Ir para conteúdo
View in the app

A better way to browse. Learn more.

Mochileiros.com

A full-screen app on your home screen with push notifications, badges and more.

To install this app on iOS and iPadOS
  1. Tap the Share icon in Safari
  2. Scroll the menu and tap Add to Home Screen.
  3. Tap Add in the top-right corner.
To install this app on Android
  1. Tap the 3-dot menu (⋮) in the top-right corner of the browser.
  2. Tap Add to Home screen or Install app.
  3. Confirm by tapping Install.

Olá viajante!

Bora viajar?

O nosso norte é o sul: Atravessando Brasil e Argentina até Ushuaia ou O caminho para o fim do mundo

Postado
  • Membros
  • Este é um post popular.

"No século XII, o geógrafo oficial do reino da Sicília, Al-Idrisi, traçou o mapa do mundo, o mundo que a Europa conhecia, com o sul na parte de cima e o norte na parte de baixo. Isso era habitual na cartografia daquele tempo. E assim, com o sul acima, desenhou o mapa sul-americano, oito séculos depois, o pintor uruguaio Joaquín Torres-García. “Nosso norte é o sul”, disse. “Para ir ao norte, nossos navios não sobem, descem.”

Se o mundo está, como agora está, de pernas pro ar, não seria bom invertê-lo para que pudesse equilibrar-se em seus pés?"

De pernas pro ar, Eduardo Galeano
 

nossonorte.png.5adef616a2301ae8054841bec89a3745.png 

 O nosso norte é o sul, Joaquín Torres-García

Cheguei ontem pela madrugada em casa. Agora sentado na frente do computador sinto uma necessidade, quase insuportável, de contar sobre meu caminhar até o fim do mundo. Foram 50 dias de viagem e mais de 14.000km percorridos por terra. Entre ônibus e caronas percorremos o sul do Brasil e a Patagônia Argentina até Ushuaia, parando em muitos lugares nos dois países. O dinheiro era pouco, mas a vontade era muita. A necessidade que tenho de escrever deve-se as pessoas que de alguma forma nos ajudaram a realizar esta viagem ao extremo sul da América do Sul. Tanta gente boa pelo caminho. Tanta solidariedade. Tanta gratidão.

mini_into(1).thumb.png.389f2860d3ef119217658a9a47f5ce80.png

Pela primeira vez, antes de uma mochilada, eu não estava completamente bem e seguro. Nos meses que antecederam a viagem estava escrevendo a dissertação do meu mestrado (isso, por si só, já era muita tensão) e nesse intervalo de tempo perdi meu pai, a mulher que aprendi a amar resolveu seguir sem minha companhia e quase antes de embarcar perdi minha vó. Como é de se imaginar, meu estado de espírito não era nada bom, na verdade era o pior possível. Com isso tinha muito medo de atrair coisas ruins pelo caminho, como por exemplo ser vítima de violência. Assim, resolvi mudar a ideia de mochilar sozinho e decidi ter uma companhia nessa viagem. Meu amigo/irmão Matheus embarcou comigo nessa jornada. 

mini_fin(1).jpg.94af2e31fa9eedff1f4d47f874c01649.jpg

Enfim, tenho como intuito neste relato contar a história dos lugares por onde passei, minhas histórias nesses mesmos lugares e, principalmente, falar sobre as muitas pessoas (leia-se anjos) que nos ajudaram nesta viagem. Quero contar de maneira honesta os acontecimentos e os sentimentos que me permearam nesses dias, e de alguma forma quero deixar esse texto como agradecimento a cada pessoa que tornou essa viagem algo possível.

Agora vamos ao que interessa, bora comigo reconstruir essa viagem por meio de fotos e palavras!

  • Respostas 47
  • Visualizações 20.1k
  • Criado
  • Última resposta

Usuários Mais Ativos no Tópico

Most Popular Posts

  • Diego Minatel
    Diego Minatel

    Parte 3 - O casal das ruínas de São Miguel das Missões “Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.” Guerra e Paz, Leon Tolstoi

  • Diego Minatel
    Diego Minatel

    Parte 4 - Do Brasil para a Argentina "Oh! Oh! Seu Moço! Do Disco Voador Me leve com você Pra onde você for Oh! Oh! Seu moço! Mas não me deixe aqui Enquanto eu sei que tem Tanta estr

  • Diego Minatel
    Diego Minatel

    Parte 7 - Frustrações na estrada e a beleza de Puerto Madryn "A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quand

Posted Images

Featured Replies

Postado
  • Autor
  • Membros
16 horas atrás, appriim disse:

@Diego Minatel Que delicia de relato, Diego! Tô viajando com você e relembrando da minha viagem :)

Valeu, @appriim! Que massa que esteja curtindo o relato. Eita, quando esteve por aqueles cantos? Curtiu demais? Se apaixonou por El Chaltén? 

Postado
  • Membros
1 hora atrás, Diego Minatel disse:

Valeu, @appriim! Que massa que esteja curtindo o relato. Eita, quando esteve por aqueles cantos? Curtiu demais? Se apaixonou por El Chaltén? 

Fui final de ano, sai dia 20/12 e fiquei até 05/01! Deixei um pedaço do meu coração El Chaltén, cidade encantadora, com uma energia boa demais. Adorava ver todo mundo na rua com roupa de trilha, cheios de casaco, segurando um bastão de trekking. A melhor parte era sair da trilha, suja, cheio de pó ,ir pro bar e todo mundo estar assim também 😂

Postado
  • Autor
  • Membros
1 hora atrás, appriim disse:

Fui final de ano, sai dia 20/12 e fiquei até 05/01! Deixei um pedaço do meu coração El Chaltén, cidade encantadora, com uma energia boa demais. Adorava ver todo mundo na rua com roupa de trilha, cheios de casaco, segurando um bastão de trekking. A melhor parte era sair da trilha, suja, cheio de pó ,ir pro bar e todo mundo estar assim também 😂

Eita, é recente também, que massa, pode ser que dividimos as mesmas trilhas. Aquele lugar é fascinante, todo mundo está lá pra caminhar até dizer chega. To escrevendo sobre El Chaltén agora e tá batendo uma saudade monstra daqueles dias.  

Postado
  • Membros
21 horas atrás, Diego Minatel disse:

Eita, é recente também, que massa, pode ser que dividimos as mesmas trilhas. Aquele lugar é fascinante, todo mundo está lá pra caminhar até dizer chega. To escrevendo sobre El Chaltén agora e tá batendo uma saudade monstra daqueles dias.  

Não duvido 😂 Cheguei dia 30/12 em El Chaltén. Deixei ela por último porque sabia que seria trilha e mais trilha. Logocomeço a escrever meu relato de El Chaltén. Coração vai apertar.

Postado
  • Autor
  • Membros
  • Este é um post popular.

Parte 13 - O paraíso tem nome, El Chaltén

"O escafandro já não oprime tanto, e o espírito pode vaguear como borboleta. Há tanta coisa pra fazer. Pode-se voar pelo espaço ou pelo tempo, partir para a Terra do Fogo ou corte do rei Midas. Pode-se visitar a mulher amada, resvalar junto dela e acariciar-lhe o rosto ainda adormecido. Construir castelos de vento, conquistar o Velocino de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar sonhos de infância e as fantasias da idade adulta." O escafandro e a borboleta, Jean-Dominique Bauby

O ônibus corria sozinho pela Ruta 40, o Lago Argentino estava a minha a esquerda. Não cansava de olhar por diferentes ângulos aquele lago azul que mais se parecia com um mar. Dentro do ônibus o som era uma mistura de idiomas. Quando o ônibus deixou a Ruta 40 e seguiu pela Ruta 23, a surpresa foi expressa em variadas interjeições: "Uau!", "Wow!", "Oh!", "Eita!". Agora todos os olhos miravam o Monte Fitz Roy que se anunciava ao fundo. Na minha esquerda, o Lago Argentino deu lugar para o Lago Viedma. A cada quilômetro conquistado, maior ficava o Monte Fitz Roy e seus companheiros Agulha Ponceinot e Agulha Saint-Exupéry. Os três lado a lado formam uma espécie de degrau. O sol descia em direção dos cumes, já era possível avistar o Cerro Torre, mais a esquerda, com seu diferente pico. As nuvens tocavam o topo do Monte Fitz Roy e os glaciares em volta já podiam ser visto com mais clareza. O ônibus adentrou na cidade de El Chaltén, e nesse momento Fitz Roy, Poincenot, Saint-Exupéry ficam escondidos atrás dos diversos morros que cercam a cidade.

mini_20181219_145734.jpg.5ff2985e69d637fbd2557bdb27106abd.jpg

Foto 13.1 - Parada entre El Calafate e El Chaltén

mini_20181219_162030.jpg.ee39484e162adb15aa9df807e6aefc98.jpg

Foto 13.2 - Na janela do ônibus avistando o Monte Fitz Roy

mini_20181219_162834.jpg.2b93e5085cf7fb773407ea8c8bbffd71.jpg

Foto 13.3 - Fitz Roy é o maior

El Chaltén é uma cidadela que fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares e tem pouco mais de mil habitantes. A cidade é rodeada de montanhas, lagos, glaciares e trilhas, e é considerada a capital argentina do trekking. Chaltén é uma palavra da língua tehuelche que significa a montanha que toca as nuvens, em nítida referência ao Monte Fitz Roy. El Chaltén abriga dois dos picos mais difíceis de escalar deste planeta: Cerro Torre e Cerro Fitz Roy, isso faz com que a cidade seja objeto de desejo dos principais escaladores do mundo.  

Saímos caminhar pela charmosa El Chaltén com os mochilões nas costas. O dia estava quente e com algumas nuvens no céu. A cidade é fascinante, toda calma, organizada e bonita. Existem diversos monumentos em referência a mochileiros e montanhistas. Em resumo vê-se pelas ruas da cidade restaurantes e hotéis/hostels, tudo é relativo ao turismo ali. Falando da beleza natural do lugar, a cidadela fica dentro de um vale cercada por morros que lembram uma paisagem de deserto, mas existem inúmeros rios e lagos que rodeiam a cidade.

mini_20181219_170806.jpg.f8bcfd5e77f5f4bbcc22390a9fcc1cfa.jpg
Foto 13.4 - Bienvenidos a El Chaltén

mini_20181219_170828.jpg.4052784307f893f8299e54c913200745.jpg

Foto 13.5 - A entrada de El Chaltén

mini_20181219_171056.jpg.cb45232613005c31656823131ddde0f1.jpg

Foto 13.6 - A cidade do trekking

mini_20181219_171308.jpg.8b14b81801cb703e2a04d00796090ee7.jpg

Foto 13.7 - A pacata El Chaltén

mini_20181219_172338.jpg.0e6e13082748315fab920947402d3031.jpg

Foto 13.8 - As casas no vale

mini_20181219_191256.jpg.fdad0769f9650c3640ba02cc896c6912.jpg

Foto 13.9 - El Chaltén

mini_20181219_191301.jpg.556143adeee87f977217d81d51457b94.jpg

Foto 13.10 - El Chaltén [2]

O que mais me chamou a atenção nessas primeiras horas por El Chaltén foi caminhar pela rua José Antonio Rojo. No fim dessa rua tem um morro que impede a visão do horizonte, mas o curioso que bem na direção do Fitz Roy tem tipo uma janela, ou um degrau, no morro que permite ver somente o Fitz Roy e as pontinhas do Saint-Exupéry e do Poincenot. Coisa linda!

mini_20181219_191629.jpg.5f18efbc8a509e2dc73796dc58744269.jpg

13.11 - A janela para o Fitz Roy

Fomos até o Camping La Torcida, o mais barato de El Chaltén, a diária estava cerca de vinte e cinco reais. La Torcida é um camping bem pequeno, mas tem uma boa estrutura para cozinhar, um bom banheiro, além de uma área de convivência. Montamos acampamento, comemos os cachorros quentes que sobraram de El Calafate e decidimos fazer a trilha Laguna De Los Tres naquela madrugada, pois a previsão do tempo indicava que era o melhor dia. A trilha Laguna De Los Tres é a principal trilha de El Chaltén, é a que leva você na base do Monte Fitz Roy.

Vale lembrar que no parque existem diversas áreas de acampamento gratuito, mas estes estão distantes da cidade e servem de apoio para as pessoas que irão fazer caminhadas de vários dias, não há nenhuma estrutura nestes acampamentos. A princípio, iríamos utilizar um dos acampamentos gratuitos ao menos uma vez, assim emendaríamos diversas trilhas. Porém, era final de ano, a cidade estava cheia, o camping La Torcida estava num preço bom e eles não reservavam lugar caso tirássemos nossas barracas. Então, para não correr riscos depois, de não ter lugar no La Torcida e ter que pagar caro em outro lugar, resolvemos ficar por ali e fazer todas as trilhas saindo da cidade.

O despertador gritou, era pouco menos de uma da manhã. Peguei a mochila que servia de travesseiro e coloquei-a nas costas. Sai da barraca, escovei meus dentes e aguardei o Matheus na frente do acampamento. Saímos caminhando pela cidade rumo a entrada da trilha. O céu estava estrelado. As primeiras subidas do caminho ajudava aquecer o corpo naquela noite fria. Só escutava o som dos nossos passos e o barulho do vento. Na minha frente o escuro era cortado pelas luzes de nossas lanternas. Os passos seguiam, caminhávamos num bom ritmo. Conforme íamos avançando encontrávamos outras pessoas pelo caminho. Eu pouco enxergava, além de escuro e feixes de luz. Quando chegamos no Mirante do Fitz Roy, toda a mata alta que impedia de visualizar o horizonte não existia mais. Nessa hora, a mirar os olhos à frente, vi das coisas mais assustadoras e incríveis da minha vida. Naquela escuridão, surgiu o contorno do Fitz Roy. Não parecia real, até me belisquei para verificar se era verdade a sombra daquele monstrão de granito. O frio na barriga surgiu junto com a vontade de me aproximar mais e mais.

Continuamos a caminhada, agora a trilha segue plana e numa vegetação rasteira. Caminhávamos de frente para o Fitz Roy, as estrelas iluminavam o caminho. Não conseguia pensar em nada, não tirava os olhos do maciço de granito e com isso ia acumulando tropicões. Em determinadas partes, desligava a lanterna, caminhava por instinto. Ao nos aproximarmos do acampamento Ponceinot o som do vento ganhava a companhia de vozes humanas. Chegando no acampamento, toda a galera que estava acampando por ali acordava para começar a caminhada até a base do Fitz Roy. Aproveitamos para descansar uns cinco minutos e comer umas bolachas.

Depois do acampamento, segue a última parte da trilha. O Fitz Roy fica escondido atrás do morro de acesso. Agora é subir e subir. A subida não chega ser das mais difíceis, mas a madrugada facilita a empreitada. Nessa parte, a trilha estava entupida de gente. Cada grupo que ultrapassávamos um idioma diferente era escutado. O mundo todo estava representado naquela subida. Eu só conseguia pensar em chegar, parar pra descansar nem pensar. A cada passo dado, mais visível o cume do Fitz Roy ficava. Afinal, só o cume era visível, o resto do Fitz Roy, o Poincenot e o Saint-Exupéry ficam escondidos até a subida final. Ao chegar no fim da trilha, surge de uma vez só o Saint-Exupéry, Poincenot, o lindão do Fitz Roy e a Laguna De Los Tres. Sem exageros, meu coração disparou naquele momento. Aquela cena foi mais que demais, era a beleza em seu esplendor.

O relógio marcava quatro e meia da madrugada, o frio ali em cima era intenso. O sol não esboçava se levantar. Nos protegemos do vento atrás de uma pedra. As pessoas iam chegando e se ajeitando no entorno daquele cenário. Todos tinham o mesmo objetivo, o de acompanhar o nascer do sol na companhia do Fitz Roy. Tremendo, acompanhei os primeiros raios de sol que surgiam na direção da cidade. Uma linha laranja ia aumentando no horizonte. Depois de alguns minutos, o sol surgiu para amenizar o frio e iluminar os gigantes de granito. Cada posição do sol, uma nova iluminação e uma coloração diferente para o Fitz Roy e para a Laguna De Los Tres. Acompanhar esses nuances é do caralho.

mini_20181220_045057.jpg.443f81bc04a88c1907666ba967e44954.jpg

Foto 13.12 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, na escuridão

mini_20181220_050503.jpg.620467fcacce3a795cf79aeae8ea732d.jpg

Foto 13.13 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, nos primeiros brilhos de sol

mini_20181220_054126.jpg.9e78b66c74e2b73952b8a1b344d67046.jpg

Foto 13.14 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, o sol continua subindo

mini_20181220_054409.jpg.c252ecb9f9649c761a13d0005696b6af.jpg

Foto 13.15 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy, em tons de azul

mini_20181220_061459.jpg.393e9b048937ce7b738f85642fc31a67.jpg

Foto 13.16 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy com o sol de frente

mini_20181220_071302.jpg.5c6e496dfd726367bb1c2b78bc09d63d.jpg

Foto 13.17 - Saint-Exupéry, Poincenot e Monte Fitz Roy com o sol acima

(A ordem das fotos seguem a sequência temporal em que foram tiradas, essas fotos foram tiradas num intervalo menor que duas horas. Isso da pra dar uma noção de como é mágico acompanhar o nascer do sol a beira da Laguna De Los Tres, pois têm-se diferentes cenários em um mesmo cenário. )

Vou me atentar a falar dos caras que dão os nomes aos três principais picos desta paisagem: Saint-Exupéry, Poincenot e Fitz Roy. Antoine de Saint-Exupéry é aquele mesmo que escreveu O Pequeno Princípe, mas você me pergunta: - Por que esse francês dá nome a esse pico na Argentina? Bom, saber eu sei, mas não estou de acordo. O motivo é porquê Saint-Exupéry foi aviador, além de escritor, e pioneiro em voos postais na região patagônica. Jacques Poincenot foi um alpinista francês e morreu numa expedição francesa que tinha como objetivo alcançar o topo do Fitz Roy pela primeira vez, isso ocorreu no ano de 1952 e depois disso o segundo pico mais alto do Maciço Fitz Roy recebeu seu nome. Robert FitzRoy foi o capitão do navio da famosa viagem de Beagle, na qual Charles Darwin participou e coletou as evidências de sua Teoria da Evolução. A viagem de Beagle tinha como objetivo mapear o sul da América do Sul, portanto, a viagem tinha uma ligação direta com a Patagônia. O verdadeiro nome do Monte Fitz Roy é Chaltén que era a maneira que os ameríndios Tehuelches chamavam o monte.

O Monte Fitz Roy tem 3375 metros de altitude e é a montanha mais alta do Parque Nacional Los Glaciares. O monte é considerado um dos picos mais difíceis de se escalar, a soma de aproximação por glaciar, escalada em rocha, escalada em gelo, seus paredões verticais de dificuldade extrema, além do clima maluco da região, fazem do Fitz Roy a menina dos olhos de todo escalador de elite.

O sol já queimava em cima de nós. As muitas pessoas que estavam no nascer do sol se reduziram a poucas. Agora o silêncio dava as caras. Preparei um café amargo para o café da manhã. Eu já tinha certeza que aquele lugar era o meu lugar preferido no mundo. Ficar ali contemplando o Fitz Roy e seus amigos é das coisas mais fáceis que existe, você sai de si e quando se dá conta, ficou minutos alheio do mundo. Era muito bom não pensar em nada, esquecer quem eu era. O granito dos maciços estava numa cor alaranjada, pareciam incandescentes, e a lagoa tinha uma coloração escura. Nesse momento paramos nossa contemplação e registramos nossa estadia junto ao Fitz Roy. Aproveitamos para caminhar em todo seu entorno. 

mini_IMG_5904.JPG.a7e883deba20d8f68334727afbc353b6.JPG

Foto 13.18 - Matheus e o Fitz Roy

mini_IMG_5891.JPG.67899b944099ac57a0428efe8d8e7738.JPG

Foto 13.19 - Eu no meu lugar favorito do mundo

mini_IMG_5929.JPG.c433cfb418bf4af108954bfce6d6cd3d.JPG

Foto 13.20 - Matheus fingindo meditar (risos)

mini_IMG_5898.JPG.42590b0aeb89e629dcf177b1acd5fd8c.JPG

Foto 13.21 - A mesma pose da outra foto

Descemos até a Laguna De Los Tres para ver o Fitz Roy por outro ângulo. Aproveitei para tocar naquelas águas geladas, mas não tive coragem de mergulhar. Depois seguimos pela trilha que margeia a lagoa que dá acesso a Laguna Sucia. A caminhada é curta, pouco menos de dez minutos. De cima, avista-se a Laguna Sucia e suas águas de cor azul turquesa. Outro presente aos olhos a Laguna Sucia, o mais curioso que quase ninguém vai até ela por não saberem de sua existência. Uma vez feita a trilha até a Laguna De Los Tres é obrigatório seguir para conhecer a Laguna Sucia.

mini_IMG_5942.JPG.6f9d079cba19bd7c1e2e1cb87e241f32.JPG

Foto 13.22 - Na beira da Laguna De Los Tres

mini_IMG_5947.JPG.cddcad6742a710f4bf08415d688f78e0.JPG

Foto 13.23 - Matheus na Laguna Sucia

mini_IMG_5952.JPG.f77c705a5f3664d19f4865bf960660d9.JPG

Foto 13.24 - Laguna De Los Tres

Despedir-se daquele lugar não é algo fácil, dar as costas ao Fitz Roy é complicado. Não sei explicar o que é estar ao lado daquela montanha tão mística. Existe uma força que te chama para ela, e ao lado dela tudo parece fazer sentido. Mesmo sabendo que é suicídio, dá vontade demais de tentar chegar em seu topo. Estou tão perto, por que não seguir? Não tem quem não se apaixone ao estar de cara com aquela montanha toda cheia de curvas. Agora entendo um pouco do porquê de toda mística envolta daquela montanha, ela simplesmente te chama e em troca te oferece paz. Ir embora querendo ficar, em todos os sentidos, é das coisas que mais me deixa puto, queria ficar ali por dias e até mesmo chegar em seu topo, mesmo não manjando quase nada de escalada. Enfim, seguir a razão é foda, mas tinha que continuar a caminhada. Segui meu caminho, mas com certeza deixei uma parte de mim naquele lugar e com mais certeza sei que levei muito daquele lugar dentro de mim. 

Começamos a descida. Depois de uns dez minutos de caminhada, um cara passou por mim correndo. Caralho! O cara tava fazendo a trilha correndo. Mais tarde cheguei ver mais dois caras que fizeram a trilha correndo desde de El Chaltén. São 10 km de trilha (só ida) e muitas subidas, tem que estar na vontade de fazer isso correndo. A caminhada continuou, a vista é toda bonitona e aproveitamos para observar toda a paisagem que tínhamos percorrido no escuro. Chegamos no acampamento Poincenot, comemos e demos uma descansada.

mini_20181220_074852.jpg.566a9a5d3097b5a54d17b1fa115a7919.jpg

Foto 13.25 - A vista contrária próximo a Laguna De Los Tres

mini_20181220_074943.jpg.48472c1b083fd3917c60d408ba0d394f.jpg

Foto 13.26 - Indo embora

mini_20181220_084504.jpg.650281f4a463c41b7342fa2446b99ef0.jpg

Foto 13.27 - Matheus cruzando o rio

Logo na saída/chegada do acampamento Poincenot tem a bifurcação para a trilha do Glaciar Piedras Blancas. Seguimos o caminho para conhecer o glaciar. A trilha é tranquila, quase toda plana e com paisagens lindíssimas. Ao chegar de frente ao glaciar, a visão não é das melhores, é necessário se dependurar em uma árvore para ter uma boa visão do glaciar e a lagoa formada no seu entorno. Outra paisagem incrível. 

mini_20181220_100549.jpg.4da1e5d61b9bdad0f3919a7acd9653c8.jpg

Foto 13.28 - Glaciar Piedras Blancas

Voltamos pelo mesmo caminho até a bifurcação entre a trilha da Laguna de Los Tres e a trilha Piedras Blancas. Depois seguimos o caminho de volta até El Chaltén pela mesma trilha que tínhamos percorrido pela madrugada. No meio do caminho há outra bifurcação, voltar pelo Mirante do Fitz Roy ou pela Laguna Capri. Resolvemos seguir pelo Mirante e conservar nosso caminho da madrugada. Aquela visão que me assustou (pela sua imensidão) horas antes, agora estava magnifica. A sombra deu lugar a diversas cores. Que visão é aquela, meu amigo. O Fitz Roy não se cansa de ser bonitão, nunca. Continuamos a caminhada. No fim da trilha estávamos esgotados, mais por causa de não ter quase dormido e por não ter almoçado, mas mesmo assim resolvemos seguir para a trilha do Chorrillo del Salto.

mini_20181220_103716.jpg.96d5b019129c55a000f5c85831e4c85c.jpg

Foto 13.29 - Matheus para a volta para olhar pro Fitz Roy

mini_20181220_110005.jpg.719fc3736d34ca8678ab78c361e139a9.jpg

Foto 13.30 - O caminho de volta

mini_IMG_5962.JPG.1f6e1f6082814599ecb5f0a3e582ef09.JPG

Foto 13.31 - Mais uma foto do Fitz Roy

mini_20181220_115228.jpg.c5125a2f00d3e33a0fe455371d6d2b1d.jpg

Foto 13.32 - Mirador del Fitz Roy

mini_IMG_5980.JPG.b411192b3ac25a231e6d7f4eaabcbfc2.JPG

Foto 13.33 - Mirador del Fitz Roy

A caminhada é tranquila até o Chorrillo, mas o cansaço dificultou nosso caminho. Quando chegamos de frente com a cachoeira, só queria deitar e tirar as botinas. Fazia mais de 14 horas que estávamos em trilhas e agora a conta havia chegado. A cachoeira é toda bonitinha, mas nada que surpreenda, ainda mais depois de conhecer o Fitz Roy. Por ser de fácil acesso, a cachoeira é cheia de gente, e isso me incomodou um pouco, mas tava tão cansado que só pensava em massagear meus pés. Ficamos um bom tempo ali na companhia da cachoeira. Depois seguimos o sacrilégio de caminhar varados de fome. Só conseguia pensar em comida quente. Não tinha sido uma boa ideia só levar lanches para a caminhada. O sono tava pegando também.

mini_20181220_123042.jpg.b74bf4b87957f17bff10474c2e6ece97.jpg

Foto 13.34 - O caminho para o Chorrillo del Salto

mini_20181220_125821.jpg.99e95c18d0d7ef5f974d327548ad931e.jpg

Foto 13.35 - O caminho para o Chorrillo del Salto

mini_IMG_5983.JPG.ba25ecda83e7ac970d26c40c7b4a8de7.JPG

Foto 13.36 - O caminho para o Chorrillo del Salto

mini_20181220_135324.jpg.186e23de8801133cde05ddabe82c57f9.jpg

Foto 13.37 - Chorrillo del Salto

Chegamos no camping esfomeados, depois de quase 40 km de trilhas no dia. Preparamos um macarrão com todos os ingredientes que tínhamos. Ficou bom demais. Comi e dormi. Acordei de manhãzinha do outro dia. Fui logo pra cozinha fazer um café da manhã. Eu e o Matheus havíamos decidido fazer a trilha até a Laguna Torre neste dia. Sem pressa, comemos e aprontamos nossas coisas para a caminhada. Era quase nove horas da manhã quando adentramos na trilha que leva até as proximidades do Cerro Torre, a entrada da trilha fica pertinho do camping

O bom de se estar em El Chaltén, pelo menos para mochileiros, é que não é preciso de carro para quase nada. A maioria das entradas das trilhas do parque estão nas proximidades da cidade, o que te dá uma boa autonomia. Tudo se faz caminhando, mesmo que leve um dia inteiro. Não precisa levar muita água para as caminhadas, tem água potável por todos os cantos. Outra coisa legal, é que todas as trilhas e lugares a se visitar em El Chaltén são gratuitos. Então, acampando e cozinhando sua própria comida o rolê por lá fica bem barato.

A trilha até a Laguna Torre é bem tranquila se comparada com a do Fitz Roy, são 9 km até a Laguna Torre e mais 2 km se quiser chegar de frente ao Glaciar Grande e do Cerro Torre. O dia estava bonito, mas com uma incidência grande de nuvens, principalmente perto das montanhas. Quando chegamos no primeiro mirante não foi possível avistar o Cerro Torre e seus dois picos vizinhos, todos estavam cobertos por nuvens.

mini_IMG_5993.JPG.165773820bcb7fece052f064ca4f4cac.JPG

Foto 13.38 - No início da trilha

mini_IMG_5995.JPG.8d72c0a357c5957a3e187c52b08949f9.JPG

Foto 13.39 - Ainda pelo início

mini_IMG_5998.JPG.d99fc5d8d56d9ecd5acbf56fc582f2fc.JPG

Foto 13.40 - Trilha Laguna Torre

mini_20181221_101042.jpg.add213853bce1a5e41ffdee1e52a6194.jpg

Foto 13.41 - Mirante Torre

mini_IMG_5999.JPG.3f4e004427763948be049ed1ee47f54c.JPG

Foto 13.42 - Glaciar Grande e a direita o Cerro Torre coberto por nuvens, ainda mais a direita o Fitz Roy

A caminhada continuou com aquela sensação de que a natureza não ia nos permitir ver nitidamente o Cerro Torre. Porém, foi bem tranquilo o caminhar até a Laguna Torre, fomos conversando e andando lentamente. Pelo caminho fomos encontrando pessoas que havíamos conhecido em Ushuaia e El Calafate. Chegamos na Laguna Torre, no fundo da lagoa dava para ver o imponente Cerro Torre ao lado do Glaciar Grande. As nuvens tinham sumido em sua maioria, mas o famoso topo do Cerro Torre ainda estava encoberto. O legal que havia pedaços de gelo por toda a lagoa. Ficamos alguns minutos por ali e seguimos para o Mirador Maestri.

mini_IMG_6005.JPG.b8aa1509b0581bf21300f0f2228f6727.JPG

Foto 13.43 - A caminhada continua

mini_20181221_104735.jpg.fb3bc4962260d148aa5ba94706bcfa8e.jpg

Foto 13.44 - Matheus caminhando

mini_IMG_6010.JPG.e01308c4861b30d0e577d8d8469e396b.JPG

Foto 13.45 - Laguna Torre e o topo do Cerro Torre encoberto 

O caminho para o mirador é só subida e margeia a Laguna Torre, nada muito difícil também. A maior dificuldade são os trechos a beira do desfiladeiro com o típico vento forte patagônico. Enquanto caminhávamos, as nuvens no Cerro Torre se moveram para longe e pela primeira vez consegui ver o topo do Cerro Torre, que mais se parece com um cogumelo. Parei pra observar. Coisa linda. Depois de ter feito o Fitz Roy primeiro, tinha uma certa preocupação em não conseguir mais me surpreender com as paisagens de El Chaltén, ledo engano. No Mirador Maestri me sentei numa pedra e fiquei esperando o Matheus terminar sua caminhada. Havia nós dois e mais três pessoas naquele lugar tão mágico. O silêncio só não era absoluto por causa do vento. Eu só ficava pensando em como alguém consegue escalar aquele peculiar topo.

mini_20181221_121540.jpg.1bbb554b6b411bcb93432980b453ca3e.jpg

Foto 13.46 - Enfim, o Cerro Torre apareceu

mini_IMG_6031.JPG.90e3619f47c4c14b4410b89c44f1c918.JPG

Foto 13.47 - Glaciar Grande, Eu e o Cerro Torre

mini_IMG_6034.JPG.0709909402036981ea91ec2c0d76eb7d.JPG

Foto 13.48 - Glaciar Grande

mini_IMG_6039.JPG.9f05bd502c5a23f501984ada2c2bc4c6.JPG

Foto 13.49 - Eu observando o Cerro Torre

mini_IMG_6049.JPG.5f458a47c68a574ff9a405bbb09fb75e.JPG

Foto 13.50 - Matheus e o Glaciar Grande

O Cerro Torre tem 3102 metros e por muito tempo foi considerada uma montanha impossível de escalar. A história da primeira ascensão ao topo é cheia de controvérsia. O italiano Césare Maestri, o mesmo que dá o nome ao mirante, diz ter chegado ao topo em 1959 junto com o austríaco Toni Egger. Na descida eles foram pegos por uma avalanche, e só o Maestri saiu vivo. Porém, as fotografias e as evidências da conquista do topo foram perdidas para sempre. Nisso, com o passar dos anos a ascensão de Maestri foi sendo contestada. Assim, nos registros a primeira ascensão ao topo do Cerro Torre é datada em 1974 pelos alpinistas Daniele Chiappa, Mario Conti, Casimiro Ferrari e Pino Negri.

Voltamos a trilha do Mirador Maestri e margeamos o outro lado da lagoa. Depois seguimos o caminho de volta até o acampamento Agostini e preparamos nosso almoço. Dessa vez cozinhamos uma sopa que deu uma boa energizada. Descansamos um pouco e na sequência continuamos o caminho de volta da trilha da Laguna Torre até a bifurcação com a trilha das Lagunas Madre y Hija. Continuamos pela Madre y Hija, essa trilha conecta as trilhas da Laguna De Los Tres (Fitz Roy) com a Laguna Torre e tem 8 km de extensão. A trilha tem um pouco de subida no início, depois segue plana até o encontro com a trilha do Fitz Roy. Novamente, pegamos o caminho de volta por esta a trilha, a única diferença que dessa vez na bifurcação optamos por seguir pela Laguna Capri. 

mini_20181221_161816.jpg.c798c8c4290a7de2016dd877d6f05ce5.jpg

Foto 13.51 - Laguna Hija

mini_20181221_162756.jpg.d1b12e9542209ce1ba8dddb6a89c38a9.jpg

Foto 13.52 - Laguna Hija

mini_20181221_164830.jpg.de4d17e898f7511fdd80c4634fd9f9ab.jpg

Foto 13.53 - Laguna Hija

mini_IMG_6057.JPG.ff282bbc16b1ef96640df9b0ea901adb.JPG

Foto 13.54 - Laguna Madre

mini_20181221_165947.jpg.1dad31b746765bab87e756bd59f7ce2a.jpg

Foto 13.55 - Vista do Fitz Roy da trilha Madre y Hija

Encerramos o dia caminhando mais de 30 km. Chegamos no camping, cozinhamos, calmamente, a nossa salvadora lentilha e nos demos direito de comprar um refrigerante para acompanhar o jantar. Antes de ir para El Chaltén fizemos uma compra no supermercado de El Calafate, pois havíamos lido que os mercados de El Chaltén eram caríssimos. Ao comprar o refrigerante neste dia, ficamos analisando os preços de El Chaltén, realmente, são mais caros, mas não tão mais caros que El Calafate ou Ushuaia (que já são caras). 

Hoje o dia seria mais tranquilo, pois resolvemos fazer trilhas mais curtas e mais próximas da cidade. Acordamos um pouco mais tarde. Tomamos café com calma. O dia estava nublado. No meio da manhã, partimos para entrada da cidade e entramos na trilhas dos Mirador de Los Condores e do Mirador de Las Águilas. Primeiro fomos na dos Condores, lá no topo o vento tava muito forte, tive que sentar e me segurar para não sair voando. Foi uma boa experiência estar a ponto de voar (risos). Tem-se uma bela visão área de El Chaltén do Mirador de Los Condores. Já no Mirador de Las Águilas o plano de fundo é o lago Viedma e a Ruta 23. Depois seguimos caminhando pela Ruta 23 até cansar.

mini_IMG_6073.JPG.ea3dbb264022391260d08d6736774fc3.JPG

Foto 13.56 - Mirador de Los Condores

mini_IMG_6087.JPG.1da39ca2b35f15b2344f0f2768779715.JPG

Foto 13.57 - Mirador de Las Águilas

mini_IMG_6092.JPG.9804dead9a8e6bb663552c7a8018ce89.JPG

Foto 13.58 - Mirador de Las Águilas 

mini_20181222_160659.jpg.12d818c04f54d23195e366b94b82f359.jpg

Foto 13.59 - Ruta 23

mini_IMG_6099.JPG.adf39aa2b83a87d6eff1943ebf75f573.JPG

Foto 13.60 - Ruta 23

mini_IMG_6117.JPG.85fd7ac05656e8c9be647a97f56e7a8b.JPG

Foto 13.61 - Eu na Ruta 23

De volta ao camping, encontramos o Bruno, o motoqueiro que havíamos conhecido em Ushuaia. Ele estava acompanhado da chilena Cláudia e do israelense Gal, eles haviam se conhecido em Torres Del Paine. Foi bom encontrar uma cara conhecida por ali. Até então, o camping estava dominado por franceses que não socializam muito e dominavam a cozinha como uma extensão de suas barracas.

Mais tarde, a Cláudia trouxe para visitar o camping o Hugo, o ciclista que conhecemos em Rio Gallegos. Nessas horas vemos como o mundo é pequeno. A Cláudia conhecia o Hugo de Ushuaia. Em Ushuaia conhecemos um casal de brasileiros, que viajavam de carro, que havia dado carona para o Hugo e sua bicicleta no trecho do Estreito de Magalhães até Rio Grande. A Cláudia sabendo da chegada do Hugo, trouxe ele para conhecer os brasileiros que estavam no mesmo camping que ela. Nos reconhecemos na hora. Sempre soube que reencontraria o Hugão nesta viagem, mas imaginava que seria na estrada. Foi bem bom rever aquele maluco.

No outro dia acordamos bem cedo, era o dia de fazer a trilha Loma Del Pliegue Tombado. São quase 25km contando ida e volta saindo de El Chaltén. A trilha começa na entrada/saída de El Chaltén pela Ruta 23, o início da trilha é o mesmo das trilhas para os mirantes dos Condores e das Águias. A trilha na ida é basicamente só subida, são três horas de subidas e mais subidas. No meio do caminho encontramos uma placa no mínimo esquisita, falando para tomar cuidado que ali era área de vacas selvagens. Eu na minha ignorância nem sabia que ainda existiam vacas selvagens.

O caminho é todo bonitão, passa-se por campos abertos, por zonas de mata fechada, muito verde pelo caminho. O tempo tava meio esquisito neste dia, quanto mais subia mais esquisito ficava. A chuva estava intermitente. Quando saímos da mata fechada e pegamos o trecho de montanha que dá acesso ao mirador do Pliegue Tombado a chuva veio de vez. O vento passou a ser forte também. Caminhar esses últimos dois quilômetros foi difícil. A subida é bem puxada, e cada pingo no rosto parecia uma pedrada. Quase no topo a chuva passou a ser de granizo. Granizo junto com o vento patagônico não é uma mistura legal, a sorte que as pedras eram pequenas. Agora, realmente tomando pedradas na cara percorremos os últimos metros até o Pliegue Tombado. Chegamos e nos escondemos atrás de uma pedra. Depois, mais três pessoas chegaram ali e ficamos os cinco encolhidos atrás da pedra. Não deu pra aproveitar muito o visual, pois estava frio, ventando forte e chovendo granizo. Ficamos lá um bom tempo na espera de melhores condições. Quando já não era mais uma boa ideia ficar ali, resolvemos começar a volta.

mini_20181223_091131.jpg.57d1213f3cfc4d7c2b085e8cb8887e88.jpg

Foto 13.62 - Matheus no início da trilha

mini_20181223_091816.jpg.c0ed56ac510c3bf67bc99762b1f4ad43.jpg

Foto 13.63 - Matheus e El Chaltén no fundo

mini_IMG_6143.JPG.c6466f30151c77d34316a57e1743762d.JPG

Foto 13.64 - Eu perto da placa de vacas selvagens

mini_IMG_6144.JPG.51bb2b93a49179b6f3b9fc96f399b37b.JPG

Foto 13.65 - Eu "quase" chegando no Pliegue Tombado

mini_20181223_105804.jpg.51711210b43e26989cd954735fa368cb.jpg

Foto 13.66 - Loma Del Pliegue Tombado

mini_IMG_6157.JPG.8f363de4e8cfc173818946d6edd7df01.JPG 

Foto 13.67 - Pouco vento, pouco frio

Quanto mais descíamos, mais suportável ia ficando o clima. Acho que essa trilha fica ainda melhor no sentido contrário, a paisagem consegue ser mais bonita. No trecho da montanha, tem-se uma visão lindíssima do Lago Viedma no fundo. Chegamos na mata fechada e já não chovia mais, aproveitamos para aprontar um café amargo e o almoço. Ficamos um bom tempo de bobeira ali depois de comer, descansando um pouco e aquecendo o corpo com o café quente. Seguimos a descida, a trilha na volta é muito tranquila, descida toda vida. Chegamos até correr em alguns trechos. O tempo ajudou na descida, tava aberto, mas só foi chegar em El Chaltén que a chuva chegou com tudo.

A cena engraçada da descida foi quando passamos pela placa de vacas selvagens, novamente. Na placa tem umas dicas de como agir caso elas ataquem, o Matheus ficou meio assustado com aqueles avisos. Assim, quando terminamos uma curva e demos de frente com uma vaca selvagem, o Matheus entrou em choque e saiu correndo (risos). A vaca era deboas, não esboçou nenhuma reação quando nos viu, eu passei por ela caminhando. Eu caguei de dar risada, o Matheus voltou para a trilha todo encabulado se justificando que a cena foi respeito a natureza (risos). 

mini_20181223_113230.jpg.f6c77a809c53e22c3f12334c1f4a7b4d.jpg

Foto 13.68 - Lago Viedma

mini_20181223_114747.jpg.c7818d12f2fb954fad8af1d63953d437.jpg

Foto 13.69 - Matheus encapuzado na descida

mini_20181223_130619.jpg.ea63e2212d3ebf228dc40db5434b2b78.jpg

Foto 13.70 - O caminho de volta

mini_20181223_133732.jpg.fc441444fdab4f1af2b8ae92174a134b.jpg

Foto 13.71 - Quase em El Chaltén

mini_IMG_6169.JPG.d54dbf858d0dfe7bac5448b5dfa82123.JPG

Foto 13.72 -  A pedra que não cai

Chegamos no camping ainda era meio da tarde. Bruno, Cláudia e o Gal estavam por lá também. Compramos umas cervejas e ficamos jogando Jenga. O Gal não parava de cantar Bum Bum Tam Tam, eu chorava de rir quando ele ficava em modo infinito cantando o refrão. Ele até alternava para outras músicas de funk que conhecia, mas sempre voltava para Bum Bum Tam Tam. Gal foi o primeiro israelense funkeiro que eu conheci, e o pior que ele leva mesmo jeito pra coisa (risos). Depois mostrei para ele a música que leva o nome dele, Meu nome é Gal. O mais legal era a amizade do Gal e do Bruno. Os dois não se comunicavam por uma língua comum, era tudo por gestos ou por músicas que um mostrava para o outro no youtube. Os dois se entendiam muito bem assim, onde um tava o outro também estava.

Pela noite chegou a Renata no camping. Ela tinha chegado neste dia em El Chaltén e estava hospedada num hostel. Ela é amiga do Matheus de longa data e foi passar a noite junto conosco. Entre cervejas, ficamos conversando a noite toda. Foi legal juntar quatro brasileiros e ficar falando somente em português, assim, deu para falar sobre tudo o que era assunto. Foi uma boa noite.

No nosso último dia em El Chaltén, que coincidentemente era véspera de Natal, resolvemos ficar de bobeira. No fim da manhã, a Renata nos chamou para acompanhá-la até os Miradores de Los Condores e de Las Águilas. Foi bem bacana caminhar com ela e conhecê-la um pouco mais. Renata é uma mulher de boa conversa e sorriso fácil, impossível não gostar dela. O dia estava bem bonito e o vento mais sossegado. Calmamente visitamos os dois mirantes. Depois caminhamos um pouco pela Ruta 23. Era uma reprise do nosso quarto dia na cidade, mas com a mais que boa companhia da Renata e com os condores no céu. 

mini_IMG_6179.JPG.c3fa0ce27e2def69ca226d9a1361cbcd.JPG

Foto 13.73 - Fitz Roy visto do Mirador de Los Condores

mini_IMG_6185.JPG.52a76bdfbd718759890d77be51da247a.JPG

Foto 13.74 - O trio: Eu, Renata e Matheus

mini_IMG_6192.JPG.ced62d1b19e06f5227ee329166738c27.JPG

Foto 13.75 - Renata no Mirador de Las Águlas

mini_20181224_142020.jpg.7b23861cb1034fe04e2d62218b78495d.jpg

Foto 13.76 - Renata e Matheus

mini_20181224_150000.jpg.8efa546883ea8279f16672806ca0c44c.jpg

Foto 13.77 - Ruta 23

Na volta passamos pelo mercado e compramos os ingredientes para nossa ceia de Natal. Depois passamos no Che Empanadas e comemos as melhores empanadas da viagem. O lugar é bem legal, todo decorado com a história do Che Guevara. A temporada de caminhadas havia se encerrado. A Renata seguiu para seu hostel e nós seguimos para o camping. Não havia mais ninguém acampado no La Torcida, além de nós e do Bruno. O pessoal que trabalha no camping já estavam arrumados para ir comemorar o Natal, me despedi deles e fui tomar banho.

mini_20181219_190840.jpg.acbcaef471e7fdb3eb03f2421bc01248.jpg

Foto 13.78 - Mensagem no muro de El Chaltén

A Renata e o Matheus começaram a preparar as carnes de hambúrguer, enquanto eu fui atrás das cervejas pra noite. O Bruno chegou no camping depois de fazer a trilha da Laguna De Los Tres. Ele se juntou a nossa ceia. A receita de hambúrguer da Renata tava boa demais, mas fizemos muita comida, acho que ao todo deu mais de vinte hambúrgueres. Ficamos toda a noite por ali, comendo, conversando, dando risadas e ouvindo música. O Gal surgiu no meio da noite e ficou um pouco conosco, ele não esqueceu de cantar Bum Bum Tam Tam. O Bruno seguiria de moto pela Ruta 40 no dia seguinte. A Renata ficaria mais alguns dias por El Chaltén. Eu e o Matheus no início da manhã seguiríamos para El Calafate e começaríamos nosso caminho de volta pela Ruta 3. 

1563879979_mini_WhatsAppImage2019-02-21at9_37_47AM.jpeg.jpeg.ae4a0a741f78287462129429d8be1798.jpeg

Foto 13.79 - Bruno, Matheus, Renata e Eu na ceia de Natal (foto feia demais, mas é o único registro da nossa noite)

Os dias em El Chaltén foram diferentes do restante dos dias de nossa viagem. Pela primeira vez, não éramos hóspedes e nem dependíamos de caronas, também não precisamos ficar pensando no próximo destino. Nos permitimos a aproveitar aquela incrível natureza com calma e sem preocupações. Com toda certeza, El Chaltén foi a cereja do bolo desta viagem. Ficar horas e horas caminhando naquelas trilhas, respirando aquele ar puro e bebendo água de degelo, acalma e infla qualquer coração. Isso tudo com o espetacular Fitz Roy de fundo. Afinal, tudo por lá é lindo. Não é nenhum exagero dizer que El Chaltén tem algo de mágico. Espero um dia ter a oportunidade de voltar para El Chaltén. Refazer o mesmo caminho que percorri para chegar aos pés do Fitz Roy. Eita! Vou usar o nome original, é melhor. Refazer o mesmo caminho que percorri para chegar aos pés do Cerro Chaltén. Quero sentir tudo que senti ao estar ali e perceber, novamente, que passado e futuro não existem. 

Postado
  • Membros
23 horas atrás, Diego Minatel disse:

Assim, quando terminamos uma curva e demos de frente com uma vaca selvagem, o Matheus entrou em choque e saiu correndo (risos). A vaca era deboas, não esboçou nenhuma reação quando nos viu, eu passei por ela caminhando. Eu caguei de dar risada, o Matheus voltou para a trilha todo encabulado se justificando que a cena foi respeito a natureza (risos). 

HAHAHAHAAHAH eu tive uma cena parecida, na mesma trilha.
Estava descendo conversando com um amigo que fiz durante a viagem, a gente tava no maior papo sério sobre pumas, quando de repente ele pega na minha mão assustado (quase me puxando para o chão), achando que tinha visto um urso (?), eu achei que era um puma e que ia ser devorada ali mesmo. Depois olhamos e era só uma vaca selvagem.

Resumindo: quase caímos no chão e ninguém mais conseguia parar de rir 😂😂

Postado
  • Autor
  • Membros
Em 08/03/2019 em 15:43, appriim disse:

HAHAHAHAAHAH eu tive uma cena parecida, na mesma trilha.
Estava descendo conversando com um amigo que fiz durante a viagem, a gente tava no maior papo sério sobre pumas, quando de repente ele pega na minha mão assustado (quase me puxando para o chão), achando que tinha visto um urso (?), eu achei que era um puma e que ia ser devorada ali mesmo. Depois olhamos e era só uma vaca selvagem.

Resumindo: quase caímos no chão e ninguém mais conseguia parar de rir 😂😂

Hahahahaha cê eh loko, imagina só dar de cara com um puma? Aquelas vacas selvagens pareceram deboas, mas a placa falando delas dá uma assustada até 😂😂😂😂

Postado
  • Autor
  • Membros

Parte 14 - A janela do ônibus

"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa

Agora dentro do ônibus, seriam dois dias de viagem até Buenos Aires. A viagem começou cedo naquela dia. Saindo de El Chaltén um misto de sentimentos tomava conta de mim. Cada minuto que se passava, eu ficava mais distante daquele lugar que para mim passou a ser o meu preferido no mundo. Já estava com saudades de ter sempre a companhia do Fitz Roy, mas tava feliz por começar a empreitada de volta para casa.

Tentei dormir, mas eu só conseguia olhar pela janela do ônibus. Com os olhos eu ia me despedindo de todos aqueles lugares. O ônibus acelerava na pista vazia, primeiro pela Ruta 23 e depois pela Ruta 40. A chuva começou a cair, a janela não mostrava mais nada. Assim, o sono me venceu. Acordei em El Calafate, ficamos pouco tempo na cidade. Só deu tempo de comprar algumas empanadas, comer e subir no ônibus para Rio Gallegos. Agora pela janela do ônibus via o caminho que percorremos pela noite dias antes. Ao passar pelo posto policial, veio a recordação dos momentos de tensão. Chegamos em Rio Gallegos no meio da tarde. Era Natal, a cidade estava vazia, aguardamos algumas horas e entramos no ônibus que nos levaria até Buenos Aires.

Rio Gallegos ficou para trás. O ônibus ia avançando pela Ruta 3 no sentido norte. Um filme de trás para frente ia passando pela janela do ônibus. Parecia que estávamos rebobinando a viagem. A conquista dos quilômetros sem suor e espera não tinha a mesma graça. Porém, o exercício de recordar todos momentos vividos e lembrar aquela obsessão por chegar, era bom demais. Pela janela do ônibus eu voltava no tempo, sentia aquele arrepio do desconhecido e de não saber onde estaria nos próximos cinco minutos. Agora, as incertezas da viagem faziam falta e as perguntas que sempre fazíamos um para o outro retornavam na memória: "Será que vamos nos dar bem com a pessoa que vai nos hospedar?", "Será que alguém vai nos dar carona hoje?", "Como vai ser a próxima pessoa que vai abrir a porta do carro?", "Onde vamos dormir hoje?", "Será que vamos conseguir?", "Vamos continuar aqui ou mais pra frente os motoristas nos veem melhor?", "Qual o plano B?", "Qual a próxima cidade que vamos parar?", "Conseguiu contato no couchsurfing?", "E se tentássemos outra abordagem de carona?", "Insistir ou desistir?". 

O ônibus saiu da Ruta 3 e seguiu pela Ruta 288 para pegar os passageiros em Puerto Santa Cruz. Na volta para a Ruta 3, ainda na Ruta 288, a noite batia na porta. Era umas dez da noite, o sol estava tocando o horizonte. A luz na planície patagônica alternava de cores, ora alaranjada, ora rosada. Lentamente, a luz ia desaparecendo e a vegetação brilhava num dourado chamuscante. Coisa linda de ver. Esse foi o último presente que a Patagônia nos ofereceu, nosso presente de Natal. Quando a luz desapareceu de vez, a chuva veio para ficar. 

Por toda a madrugada a chuva não parou. Amanhecemos em Comodoro Rivadavia. Quanto mais subíamos no mapa, mais intensa a chuva ficava. Era assustador estar naquela tempestade dentro do ônibus. Passamos por Trelew, avistei o ponto em que ficamos o dia todo na espera. Das coisas que eu mais tinha medo nessa viagem, acho que a maior era pegar uma tempestade patagônica no meio da pista pedindo carona, longe de tudo. Se era assustadora a tempestade dentro do ônibus, imagine na beira da pista. Muita coisa veio na cabeça nessa hora, fiquei pensando em como demos sorte em pegar tempo bom na maior parte do tempo, pensei também que era mesmo pra estarmos voltando de ônibus. A chuva não deu trégua em nenhum momento mais. Passamos por Puerto Madryn, Las Grutas, Viedma, Bahia Blanca e Tres Arroyos debaixo de muita água e ventos fortes. Pela janela do ônibus nada mais se via, apenas pingos de água escorrendo pelo vidro. Na madrugada, seguimos pela último trecho da Ruta 3 até Buenos Aires.  

Depois de dois dias de viagem, enfim, chegamos em Buenos Aires. Mais uma vez a Ruta 3 estava completa. Dessa vez sem esforço, de forma rápida e sem paradas. Nos fodemos pra caralho na ida, mas jamais trocaria as experiências vividas na ida pela comodidade da volta.

Postado
  • Autor
  • Membros

Parte 15 - O caminho de volta: Buenos Aires, São Miguel das Missões, Curitiba e Prainha Branca

""Isto eu já sei de cor e salteado”, gritava Úrsula. “É como se o tempo desse voltas sobre si mesmo e tivéssemos voltado ao princípio."" Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez

Da rodoviária do Retiro pegamos o metrô e depois o trem até Merlo, uma cidade da região metropolitana de Buenos Aires. Dessa vez, iriamos ficar na casa do Federico, o mesmo que arrumou nossa estadia em El Calafate. Chegamos no meio da tarde, fomos recebido pela Valeria, cunhada do Fede. Federico chegou no final da tarde trazendo faturas pra nós comermos. O dia estava ensolarado, aproveitamos pra ficar na piscina até o pôr do sol.

Federico é um cara muito gente boa e alto astral, ele é formado em educação física e trabalha, atualmente, com atividades físicas na educação especial. Ele é nascido em Rio Gallegos e fez a graduação em Cuba. Depois de morar em Cuba, ele nunca mais se acostumou com a gélida Rio Gallegos, e sempre que tinha tempo e dinheiro viajava para o nordeste brasileiro para encontrar calor e praia. Numa dessas viagens ele foi para Jericoacoara e ficou no hostel que o Matheus trabalhava. Ainda nessa viagem, ele conheceu a também argentina e gente boa Yanine, que estava hospedada no mesmo hostel, com quem ele começou a se relacionar. De volta na Argentina, eles ficaram fazendo a ponte área Rio Gallegos/Buenos Aires por muito tempo até o Fede decidir ir mora de vez com a Yanine em Buenos Aires, ou mais precisamente em Merlo.

Passamos dois dias na casa do Federico e da Yanine. Dessa vez tivemos a oportunidade de conhecer uma Buenos Aires longe dos pontos turísticos e de toda a muvuca, da qual gostei igualmente. Ficamos boa parte do nosso tempo apenas conversando com o casal e alguns de seus amigos, sempre em volta da piscina. Tomamos cerveja e pela primeira vez comi um asado argentino feito em casa. Federico manda muito bem no asado, me arrisco dizer que foi o melhor churrasco que já comi na vida. 

mini_IMG_6207.JPG.0d3d4cee5919653e35ee138a8cfbf857.JPG

Foto 15.1 - Federico, Yanine, Eu e o Matheus

"Hacen lo que tiene que hacer!" essa era a resposta do Fede para quase tudo, a resposta sempre era acompanhada de uma ironia. Se fosse sobre política ele dizia "Los gobernantes hacen lo que tiene que hacer" e complementava "Que es golpear la cara de los trabajadores". Quando o assunto era educação ele emendava "Los gobernantes hacen lo que tiene que hacer, que es jugar mierda en los professores". Numa de nossas andanças pelas redondezas, eu entendi o porquê da ironia, li num outdoor a propaganda do governo Macri que dizia mais ou menos assim:  "Haciendo lo que tiene que hacer". 

Fomos embora numa madrugada, os pais de Yanine passaram buscar ela e o Federico e aproveitaram para nos dar uma carona. Federico e Yanine tinham voo para a Colômbia naquele dia, eles iam passar o próximo mês nas aguas calientes do caribe colombiano. Primeiro fomos para o aeroporto, nos despedimos do Fede e da Yani, em seguida, fomos até a rodoviária do Retiro, onde nos despedimos dos pais da Yanine. Ficamos metade da madrugada aguardando o ônibus que nos levaria até Paso de Los Libres, fronteira com o Brasil.

Pouco lembro da viagem de Buenos Aires até Paso de Los Libres, dormi quase que a viagem inteira. Cruzar a fronteira foi interessante, sentia saudades de ouvir a todo momento nossa língua materna. Tentamos carona para atravessar a ponte que separa Argentina e Brasil para chegar em solo tupiniquim, mas sem sucesso. É proibido atravessar a ponte caminhando, mas estávamos tão perto, por que não caminhar mais dois quilômetros e chegar no Brasil? Já era fim de tarde, seguimos caminhando sobre o rio Uruguai, por um momento parei no parapeito da ponte e observei o pôr do sol no rio, lindo demais. Já em Uruguaiana continuamos a caminhada até a rodoviária. Dormimos na rodoviária, no nascer do sol pegamos um ônibus com destino a Santo Ângelo. Descemos do busão no trevo que conecta São Miguel das Missões, fomos caminhando, parte dos 15 km que separa o trevo e a cidade, até o Mário e a Karine virem ao nosso encontro. Que saudades que eu estava dos dois.

Ficamos três dias em São Miguel das Missões dessa vez, um tempo maior que da primeira vez. Passamos o dia 31 de dezembro com a família do Mário, conhecemos sua mãe, irmãos, sobrinhos e agregados, a casa estava lotada. Pela primeira vez, eu passava o último dia do ano com outra família sem ser a minha, isso foi muito legal e diferente pra mim. Nos enturmamos rapidamente com todos, passamos o dia bebendo, e observando a engenhosidade da família para assar um porco gigante. Eles usaram uma carcaça de uma geladeira como churrasqueira, a família toda junta para ver como era a melhor forma de prender o porco na churrasqueira improvisada. No fim da noite fomos até as Ruínas de São Miguel para ver a queima de fogos do ano novo que se anunciava. Nunca tinha presenciado uma queima de fogos como aquela, foi bem bonita de ser ver, ainda mais com a ruína de fundo e as estrelas brilhando no céu, cena linda.

mini_IMG_6273.JPG.dda3b84d44fdb1561f60d60d3bca52d9.JPG

Foto 15.2 - Na casa da mãe do Mário

mini_20190101_000041.jpg.da24741fea4913377bb0863daeaf3692.jpg

Foto 15.3 - Queima de fogos nas ruínas

mini_20190101_000638.jpg.674fd02954319306b8ff6f6d44b021e2.jpg

Foto 15.4 - Queima de fogos nas ruínas

mini_20190101_000647.jpg.06a2969d22fe7e8e7f96d7b688ed95c9.jpg

Foto 15.5 - Queima de fogos nas ruínas

Mudamos alguns de nossos planos para poder passar o ano novo com o Mário, Karine e o João. A memória do mês anterior em que fomos acolhidos de coração aberto por eles, ainda era muito viva em nossas mentes e também em nossas conversas. Assim, receber deles os primeiros abraços do ano foi muito especial para mim, tinha que ser assim. Além, de podermos ficar mais um pouco em suas companhias e conhecê-los ainda mais e mais.  

No início da manhã, do dia 2 de janeiro, pegamos o ônibus até Santo Ângelo e depois para Chapecó. Em uma das paradas do ônibus, paramos para almoçar num posto a beira pista. Fui cortar um sachê de mostarda com a boca, sei lá o que aconteceu, mas deu um tranco no meu maxilar e quando me dei conta vi que uma lasca do meu dente tinha se partido. Porra, fiquei triste demais, quebrar o dente com um sachê, burrice além da conta. Agora de dente quebrado continuamos viagem até Chapecó. 

Chapecó é uma cidade muito especial para mim. Anos atrás, participei do Projeto Rondon pelo interior do Maranhão e metade da equipe era da UnoChapecó, Universidade Comunitária de Chapecó. Fiquei muito amigo do pessoal e, vira e mexe, vou pra Chapecó rever a galera que ainda mora por lá. Para o Matheus seria a primeira vez na cidade. 

Chegamos em Chapecó e o Mauricy foi ao nosso encontro. Iríamos ficar na casa dele, onde ele mora com sua namorada Ângela. Sou meio suspeito para falar do Mauri, pois é meu amigo e uma pessoa de quem eu gosto muito, mas, resumidamente, ele é um cara firmeza demais, assim como a Ângela. Chegamos na casa deles, encontramos a Ângela e fomos para um bar. No bar fomos ao encontro da Samara, minha amiga e que também foi integrante do Projeto Rondon. Ficamos boa parte da noite relembrando os causos do projeto, isso foi muito bom, ao menos pra mim que tenho muitas saudades daqueles dias. Em alguma parte da noite, o assunto descambou para pratos típicos de cada região, e assim, conheci o porco pizza. Porco pizza é um porco que é assado todo aberto e por cima recheia-se como se fosse massa de pizza, enfim, deve ficar uma "patchotcheira", mas eles disseram que é muito bom.  O resto da noite o assunto foi o porco pizza, que por sinal é um bom nome.

mini_IMG-20190103-WA0003.jpg.c42b710d1f72448d6d005e67a764498c.jpg

Foto 15.6 - Eu, Samara, Matheus, Ângela e Mauricy

No outro dia, eu, Mauricy e o Matheus partimos para fazer a trilha do Pitoco logo de manhã. A trilha tem esse nome porque o cachorro Pitoco acompanhava as pessoas que percorriam essa trilha. A trilha é bem bacana, cheia de verde e tem cinco cachoeiras ao todo. Até a segunda cachoeira o caminho é bem tranquilo, depois fica um pouco mais complicado, mas nada muito difícil. Pegamos chuva em boa parte da caminhada, o que dificultou um pouco, cheguei até tomar um capote. Embora estivesse chovendo, o calor era intenso, então mergulhar naquelas águas era uma obrigação.  

mini_IMG_6276.JPG.d6dbb5c61fefd3fb1ec6961ced956321.JPG

Foto 15.7 - Trilha do Pitoco

mini_20190103_123822.jpg.2f944bc11918e67c4ec26e043cc14b31.jpg

Foto 15.8 - Mauri na cachoeira

mini_20190103_145207.jpg.adfb3199ff4247a1cff10499dc56ac11.jpg

Foto 15.9 - Trilha do Pitoco

mini_IMG_6288.JPG.22da70d618afb22152db9f749d95d67b.JPG

Foto 15.10 - Matheus, Mauri e Eu em uma das cachoeiras da trilha do Pitoco

Voltamos para o centro da cidade já era fim de tarde, mas aproveitamos para visitar o estádio da Chapecoense. Eu não voltei para Chapecó depois da tragédia que ocorreu com a equipe de futebol, mas sabia que uma das vítimas deste acidente era o Giba, primo do Mauricy e ex-assessor de imprensa da Chapecoense. Na hora, eu não sabia se eu devia entrar nesse assunto com o Mauri ou não, pois ele era muito próximo desse primo, mas o assunto surgiu naturalmente. Foi muito legal ouvir a versão do Mauricy sobre o pós acidente, e sobre a marca deixada na cidade e, principalmente, em sua família.  

mini_20190103_165044.jpg.f90aad278424295083f676c0bf18a6bc.jpg

Foto 15.11 - Muro com as vítimas do voo da Chapecoense (o primo do Mauri, o Giba, é o segundo da esquerda para a direita)

mini_20190103_165655.jpg.79f18f637035a03bd98fea163d213fc5.jpg

Foto 15.11 - Estádio da Chapecoense

mini_IMG_6296.JPG.5c26c3a2bfa48572b37882e649cdc044.JPG

Foto 15.12 - Estádio da Chapecoense

Pela noite, juntou-se a nós a Samara e a Ângela. Mais uma vez, ficamos conversando, mas dessa vez já em tom de despedida. Comemos umas pizzas, e no fim da noite o Mauricy nos levou até a rodoviária, iríamos pegar um ônibus noturno para Curitiba. Foi bem rápida a passagem por Chapecó, mas muito boa, afinal foi bem bom rever o Mauri e a Samara, e conhecer um pouco mais da Ângela.   

Eu fiquei dois dias em Curitiba, ficamos hospedados na casa do casal rondoniense André e Priscila. Eles trabalharam junto com o Matheus na época que o mesmo vivia em Curitiba. Os dois são simpatia pura, gostei demais de conhecê-los. No primeiro dia, fomos até a Ópera de Arame e no Parque Tanguá, dois dos lugares que eu não conhecia na cidade. O mais legal ficou para o outro dia, fomos sentido Morretes e fizemos churrasco numa área perto de uma cachoeira, isso debaixo de chuva. O churrasco contou com a presença de mais uma rondoniense, a Samara. Foi bem bom o churrasco, André, Priscila e Samara são divertidos demais.

No fim da noite, André e Priscila nos levaram para rodoviária. A Samara seguiria para uma viagem de dois dias até Vilhena em Rondônia, e eu iria até São Paulo rever alguns amigos. O Matheus ficou por Curitiba, iria aproveitar mais a cidade e rever outros amigos, além de passar mais tempo na companhia do André e Priscila. Eu estava sonolento, mal consegui me despedir do Matheus, André, Priscila e da Samara. Entrei no ônibus e desmaiei.

mini_20190104_111535.jpg.4850695b43fd593d6323e78283801603.jpg

Foto 15.13 - Ópera de Arame

 mini_20190104_111553.jpg.5664041b2f100a9f884c621fbf6c5c7f.jpg

Foto 15.14 - Ópera de Arame

mini_20190104_112542.jpg.cd3bc97d2e1f6d37454d443b5208cd62.jpg

Foto 15.15 - Palco barco na Ópera de Arame

mini_20190104_123048.jpg.2ad0bfb5e23763e42ce169c30c926416.jpg

Foto 15.16 - Parque Tanguá

mini_20190104_131037.jpg.b68cdb64c7f34a06bd5ea0ed286bdfad.jpg

Foto 15.17 - Parque Tanguá

mini_49795507_2072315272844691_8809723994275053568_n.jpg.f80758caa3baa3852e676ddf366eff04.jpg

Foto 15.18 - André, Matheus e a Priscila

Voltando ao primeiro dia em Curitiba. Na Ópera de Arame, fiquei por muito tempo observando e ouvindo o cara que tava se apresentando no palco barco. Ele tocava MPB em geral, era somente violão, nada mais. Quando ele começou a tocar a música Carinhoso do Pixinguinha, ai as lembranças me assolaram. Conforme, a viagem foi se desenrolando em seu ritmo frenético, pouco tempo eu tinha para pensar nas coisas que ocorreram antes da viagem, e me esforçava para não pensar nisso nos momentos de introspecção. Mas com aquela música de fundo, era impossível se auto sabotar e não pensar em nada, não tinha como, as lembranças vieram com força. Minha vó adorava cantar, sempre que eu ia na casa dela ficávamos a tarde toda cantando. A música que ela mais gostava de cantar era Carinhoso. Lembro que no aniversário de 80 anos dela, ela cantou essa música na frente de todos e toda a família acompanhou-a como um coral, foi bem bacana esse momento. E agora ali, na Ópera de Arame, ouvindo esse som depois de muito tempo, as recordações vieram a tona junto com um sentimento de tristeza. Enfim, neste momento percebi que a viagem estava acabando e que apesar de toda essa viagem foda, o passado ainda estava mal resolvido na minha cabeça.   

Em Sampa, como em todos os meus finais de viagens, sai tomar umas cervejas com a Fernanda, amiga de todas as horas. Passamos o dia caminhando pela Avenida Paulista até estacionarmos num bar para tomarmos umas brejas e colocar a conversa em dia. Depois segui para a casa de outra amiga, a Isa, quando morei em São Paulo moramos na mesma república, na qual eu teria um canto pra dormir nesse dia. No dia seguinte, eu e a Isa pegamos um trem até Mogi das Cruzes, depois entramos numa van com destino a Bertioga. Chegamos em Bertioga e atravessamos de balsa para o Guarujá, entramos na trilha para a Prainha Branca. Creio que caminhamos por um pouco mais de meia hora até, enfim, chegar na praia.

Prainha Branca foi um lugar que me surpreendeu positivamente. A praia é bem limpa, bonita, rodeada por uma natureza ímpar, preço justo e sem muita muvuca, ao menos pela manhã e de noite. Ficamos pouco tempo, dois dias e uma noite, mas foi o suficiente para matar a vontade que eu estava de estar numa praia em que eu pudesse mergulhar em suas águas sem morrer de hipotermia. Demos sorte, pois pegamos muito sol. A noite por lá é bem legal, só fica a galera que está acampando na praia, então é bem tranquilo. 

mini_20190108_090324.jpg.ea65e4aa26b2d336af797ac75fef9c39.jpg

Foto 15.19 - Prainha Branca

mini_20190108_090422.jpg.a8575931eec3c44ec6fd469ecc249fb6.jpg

Foto 15.20 - Prainha Branca

mini_20190108_105519.jpg.47010192424cbfff6267be1ac81023ab.jpg

Foto 15.21 - Prainha Branca

Voltamos para Sampa, peguei minhas coisas, me despedi da Isa e segui rumo a rodoviária. Com a passagem na mão, destino Rio Claro, deitei junto ao portão de embarque para aguardar o ônibus. Nessa hora, a ficha do fim da viagem caiu de vez. Acho que esse momento, foi o de maior frio na barriga de toda a viagem. Agora, as perguntas eram muitas dentro da minha cabeça, e eu não tinha nenhuma resposta. Enfim, era a hora de voltar pra casa.

Postado
  • Autor
  • Membros
  • Este é um post popular.

Parte 16 - Reflexões

"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara." Livro dos Abraços, Eduardo Galeano

Nessa última parte do relato quero deixar algumas reflexões, pensamentos, partes desconexas desta viagem e os últimos agradecimentos. Bora terminar este relato.

*          *          *

Quando iniciei este relato comentei sobre as coisas que haviam acontecido comigo antes desta viagem iniciar-se. Não quis de forma alguma me vitimizar, poderia ter ocultado essa parte, mas quase todos os acontecimentos desta viagem, de certa forma, foram influenciados por estes acontecimentos. Então, quis ser o mais honesto possível e mostrar, de maneira natural, como desenrola uma viagem deste tipo. Enfim, nem tudo são flores.

Para mim foi uma novidade viajar com meu estado de espírito debilitado. Em todos meus outros mochilões, sempre iniciei-os com um tesão imenso por tudo o que haveria de vir. No início foi complicado, mas a estrada é sempre uma boa companheira. Na verdade a vida na estrada é tão maluca, que ela nem te deixa pensar direito, se você não se jogar por completo ela te engole. Por isso, ter escolhido um ponto de chegada tão longe, como Ushuaia, foi mais do que um acerto. Deu tempo de começar em um ritmo mais lento e depois ir acelerando, conforme as coisas iam se desenrolando. No fim, deu tudo certo.

A única coisa a mais que vale comentar sobre esse assunto, é que você viaja e deixa os problemas para depois, quando voltar eles continuarão no mesmo lugar. Comigo não foi diferente, ao voltar pra casa parecia que eu estava vivendo o dia depois da minha partida, parecia que nada tinha mudado. 

*          *          *

Sempre fui muito orgulhoso, pois sempre achei que não precisava de ajuda para nada. Por um lado eu odiava ser ajudado, do outro lado a coisa que eu mais adorava fazer era ajudar o próximo. Como poderia existir tal contradição? Não sei ao certo. Agora você deve estar se perguntando: Mas que porra isso tem haver com as viagens? No meu caso tem tudo haver. 

Quando sai em meu primeiro mochilão, eu só pensava em explorar e conhecer novos lugares, e me divertir. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes: o dinheiro, cada lugar a visitar, os dias em cada lugar, os equipamentos necessários. Confesso que foi um bom plano e quase tudo saiu conforme o planejado. Porém, os melhores acontecimentos foram frutos do que não estava idealizado previamente. 

Portanto, no meu segundo mochilão decidi não ter planos, queria viajar como um barco a deriva e ir aonde o vento me levasse, isso com pouco dinheiro. A ideia era caminhar por todo o Brasil e conhecê-lo de forma mais autêntica e verdadeira, tinha em mente alguns lugares que tinha vontade de conhecer, mas como conectaria esse lugares, quantos dias ficaria ou até mesmo o que faria em cada lugar, não tinha ideia de como seria. Apenas fui, mas sabia que desse jeito eu me colocaria em diversas situações de desconforto, onde, invariavelmente, eu necessitaria de todo o tipo de ajuda possível. Era eu contra o meu orgulho. Foram meses e meses caminhando pelo nosso país, e quanto mais eu caminhava mais eu me aproximava do que eu queria ser. Nesse momento, eu me fiz uma pergunta que mudou para sempre minha forma de pensar, a pergunta foi a seguinte: Se ajudar o próximo me faz bem, então se uma pessoa se dispõe a me ajudar, tal pessoa estará fazendo um bem pra si também, consequentemente, ao aceitar essa ajuda eu também estarei ajudando-a? (Só para deixar claro, quando falo de ajuda me refiro aquela ajuda espontânea.) A princípio pode soar egoísta fazer essa pergunta, mas não vejo dessa forma, e falando pelas minhas experiências a resposta para essa pergunta: é sim, você estará ajudando essa pessoa de certa forma. Esse é o ponto principal para mim, o ponto de inflexão nas minhas viagens.

A partir daí, ficou mais natural para mim viajar dessa forma. Não mais me sentia um estorvo quando estava hospedado pelo couchsurfing ou quando acampava no quintal de alguém ou mesmo quando recebia caronas, apenas aceitava que tudo aquilo era recíproco, como eu queria estar ali a pessoa também queria que eu estivesse por ali também. Assim, fui acumulando as melhores experiências possíveis. Consegui aliar o meu interesse social, o de vivenciar realmente o lugar através dos nativos, de sua cultura, de aprender com aquela experiência e de alguma forma somar, com o prazer de viajar.

*          *          *

Viajar sem muita grana envolve a abdicação de muitas coisas. No nosso caso, deixamos de experimentar os principais pratos de cada lugar, cozinhamos a maior parte do tempo e sempre comprando o que havia de mais barato no mercado. Assim, comemos bastante carne processada e afins, tive que interromper uma dieta vegetariana que há algum tempo tentava manter. Outra coisa, é que deixamos de fazer alguns dos principais rolês por causa dos custos, então, numa viagem dessas não se pode pensar muito no que se deixou para trás, mas sim agradecer o que foi possível conhecer. 

*          *          *

Sobre a Patagônia, tenho duas palavras para dizer: só vai.  

*          *          *

Hoje, depois de dois meses do meu retorno, ainda não consegui processar tudo o que me aconteceu nesses quase dois meses de viagem. Nem tenho pressa disso acontecer, pra falar a verdade ainda não digeri tudo que me ocorreu no mochilão que fiz pelo Brasil a três anos atrás. Acho que esse tipo de coisa vai ocorrendo com calma, te transformando aos pouquinhos. A única coisa que eu tenho certeza é da gratidão que eu sinto por cada pessoa que cruzou o meu caminho nesses dias.

Nesse sentido, reescrever a viagem, através de palavras, me fez reviver cada momento, lembrar de todas essas pessoas e verificar por outro ângulo os acontecimentos. É trabalhoso fazer o relato, mas é prazeroso ao mesmo tempo. Quando iniciava a escrita de uma nova parte do relato, todas as pessoas que fizeram parte daqueles momentos me faziam companhia, dava para matar um tiquinho da saudade, e quando eu terminava era como se fosse uma segunda despedida.

Enfim, foi animal poder ter tido essa oportunidade de conhecer um pouco mais do nosso Brasil e de nossa América do Sul, me sinto honrado em poder vivenciar e compartilhar esses dias nas estrada com meu irmão Matheus. Aos ventos agradeço por ter colocado em meu caminho somente as melhores pessoas de cada lugar. Não sei se merecia tanto, mas valeu por mais essa.   

*          *          *

Por fim, queria agradecer uma última vez a todas as pessoas que cruzaram o meu caminho e do Matheus nessa viagem, sem vocês nada disso teria acontecido. Também quero agradecer a você que teve paciência de ler este longo relato, espero que eu tenha contribuído contigo de alguma forma. Caso tiver alguma dúvida sobre qualquer coisa deste relato ou quiser conversar sobre viagens e afins, é só entrar em contato comigo.    

A todos vocês agradeço de coração, muito obrigado! Espero que tenham muita vida nessa vida.

Forte abraço e nos vemos pela estrada!

Com carinho,

Diego Minatel

Participe da conversa

Você pode postar agora e se cadastrar mais tarde. Se você tem uma conta, faça o login para postar com sua conta.

Visitante
Responder

Conteúdo Similar

Account

Navigation

Pesquisar

Pesquisar

Configure browser push notifications

Chrome (Android)
  1. Tap the lock icon next to the address bar.
  2. Tap Permissions → Notifications.
  3. Adjust your preference.
Chrome (Desktop)
  1. Click the padlock icon in the address bar.
  2. Select Site settings.
  3. Find Notifications and adjust your preference.