronas para passar o tempo na beira da estrada. A primeira delas é que toda pessoa que não pode mesmo dar carona faz questão de expor isso de alguma forma, acho que isso alivia um pouco a consciência. Tipo uma pessoa com carro cheio faz o gesto com a mão que está cheio ou uma pessoa que vai parar logo adiante indica com o dedo que vai parar logo ali. Ninguém tem obrigação de parar o carro, mas ver pessoas precisando de ajuda e saber que não pode mesmo ajudar deve fazer bem para o ego, mesmo não tendo a intenção de ajudar se pudesse. Já as pessoas que realmente poderiam dar carona e não tem a intenção de dar evitam olhar para os pedintes de beira de pista. A segunda teoria boba que elaboramos é que caminhonetes nunca param para caroneiros. Depois fizemos uma lista de tipo de carros que eram mais propícios a parar, mas para mim, desde a Península Valdés, que eu tinha certeza que algum carro vermelho nos salvaria. Elaborar essas bobeiras e conversar sobre elas faziam a longa espera ser mais leve na quente Trelew.

As horas passavam. O dia era muito quente, quem não estava pedindo carona ficava dentro do posto se escondendo do sol e tentando a abordagem direta. Esse dia era o dia da final entre River x Boca em Madrid. O posto começou a se encher de torcedores dos dois times. Pensei por um momento abortar a tentativa de carona, por um tempinho, para ver o jogo, mas decidimos melhor continuar. De vez em quando eu ia espiar o placar. Na hora do jogo a deserta pista ficou mais deserta ainda. Raramente, passava alguém pela Ruta 3. No máximo algumas pessoas correndo ou pedalando. Aliás, toda pessoa que passava por nós dizia "Suerte", era bem bom ouvir isso. Todo carro que erguíamos o dedão, ao saber que o carro não pararia, cumprimentávamos o motorista com um sinal de mão. Essa era outra forma de deixar mais leve as horas pedindo carona. 

Já estávamos torrados de sol. Nesse dia não desanimamos por nenhum momento, mesmo com fome. Já era quase sete horas da noite, resolvemos sair dali, mas não sabíamos se iriamos armar acampamento no posto ou caminhar pela cidade ou tentar seguir de ônibus. Decidimos colocar nossas mochilas e fazer qualquer coisa diferente, pois ali já nenhum carro passava mais. Estávamos tranquilos, tínhamos tentado por todo o dia seguir de carona. Apenas não tinha rolado. Coloquei a mochila nas costas. Quando comecei andar, surgiu um carro vermelho na minha frente. Por que não tentar? Ergui o dedo pela última vez naquele dia. O carro parou. Corri até o motorista, ele perguntou "Vas a Comodoro Rivadavia?" e eu sem acreditar disse "Si, si, si". Incrédulos e meio estabanados tentávamos colocar nossas coisas no carro, o senhor achando graça da situação disse "Calma, calma, no me voy sin los dos". E assim, o carro vermelho (leia-se anjo vermelho) da minha premonição veio nos salvar naquele dia.

Não consigo traduzir a alegria daquele momento. Como aconteceu na Península Valdés, novamente éramos salvos no último instante possível. Parecia até uma pegadinha do além ou uma provação qualquer. Nos últimos dias tinha enchido tanto o saco do Matheus com a história do carro vermelho e agora ver nós dois em movimento dentro de um carro vermelho era no mínimo curioso.  Não tinha sonhado e nem tido visão nenhuma, comecei a falar do carro vermelho sem pretensão alguma. Acho que era uma forma de manter a esperança da carona viva. Assim, ficava sempre a espera do carro vermelho. A espera tinha acabado e fiquei meio abobado com a força do pensamento. 

Sentei no banco da frente, o Matheus ficou na parte de trás. O motorista logo se apresentou como Juan Carlos, e começou perguntando se estávamos a muito tempo ali esperando, eu disse que fazia quase oito horas que estávamos ali na beira da pista. Ele disse que escolhemos um dia ruim, que domingo era difícil mesmo. Ele estava voltando de uma visita a um amigo. A conversa seguiu ou melhor a partir dali começou o monólogo do Juan.

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Foto 8.7 - Juan e Eu

Falar deste trecho é meio complicado para mim, pois é complexo demais falar dessa carona, em especifico do Juan Carlos. Toda vez que me recordo desses momentos junto do Juan vivo um dilema. Sou muito grato a tudo o que ele fez por mim e pro Matheus, mas ao mesmo tempo não consigo gostar dele. Me sinto mal por falar isso, pois dá a impressão de ingratidão da minha parte. Pelo contrário, como disse sou grato demais ao Juan, mas ficar na sua companhia por quase cinco horas foi das coisas mais difíceis que já fiz na vida.   

Juan é soldador subaquático, dono de uma vinícola em Mendoza, ex militar que lutou na Guerra das Malvinas e se dizia um caçador de mão cheia, sempre repetia "Não morro de fome em lugar nenhum, aqui mesmo se eu for caminhado por qualquer canto, horas depois te trago comida". 

As falas do Juan se estendiam por muitos minutos, no início ele nem percebeu que eramos estrangeiros, assim falava num espanhol rápido e de difícil compreensão. Ele não pausava entre um raciocínio e outro, emendava tudo e não dava espaço para nós falarmos. Creio que ele tinha uma necessidade de mostrar quem era o Juan e qual era sua visão de mundo antes de tudo. No início era interessante isso, mas passado uma hora minha cabeça estava para explodir. O Matheus estava tranquilo atrás, mas eu tinha estar ali atento nas frases que eram ditas rapidamente e a todo momento. Manter a atenção exigiu muito mentalmente de minha pessoa. O pior foi quando eu comecei a compreender com mais clareza seu espanhol atropelado e consegui entender sua visão turva de mundo.  

Bom, vou me abster de tentar reproduzir suas falas intermináveis que eram carregadas de muito preconceito e tentar resumir mais ou menos o Juan. Pra começar digo que ele é um cara com uma visão simplista de tudo e um tanto contraditório. O maniqueísmo é forte em seu pensar, então tudo é dividido entre bem e mal, não existe meio termo pra ele. Assim, ele divide as pessoas em úteis e inúteis. Repetia quase sempre que o problema da Argentina era que a maioria da população era composta de inúteis. Ele enchia o peito para se dizer nacionalista, mas ao mesmo tempo só denegria a imagem de seu país para nós, o famoso complexo de vira-lata. 

Ele contou a sua versão da higienização social que ocorreu na Coréia do Sul, onde fizeram uma limpa nos corruptos e bandidos antes de reconstruir o país. Emendou com a seguinte frase "Agora no Brasil vai acontecer o mesmo, vocês escolherem um bom presidente.". Era a primeira vez que topávamos com algum argentino que era favorável a decisão tomada no Brasil. Falava com saudosismo da ditadura militar argentina e da Guerra das Malvinas. Porém, pediu baixa do exército, assim que acabou a guerra. Perdeu muitos amigos ali no campo de batalha. Pelo que eu entendi, ele foi totalmente contrário de a maior parte do soldados argentinos que foram para a guerra serem do norte do país e em sua maioria garotos. Na Guerra das Malvinas, a maior parte dos soldados não estava acostumado com o frio patagônico. Assim, frio, vento e fome mataram mais soldados argentinos que as armas inglesas, importante frisar que o exército nem cedia roupas adequadas a esses soldados. Enfim, os fazedores da guerra (os engravatados) não estavam nas trincheiras e quem morria era a população pobre do norte do país.   

Esse tipo de pensamento do Juan que me deixava confuso. Ele era favorável do extermínio de parte da população para "reconstruir" um "país melhor", mas logo depois se solidarizava com os pobres coitados que foram jogados em uma guerra para defender um país que nunca deu bola para eles. Se solidarizou a ponto de largar o exército. Eu me considero um sujeito meio contraditório, mas ao conhecer o Juan passei parar de achar isso de mim mesmo.   

Lembro que, em algum momento, tentei desviar o assunto para algo mais leve, disse uma frase do tipo "A mulherada aqui na Argentina é show de bola né?". Antes mesmo de eu terminar a frase ele já emendou "Algumas até que são bonitas, mas são tudo burra. Não dá pra conversar com mulher na Argentina.". Logo ele fez uma mea culpa e disse "No Brasil é diferente né? As mulheres são mais inteligentes, não são umas portas como aqui.". Dei um sorriso amarelo nesse momento. Ele continuou com sua linha de raciocínio, dizendo: "Só dei caronas para vocês porque são homens, se fossem mulheres não daria não. Com homem da pra ir conversando a viagem toda, assim como nós estamos conversando. Se fosse mulher não dava pra conversar não". Imaginei comigo, devo ter dito umas dez palavras ao todo até agora (risos). A misoginia era evidente nele. Pensei em abrir a porta do carro e me jogar diversas vezes. Na verdade eu só pensava nisso em determinado momento. Eu ficava olhando a velocidade do carro e tentava calcular o quão machucado sairia daquela queda.    

Depois de mais de duas horas e meia de viagem, paramos em um posto. Aproveitei para dar uma mijada. Depois fui na loja de conveniência para ver qual tinha sido o desfecho do jogo. River campeão. Eu e o Matheus fomos sentar numa mesa do lado de fora. Logo depois o Juan chegou com uns pacotes de bolacha e uns lanches para nós comermos. Juan estava feliz com o resultado do jogo. Pela primeira vez comemos a bolacha Macucas, que depois seria nossa companheira diária. Nessa hora a conversa foi bem mais agradável e menos unilateral. O Juan se propôs a ouvir um pouco. Até então ele não tinha tido a curiosidade em saber sobre nossas vidas, de onde viemos ou mesmo o que fazíamos. Nessa hora ele perguntou sobre tudo, falamos quem era Diego e Matheus. Depois quis chutar quantos anos tínhamos. Ele me deu 19 anos (risos). Falou da sua cirurgia que tinha feito pouco tempo antes e que os médicos desacreditavam que ele sobreviveria. Mostrou a cicatriz gigantesca nas costas que é a marca que ele carrega da operação. Falou da sua filha com bastante orgulho, ela faz mestrado em Mendoza. Disse que estava feliz que sua mulher pela primeira vez, depois de mais de trinta anos de casados, foi acompanha-lo numa pescaria. Parecia que o cara que estava ali não era o mesmo que estava dirigindo o carro minutos antes. Ele ainda foi comprar água quente para preparar um mate. Fizemos uma roda de mate e conversamos um pouco mais. Eu fiquei preocupado que ele nos associa-se na sua divisão de mundo com os inúteis e nos deixasse ali. Pelo contrário, agora ele parecia mais um pai cheio de conselhos e entendia a nossa necessidade de viajar mesmo que com pouco dinheiro. Confesso que essa parada no posto foi muito agradável.

Voltamos a pista e o Juan voltou a ser o que era. Voltou com suas filosofias erradas de vida (isso no meu entender). Não consegui não associar ele com aquele episódio do Pateta que se transforma ao entrar no carro. Pateta é todo tranquilão e respeitoso, mas quando entra no carro vira um nervosão, briguento e mal educado. Sei que pode ser inocência minha, mas pode até ser que o Juan queria passar uma imagem de machão incorrigível, apesar de não acreditar muito nisso.

A viagem prosseguiu. O legal do trecho Trelew/Comodoro Rivadavia é que ele é um pouco diferente de todo o resto da Ruta 3. Por este trecho tem algumas curvas sinuosas, no caminho é possível se avistar cânions e tem muitas elevações na rodovia. A natureza é muito bonita em volta também, é possível avistar um montão de guanacos e alguns zorros pelo caminho. O Juan era bom em avistar zorros, mesmo os bichinhos estando longe ele conseguia identifica-los. Já os guanacos ficam em bandos a beira da pista, e com isso tem muitas acidentes, creio que vi uns três guanacos atropelados neste trecho.

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Foto 8.8 - O caminho até Comodoro Rivadavia

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Foto 8.9 - Mais um pouco do caminho

Cada vez que descíamos mais pela Argentina o sol se punha mais tarde. Em Claromecó o sol se escondia um pouco depois das nove da noite. Em Puerto Madryn e Trelew isso acontecia quase as dez da noite. Agora indo para Comodoro Rivadavia já tinha passado das dez da noite e ainda o céu estava claro. A viagem continuava. Eu tinha muito sono, não conseguia mais dar muita atenção ao Juan. Ouvimos rádio por um tempo. Escureceu. A viagem prosseguia. Juan continuava com suas afirmações erradas sobre tudo. Eu só queria chegar, a cabeça estava a ponto de explodir. Quando chegamos em Comodoro Rivadavia o Juan disse que era de uma cidade chamada Caleta Olivia, uns 70 km mais ao sul. Deixou a opção de nos deixar ali em Comodoro ou em Caleta Olivia. Preferimos ficar em Comodoro. Ele foi bastante bacana em nos deixar em um posto mais seguro possível para acamparmos.   

Paramos num posto da Petrobras, já era madrugada. Entramos na loja de conveniência e o Juan pegou um café pra ele. O Juan voltou a ser aquele cara bacana da outra parada. Conversou sem pretensão de impor seus pensamentos. Foi gentil ao passar seu telefone caso tivéssemos problemas no decorrer da viagem. Ainda quis pagar uma janta para nós, mas recusamos, pois ele já havia feito muito por nós. Deu a impressão que ele não queria ir embora, queria ficar ali conversando conosco. Não sei ao certo, mas acho que ele estava bastante carente de conversas e de amigos.

Nos despedimos do Juan com alguns abraços. Antes de partir ele ainda tomou outro café. Depois fomos montar a barraca para dormir atrás do posto. O vento que estava naquela noite, naquela cidade era surreal de tão forte. Comecei a montar a barraca, mas não tinha como, a chance dela voar para longe era muito maior de eu ter sucesso na montagem. Depois de algum tempo conseguimos montar a barraca. Eu estava capotado, só queria dormir. Usei o banheiro da loja de conveniência e em seguida capotei na barraca. 

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Foto 8.10 - Eu, Juan e o Matheus 

Agora aqui em casa, relembro toda a trajetória com o Juan e não sei o que achar dele. A sua visão de mundo é totalmente contrária da minha. Me chateou bastante ficar ao lado dele ouvindo um monte de baboseiras e não poder falar nada, uma porque ele não dava espaço pra eu falar e outra porque tinha receio de falar algo que ele não gostasse e perder aquela carona que tanto precisávamos. Me senti um merda por isso. Por outro lado, me senti injusto em certos momentos em não aceitá-lo e ver nele um cara carente que queria falar, conversar e ter contato com outras pessoas. Ele sentia muita necessidade em falar. Também tem que ele conosco foi muito bom mesmo. Foi a única pessoa que confiou na gente e parou seu carro. Percebeu que não tínhamos comido, não hesitou em compartilhar sua comida. Também se preocupou com nossa segurança passando por diversos postos, analisando qual seria o mais seguro para nós pernoitarmos. Sei lá, é tudo muito confuso para mim. Me pego muitas vezes pensando nesse trecho da viagem. O anjo do carro vermelho não tinha nada de anjo, na verdade esse carro vermelho tornou-se uma pegadinha ou qualquer coisa do tipo, pois foi a parte de maior complexidade da viagem. Mas e ai? O que pensar quando uma pessoa com ideias esquisitíssimas te ajuda a ponto de você questionar a si próprio? De qualquer forma, sou muito grato ao Juan e a sua carona salvadora.   

Acordamos assim que o sol nasceu. Desfiz a barraca, mas foi muito difícil dobra-la, o vento era intenso. Usei o banheiro do posto para me limpar um pouco e escovar os dentes. Fomos pedir água para fazer o mate e percebemos que tínhamos perdido nossa bomba. A atendente nos deu água quente, ainda nos presenteou com uma bomba novinha. Foi bem legal isso. Tomamos o mate e comemos um último pacote de bolacha que tínhamos. Seguimos caminhando para a saída da cidade. A caminhada durou mais ou menos uma hora até um bom ponto para pedir carona na Ruta 3. 

Paramos e começamos a pedir carona. Enquanto, um pedia carona o outro tentava se proteger das rajadas de areia que o vento não cansava de criar. Passamos horas e horas ali. Nada de caronas. Ficar ali era uma prova de resistência, ainda mais com fome. Tentamos e tentamos. No meio da tarde eu já não estava mais aguentado aquele misto de calor insuportável, ventos fortíssimos junto com terra e areia. Minha cara estava áspera de tanta terra que tinha grudada nela. Matheus estava só o pó também. O dia anterior tinha sido pesado fisicamente e mentalmente. Então, resolvemos ir para rodoviária e seguir aquele trecho de ônibus. 

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Foto 8.11 - Caminhando até um ponto bom para pedir carona em Comodoro Rivadavia

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Foto 8.12 - Ruta 3

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Foto 8.13 - Enfim, um ponto que todos os carros seguiriam para o sul e passavam devagarinho

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Foto 8.14 - Revezamento, vez do Matheus pedir carona

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Foto 8.15 - Revezamento, minha vez

Chegamos na rodoviária, compramos passagens para Rio Gallegos, o ônibus só sairia pela madrugada. Fomos caminhar pela cidade. Comemos um choripan na rua. Nesse dia quase morri de lombriga. No lugar em que comemos o choripan, tinha um lanche que eles chamam de lomito que tava bonito demais, mas era muito caro. Olhei as pessoas comendo o lomito e fiquei com muita lombriga de comer aquilo, mas me segurei e comi o choripan que era infinitamente mais barato. Depois achamos uma sombra na orla de uma praia, ficamos o resto do dia por ali. Foi bem gostosa essa tarde, fazia tempo que não ficávamos debaixo de uma sombra só descansando, pois os últimos dias tínhamos sido torrados pelo sol nas rodovias. Depois fomos no mercado, vimos a bolacha Macucas que o Juan havia dado para nós. Um pacote de bolacha na Argentina gira em torno de 3 e 4 reais, mas a Macucas era menos de um real e mais gostosa. Compramos um monte de pacotes de Macucas para o restante da viagem. 

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Foto 8.16 - Centro de Comodoro Rivadavia

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Foto 8.17 - A avenida

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Foto 8.18 - A orla da cidade

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Foto 8.19 - O outro lado da orla

Voltamos para rodoviária e conhecemos o caroneiro Sergio. Ele é argentino da cidade de Corrientes e estava trabalhando de garçom por todas as cidades que passava. Agora iria pra Puerto Madryn de ônibus, depois seguiria de carona até Corrientes, tinha esperança de chegar antes do Natal para passar com a família. O que me chamou atenção do Sergio foi que ele tava viajando de carona com mais dois brasileiros. Eram três. Eu já achava difícil viajar de carona em dois. Imagine eles em três. Os dois brasileiros tinham acabado de seguir pro Brasil. Sergio tava sem comida, demos uns pacotes de bolacha Macucas para ele e subimos no ônibus.

Comodoro Rivadavia foi a única cidade da qual eu não gostei nessa viagem. O vento é muito forte, do tipo que quando eu estava andando e ao erguer o pé de apoio para caminhar, senti como se fosse um chute na perna, virei xingando o Matheus "Porra, por que tá me chutando?", vi que ele estava a uns vinte metros de distância. O vento havia me "chutado". A cidade é toda envolta de areia e terra. A mistura de terra e vento é terrível, a cada cinco minutos tirava uma bolota de areia da minha orelha. O ambiente na cidade é bem esquisito também, não sei se é por causa de ser uma cidade petroleira. Entretanto, das cidades da Patagônia, Comodoro Rivadavia é o único lugar que eu não me senti cem por cento seguro. 

José e Juan Carlos, duas caronas e duas pessoas completamente diferentes. O José me identifiquei com ele mesmo antes dele começar a falar, o Juan até hoje não sei o que sentir por ele. Uma viagem foi rápida, tranquila e leve, a outra foi longa, demorada e pesada. Enquanto um era só sorrisos, o outro não sorria nunca. Duas caronas distintas, mas as duas tiveram a mesma importância e nos deixaram mais próximos do final do mundo. Enfim, o resumo da estrada é isso: você nunca vai saber quem irá abrir a próxima porta. Assim, algumas experiências vão ser bem legais, outras nem tanto. No fim, tudo é aprendizado.   

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Parte 9 - Cruzando o Estreito de Magalhães com San Martin

"Sim, às vezes o pensamento mais louco, o mais impossível na aparência, implanta-se com tal força em nossa mente que acabamos acreditando em sua realidade… Mais ainda: se essa idéia está ligada a um desejo forte, apaixonado, acabamos acolhendo-a como algo fatal, necessário, predestinado, como algo que não pode deixar de ser nem de acontecer! Talvez ainda haja mais: uma combinação de pressentimentos, um extraordinário esforço de vontade, uma autodireção da própria fantasia, ou lá o que seja – não sei." O Jogador, Fiódor Dostoiévski

A viagem até Rio Gallegos foi tranquila, dormi na maior parte do trajeto. Quase não vi o caminho que percorremos. Chegamos na rodoviária e fomos ver os horários de ônibus para Ushuaia. Não havia mais ônibus com destino a Ushuaia naquele dia. Na verdade só tem um ônibus que faz o trajeto Rio Gallegos/Ushuaia, esse ônibus sai as 9 horas da manhã diariamente. Era quase dez horas manhã. Saímos caminhando pela cidade. Todas as pessoas para quais pedíamos informações davam respostas desencontradas que nos faziam caminhar pra lugar nenhum.

Lembro de uma cena engraçada. Fui pedir informação para uma garota. Queria saber por qual caminho teríamos que seguir pra chegar na Ruta 3 sentido fronteira com o Chile. Abordei ela na rua, educadamente. Ela olhou para mim e eu disse que precisava de uma informação. Nesse momento ela saiu correndo, literalmente. Fiquei sem entender a principio o porquê daquilo. Depois me veio a ideia que eu devia estar num estado visual de calamidade (risos). No entanto, Rio Gallegos é mesmo um lugar difícil de se conseguir informações, e quando se consegue geralmente são informações desencontradas ou erradas.

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Foto 9.1 - Rio Gallegos

Encontramos uma senhora que enfim nos deu a direção correta. Caminhamos e caminhamos. Passamos pelo exército. Paramos em frente de um memorial de Gauchito Gil e começamos as pidanças por caronas. Ficamos um bom tempo ali. O fluxo de carros era bem pequeno. O vento era insano, muito insano na verdade. Queríamos cruzar o Estreito de Magalhães naquele dia. Então, o negócio era suportar o vento, ficar na estrada e esperar.

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Foto 9.2 - Treinamento em Rio Gallegos

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Foto 9.3 - Gauchito Gil

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Foto 9.4 - Gauchito Gil

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Foto 9.5 - O pedinte

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Foto 9.6 - Uma carona, por favor!

Avistamos um cara vindo de bicicleta cheio de alforjes. Pedimos carona para o ciclista. Ele parou e falou para subirmos. Para nossa surpresa era um brasileiro. Seu nome é Hugo, natural de Santos, e estava viajando desde Curitiba até Ushuaia de bike. Hugo é um cara muito gente boa e malucão. Conversamos um pouco. Hugo também queria chegar na fronteira com o Chile naquele dia , mas estava sofrendo com o vento contra, mal saia do lugar quando pedalava. Depois de alguns minutos conosco, Hugo subiu em sua bike e seguiu com sua viagem.

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Foto 9.7 - Matheus, eu e o maluco do Hugo

Mais um tempo se passou, até que um carro passou por nós e depois voltou de ré ao nosso encontro. A mulher do carro disse que aquele lugar não era um bom lugar para pedir carona, que o ideal seria a uns dez quilômetros a frente, em um ponto de encontro entre a Ruta 3 e o desvio que os caminhoneiros fazem para não entrar em Rio Gallegos. Ela se ofereceu a nos levar até esse ponto. Entramos no carro da moça. Ela se chama Rosio e é do norte do país, veio a alguns anos tentar a vida no sul. No carro também estava seu filho, um gurizinho de uns 5 anos que ficou todo curioso com nossa presença. Rosio é uma gentileza de pessoa, ela falou da dificuldade de deixar o norte onde é fácil ter amigos, mas quase não há empregos, para morar no sul onde se ganha muito, mas amigos e contato humano é coisa rara. Uns vinte minutos de viagem e chegamos no nosso ponto. Demos um toque de mão no garotinho, um forte abraço na Rosio e seguimos caminhando. Rosio seguiu de volta para Rio Gallegos.

Caminhamos alguns metros e avistamos um casal pedindo carona de uma forma bem tímida. Eles estavam atrás de uma placa de trânsito enorme (para se proteger do vento) e quem passava por eles nem conseguia vê-los direito. Fomos ao encontro do casal. Eles são de Rio Gallegos mesmo, o cara é tatuador e tinha que estar naquele dia em Punta Arenas no Chile para um festival de tatuagem, mas não havia mais ônibus saindo nesse dia. Assim, eles vieram para a rodovia tentar a sorte e seguir de carona. Os dois são bem gente boa. Demos as dicas para eles da melhor maneira de se pegar carona. Assim, como eles estavam primeiro ali, demos a preferência e o melhor lugar para eles pedirem carona. Eles ficaram num ponto bem visível, onde os veículos passam numa velocidade baixa. Eu e o Matheus ficamos uns vinte metros atrás deles. 

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Foto 9.8 - 2616km percorridos dos 3079km da Ruta 3

O calor que nos acompanhou pela Patagônia até aqui, não existia em Rio Gallegos. Estava frio, muito frio e o vento era igual de Comodoro Rivadavia. Tive que vestir luva e touca. Um ambiente completamente diferente. Ficar na pista esperando foi bem difícil. Depois de umas três horas de espera, um caminhão parou para o casal, achei que eles haviam conseguido, mas o caminhão continuou sem levar eles. O caminhão parou na nossa frente, disse que podia levar apenas um de nós até a fronteira com o Chile. Fiquei numa dúvida cruel, queria que o Matheus fosse, depois eu tentaria sozinho e nos reencontraríamos na fronteira. Por fim, resolvemos não entrar. Confesso que na hora me arrependi, mas o futuro iria dizer que aquele teria sido a melhor decisão a se fazer.

Minutos depois surgiu uma mini van em velocidade bem baixa. Parou e falou com o casal que estava logo na nossa frente. A mini van seguiu viagem. Erguemos o dedo no momento que ela passou por nós. A mini van parou. Logo pensei que seria igual ao caminhão, que ele falaria que só poderia levar um, imaginei que esse teria sido o motivo do casal não ter entrado. Nisso já bateu o arrependimento de ter refugado a carona solo com o caminhoneiro. Enfim, fui derrotado falar com o motorista. Ele perguntou onde iriamos e respondi que o objetivo era chegar em Ushuaia, mas se ele nos deixasse na fronteira já estaria bom. Ele disse que iria até Rio Grande, que é uma cidade na Terra do Fogo e fica a 200km de Ushuaia. Quando ele disse isso, perguntei se podíamos seguir com ele, com seu jeito característico ele sorriu e disse para entrarmos.

Um detalhe importante que vale a pena destacar neste ponto do relato é a conversa que o casal teve com o Martin, o motorista da mini van. Logo que entramos no carro o Martin perguntou se éramos amigos do casal que estava ali na rodovia. Dissemos que tínhamos conhecido eles algumas horas antes ali mesmo na Ruta 3. Explicamos que era a primeira vez que eles estavam pedindo carona e que tentamos ajudá-los de alguma forma. Com isso o Martin falou que iria dar carona para o casal, mas que só não deu porque o casal sabendo do destino final, do Martin, pediu para que ele levasse eu e o Matheus. (Punta Arenas fica no continente, então a carona para eles seria até a fronteira, que ficava uns 70km do ponto que estávamos, pois o Martin atravessaria o Estreito de Magalhães e seguiria pela Terra do Fogo). Cara, isso é do caralho. É do tipo de coisa que me deixa muito feliz. Aquele casal, que mal nos conhecia, abriu mão de algo que ajudaria-os para nos ajudar.

Seguimos com o Martin. Nos primeiros minutos de viagem avistamos o ciclista Hugo parado na rodovia se protegendo do vento, atrás de uma placa de trânsito. Tentei gritar, mas não consegui abrir o vidro do carro. Ficamos sentados os três no banco da frente do carro, na parte de trás tinha uma infinidade de bolsas e as nossas mochilas. Martin é o único representante de vendas na região da Patagônia de marcas esportivas como: The North Face, Caterpillar, Patagônia e muitas outras. Então, ele está sempre viajando pela Patagônia para vender os produtos. Como ele dizia: é um trabalho fácil, pois as marcas já se vendem sozinhas. Martin nasceu na cidade de Viedma e, atualmente, mora em Puerto Madryn. 

Aqui está outra carona que é muito difícil escrever sobre ela. Dessa vez pelo motivo contrário do Juan Carlos. Martin é um cara que eu gosto demais, demais mesmo. A viagem com ele teve uma sinergia fora do comum. Como nos divertimos dentro daquele carro. Ele é um cara interessado por tudo, acho que as intermináveis horas que ele passa dirigindo fez ele ter essa sensibilidade. Ele se diverte com qualquer coisa que ele vê pelo caminho. Enfim, Martin é um cara gente boníssima e de coração enorme.

A viagem seguiu bem leve. Martin nos serviu Sprite. Contamos um pouco das nossas vidas, Martin também contou bastante sobre a sua vida. Nos contou que conhecia o Brasil, já tinha visitado o Rio de Janeiro e Porto de Galinhas, e agora estava prestes a viajar com a namorada para passar o final de ano em Nova York. Essa seria sua última viagem a trabalho do ano, depois férias nos Estados Unidos. Ele viaja quatro vezes por ano para a Terra do Fogo, e ele faz isso a mais de dez anos. Então, ele conhece bem aquela região e nos deu diversas dicas sobre toda a Patagônia.

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Foto 9.9 - A viagem que segue

Chegamos na aduana chilena. Martin pediu para declararmos se tivéssemos algum tipo de alimento que a entrada é proibida no Chile, assim evitaríamos transtornos para ele. Ele fez todos os trâmites necessários para entrar de carro em outro país e ainda nos orientou com a nossa papelada. O Chile é um pouco mais burocrático que os outros países da América do Sul. Declaramos as lentilhas, que levávamos em nossas mochilas, que prontamente proibiram. Deixamos as lentilhas na aduana e seguímos por solo chileno com destino ao Estreito de Magalhães. Martin sempre observava que o asfalto em solo chileno era bem melhor que em solo argentino.

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Foto 9.10 - Em terras chilenas

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Foto 9.11 - A ótima pista

Você deve estar se perguntando: "Por que diabos ele foi para o Chile, se ele quer chegar em Ushuaia que fica na própria Argentina?". Senta que lá vem história. 

Primeiro vou falar um pouco da divisão da Patagônia. Após a independência das colônias espanholas, liderada por San Martin na parte sul do continente, a Patagônia virou terra de ninguém. Chile e Argentina aos poucos foram avançando em direção ao sul e se auto denominando donos das terras patagônicas. Isso gerou um impasse, pois não era possível determinar qual território era chileno e qual era argentino. No decorrer da história vários tratados foram acordados entre os dois países, mas nenhum dos países saía satisfeito dos acordos. Argentina e Chile compartilham mais de 5 mil quilômetros de fronteira (a terceira maior fronteira terrestre do mundo)  e é meio que óbvio que o Chile reclame parte do território argentino e vice-versa. Esse é o principal ponto da rivalidade histórica entre Chile e Argentina. O último episódio dessas disputas foi no ano de 1978, onde a briga em questão estava nos territórios próximos do canal de Beagle (extremo sul da ilha da Terra do Fogo). A guerra foi evitada por intervenção do Papa João Paulo II que mediou um acordo entre os dois países. Porém, na Guerra das Malvinas o Chile se declarou neutro, mas permitiu que os ingleses instalasse uma estação de radares, em terras chilenas, para monitorar a movimentação argentina na guerra. Os argentinos até hoje não perdoaram esse episódio, que na palavras deles foram uma traição por parte chilena.

Em um destes acordos a Terra do Fogo foi a questão. No acordo dividiram a Terra do Fogo ao meio por meio de um meridiano, o lado oeste ficou para o Chile e o leste para Argentina. Até ai tudo bem. O problema é que quase todo o território que margeia o Estreito de Magalhães é chileno. (O Estreito de Magalhães é uma porção de mar que separa fisicamente a América do Sul da Terra do Fogo). A Argentina tem uma pontinha deste território e que fica em alto mar, bem distante da Terra do Fogo. Tendo que navegar em alto mar em latitudes altas é bem perigoso e que em um determinado trecho o estreito mede quatro quilômetros. O mais conveniente quando se está com veículo terrestre pela Argentina e queira-se avançar até a Terra do Fogo, é adentrar em território chileno, atravessar com a balsa até a Terra do Fogo, dirigir por solo chileno e depois deixar o país na divisa entre os dois países na Terra do Fogo. É um baita rolê e o que mais cansa é a burocracia de entrar e sair dos países diversas vezes em um trecho minúsculo. 

Chegamos no Estreito de Magalhães e havia uma fila de carros. O Martin estacionou no último lugar da fila e saímos do carro para conhecer o entorno daquele lugar tão místico e importante para a história da humanidade. Ficamos um tempo admirando a orla. Nisso os carros começaram a entrar na balsa para cruzar o estreito. Depois de alguns segundos que fomos entender que também deviríamos estar entrando na balsa. Saímos os três correndo em direção ao carro, fazia tempo que não corria daquele jeito. Entramos no carro e caímos na risada. Martin acelerou o carro e entramos na balsa.

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Foto 9.12 - A chegada no Estrecho de Magallanes

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Foto 9.13 - Que belezura

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Foto 9.14 - A chegada da balsa

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Foto 9.15 - A chegada da balsa

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Foto 9.16 - Um pouco mais do estreito

Martin estacionou o carro, saímos do carro para conhecer a balsa e a visão do estreito que ela proporciona. Ficamos na parte de cima, meio que sem acreditar que estávamos ali. A cor do mar é mais que demais, o céu também colaborava. Martin contou que em dias de tempo ruim, forma-se ondas que passam por cima da balsa. Avisou para termos cuidado ali na beira. Também falou que quando o mar está muito brabo, pode ser que as balsas fiquem paradas, então é tipo uma roleta russa a travessia, como pode ser muito rápida, mas também você pode ficar parado ali por horas ou até dias. Estava de bobeira no parapeito da balsa, até que uma onda gigante veio molhando eu e o Matheus, o Martin correu antes de se molhar. Outra coisa interessante e meio que óbvio também, é que quando a balsa transporta caminhões-tanque (que carregam gasolina) de um lado para outro do Estreito, só pode haver dentro da balsa caminhões-tanque e nada mais. Depois de mais de meia hora de viagem de balsa atracamos na Terra do Fogo.

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Foto 9.17 - Adeus, continente

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Foto 9.18 - A balsa vizinha

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Foto 9.19 - Os carros na balsa

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Foto 9.20 - Cada vez mais longe do continente

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Foto 9.21 - A felicidade dos caras que não acreditam que estavam ali

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Foto 9.22 - Rumo a Terra do Fogo

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Foto 9.23 - Outra foto dos carros

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Foto 9.24 - A frente da balsa

A importância histórica do Estreito de Magalhães é notável. Pois, por mais de quatrocentos anos foi a principal passagem entre Oceano Atlântico e Oceano Pacífico. Apesar do Estreito de Magalhães ter uma largura pequena para navegação e suas águas serem ameaçadoras, o Estreito era a principal rota comercial que conectava países de Europa, América e Ásia. Existiam outras opções de navegação, por exemplo: Cabo da Boa Esperança e a Passagem de Drake. Entretanto, são  dois dos piores lugares de navegação existentes. O Estreito de Magalhães perdeu sua importância comercial com a inauguração do Canal do Panamá.

Particularmente, atravessar o Estreito de Magalhães era um sonho. Fernão de Magalhães e sua inaugural circum-navegação por anos estiveram no meu imaginário. Quase quinhentos anos atrás Magalhães navegou entre o continente americano e a Terra do Fogo, essa passagem que hoje leva seu nome provou que navegando tanto para leste quanto para oeste era possível chegar as Índias. Enfim, a prova prática que a Terra é redonda. Estar ali em um lugar tão importante para história me encheu de alegria, pois uma coisa é você ler e imaginar um lugar, outra coisa é você viver e sentir esse mesmo lugar.

Seguimos a viagem em solo chileno. Martin se divertia em buzinar para as ovelhas que víamos pelo caminho. Ele buzinava e elas saíam todas correndo. Mesmo quando estávamos entretidos numa conversa, ele não esquecia de azucrinar as ovelhas. Ele dava risada com isso. Para os guanacos e as vacas ele não buzinava, dizia que de nada adiantava, que esses animais só o encaravam.  

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Foto 9.25 - Eu, Matheus e o Martin

Uma história que o Martin contou que me chamou muita atenção e resume muito bem o quanto esse cara é gente boa. Em uma de suas viagens de mini van pela Patagônia, ele estava saindo de Bariloche e avistou um caroneiro e deu carona. Logo depois, avistou um casal de caroneiros e deu carona também. E assim, foi indo. Quando ele foi ver já tinha sete caroneiros dentro do carro. Pelo que eu lembro o tempo tava ruim nesse dia, estava chovendo. No meio da viagem ele viu um ciclista e colocou o ciclista e a bike dentro do carro. O carro foi lotado para Ésquel. Ele disse que foi uma farra só essa viagem. Todos viraram amigos. Quando chegaram em Ésquel todos os caroneiros compartilharam o mesmo quarto de hostel.

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Foto 9.26 - Viajando pela Terra do Fogo

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Foto 9.27 - Chile

Futebol, como é de praxe na Argentina, foi um dos assuntos na viagem. Martin é fanático por futebol, torce para o Independiente. Discutimos o eterno dilema: Quem é melhor Cristiano Ronaldo ou Messi. Obviamente, Messi ganhou. Discutimos sobre a Copa do Mundo e a final da Libertadores. Martin disse que tem certeza que a final da Copa América 2019 vai ser entre Brasil e Argentina. Falou que vai vir pro Brasil para assistir os jogos da Copa América.

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Foto 9.28 - O caminho para o fim do mundo

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Foto 9.29 - O deserto patagônico

Passamos pela aduana. Estávamos, novamente, na Argentina. A vegetação na Terra do Fogo pelo caminho que estávamos percorrendo é parecido com a vegetação patagônica que vimos no continente. A diferença está na arquitetura das casas, do lado chileno da ilha as construções são todas do mesmo estilo trazendo uma harmonia bem bacana no ambiente, quando cruza-se para o lado argentino é notável a diferença e a desarmonia arquitetônica das construções. 

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Foto 9.30 - Beleza de lugar

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Foto 9.31 - A viagem tem que continuar

Matheus havia conversado com o Desiz pelo couchsurfing, que aceitou nos receber em Rio Grande. Porém, fazia dias que não tínhamos internet. Martin sabendo disso, quando o sinal do telefone voltou, ligou para o Desiz para avisar que estávamos a caminho de Rio Grande, mas o Desiz não atendeu. Eu não estava preocupado se teríamos teto ou não naquele dia, estava feliz demais em estar avançando num ponto tão próximo de Ushuaia. Qualquer coisa acamparíamos em algum posto da cidade.  

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Foto 9.32 - Os guanacos

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Foto 9.33 - De vola a Argentina

Depois de quase oito horas de viagem, chegamos em Rio Grande. Fomos direto para o hotel que o Martin tinha reservado para si. Enquanto o Martin subiu no seu quarto para arrumar suas coisas, aproveitamos para usar a internet no saguão e avisar as nossas famílias que estávamos vivos. Nada do Desiz responder. Martin desceu animado, nos convidou para tomarmos umas brejas. Dissemos "Buera".

Fazia quatro dias que eu não tomava banho, e ainda estava vestido com uma camiseta segunda pele na cor verde marca texto, que chamava pouca atenção. Matheus estava sujo igual. Martin era o contrário de nós. Fomos para o único bar aberto da cidade. Entramos. Todos no bar estavam bem apresentáveis, éramos a exceção. Foda-se, queríamos comemorar. Pedimos as cervejas e brindamos pelo bom dia maluco que tivemos.  

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Foto 9.34 - Os sujismundos e o Martin 

Já era quase onze horas da noite, mas olhava para fora e ainda estava claro. Não tínhamos comido quase nada durante o dia, só algumas bolachas no caminho. A fome era muita. Pedimos uma pizza. Martin, sempre carismático, fez amizade com boa parte do pessoal que estava a nossa volta. A pizza chegou e segundos depois não havia mais nenhum pedaço para contar história. Depois ficamos conversando e dando risadas. Nessa noite batizamos o Martin de San Martin, o salvador de caroneiros.

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Foto 9.35 - A mesa do bar

O  bar fabrica sua própria cerveja, são quinze tipos diferentes de cervejas produzidas neste lugar. Existe no cardápio a opção de degustação de todos estes tipos. O lógico a se fazer é pedir o combo de degustação no início para decidir as cervejas que se irá tomar no resto da noite. Mas como nada faz sentido nesse mundo maluco, pegamos a degustação no fim da noite quando já tínhamos tomado nossas cervejas. O garçom ficou sem entender. No fim, vale muito a pena, pois na degustação ao todo tem 1,5 litros de cerveja num preço honesto, sendo muito mais barato que pedir três copos de 500 ml.   

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Foto 9.36 - A degustação do fim da noite 

Ficamos mais um pouco no bar dando muita risada. Finalmente, o Desiz respondeu, disse que estava dormindo e falou que não havia problemas em ficarmos na casa dele nessa noite. Já era tarde, resolvemos partir. Na hora de pagar a conta, o Martin resolveu pagar tudo e disse que era presente. Não achamos justo aquilo, queríamos ratear o valor. Assim, o Martin pegou uma nota de baixo valor minha e outra do Matheus, e disse sorrindo "Agora nós três dividimos a conta, fim da discussão.". 

Martin nos deixou na frente do apartamento do Desiz. Ficamos mais um tempo conversando. Sabíamos que aquela despedida não seria a final. Afinal, ele tinha negócios por Ushuaia. Combinamos de nos encontrarmos por lá. Com um abraço forte e um "Até Breve!" nos despedimos do Martin. Depois subimos as escadas do condomínio. Conhecemos o Desiz na porta do apartamento. Eu estava sonolento, pouco conversei com ele. O Matheus ficou tempo falando com o Desiz. Eu fui tomar banho. Caraca! Como era bom tomar banho depois de tanto tempo e de tanta sujeira acumulada/alojada. Abrir o chuveiro e sentir as primeiras gotas de água no corpo é libertador. Estava muito cansado. Lembro de dizer "buenas noches" para o Matheus e o Desiz, que continuavam conversando. Depois disso, fui para a cama e capotei.

Esse dia foi muito bom e maluco ao mesmo tempo. Viajamos mais de 700km de Comodoro Rivadavia até Rio Gallegos pela madrugada. Depois conhecemos a doçura da Rosio e o doido do Hugo. Ajudamos e fomos ajudados por aquele casal (queria recordar seus nomes) de bom coração. Passamos muito frio nas rodovias, muito mesmo. Reconheci meu irmão, Martin. Viajamos mais de 400km em sua ótima companhia. Depois fomos comemorar, sem saber o que comemorávamos. Me diverti como a tempos não me divertia. E no fim, ainda teve a camaradagem do Desiz. Mesmo que eu tentasse inventar algo para reclamar desse dia, eu não conseguiria.

Agora quero terminar esta parte do relato falando do meu irmão Martin. Qualquer palavra que eu usasse para descrever o quão bom ele foi para nossa viagem, não seria suficiente. Ele nos proporcionou um dia incrível, cheio de boas conversas, paisagens lindas, risadas e companheirismo. Acho que a palavra companheirismo é a que chega mais perto da veracidade sobre o Martin. Ele mergulhou na nossa viagem como se fosse mais um integrante. As nossas diferenças sociais e culturais só serviram para nos aproximar mais. Já cansei de agradecer ele pessoalmente, mas quero mais uma vez fazer isso, agora por aqui. Martin, meu irmão, muito obrigado por ser esse cara do bem, cheio de alto astral, gentil e dono de um coração do tamanho da Patagônia. Espero te reencontrar mais vezes nessa vida maluca. Mais uma vez, muito obrigado de coração Martin, e que sua vida seja cheia de vida. Forte abraço, irmão.

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Parabéns pelo relato Diego! É muito legal estar acompanhando como se desenrolou a sua viagem!
Cada situação inesperada, não? Mas com certeza são essas situações e pessoas que fazem valer a pena... estarei acompanhando até o final, obrigado por compartilhar! 

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20 horas atrás, Paulo Pittarello disse:

Parabéns pelo relato Diego! É muito legal estar acompanhando como se desenrolou a sua viagem!
Cada situação inesperada, não? Mas com certeza são essas situações e pessoas que fazem valer a pena... estarei acompanhando até o final, obrigado por compartilhar! 

Fala @Paulo Pittarello, belezera? Sim, o massa de viajar desta forma é nunca saber o que vai acontecer no momento seguinte. O negócio é se deixar levar e aceitar/aproveitar o que a estrada está te proporcionando naquele momento. 

Cara, fico muito feliz que esteja acompanhando e curtindo o relato, acho que vou tentar dar uma acelerada para terminar o quanto antes a escrita. Grande abraço, Paulo. Fica com a paz. 

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